lunes, 17 de diciembre de 2012

CPIs em causa própria: Collor contra Gurgel, um caso pessoal

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Por João Bosco Rabello, no Estadão
 
 
A desmoralização da CPI do Cachoeira, cujo desfecho confirma ter sido concebida pelo ex-presidente Lula para atingir um alvo específico – o governador de Goiás, Marconi Perilo (PSDB) -, reflete a motivação política que passou a determinar investigações no âmbito do parlamento. E que banaliza o recurso a esse instrumento de investigação.
 
Outras CPIs, algumas em dose dupla (no Senado e na Câmara simultaneamente) confirmam essa utilização de instrumento parlamentar em causa própria. A CPI do Ecad, no Senado, passou despercebida pelo distinto público, e orientou-se pelo interesse de parlamentares proprietários de emissoras de rádio e TV e representantes de provedores empenhados em reduzir o ganho dos autores.
 
Outra CPI do Ecad aguarda vez na Câmara, esta pedida pelo Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), curiosamente representante de um dos setores – a Igreja – que já tem na música uma de suas fontes de receita, sempre isenta de impostos. Há outros 10 pedidos de CPI na fila da Câmara, algumas superpostas ao Senado, como a da exploração do tráfico de pessoas.
 
O final melancólico da CPI do Cachoeira, com o parecer do relator na terceira versão, foi uma disputa entre governo e oposição sobre o controle das informações produzidas pela Polícia Federal, que receberam de bandeja ,com apenas um ponto em comum – o de que nem a um e nem a outro interessou avançar sobre a empreiteira Delta, a investigação que poderia render algum fruto. Ali todos perderiam.
 
Dois outros alvos dessa disputa – o jornalista Policarpo Junior, diretor de Veja em Brasília, e o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel – acabaram excluídos de um texto final imposto pelo relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), à revelia da comissão, que já negara voto a esse fim.
 
Nos dois casos se uniram personagens historicamente antagônicos para sentar o Ministério Público e a imprensa no banco dos réus: o senador Fernando Collor (PTB-AL) e seu principal algoz quando presidente da República, o PT. Vinte anos depois, o ex-presidente resolveu eleger a mídia como responsável pelo seu impeachment.
 
É um revisionismo histórico, já que sempre elegeu como principal fator de sua queda a falta de relações com o Congresso Nacional que, no início de seu governo, chegou a hostilizar. Tem o direito de repensar sua queda, mas não sem expor-se à crítica pertinente de que investe contra o Procurador-geral em decorrência de um processo de improbidade a que ainda responde, assinado pela esposa de Gurgel, a subprocuradora Cláudia Sampaio Marques.
 
Collor voltou à carga nos últimos dias, da tribuna do Senado, contra o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Num discurso duro, em que chama Gurgel de “prevaricador-geral”, se diz revoltado com a exclusão do relatório final do pedido de investigação do chefe do Ministério Público Federal.
 
Desde o início da CPI, Collor assinou pedido de convocação do procurador e apresentou seis representações contra ele nos órgãos de controle do Ministério Público. Sob o pretexto de questionar um favorecimento de Gurgel ao ex-senador Demóstenes Torres, já explicada de forma convincente pelo Procurador.
 
Collor não torna públicas, entretanto, suas diferenças pessoais com Roberto Gurgel e seus familiares, ou seja, o duro parecer de Cláudia Sampaio contra ele, na ação penal 465, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF).
 
Em parecer, assinado em 21 de maio de 2008 – e endossado pelo então procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza -, Cláudia Marques recomenda a condenação do ex-presidente da República pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público), corrupção passiva e falsidade ideológica.
 
A denúncia do Ministério Público Federal, oferecida em agosto de 2000, revela um esquema de fraude em licitações, no governo de Collor, quando supostamente empresários do setor de publicidade pagariam propina em troca de contratos com o governo federal.
 
Segundo o MP, o esquema permitia a transferência de dinheiro público às agências contratadas. Até o pagamento de pensão alimentícia de um dos filhos do ex-presidente era viabilizado com esses recursos, afirma o Ministério Público.
 
A referida ação penal chegou ao STF em outubro de 2007, depois que Collor se elegeu senador por Alagoas. O primeiro relator do caso foi o ministro Menezes Direito, que se aposentou.
 
A ação foi redistribuída à ministra Cármen Lúcia, em outubro de 2009. Desde então, passados três anos, o processo está parado no gabinete dela, aguardando o voto e inclusão em pauta para julgamento.
 
Apenas para ilustrar – e mostrar o tamanho das acusações contra o ex-presidente – se os ministros do STF acolhessem as razões do Ministério Público, e na dosimetria, condenassem Collor às penalidades máximas dos crimes a ele imputados, a pena poderia alcançar 29 anos de reclusão – superior a algumas do mensalão.
Trechos do parecer descrevem a rede acusada, dando visibilidade a personagens desconhecidos mesmo à época da presidência de Collor. Alguns deles:
 
“Assim, tem-se o pagamento de propina por empresários do ramo de publicidade à equipe do então Presidente da República em troca da intervenção para que os primeiros saíssem vencedores em licitações governamentais.
 
“Os recursos arrecadados por meio de propina eram depositados em contas fantasmas e utilizados para pagamentos de despesas pessoais de FERNANDO COLLOR, OSVALDO MERO SALES e CLAUDIO VIEIRA.
 
“Os depoimentos de JUCINEIDE BRAZ DA SILVA (fls. 1408/1409 e 4821) atestam que o pagamento de pensão alimentícia de seu filho com o denunciado FERNANDO COLLOR era realizado por OSVALDO MERO SALES e CLÁUDIO VIEIRA, em nome do ex-Presidente.
 
(…) “O que se convencionou chamar de “contas correntes fantasmas” foi um mecanismo idealizado pelo grupo para dissimular a origem ilícita e a movimentação dos ativos financeiros, emprestando-lhes a titularidade de pessoas inexistentes.
 
“Quanto à autoria do fato, os depoimentos acima citados e os laudos grafotécnicos e contábeis realizados conferem a certeza da efetiva conduta do réu na prática do ato delituoso, ou seja, que o então Presidente da República, FERNANDO COLLOR, comandava as operações por meio do “testa-de-ferro” OSVALDO MERO SALES.
 
“Com efeito, é inadmissível acreditar que um esquema que movimentou vultosas quantias, beneficiando diretamente o denunciado, não tenha participação do mesmo. Todos os depoimentos creditam a atuação do grupo à figura do ex-Presidente".
 
“O Secretário Particular da Presidência e o Adjunto, em nome do Presidente, por meio de contratos de publicidade governamental fraudulentos promoveram desvio de verbas públicas em favor de empresas de publicidade, mediante o pagamento de propina, fazendo uso de contas bancárias e cheques com titularidade de pessoas inexistentes, para beneficiar o então Presidente da República."
 
“É certo que a ligação do ex-Chefe de Estado com os delitos aqui narrados não se limita à autorização para contactar o empresariado em busca de dinheiro e à ciência do que era conseguido, uma vez que o saldo das contas ideologicamente falsas custeava as despesas de Collor e de pessoas próximas, inclusive o pagamento da pensão alimentícia a seu filho, por exemplo'.
 
“A conduta do denunciado amoldou-se perfeitamente aos tipos penais descritos nos arts. 312, 317 e 299, todos do Código Penal, uma vez que, em seu benefício foram desviados recursos públicos por meio de licitações direcionadas a determinadas empresas do ramo de publicidade, em troca de vantagem indevida – propina – que era administrada e movimentada em contas-correntes abertas em nome de pessoas fictícias ou inexistentes.“Por fim, vale destacar que o presente caso é absolutamente diverso de outros procedimentos já arquivados perante esta Corte, sob o argumento de que não havia indícios de participação de FERNANDO COLLOR."
 
“Na Ação Penal nº 307, por exemplo, o ex-Presidente foi denunciado por fatos relacionados à cobrança de propina para nomeação do Secretário Nacional dos Transportes e para concessão de empréstimo à VASP, bem como ao financiamento de campanha eleitoral pela multinacional Mercedes-Benz”.
 

domingo, 16 de diciembre de 2012

Da festa à revolta. Sobre a necessidade de abandonar a didática do civismo

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Por Alex Martins Moraes e Juliana Mesomo
 
Jovens cientistas do mundo, agora fisicamente em Porto Alegre, para gáudio de todos nós. Breve currículo de ambos ao final. Outros textos com fotos ilustrativas no blog Porta Prosas, de onde pescamos este trabalho, AQUI.
 
 
 
As ideias de defender, ocupar, retomar, etc. o que é público têm motivado alguns grupos a intervir em determinados lugares da cidade de Porto Alegre.
 
Estas ações festivas pretendem contestar a forma como as autoridades municipais vêm administrando esses espaços. Os cartazes levados pelos manifestantes ao Largo Glênio Peres, ao Parque da Redenção e ao Paço Municipal denunciam o cerceamento dos seus usos possíveis, sua privatização. Se estes movimentos conseguem identificar com clareza a lógica subjacente ao atual modelo de “gestão” urbana, faltaria ainda avaliar os conteúdos e efeitos das suas próprias práticas de/na cidade.
 
Por detrás das manifestações promovidas parece pairar uma noção mais ou menos abstrata de “espaço público”. Talvez seja justamente o caráter abstrato das consignas que garante, em cada ato, a presença de um público tão heterogêneo –pelo menos à primeira vista. Mas o que é, afinal, o “espaço público” que se pretende “defender”? É algo que realmente existe, como uma coisa que “está ali”? O que ele integra ou exclui? Quem o enuncia, como e para quê?
 
Antes de qualquer coisa é preciso devolver o espaço público ao seu lugar, o de ideologia. Esta é uma postura necessária se não quisermos nos contentar com bandeiras políticas estanques para terminar fazendo o jogo dos urbanistas de plantão, sempre dispostos a ensinar-nos como usar “adequadamente” a cidade. Mas o que significa dizer que“espaço público” é uma construção ideológica?
 
Significa, nada mais, entendê-lo como uma ferramenta discursiva construída para legitimar determinadas formas de apropriação coletiva dos lugares. Assim, quando reivindicamos e nos propomos a defender o espaço público, estamos dizendo algo sobre nós mesmos, sobre as práticas e moralidades que achamos convenientes para fundamentar o convívio social. “Espaço público”, portanto, consiste num conjunto de regras, valores e posturas que pessoas e instituições procuram introduzir no plano do real de acordo com seus próprios interesses e lançando mão de todos os meios ao seu alcance.
 
O primeiro ato da Defesa Pública da Alegria culminou com um desagravo violento à instalação do mascote da Copa do Mundo/Coca-Cola em pleno Centro da cidade. Foi então que a força policial e os meios de comunicação nos confrontaram com a sua própria concepção de espaço público. Para eles as ruas de Porto Alegre são o cenário do encontro entre grupos sociais que, apesar de manter interesses antagônicos entre si, devem manifestar-se pacificamente e argumentar racionalmente, sob a tutela do Estado neutro, capaz de ouvir a todos. Notamos que a premissa fundamental para a ocupação ideal deste “espaço público” era a seguinte: a violência não está permitida e, se usada – pasmem! – pode ser reprimida violentamente.
 
Essa experiência pública de pedagogia policial e midiática nos fez concluir que devemos abrir mão do conflito e da violência, em nome de uma “cidade amável e bem cuidada”. Bem aprendida a lição, depois do episódio do Tatu nos tornamos multiplicadores das práticas de bem (con)viver. Agora vamos às ruas mostrar a todos que queiram ver– especialmente a “opinião pública” – como o bom-cidadão-de-classe-média-(branco)-bem asseado-sorridente pode ser inclusive útil para a difusão dos valores cívicos e a promoção da segurança urbana.
 
No ato de defesa da redenção (30/11/2012), em frente ao Araújo Viana, o que aconteceu foi uma aula pública de civismo: ninguém pensou em cruzar qualquer cerca, limpamos todo o lixo e celebramos a paz social e a endogamia de classe. Até as grades em torno do auditório, razão maior de nosso descontentamento, foram incorporadas ao mobiliário urbano, convertidas num criativo e inusitado estacionamento de bicicletas. No fim das contas, em que ponto a nossa atual ideia de espaço público confronta aquela operada pela mídia e pelo poder municipal?
 
Essa didática do civismo – que ajudamos a implementar com rituais em forma de festas e piqueniques destinados a sacralizar o parque e as grades, a exorcizar a cidade de toda presença conflitiva e a convertê-la, finalmente, em “espaço público” –serve de suporte, ao mesmo tempo ético e estético, que justifica e legitima o que mais adiante se tornarão normativas para a “conduta cívica”. Não é difícil imaginar quem fica excluído desse “espaço público” que estamos querendo instituir, desse “balé cordial de ciclistas sorridentes, de recolhedores de dejetos de animais e de passantes educados, incapazes de jogar uma ponta de cigarro no chão” (Ver Manuel Delgado, “O Mito do Espaço Público”: http://www.goethe.de/mmo/priv/2972847-STANDARD.pdf).
 
A Defesa Pública da Alegria escolheu o formato “festa ao ar livre” para mediatizar sua concepção de“espaço público”, para torná-la concreta, material e vivível. Isto é louvável, já que a festa e a revolta são duas coisas muito parecidas, até mesmo homólogas. O ritual festivo pode conduzir ao limiar da ordem; uma vez ultrapassado esse limiar, as coisas dificilmente voltam a ser como eram.
 
Embalado por cantorias e danças, o esvaziamento do Tatu derrubou o consenso estabelecido em torno da ideia de que a Copa do Mundo era um “bem-em-si” e, portanto, algo indiscutível. As forças necessárias para essa irrupção violenta e transformadora do dissenso foram sendo acumuladas no decorrer da festa, através das interações, convergências, compromissos e engajamentos possibilitados por ela.
 
A festa fez relampejar, ainda que fugazmente, a visão de outra cidade possível, engendrou vida social e transformou as forças da ordem numa frágil alegoria. Neste momento vimos desabar temporariamente a ideia de um “espaço público” que é cenário de fluxo e uso, mas nunca de transgressão, intervenção, quebra, destruição, modificação.
 
Infelizmente, a ocupação da Redenção significou uma nítida inflexão da Defesa Pública da Alegria em direção à apologia do “espaço público” pacificado. Será que o sangue e o gás conseguiram restaurar as regras do “civismo” no seio do movimento? Será que as grades do Araújo Viana impõem mais respeito e legitimidade que um boneco de plástico instalado em pleno Centro? Ambos não são símbolos monumentais de uma mesma lógica de gestão neoliberal e privatista? O fato é que a incorporação da didática do civismo operou para suprimir, no interior deste coletivo heterogêneo, as formas de dissidência subversiva que o discurso da ordem havia rotulado de “violentas” ou “incívicas” – e, portanto, ilegítimas, posto que desmentem ou desacatam o normal fluir da vida pública, declarada amável e não-conflitiva.
 
Enquanto o argumento do civismo e a fé num “espaço público” pacificado forem nosso salvo-conduto para barganhar a anuência da “opinião pública”, podemos abrir mão de qualquer horizonte transformador.
 
A festa será a eterna celebração de um dócil ritual de desacordo, mas jamais se tornará revolta.
 
 
 
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 Alex Martins Moraes: É cientista social. Graduou-se em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cursa Mestrado Acadêmico em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como pesquisador no Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACi) onde desenvolve estudos na área de migrações contemporâneas com foco no debate sobre tecnologias de governo das populações e construção social da diferença. É membro fundador do Grupo de Estudos em Antropologia. Para debates: alexmartinsmoraes@gmail.com
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Juliana Feronatto Mesomo: É graduada em Pedagogia-Licenciatura pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência com docência na Educação Básica e com a pesquisa em Educação, com ênfase nos Estudos Culturais em Educação. É membra fundadora do Grupo de Estudos em Antropologia. Debates: julianafmesomo@gmail.com

sábado, 15 de diciembre de 2012

Corinthians x Chelsea, a véspera do bando de loucos; n'A Charge do Dias

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Um sábado cinematográfico na capital dos gaúchos, muito sol, temperatura no ponto (28º C, quando começamos a escrever), alegria por onde quer que se passe. Porto Alegre começa em festa o fim-de-semana.

Gaúchos são aqueles caras do Sul que chupam um líquido de uma cabaça oval..., ah, nestas alturas o mundo todo já sabe. Um abraço especial da palafita aos boêmios de Angola, Miquirina Segundo em janeiro estará aí, merecidas férias. Levará chimarrão, erva-mate, complicação por algumas horas na alfândega, os funcionários dos aeroportos ficarão preocupados, a polícia violenta, imagine passar droga sem a sua comissão. Chegará bem.

O Contralouco se aproxima do botequim às dez da manhã. Os boêmios, espalhados em mesas na calçada, ao vê-lo, apenas entreolham-se, em silêncio que diz muito. O Contra de óculos-escuros e todo azul nas vestes: calça social, sapato social, paletó às costas, gravata azul mais forte e... sem camisa, com uma garrafa de cerveja na mão. Em tempos de latinhas e latonas, estranharam a garrafa. Vem olhando para o céu. Quando chega às mesas da calçada, sem tirar os olhos do céu empina o resto da loira e joga a garrafa no lixo a oito metros. Solta um rugido, comemorando a cesta de longe do garrafão, e entra no botequim, pegar mais uma ou coisa que o valha.
 
Tigran comenta baixinho na mesa da ponta: "Sabem se o Contra está brabo com a gente? Nem cumprimentou...".
 
Dois estranhos, no outro extremo da calçada do bar, perceberam os olhares cúmplices dos amigos. O mais velho sussurra pro outro: "Cuidado com esse cara que entrou, é meio tantã".
 
De lá de dentro ouve-se a voz firme do Contralouco: "Não cumprimentei porque não vi vocês, meus amigos queridos, tava vendo uma coisa lá pros lados da Estrela da Alvorada, hoje eu preciso encontrar uma vênus, linda, que se pele só pra mim, mas deixa acertar uma coisa aqui com o Portuga que já vou praí. E vou avisando, pro cara lá da ponta que me chamou de tantã, que não gosto que falem nas minhas costas, na próxima vez me chame logo de louco, louco e de ouvido de cão, assim talvez eu deixe passar".
 
Pela última parte, congelou o ambiente. Clóvis Baixo faz cara de desagrado e, na dúvida sobre o que o Contra pretende fazer, diz pro cara que falou: "Meu, se quer sair daqui andando, cape o gato já". Os caras se mandaram.
 
Em alguns minutos o Contralouco sai para fora, com duas garrafas nas mãos. Olha para a mesa vazia onde estavam os estrangeiros: "Ué, achei que os parceiros iriam aguentar o tirão, Baixo, até resolvi pagar uma cerveja a eles pela valentia, foram embora mesmo? Uma pena, pois pensei melhor, gente, até que tantã é um nome bonito, instrumento de percussão".
 
Com o Contra já sentado, Jezebel do Cpers pergunta, enquanto mexe no seu martini com o palito de pepino cravado: "Cadê a tua camisa, meu amor?".
 
"Camisa? Ah, a camisa, azul-clarinha, pra fechar com o resto marinho. Ã... (se olha) dei pro Negrote quando passei agora há pouco pela sua moradia, reclamou que tá mal de roupas, roubaram as dele durante a noite. Não quis voltar em casa, aí fiz um adiantamento, mas daqui a pouco vou ali em casa e levo uma mala pra ele, o verão tá chegando, não vou precisar de muita roupa".
 
Os boêmios entendem: o Negrote é um velho sem-teto que mora embaixo do Viaduto dos Açorianos. É convidado de honra - bóia e trago de graça - em todos os churrascos, almoços e jantares da confraria. Isto é: todos os dias. Mas não é chiclé, aparece de meio-dia ou de noite, nunca ambos, e fica na dele.

Como todos sabem que para o visionário Negrote todo dia é dia de um bicho, Wilson Schu pergunta: "O que o Negrote disse de hoje, é dia de quê?".

"Da cobra".

"Ui", exclama Jussara do Moscão.

O Contralouco resolve tomar as duas cervejas - vez que a turma ainda está nos aperitivos, losninhas e butiás, e o papo segue de onde estava antes da chegada do companheiro.
 
Lúcio Peregrino ergue o rosto do notibuc. Nicolau Gaiola pressente o perigo: "Já sei, agora as notícias que tu lê e inventa, aumenta, distorce, mas hoje tem dó, nada de política".
 
Marquito Açafrão se adianta, já pensando na fase seguinte, depois das notícias: "Corto o pau se todas as charges não tratam daquele dinossauro paralítico, vamos pular essas depois, gente".
 
"Concordo, nada de Sarney, ninguém merece", diz Aristarco de Serraria.
 
Lúcio Peregrino anuncia: "Pessoal: notícias do notibuc! A primeira é compridinha, aguentem", e se põe a ler.
 
- O ladrão chefe da máfia dos pareceres, o ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA) Paulo Vieira, quer negociar uma delação premiada com o Ministério Público. Ameaça contar detalhes do esquema e envolver novos personagens no escândalo revelado pela Operação Porto Seguro, que também derrubou a Rosemary do Lula. O lalau disse que não sairá do caso como chefe da quadrilha, afirmando que o chefe mesmo é gente “mais graúda”. O cagado teme se tornar um Marcos Valério, que recebeu promessas de proteção dos chefões e acabou sozinho. Não é pra menos, o seu Paulo foi indiciado por crimes de corrupção ativa, falsidade ideológica, falsificação de documento particular e formação de quadrilha. Ainda não está claro se o bandido é homem do Lula, do Dirceu, do Antonio Palocci ou do Marco Maia. Voto no Dirceu.
 
"Mas que droga, Lúcio, implorei para não falar em política...", resmunga Nicolau, visivelmente contrariado.
 
"São as notícias, Nicolau, não sou eu que as faço, eu só ajeito a redação. E não falei em política, falei de criminosos, assaltantes". Atenção:
 
- Lucinho das putiangas, este locutor que vos fala, a partir deste instante é torcedor fanático do Corinthians, que é o Brasil, isto porque os europeus não passam de uns filhos da puta. Nem vou falar da Inglaterra, os pais da águia assassina americana. Ouçam o que  disse o jornal madrilenho El País:
 
El Chelsea barrió al Monterrey y se metió en la final del Mundial de Clubes. Eso del Mundial de Clubes suena bien en otros espacios geográficos, pero no aquí. Aquí damos por sentado que el mejor equipo de club del mundo es el campeón europeo y si acaso estamos dispuestos a discutir tal condición con el campeón americano. Antes, en la Intercontinental, ahora en este Mundial de Clubes en el que entran como teloneros los campeones de otros continentes. Nada que inquiete al campeón europeo, que si pierde con el suramericano, cosa que pasa a veces, lo achaca al viaje o al desinterés.
 
"Canalhas", diz Jussara do Moscão.
 
- E isso não é a opinião de algum espanholzinho de merda, é a opinião de um dos maiores jornais de Espanha. Vão disputar o Mundial só por ir, se acham os melhores por serem europeus. Esquecem que todos os times da Europa são tapados de atletas brasileiros. Se perderem será por "cansaço da viagem ou desinteresse". Hipócritas, mentirosos. Deram um pequeno parágrafo para o São Paulo, dizendo que ganhou "um" título mundial interclubes. Do Corinthians nada, mas nada mesmo, nem uma linha.
 
O bar inteiro vira um bando de loucos corintianos.
 
"Se eu pego uns caras desses", diz o Contralouco.
 
"Ainda estão com a bunda doendo com o Inter, que atolou no trilionário Barcelona bem descansadinho e muito interessado", diz Clóvis Baixo.
 
"Eu tava em São Paulo em 2006, quando o Inter fudeu com o Barcelona. Garanto que toda a massa corintiana, e os paulistas em geral, torceram pelo Inter. Quem torceu contra foi somente um velho balofo da Band", diz Mr. Hyde.
 
"E os merdas dos nossos comentaristas esportivos dê-lhe a falar no 'Tielsi'. Babacas... querem ter sotaque daquelas grotas, é Xélsea, bundões", diz Paulinho Copersucar, esquentando de vez o ambiente.
 
Pronto, falar na decisão do Mundial foi o que bastou para acabar com o noticiário do Lúcio. Puxado por Chupim da Tristeza o bar inteiro entoa - e Cícero Bom Cabelo faz o seu violão parecer dez - a marchinha que contamina a todos que passam no Beco do Oitavo, que se ilumina em sorrisos:
 
Salve o Corinthians,
O campeão dos campeões,
Eternamente
Dentro dos nossos corações.
 
Salve o Corinthians
De tradição e glórias mil;
Tu és o orgulho
Dos esportistas do Brasil.
 
Leilinha Ferro aproveita a empolgação, e antes que algum maluco puxe novamente assunto de política, pede as charges do dia.
 
Aí veio a decepção matinal. Primeiro varreram o site A Charge Online (espetacular site), em seguida os jornais que puderam comprar na banca da República - a melhor do mundo -, por fim os jornais que puderam achar na internet, Lúcio é rápido no gatilho.
 
Nada. Nem uma charge, uminha que fosse, aludindo ao grande, histórico, confronto Corinthians x Chelsea.
 
O filósofo Aristarco tentou contemporizar: "De repente o pessoal está nervoso, medo de falar antes...".
 
"Não adianta, Ari, não tem explica. Não precisavam dizer que vai ganhar, pombas. Mas quem vai com medo acaba perdendo, se é medo que sentem", desabafa Marquito Açafrão.
 
"É, podiam ao menos mostrar um corintiano dando uma porrada no meio da cara dum inglês, já tava bom", diz o Contralouco.
 
"Sr. Contralouco, a Leila está gravando as conversas, vai tudo pro blog do Sala, isso é exemplo que se dê para a meninada?", critica Silvana Maresia.
 
"Ah, o pessoal sabe que falo só de brinquedo, Sil".
 
Enfim... Leilinha, quando enviou as obras para o blog, pediu que deixássemos um espaço para uma que aluda à grande decisão, talvez até a noite apareça algum artista do traço que seja corintiano ou brasileiro (esta foi do Walter Schiru, que pegou forte porque forte estava a oitava losna).

(Se vieram, vão duas, fora de concurso:

Amorim:

 
 
E Luscar:





Assim é que se faz, peito n'água).



Votaram e elegeram as obras do dia, por ontem e por hoje. De pronto quebraram a promessa de ignorar o jurássico paralítico que tem um marimbondo no rabo, alegando com simplicidade: "É que foi irresistível".

Na hora do anúncio das obras vencedoras, a noiva gostosa, linda, a rainha do bairro, que sempre passa no outro lado e não olha, short apertadinho, atravessa até o meio da rua, pára no canteiro e timidamente faz sinais para o Contra, diz com voz fininha: "Bruno, preciso muito falar contigo", ele pareceu não perceber. Estava de costas, distraído com o Gatolino no colo, com o vozerio da turma e o batuque e violões. Quando Aristarco, que estava de frente, pensou em dizer é contigo, ele em pé já largava o Gatolino nos braços da Jêze. Ajeitou a gravata, virou-se de frente e caminhou para o meio do Beco do Oitavo: "Estou indo, estrela da manhã".

"A Vênus desceu do céu", disse Jezebel, enquanto o engravatado sem camisa e aquele pedação de mulher (esta é do Lúcio), enfim livre de noivado da grana, sumiam abraçados pelo Beco da Fonte.

E Jezebel, Aristarco, Lúcio, Jussara, Hyde, Tigran, Silvana, Gustavo, Clóvis, Marquito, Wilson, Juca, Paulo, Carlos, Alex que chegava, todos os boêmios, pediram cerveja para todos, incluindo alguns estrangeiros chegados há pouco, em breve se somarão, se bons.

O menino Cícero Bom Cabelo - que a turma adotou, boêmio de primeira - começa aos poucos no violão, acompanhado apenas pelo pandeiro do Jucão da Maresia (se o grande Aguinaldo Loyo Bechelli visse, aplaudiria ao Juca, estamos certos), os atabaques ainda em silêncio:

Salve o Corinthians, o campeão dos campeões...

Vira carnaval.
 
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Ah, as obras: começaram com o mestre Nani.
 
 
 
 O Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).
 
 
 
O Samuca, do Diário de Pernambuco (Récife, PE).
 
 
 
 
E com o Nani. Só dá Nani. 
 
 
 
 
A coordenadora Leilinha Ferro também dobrou a sua participação, por ontem e por hoje.
 
Com o Pater, de A Tribuna (Vitória, ES). Aplausos do botequim para a menina. De fato, esta série do Pater é de arrasar, se tivéssemos homens em vez de reles predadores em postos-chaves da nação (o comentário é do redator, con permiso), as coisas seriam bem diferentes.
 
 
 
 
E com o Duke, de O Tempo (Belo Horizonte, MG). Recrudesce a desconfiança, entre os boêmios, de que Leila é mineirinha. Uai. Ela explicou a adesão ao tema proibido: "É que o pai vive dizendo que não quer morrer sem ver esse cara se... bem, se fofucar". "Sifuder!", ecoa o grito no bar, Jezebel em pé sorrindo. Aliás, Jezebel que falou mal do governador Tarsão, e disse que hoje tem assunto dos profes na Praça da Matriz. Pulamos essa parte.
 
 
 
 
(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)