jueves, 5 de diciembre de 2013

João da Noite, a Vaidade e o Papa Francisco no Facebook

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Pretendia publicar e comentar uma boa charge de um gaúcho, mas deixo pra lá. Famoso demais, pro meu gosto, quer que eu o “Siga”, que o "Curta” no seu facebook. Mas que vá à..., deixa assim.

Esqueçamos o cara, nada a ver, de repente é pobre alma, só pode, caindo de otário sem querer e pagando um pato maior que o substrato filosófico da "coisa", essa coisa que se mexe dentro de mim, a revolta que nunca pôde sair, ao ver, na cara..., só rindo. Estou ficando parecido com o João.

Esse e os outros estão ficando como seus ídolos, ai o Caetano, o Tom Zé (que é um velho que se acha, arrogante, é, mas injustiça o colocar junto aos demais? Não sei) , ui, Gilberto Gil, ai não sei quem (segue-se longa lista de arrogantes artistas, distantes do seu povo, embora arranquem o sustento desse mesmo povo, vampiros da ignorância), sempre foram velhos, uns ativistas de nada ou de bundas, mas todos ativistas de dinheiro, que submeteram-se às regras do sistema. Tanto artista bom o Brasil tem há cinquenta anos, e só esses pintam todo dia na parada, com o invasor junto, pela maldição plim-plim... Os demais vão para os ratinhos da vida, que nojo. Passemos a ignorá-los. A eles e à criminosa lei Rouanet, enquanto preparamos os explosivos. Para iluminar Copacabana, o céu tingido, Feliz Ano Novo, com o meu dinheiro. Para a Copa ainda os estamos montando, serão lindos.


Falemos do Papa. Digo, do João da Noite, que nos colocou essas idéias na cabeça.


Outro dia João da Noite, vá lá que de fogo, bota fogo nisso (que não creio interferiu, o João é muito pior sóbrio, psiu, nem se mete, deixa ele), escreveu no facebook do Papa Francisco (o querido Jorge Mario Bergoglio, nosso ex-vizinho). 

Meninos, meninas, através do setor de "mensagem" do Mark Putenberg, João começou mandando-o, ao Papa, para aquele lugar bem longe, a ponte que o partiu, ai que tristeza, que vergonha, mas nem eu nem a turma ousaríamos interromper ao presidente do Partido dos Boêmios (em constituição), pelo respeito que lhe dedicamos e confiança que depositamos, mostrou que as merece em muitas paradas duras, e ele seguiu com horrores, só por não haver encontrado no seu facebook, no do Papa, espaço para a amizade, mano a mano. Virou-se para nós e disse, vou ter um conversinha com esse "casteiano" de merda, tá pensando o quê? E vou falar fora de linguajar acadêmico, disso ele deve estar cheio. A turma conteve o riso, tá brincando. Mas começou, sério, a dedografar os seus amorosos recados (mensagens). Aiaiai, senti, daqui a pouco pula a interpol na gente, mas fiquei frio, confio no taco do parceiro. Que vengan.

- Buenas noches, seu Papa Francisco. Então, hein... Retiro a ponte e a partida, estava só fazendo aquecimento. É o seguinte: então é assim, é? Qual é a tua com essa de se quiser me "Seguir", me diga, é assim na carinha, que frescura é essa, tenho cara de analfa ou seminarista?, perguntou de chofre.

Silêncio do outro lado. Silêncio aqui também entre nós.

- Ora, seu Papa, ponderou João retornando à calma, eu queria era ser seu amigo, amigaço de todas as horas, gostei do seu papo de Papa, o senhor é um homem sério que está botando ordem nesse galinheiro, o mundo mudou, há cinqüenta anos o senhor já estaria envenenado pelas máfias, do Vaticano e as que o Vaticano trouxe para dentro, esses tarados sujos, ladrões, até assassinos, supus que o senhor precisava de amigos. E, note bem, camarada, se digo o que penso tenho aqui minhas razões: se alguém vive de doações, entre tu e eu, eu não sou. E me vem com essa de "Seguir"? Pra cima de mim!?

E se foi:

- "Seguir” nem mulher eu sigo, Chicão, bem, por algum tempo me faço e sigo aquela morena, ou alemoa, nega, ruiva, japa, polaca, todas, azar, mas elas transam comigo, passeiam na praça, me beijam, coisa que o senhor não faz, epa, nem quero, por favor, esquece. No calor a gente diz besteira, amigo Chicão... Snif.

Recuperou-se e emendou: - Ora, Chiquinho! Se eu começar a “Seguir” este ou aquele, pelo aparato de riqueza, que bem havida não foi, eu perco a única herança que meu pai me deixou. Sabe, única!, da qual muito me orgulho.

Aqui tontearam os nossos butiás. Só o João mesmo, chamar o Papa de Chicão! Depois de Chiquinho. Eu teria chamado de Paco, é castelhano, e bom de coração, entende tudo. Mas pretender que conheça Lupicínio Rodrigues e a vergonha que meu pai me deixou? Ah, não, João pirou.

Congelou o ambiente quando começou a surgir uma respostinha do outro lado: 

- Mientras yo tenga voz en el pecho no quiero más nada, que clamar a los santos venganza, oh, venganza, clamar...

João encheu o pé daqui, terminando a estrofe, enquanto vinha de lá em espanhol, cantando juntos: - Você há de rolar como as pedras, que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar.


Agora desabaram, caíram todos os butiás do João e os nossos. João da Noite começou a chorar e disse com a voz embargada, virando-se para nós: Eu disse que o Chicão era dos nossos!, me duvidaram!

Clóvis Baixo apressa-se em dizer: - Pergunte se ele já transou com alguma freira bonita, devem guardar para eles, pois tou com 60 anos e nunca vi uma novinha e gostosa.

João faz cara séria e responde que a vida pessoal não está em jogo. 

Clóvis insiste: - Da vida íntima dele não quero saber, não sou doido, quero saber é das gostosas, onde as escondem!, exalta-se.

Ufa, Jezebel puxa o Clóvis, o diálogo com a santa entidade é mais importante.

Bruno Contralouco entra a milhão, pela janela ouviu algo, e exclama: - Além de contar onde estão as taradinhas, que ele conte como fazem para passar o tesão, elas, à moda afeganistã? Cortam o clitóris com faca de mesa? E o pau de vocês?! Pergunte a ele, João.

Mas bah, animal desnaturado, Contralouco foi expulso, vai tomar ar lá fora de novo, marginal, e cervejas com Miquirina, este hoje de folga. O Contralouco, achando que era mentira o papo, ou melhor, a canção, com o Papa, saiu rindo feliz. João reclamou que o maluco só diz besteira, logo numa hora destas, o que faz a bebida.


E seguiu João da Noite, falando meio que sozinho, o Papito falou quase nada, João não sabia se ele ainda estava conectado. Mas João é fogo, vai sozinho: 

- Papa, quem diria, logo o senhor dando o mau exemplo... onde já se viu, agora muita gente entrou nessa de se achar. Ai, "Siga-me", se quiser, se aproveitando da criançada da favela, ai, o Bial lambe cachorra da mulher do Roberto Marinho, francamente, e isso está se espalhando, a divisão em castas! Tá me entendendo? Os coitados dos pobres da Vila Cão sem defesa seguindo merdas ambulantes ricos! Só rindo, ora vão tomar, ahn, vão pra tonga da mironga do kabuletê.

- Como, Chicão? Não conhecia essa palavra em espanhol, demorei. Ah, sí, en el culo! Isso mesmo, agora entendi, que vão tomar no rabo, esses metidos com a grana do populacho.

Não contente, prosseguiu João: 

- Chico, eu admiro e tiro o chapéu aos artistas mulheres e homens, sejam músicos, cantores, escritores, pintores, pensadores, e aos outros artistas, os da vida, pessoas de boa índole, trabalhadores, pedreiros, os ilusionistas de cabaré, todos, em último caso até padres aguento, o que vier, tenho o corpo fechado de saravás, mas gentes que tenham mensagens boas a dizer, de camaradagem saudável, gentes que se aproximam do seu povo, que não o renega jamais. 

(chora)

- Gentes que não são predadores covardes, os mentores, como esses que vemos na televisão bem felizes. Queremos seres humanos que se envergonhem de ver alguém com fome na rua, crianças. Não queremos esmolas de Mr. Microsoft e outros da mesma laia, sujos, frios, anti-gente. Nada também dessas seitas de ladrões que vieram porque a sua igreja apoiou nazismos e ditaduras, a sua Igreja que faltou a Frei Tito, aliás, vocês lá dentro sofreram ditaduras da Lei do Capeta. Como dizia Paulo Pontes (conhece? Aquele doido como o Antonio Maria): eu vou por onde as minhas pernas me levam, não sigo ninguém! E agora, a falta de coragem está virando moda, a pretexto de vaidade besta... O mal se expande... a cobiça, os jornais deles, os amigos que nos traíram, nos roubaram a ilusão, Chico!

De lá veio suave, em portunhol agora, como quem lembra Copacabana: 

- Yo acá sentado en esta piedra de playa, soy un vegetal... Si yo morisse mañana por la mañana, mi falta nadie sentiria". 

- Mas é isso que estou te dizendo, homem, me ajude, não vê! Vamos todos morrer, mas ninguém tá nem aí, pombas, olhe, Papa, precisamos de amor, coragem, humildade, esta, a humildade, está em falta, então se abra, meu, se o sujeito escrever um insulto, uma bobagem, exclua do seu facebook, pronto, sem um pio, que é a melhor resposta. Entendeu-me, né? Abra-se com as pessoas, deixe de ir pelos aspones. A vaidade, na sua posição... e vaidade de quê, de dobrar pobres almas? Não, não foi tu, são teus aspones, burros demais, eu sei. Quer saber, te recomendo um cara que eu conheço para te assessorar, o Bruno Contralouco, vai fazer chover aí, é sincero é pega no ar maldades e tudo, se com um punhal contra armas terríveis, é um jaguar.


- Si. Me gustó, Contraloco? "Medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel...". Lo quiero conmigo. Mañana por la mañana hablamos. Ahora me llaman... Hasta luego, querido Juán.

- Tiau, tchê Chicão, se manda, mas fica na tua, toma cuidado aí. Eu vou seguir aquela nega que passou me olhando com cara de eu te amo, ai que linda, parou lá fora, na ponta da calçada do bar, aquela nega tem um aperto, meu irmão, me domina, vou segui-la. Tiau. Amei levar um lero contigo, hoje aqui na palafita tá o Salito e mais uns trinta, contando as mulheres, todos te amam e torcem por ti.

- Abrazos a todos, Juanito de La Noche, ciau.

- Tiau, Paquito.

Jussara do Moscão, sentindo o fim da conversa, antes não quis interromper, voa precipitada: - Pergunta a ele se pode nos ajudar a matar os políticos e gorar a Copa da roubalheira, pergunta pra ele...

João responde: - Outro dia, agora já era, Jussara, ele saiu do face, compromissos inadiáveis, me desculpe, o homem é chefe de estado de boa parte da Terra. Mas deixe uma mensagem! 


Esse o João. Leu alto até aqui, recebeu a aprovação geral, e toda a palafita ri gostosamente da sua competência, atrevimento sincero, sem querer vantagem. E ficou com sombras na face. Lembramos-o das comidas, antes ele pediu mais um trago, mas, rosto ainda apertado, sem um sorriso, alega que precisa mesmo sair, combinou com a nega, ela deve estar passando lá no bar já pela décima vez.


Uma hora depois, João já longe, a tigrada espalhada, aqui tudo em paz, sozinho olho para o meu facebook Salito Ainda Espantado. Olho as minhas amizades. Confirmo: tenho muitas pessoas conhecidas e amadas do Brasil e do exterior, umas mais conhecidas da população, outras menos, mas todas lindas e amadas sem falsificações, especiais, copos de vida desde o mais cheio até o mais humilde que a água está vindo, e me sinto orgulhoso de cada um, porque não se afastam do seu povo, dos seus fãs, dos seus amigos, dos seus iguais. São pessoas de amor.


No fundo, acho que o presidente João da Noite saiu-se com um monte de verdades que eu, aqui..., nem pensar em incomodação, deixa assim, mas também saltei para a resteva. Eu, hein? Nunca mais.

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martes, 3 de diciembre de 2013

O direito de não o ter

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Por Janio de Freitas


O maior avanço do Brasil no pós-ditadura é nos direitos humanos. Os neoneoliberais dirão que é nas privatizações, até porque direitos humanos só lhes ocorrem para falar de China e Cuba. Tão logo terminada a era das transgressões desumanas, os direitos humanos se puseram em marcha ininterrupta, acelerada pela Constituição. Mas tudo o que se caminhou nessa direção é ainda muito, muito pouco.

O reconhecimento do racismo, a maior repressão à violência contra as mulheres, a ajuda financeira contra a miséria alimentar, os programas habitacionais e de melhoria material estão sob ataque constante, mas são fatos. Visíveis em suas formas humanas. Nem por serem assim e projetarem benefícios também sobre as classes abastadas, sem as prejudicar em nada, foram capazes de disseminar nelas uma mentalidade menos apegada às raízes das desigualdades brasileiras.

A prisão dos três petistas na Papuda revelou aos não brasilienses o padecimento extra dos familiares de presos comuns. Mesmo que chova e faça frio, são obrigados a dormir na rua como puderem, para conseguir as senhas distribuídas ao número limitado de visitantes às quartas e quintas-feiras. Nenhuma autoridade, local ou federal, deu atenção a isso, nem antes nem depois desse tratamento tornar-se notícia, reiterada para acusar privilégios dos petistas. Aos brasilienses que veem as famílias noturnas, é como se não vissem.

São direitos humanos violentados, no entanto. Repito o que foi dito aqui: são pessoas não condenadas mas submetidas a um sofrimento adicional ao de terem um filho, o marido, o pai no presídio. A explicação: "há visitantes demais". É mentira. São dias de menos para visitas e horários de menos para fazê-las. Se há condições para visita na quarta, pode haver nos demais dias. É só um probleminha de direitos humanos, no entanto, sentido por uns poucos milhares de pessoas.

Entre alguns milhares e vários milhões, porém, não há diferença. As perdas causadas aos detentores de cadernetas de poupança por quatro planos econômicos vêm desde o governo Sarney, e o processo sobre sua devolução se arrasta ao ritmo próprio do que chamamos de nossa Justiça. Coisa de 150 economistas e ex-ministros, diz o noticiário, assinaram um manifesto ao Supremo Tribunal Federal advertindo para os terríveis efeitos que o sistema financeiro, leia-se os bancos, sofreriam com uma sentença favorável à restituição do usurpado aos poupadores --R$ 150 bilhões.

Se tal é o valor que não deve ser restituído, os próprios defensores do calote reconhecem que foram tomados da chamada poupança popular, as velhas e suadas "economias", R$ 150 bilhões que ficaram com os bancos.

O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, que tem cumprido sua utilidade com muita competência, informa que das 1.030 ações de restituição só 15 sobrevivem a uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, há dois anos, sobre prazos para as reclamações. Com isso, uma sentença favorável à restituição só totalizaria R$ 8,650 bilhões.

Entre os autores, colaboradores e apoiadores daqueles planos desastrados e, de outra parte, o Idec, este me parece preferível por três razões: está sempre muito mais certo no que faz do que estão aqueles economistas no que se presumem capazes de fazer; há concordâncias importantes com o Idec na OAB; e o Idec não tem ações de bancos, logo, não está defendendo o seu cofre sob argumento aparentemente desinteressado.

A informação do Idec leva à conclusão de que os participantes do manifesto, ou cometem a leviandade de tomar uma posição pública sem saber o que de fato está em questão, ou têm as informações necessárias e valem-se de uma quantia impressionante para evitar que os bancos restituam à poupança popular um valor insignificante para o sistema bancário mais lucrativo do mundo.

Não se trata, porém, de uma questão meramente financeira. É de direitos sociais, de direitos econômicos pelo desrespeito à lei e ao contrato das cadernetas com os depositantes, e, portanto, de direitos humanos pelos males infligidos à vida de milhões de pessoas.

Na quarta-feira, o Supremo adiou o julgamento para 2014. Com pressa, como não se cansaram de reiterar os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, devia ser concluído só o processo do mensalão.

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NE: A charge do Rico não consta no original.

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viernes, 29 de noviembre de 2013

Boêmio sem amor. Que Vicente Celestino me desculpe...

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Três da matina em Porto Alegre. Chego em casa e na frente do prédio a gatona Black Bloc (isso admiro nela, além de toda aquela beleza envolta em preto brilhante, daquele seu jeito de rainha, educada, simpática, terna, ai meu Deus: ela é de chegada, na hora do pega não quer nem saber, e odeia banqueiros, como eu) me diz, vozinha provocante, olhos negros luzindo, rosto aberto, sincero: “Chegando cedo, vizinho, e sozinho...”.

Arriada. Respondo gudi naiti, gurias, e emendo que chego sozinho, dona, porque acabei de dizer ao garçom que eu quero que ela morra, o sujeito deve estar pensando que pirei, e sigo andando até a entrada, mas contando, um, dois, vôo até vinte milhões, até passar a vontade de dizer a ela Entremos juntos, querida, quero te mostrar a minha coleção de discos, sei que ela gosta de blues, iria desmaiar ao ver a negada de Saint Louis que tenho. Nada de magrela, essa é de parar o trânsito, coxuda, uns peitos..., ai meu Deus, mas sabe como é, vizinhança não mesmo, daqui a pouco o apê fica visado e perco a privacidade, imagine uma vizinha e parentalhas cubando, anotando, fotografando, tuas entradas e saídas, com quem veio e quem saiu, horários e tudo. Eu, hein. Ou pior: de repente arranjo uma aliança, para depois andar todo bobo alegre com uma argola no dedo anular esquerdo. Deixo isso para o seu vizinho, mero seu-vizinho mas que anda com cara de pai-de-todos por causa da grana desviada. Eu, hein?

Hoje à noite o amigo Ronaldo Giacometti lembrou de Vicente Celestino e saio à caça do meu elepê, pensando que as globos passam tanta porcaria enlatada dos terroristas americanos, e aquele filme, que fim levou? O disco eu tenho, vinilzão antigo.

Se a Blacbloca trintona, ou quarentona?, como diz Luciano: quarentã, que parece trintã, daqui a pouco ouvir O Ébrio vai pensar que eu pirei. Deixe que pense.

Tiro a droga dos sapatos e meias, o terno preto, atiro longe a gravata, ah..., outra coisa. Camisa regata do Peñarol, bermuda azul e chinelos de dedo. Ô vida boa, só me falta mulher, uma que não fique aporrinhando, cobrando, outro dia há de aparecer, eu hein, não saio à procura pelos bares porque sei que é bobagem, isso não acontece, espero sim que o inesperado me faça uma surpresa, como disse o Johnny Alf, algo natural, só assim para valer a vida. Espero, tenho tempo.

Puta que pariu! Achei!, depois de meia hora folheando capas, não sei quem vem aqui e deixa tudo em desordem, é a Nana Caymmi dentro do Scarlatti, o Emílio descapado, a Luciana Souza dentro do Jamelão, o Jamelão dentro do Nelson Gonçalves, que foi visitar o Nei Lisboa, que não tava em casa e deixou em seu lugar o Lucho Gatica, que cedeu sua moradia para a Elizeth Cardoso, a Elizeth que emprestou a casa para o Telmo de Lima Freitas, que cedeu seu rancho para o Adoniran Barbosa, o Roberto Ribeiro e a Clara Nunes espremidos dentro do Mozart, que está desaparecido com suas concertantes, não me surpreende, esse é louco de atar. A Libertad Lamarque se mudou para o Nat King Cole, adiante o João Nogueira reclama que assim não dá, ele e mais cinco apertados num álbum de jazz, um deles o Luiz Melodia, que exclama que loucura, isto parece a cabine 103 do hospício do Engenho de Dentro, a seguir ouço um choro de menina e vejo a casinha da Nilze Carvalho abandonada, isso não se faz, o Zeca é outro que tomou chá de sumiço, deve estar sorvendo uma gelada no bar da esquina, o seu Cartola deu uma saidinha junto com a Jovelina, encontro a Lia de Itamaracá aborrecida num disco que não é meu, o Arthur Moreira Lima emputeceu e meteu o pé na estrada, uma confusão danada, o Lúcio Cardim se instalou na residência do Lupicínio, bem, esses se entendem, mas o cara que mexe nos meus discos parece que bebe, só falta ter-me arrebentado a agulha, a última. Encontrei um maço de cigarros com o Aldir Blanc, de uma marca que eu fumava, ah, Vida Noturna, depois vou botar. Miro a imensidão de discos que não cheguei a folhear, achei logo o seu Vicente, só meia hora, e imagino o trabalhão que terei para organizar, uma semana, por baixo.

Não quebrou a agulha, não. Vicente inicia recitando toda a felicidade do mundo, vida boa, amigos, mulher: Nasci artista, fui cantor, ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo....

Logo está dizendo alto "Já fui feliz e recebido com nobreza até, nadava em ouro e tinha alcova de cetim, a cada passo um grande amigo em que depunha fé, e nos parentes, confiava sim", a velha do apartamento de baixo bate com o cabo da vassoura no teto, acho que gostou da minha escolha musical, me empolgo, e chego à sacada com um copão de uísque na mão, o vozeirão do cantor me segue, inundando a Cidade Baixa, bah, me emociono ao pensar que alegro as pessoas, e vou espiar a mulher de preto lá embaixo, me fazendo que é por acaso. Preciso me organizar, amanhã arrumo os discos, pois algo me diz que esculhambei mais do que já estava.

Devolvo o aceno da Blacbloca que segue na entrada do edifício, de lero com umas Blacbloquinhas. Ela abre um enorme sorriso e lá de baixo exclama: “Pirou, boêmio lindão?”. As pequenas riem risinhos curtinhos.

Arriada, ora lindão, com esta cara. Pirei, sim, linda é a tua bundinha, me aguarde, penso, e abano de novo, começo a achar que não tem nada de mal tomar uma bebidinha e trocar uma idéia com a moça, somos "de maior", e assunto teríamos, pois outro dia, quando me viu passar de camisa com o 3 nas costas, listrada em amarelo e preto verticais, ela sorriu e disse que sempre amou o Peñarol, desde menina. Ai meu Deus. Volto para dentro, agora com um calorão no peito.

Será que as alianças estão caras? Essas joalherias são um assalto, mas faz tanto tempo a última vez, talvez hoje não seja tanto assim, na época eu que ganhava muito pouco, é isso. A música do seu Vicente deixa a gente indeciso, vai que. Que nada, não quero nem saber, azar, ele que me desculpe, para mim há de dar tudo certo. Quando eu for à joalheria no caminho comprarei um capuz. 

Corro novamente à sacada, ela me olha e com as mãos sinalizo que estou descendo, ela ergue os braços ao céu, em direção à sacada, com o corpo dizendo, reclamando, pedindo, Vem, seu bobo, há meses te namoro! Ai meu Deus. Desço assoviando o samba do João, cabeça posta na letra do Aldir, "...mas hoje eu estou de bem comigo, e isto é difícil...".

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miércoles, 27 de noviembre de 2013

A injusta árvore de Natal

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Recebi agora, urgente, para somar à postagem anterior. Segundo os boêmios do Botequim do Terguino, nesta semana foram montadas muitas árvores, no Congresso Nacional, primeiro, logo em Câmaras de Deputados e Assembléias Legislativas de todo o País.

Deixa assim, não vamos misturar charges com fotos. Vai aqui, em separado. Eu acrescentaria empreiteiras, a consultoria do gato Palocci, gabinetes de alguns governadores, eikes, itaús, tantos, por aí...

Mas é impossível não observar que os amigos, ao enviarem, declaram que andaram bebendo. Ora, o tadinho do bichano, se tem a mão ligeira é somente para o básico sustento, surripiar uma cabeça de peixe, um resto, uma refeiçãozinha qualquer.

Outra coisa são aqueles elementos que roubam do seu País, das suas crianças (não das deles, que julgam melhores que as nossas), brutais seres que envergonham a raça humana.

De todo modo, miremos. Lindos!


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Comoção no botequim, n'A Charge do Dias

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Ontem à noite a sessão de "O boteco pensa", evento que se fere duas vezes por mês no Botequim do Terguino, foi cancelada. Haveria palestra do boêmio Aristarco de Serraria, mas o palestrante, tomado de fúria momentos antes, não apresentava condições psicológicas adequadas, segundo suas próprias palavras, para discorrer sobre o tema que escolhera: "A mensagem de Diógenes, o Cínico". Antes havia esclarecido: "Este que morava num barril, tendo como únicos bens um alforje, um bastão e uma tigela, e que em meados de 350 A. C. andava com uma lanterna acesa em plena luz do dia à procura de um homem virtuoso, gesto que, se fosse em Brasília, estou certo de que ele sequer tentaria". Por falar em Brasília, o filósofo também ponderou aos companheiros: "Que fique claro que o Cinismo era uma doutrina filosófica grega que pregava as vantagens de uma vida simples e natural, e não essa imoralidade e falta de vergonha que assistimos diariamente".

A turma compreendeu, pois já basta o problema de que sofre o sábio, que faz com que por vezes sinta tudo girando ao seu redor, copos, garrafas, os carros que passam. Outro dia andou se incomodando e ao se encaminhar ao Mercado Público para comprar peixe a Praça Montevidéu, com Fonte Talavera e tudo, levantou vôo junto com o prédio da Prefeitura, ele retornou ao bar, mas jura que a Praça e o prédio o seguiram, fazendo volteios no ar. Bem, pelo menos isto é o que ele sente.

O que abalou o nobre empinante foi uma das notícias da sessão diária "Notícias do Notibuc", apresentada momentos antes por Luciano Peregrino. Aliás, metade da platéia precisou de atendimento médico, prontamente fornecido pelo doutor Frederico Garcia Lorpa, membro da confraria, que a uns ministrou cerveja, a outros caipirinha, aos casos mais graves Dyabla Verde, o absinto da casa, também chamada de "Losninha".

Ó trilhões de leitores, preparem-se para uma indisposição. Os cardíacos e as pessoas com pressão alta estão terminantemente proibidos de seguirem lendo, pulem esta parte e vão direto às charges. A novidade que deixou os empinantes estupefatos e quase os mandou para o hospital foi assim lida por Luciano: 

- Atenção, tigrada, jornal Ucho.info: o mensaleiro José Dirceu pretende ser gerentalha de um motel de propriedade de um sujeito dono de um catatau de emissoras de rádio, com salário de vinte paus, em troca da liberação, pelo governo, de um canal de televisão, ressuscitando a extinta TV Excelsior. O cargo de gerentalha será de fachada, na verdade instalará no tal de motel, que passará a chamar-se "metel", a sua central de lobbyes, pois o elemento é lobista, nome que dão à picaretagem de mexer pauzinhos dentro do governo para beneficiar este ou aquele mediante polpuda comissão, assim chamada, a comissão, pela hipocrisia nacional, pois na verdade essa pecúnia tem outro nome. Além disso, estão querendo confundir regime semi-aberto com aberto. Semi-aberto é colônia penal, plantando batatas ou carregando pedras, e não essa pouca-vergonha que estão armando. 

Pra quê: os boêmios que não desmaiaram ou sentiram-se mal, isto é, os que conseguiram falar, explodiram em impropérios. Carlinhos Adeva, o diretor jurídico do Partido dos Boêmios (em constituição), estendeu-se um pouco:

- Isto é um acinte! Agora estão insultando a inteligência alheia em plena luz do dia! Moleques! Descarados! Vagabundos!...

Suas mãos começaram a tremer, deu de gaguejar, e logo precisou também ser atendido pelo doutor Frederico, que aplicou-lhe uma dupla de Dyabla.

Bruno Contralouco disse que outro dia iria vestir a sua roupa de Black Bloc para fazer uma visitinha a "certos uns". Mesmo sem precisar de medicação exclamou para o Portuga:

- Vou precisar de um remédio, Portugalino, salta um chope e um liso de trigo-velho!

Uma relativa calma sobreveio na hora da eleição das obras do dia, que vão duplicadas vez que no fim-de-semana não houve votação, estavam ocupados demais com cantorias e fuzarcas. Ficaram com as seguintes:

Myrria.



Nani.


J. Bosco.



Jotapê.



Miss Leilinha Ferro, que como coordenadora tem direito a uma a solas, ficou com o Cazo.



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

sábado, 23 de noviembre de 2013

Peixe à tartaruga, sem veneno

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Uma linda noite de sábado em Porto Alegre, apesar do ventinho traiçoeiro que ao encanar fica batendo portas e janelas, típico de novembro, já em Finados é sentida a sua presença impertinente. 

Eu e a dama prontos para sair, todo finórios, ela inteiramente de branco, eu de preto à exceção da gravata branca, nada de borboleta, gravata mesmo, esta como sinal de aproximação que temos meu amor e eu, e para não ficar nem longinquamente parecido com gorilas da universal ou com leões-de-chácara, embora isto, a incompatibilidade com tais elementos, se perceba pela minha cara e pela qualidade dos trapos.

E eis que me chega Carlito Dulcemano Yanés, o desaparecido, de mala e cuia, disposto a tomar um copo de veneno. O coração dando saltos, que parecem maiores pelo volume da Magnum no lado esquerdo. Outra briga com Ju Betsabé, não precisa nem falar, já sabemos. 

Levo-o para o quarto de hóspedes e ele me conta que desta vez é definitivo, pois ela botou fogo no seu apartamento na semana passada, cinco litros de gasolina e um pau de fósforo. Como resposta, hoje ele foi no dela levando um saco de ratos de esgoto, em meio a um jantar que ela promoveu para as amigas e colegas da filosofia, e o abriu no meio da sala, quando as comensais riam e bebiam, preparando-se para se deliciarem com o peixe à tartaruga, vá saber o que é isto. Penso em lhe perguntar onde arranjou tantos políticos, mas me contenho, pelas circunstâncias deveriam ser os famintos bichinhos mesmo, afinal era só para estragar o jantar das moças, não para roubá-las. Cada ratão..., diz ele, tudo criadão, federal, um deles maior que o querido Gatolino, e olha para o nosso gato. Uno, meu, do partido socialista, hoy amigo de Marina, que há séculos comprou casa com mala en vivo, notas estalando... En Puerto Alêgre. E outro que... O Gatolino salta no meu ombro, erguendo a patinha esquerda para Carlito em sinal de bem vindo, saudades, quando tu te acalmar a gente conversa. Carlito se cala. Eu mereço, ou ando vendo coisas.

Isso pelas nove e meia da noite. De volta à sala, ele vai ao banheiro e digo à Mariquita que é melhor sairmos mais tarde. Ela assente, com ar de quem entendeu o mais tarde como amanhã.

Sou antigo nessa parada, não posso deixar meu companheiro sozinho numa hora destas, uma porque é amigo do peito, outra que sei que os ventos não sopram sempre para o mesmo lado, não esqueço que ele não saiu de perto de mim por uma semana naquela vez em que resolvi queimar um banqueiro, de medo, vai que eu me desse mal por estar sozinho, o outro tinha cem seguranças, engraçado que para proteger banqueiros e larápios de mesma estirpe aí o sujeito pode andar armado. Deixar estar, o futuro a Deus pertence e os ventos viram, ora para cá, ora para lá.

Veneno não sou parceiro em tomar, que tal vodka com martini e suco de kiwi? Ele aceita, sem o suco, dizendo que essa droga tem gosto de vinho. Mariquita fica com o suco pingado de vodka. Psicologia, malandro: na primeira oportunidade desvio o assunto, falando que o Internacional está indo cuesta abajo apesar da folha de dez milhões por mês, e nada faz pelas crianças. Ufa, caímos no amado Peñarol, que abdicou de títulos mas encaminha para a vida centenas, milhares, de crianças carentes. E mesmo abdicando eles que se cuidem, incomoda sim.

Masoquista, pede-me para que rode no toca-discos o Bolero Italiano, a "nossa" música, deles, Carlos e Ju. O "bolero italiano" L'edera, dos italianos Saverio Seracini (música) e Vincenzo D'Acquisto (letra), título que, traduzido, em espanhol varreu o mundo como La hiedra. É de 1958, vinte anos antes de Carlito nascer, mas essas coisas de amor, mulheres e música, aquele, aquelas e esta todavia me pegaram, não se explica, gosto é gosto, um mundo desconhecido de encantos ou dèjá vu. Por exemplo, Carlos e eu temos a mesma altura, 1,85m, e o mesmo peso, 86 Kg, mas ele gosta de palito, a Ju mede 1,63 e pesa 57, já a minha Mariquita mede 1,86 e pesa 87. Gosto de ter onde pegar.

Y así pasan las horas. Estamos felizes, Mariquita e eu. Somos daqueles bobos que quando dá uma zebra a gente absorve, pensamos que se saíssemos, driblando o fortuito, sabe-se lá o que poderia acontecer. Pegar na loteria na noite de Porto Alegre certamente que não iríamos, os números já correram e novamente pegamos nada. Amanhã será um bom dia, passar a tarde de cervejinhas pelo Gasômetro ou por Ipanema. Levaremos Carlos Dulcemano, se até lá ela não telefonar.

Agora o maluco meteu-se na cozinha, nem Jesus o impediria de tentar o tal "Peixe à tartaruga" que viu de relance. Gatolino lá junto com ele, falou em peixe... Ouvimos os dois confabulando, Carlos diz: meu, outro dia te trago um passarinho. Ui-miau!

Apresso-me a dizer Carlito está brincando, morena, ela responde eu sei, do Gatolino não me admira o instinto, tadinho, o achamos na rua ferido e capado. E a minha namorada chora, ô guria sensível, é assim a cada vez que lembra do bichano, ainda filhote, banhado em sangue por obra de vândalos. Voz em cacos, segue: o que me admira, são pessoas, supostas pessoas, iguais desde sempre, instinto de fera e com disfarces de sociedade, como conseguem?, pessoas que se sentem felizes em arrancar de quem não pode se defender das suas armadilhas de panelinhas, o mundo de mentiras lá fora... Pára, guria, passou, calma, essa parte é comigo, ainda os pego. Vamos dançar?

Hoje dou uma folga para Los Panchos, Gigliola Cinquetti, Johnny Albino e outros amados, e rodo com a espanhola Paloma San Basílio. Danço com Mariquita na sala. De lá da cozinha vem o grito em portunhol: yo amo aquella tartaruga desgraciada!




A última clandestina da ditadura no Brasil

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Reportagem de Patrícia França, para o jornal A Tarde


Há 30 anos morando na França, a arquiteta e urbanista baiana Maria José Malheiros decidiu, tardiamente, reabrir o processo de anistia, concedido em 1979 a todos os brasileiros punidos pelo regime militar,  e pedir a regularidade definitiva de sua identidade.

"Nesses anos tive a sensação de ser uma pessoa em pedaços. Uma pessoa com três vidas", declarou ela, que optou por adotar o nome usado na clandestinidade.

A identidade resgatada encerra 40 anos de constrangimentos e medo de ser descoberta.

"Tinha muita dificuldade em falar de número, de guardar a data de nascimento, a não original", conta Maria José.

Num depoimento emocionado concedido ao A TARDE, ela define como "muito especial" o dia 24 de outubro de 2013, data em que foi anistiada pela Comissão da Anistia do Ministério da Justiça.

"Pela primeira vez na minha vida eu caminhei em São Paulo, sozinha. São Paulo para mim era uma cidade do medo. Mas tinha um sol belíssimo naquele dia; achei a cidade linda", descreveu.

A vida no subterrâneo

Terceira filha de uma família de seis irmãos, Maria Neide Araújo Moraes só tinha cinco anos quando os pais decidiram se mudar de Palmas de Monte Alto, no interior da Bahia, para Goiânia, a capital de Goiás.

Aos 17 anos, já aluna da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Goiás e contratada como chargista do jornal O Popular, experimentou, naquele 8 de setembro de 1968, o  clima de repressão e medo no qual o País mergulharia nos anos seguintes.

"Fui presa na véspera do meu aniversário, em razão de manifestações estudantis. Depois fui colocada para fora do jornal por conta de uma charge sobre censura", diz Maria José, lembrando que o jornal foi fechado duas vezes pela polícia por charges feitas por ela.

Expulsa da universidade, enquadrada no decreto-lei 477 (o AI-5 das universidades baixado pelo presidente-militar Artur da Costa e Silva contra culpados de subversão ao regime), ela foi sequestrada em casa, por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social).

Integrando os quadros da AP (Ação Popular Marxista Leninista) e percebendo o agravamento da repressão em Goiânia, foi emancipada pelo pai, já que não tinha completado os 21 anos, e se mudou para São Paulo. Foi trabalhar no Banco Itaú, em 1971, onde atuou como digitadora de dados. Temendo ser presa, deixou o banco. Foi então enquadrada no caso de abandono de emprego e passou para a clandestinidade.

"A situação política era muito mais dura no País naquela época. A repressão era violentíssima, então qualquer tipo de atuação era punido com prisão", relata ela. "Tive que abandonar a minha casa mais uma vez, meu companheiro (Heládio José de Campos Leme) ficou preso durante um ano, e eu tive que ir embora para o Rio de Janeiro".

Seis meses depois Maria José, já filiada ao PCdoB, veiopara a Bahia. Foi morar em Vitória da Conquista com o comunista e militante político de esquerda José Novaes, que a adotou como filha legítima.

Ela, então, que já abdicara do "nome original", Maria Neide, passou a se chamar Maria José Novaes. "Fiquei em Vitória da Conquista um ano e três meses convivendo com a família de José Novaes num bairro muito pobre". Nessa época, lembra ela, o seu companheiro, pai de seu filho mais velho, saiu da prisão. Eles então  decidiram voltar a São Paulo.

Mas Maria José Novaes, assim como Maria Neide, também era procurada pelas forças da repressão. O PCdoB chegou a sugerir para ela ir para o Chile, destino buscado por vários comunistas brasileiros nos anos de chumbo. Mas ela decidiu ficar e voltar a Goiânia clandestinamente. "Minha mãe me registrou, novamente. Me colocou entre dois filhos, na vaga do filho que tinha morrido, com o nome de Maria José Malheiros. Mudei novamente de idade e de nome". 

Em setembro de 1973, decidem recomeçar a vida em Salvador. Com a certidão de nascimento, conseguiu fazer uma carteira de trabalho. Volta a Goiânia, em 1975, para  fazer novo documento de identidade. "Passei a trabalhar e tentar viver uma vida clandestina, porém, mais próxima da normalidade".

Em 1976 fez o supletivo, passou no vestibular de arquitetura da Ufba e ficou grávida. "Foi um ano muito pleno para mim". Na universidade, ela militou no movimento estudantil e atuou  na campanha pela anistia, ao lado de companheiros como José Sergio Gabrielli, Emiliano José, Oldack Miranda, José Carlos Zanetti, Milton Vasconcelos, Javier Alfaya, Lídice da Mata, Péricles Souza e Jorge Almeida.

Em 1982, já separada do seu companheiro, foi para a França fazer doutorado. Conheceu o atual marido, com quem vive há 30 anos e teve outro filho. Mas a "crise de nome e de idade" enfrentada todos os anos fez com que a engenheira de vias urbanas da prefeitura de Paris negociasse, há dois anos, uma licença não remunerada para retornar ao Brasil, requerer a anistia e regularizar sua identidade.

"Na França continuava clandestina. O fato de ter dois nomes não adiantava. Tinha sempre que tomar cuidado, esses medos de ser descoberta. Esta anistia me permitiu isso. Hoje eu não preciso esconder mais para os outros quem sou", diz ela, que até dezembro, quando retorna a Paris, continuará dando aulas na Faculdade de Arquitetura da Unifacs em Salvador.
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viernes, 22 de noviembre de 2013

Magnus Carlsen is the new World Champion!

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Só entre Índia e Noruega, 200 milhões de espectadores acompanharam o match pelo título mundial entre o "Mozart do Chess" e o "Tigre de Madras", sendo 100 milhões pela TV. No mundo todo estima-se de 500 milhões a um bilhão de pessoas.






jueves, 21 de noviembre de 2013

Grandeza dos advogados

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Por Marcelo Coelho



O major bateu na porta do quarto do hotel. Quem abriu a porta - estamos em pleno regime militar - foi o advogado Sobral Pinto.

Tenho ordens, disse o major, para levá-lo preso. O velho Sobral não se intimidou. O senhor tem ordens de um general, disse ele. Entendo que um major obedeça a um general. Mas - e o homenzinho se exaltou - eu é que não obedeço a ordens suas!

"Preso coisíssima nenhuma!", explodiu o advogado. Ou melhor: "prejo coijíssima nenhuma", terá dito, com as gengivas de quem já tinha mais de 70 anos naquela época.

No comício das diretas da Candelária, em 1984, a mesma vozinha trêmula recitou para centenas de milhares o primeiro artigo da Constituição: "Todo poder emana do povo e em xeu nome xerá ejercido". Sobral Pinto estava com 90 anos.

Um documentário sobre ele entrou em cartaz faz pouco tempo; o Espaço Itaú Frei Caneca exibe-o num único horário, às 18h30.

Dirigido por Paula Fiuza, neta do jurista, o filme é uma oportuna homenagem a um dos cidadãos mais corajosos e íntegros da história republicana. Íntegro demais, talvez, para um documentário completo.

Bem que, no filme, tenta-se mostrar algo que contradiga a imagem do paladino constitucional.

Era passional, desequilibrado, injusto até a medula quando ouvia no rádio um jogo de futebol, contam os parentes. Não ia nunca aos estádios, contudo. Católico das antigas, puniu-se até o fim da vida por ter tido um caso extraconjugal, há muito sepultado, mas nunca esquecido.

Haveria aí bom material para uma obra de ficção: o advogado que luta pelos clientes, que os tira da cadeia, que consegue absolvições, nunca perdoou a si mesmo, nem foi totalmente libertado de suas culpas.

O assunto é abordado de passagem, entretanto, num filme que se concentra, para uso das gerações mais novas, no exemplo incontestável de coerência civil que foi a vida de Sobral Pinto.

Faltam imagens, claro, de épocas mais remotas. Quase só vemos o velhinho de chapéu preto e guarda-chuva. Há fotos, contudo, da atuação de Sobral Pinto quando foi defender Luís Carlos Prestes, encarcerado pela ditadura Vargas.

Como se sabe, o advogado, já com seus 50 anos, invocou a recém-criada Lei de Proteção aos Animais para garantir condições mais dignas ao líder comunista. Talvez tivessem, os dois, algo em comum.

É verdade que Prestes, seguindo a linha do partido, passou a apoiar Getúlio logo em seguida. Podia ser uma contradição do ponto de vista pessoal, coisa praticamente desumana quando se pensa que Getúlio mandou a mulher de Prestes, grávida de sua filha, para morrer num campo de concentração nazista.

Seja como for, estava em jogo uma mesma firmeza de propósitos, uma mesma teimosia, um mesmo sacrifício que, no caso de Prestes, nos horroriza, mas no caso de Sobral Pinto causa admiração. A longevidade desses dois gêmeos, desses dois opostos, talvez se explique um pouco por aí.

Durante a ditadura militar, observa com razão o historiador José Murilo de Carvalho, era provavelmente mais fácil fechar o Congresso do que prender Sobral Pinto. A fragilidade, assim como a velhice, tem suas compensações, e podemos sempre esperar que, em alguns casos, até a truculência tenha seus limites.

Foi o que permitiu, por exemplo, que alguns advogados conseguissem vitórias, obviamente reduzidas, até mesmo em momentos de furiosa repressão militar. Adversários do regime eram presos sem nenhuma ordem judicial, levados sabe-se lá para onde, e submetidos à tortura.

Juridicamente, aquilo era mais um sequestro do que uma detenção. O mecanismo do habeas corpus teve de passar praticamente por uma pirueta interpretativa, pelo que conta um advogado ouvido no filme. Em vez de ser um recurso para libertar o preso, foi usado para que, ao menos, os familiares pudessem localizá-lo - e para que o regime admitisse, oficialmente, tê-lo agarrado sem nenhuma formalidade legal.

Tratava-se, numa palavra, de baderna, feita por militares em nome da ordem e da luta contra a subversão. Memorável, a esse respeito, a frase de outro jurista, acho que Pontes de Miranda, que se recusava a comentar o AI-5, por uma razão bem simples: "o Ato Institucional número 5 não existe".

A beleza, a coragem, o sentido da profissão de advogado saem fortalecidos de "Sobral - O Homem que Não Tinha Preço". O filme vem a calhar hoje em dia.

Durante as ditaduras, há advogados que são verdadeiros heróis. Num regime democrático, quando o lado acusador muitas vezes tem mais razão, o advogado não conta com tanta simpatia.

Ganha mais dos seus clientes, mas paga um preço mais alto. Parece obstáculo, e muitas vezes é, a uma justa punição. Não importa; sem a sua presença, ninguém poderia dizer que a punição foi justa de fato.
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miércoles, 20 de noviembre de 2013

Till - A versão italiana

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Alô, Lia, de Florianópolis. Não deixaste correio eletrônico, então vai por aqui, onde aproveito e deixo mais uma gravação.

Vai ao final a letra em italiano de Till, a célebre canção de Charles Danvers. A versão é da italiana Carla Gaiano.

No vídeo, em interpretação da própria Carla, sob o pseudônino de Carla Boni.




till... 
finche' lassu' c'e' il sol...
radioso di splendor...
vivra' per noi l'amor..

till...
finche' il chiaror lunar..
gli amanti fa vibrar..
potro' con te sognare...

till..
finche il mondo sara'...
ogni cosa potra'...
dirti che sono tua..

till....
sin quando c'e' il calor..
che scaldera' due cuor..
sapro' cos'e' l'amor...

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