viernes, 11 de enero de 2013

O gatinho e a Gatona

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Após vasculhar areia e mar, a turma desistiu.

Jezebel do Cpers comunicou: 

- Desculpe, Contra, mas acho que o Gatolino morreu, levado pelas ondas. 

Aristarco, corpo se dobrando para se jogar na onda, parou e voltou até a água pelos joelhos. 

- Isso não é coisa que se diga, Jêze. Só faltou dizer que o Contra matou o pobrezinho.

Ela piscou, apostava que o gato estava vivo, gato é gato, mas Aristarco seguiu de cara fechada, ora. Voltou para o mar e furou a onda, e se foi nadando. Aristarco de Serraria é um peixe.

- Não, agora me lembrei, ele saiu comigo de lá adiante, na volta da rebentação -, disse o Contralouco.

Clóvis Baixo, o tinhoso, vindo de carona com uma ondona, se chegou aqui na água pela cintura, gritando:

- Não morreu nada, roubaram o Gatolino!

E voltou para dentro do mar. Queriam enlouquecer o Contralouco. Ele quieto, sentado na areia molhada, mais sério que capincho, pensando em voz alta.

- Não, não roubaram, ele não vai, e eu mato a pessoa que..., ninguém roubou nada, ele que se perdeu, é novinho, de repente está chegando em Torres a nado. 

E ficou murmurando "não roubaram não... não...", enquanto pensava.

Então surgiu a gata. A rainha do Quintão, 34 anos, divorciada, deusa branca dentro de um biquini roxo de duas peças, idolatrada à distância pelos boêmios do Bar dos Amigos, do Bar do Piroca e do Yes, e de toda a praia, se aproximou e sentou na areia, ao lado do Contra: 

- Desculpe, foi tu que perdeu um gatinho?

- Perdi. Puta que pariu, branca, não sei o que aconteceu, a gente entrou no mar, furamos ondas..., depois voltei pro bar, lá adiante ó, está vendo, e foi cerveja, churrasco e papo, e não vi mais ele... Não posso ter perdido no mar. 

O Contralouco respondeu com o olhar distante.

- Tu é o Bruno, né, Bruno Contralouco, o cara que bateu de porta em porta pedindo tabuleiros de xadrez emprestados...? Por que Contralouco?

- Ah, apelido de infância, nem sei a razão. Sim, fui eu, mas os tabuleiros eram para os amigos, eu não jogo muito bem, é pá e teve, e no teve normalmente eu mifu.

- Não se lembra de mim?

- Bem, não sei, desculpe... a correria.

- Tu bateu lá em casa, quase derrubou a porta, eu estava sozinha, no banho, depois me disse que uma menina bonita como eu não te deixaria na mão, emprestei um pequeno tabuleiro magnético... Foi quando desandou uma chuvarada.

- Bah, na hora do toró? Peguei água do céu, moça, água da chuva limpa a alma da gente. Então era tu a bonitona?

- Você parecia criança tomando banho de chuva, rolando na grama com o cachorro da vizinha, um milagre, pois aquele bicho é uma fera de brabo. Tá famoso na cidade, o cara que anda em via-sacra pelos bares, com um gato no ombro. Leite pro gato e cerveja pro dono...

- Cachorro basta ir pegando de amor, guria, normal. O Gatolino é muito novo pra tomar cerveja. Tou ensinando a falar, mas por enquanto só sai miau. Putz, onde será que se meteu o Gatolino? Não pode ter morrido afogado, tem sete vidas, hoje recém tá gastando a segunda, a primeira queimou ainda nenê, quando impedi que afundasse no bueiro, num dia em que Porto Alegre quase submergiu de tanta chuva.

Nessas alturas os boêmios estavam concentrados na frente do Bar dos Amigos, vendo ao longe a rainha de papo com o Contra. 

Clóvis Baixo abriu o buquimequi a 20 pilas: casa na festa ou não casa na festa. Deu maioria pelo casa na festa, 18 a 11.

- Teu gatinho é amarelinho com branco?

- É!

- Moço, desculpe, eu fui malvada em demorar a contar. Perdoe-me, é que eu queria ter certeza, tu não é o primeiro que perde algo aqui. O teu gatinho está ali adiante, a uns 300 metros, com a minha mãe. Meu nome é Ingrid. Vamos lá buscá-lo?

- Oba! - exclamou o Contralouco -, e deu-lhe um beijo no rosto.

- Qual é a raça dele? -, ela perguntou.

- Sei lá, a Jêze diz que é marca diabo.

Levantaram-se, e aos primeiros passos ouviram o coro de incentivos, em altos brados, vindos lá da frente do Bar dos Amigos: "Pega na mão, gelado!", dos que apostaram na opção casa na festa.

Mr. Hyde, a fim de dividir os R$ 580,00 por 11, trovejou com seu vozeirão: "Cuidado, rainha, ele é procurado pela polícia!".

O Contra enrubesceu, mas não se deu por achado. 

- Moça, me dá um abraço, para calar aqueles palhaços?

Ganhou o abraço colado. Em seguida, por razões que desconhecemos, porém suspeitamos, se beijaram. Dizem os antigos moradores que a brisa marítima do Quintão favorece encantamentos amorosos.

Seguiram buscar o Gatolino, de mãos dadas.

jueves, 10 de enero de 2013

Eike Maravilha von Minério, ou Vidinha de merda, na equivalência patrimonial, n'A Charge do Dias

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Após uma parada forçada, a coluna A Charge do Dias retoma seu árduo trabalho, para alegria geral dos boêmios do Botequim do Terguino, que continuam na Praia do Quintão, tomando todas as geladas do Bar dos Amigos, do Joel, nestas alturas já "velho" amigo Joel, o proprietário.

O dia foi de Carlinhos Adeva, os empinantes se curvaram e a palafita também se curva ante a sabedoria do nobre causídico.

Deu-se que Carlinhos leu não sei onde que a empresa de um ricaço foi multada em alguns bilhões, por ganhos de capital não submetidos à tributação segundo as leis do Brasil. Só a notícia do auto de infração, o imposto devido mais multa e juros, e a quem foi imputado, já causou um rebuliço no Bar dos Amigos, alegria e abraços. Muitos brindes aos fiscais do Leão.

- Deus existe -, suspirou Jezebel do Cpers.

- Taí - disse Aristarco de Serraria -, além do negócio ter começado com maracutaias, no passado, é assim que eles aumentam a riqueza. Quantos hospitais daria para construir com esses bilhões, quantas escolas, alguém tem uma idéia?

- Se eu pego um cara desses -, disse o Contralouco.

Aí o Carlinhos meteu-se a falar de tecnicalidades, a turma ficou boiando, nós idem, mas vale resumir:

- Foi um amigo meu que inventou o planejamento tributário utilizado pelos mandriões, há uns 30 anos, só que aquilo é para quem sabe fazer, não é para qualquer consultoria multinacional, estas só têm nome, no fundo não surfam nada. Consiste em transformar em não tributáveis lucros pela venda de ativos. Isso mesmo: puros lucros, que mereceriam até alíquota de tributação maior, podem ser transformados em resultados não tributáveis, através de operações de cisão e incorporação de empresas y otras cositas más. No fundo, o velho ganho de capital por variação no percentual de participação, ou seja, equivalência patrimonial. É possível ainda, mas há que se tomar precauções, uma delas é diminuir a ambição, e é aqui que em geral eles capotam na curva.

- Pára de falar aramaico, Carlinhos, não pode explicar isso em português que se entenda? -, reclamou Nicolau Gaiola, o nosso ator e teatrólogo.

- Infelizmente não dá, Nico.

Lúcio Peregrino, o homem das notícias do notibuc (notícias populares, esse papo do Carlinhos ele nem viu), muda o rumo da conversa:

- Viram o monstro que descobriram, a lula que...

Clóvis Baixo voltava do banheiro e pegou o bonde andando:

- Puta que pariu, não me estraga o dia, meu, ora falar de chefe de quadrilha... Cada vez que ouço o nome desse elemento lembro que o SUS é de primeiro mundo, claro, no Sírio Libanês os corredores não estão superlotados de pessoas morrendo. O que é dele está guardado...

- Se eu pego um cara desses -, diz o Contralouco.

- Gente, eu só ia dizer que cientistas japoneses conseguiram filmar uma lula gigante, outro animal, o do mar, a 630 metros de profundidade. O bicho tem três metros de comprimento, é muito misterioso, gosta de ficar nas profundezas, no escuro, mexendo seus enormes tentáculos.

- Igual o outro -, disse Mr. Hyde.

Com essa, Miss Leilinha exige o envio imediato das obras do dia, antes que o blog estrague novamente.

Ela deu o exemplo, escolhendo a sua: Amarildo, da Gazeta Online (Vitória, ES).





Os boêmios quase perderam o bom-humor, com o Enio, da Gazeta de Alagoas (Maceió, AL). Gustavo Moscão e Contralouco proferiram adjetivos impublicáveis sobre a justiça em geral, em especial a um tal de tourinho. Jucão da Maresia matou:

-  O Brasil, amigos, segue sendo o bordel dos larápios.

- Bordel de oitava catega -, apressa-se a esclarecer Jucão.

- Como toda a América Latrina - diz Jussara.

Silvana Maresia faz um ar patético, de tristeza impotente, pega a menina pela mão e diz: - Vamos ao mar, Camila, vamos, Juca; gente, vamos todos desopilar no Atlântico?





E chegaram na obra do Nani. Por esta, por alguma razão, desde às nove da manhã, quando voltou do mar, Carlinhos Adeva estava em campanha, imprimiu e mostrava a todo mundo. Tigran Gdanski reclamou que ele escolheu logo uma que não precisaria de campanha alguma, e a turma foi unânime na escolha, vai para a parede do bar, com moldura doirada. Mas Carlinhos tinha algo em mente, advogado é bicho estranho...

- Sei não, vai que o artista esteja dizendo o mesmo que disse Carlinhos antes -, falou Aristarco de Serraria.

Vá entender.





Com a anuência da Leilinha, os beberantes cederam ao Joel do Bar dos Amigos o direito de escolher uma. Ele emocionou-se com o que chamou de honraria, e chamou a mulher e as filhas para ajudar. Ficaram com o Paixão, da Gazeta do Povo (Curitiba, PR).

- Olhaí, a Dilmeca Pagã! -, exclamou o Contralouco.

- Tu entendeu mal antes, Contra, é Apagã - corrigiu Wilson Schu.





Sai todo mundo voando para o mar do Quintão. Crianças pela mão, bonecos para nadar, nada muito rico, mas que mar, uma beleza. Todos empacam ao grito do Contralouco:

- Pára! Alguém viu o meu Gatolino?

De fato, chegou no bar, de volta do banho, sem o gato no ombro (nunca ninguém na Praia do Quintão tinha visto coisa igual, um gato que anda no ombro do dono, feito pássaro).

Pararam de chofre.

Jezebel do Cpers, a mais velha:

- Contrinha querido, lembra de quando viu o Gatolino pela última vez?

- Quando entramos no mar, furamos onda e tudo, fui até depois de rebentação.

- Ai, ai, ai, então vamos já ao mar - disse ela.

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(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)

miércoles, 9 de enero de 2013

Último samba-canção

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Hoje tem festa na casa da aboleradíssima Isolda Bourdot (São Paulo, SP, 9/1/1957).

Aqui na belíssima voz do seu inesquecível irmão Milton Carlos, com o seu Último samba-canção (parceria com o próprio Milton). O Milton cantor, moça, sem demérito a ninguém, era, ainda é, mil a zero nos Cobertos Ralos da vida. Milton, como ninguém, Isolda, canta você, canta a tua alma sublime.

Com direito a instrumental variado..., o maestro-arranjador merece prêmio também, pancadas de contrabaixo-surdo ao longe... assim me mata.


Tintim. Saúde, Isolda!
  

martes, 8 de enero de 2013

Bronzes e Cristais

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Pery Ribeiro, que o Brasil perdeu recentemente, traz o clássico de Alcyr Pires Vermelho e Nazareno de Brito, duas glórias nacionais que este blog não se cansa de reverenciar. Hoje três, com o Pery. 

Alcyr, aliás, que hoje estaria de aniversário (8/1/1906).

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sábado, 5 de enero de 2013

Noite de Reis

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Segundo a tradição cristã, o Dia de Reis ocorre na noite do dia 5 e madrugada de 6 de janeiro.

Já nos emocionamos demais com o Natal, que seria em verdade em 6 de abril, ou 5 ou 7, ou 4 ou 8, ou 15 ou 23, vá saber, coisas duvidosas, mas em abril, e lembramos somente um tango, além das míticas figuras dos magos perdidos naquele deserto. O Dia de Reis, nesse caso, cairia pelos fins de abril ou início de maio. Se 6 o nascimento de Jesus, a hipótese mais correta pela ciência atual, os queridos viajantes teriam chegado em meados de abril, 16 ou...

Vá lá, o Flavião, que foi uma bicha louca, ...

Peço tempo: nada contra as de verdade, este era malvado, ora, não o criticamos pela opção sexual, é como dizer aquele branco ladrão do ministério da Dilma. O "bicha", sinônimo carinhoso da opção (no caso não é carinhoso, mas pelo que vem depois), é um fato, não inventei,

Já passa da hora das pessoas pararem de ficar se doendo com palavras comuns no lero do povo. 

O desconforto não está nas palavras, está no modo como alguns as pronunciam, o desrespeito, atos de maldade até, como fazem os donos do Brasil em relação ao povinho que os sustenta, como diria Alex. O bundão âncora da "grobo", aquele rebocado de quilos de pinturas de cabaré, diz povo, mas pensa esse povinho de merda. O bial, psicopata da hipocrisia, chama o povinho de herói, ai que nojo, quando diz isso quer dizer é que ele e a sua bunda seca, louca, é que são heróis, heróis em quê?, em dar tudo quiçá, mamar os cães da falecida. Vou vomitar, já volto.

Voltei, passou. Falei aquilo com desprezo, me fez mal, esqueçamos essa gentalha.

Meus amigos homossexuais têm o meu respeito e de todos os que os cercam, porque são pessoas que merecem respeito. Todos merecem respeito, como as vítimas que erram, provocadas por esse sistema desigual desse Congresso de algibeiras.

Agora, as bichas loucas, dito assim com alegria e boa voz, ora, muito dançamos no Bar do Nadir, tocando violão e jogando sinuca até amanhecer, na maior felicidade, sem que ninguém avançasse o sinal. Meus amigos homossexuais sabiam que meu negócio era outro, o do Pato o mesmo outro, do Marcão idem. Como sabíamos das suas lágrimas solitárias e eventuais amores, ainda que só por tesão. Somos gente, humanos, pombas, não somos ratos, nos respeitamos.

Falar em ratos, lembrei novamente do congresso. Voltemos a Noite de Reis. Boa noite e adiós, índio maia.

Bem, a louca, um antepassado do pai do Thor, aquele deus, decidiu que era 25 e fim. Cliquem no Flavião e compreendam, amigos.

Ufa, por falar nisso, não aguento essa de chamar de afrodescendente os "negão" meus amigos, só habitantes da palafita são seis, nunca chamei de afrocaralho nem nada, quando a gente bebe junto os chamo de negada, tive que salvar vocês, seus viados, ao que respondem nós é que fugimos da guerra pra vir te proteger, branco abobado, tava pela sete. Hora para tudo. Mas estes têm de 35 anos para cima, o mais velho 69, sabem tudo. Morremos de rir. Quando João da Noite e Carlito Yanés estão presentes, então...

Lembro-me, isto sim, dos amigos de infância que nunca mais vi. Era dizer (me fazendo, claro): "Ô, meu afrodescendente querido, que bom te ver, vamos tomar algumas, hoje te dou a seis e a sete livres, além da saída", e lá vinha um vai te catar, otário, pode até me ganhar na sinuca, mas que papo é esse, me chame de negão, "se criemo" juntos, esqueceu porque tá rico?

Tou não, meu amigo.



O tango fala de uma mulher infiel e de um falso amigo. Valham-nos Melchior, Gaspar e Baltazar, y Diós.

É de 1926, autores Jorge Curi e Pedro Maffia. O cantor é Carlito Gardel.

Abração ao Melchior e ao Gaspar.

Saravá, Baltazar.

Pobres de nós, aqui neste cantinho do universo, como saber de amores de reis mágicos.




Pensaram, amigos, que essa seria a última palavra? Ledo engano.

Não conhecem as mulheres então. Em todo o mundo as  putiangas saltaram, coração na mão, indignadas. E não faltou quem fizesse uma versão, quase tradução literal, para todas as línguas, mas mudando o gênero.

Mulher cantando.

No Brasil, uma delas foi Edith Veiga (Juquiá, SP, 15/2/1939), que felizmente ainda está entre nós. Espetacular cantante, que incendiou o Brasil e o mundo, do Rio Grande do Sul ao Japão, na década de 60. Já cantou aqui neste blog, com Faz-me rir (linda canção de amor) que dediquei com afeto à querida Dilminha, no faz-me rir o que andas dizendo.

Mania de mudar de assunto. Onde estava? Ah...

Edith Veiga também gravou o tango, como a ex-mulher do Herivelto, outra ótima cantora.

Ficou ridícula a gravação. Nada a ver com a excelente Edith, que estava trabalhando, precisava ganhar algum, como todos nós.

Ridícula porque fora de contexto geral, à época. 

Naquela época eu morava no covil -3, com -40 anos de idade, e pulei longe quando uma se veio, contrariada, falei de faca não, moça, por favor, largue isso, faca dá sangue, ergui os braços, e não me bata, depois tu sai correndo se fingindo de agredida, ai meu filho meu pai meu irmão me ajudem, ele me agrediu. Mentira, dona, eu fora. 

Em mentiras, traições e ciúmes não me meto. Deixo para Baltazar, Gaspar e Melchior, que uns preferem Belchior, dar exemplo ao mundo, pela andança, caminhada de sacrifício, pela crença em algo bom, seja o que for.

Nem em mortes. Salvo mudar de idéia, tem coisinhas que às vezes não me deixam dormir, raramente. Raramente nem tanto, e quando começa são semanas de sono perdido, cochilando dois minutos e acordando sobressaltado.

Os gritos que acordam os vizinhos são meus, de horror, porque me tocaram.

Diós y los  reyes magicos hão de me guiar.
 





Da série Ficções em dias injustos.

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Zeca Pagodinho e as "otoridades", n'A Charge do Dias

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No dia 10/1/2013 sanamos o problema de não conseguirmos postar imagens no blog, isto é, no futuro, vez que esta postagem é do dia 5. Indo a uma lan (máquinas de aluguel), ainda assim somente pelo tal de Chrome. De modo que o problema está nos computadores da palafita. Sendo as charges o grande lance da coluna idealizada por Adolfo Dias, confessamos, tristes, que demos uma broxada, sequer temos vontade de narrar as peripécias dos boêmios do Botequim do Terguino Ferro, no momento fazendo artes na Praia do Quintão.

Já pensamos em dar uns tirinhos na cara de Mr. Gugle, dono do blogger, isso de todo dia vir com uma "novidade", com o fito de assaltar os bolsos dos incautos, irrita, mas, sejamos práticos: não resolveria o problema, apenas nos livraríamos dessa mente(capto) obcecada por dinheiro, mas aí surgiria outro... a fila é imensa.

Os especialistas da NASA, com quem os nossos técnicos mantiveram contato, também ficaram mais perdidos que cego em tiroteio, ou como cachorro que caiu da mudança, como dizia o seu Brizola.

Hoje (5) os empinantes escolheram cedo e logo mandaram as obras. Duas são de cinema, e aconteceu algo raro: no mesmo dia, numa só tacada, as duas irão, emolduradas, para a parede do Botequim, em POA. Joel da praia, do Bar dos Amigos, resolveu adotar a prática dos beberantes  e também vai colocá-las na sua parede.

As duas que irão para a parede: Fausto, do Jornal Olho Vivo (Guarulhos, SP), a respeito do amado Zeca Pagodinho e certas "otoridades", e Aroeira, em O Dia (RJ), versando sobre o futuro do Lula.

Aroeira.






Cazo, do Comércio do Jahu (Jaú, SP).



Fausto, do Jornal Olho Vivo (Guarulhos, SP). 

Sobre esse cidadão brasileiro, Zeca Pagodinho (Jessé Gomes da Silva Filho, 4/2/1959, Rio de Janeiro, RJ), este blog está cheio de referências não apenas ao grande artista, a maior expressão popular desde Noel Rosa, mas também ao homem. Não nos surpreende o seu gesto. A coragem-bondade é o seu mundo, sabe que cada coisa tem sua hora, e na hora do pavor ajuda como pode, como sempre fez, há muitos e muitos anos, música para a meninada, gastando em violões, atabaques, trombones, cavaquinhos, de tudo, boa parte da sua renda, já que o governo não faz, governos que preferem enriquecer eikes maravilhas. Daqui de longe, só podemos dizer: Bravo, Viva, Zeca! 







Pelicano, do Bom Dia (São Paulo, capital).





E a escolha da Leilinha: Duke, de O Tempo (Belo Horizonte, MG).







(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)


viernes, 4 de enero de 2013

Por que público foge da TV aberta

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Matéria pescada do BLOG DO TURQUINHO
 
 
 
Conforme notícia divulgada pela Folha de São Paulo nesta semana, a Rede Globo fechou o ano passado com a pior audiência de sua história. Segundo dados do Ibope, em 2012 ela teve, em média, 14,7 pontos (cada ponto equivale a 60 mil domicílios).
 
A emissora ainda amarga o pior índice em seu principal programa jornalístico, o Jornal Nacional, que, ano passado, teve média de 28,1 pontos contra o pico de audiência, que ocorreu em 2006, de 36,4 pontos.
 
Todavia, é equivocada a percepção de muitos de que se trata de um problema isolado da Globo. Houve queda de audiência de todas as TVs abertas no ano que passou em relação a 2011.
 
Apesar de a Globo ter fechado 2012 com 14,7 pontos contra 16,3 em 2011, a Record teve 6,2 pontos contra 7, 2, o SBT 5,6 pontos contra 5,7, a Band 2,5 pontos contra 2,5 e a Rede TV! liderou a queda, tendo perdido 37% de sua audiência no ano passado, tendo cravado 0,9 pontos contra 1,4 em 2011.
 
E não foi só. O número de aparelhos ligados em televisões abertas caiu perto de 5%.
 
O resultado negativo mais “vistoso”, claro, foi o da Globo, que, ao longo da última década, vem perdendo mais audiência do que as concorrentes, sobretudo devido ao avanço da Record e à forte perda de audiência do Jornal Nacional.
 
Sobre o ainda mais assistido telejornal do país, a perda de audiência acima da média certamente se deve, em boa parte, à utilização do informativo como arma na incessante guerra da Globo contra o governo federal e o PT.
 
A cobertura do julgamento do mensalão, por exemplo, irritou profundamente até o público que não gosta do PT. Tentando influir a qualquer preço na eleição municipal do ano passado, sobretudo na de São Paulo, o núcleo de jornalismo da Globo, às vésperas do segundo turno, produziu um dos maiores absurdos que se viu na televisão brasileira.
 
Em 23 de outubro, a uma semana do segundo turno, logo após o horário eleitoral gratuito, o Jornal Nacional levou ao ar uma matéria que teve duração só comparável às coberturas de grandes catástrofes como a de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, nos Estados Unidos, quando terroristas derrubaram as Torres Gêmeas do World Trade Center.
 
Dos 32 minutos de duração da edição do JN naquele dia, 18 minutos foram gastos com o julgamento. E o que é pior: não houvera absolutamente nada de especial, naquele dia. Assim, o telejornal se limitou a importunar o telespectador com “melhores momentos” do julgamento.
 
Aliás, o ineditismo do tempo gasto na reportagem foi de tal monta que virou até matéria de jornal no dia seguinte, na Folha de São Paulo, e ainda gerou representação da ONG Movimento dos Sem Mídia ao Ministério Público Eleitoral acusando a emissora de fazer uso político de uma concessão pública em período eleitoral, contrariando a legislação.
 
O julgamento do mensalão foi tão martelado por toda a programação da Globo que passou a ser comum ouvir pessoas comentando que não agüentavam mais o assunto. Contudo, a queda mais pronunciada de audiência da Globo e do JN se deve a um processo mais amplo.
 
Outras emissoras não se beneficiaram da queda de audiência da Globo porque também incorrem em manipulação de notícias, mas, acima de tudo, porque todas as emissoras abertas insistem em uma programação que qualificar de medíocre soa até benevolente.
 
O público que pode, foge para a televisão a cabo. Quem não pode, recorre à internet. Sobretudo para se informar.
 
Agora, por exemplo, está sendo anunciado que o Brasil voltará a ser assolado por nada mais, nada menos do que a DÉCIMA TERCEIRA edição do Big Brother Brasil, com bebedeiras, promiscuidade e mediocridade invadindo nossos domicílios.
 
Alternativa ao BBB? A Record apresenta algo ainda pior, uma cópia malfeita, mais brega, ainda que menos promíscua: o reality show A Fazenda.
 
Novelas? Apesar de Globo e Record, acima de todas, reunirem bons elencos, as tramas são sofríveis, repetitivas. As histórias são sempre as mesmas, com pequenas variações. Ainda que o público para essas porcarias ainda se mantenha, vem diminuindo percentualmente em relação ao conjunto da população.
 
O progressivo aumento do nível de escolarização e cultura do brasileiro vai provocando fuga de uma programação cuja produção chega a ser cara só para produzir lixo cultural em estado puro.
 
Para que se informar pelos telejornais se, pela internet, você fica sabendo antes das notícias e ainda pode ter acesso a diversos ângulos delas?
 
No Jornal Nacional, por exemplo, o espectador sofre tentativa de manipulação, com notícias distorcidas sob interesses políticos e econômicos e, em geral, não fica sabendo do outro lado da moeda.
 
Há cada vez mais gente, portanto, produzindo seus próprios informativos pela internet. Hoje você pode montar uma rede de sites e blogs nacionais e internacionais e se informar em muito maior profundidade.
 
Claro que ainda é restrito o contingente de pessoas que montam seu portfólio informativo com base em critérios mais racionais e via internet, mas esse contingente cresce de forma exponencial.
 
O que ocorre no Brasil é uma tendência mundial. Nos EUA, por exemplo, a televisão aberta tem baixa audiência, muito mais baixa do que no Brasil, percentualmente.
 
Agora, a cereja do bolo: nos próximos anos, as operadoras de telefonia deverão começar a produzir conteúdo para transmitirem via TV digital ou internet, inclusive em celulares. E sem uma regulação das comunicações eletrônicas, a Globo e congêneres estarão ferradas.
 
Explico: as teles vêm aí com arcas incontáveis de dinheiro para investir em conteúdo, com seus faturamentos dez vezes maiores do que das emissoras tradicionais, inclusive da Globo. Sem regulação do setor, até ela será engolida.
 
Talvez por conta disso vemos o governo Dilma impassível diante do clamor de setores da sociedade por uma “lei da mídia”, pois a tecnologia deverá levar Globo e companhia limitada a baterem na porta do governo pedindo regulação, por incrível que pareça.
 
Muitos – entre os quais me incluo – estão contrariados com a postura da presidente Dilma de renegar qualquer intenção de dar ao Brasil uma legislação moderna para esse setor tão crucial, até porque há medo de que os barões da mídia arranquem de um governo aparentemente acovardado uma regulação feita sob medida para os interesses deles.
 
Todavia, apesar de também ter essa preocupação, penso que a passividade do governo federal pode – apenas pode – ser uma estratégia para negociar em posição de força quando a própria família Marinho, entre outros, bater-lhe à porta pedindo uma “lei da mídia”.
 
A ver.

jueves, 3 de enero de 2013

Guilherme de Brito canta A Vida

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Como no dia 3 de janeiro do ano passado (AQUI), tornamos a lembrar de Guilherme de Brito, um dos maiores artistas do Brasil em todos os tempos. Hoje completaria 90 anos, se estivesse encarnado.

O polivalente compositor, pintor, escultor, boêmio, sambista e tantas outras coisas, era também cantor, e que cantor, e hoje comparece cantando A vida, composição sua e de seu eterno parceiro Nelson Cavaquinho, com uma turma que só vendo.


Tintim, Guilherme!

 

 

Xadrez na praia sem Mega da Virada, n'A Charge do Dias

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Ainda na praia, os boêmios lentamente começam a se inteirar do que acontece no mundo. Quase duas da tarde. Enquanto Clóvis Baixo espetava as carnes e  a turma bebericava suas caipirinhas, instalados em mesas defronte ao Bar dos Amigos, Lúcio Peregrino resolveu abrir o notibuc.
 
- Atenção, pessoal, vou ler as últimas - anunciou.
 
- Não incomoda, Lúcio, não quero saber a contagem dos mortos nos feriados, nem qualquer outra má notícia -, disse Mr. Hyde.
 
- Certo, vou pular os milhares de mortos nas estradas. Começo com a mais importante, aí vai:

"O jovem italiano Daniele Vocaturo parece que vai bem, de brancas, numa Siciliana contra o canadense Raja Panjwani, no famoso torneio de Hastings, na Inglaterra, já en las complicaciones, no 26º lance. Um inglês e um lituano lideram o torneio, com meio ponto à frente dos segundos, mas de inglês eu me recuso a falar".

Nicolau Gaiola dá um salto e corre lá dentro buscar o tabuleiro grandão. Suspendem as notícias por alguns minutos, para montar a partida do italiano, que passam a examinar enquanto Lúcio prossegue:
 
"A adorada e valente presidente Cristina, da Argentina, pede aos invasores ingleses que devolvam as Malvinas. O filho da mãe, viado, do primeiro-ministro inglês respondeu que nem morto".
 
- Se eu pego um inglês desses -, disse o Contralouco.
 
"Presidente Chávez, da Venezuela, segue pela sete".
 
"Piranha do PT é presa em Ponta Grossa, no Paraná, por forjar o próprio sequestro. Essa quadrilha não toma jeito".
 
"Mensaleiro do PT assume como deputado federal".
 
- Se eu pego uns caras desses -, diz o Contralouco.
 
"Alexandre Pato quase acertado com o Corinthians, virá para ganhar como pato e jogar como pinto".
 
- Bem feito pr'esses paulistas de merda -, diz Gustavo Moscão.
 
"Igreja Universal mata 13 em Luanda, capital de Angola. A negada tinha ido rezar e entregar os pilas para os vagabundos".
 
- Peraí, a gente não tinha combinado de pular as mortes? - pergunta Mr. Hyde.
 
- Certo, desculpe.
 
"No Paquistão, avião não-tripulado dos terroristas norte-americanos...". Vou pular esta, tem morte.
 
"Dilma surta no final do ano: diz que o Brasil deve muito ao PT".
 
As gargalhadas que explodiram no Bar dos Amigos, na Praia do Quintão - RS, foram ouvidas na Praia dos Boêmios (Iracema), em Fortaleza. A turma de lá respondeu no ato, com risadas ensurdecedoras. Decidem elevar um brinde aos boêmios da Praia dos Boêmios. - Aos da nossa raça lá de Fortaleza -, diz Nicolau. Tintim.
 
"PT afirma haver campanha para tachar Lula de corrupto".
 
- Se ele é corrupto eu não sei, mas os amigos dele eu tenho certeza -, diz Jussara do Moscão.
 
"A ladra Microsoft manda o ladrão Google tomar no rabo. É briga de bugios".
 
"Falece em Montevideo o grande arqueiro Mazurkiewicz".
 
Aqui Walter Schiru propõe um brinde ao lendário goleiro. - Como o blog do Salito reproduziu ontem: "Agora o arco-íris tem goleiro". Tintim.
 
"Assaltantes de jóias do RS escapam à nado. Os órgãos de segurança alegam falta de equipamentos adequados para o cerco aos meliantes, quer dizer, todas as pirogas estavam ocupadas".
 
Agora peguem esta: "Em 15 de dezembro um usuário do Orkut postou o seguinte comentário: Eu não deveria estar falando isso aqui. Mas meu tio é um dos diretores responsáveis pela Mega da Virada. Ele me afirmou que, neste ano, o ganhador vai ser da cidade de Aparecida de Goiânia. Deu Aparecida de Goiânia".
 
Isto caiu como uma bomba na cabeça dos boêmios, que apostaram centenas de reais na Mega da Virada. Todo mundo quer ver essa putaria esclarecida, porém a Caixa e os jornalões do Brasil seguem quietinhos.
 
- Essa Caixa Federal... lotada de cargos na base da politicagem, só podia dar nisso -, diz Jezebel do Cpers.
 
- Filhos da puta. Com essa perdi o tesão, pessoal, chega de notícias -, encerra Lúcio.
 
Aristarco de Serraria volta do seu banho de mar e encontra todos de caras amarradas. - Ué, alguém morreu?
 
- É melhor você não saber, Aristarco, deixa pra lá, vai, toma um gole da minha caipirinha aqui -, diz Silvana Maresia.

Aristarco volta sua atenção para o tabuleiro. Lúcio, com página da internet aberta com a partida ao vivo, o atualiza, agora no 30º lance. Tigran Gdanski arrisca sugerir 31.Re7, Aristarco acha muito perigoso, prefere atacar o peão central negro.

Aristarco trata de colocar no tabuleiro menor outra partida do torneio, do espanhol Daniel Alsina Leal contra o chinês Rui Gao. Outra Siciliana. Diz o que chino é maluco, sacrificou um cavalo por dois peões: "O Rei branco vai passar por cima dos dois infantes". Nicolau discorda.

Lúcio atualiza o tabuleiro grande. Daniele também entregou uma peça leve em troca de peões e da prisão do rei negro na oitava. Ambas as lutas são sangrentas.
 
Leilinha Ferro, a coordenadora da coluna, pede que se resolvam logo com as charges do dia.
 
Ficaram com o Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).

- Assunto não vai faltar pro Spô amanhã -, disse Tigran Gdanski, aludindo ao sequestro forjado da vereadora.

- É só o que esse nazista quer, a vadia é do PT, pois ele jamais fez uma charge sobre ladrões dos outros partidos, do seu partido -, diz, magoado, Clóvis Baixo, vindo de lá da churrasqueira. Clóvis foi voto vencido nas escolhas das charges, isso explica a revolta.

Aristarco de Serraria pede a palavra. Outro voto vencido.

- Con permiso, o Baixo não deixa de ter razão. Respeito a escolha da maioria: vai o nazista para o blog, democracia é isto. Em sua obra de hoje me parece que tem inteira razão, o Lula é um merda ao cubo, e se acha o cara, com dinheiro público. O diabo é o Sponholz mirar num lado só, sempre.

Aqui na palafita, agora quem pede permiso sou eu, o cara do blog que publica a coluna: levei uma carraspana de Frida Von Allerborn, enquanto discutíamos sobre publicar ou não as conversas acima, sobre nazistas. Uma singela pergunta me derrubou: Salito, tu acreditou que eles estavam instalados somente em Joinville e Blumenau? Aleluia, Gretchen. 
 
 
 
 
E com o Alecrim.
 
 
 
 
Miss Leilinha Ferro ficou com o Leandro.
 
 
 
 
PS.: 18 horas em Porto Alegre. Os amigos da praia devem estar acompanhando, mas alguns dos trilhões de leitores poderão se interessar: estão atracados desde o meio-dia (hora legal brasileira) lá em Hastings, isto é, há seis horas. A partida entre Daniele Vocaturo e Raja Panjwani há séculos está tecnicamente empatada, as brancas de Daniele com Rei e Torre, contra Rei, Torre e Bispo, porém o canadense Raja insiste, agora no 93º lance, espera um erro grosseiro  do italianinho, no cansaço, em atitude, para nosotros, antidesportiva. Já a partida de Daniel Alsina Leal e Rui Gao desemboca agora em situação semelhante (empate técnico), no 56º lance, devem firmar tablas em seguida, se Daniel Alsina Leal não vir a encher o saco como faz o canadense. Todas as partidas AQUI.

(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)

miércoles, 2 de enero de 2013

Mazurkiewicz, um espetáculo

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Ahora el arco iris tiene golero (Omar Puentes)
 

Ladislao Mazurkiewicz nasceu em Piriapolis, departamento de Maldonado, Uruguay, em 14/fev/1945, e partiu nesta madrugada, em Montevideo.

Sabemos que a morte é inexorável, mas bateu um saudosismo, dos tempos de menino e rapazote.

Junto com Manga, foi o melhor goleiro que vi jogar. Esse "vi jogar" é estar lá, no estádio, no meio da massa.

Como reclamou certa vez, com razão, Nenguirú Lucas Martins ainda garotinho, quando o levei a um GreNal, em cadeiras numeradas (ali já havia risco de enfrentamento de torcidas, eu tentava protegê-lo indo para as caríssimas, era jogo noturno, e de noite a turma é foda, todos os gatos são pardos): "Estas drogas de cadeiras..., bom mesmo é lá no meio da massa, tio". Das cadeiras do antigo Beira Rio, olhos brilhando e corações aos pulos, assistíamos à festa da torcida colorada na geral do outro lado. Se arrependimento matasse... Mas aí o mal já estava feito, o otário aqui não tinha como remediar. Ainda bem que, depois de deixá-lo em casa, são e salvo, incendiei Porto Alegre. Bons tempos de loco.

Dentro do estádio, o clima que se estabelece, comunhão e guerra boa, não tem palavras, os cardíacos que se cuidem. Ouvindo os tambores (caixas, surdos, taróis, bumbos...), reco-recos, trombones, flautas, pistões..., os coros de canções (atualmente mais insultos que canções, sinal dos tempos, prenúncio de algo que francamente não sei), acompanhando lance a lance, vendo tudo o que se passa, desde a entrada em campo, o bandeirinha, tudinho, como sabem os amantes do futebol, é diferente, uma abissal diferença, de assistir pela tevê.

Mazurkiewicz defendeu o amado Peñarol entre 1964 e 1971, e depois, para encerrar a carreira, em 80-81. Vestido de preto, como o russo Yashin Aranha Negra (tido por muitos como o melhor de todos os tempos, que o nomeou seu sucessor), também foi absoluto no arco da lendária celeste uruguaya, de 1965 a 1974.

Hoje recordamos coisas boas do homem e do atleta.

É célebre a sua repentina audácia diante de uma sorridente rainha  Elizabeth (Isabel II) da Inglaterra, ainda a atual monarca, ela que, linda, abriu a Copa do Mundo de 1966, no estádio de Wembley, em 12 de julho.

O Penãrol era campeão da América e tinha dez jogadores no elenco. Pois o maluco do técnico da seleção uruguaya mandou a campo onze jogadores que nunca haviam jogado juntos. Dizem que na noite anterior, 11 de julho, lá em Wembley, véspera de abrir a Copa, ensaiou a montagem do time numa mesa do bar do hotel, tapada de cervezas, com saleiros, paliteiros, pimenteiros, pedaços de queijo, isqueiros, tudo que é "eiros" disponíveis, representando os jogadores.

Não existe uruguaio que viaje sem levar seu tabuleiro de xadrez, mas o felipão deles não sabia, e os demais borrachos nem lembraram ou ficaram com preguiça de subir ao quarto buscar. E toda a Comissão Técnica lá, enquanto os atletas dormiam, a simular estratégias.

Numa dessas, ao deslocar um "jogador" para interceptar um atacante inglês, o técnico esbarrou com a mão e caiu um saleiro uruguayo (o Pedro Rocha) na mesa, e consta que um dos médicos da delegação, atolado de trago, o interrompeu alarmado: "E agora, devo entrar correndo para socorrê-lo?".

Folclore? Pura verdade. Os nossos inteligentes da seleção brasileira não ficam atrás... E fica um país inteiro nas mãos desses trouxas, milhões de corações, sem que ninguém saiba como foram parar lá. Por exemplo: quem elegeu o presidente da Confederação Brasileira de Futebol? Quanto ganham, o presidente e seus aspones, onde está a lista de empregados, com salário ao lado, seriam parentes de políticos?

Filhos de uma puta, ladrões sujos... epa, mudando de assunto de novo.

Ainda assim, e apesar do técnico, na raça e na catega a celeste arrancou um histórico empate em 0 x 0 frente aos donos da casa, que viriam a ser os campeões do mundo naquela Copa, com a ajuda de um tal de Stanley, de quem falaremos adiante.

Mazurca tinha 21 anos. Como nos conta Fernando Álvez, seu amigo: (Chiquito era apelido, como também Polaco)

Les voy a contar una anécdota increíble de Ladislao antes del Mundial de 1966. Ambos equipos debían saludar a la reina, que aún vive. Primero los ingleses y seguido Uruguay. Era reverencia a la reina frente a ella y la mano al marido que estaba a su lado como siempre. Tengan en cuenta que 10 minutos después iba a empezar el partido, cuando Chiquito queda frente a la reina, le hace la reverencia y da un paso, le extiende la mano al marido de la reina Isabel y, cuando este le da la mano, Chiquito le dice: “Vos sí que estás pintado” y siguió su camino. Sus compañeros no podían creer. Dicen que eso sirvió para que alguno de ellos aflojara la tensión que el partido provocaba”.

O sujeito estava mais pintado que artista de cinema, para não dizer outra coisa. No Sul dizemos rebocada, a chinoca. Não foi um bom dia para o rei. Na Copa, de cara, estendeu a mão ao capitão uruguayo, o zagueiro-líbero Horacio Toche, e ficou a ver navios, a chefona levou vantagem.

É duro ser marido aparente, por conveniência de reinados. O incidente ocorreu porque Horacio de fato não viu o movimento do rei negro, preocupado com a dama, vez que el hombre del Cerro era elegante no campo de jogo e fora dele, o que se percebe no videozito: depois acompanhou a rainha branca, como capitão cicerone, apresentando-a a cada companheiro seu.

Dizem as más-línguas menos próximas, que nada sabiam e jamais saberão, que a linda rainha por décadas sonhava todas as noites em telefonar para Horacio Toche. Outras línguas, mais amenas, amigas (tinha duas) confidentes e as escravas da sua rotina diária (cem indianas), já inventaram que ligava todos os dias para propor amizade mais profunda, particular, jogar xadrez no leito vestida só com a coroa, ponderar sobre música, contar-lhe que amava candomble uruguayo, que tinha vinte mil discos, para hablar un poquito mal dos argentinos e brasileiros, enfim, passar o tempo, a vida é curta... mas isso é uma grosseira calúnia, ora, Horacio Toche era casado e feliz, e amigo de brasileños e argentinos, não queria nem saber de fingimentos. Imagine, com aquele bando de palhaços com capacetes de plumas e baionetas à porta, mais punhais e venenos, se um gáucho iria se sentir bem.

Tudo mentira.

Mania de sem querer ir mudando de assunto, associação de idéias, quase que conto uma de arrepiar..., deixa pra lá.

No vídeo, pena que de somente dois minutos, a abertura da Copa do Mundo. Mazurca, ali, foi de terno cinza-azulado pela última vez.

O preto dá visão aos zagueiros, de perto, descobriu. De longe ninguém enxerga nada, com a torcida postada atrás. De perto dá também aos atacantes, delanteros, claro, mas aqui reside a grande sacada: estes, os delanteros, atiram como podem, do jeito que vier, pressionados pela zaga, para dentro da meta, se fizer se consagra, se errar, tentou; enquanto que os zagueiros precisam saber com exatidão onde está o seu goleiro, para poder atrasar la pelota sem fazer gol contra, o que era permitido com qualquer parte do corpo, exceto mãos e braços.

Ainda é permitido atrasar, se com a... cabeça. Vá entender a roubalheira. O jogo é com o pé, foot, mas com o pé agora não vale mais... Os ingleses eram "famosos" cabeceadores, para as negras deles, isso explica em parte a mudança nas regras. Como eles mesmos viram depois, não adiantou, seguem perdendo para nosotros. Descobriram de modo arrasador quando viram o central Índio, do Internacional de Porto Alegre, baixinho perto deles, fazer um monte de gols de cabeça, muitos em decisão.

Deram-se conta de que o índio, seja gaúcho, carioca, cearense, de Ecuador, de qualquer lugar da América do Sul, não precisa ter dois metros, precisa é ter coragem de se jogar ao ar, alheio a cotovelaços de grandalhões, aos pés dos touros, se preciso, a morrer, o braço cuidando a cara no instinto. Pés da vaca já era. O correto seria mudarem as regras mais radicalmente, do jeito que está é covardia.

Em Copa do Mundo, ou em decisão do Mundial Interclubes, sul-americanos entrariam em campo com 8 jogadores, contra 11 deles. Mais justo, ou menos injusto, pois ganharíamos igual.

 


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Depois Mazurkiewicz entrou em campo e fechou o gol.

O Uruguay poderia ter ganho a Copa de 66. Entrou em ação o inglês Stanley Rous, então presidente da FIFA (os presidentes da FIFA, com a possível exclusão do primeiro de sua história, mereceriam uma penitenciária especial, de alta periculosidade) e sua máfia, e mexeram na arbitragem em favor dos europeus. Bom, aí nem Mazurca conseguiu segurar o ímpeto alemão, com todas as faltas invertidas e dois uruguayos expulsos.

Como não podemos voltar no tempo, ao tempo em que o preço do ingresso era acessível para a maioria, que as drogas no estádio limitavam-se a cerveja, vinho e uísque, liberados para alegria e relaxamento, sem brigas, num tempo em que os atletas não ganhavam somas insultuosas, e tinham mais vergonha na cara, que os dirigentes eram menos desonestos, fiquemos com um vídeo com lances e entrevista.

Este vídeo o mostra cumprimentando a rainha. A cena com o rei, por alguma razão, sumiu de todas as redes, e os particulares que a filmaram e não aceitaram apagar sofreram acidentes. Acontece.

Miremos o famoso lance inicial do vídeo, e ao fim, está certo o "portero" de Peñarol: se ele não sai do gol, levando o drible de corpo do negro bailarino e maior jogador da história, Pelé entraria sozinho e escolheria o canto, ou entraria com bola e tudo, a solas. Olhem bem, imaginem Pelé entrando sem a saída do portero. Saiu e atrapalhou, o último recurso de um arqueiro inteligente e digno, sem falta.

Adiós, Mazurca! Hasta la vista.
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