jueves, 7 de marzo de 2013

Animais à espreita

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Hesitamos no título da postagem. Vampiros em banco de sangue não ficaria melhor? Ou ratos em silo de arroz, e por aí vai. Ficamos assim. 

Todos os limites foram ultrapassados, não respeitam mais nada. Está chegando a hora dos homens de bem (ainda somos, pois não?) invadirem e quebrarem aquele antro.

A obra é do Nicolielo, hoje, no Jornal de Bauru (Bauru, SP).





lunes, 4 de marzo de 2013

Um herói para o mundo

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Por Mauro Santayana, no JB


Ao assumir inteira responsabilidade pelos seus atos, o soldado Bradley Manning, corpo debilitado pela prisão, foi um homem em si mesmo. Leu as trinta e cinco laudas de sua defesa prévia diante da juíza militar, a coronel Denise Lind, de forma clara e viva, com voz forte e serena, segundo a edição digital dos principais jornais americanos. Declarou-se culpado em dez das acusações do promotor militar, suficientes para condená-lo a 20 anos de prisão. Provavelmente, só deixará o presídio — se não for condenado à prisão perpétua — aos 45 anos, ainda a tempo de confirmar, em liberdade, a coragem de seu gesto.

No julgamento que se inicia, e que prosseguirá a partir de junho, o grande réu não é o frágil militar, que se confessa solitário em sua homossexualidade, e, sim, o sistema norte-americano, em sua arrogância diante do mundo, que o faz presumir-se ditador político e econômico de todos os povos, guardião e juiz de uma sociedade universal tutelada pelos seus interesses e crenças.

Bradley é um homem só, contra o mais poderoso governo do planeta; um soldado raso contra o Pentágono; um jovem de 25 anos atormentado e estimulado pela sua consciência humanística; um réu minúsculo diante de um tribunal  do qual, como Joseph K. —  o herói de Kafka, em O Processo — só pode esperar o pior. À diferença de Joseph K., no entanto, ele sabe por que será condenado, e faz de sua “culpa” um libelo de acusação poderoso.

Alguns fatos, até agora desconhecidos, se revelam em sua defesa prévia. Antes de transferir os dados de que dispunha ao site do WikiLeaks, Bradley tentou passá-los aos dois mais importantes jornais norte-americanos, o Washington Post e o  New York Times. Não conseguiu. O sistema burocratizado do jornalismo moderno impediu-lhe  encontro pessoal com um repórter competente. Não havia  jornalistas como Bob Woodward e Carl Bernstein, prontos a ouvir as revelações de um Mark Felt, do FBI, sobre Watergate, faz 40 anos. Quem o ouviu talvez fosse entediado profissional de plantão, apressado para deixar a redação, no caso do Post. Com o mais importante jornal do mundo, o New York Times, foi pior: deixou o recado em uma secretária eletrônica, que automaticamente prometeu a Manning resposta de um dos ombudsman do jornal — o que não houve. O soldado decidiu então, nas horas que lhe restavam em Washington, levar pessoalmente sua informação ao Político, jornal especializado em acompanhar o poder na capital dos Estados Unidos, mas uma tempestade de neve o impediu de ir à sua sede, em Arlington.  

Manning foi incisivo, ao afirmar que não foi pressionado por ninguém do WikiLeaks, e que supõe ter conversado, pela internet, com Julián Assange. Em sua solidão, o jornalista australiano foi-lhe uma voz amiga, diante de seu drama de consciência com os crimes cometidos contra civis — entre eles o assassinato, pela guarnição de um helicóptero norte-americano de pessoas desarmadas, documentado por vídeo, que Manning ajudou a divulgar.

“Quanto mais eu lia os telegramas secretos, mais eu me convencia de que eles deviam ser de conhecimento público” — afirmou à juíza.  “Eu queria tornar o mundo um lugar melhor” — resumiu.

A sanha vingadora do sistema, por intermédio do promotor militar, é evidente. Foram convocadas mais de cem testemunhas de acusação, e se prevê que várias delas deporão a portas fechadas e com a sua identidade preservada.

Qualquer que venha a ser a decisão do tribunal, esse julgamento irá para a História como ocorreu com o de Georgi Dimitrov, o líder comunista búlgaro, acusado por um tribunal nazista de incendiar o Reichstag, há exatamente 80 anos. Dimitrov foi absolvido.     

Os verdadeiros patriotas americanos e os povos do mundo têm, a partir de agora, mais um herói a admirar.    

domingo, 3 de marzo de 2013

O delírio dos que vão morrer

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ZAZ!

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ZAZ, em Munique.


Em Berlim

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Numa fachada de loja na capital alemã. Negócio assim tão bem bolado merece propaganda grátis.




Baixos fudetórios, n'A Charge do Dias

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Um domingo abafado em Porto Alegre, 24º C e prenúncio de chuva. Que chova a potes, isso não impedirá o tradicional churrasco no meio da rua, em frente ao botequim, graças à criatividade do ilustre boêmio Contralouco, que certo dia, quando desabou uma chuvarada sobre o tonel cortado cheio de espetos, deu de mão em guarda-chuvas e os pendurou abertos nos galhos do pé de oliveira que há no canteiro, arrastando o tonel para baixo.

Dez da manhã e a turma ainda toma chimarrão pelas mesas da calçada, alguns já rebatendo com tiros de dyabla verde, nunca vi um povo gostar tanto da amarguinha, cachaça de São Chico em conserva com losna, em cada canto do botequim há um vidrão com o líquido precioso. Os proprietários, Terguino e Portuga, são caprichosos, também há um vidrão de ovo em conserva, que mantém a turma serena.

Hoje o encarregado da carne é novamente Wilson Schu, o índio gosta da lida. Deve aparecer ali pelas onze carregadinho. Hoje a turma vai longe: às quatro da tarde os televisores serão ligados, entrará em campo o glorioso Internacional de Porto Alegre, no estádio Centenário de Caxias do Sul, contra o Esportivo de Bento Gonçalves, jogaço.

Gustavo Moscão se queixa para a turma:

- Andei meio malito de grana e atrasei dois meses o condomínio. Sexta-feira fui lá na Prejudicadora Predial pagar e os malandros me achacaram. Além dos trezentos mangos de cada mês, me tomaram mais cinquenta a título de honorários advocatícios extra-judiciais. Com uma fila atrás de mim no caixa, discordei, e logo comecei a gritar "Polícia, socorro!", e fiz uma lambança danada, o segurança veio para o meu lado e avisei: "Toque  em mim que tu morre, desgraçado". Acabei pagando, por insistência da Jussara, mas vou me informar, isso não pode estar certo, nunca ouvi falar de "honorários extra-judiciais", o trabalho que os patifes tiveram foi o de me mandar uma carta emitida automaticamente pelo computador, me notificando do atraso, como se eu não soubesse. Na saída peguei o leão-de-chácara de canhota na ponta do queixo, caiu de olhos virados lá na rua. Depois eles registraram queixa, é só o que eu queria, agora vão ver o que é bom.

O advogado da turma, Carlinhos Adeva, se manifesta:

- Não é minha especialidade, mas também nunca ouvi falar de picaretagem semelhante, segunda-feira vamos ver, depois os fincamos na Justiça. Quando te chamarem na delegacia me avise, vou junto, deixa que eu falo.

- Em caso de precisão, ainda temos a mala de molotovs que o Hyde deixou... -, diz o Contralouco.

- Tu só pode estar brincando, Contra, já chega o Gustavo ter aprontado -, diz Jussara do Moscão.

Por falar em Mr. Hyde, a turma aguarda seu retorno para breve, saiu do hospital na quinta-feira.

O Contralouco fica quieto, cruza os olhos com o Gustavo, esses dois se entendem.

Lúcio Peregrino, o homem do notibuc, intervém para ler algo que achou na internet. 

- Senhores seus e senhoras minhas, por falar em delegacia, muita atenção, vou ler um laudo pericial, suponho de corpo de delito, lavrado numa cidade no interior do Piauí, uma jóia que constará para sempre nos anais da medicina. A nobre profissional, que supria a falta de médicos, assim se expressou:

Eu, Marinivalda das Dores, parteira oficial do Distrito de Sapupemaçu, declaro para o bem do meu ofício que, examinando os baixos fudetórios de Maria das Mercedes, constatei manchas arrôxicadas na altura da críca, e também falta de couro de inocência na bastiana da xana, que, pela minha experiência, foi capada fora por supapo de rola ou solavanco de pica. É verdade e dou fé.

O bar vai abaixo, Jezebel do Cpers quase se afogou rindo. E com essa a confraria resolve abrir mesmo os trabalhos. Salta uma batida de limão seca, Portuga!, pede Lúcio. Jezebel vai de martini seco com pepino em conserva de enfeite. O Contralouco pede uma loura e um steinhager congelado, no que é seguido pela moçada da faculdade. Wilson Schu, dobrando a esquina com o saco de carnes nas costas, já sob um chuvisqueiro de molhar bobo, vê a movimentação e grita: "Pra mim uma caipirinha de vodka e uma água com gás, primeiro a água", depois senta-se e reclama: "Puta que pariu, cansei, acho que trouxe carne demais, trinta quilos".

Jucão da Maresia não deixa o laudo passar em branco:

- Essa história da perita Marinivalda revela um problema seríssimo no Brasil: a falta de médicos no interior. Os bundinhas, a maioria filhinhos de papai, se formam na universidade federal, subsidiados pelo dinheiro do povo, e depois só querem ir para as grandes cidades, o povo que se foda. A Dilma está importando médicos cubanos, a um custo de meio bilhão de reais. Tomara que os cubanos, que já salvaram o Haiti depois do terremoto, arrasem por aqui, tirando o emprego desses almofadinhas.

Partem para as obras do dia, é só para isso que o notibuc serve aos domingos, pois o Lúcio não é louco de vir estragar o dia com as Notícias do Notibuc, programa que apresenta nos dias de semana. Só se permitiram um comentário, que cobriu o Beco do Oitavo de nuvens escuras: foi sepultado o rapaz de 25 anos, 240ª vítima da boate Beijo da Morte. O filósofo Aristarco de Serraria traduz o pensamento de todos:

- Agora, com um número redondo, talvez resolvam prender os verdadeiros culpados: as "otoridades" corruptas.


Na outra calçada passa a gostosa da zona, a ex-noiva que era apaixonada pelo Contralouco, e que não o perdoa pelo seu affaire com a Ingrid, a cativante deusa da praia. Silvana Maresia provoca:

- Olhe lá quem passa, Contra, veja só que o você perdeu, aqueles "baixos fudetórios". 

Nova explosão de gargalhadas, todos olhando para outro ponto, para a moça não desconfiar. Uma barbaridade, mas hoje irão nesse tranco.

Leilinha Ferro trata de apressá-los: "Gente, fiquei de mandar as charges até o meio-dia".

Votaram nas seguintes (vão em desordem):

Amâncio, do Jornal de Hoje (Natal, RN). O bar aplaude ao artista, a turma não liga a tevê há dias, ninguém aguentava mais o besteirol dos noticiários. A coisa funciona assim no botequim: cada obra escolhida tem direito a salva de palmas e gritos de bravo.



Após a escolha do mestre Nani, Aristarco de Serraria tomou a palavra: - Certíssimo o nosso amado Joaquinzão, exceto quando é com pobre, que não tem grana para pagar certos advogados e mexer certos pauzinhos.




Cazo, do Comércio do Jahu (Jaú, SP). Depois dos aplausos, quem comentou foi Jussara do Moscão: "Taí, esses tipos não usam os baixos fudetórios para desopilar, aí dá nisso".



E Sinfrônio, do Diário do Nordeste (Fortaleza, CE). Nicolau Gaiola manifestou-se: "Por falar em gente que não usa os baixos fudetórios...".



Miss Leilinha Ferro, a coordenadora da coluna, fechou com o Newton Silva (Fortaleza, CE). O Contralouco desabafou: "Ninguém suporta mais a petulância e o deslumbramento desse bosta, por que é que não morre!?". A moçada da faculdade riu, pensando ser de brincadeira. Não estamos muito certos disso.



E com o Zop. De novo a incompetência das redes mal havidas.



Y así pasan los dias.


 A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que no ano passado se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

sábado, 2 de marzo de 2013

FORD "do Brasil"

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Lucas da Azenha, o boêmio que não bebe, envia instigante matéria, ao tempo em que interroga: por que será que a Globo, SBT, Record, etc, todos os donos dessas redes mal havidas, não noticiam esse tipo de coisa. Nunca. Por que aquele tal de Datena, ricaço às custas do sangue dos miseráveis (e se acha, como o Lulaluf, iludir coitados lhes dá prazer, que nojo...), prefere falar de infelizes que, na cegueira da mais horrível escuridão, mataram alguém ou assaltaram uma farmácia, deixando de lado o verdadeiro horror? A Zero Hora à esquerda, de Porto Alegre, por quê?

Por quê?

A reportagem é do jornalista Guilherme Zocchio, que pinçamos do blog do Sakamoto. Se o processo cair nas mãos de um Tourinho Cachoeira, aí já viu. 




A Ford do Brasil foi condenada pela Justiça do Trabalho em um processo de R$ 400 milhões por terceirização ilícita e fraude tributária. De acordo com o Ministério Público do Trabalho, responsável pela ação civil pública, a empresa contratava empregados através da Avape, uma associação para promoção de pessoas com deficiência, também ré no processo, que contava com isenção fiscal. O problema é que dos 280 empregados que a instituição entregou à Ford ao longo de mais de uma década de relacionamento, nenhum deles possuía deficiência. À decisão, cabe recurso.


A sentença, proferida por Marcus Barberino, juiz do Trabalho da 15a Região, e publicada no último dia 27, afirma que a Avape funcionava como uma intermediária de mão de obra para que a Ford não arcasse com direitos trabalhistas e contribuições previdenciárias em Tatuí. A montadora possui uma pista de testes e um laboratório na cidade que são considerados referências internacionais no aperfeiçoamento e projeto de veículos.



Ao longo do processo, a Avape justificou-se afirmando que prestava atendimento a pessoas com deficiência em sua unidade de Tatuí utilizando os recursos que obtinha da intermediação de mão de obra de pessoas sem deficiência. Contudo, segundo com a sentença, poucos eram os atendidos.



De acordo com a ação civil pública, de responsabilidade do procurador do Trabalho Bruno Ament, nem a associação, nem a Ford cumpririam a legislação de inserção de pessoas com deficiência, que garante benefícios fiscais. Isso poderia gerar um efeito dominó. Afinal, se outra montadora descobrir que está sofrendo concorrência desleal através de dumping social, isso pode levá-la a copiar a mesma metodologia, gerando repercussões negativas à sociedade.



Em 2011, uma liminar solicitada pelo Ministério Público do Trabalho e deferida pela Justiça proibiu a Avape de intermediar mão de obra para a Ford em Tatuí e obrigando a montadora a contratar diretamente. No ano seguinte, o Tribunal Regional do Trabalho confirmou a liminar e negou, por unanimidade, um mandado de segurança para a montadora – que levou o caso ao Tribunal Superior do Trabalho. Contudo, com esta decisão sobre a ação civil pública, o mandado deixar de ter razão de existir. Após a liminar, a Avape fechou a sua unidade de Tatuí.



Considerando que a organização social não possui patrimônio para cumprir a sentença, a Ford terá que arcar com a quase totalidade desses recursos: R$ 200 milhões para os Fundos Nacional e Estadual de Direitos Difusos e R$ 200 milhões a serem investidos na cidade de Tatuí, distante cerca de 130 quilômetros da capital paulista, em políticas de inserção e formação de pessoas com deficiência, mas também voltadas aos outros cidadãos.



A empresa também foi condenada a contratar diretamente todos os empregados listados na atividade-fim do seu campo de provas. A Justiça não proibiu qualquer terceirização, mas apenas a ilegal, mantendo a possibilidade de utilizarem prestadores de serviço para atividades secundárias como limpeza e segurança. Por fim, a Ford também terá que veicular em cadeia nacional de TV inserções que tratem da condenação, explicando que a situação incitava a violação à dignidade humana, às regras de proteção do trabalho, à livre concorrência e ao fair trade.



Questionada pela reportagem, a montadora informou, através de sua assessoria de imprensa, que o processo ainda encontra-se sob júdice. “Por este motivo, a Ford não se pronunciará neste momento, pois aguarda uma solução final do processo por parte dos órgãos competentes.”



Em nota, a Avape informou que mantinha com a Ford de Tatuí um contrato de terceirização para atividade-meio e não para atividade-fim ou mesmo para contratação de pessoas com deficiência. Afirmou que a sentença de primeira instância é “obscura e contraditória” e está entrando com embargos de declaração na Justiça.




O processo corre com o número 0002153-24.2011.5.15.0116.



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Na foto, o simpático e amoroso fundador dessa máfia.




Saudades de mim, que já fui outro

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Bem como dizia o Jose Hernández, em seu Martin Fierro: saudades de ti, que estavas longe; saudades de mim, que já fui outro.

A vida é a ferro.

Ontem entrei no Bar dos passantes, no Café dos estudantes, no Botequim dos boêmios. Na vital comunidade.

Acorreram todos à porta, aos beijos e lágrimas: Salito apareceu, ele voltou. Afrouxei a gravata e disfarcei o que pude a emoção. Fui desarmado e sem escolta. Fiz uma coisa a que sempre me proibi: sentei de costas para a janela. Alguma coisa tinha me dado, o bobo do esquerdo do corpo dali em diante ficou torcido, o leviano. Na memória entra a tigrada das noites cariocas, com Paulinho da Viola: "Ah, coração leviano, não sabe o que fez, do meu...".

Não a vi, não estava, nem dela perguntei, embora eu soubesse que por lá andou, bêbeda, dizendo bobagens. Ninguém me falou nada, ali quem corre menos voa, em humanidade.

Não entrei por causa de tragédia, para beber até esquecer o inesquecível, a bengala, não, não como cantava Nelson Gonçalves: "Entra, mano, que o fulano vai pagar".

Entrei por saudades, porque amo botequim honesto, de pessoas honestas com os outros e consigo mesmas, pessoas que sabem das suas limitações diante do cotidiano de horror, amo as falas, as tristezas, as danças, os espécimes que comparecem, cada figura..., quem diria. As alegrias de bar. Ali ninguém mente, não adianta mentir. Família de sangue é preciosa, mais que tudo, porém muito diferente, não há o "outro", a opinião inesperada, independente e intocável, e o crescimento daí derivado. Mas há que se ter amor, de outro modo a cambada se filiaria aos Gaviões da Fiel ou transtorno semelhante, logo as ruas, não fosse os botequins da camaradagem, seriam rios de sangue. Gavião só se for para as negras deles, como diz o Contralouco, do outro bar, para depois se encher de razão: gavião somos nós, e calçudos, salve, seu Pixinguinha

"Chorei, porque, fiquei, sem meu amor, o gavião malvado, bateu asas, foi com ela, e me deixou...". 

Saudades, acima de tudo, dos companheiros. Quem bebe e quem não bebe, quem fuma e quem não fuma, no mesmo quadrado de mesas ajuntadas. Uma festa. Somos o que somos.

Enchi-me de alegria ao ler somente a apresentação do trabalho de conclusão, e as primeiras páginas, do grosso volume de mestrado de Alex Antropológico, Sociológico no geral, o rapaz sin frontera que é o Rei de Porto Alegre (já lembrado neste blog, em Versos tortos em Porto Alegre), tão jovem e com essa visão... como definir? Só lendo o original.  Com tanta gente para conversar, trocar afetos, não dava para ler tudo, já era onze da noite, as cantantes cantando e me oferecendo músicas, Carlos Silva me olhou na mesa da janela e largou: "Covarde, eu sei que sou covarde, em não fazer alarde deste amor que sinto por ti...". Nina Moreno, a espetacular cantante uruguaia, aos 84 anos, foi buscar na memória um tango maravilhoso de la via portenha, ao final caiu de joelhos em exclamação emocionada. Nina não existe, é de outro mundo.

Se eu fosse da bancada examinadora, leria a apresentação do trabalho de Alex Moraes e daria dez num repente saído do fundo do meu exigente coração. Fim de papo, o moço é fogo, mestre em antropologia, podem dar o doutorado logo. Depois leria a íntegra para aprender. Saudades de Aceguá, por onde nunca passei mas hei de passar.

Revi Mário, que nunca se enrustiu em armário, grande bailarino, para além de pensador, sabe tudo. Lá, de calça de brim, dançando rumba, só Deus sabe como consegue mexer os ombros e músculos parado, aquela tremura de arrepiar. Alguém lembrou de Ivoran Piazzetta, meu "Ivorix", eis que andaram conversando até altas horas no Chalé em frente ao Mercado Público. Eu lembrei do seu karmanguia de estimação, peça antiqua, rara como o jovem dono, vermelho e envenenado, que ia sozinho para casa enquanto o boêmio descansava no banco de trás, o pingo não negava fogo. E a boêmia Dulcinéia de Cervantes, que diz ter enjoado do Rio de Janeiro, das escadas de Santa Teresa, ama mesmo é a Cidade Baixa de Porto Alegre.

O príncipe Sales, meio tocadito, como todos. Schu passou no bar, numa boa, disse que a turma do Botequim do Terguino também anda saudosa. Tantos. Hora destas darei uma passada no Terguino, talvez em março ainda.

E lá mesmo, no bar, vendo os amigos, seus destinos, as mudanças que ocorreram, me veio à mente uma canção da meninice.

Consciente de que não a vi, chorei tudo por dentro. Deixa estar. Está terminando o verão. A vida, não, a gente recomeça, seremos ainda mais felizes no inverno de vinho.

O artista começava assim: 

Hoy la vi, fué casualidad
Yo estaba en el bar, me miró al pasar
yo le sonreí y le quise hablar
me pidió que no, que otra vez será
que otra vez será, que otra vez será,
tierno amanecer, sé que nunca más.

Leonardo Favio, aquele maravilhoso artista, diz melhor, muito  tempo depois:




O protesto e as charges da Leilinha

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Miss Leilinha Ferro, a jovem coordenadora da coluna A Charge do Dias, como sabem os trilhões de leitores que leram o blog, ontem foi afastada do botequim pela vulgaridade de certo boêmio, o âncora das Notícias do Notibuc, o Sr. Lúcio Peregrino, o já lendário acamalador de mulheres políticas e esposas de políticos, para não falar nas tiangas dos chamados "grandes" empresários. Aliás, o epíteto vem do seu hábito de peregrinar por camas alheias. Lúcio surpreendeu a todos, algo andou lhe acontecendo.

Por falar nisso, os mais velhos ficaram preocupados, pois Lúcio é um túmulo, nunca fala nada sobre a sua vida particular, o que só lhe aumenta a fama, e ontem repentinamente falou, e demais. Por exemplo: "Na primeira vez em que fui à Brasília, em duas semanas passei o pau em todas as jornalistas da área Política, depois experimentei as da Cultura, ao cabo de dois meses voltei pra Porto Alegre, se não venho embora acabaria embarrigando até as das fofocas, pois era eu chegar no bar Carpe Diem e tinha uma fila me esperando, os garçons faziam buquimequi sobre quem seria a sorteada. Tinha dias que faziam oito buquimequis, pois eu largava uma e voltava pegar outra. Gostei mais das jornalecas da política, taradas como só". 

Note-se aí, já na primeira manifestação, a vulgaridade do "passei o pau", aliada ao perigo da generalização, ora, alguma deve ter escapado, pois ao generalizarmos, como sabemos todos, devemos fingir que não, deixando, como sugeriu o explosivo Évariste Galois num dos intervalos da sua obsessão pela equação de quinto grau, uma brecha onde todos do universo a que nos dirigimos poderão se abrigar, até como medida de autoproteção diante da possibilidade de repentinamente nos transformarmos em querelado diante do juiz Tourinho. Um pequeno deslize do notívago, motivado por razões etílicas que logo veremos. 

Para a meninada de 16 a 26, que muitas histórias ouviram sobre o boêmio que hoje conta com 39 anos, foi uma decepção. Esperavam que os garçons fizessem vinte buquimequis por dia. É a velha história, quem conta um conto sempre aumenta um ponto. Pobre do Lúcio, comia só oito por dia e na voz do povo já passava de vinte.  

Bem, mania de mudar de assunto... Onde estava... Ah, o singelo moço tinha tomado todas desde o meio da tarde de tresontonte, loiras acompanhadas de tirambaços de steinhager do frizer, e quando a noite veio o encontrou um tanto excitado, ainda que sem perder a alegria, proferindo um rosário de palavras de baixo calão ao se referir aos ilustres padres comedores de crianças (e reclamava: dizer que não faz muito botavam a culpa na gente, os comunas, nessa de comer criancinhas), para não falar que difamou importantes figuras da nossa pátria, no mesmo tom, nossos símbolos de gatunagens, covardias e doenças mentais, a herança psíquica da ditadura, com bem captou o filósofo Aristarco em um dos seus escritos. 

Bem, logo cedinho a guria nos enviou um correio eletrônico, colocando os pontos nos is.

Tentaremos resumir, vez que a menina não é deslumbrada (alô, Lulaluf, quando vai passar o deslumbramento, ô chulé?), não tem leite retido a compensar, e detesta holofotes.

Uma que, ao contrário do que pensam Terguino Ferro - seu pai, mais Aristarco de Serraria, Gustavo Moscão, Carlinhos Adeva, Tigran Gdanski, Chupim da Tristeza e as professoras Jezebel e Silvana, isto é, os mais afoitos na proteção aos bons costumes, ela não é mais criança. "Já ouvi coisa pior ao ligar a tevê, tio Salito".

Outra que entende perfeitamente o crime do celibato: "Sou universitária, tio, e tenho namorado, e sei muito bem que o crime foi motivado por razões econômicas, o famoso substrato material, ou seja, padre sem família não tem quem reclame pensão alimentícia. A insânia do "direito à propriedade" que eles tanto defendem vem do tempo em que vendiam lugares no Céu, para beneficiar a cúpula de assassinos e os que a sustentavam. Se por um lado diziam tentar evitar o caos absoluto - de fato um perigo que sempre rondou a humanidade, impingindo uma estúpida fé, por outro o incentivavam. A empresa deles está à beira da falência, hoje o povinho entrega o ouro para os pastores analfabetos e brutos de alma, devido a falta de instrução que o sistema sempre negou à imensa maioria, para manter seus privilégios que só se sustentam com a escravidão, como o senhor mesmo diz: "ao povo do sopé da montanha do Nome da Rosa", aludindo ao livro do cara, que bem mostra como o povinho sempre foi tratado. Lá, no meio do povinho, quantos Mozart, quantas inteligências raras, morreram de fome, enquanto misóginos enlouquecidos mandavam em tudo pela força da espada?".

Essa menina vai longe.

Conclui dizendo que esta foi a última vez que Terguino a mandou para casa. "Na próxima não volto mais, ele que se vire sozinho". 

E envia as suas obras de ontem, provando que preza mensagens inteligentes. "Humor, tio? Só aparente, os chargistas vão muito fundo, é como tu diz: artistas do traço e do pensamento".

Com o Genildo.



(Artista é artista, Leilinha: olha o nome, "conclave", por demais sugestivo, deixaram picando...)

E com o Miguel, do Jornal do Commercio (Recife, PE).


Camerlengo do Vaticano recusa bundas nacionais, n'A Charge do Dias

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Notícias do Notibuc!, anuncia Lúcio Peregrino, e enche o pé:

- Lula anuncia que vai abandonar Maluf, tem o pau muito pequeno e uma bunda muito fodida, cabe o braço.

O Contralouco, inocente de índole, mas espantosamente rápido de raciocínio, responde em cima, sem pestanejar:

- Bucho por bucho eu ficaria com a Rose, que Deus me perdoe comer aquilo.

Nesse meio tempo, Terguino diz para a Leilinha ir para casa levar as compras da sua mãe.

A turma cala, leva um tempinho para se recuperar da surpresa. Porém, logo que Leila sai, Clóvis Baixo replica:

- Achei que era porque ladrão demais não se entende na hora de dividir.

Jezebel do Cpers reclama:

- Ah, fala sério, Lúcio. Esses animais são protegidos até pela máfia chinesa, que está comprando o Brasil. Tire esses bichos deste bar, e cuida o nível do verbo, acabaste de expulsar a Leila. Esquece Lula, Dirceu, essa turma, eles passarão, hão de morrer logo. 

Exclamações de júbilo no botequim pela citação, todos erguem os copos: "Hão de morrer logo!".

Lúcio vai em frente.

- Agora falando sério: Papa Bentão da Inquisição foi chantageado no puteiro Vaticano, descobriram que ele comia crianças nos seus 30 a 60 anos. Dava também, mas chupava mal por causa dos implantes dos dentes. O cu, ã, desculpe, o ânus do elemento tá igual ao do cantor Agnaldo Tim, que para segurar as beiras das carnes espatifadas precisou implantar uma roda de titânio.

Jezebel do Cpers se levanta: 

- Vou até a costureira ali adiante e não demoro, mas vê se pára com o abuso, muda o verbo, assim fica desagradável, Lúcio.

- Pombas, vê aí a programação dos teatros menores, que são maiores, não furúnculo da ordem secular, esta merda de São Pedro de Porto Alegre -, reclama Nicolau Gaiola.

- Putz, é difícil agradar, mas me dêem um tempo, pessoal, o âncora sou eu -, diz Lúcio, e continua: 

- Mas vamos em frente. Atenção, cultura! A Igreja é dona de uma grande editora alemã, que só publica livros especiais. Os títulos mais amenos são "Me chama de puta" e "O gozo estrangulado". O mais vendido é fininho, um conto chamado "Acaba na minha cara", sobre um arcebispo que pela madrugada arrecadava rufiões e miseráveis nas vielas de Roma, de vinte para cima, para se masturbarem e ejacularem em seu rosto. Isso me traz à memória a coleção que os velhos de certa Cúria de certa capital mantém, em capa d'ouro, todas as historinhas do nosso fantástico Carlos Zéfiro.

(Oba, que bela lembrança, sou obrigado a meter a colher: tem matéria neste blog, agora a terceira mais acessada, milhares de acessos, a respeito do sensacional Carlos Zéfiro, AQUI)

Jussara do Moscão se intromete, aflita:

- Gente, pelo amor de Deus; Lúcio, ajude: Chega dessas desgraças, você está podre de bêbedo.

- Isso, de porcaria por hoje deu, tenho pavor desses viados de batina -, diz Chupim da Tristeza, pelo jeitão longe do seu dinheiro.

Lúcio estava encapetado, bebendo desde às 4 da tarde, mas o boêmio é sereno, compreensivo. Passou para notícias outras:

- José Dirceu e Antonio Palotti vão de muda para o Vaticano, para se fecharem em apartamentos de hotel com alguns cardeais, cuecas recheadas de grana. No caminho para  a suruba Dirceu torcia, sonhava, em encontrar um comerciante comedor de meninas de prostíbulos, chegado a dinheiro roubado, se pagar vira vice-presidente, digo, vice-papa. Um padreco assessor se liga na bunda melosa do Palotti, gostou dos bigodinhos de gato gordo. Do Dirceu o Bertone disse não como esse merda nem bêbedo. O decente camerlengo tenta bater uma punheta nos seus aposentos, mas não consegue nem com reza, aos 82 só levando vara para o bicho se mexer, e ainda assim em sonhos. Tudo acabará numa festança na Capela Sistina, com os padrecos cheios de notas de cem dólares enfiadas nas ligas das meias pretas, debaixo vindo os urros dos torturados.

- Eu desisto, tem gente que bebe, ora vir falar de enrustidos infelizes, puta que pariu, é sexta-feira, droga, dia de relaxar, pára com a mentiralha -, diz Nicolau, e sai para os fundos do bar, assistir a sinuca. 

Ao contrário do Nicolau, muitos vieram da sinuca, atraídos pelas boas novas, e vibravam a cada palavra do Lúcio. Mas logo contaram o que se passava nos fundos.

Na sinuca tinha um jogo de Vida na mesa 1, a 50 reais a vida e 10 a matada, com direito a entrada, o bolo já em 5 mil. Não permitiram que o Contralouco participasse, é covardia, mas Wilson Schu ainda lutava, com uma das suas vidas ainda virgem. Os demais jogadores são apenas conhecidos de longe, a torcida é pelo Schu, putz, cinco paus, mas ninguém demonstra, dureza, malandro, para não dar azar.

Em pouco só sobraram nas três mesas do centro do botequim os boêmios Aristarco de Serraria, Carlinhos Adeva e Contralouco. Zilá saiu antes, conversar lá na calçada com Silvana, Jussara e umas visitantes, assuntos de professoras. Cada um na sua, compreensivos com Lúcio, que de fato estava para lá de Bagdá.

Quando "Lucinho das Putiangas" ia reiniciar, Aristarco de Serraria encerrou o papo:

- Chega, Lúcio. Vamos chamar o pessoal, a Leila não deve demorar a chegar, precisamos escolher as charges.

Nisso veio o alarido lá do fundo. Schu limpou a mesa, por último atirando de seca no canto a bola seis, estourou na caçapa, e a bendita cor-de-rosa lhe deu a Vida.

Cinco paus e duzentos, há muito não se via parada chegando a tanto nas Vidas do botequim. É hoje. Schu largou o taco e no caminho para as mesas dos boêmios gritou:

- Vai abrindo as champanhes, companheiro Terguino, hoje é por minha conta!



Ficaram com o Zé Dassilva, do Diário Catarinense (Florianópolis, SC).

Oba, estamos em Floripa, a palafita com muitos, de modo que é um prazer a escolha dos amigos. 




E com o Boopo, da Tribuna de Amparo (Amparo, SP). 




Contralouco defendeu a escolha que segue, ofertando-a "aos pobres de espírito que não trabalham (ele diz que precisam pegar numa enxada), nem têm amor, namorada simples, com pudor, de passear de mão em paz; aos cobertos de erros que as perderam, as namoradas, e que andam atrás de 11 merdas que ganham milhões às suas custas". Oigalê!

A contragosto, atendemos ao pedido do amigo, que insistiu para que Leila escrevesse e nos mandasse com as palavras exatas a parte final da sua fala:

- Se fosse um filhinho meu, eu iria a São Paulo. Sem polícia. Levaria dez anos, mas os pegaria, um por um, a solas. Seus tarados impotentes! É para toda a torcida aquela chefiada por brutamontes que têm tatuagens até no cu. Sozinhos, diante do buraco de um silenciador, não seriam assim tão valentes.

Ouviram-se muitas reclamações, a começar pela generalização, pois a nação corintiana é parte do Brasil, onde 99,99% da população é gente fina e uma meia-dúzia de gatos pingados são ruins e ganham as manchetes.

Com o Fausto, do Jornal Olho Vivo (Guarulhos, SP).





E com a perspicácia do DUM (Hoje em Dia), que não perde nada. Os boêmios também viram a enojante contradição, e riram, fazer o quê?, nós que somos do "profeta" Valdomiro, que Deus me perdoe citar esse elemento neste blog familiar. T'esconjuro! Desaloja! 

Durante a escolha Lúcio fechou-se em copas, toda a cidade sabe que seu nome é Lúcio Peregrino (à tarde peregrina por certos lugares à cata de putiangas de políticos, e à noite cai na esbórnia para gastar os presentes recebidos durante o dia). Ele não viu como ser vinculado à obra do artista mineiro.





Leilinha não voltou. Telefonou  e disse à Jezebel que manda as suas mais tarde.


Y así pasan los dias.


 A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos meses se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.