MORTE LENTA
Ninguém morre de repente. / Quando dizem que Fulano / faleceu subitamente, /
morreu estupidamente, / é engano, / é puro engano!
Pode ser que a ave ferida / ou a árvore abatida / ou a casa demolida / ou
outras coisas assim / deixem de súbito a vida / (vida ou coisa parecida), /
achando um súbito fim.
Mas quanto aos seres humanos, / nenhum morre de repente. / É um processo
inteligente, / lentamente, lentamente, / Leva meses, leva anos.
Leva o tempo em que a viúva / faz a presença do ausente. / A saudade permanente
/ é um longo dia de chuva. / Lembramos diariamente / o bar que ele freqüentava
/ os cigarros que fumava, / as coisas que planejava. / Tudo aquilo que era dele
/ volta à baila noite e dia. / O mundo ficou sem ele / como uma casa vazia. /
As canções que ele cantava! / As piadas que dizia!
Passam anos...Cinco...Sete... / Quem ainda se lembrava? / O bar que ele
freqüentava / virou uma lanchonete.
As canções que ele cantava / são do tempo do Chalaça. / As piadas que contava /
hoje não teriam graça. / O mundo se modifica. / Os cigarros que fumava / Nem a
fábrica fabrica. / A viúva, conservada, / Está de novo casada, / E dizem que
ficou rica.
Agora sim, falecido! / Agora sim, faleceu! / Anos após ter morrido, / Só – de
todos esquecido – / Depois que tudo o esqueceu!
Ninguém morre de repente. / Quando dizem que Fulano / faleceu subitamente, /
morreu estupidamente, / é engano, / é puro engano. / Gente morre lentamente, /
lenta e dolorosamente, / dia a dia, ano após ano!
Giuseppe Artidoro Ghiaroni ((Paraíba do Sul, RJ, 22/2/1919 - Rio de Janeiro,
21/2/2008).
