jueves, 11 de octubre de 2012

Ressaca - Lúcio Cardim

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Outro dia lembramos (Aqui) o grande compositor e cantor Lúcio Cardim Filho (Santos, SP, 7/6/1932 - São Paulo, SP, 3/6/1982). O boêmio que era abstêmio, ainda hoje um dos maiores injustiçados pela memória nacional, ao ponto de um de seus maiores sucessos, Matriz ou Filial, volta e meia ser atribuído a Lupicínio Rodrigues. Aliás, Lupi sempre destacava o nome de Lúcio, dizendo que gostaria muito de ter composto Matriz ou Filial e Eta dor de cotovelo.

Hoje o trazemos com outro de seus muitos clássicos: Ressaca, que uma alma sensível dispôs na rede.

Um amargo sorriso, n'A Charge do Dias

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O ministro Levandowski começa a sua arenga pela TV Justiça. Marquito Açafrão se levanta e desliga a tevê, soltando um impropério entredentes.

- Isso, Marquito, vem pra cá, esse vai absolver todo mundo, diz Walter Schiru, abrindo a caixa de dominó.

Os que estão com seus livros retomam a leitura, Tigran volta ao seu jornal de Warszawa. Com a ausência do Contralouco, que está sobrecarregado na gráfica, reina tranquilidade no botequim.

Lúcio Peregrino avisa que está procurando na internet o game Batalha do Mensalão, no qual Joaquim Barbosa tenta atingir os mensaleiros; ele quer dar um tiro no Lula, vale mil pontos. Mr. Hyde ruge lá do fundo: "Siga sou!". Logo o bar inteiro se escala, todos querem dar o seu tirinho.

Leilinha Ferro tira a poeira da moldura da foto do Inter, na parede do bar, com a vitória sobre o Galo a esperança voltou: rumo à Libertadores.

Depois de um tempo, Clóvis Baixo não aguenta e liga a tevê em baixo volume, lembrou da partida de Brasil x Iraque. Todo mundo protesta.

- Ora, Iraque, não é páreo nem pros juvenis do Caxias, aqueles vadios da CBF não tem mesmo vergonha na cara, e a maldita imprensa vai dizer que agora vai, na certa haverá goleada, diz Mr. Hyde.

Ao mudar de canal Clóvis passa pela Justiça e se depara com o ministro Marco Aurélio. Olhem - alerta -, tá descendo o pau: houve ocultação, sim, de dinheiro, por parte de quem recebeu".

Pronto, aumenta o volume e os boêmios voltam a torcer para que os bandidos sejam condenados pelo crimes que cometeram, como reclamam suas almas de homens que nunca transgrediram a lei. Jezebel, Jussara e Gustavo entram no bar e se unem à plateia.

- Tu entendeu tudo errado, Clóvis, ele está indo pelo lado do Levandowski, está discutindo o sexo dos anjos, o significado de "ocultar" na Lei de Lavagem. Se aquilo que Paulo Rocha, Anderson Adauto e João Magno fizeram não é lavagem, então rasgo meu diploma, diz Carlinhos Adeva, o advogado da turma.

Desligam a tevê novamente, voltando aos seus afazeres. As professoras Jezebel e Jussara, sob o olhar complacente de Gustavo Moscão, ficam falando mal do governador na mesa da janela.

Nicolau Gaiola entra no bar reclamando do dia cinzento, parece final de outono, Porto Alegre é uma cidade louca, diz. Pede uma cerveja. Até ali estão todos na água mineral.

Leila Ferro pergunta se podem antecipar a escolha das charges. Podem, sim. Reúnem-se nas mesas do centro.

Ficaram com o Cláudio, do Agora S. Paulo (São Paulo, SP).




E com o Amâncio, de O Jornal de Hoje (Natal, RN).




Leila Ferro escolheu a do Luscar.


João da Noite, depois de muito tempo sem aparecer, adentra no recinto. Todos acorrem em abraços de boas-vindas, saudosos do futuro prefeito da cidade. Passados os afagos, Leilinha trata de lhe ceder o direito a escolha de uma obra, como forma de homenagem. O famoso boêmio pára na obra do Tiago Recchia, da Gazeta do Povo (Curitiba, PR), com um amargo sorriso nos lábios.













miércoles, 10 de octubre de 2012

Gatos e ratos, n'A Charge do Dias

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Lúcio repassa as notícias no botequim.

Olhem esta: O jornalista Flávio Tavares, companheiro de exílio do ex-ministro José Dirceu durante a ditadura militar, elogia a sua coragem: "O Dirceu deve aparecer como o cabeça do mensalão, ele era um subordinado ao presidente da República. Corajosamente resolveu o problema do Lula, porque o Lula pensava até em renunciar. O chefe político de tudo isso, se houve, é o presidente da República. Por que o sargento vai comandar a tropa? Ele comanda quando as ordens vêm do capitão. O capitão dá as ordens que recebe do general. Assim por diante, uma cadeia de comando".

Outra: O deputado federal gaúcho Paulo Ferreira, que estava no diretório nacional hoje lambendo o José Dirceu, diz que a condenação de Genoíno e Dirceu foi profundamente injusta. 

- E sobre o Delúbio, ele falou algo? - pergunta Marquito Açafrão.

- Nem um pio, esse foi escalado para ser o boi de piranha, para todos os efeitos bolou tudo sozinho, responde Lúcio.

- Esses caras pensam que alguém é idiota. Pode pular essa parte das notícias?, chega de mensalão, agora é esperar a condenação por formação de quadrilha e depois a cadeia. Esperavam que esse sujeitinho dissesse o quê?, reclama Clóvis Baixo.

- Bem, o Inter vai muito desfalcado contra o Atlético, mas eles não terão o Ronaldinho.

- Vou torcer pro Atlético, aqui ó que vou ajudar o Grêmio, diz Gustavo Moscão.

- A turma do PT quer dar um fim na CPI do Cachoeira, temem que os 700 milhões que a Delta deu para empresas fantasmas acabem estourando no colo da governo. Alguns senadores não concordam, insistem em ir até o fim, entre eles Pedro Taques (PDT-MT), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Eduardo Suplicy (PT-SP), Álvaro Dias (PSDB-PR) e Ana Amélia (PP-RS). Não falaram do Pedro Simon nem do Paulo Paim, certamente não estavam presentes.

- Pessoal, vamos ver as charges?, pede Clóvis.

Escolheram a obra do Nani.





E a do Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).





Miss Leila Ferro ficou com a do André Abreu.

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Eleições roubadas

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Novamente o chamado "quociente eleitoral" (QE) causa danos ao sistema democrático, tal como imaginado pelo inconsciente coletivo atual, pela nossa realidade atual. Não vamos aqui entrar na gênese do sistema, estamos no  Brasil, não no País das Maravilhas. Aqui, é um grande engodo, é reserva de mercado dos patrunfos. A suposta representatividade que confere aos pequenos na prática é irrisória.

O caso mais gritante parece ter ocorrido no Recife, onde o terceiro candidato a vereador mais votado, Edilson Silva, do PSOL, com 13.661 votos, não se elegeu. Em seu lugar entrou gente com menos de um terço dos seus votos (o último eleito teve 4.205). Em São Paulo deu-se o contrário, com o 49º mais votado perdendo lugar para outro, aqui um nanico sendo beneficiado com uma esmolinha, este do mesmo PSOL, com menos de um terço dos seus votos.

Esse monstrengo, o QE, parte do pressuposto de que as pessoas votam em partidos, enquanto que é notório que esta não é a nossa realidade. O cálculo do QE é simplório: se determinado partido, ou aglomeração de interesses espúrios chamada "coligação", tiver metade de todos os votos, terá direito à metade das cadeiras de vereador (e deputado).

Então suponhamos que o total de votos válidos na cidade de Mentira seja de 100.000, e quatro partidos/coligações concorram disputando 20 vagas na Câmara de Vereadores. 

Surge o candidato Laranja de Amostra, pelo partido Nacional Socialismo, e faz 50.000 votos. O seu partido, o Nacional Socialismo, terá direito  à metade das cadeiras na Câmara, isto é, 10 das 20. Nove companheiros de partido do Laranja de Amostra só fizeram um votinho, o deles mesmos. Não importa, todos serão nomeados vereadores da cidade de Mentira.

A esdrúxula suposição legal é de que a cidade, ao votar em peso no Laranja, queria votar no partido do Nacional Socialismo.

Nada mais distante da realidade, não era nada disso: é que no mês anterior o Laranja havia salvo a vida de uma criança que se afogava no lago da Redenção (foi armação, mas ninguém sabe), era um herói, enquanto seus empregados distribuíam ricos presentes pelas vilas. O povinho queria votar nele somente. Os espantados da cidade suspeitam que os nove sem voto são ricaços que compraram os presentes.

O mesmo se aplica ao candidato Tiririca de Itapipoca, do Partido dos Roubos, que fez 20.000 votos. Este era um palhaço de circo e nele o povo ridente descarregou sua mágoa com a má política. O seu partido terá 20% das cadeiras, ou seja, quatro. Ele e três roubativos, estes três que casualmente também tiveram somente 1 voto, os deles.

Até aqui, com dois nomes, o Laranja e o Tiririca, temos 14 das 20 vagas preenchidas. Um candidato com 50.000 votos, outro com 20.000 e mais doze com 1 voto.

É assim que acontecem esses absurdos, de o cidadão com 5.000 votos não se eleger, em seu lugar entrando outro candidato com muito menos.

A cidade reconhecerá aqueles elementos de 1 voto como seus dignos representantes?

Agora, quem pariu esse monstro? Como sempre, basta olhar quem dele se beneficia. Quem seria?

Ora, os grandes partidos, impondo-se como verdadeira ditadura. Se você é um cidadão respeitado e o povo o deseja como seu representante, é certo que se elegerá, mas somente se através dos grandes partidos, submetendo-se aos seus regramentos, ou seja, entrando para o "esquema".

E assim passam os dias.





Caés a la milonga

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martes, 9 de octubre de 2012

O dia seguinte, n'A Charge do Dias

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Os butequeiros ficaram com a obra do Oliveira, do Diário Gaúcho (Porto Alegre, RS).





Leilinha Ferro escolheu a do Geraldo Passofundo.



lunes, 8 de octubre de 2012

Papéis velhos ao som de Mahler




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Por aqui também recomeço a mexer com palavras. É hora de tentar concluir um trabalho que ficou pela metade lá no século passado, na época estava acabando com os nervos deste modesto escrevinhador. A separação da minha esposa era demais para suportar, mas a incompatibilidade de gênios... esta droga de gênio meu. Aí veio aquele ano de 1992, quando comecei a novela que ficou inconclusa. Esse ano foi especialmente ruim, muitos desgostos, muitas mortes. Recordo que me despedi com uma amarga crônica, publicada num jornal de Pelotas no dia 31 de dezembro, encerrada com uma frase curta: Até nunca mais, 1992. Hoje surgiu de um baú, inesperadamente, este maço de folhas amareladas pelo tempo, com as marcas da velha Olivetti na folha da frente, com o título: Eu, perverso. Não li ainda, não sei se devo nesta segunda-feira. 

Como som de fundo, Mahler. Era com Mahler, entre outros, e suas sinfonias - da Quinta quase furei o LP, a exemplo das Concertantes de Mozart - que passava noites e noites  solitário datilografando, amassando papéis, montanhas de papéis, bebendo vinho, uísque, vodka, chorando, dor profunda, depressão, criações que se tornavam reais, meu Deus, as meninas... Será que as sinfonias pioravam o meu estado de espírito? Não sei, estava recém me educando - pessoas de origem humilde não possuem bagagem culta - e sigo ainda, isto não tem  fim.

A vizinha de cima, senhora de meia-idade, tocou a campainha num domingo pela manhã: me desculpe a intromissão, vizinho, não leve a mal, mas ontem à noite o ouvimos chorar por horas, de cortar o coração; seja o que for, talvez haja solução, você é tão moço, pode contar com a gente. Mais tarde suba e almoce conosco, parece que não anda se alimentando bem. 

E seguia aflito, refazendo, sôfrego, aborrecido com a própria falta de cultura, temeroso de possuir pouca  imaginação, riscando à mão, quebrando a cabeça atrás de um sinônimo, sinônimo não apenas, mas aquela palavra que expressaria tudo, as outras ali não serviam. Puxando rodapés, iludido, mais esperançoso, de que de alguma maneira poderia influir, se não nos destinos alheios, pelo menos no meu, o meu estava em minhas mãos, precisava achar uma escapatória.

Cruel despreparo. Teria morrido, não fosse a necessidade de muitas viagens profissionais, pelo pão de cada dia, pelo aluguel. Pelas meninas, única razão.

A triste decepção com o mercado de livros, cativo de jornalistas, igualzinho a qualquer outro negócio, pesa o nome, o quem indica, mesmo supondo uma boa obra, e esta timidez, e a mania de não pedir nem de mexer pauzinhos. Um bando de crápulas.

Depois a paralisia, o niilismo destruidor, o desespero, a falta de Deus, esse Deus que tanto procuro e não encontro.

Agora, bem, agora vamos ver onde isso me levará. Pensando bem, melhor será devolver estes papéis ao baú, alguém já disse que não se deve olhar para trás, é possível que eu venha a rir do que escrevi há vinte anos, as imagens que guardo são confusas, mas não sei, é arriscado.

É, melhor será começar algo novo, algo que traga alguma alegria, alguma esperança. É isso, jogo o maço de papéis bem no fundo do velho baú. Talvez um dia eu possa, agora não. Agora é hora de tentar trazer um pouco de calma ao meu coração.




De ressaca, o botequim lê, n'A Charge do Dias

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No botequim a turma está de ressaca, ninguém quer mais ouvir falar de eleições. Pelo menos até a divulgação da prestação de contas final dos candidatos. Os curiosos vão querer saber quem pagou essa conta, isto se os nomes não vierem encobertos a título de "doação do diretório nacional'', como aconteceu com uma candidata.

Chega, aqui também não aguentamos mais, o conhecimento das falcatruas nos contaminaram e acabaram nos tirando do sério. Parodiando aquele outro, foi preciso que tudo mudasse para continuar a mesma coisa.

Somente a Jezebel deixou escapar uma observação sobre as eleições, dizendo que se fosse o Olívio a conversa seria outra. Ninguém lhe deu a mínima, leite derramado. 

Com o Inter empatando todas, quando não perde, o interesse pelo futebol também arrefeceu. O jeito foi recomeçarem as sessões de leitura, cada um lá com seu livro, com interrupções para comentários sobre alguma novidade do bairro, de vez em quando uma partida de sinuca lá nos fundos. Clóvis Baixo resolveu reler o Cartas na Rua, do Bukowski, disse que o carteiro é "dos nossos". Gustavo Moscão saiu falando a todo mundo que era um livro do Levandowski. O Contralouco está encantado com o História do Cerco de Lisboa, do Saramago. Lúcio examina pelo notibuc a montanha de documentos sigilosos divulgados pelo WikiLeaks.

Leitura com fundo musical. Lúcio abriu com nada menos que a Quinta de Mahler. Ô luxo.

Sem mais delongas, as obras do dia. Os marmanjos se despediram das eleições. Antes, Leilinha ficou com o Oliveira, do Diário Gaúcho (Porto Alegre, RS).





Os boêmios escolheram o Newton Silva.



E com o Zope.



viernes, 5 de octubre de 2012

O Contralouco e a grana desaparecida, n'A Charge do Dias

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Depois que os boêmios abriram seus votos para prefeito é que se deram conta de que faltou a escolha das charges do dia. Leilinha vai em casa e busca o seu notibuc, vez que Lúcio Peregrino se mandou com o dele.

Antes, abrem o voto para vereador. Estão divididos entre apenas dois candidatos, ambos do PSTU: Vera Guasso (16.123) e Júlio Flores (16.600). Muitos ainda indecisos, gostariam mesmo era de eleger a ambos.




Com a temperatura dos cães raivosos fervendo, na ânsia de mais um votinho, os carros de som do Furtonati aos berros passando a toda hora, era de se esperar algum contratempo. Sim, só poderia ser com ele, o Contralouco. Escreveu Leilinha no e-mail que encaminhou as obras dos artistas do traço e do pensamento:

- O tio Contra botou miguelito no Beco e furou os pneus, depois sozinho surrou dez empregados do Fortunati na mesma briga, quebrou o equipamento, tio Salito, só pude ver um pedaço da confusão, depois me puxaram para dentro. Tá até agora daquele jeito, não adianta dizerem para ele que os empregados são uns pobres coitados pagos com a grana dos empresários graúdos, como fez tio Adeva, ele segue botando fogo pelos olhos, tomara que não brigue de novo, pegou um facão do pai mas o doutor Hyde tirou dele. O pai me disse que o tio Contra sabe, mas que ficou brabo porque os escravos quiseram engrossar, para lamber... (o senhor sabe) aquilo dos ricaços.

Aqui onde me encontro, Leila, também está um inferno, mas logo estarei voltando para a palafita. Espero que o pessoal acalme o tio Contra, ou que os patifes parem de passar aí procurando sarna para se coçar, deveriam se contentar com os que já compraram nas vilas de pavor, a divisa da Cidade Baixa não é lugar para se meterem, a ânsia os fazem esquecer da logística do capeta. Pombas, aí a Zero Hora e seus três candidatos só se... explodem. Aqui o pior foi a Namorida. Fique longe de confusão, o povinho que eles contrataram é perigoso. Besito.

Escolheram a obra do Clayton, de O Povo (Fortaleza, CE). Aqui Carlinhos Adeva lembrou que um juiz, que toca em primeira instância outros processos além desse do Supremo, estimou em quinhentos milhões a grana desaparecida, que não foi dada a partido algum. Vá se saber.




E com a obra do Newton Silva. Só deu cearense.



Miss Leilinha Ferro parou na do Erasmo, do Jornal de Piracicaba (Piracicaba, SP). Os empinantes aplaudiram a escolha. Silvana Maresia observou que "Pelo que temos ouvido falar, não é só em Piracicaba...".




(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos dias se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), devido a dívidas com o sistema bancário, ou agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)


Os boêmios abrem o voto

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Agora sim, primavera em sua plenitude, um dia maravilhoso em Porto Alegre, 30 graus ao sol às 4 da tarde. Como é sexta-feira, a alegria dos boêmios é dobrada, compareceram em peso e cedo começaram a enxugar chopes e patrícias no Botequim do Terguino, a diretoria nas mesas da rua.

Discussões sobre amenidades, pura recreação, ninguém estava a fim de esquentar a cuca num dia como hoje. Para se ter uma idéia dos assuntos, o Contralouco começou:

- Pessoal, ainda estou feliz pelo dia de ontem, pelo Zé Dirceu ter tomado bem dentro, ah, que primavera, eta vida boa... 

Os malandrões, todos curtidos nesta vida, sabem que o patíbulo está sendo erguido pelos funcionários do tribunal eleitoral, para utilização no domingo, mas ninguém quis falar das eleições, para que antecipar o sofrimento, ninguém é trouxa de sofrer duas vezes, antes e depois. Tratam de combinar o churrasco de sábado, o de domingo acertarão amanhã.

Até que chegou Mr. Hyde, o médico da confraria, ainda de jaleco, vindo do hospital. Sentou-se e pediu três chopes ao Portuga, reclamando de sede.

- Aquela porra de hospital, além de faltar de gaze pra cima, agora deu de faltar até água nas torneiras... Desculpem, não vou falar de tristezas...

Ninguém estranha os três chopes, com aquele seu metro e noventa até que é pouco. Entornou os referidos, pediu mais um, levantou-se e lascou:

- Seguinte, camaradas: ando desconfiado de que aqui no buteco tem eleitor do Fortunati, da Manuela e do Villa infiltrados, gente paga para nos espionar... Então proponho que hoje todo mundo se identifique e abra o voto.

Ele aproveitou o grande número de beberantes presentes no recinto, na calçada e lá dentro. A provocação tinha destino certo: para três estranhos e uma estranha, eles mal-encarados e ela com um "sou pistoleira" escrito na testa, que estavam numa mesa lá no extremo da calçada. A mulher corou de vereda, já os vagabundos se fizeram de desentendidos, mas deram um tempinho e pediram a conta. O Contralouco não lhes tirou os olhos por um segundo.

Viraram as costas e os mandriões deram de cogitar a qual gangue pertenceriam. Pura falta do que fazer. Isso de gangue é coisa do Contralouco. Arredondando, o Fortunati teve 50% das opiniões, contra 30 da Manuela e 20 do Villa.

Hyde gostou da ideia que teve e tornou a propor a enquete com os habitués. Lúcio Peregrino abriu uma folha de excel no notibuc. Passaram à contagem. Cada um tinha que levantar e pronunciar o nome do  seu candidato. Não houve indecisos. Nulo apenas um, da Veruschka, que deu um discurso ameaçando queimar o título de eleitor no domingo, diante do presidente da sua mesa, mas que acabou dizendo que iria para a Praia do Hans.

Só três candidatos a prefeito obtiveram votos. O boêmio  Lorildo de Guajuviras, de visita ao botequim, não votou, tem o título em Canoas. Isaac Financista (empresta dinheiro a juros, como pessoa física, mas ninguém o chama de agiota, pois os seus juros são muito inferiores aos da CEF e do BB, para não falar dos outros; financista é mais justo, o pessoal é honesto, mas ninguém gosta dele mesmo assim) quis votar no Fortunati mas foi impedido, quando chegou ao botequim o horário de votação tinha estourado, pretextou Lúcio, presidente da mesa de votação, isto é, dono do notibuc.

A Manuela comunista (faz-me rir, disse Tigran Gdanski, ao ouvir a palavra comunista) teve o voto de três meninas, de 7, 9 e 11 anos, filhas da Otília costureira ali da rua (rua é modo de dizer, o nome correto é Beco do Oitavo), que estavam brincando na calçada por entre as mesas dos boêmios.

O Robaina do PSol teve 8 votos: Leilinha Ferro, Terguino Ferro, Jandir da Casa do Cachorro, Jorge Pouco-Pé, Leonardo Berro do Cabrito, Wilson Schu, Roberto da Nira e Nego Janjão.

O Érico do PSTU teve 17 votos: Aristarco de Serraria, Contralouco, Jezebel do Cpers, Tigran Gdanski, Silvana Maresia, Jucão da Maresia, Gustavo Moscão, Jussara do Moscão, Clóvis Baixo, Cícero Bom Cabelo, Chupim da Tristeza, Lucas da Azenha, Marquito Açafrão, Carlinhos Adeva, Mr. Hyde, Walter Schiru e Lúcio Peregrino.

A Otília Costureira chegou para votar, bem depois do Isaac Financista, a ela Lúcio permitiu, dizendo que tinha avisado antes que viria. Com ela, 18 para o Érico.

No total, 26 votos válidos. Saíram fora o nulo da Veruschka e os 3 das gatinhas que sufragaram a Manuela (Lúcio, o presidente da mesa, invalidou-os porque as gurias são "de menor"). Resumo da ópera: Robaina do PSol com 8 e Érico do PSTU com 18.

(amigos, somem mais um aí para o Érico, do titular aqui do blog)

O chope rolando e Aristarco de Serraria pede a palavra, para exaltar o espírito cívico dos boêmios eleitores, mas lembra a todos sobre 2016:

- Hoje estamos aparentemente divididos, mas é isso, só aparência, pois somos todos do bem e as bandeiras que escolhemos têm o mesmo substrato, a igualdade e a fraternidade entre todos os viventes, homens, animais e plantas, e o desejo de que os ricaços que roubam, como os políticos por eles sustentados, acabem no paredón! Em 2016 viremos sob a mesma flâmula de amor, o Partido dos Boêmios, e elegeremos o prefeito João da Noite e uns dez vereadores.

A turma percebe que Aristarco já está pra lá da Bagdad, andou rebatendo os chopes com a fada-verde caseira do bar - a conserva de pinga com losna, mas ninguém se importa, aplaudem com grande regozijo.

- Pela força não adianta, Ari, matam a gente, ou pior: daqui a pouco aparece um dos nossos metido a Nosso Guia. A gente tem é que forçar os bandidos a aplicarem dez por cento do PIB em educação - reclamou a professora Jussara do Moscão.  

Aristarco encerra sua oratória:

- Sei, Ju, sei. Bem, meus irmãos... podemos ser empinantes, palhaços até desse sistema viciado, mas burros não! Então sabemos que seremos derrotados pelo poder econômico no domingo, de modo que proponho que todos compareçamos às urnas vestidos de palhaços!

- Eu vou fantasiado de bêbedo! Só bêbedo pra aguentar essa farsa!, rugiu o Contralouco.

- Não vai precisar de fantasia, vai assim como está, Contra - escrachou Carlinhos Adeva.

Decidem partir para a escolha dos candidatos a vereador da leal e valerosa Porto Alegre, a pedido de Jezebel.

- Aqui pode ser que tenhamos uma chance, disse a ilustre professora.

Nesse momento Lúcio Peregrino, o presidente da mesa "eleitrônica", como disse Chupim da Tristeza, precisa se retirar às pressas, levando o notibuc, nas pegadas de uma gostosa que acabou de passar pelo Beco. Na saída volta a cabeça sobre o ombro e exclama, à guisa de desculpas aos companheiros: "É que eu já vi aquela pena noutra ave... volto depois da meia-noite...".

E assim, por um motivo tão nobre, a divulgação dos nomes dos vereadores escolhidos pelos empinantes é transferida para amanhã.