
- Isso era o que eu temia, depois de dois anos com Dolores Sierra viciou em espanholas, olhem, imagine a mulher de saia, essa escultura, aumente aí... olhos verdes... -, disse Marquito Açafrão pedindo à Leila para expandir as fotografias.
- Nega tem até na Alemanha, vai saber onde achou, basta lembrar a outra, espanhola de nascimento, na verdade alemoa - disse Silvana Maresia, com a concordância de Jussara e Jezebel, que apostaram em alemoa no buquimequi sobre a etnia da próxima namorada do Luciano, que quando rompeu com Dolores de Barcelona saiu porta afora dizendo que ia sumir do mapa.
Pedindo perdão aos trilhões de leitores explicamos novamente: não é possível publicar a foto, que é linda, o pôr-do-sol, a negra de olhos verdes, feliz, o sorriso do Luciano, o garçom alegre elevando uma taça, as bebidinhas, o imenso mar azul logo atrás, o Atlântico em seu melhor momento, como escreveu no recado... pela simples razão de que o nome, que chamamos de sobrenome, do Luciano não é peregrino. Peregrino é apelido, por passar a vida peregrinando pelas camas das mulheres dos políticos e "grandes" empresários, essa gente que não trepa e descarrega as energias prejudicando seus semelhantes, roubar é o meio que têm de despejar o leite retido, na tentativa de compensar a falta de amor sincero, nunca ajudam a ninguém sem descontar do imposto de renda. E são vingativos, se declinássemos o nome verdadeiro do companheiro o colocaríamos em perigo. Ufa, tem que explicar tudo.
- Com aquele pretume e o nome de Luena acho difícil ser alemoa - disse o negão Chupim da Tristeza, ao que sua mulher Zilá riu.
- Pára tudo. Vocês olharam para a negra? Olhem de novo. O brilho dos olhos. Depois olhem a cara dele, o brilho... Acho que desta vez se enforca - disse Lorildo de Guajuviras.
- Tomara, ninguém aguenta mais, o loco só deixa a gente nervosa, sinto medo de políticos, gente muito ruim... Tomara que se acerte, pela cara ela é gente fina - desabafou Jezebel.
- Quem vê cara não vê coração, vai saber, vai que seja divorciada com cinco filhos, o Luciano é campeão em arranjar bronca assim, não pode ver china no cio, bonita, que se aprochega - lembrou Wilson Schu.
- Queria saber de onde o Luciano tirou grana para ir para essa maravilha de praia, sai os olhos da cara, antes de desaparecer ele disse que estava falido - lembrou Tigran Gdanski, o famoso Mão de Vaca.
Os boêmios trocaram impressões por longo tempo, foi o assunto do ano. Mas ao fim se conformaram, o Bruno Contralouco ganhou o buquimequi, este que estava quietinho, mas que acabou reclamando que mais seis foram por ele, não mereciam a grana.
A Luena é angolana. De Lubango. Eta mundinho pequeno: da terra do nosso Miquirina Segundo, ex-guerrilheiro, sobrevivente e aqui afamiliado.
Entra no boteco o Clóvis Baixo cantando alto: "Fui comer uma nega lá em Barrafunda, atraquei nas coxas e saiu na bunda...". A doutora Jezebel do Cpers arregala os olhos e o interrompe, exclamando: - Mas tu não bate bem, Baixo! Bagaceira, não vê que tem pessoas estranhas lá no fundo, um casal de namorados!".
Clóvis sorri e diz: - Ah, tá, desculpe, linda senhora, ainda bem que o moço nem achou graça...
O rapaz da mesa do fundo se finava de rir, a menina ria de cabeça abaixada. Só o jeito do Baixo já dá vontade de rir.
Alguém assovia comprido lá fora e o Contralouco sai em disparada, quase derrubando a porta do botequim. O pessoal fica alarmado. Gustavo Moscão sai atrás.
Voltam em cinco minutos. Gustavo diz: - Não era nada, o Negrote se enganou.
Negrote é o velhinho sem teto que cuida as costas do Contra, e avisa quando algum inimigo pinta no Beco do Oitavo.
Pelo rosto a turma sente a decepção do Contralouco. Ele toma meio liso de losninha, a dyabla, depois suspira, botando a raiva para fora, e diz: - O Negrote está muito velho, agora deu de se enganar!
O assovio aquele, fininho e longo, é para o caso de aparecer um pastor de religião de tomar grana dos coitados ou um gerente de banco. Compreende-se a decepção do Bruno Contralouco, que já quebrou a cara de uns cem desses. Não podemos nos meter em assuntos que outros homens resolvem, mas, cá entre nós, é um absurdo proibir pessoas como o Feliciano Galinha Louca ou o senhor gerente do Itaú de transitar pela via, que é pública. Bem, proibir o Contralouco nunca proibiu, mas eles que aguentem, ah, deixa para lá, não é da nossa conta.
E com essa o Contra saiu da mesa. Abaixo do balcão do bar pegou uma sacola grande. Foi para uma mesa do fundo, longe dos boêmios que estavam com cinco mesas juntas, e abriu, tirando um monte de cordas. E ficou lá, quieto, fazendo e desfazendo nós.
Anteontem Aristarco de Serraria, como aqui se disse, propôs enforcar nobres juízes e parlamentares, após ou junto à destruição do Conúbio Nacional em Brasília. O enforcamento sobrou para o Contra, que se escalou como verdugo. Boêmios em bar falam tudo de brincadeira, sei lá, bebem, ninguém lembrava mais do assunto.
O tadinho se pôs a treinar, um nó para o salão verde, a depender dos móveis, outro para o banheiro, outro para o senhor aquele do salão Alagoas, outro se for preciso no corredor. Cada nó tem que ser perfeito, para não judiar. E não parava de sair corda da sacola.
A turma seguiu de papo, bebidas, Jezebel cantou um samba, ai Agora é Cinza, tudo acabado e nada mais. O menino Mateus do Pinho solou Aio-iô, cantando baixinho ...eu nasci pra sofrer, foi oiá pra você, meu zoinho, fechou, iiiiiii, quando o zóio eu abri... quis gritar, quis fugir...
Aplausos.
Até que entra no botequim o diretor jurídico do Partido dos Boêmios, Carlinhos Adeva, e vê o Contralouco lá no fundo, sozinho, naquela enrolação, diz:
- Bah, meu, essa aí já vi em filme.
O Contra levanta os olhos, inocente, e responde com doçura na voz:
- Já tou bom em nó, meu Carlinhos, faço o carioca, o de âncora, cadeirinha de bombeiro, catau, boca de lobo e mais um monte, só não sei o górdio, mas este ninguém sabe. Mas o quente é este, o de forca, olhe, sete voltas em torno da própria corda, é humanitário, indolor, na queda o nó gira para cima e adeus à nuca do bandido, é para a praça pública. Com este vou pegar os grandudos. Os políticos e juízes me darão muito prazer, mas quero mesmo é pegar os donos de banco.
Os vinte boêmios e boêmias riem com espalhafato. Carlinhos, o deus que o protege em processos e em esclarecimentos em delegacias, fica parado vendo as mãos do Bruno se agitarem nas cordas grossas, fazendo e desmanchando o nó para a praça, as cordas dançando em velocidade.
- Carlinhos, o primeiro vai ser o Gilmar.
Gilmar é um quadrilheiro do Mato Grosso que se instalou na Cidade Baixa, comete um crime atrás do outro, a polícia o protege.
Riem todos, mas Carlinhos não ri. Num dia o Contralouco tem 90 anos, no outro parece ter 12, o problema é que tem dias em que ninguém sabe com que idade está, também não se sabe quando brinca ou fala sério.
Mas, por amá-lo, Carlinhos conhece os perigos que rondam os seus olhos castanhos.
João da Noite, o Conciliador, futuro prefeito de Porto Alegre, faz falta.
(...)
*
.