sábado, 15 de diciembre de 2012

Noturno

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É madrugada alta em Porto Alegre. O murmúrio cerrado e envolvente da chuva foi trocado pelo som de água derramada. Chove a cântaros, apesar do frio. Chego à janela e vejo que a cidade dorme imersa em um mar cinzento, insensível à escuridão molhada. A estrela matutina é a lâmpada esquecida no prédio lá adiante, bruxuleando ao sabor das ondas.
 
E lá vem você, como sempre, dizer-me coisas que eu já sei: que esta é mais uma noite de perseguir tristezas antigas, de escrever cartas que agora não têm destino, de ser o fragilizado bobo que você não gosta. Tintim.
 
Arranho na abertura e Zubin Mehta aciona a Filarmônica de Los Angeles com a Quinta de Mahler. Acendo outro cigarro. Isto mesmo: sei que deveria usar o automático após ingerir meio vidro de uísque, que ainda não comprei o CD, que a estas horas é provável que os vizinhos - existem mesmo? - detestem a música e o volume. Não se faça de desentendido, é preciso: a Quinta tem quedas que vão ao limite do inaudível, macias, verdes, índigo céu, noites de cristais, uma mulher sem passado e futuro  aparentes, uma mulher que não existe...
 
Ora, o que é isso? Sobre isso já discutimos noites e noites, repito: como eu deve haver muita gente que prefere não sair. Além disso sabe que houve época em que tentei. Cansei de entrar em belos bares, sentar a um canto, beber uma dúzia de manhatans e vir embora sem que ninguém puxasse assunto. Convencido, eu? Não mesmo, de uma mesa à outra a distância é idêntica. O quê?! Ligar para uma massagista telefônica? Está doido?
 
Pois confesso que também tentei. Veio uma pobre moça esfrangalhada, coloquei música francesa para criar clima e, enquanto eu servia o primeiro drinque, ela perguntou se não tinha música sertaneja. Desisti, a poesia é algo assim como comprar um quilo de carne no açougue. Não, não é desprezo pela pessoa, é pura amargura. Elitista, eu? Ah, não enche. Sei, em breve farei quarenta anos, e daí? Devo mudar os gostos, ser o que nunca fui? Que nada, isto é apenas o começo.
 
Amanhã ou depois alguém toca a campainha por engano, abro e topo com ela, a alma gêmea, sorridente. Será um instante sublime. Ela, enlevada, vai perguntar-se: "Quem será esse simpático que a sós bebe, ouvindo Mozart nesta luminosa noite?". Ah, ah, ah, gostou do simpático, hein? Claro que é bobagem minha. E chega de intrometer-se, hoje não vou admitir, nisto você é um estranho. Hoje preciso de um companheiro para dividir meus gritos.
 
Primeiro vou experimentar a imagem que alguém gostou em um dos meus contos: um peixe gordo subindo e descendo quente, querendo escapar pela garganta, pela boca, ferido e preso lá dentro. Depois os jundiás entrelaçados em correntes, corpos negros tentando subir e sendo forçados a descer pelo engolir em seco, pelo respirar fundo, neve na fronte lívida. Mais tarde, vou controlar-me para não telefonar para o Rio de Janeiro. Antes de qualquer coisa preciso averiguar o estoque de uísque. Ao amanhecer estarei incorporado aos novelos que sobem do meu cigarro, vendo as fantasmagorias etílicas dançarem embaladas pelo leimotiv de Piazzolla.
 
Pela manhã quiçá reflita sobre meus longos invernos, recordando vivências banais, nem alegrias esfuziantes nem dores inesquecíveis, para descontrair. Não vou lembrar da vontade de saltar pela janela. E assim levarei o dia, passando a limpo o que valeu e o que não valeu. Não tema, você estará junto, não permitirá que algo de mau brote do fundo da minha revolta, da minha fraca natureza.
 
Segunda-feira, qual um risco de luz em direção ao desconhecido, ou um barco jogando neste infinito de vida e morte, é certo que vou prosseguir, procurando amores e sortes, mais lúcido, mais forte.
 
Mas hoje, nesta fria madrugada de julho em que rememoro o dia que alguém partiu, eu, dono de mim, resolvi sair do sério. Portanto, estranho que vive em mim, evite criticar-me.
 
Talvez na semana que vem eu deixe de beber e fumar.
 
 
copyright©1995
 
  
 
  

jueves, 13 de diciembre de 2012

São Paulo x Tigre, n'A Charge do Dias

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Quando Lúcio Peregrino entrou no botequim, imediatamente Aristarco perguntou:
 
- O Adolfo te ligou ontem à noite?
 
- Sim, por quê?
 
- Ligou para todos nós. Um pouco pelo jogo do Tigre contra o São Paulo, agora ele é argentino. Estava indignado com o que chamou de escândalo do Morumbi.
 
- Sei, e comigo falou muito do caso Marita Verón. Disse também que talvez venha passar o Ano Novo conosco. Se ligou para todos, e a todos perguntou de cada um, agora deve estar cruzando as informações, ficou sabendo de tudo - respondeu Lúcio, rindo ao final da frase.
 
- Eu contei das estrepolias do Contralouco - provoca Clóvis Baixo.
 
- E eu contei as merdas de todos vocês - diz o Contra.
 
Adolfo Dias Savchenko, o idealizador da coluna "A Charge do Dias", atualmente morando em Córdoba, quando bate a saudade toma uns uísques e liga para todo mundo, boêmio é assim.
 
- Bem, diz Lúcio, então, graças ao "argentino" Adolfo, as notícias hoje darão conta da repercussão do escândalo do Morumbi na Argentina. Mas depois, primeiro umas coisinhas que vi ontem. Lá vão: notícias do notibuc.
 
- Lewandowski reassume o cargo de advogado de defesa dos mensaleiros. Disse que mesmo que se confirme a tendência de a Corte pedir a cassação dos parlamentares, a decisão será provisória, precária e não terá efeitos no curto prazo. Diz mais: que quando a votação é apertada, abre-se a possibilidade de a defesa entrar com um recurso chamado embargo de infringência, solicitando uma nova avaliação do plenário.
 
- Embargos de postergância, é do jogo, está correto o advogado Complikowski - diz Carlinhos Adeva. - Depois virão os apelos ao Tribunal de Haia e à Corte Interestelar.
 
- Comentários ao final, senhores, por favor - diz Lúcio. E segue:
 
- O nosso empregado como Ministro da Justiça, o Cardozão, diz que as revelações do Marcos Valério, denunciando o chefão da máfia,  foram feitas "sem prova alguma", por alguém numa situação de desespero, após ser condenado a 40 anos de prisão no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF). "É uma peça produzida por uma pessoa processada e condenada a muitos anos de prisão. Foi feita exclusivamente na tentativa ou de tumultuar o processo, negociar a redução de sua pena". É outro que, pago com o meu, o nosso, se transformou em advogado de defesa de um cidadão supostamente igual a todos nós.
 
- Engraçado que o indivíduo agora dá a entender que a condenação do Marcos Valério foi justa, por um mensalão que nunca existiu. A Dilma, de lá de Paris, onde vai assistir o Bolshoi, com tanta coisa por fazer, também deu uma de advogada do chefe, com o meu dinheiro  - intromete-se novamente Carlinhos.
 
- Outro empregado na base do quem indica, o Ministro da Secretaria-Geral da Casa Civil, aquele antro de Dirceus e Erenices, o Gilbertinho Carvalho da Silva, diz que a tentativa do Marcos Valério de envolver o ex-presidente Lula no mensalão é uma "indignidade", e considerou o gesto como "desespero" para diminuição da pena. Outro advogado de defesa pago com o meu, o nosso. Você é pago para trabalhar, babaca, feche essa boca.
 
- Calma, Lúcio, limite-se a ler as notícias, ainda que "arrumadas" pelo teu gosto, não adianta se exaltar, amigão - diz o filósofo Aristarco de Serraria.
 
- Se eu pego um cara desses, diz o Contralouco.
 
- O panaca senil presidente do Partido dos Trabolas, Ruim Facão, emite nota oficial: "Eu conclamo toda a nossa militância, nossos parlamentares e nossos governadores a expressarem a sua indignação diante de mais esse ataque, essa sucessão de mentiras envelhecidas que a mídia conservadora, com setores do Ministério Público, insiste em continuar veiculando. Eu deixo aqui a solidariedade do PT ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Repelimos essa campanha de calúnia que está sendo veiculada na mídia".
 
Carlinhos Adeva não se aguenta:
 
- Esse aí está na dele, pode espernear, não é pago com o nosso. Bem..., não sei. Porém o negócio é bem simples: basta o Ministério Público investigar as denúncias. Só. Quem não deve, não teme. Básico. Indícios há, a começar pelos R$ 100 mil, ou 98,5, que caiu na conta do aloprado comprador de dossiês amigão do ex-presidente. A verdade virá à tona. Se for mentira, que processem o Marcos Valério por calúnia e tudo o que puderem. Por que, então, essa gritaria?
 
Nicolau Gaiola, que se mantinha quieto, confabulando baixinho com Jezebel do Cpers, exaspera-se:
 
- Pelamor de Deus, Lúcio, pode parar com esse assunto? Não aguento mais esses filhos da mãe.
 
- Certo, vamos para a Argentina. Antes, alguém pode adivinhar quem soltou o Carlinhos Cachoeira?
 
- Tchê, pelo amor de Deus de novo, até o pé de oliveira do Beco sabe que foi o Tourinho, todo mundo já sabia antes de soltar - diz Nicolau. 
 
- Onde andará a juíza Eliana Calmon? - pergunta Jussara do Moscão.
 
cio não dá tempo de alguém responder. Segue:
 
- San Pablo campeón de la Copa Sudamericana, en una escandalosa noche en el estadio Morumbí. Custodios privados y agentes de la Policía Militar golpearon a los jugadores argentinos en forma tan brutal que se vieron manchas de sangre hasta en las paredes del vestuario. La agresión ocurrió al finalizar el primer tiempo y los uniformados llegaron a apuntar a los argentinos con armas de fuego. Pero los brasileños dieron una justificación, al decir que los jugadores de Tigre habían intentado invadir el vestuario del San Pablo para provocar una pelea.
 
Agora foi Clóvis Baixo que não aguentou:
 
- Por falar em Tourinho, gente, lembrei do velho ditado gaúcho: "Em campo alheio, touro é vaca". Então, como os caras iriam invadir alguma coisa e bater em alguém em pleno Morumbi? É essa a indignação do Adolfo, os paulistas pensam que alguém é criança. Começou que os argentinos pediram apenas 4.500 ingressos para a sua torcida e não foram atendidos. Depois, foram proibidos até de reconhecer o gramado. E o sangue no vestiário visitante? Isso desmonta a farsa, pois ali falharam os leões-de-chácara são-paulinos, se distraíram e permitiram que a imprensa visse.
 
Tigran Gdanski usa a cabeça:
 
- De fato, pessoal, quem já jogou futebol sabe: só algo muito grave para um time não voltar para o segundo tempo, numa decisão dessa importância, diante dos olhos do mundo. Impossível empatar o jogo? Impossível não há, em decisão, muito menos com escore adverso de 2 x 0, o mais perigoso de todos, é fazer um e é um Deus nos acuda pela emoção.
 
- Gente, é como dizem os dirigentes inescrupulosos: o que importa é a Taça na sala de troféus e o resto é história - encerra Mr. Hyde, o Cínico.
 
Pedem os primeiros aperitivos do dia.
 
- Parabéns ao grande São Paulo - diz Aristarco, erguendo seu copito de losna. - Afinal, de santos os hermanos não tem nada.
 
- Com o Dungão, em 2013 o São Paulo e todo mundo vão sifu com o Inter! - exclama Clóvis Baixo.
 
- Vai sonhando - diz o Portuga de lá detrás do balcão.
 
- Mas o assunto que sacudiu a Argentina foi o caso Marita Verón. Protestos indignados em todo o país, Tucumán, Buenos Aires, Santa Fe, Santiago del Estero, Córdoba, La Plata, Monte Hermoso, Mendoza, Salta, San Juan, Bahía Blanca, La Rioja, Rosario, Paraná, Brandsen... pela absolvição dos 13 acusados pelo sequestro e desaparecimento - morte, com certeza - de Marita, em 2002. A nossa mui conhecida "por falta de provas". A moça saiu de casa e sumiu, levada à força a se prostituir em La Rioja por gangue de exploradores de escravas brancas. Conseguiu escapar e a mataram, sumindo com o corpo. É a falência da Justiça e dos órgãos policiais. Nem a presidente Cristina se aguentou. Um filme de terror.
 
Aqui Tigran Gdanski se superou:
 
- É como diz o Ancelmo: triste o país que tem a polícia mancomunada com bandidos...
 
- Bem imaginamos os sentimentos do humanista Adolfo e de todo o povo argentino, que se levantou: não quer só comida, quer justiça. Temos muito em comum, todos os povos, afinal a maioria ainda somos humanos - disse a profa Silvana Maresia.
 
Enfim... Leilinha Ferro, mesmo revoltada com as histórias que ouviu, decide desanuviar o ambiente. Interrompe os comentários e pede as obras do dia. Dose dupla, de novo, por ontem.
 
Como era de se esperar, vieram de Tigre. Com o Amorim.
 
 
 
Um achado do Zope. Quem avisa amigo é.
 
 
 
Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).
 
 
E o sempiterno Nani.
 
 
 
 
Leilinha Ferro também dobrou a sua participação, por ontem e por hoje.
 
Com o Sinovaldo, do Jornal NH (Novo Hamburgo, RS).
 
 
 
 
E com o Pater, de A Tribuna (Vitória, ES).
 
 
 
 
(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles, magnânimos, chamam os banqueiros assassinos. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)
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Nietzsche para pobres

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Por Marcelo Pisarro, no Clarín


Si Jesús no hubiese sido el idiota feliz del pueblo, sin dudas habría adorado leer a Nietzsche. O al menos habría adorado que alguien se lo leyera, pues posiblemente era analfabeto. También habría adorado vivir en el siglo XXI, o en el siglo XX, incluso en el siglo XIX. La gente que escribió su biografía se hubiese sentido muy a gusto en un mundo en el que la gracia de Jesús podía encontrarse en su cuerpo y no en su espíritu. En un mundo bien dispuesto a creer en zombies antropófagos antes que en extrañas familias compuestas por una mamá virgen, un papá paloma y un hijo que también es padre y espíritu santo. Un zombie es imaginable; lo de la mamá virgen y el papá paloma se hace difícil de creer.
 
No siempre fue así. Tertuliano, que vivió y escribió entre el segundo y el tercer siglo de esta era, había entendido el truco. Si hubiese contado con la información de los zombies, sin dudas la habría sumado a la teología cristiana. En esos años, en esos siglos, ese grupo de hombres que se convertirían en los Padres de la Iglesia no se distinguía de todas las demás sectas cristianas y agnósticas que anunciaban haber vislumbrado el plan de Dios para todos nosotros. Aquello que marcó la diferencia ―lo que logró que la futura Iglesia sacara del camino a ebionitas, apolinarios, montanistas, arriamos y otros― fue el énfasis en el cuerpo, no en el espíritu. Cualquier imbécil podía hacer creer a los aldeanos desdentados en la mamá virgen y en el papá paloma; el desafío era inventarse algo todavía más absurdo.
 
La artimaña fue la resurrección: Jesús resucita, sale de sepulcro, come pescado, vagabundea durante cuarenta días y luego se va al cielo. Lo único trascedente que hace en esos cuarenta días, además de comer pescado, es nombrar a Pedro como sucesor y fundador de la Iglesia. Es un relato conveniente. Y funcionó.
 
Para que funcionara tenía que ser tan incoherente como se oye. La resurrección estaba más cerca de The walking dead que de las palomas mágicas que preñan vírgenes. No es que Jesús aparecía en el corazón de sus discípulos, o en el sueño de un místico delirante, o en forma de viento en una noche de tormentas. Nada de eso. Jesús salía caminando cual zombie, se sonreía y comía pescado. Los apóstoles tenían sus ojos abiertos de sorpresa.
 
―¡Pellízquenme, incrédulos! ―pedía Jesús.
 
Tertuliano había entendido que ésa era la cuestión. Si la idea de la resurrección sonaba absurda ―la idea de que podían regenerarse los huesos, la carne, las vísceras, incluso tu corte de cabello y hasta tu ropa favorita; Joey Ramone resucitará con campera de cuero y chupines; Marilyn Monroe, con un vestido que se levanta al pasar por las cloacas calientes―, ahí estaba la verdadera prueba para convertirse en buen cristiano. Creer en cosas absurdas era una cuestión de fe. La resurrección se convirtió en dogma. Uno debía creer que Joey Ramone resucitaría con su campera de cuero y sus chupines y, si no lo creía, entonces era un hereje. Así esta secta se sacó de encima a las demás sectas y se convirtió en Iglesia con mayúscula inicial: anunció no la resurrección del espíritu, sino la resurrección de la carne, del cuerpo, los huesos, las entrañas y las camperas de cuero.
 
Fueron astutos. Mientras todas las demás sectas peleaban por ofrecer paraísos más tentadores y espíritus más purificados, los Padres de la Iglesia ofrecieron aquello que en los siglos posteriores sus sucesores se encargarían de despreciar y considerar fuente de pecado: el cuerpo. En un sentido contemporáneo, lo que resucitará será el sujeto: usted, yo, con nuestras cicatrices de la apendicitis, nuestros anteojos y nuestras remeras de Sex Pistols.
 
“El ‘espíritu puro’ es pura estupidez”, escribió Nietzsche en El anticristo. “Si dejamos de lado el sistema nervioso y los sentidos, la ‘envoltura carnal’, no nos saldrán las cuentas: ¡nos habremos quedado sin nada!”. El hombre volvió a tener materia, cuerpo, sustancia; Nietzsche regresaba en el tiempo, recogía la piedra de fundación de los precursores de la Iglesia. Acaso lo sabía, acaso no le importaba.
 
Aunque había vestigios en la Grecia clásica, el concepto de “sujeto” surgió con la modernidad. Aristóteles definió al hombre como un “animal racional”: la subjetividad se ligaba a la racionalidad. Descartes lo transformó en una “cosa pensante”: introdujo la idea de alma. Kant lo perfeccionó: quitó el cuerpo y forjó un “sujeto trascendental”, forma pura. Entre el siglo XIX y comienzos del XX, el sujeto recuperó su cuerpo. Darwin concluyó que el sujeto estaba determinado por su medio; Freud, que el sujeto era producto de una historia familiar y social; Tylor, que había progresado materialmente por estadios de desarrollo ascendente; Marx, que las prácticas sociales materiales definían la conciencia y, por lo tanto, al sujeto. El sujeto comenzó a aprehenderse como una entidad sociolingüística que respiraba, comía pescado y pedía pellizcos. La clase de entidad sociolingüística de cuya resurrección hablaron Tertuliano y sus amigos. El auténtico misterio de la fe: que la resurrección de la carne será la resurrección del sujeto.


martes, 11 de diciembre de 2012

Marco Maia x Povo, e o destino de um bundão, n'A Charge do Dias

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No Botequim do Terguino rola chimarrão desde às oito da manhã. Em dezembro poucos trabalham, em marcha lenta, pois salvo o Contralouco - com bastante serviço na gráfica, ninguém é comerciante. Carlinhos Adeva é outro que sempre tem trabalho, mas deixa a secretária no escritório de advocacia e desaparece, qualquer coisa ela chama por telefone. Às nove e meia iniciaram os aperitivos.
 
Advertidos, aqui na palafita, por Miquirina Segundo, esclarecemos, pela centésima vez, agora aos persas e egípcios que nos leem, que chimarrão é algo que os gaúchos chupam numa cabaça oval. Vão entender errado, mas fazer o quê.
 
Lúcio Peregrino desde que chegou furunga no notibuc. Em meia hora estava pálido. Antecipou-se aos demais e pediu um liso de dyabla verde, também chamada de losninha, e seguiu furungando, cada vez mais pálido. Às dez pediu a palavra:
 
- Gente, vamos lá: notícias do notibuc.
 
Referiu-se, o nobre boêmio, à etapa das atividades diárias que leva esse nome - notícias do notibuc. Como diz o médico Mr. Hyde, podemos até ser pinguços, mas pinguços bem informados, o buteco pensa. Nessa hora o bar silencia para ouvir as últimas.
 
- Já? É muito cedo - pondera Aristarco.
 
- Más notícias é melhor dizer logo, sem embromação. Vou começar com os filmes de terror, as amenidades ficam para o fim.
 
- Então mete bala - diz Mr. Hyde.
 
- Marcos Valério, em depoimento à Procuradoria Geral da República, em setembro, disse que esteve com o então presidente Lula no Palácio do Planalto, acompanhado do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, sem precisar a data. Afirmou que Lula deu "Ok" aos empréstimos do Banco Rural para o PT. Valério também garantiu que repassou R$ 100 mil para despesas pessoais de Lula, por meio da empresa Caso, do aloprado sem-vergonha do Freud Godoy, então assessor da Presidência da República, amigão do Lula.
 
Silêncio no bar. Jezebel murmura: - Meu Deus do Céu...
 
- Nada de comentários, pessoal, vamos até o fim, depois temos o dia todo para comentar - diz Lúcio. Prossegue.
 
- O otário que é presidente da Câmara dos Deputados, o petista Marco Maia, ameaça o Supremo Tribunal Federal se este cassar o mandato dos bandidos condenados pelo mensalão. Pretende que os criminosos continuem a legislar pelo menos por mais um ano.
 
- A votação no Supremo está empatada em 4 x 4. O voto que falta, do ministro Celso de Mello, deverá pender pela cassação. Aí o valentão do Sr. Maia que faça o que bem entender, pois é possível que o povo também decida reagir, invadindo a Câmara e quebrando alguma coisa por lá.
 
O Contralouco dá um salto na cadeira: - Prima sou! Não vou quebrar patrimônio do povo, mas meter a mão na cara de patifes, ah, vou...
 
Carlinhos Adeva se mete: - Gente, deixa eu dar uns pitacos, estou por dentro do assunto, daqui a pouco terei de dar um pulo no escritório.
 
A turma concorda.
 
- É o seguinte. Na Roma antiga, os legisladores, que eram os senadores, andavam de branco, a cor representando a honestidade, transparência. E mesmo assim, cometeram horrores. Na Grécia,  a nenhum condenado era permitido sequer falar ao povo. Hoje em dia, aqui na América, nenhum país consente que transgressores da lei possam ser representantes do povo; esses malfeitores, se conseguirem emprego de síndico de bordel é muito, pois até aí se exige boas referências. A simples ideia de se ter no parlamento alguém condenado, e pelo Supremo Tribunal, é um insulto à democracia. Se isso vier a ocorrer no Brasil, o crime estará institucionalizado pelo Congresso Nacional, terão instigado o desprezo à autoridade, o desrespeito à lei, o império da violência. Se o Contralouco se escalou para entrar primeiro no bordel em que a Câmara terá se transformado, quero ser o segundo.
 
Aplausos dos boêmios, vermelhos de raiva.
 
- Vou indo, pessoal, volto a tempo pro almoço - diz Carlinhos.

- Pera aí, Carlinhos - diz Mr. Hyde -, o que estranho é o seguinte: se eu fosse condenado a qualquer pena, sem possibilidade de recurso que reverta a condenação, eu renunciaria imediatamente ao cargo de deputado, é o mínimo que um homem pode fazer com o resquício, se restou, de vergonha na cara. Então esses criminosos estão batendo o recorde mundial de cara de pau, de falta de vergonha, de #$Xa&mpsapos e $$$$$lagartos.

- Matou, doutor - responde Carlinhos lá da porta - agem como criminosos que são.

(o blog é familiar, então suprimimos os palavrões da fala de Mr. Hyde, que há de nos perdoar).

(Com esta aconteceu um milagre: uma charge de 19/dez/2012, referindo a esse Marco Maia mandalete do José Dirceu, deu um salto do futuro e caiu aqui, fora de votação. É do Flávio:





- Que mundo. Esse Marco Maia, que mundo não tem, fora esse mundinho de merda deles, hoje é chefão, nomeia quem quer no governo; é a velha putaria de sempre, o legislativo de homenzinhos de suruba com o executivo de covardes - lamenta a profa Jezebel do Cpers.

Lúcio vai em frente:
 
- O banco HSBC aceitou pagar 1,5 bilhões de euros ao governo americano, para encerrar processo em que é acusado de lavagem de dinheiro de traficantes de drogas e de supostos terroristas. O dinheiro compra tudo. Lá, pegaram e tomaram algum dinheiro, os hipócritas. E aqui?
 
- Mamma mia... - diz Jezebel.
 
- O Tribunal de Contas da União admite que as concessionárias de energia elétrica cobraram a mais dos brasileiros 7 bilhões de reais, entre 2002 e 2009, porém negou aos consumidores o direito ao ressarcimento. Se os tribunais de contas estaduais são conhecidos como tribunais de faz-de-conta, a sigla desse outro - TCU - dá uma ideia de como devemos chamá-lo.
 
- Toma no nosso cu! - exclama o Contralouco.
 
- O estuprador do FMI, Dominique Strauss-Khan, para encerrar processo criminal nos EUA, paga 5 milhões de euros para a camareira de hotel a quem forçou a mamar aquele seu pau mole...
 
- Bah, Lúcio - diz Jussara do Moscão -, hoje você está carregando nas "arrumadinhas" que dá nas notícias, hein?
 
- Eta chupadinha bem cara - diz Wilson Schu.
 
- Vocês sabem, essas drogas de jornais não contam direito, só dou uma ajeitada. Bem, agora, às amenidades.
 
- Dilma recebe honras militares em Paris, no Palácio dos Inválidos, e depois desfila em carro oficial pela famosa avenida Champs Elysées, reservada para as comemorações de maior prestígio dos franceses.
 
Viva. Todos festejam.
 
- Lula também está em Paris, mas foge da imprensa como o diabo da cruz, suspeita-se que está hospedado num muquifo na zona do meretrício.
 
- Tinha que estragar - diz Silvana Maresia.
 
- Hoje a despedida do grande goleiro palmeirense Marcos, em jogo festivo do Palmeiras de 1999 x Seleção brasileira campeã do mundo em 2002.
 
- O Marcão merece, diz Clóvis Baixo.
 
- Preparador físico Paulo Paixão diz que só vai para o Inter se o Dunga for contratado. E chega, minha gente, futebol morreu com o campeonato brasileiro.
 
Leilinha Ferro pede que escolham logo as charges. Novamente em dose dupla, para compensar a falta de ontem.
 
Feita a votação, foram escolhidas as seguintes:
 
Mestre Nani.
 
 
 
 
Miguel, do Jornal do Commercio (Recife, PE).
 
 
 
 
Mestre Aroeira.
 
 
 
 
E o cearense Newton Silva.
 
 
 
 
A senhorita Leila Ferro também dobrou a sua participação, ela que escolhe a solas, como coordenadora da coluna.
 
Ficou com o Pater, de A Tribuna (Belo Horizonte, MG).
 
 
 
 
E com o Duke, de O Tempo (Belo Horizonte). O pessoal já anda desconfiado de que a Leilinha é mineira.
 
 
 
 
(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)
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"Capa" de ontem: Com o empate hoje (10/dez/2012) diante do atual campeão mundial Vishy Anand, vencendo o London Classic (5 vitórias e 3 empates), o jovem norueguês MAGNUS CARLSEN, segundo especialistas, alcança o maior rating já atribuído pela FIDE a um jogador de xadrez, inacreditáveis 2.861, superando a marca histórica de Kasparov (2.851).