lunes, 14 de abril de 2014

Sonhando com a deusa

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Hoje amanheci chorando, soluçando alto, quase gritos incontidos, acho que inundei o prédio de água salgada, os vizinhos tocaram a campainha, tudo bem contigo, camarada? Sim, desculpe, tudo bem, obrigado. Todo sem jeito.

Aí lavei o rosto, abri uma cerveja, e fiquei bem. Chorava de saudades da Marisa Monte. Sonho ruim, as desilusões deram de me assaltar até dormindo. Aquela droga de bebida verde, o absinto, me empanou a memória. Também, 73 graus de teor alcoólico... Mais as cervejas que a Jane me mandou, já viu.


Só agora lembrei, sem estar certo se sonhei ou aconteceu mesmo, por que não casei com Marisa: recordo que eu ia convidá-la a juntar os trapos e ela leu meus pensamentos pelos meus olhos castanhos, deveriam estar brilhando de bobice, adiantou-se, impetuosa: vai te catar, gaúcho babaca, sou monte e não montaria. E saiu batendo a porta. Só faltou me chamar de pobretão, pura verdade, pois esse foi o motivo da retirada.


Fiquei catando coquinhos sem dizer uma palavra, juro que não tinha pensado em frescuras, ela deveria andar mordida com outros caras e eu paguei o pato. Deixa assim, no sonho, será que foi sonho?, ela estava muito magra mesmo, para o meu gosto.

Pero pensando nela, a deusa-cantora, lembrei de uma jóia da nossa música popular. 


Vomito raiva de fel no banheiro, verde como a bebida. Estou nu e está frio em Porto Alegre. 

Danço sozinho no apartamento, para viver e esquentar o corpo.

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sábado, 12 de abril de 2014

O homem que traçava retas

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O premiado conto é da escritora paranaense, de Cascavel, Lucimara V. Vaz.





Era uma vez um menino que tinha uma grande habilidade para desenhar linhas retas de qualquer tamanho e em qualquer posição. Por certo que descobriu sua habilidade num desses dias que ficam marcados na memória de vida, e que ela não lhe veio pronta e acabada.

Num dia ensolarado, quando tentava colocar na folha de um caderno de desenho a paisagem em frente à igrejinha, todos os seus traços tendiam a tornar-se retos. A igreja foi retratada com exatidão; os canteiros e as árvores mal foram esboçados. A professora, ao comentar algo sobre ter mãos e olhos firmes, estimulou um gosto que lhe duraria a vida inteira e uma ambição que se manteve viva enquanto todas as demais esperanças falhavam.

Ele queria ser um homem que traçava retas perfeitas. Inicialmente ele descobriu que, se a linha fosse muito extensa, apenas no meio ficaria exata e trabalhou com grandes extensões de muro para aperfeiçoar-se nas grandes retas, antes de passar para folhas de metro, com lápis nº 2. Descobriu também que, conforme o material de desenho, a pressão da mão deveria modificar-se.

Lápis de grafite macia exigiam apenas um descansado gesto, como o pincel atômico bem novo; e este, como as canetas de ponta porosa, dava uma grossura desigual para a linha, o que também foi corrigido com muito tempo e treinamento. Ao superar a adolescência, era hábil com todos os materiais de desenho convencionais. Os colegas levavam para ele os cartazes escolares: com traços contínuos e precisos, desenhava uma moldura a exatos três milímetros da borda da cartolina, sem falhar. Levou a tentativa para telas e tintas, panos e cerâmicas.

Em pouco tempo, a associação de artesãos lhe levava pequenos e delicados vasinhos de porcelana, corações e caixinhas para que seu traço perfeito delineasse em dourado as encantadoras peças de argila cozida. Passou as férias com o primo da Funai na reserva Pataxó, aprendendo a traçar com o dedo, sobre o próprio corpo, com a tinta do urucum e do jenipapo, retas e mais retas concêntricas e geométricas. Tentou a faculdade de arquitetura. As plantas desenhadas em papel vegetal, um primor de precisão, o encantavam.

Cursou até o terceiro ano, quando as condições de vida o obrigaram a trocar o estudo pelo emprego. A imagem da tristeza é uma linha truncada, pensou. Conheceu uma linda moça. Apaixonou-se. Comparou o amor a duas retas paralelas que, ao encontrar-se no infinito, tornam-se uma só. Casaram-se e, no livro de registros de casamento, com um pouco de tinta de ouro que guardara especialmente para a ocasião, sublinhou o nome de ambos com traços retos e luminosos. Teve filhos. Trabalhou. Não se pode dizer que tenha sido um sucesso profissional ou que tivesse obtido da vida tudo que queria. O fato indiscutível é que criou a prole com as necessidades decentemente atendidas.

Passava horas com os filhos ao colo, ensinando mãozinhas gorduchas a traçar retas no papel. Nenhum herdou sua invulgar habilidade; aposentou-se com quinze quilos a mais do que tinha ao casar-se e um grosso par de óculos que dava a seu olhar um aspecto confuso. Enterrou a esposa num certo dia de primavera, em tudo semelhante ao dia em que a conhecera; poderia ser o mesmíssimo dia, semelhante em luz e cor, emoção e desejo, não fosse os longos anos permeando um e outro. Ele pensou: entre o início e o fim, o caminho é reto.

Conheceu os netos e viveu ainda uma dúzia de anos, entretido a ressuscitar velhos sonhos. Voltou para a faculdade, mas descobriu que preferia cochilar nas aulas. Viajou para a cidade natal e nela não reconheceu nada, a não ser o traçado das ruas. O violão, com suas seis cordas esticadas, levantou-lhe indagações filosóficas sobre a tensão das retas que o distraíram da música. Tentou se dedicar à pesca, mas a morte chegou antes que tomasse o gosto.
Quando, no hospital, esperava chegar o derradeiro momento, ouviu no corredor perguntarem quem era o paciente daquele quarto. A enfermeira respondeu: é o homem que sabe desenhar linhas retas.

Sorriu e faleceu.
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miércoles, 9 de abril de 2014

Um gato para Carlos Heitor Cony

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Perdi o sono por causa do Gatolino. O pobrezinho tem a mania de ir para a sacada admirar o movimento na avenida, aqui do sétimo andar a vista é boa, as luzes dos carros, as batidas com motoqueiros, o berreiro dos bêbedos que saem do cabaré ao lado, as quase mortes de madrugada, os urros dos leões-de-chácara quando saem para matar, as buzinas, os gritos lancinantes dos carros fechados ao dispararem o alarme sozinhos. Uma beleza.

Ele olha a avenida com tristeza, nunca sorri (se o cachorro do Coberto Ralos da lágrima de pingo falso sorri, com aquela de meu cachorro me sorriu latindo, porque Gatolino não haveria de sorrir?), isso me preocupou. Bich, bich, vem cá, Gatolino, ele veio. Por que, meu querido, falei já dando um carinho nas barbelas, nunca sei o nome, mas se fosse galo é a parte do seu corpo abaixo da orelha, bem antes do pescoço, perto do queixo, do ladinho, gato gosta de carinho ali, então por que essa tristeza, preto?

Para mim é barbela, embora ele não a tenha nem deste nem do outro lado da cara. Barbada, jacaré: se eu sustento meu gato, e tu a namorada, problema teu, eu boto barbelas se eu quiser e fim. É barbela. Certa vez, ele bem novinho ainda, inflou as barbelas, posição de tigre na calada, devagarinho, e quis pegar um bicho que passava, errou de passarinho, este era esperto, a corujinha se desviou, dançando ao passar avoando, flap, flap, olhando feio para ele, e ele no pulo desandou aqui de cima, adeus sacada, caiu com tudo, do sétimo ninguém cai em pé.

Peguei-o no ar, pelo rabo, eu, hein? Puxei-o com força, até meu peito. Perguntei: quer se matar, amado? Pelo miau que saiu, acho que o apertei muito, me disse que não. Salvei-o. No outro dia veio de novo com essa de querer cair e o peguei novamente no ar, mas desta vez olhei para baixo e o atirei de lá de cima: quer ir então vai, para ver o que é bom. Claro, mirei num galho de uma arvore que tem lá ao lado das grades, seus galhos vão até à metade do segundo andar, acertei, voou seis andares, foi descambando mas se enganchou num último galho. Desci as escadarias e o recolhi, estava que era um caco, mas depois dessa perdeu a vontade de ser gato voador.

Aí me vem o Juremil (uau, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, eu sou o cara, uau!, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, uau, uau, uau!) falar mal do Carlos Heitor. Hoje Carlos tem 88 anos. Enterrou muitos familiares, se não todos os que vieram antes, mas felizmente tem descendentes, ou descendenta, como quer a Dilminha. Foi valente com a ditadura, escritor de dedos finos, exilado a tierras extrañas, sem pegar em armas, mas foi muito mais que certos moleques que tentam se passar por herói, e escreveu grandes livros. Está com 88 anos, repito, cresci naquela de se respeitar os mais velhos que merecem respeito.

Aí pensei: Gatolino, é hoje.

Carlos amava, já na sua velhice, uma cachorrinha, sua única companheira, e chorou ao perdê-la por morte, veio o Juremil zombar do amor de um homem por sua cadela, cuspir fel em cima do desamparo alheio. Falei para o Gatolino: esse elemento vai me escutar, antes que eu coma a..., deixa pra lá, aquela deve ser um bucho.

Então, Mr. Juremil Universal, ouça-me por bem, que mal aqui não vai: a tristeza do Gatolino é porque nunca amou ninguém, não teve a oportunidade, o castraram antes. Quando o encontrei pelo mundo o mal já estava feito. Então vamos falar de sua vida cachorrinha.

(segue)
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sábado, 5 de abril de 2014

Edu Krieger: Desculpe, Neymar

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Não, nem todos os nossos artistas são omissos, ansiosos por fama e dinheiro fácil, temos muitos engajados por um futuro melhor para todos os brasileiros. Assim que o grande músico, compositor e festejado sambista Edu Krieger (Eduardo Lyra Krieger, 5/2/1974, Rio de Janeiro, RJ) entrou rasgando em defesa do povo humilde do Brasil. 

O blog Ainda Espantado subscreve o que disse o grupo de ativistas de mídia NINJA:

"No Brasil, coube mais à música que à filosofia, ao jornalismo ou às ciências políticas, o papel de motor da reflexão e da crítica nos setores mais populares do povo.

Quando se lança luz ao abismo das diferenças sociais e nosso encontro marcado com o transe parece mesmo inevitável, é preciso ser ousados como os craques, ao roubar a bola e emplacar o gol. O Brasil só será campeão com DIREITOS e MAIS DEMOCRACIA.

Na melhor tradição da crônica política musical que teve em Chico Buarque um de seus máximos expoentes, o músico carioca Edu Krieger compôs 'Desculpe, Neymar!'. A canção já nasce candidata a clássico nesta constelação luminosa da música popular brasileira.

Não se pode perder a esperança em um país cuja CRIATIVIDADE está a serviço de VENCER o abismo entre os Brasis."

Salve, Edu! Viva o povo brasileiro!

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À Gomes de Sá

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Nove da noite em Porto Alegre, a Cidade Baixa em polvorosa. Andando pela Rua da Olaria assisti a cidade toda, até os cães e gatos, tomando chope, e eu impossibilitado. As senhoras bem-vestidas - não vi sequer uma moleca com calça de brim mostrando o rego - ao me verem passar com a camisa colorada nos seus 105 anos só faltavam pular nela, na camisa, com os olhos dizendo vem aqui beber, meu vermelho, tem lugar na mesa. E eu em seco. Logo eu. Pensei em beber um, mas lembrei que não sei tomar menos de quinze. Paciência, domingo a minha vingança será terrível. Segui em frente.

Andando no interior da imensa Mercearia Zaffurtari senti o cheiro inconfundível, maravilhoso, de bacalhau (que ninguém pense besteira aí). Não resisti, comprei cem gramas, face ao preço da mercadoria, pois se comprasse mais teria que deixar a camisa do Inter no caixa. Peguei batata rosa e um vidro de azeitonas. Vou fazer à Gomes de Sá para matar a saudade, embora hoje faça uma noite quente na capital gaúcha. Um copinho de vinho não corta o efeito do antibiótico, disse-me o meu amigo dentista, que me fez um buraco com adaga para salvar a pátria de um dente. Tenho um tinto Periquita que há dias está me provocando através do vidro do armário.

O cobra nesse prato é o portuga António Augusto Peixoto Magalhães, imigrante de Paredes de Baixo, Freguesia de Gove, Concelho de Baião, Distrito de Porto, mas não posso telefonar a esta hora, o seu bar ali no Beco do Oitavo deve estar um sufoco, superlotado, e ele correndo de um lado a outro equilibrando pizzas e cervejas.

Eu me viro: fui à receita pela internet.


MODO DE PREPARO

1. Demolhe o bacalhau, coloque-o num tacho e escalde-o com água a ferver;


Demoli o bacalhau e na falta de tacho de bugre usei uma panela comum, e finquei-lhe uma chaleira fervente em cima. 


No segundo item me atrapalhei.

2. Tape e abafe o recipiente com um cobertor e deixe ficar assim durante 20 minutos;

Hesitei mas fui: remexi nos panos de inverno guardados na parte de cima do guarda-roupa e peguei um cobertor, com o qual enrolei a panela depois de tampada. Larguei-a em cima da mesa, pois no fogão perigava cair com aquele bruto cobertor desajustado.

3. Escorra o bacalhau, retire-lhe as peles e as espinhas e desfaça-o em lascas;

Essa foi mole, bem, médio, pois achei as minhas lascas meio grandes, tipo engasga-gato. Lambi as mãos, o sal me deu sede, enchi um copito de pinga com losna, assim de brinquedo, só para molhar o bico. Vai dar tudo certo, depois da pinga irei para o item 4. 

4. Ponha estas num recipiente fundo, cubra-as com leite bem quente e deixe ficar de infusão durante 1 hora e meia a 3 horas;

O copo de losninha, que não era tão pequeno, somado às cervejas que tomei antes de tudo começar, me deixou meio tonto. Esqueci de comprar leite, mas achei um frasco de leite de dendê, digo, de coco, no armário, deve servir. O azeite de dendê foi junto para combinar. Nos ingredientes o sujeito falou numa folha de louro mas não disse onde meter, de modo que foi no leite de coco com dendê.

Quero ser um cão se esperar três horas, esperarei uma e meia e olha lá. 

Se não der certo, no que não creio, encaro sanduíche com a amada garrafa Periquita, que traz um vinho muito simples para os entendidos, mas que corresponde ao meu bolso e me faz lembrar aquela mulher que adorava se vestir de branco transparente sem nada por baixo. Aliás, vou tomar um copinho enquanto espero a "1 hora e meia". Saco.

Pensando bem, é melhor sair e comprar mais algumas garrafas. Na volta trago uma das mulheres, preciso de uma louca, qualquer uma, nem que seja gremista.

A receita segue assim, que Deus me ajude:

5. Entretanto, corte as cebolas e o dente de alho ás rodelas e leve a alourar ligeiramente com um pouco de azeite
6. Junte as batatas, que foram cozidas com a pele, e depois peladas e cortadas às rodelas
7. Junte o bacalhau escorrido
8. Mexa tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar
9. Tempere com sal e pimenta
10. Deite imediatamente num tabuleiro de barro e leve a forno bem quente durante 10 minutos
11. Sirva no prato em que foi ao forno, polvilhado com salsa picada e enfeitado com rodelas de ovo cozido e azeitonas pretas

Nota: Esta é a verdadeira receita de bacalhau à gomes de sá , tal como a criou o seu inventor, que foi comerciante de bacalhau no porto.
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sábado, 29 de marzo de 2014

Acertei no milhar!

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"O jogo do bicho é a mais rentável atividade criminosa no Rio Grande do Sul. Existe há 120 anos, tem ramificações em todas as regiões, corrompe investigadores da Polícia Civil, compra oficiais da Brigada Militar, financia políticos e se infiltra na vida social ao movimentar milhões de reais."

Isto aí em cima foi o que estampou um influente jornal da Judéia, para a seguir identificar as 18 famiglias que comandam a jogatina no RS. Que se saiba, seguem de vento em popa, a polícia só passa nas sedes dessas organizações para pegar a mesada, em dinheiro vivo, nada de depósito bancário para não deixar rabo, e não confiam em banqueiros, larápios se reconhecem uns aos outros.

No mais as otoridades estão muito ocupadas em espancar meninos nos protestos de estudantes contra um crime maior, a Copa da Ladroagem, cujo símbolo é um bicho muito perigoso (como é mesmo o nome do tatu, Puteco?), que o diga o Natálio Mão-Pelada, lá da velha Palmeira das Missões, que certa vez inventou de enfiar a mão numa toca e ganhou o apelido.

Pois não é que sonhei que tinha acertado, em jogo seco, na pinha, nada de primeiro ao quinto. Vi-me entrando na lotérica onde o gigolô é o governo e dizendo pro homem: "Crava cinquenta reais na cabeça", ao tempo em que lhe estendia um papelzinho com o milhar e a nota dos meus últimos cinquentão, arrematando: "Hoje eu quebro a banca desses putos". Se der zebra à noite terei que visitar algum amigo na hora do jantar, mas não quero nem saber, espero que não me virem as costas como muitos fizeram ultimamente.

Bem, quebrar a banca não quebrarei, que os caras são organizados como o são os outros ladrões, os agiotas donos do Itaú e outros bichos, possuem cosseguro e até resseguro, dividem o risco e o prêmio com os marginais de outros estados.

Foi pensando na dureza que ando que raciocinei dormindo: "Azar, por mim que se explodam, importa é que a grana caia no meu bolso", e então acordei com o Gatolino (foto) em cima do meu peito, me dizendo, digo, me miando: "Joga ni mim, Salito, quero te ajudar". Pronto, as dezenas já tenho, 53, 54, 55 e 56, vai dar Gato no primeiro prêmio da federal, só pode ser homenagem à Brasília, onde durante a semana vi muitos gatos na Esplanada dos Ministérios e na Câmara dos Deputados.

Tenho até às 18 h para escolher uma dezena dessas quatro, depois descobrir, através de alguma mágica, a centena e o milhar. Hummm, botando todo o gataréu... 5.555 até que é um número bonito. Cinquenta contos na pinha me renderá 150 mil, dará para pagar algumas contas e dar um chega para lá na Oficial de Justiça Avaliadora, a D. Graziela, que pretende levar os poucos móveis aqui do covil, a infeliz quer me deixar dormindo no chão, pois a única coisa que presta é a cama. Hummm... por falar em cama, tive uma idéia melhor com aquela senhora.

Enfim, é hoje!
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sábado, 22 de marzo de 2014

Terra em transe

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Por Sérgio Augusto (Estadão, 22/3/14)


Na noite de 30 de março de 1964, este escriba, então um mancebo de 22 anos, marombava na redação do Correio da Manhã à espera de duas coisas: a prova da primeira página do Segundo Caderno do dia seguinte e uma carona de carro para a zona sul da cidade. Queria lamber a cria de uma reportagem sobre a expansão, na música pop, da expressão "yeah, yeah". O País imerso na maior crise político-militar e eu, mais por fora do que Fabricio Del Dongo na batalha de Waterloo, plugado no sim, sim de Ray Charles, Beatles e Dionne Warwick, e nos prazeres que me aguardavam num bar do Posto 6.

Antes de deixar a redação, passei os olhos na prova da primeira página do primeiro caderno, a primeirona, "la une", como dizem os franceses, e deparei com um baita editorial, intitulado "Basta!". Com uma abertura ciceroniana ("Até que ponto o presidente da República abusará da paciência da Nação?") e um fecho veemente: "O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta!". Pensei comigo, "isso vai dar merda", pressentimento robustecido quando li, na manhã de 1.º de abril, a segunda catilinária do jornal, cujo título dizia tudo: "Fora!". Àquela altura, os tanques já estavam nas ruas.

Embora fosse o jornal mais influente do País, junto com o Estadão, aqueles dois editoriais não serviram de senha à conspirata civil-militar. O Correio defendera a posse de Jango e o respeito à Constituição três anos antes, era visceralmente legalista, mas julgava, com razão, que ao governo João Goulart faltavam seriedade, autoridade e até base militar, opinião compartilhada por sua equipe de editorialistas, composta, entre outros, pelo trotskista Edmundo Moniz, Otto Maria Carpeaux, Newton Rodrigues, Oswaldo Peralva, Carlos Heitor Cony e José Lino Grünewald.

Atribuídos ao primeiro, de ascendência indiscutível sobre os demais editorialistas, até por ser parente da dona do jornal, Niomar Moniz Sodré, aqueles dois históricos editoriais sempre me pareceram uma obra coletiva. Chegaram a apontar Cony como seu autor, mas a despeito de seu apreço pela reprimenda de Cícero a Catilina (até hoje Cony me saúda assim: "Sergiusque tandem!", dispensando o "abutere patientia nostra"), ele não poderia sequer ter sugerido a abertura do "Basta!" por estar afastado da redação, convalescendo de uma apendicectomia.

Na época, além de integrar o time de editorialistas, Cony publicava crônicas na primeira página do Segundo Caderno, alternando por algum tempo com Carlos Drummond de Andrade e, na época do golpe, com outro romancista, Octávio de Faria. Naquele espaço, exercitava-se livremente na "arte de falar mal", na maledicência benigna, movida a ironia, ceticismo e sem parti-pris ideológico. Uma vez por semana dava suas cotações no Conselho de Cinema do jornal, cópia do Conseil des Dix da revista Cahiers du Cinéma, coordenado por este seu criado, obrigado, e do qual Zé Lino também fazia parte. Cony entende um bocado de cinema e até escreveu um livro sobre Chaplin. Antes de entrar na faca, publicou uma série de crônicas sobre outra de suas paixões, Ary Barroso, morto durante o carnaval de 1964.

Se Jango foi a primeira vítima do golpe e cabo Anselmo, seu primeiro vilão, Cony foi seu primeiro herói nacional; ali brigando pela pole position com Sérgio Porto. Na imprensa, sem sombra de dúvida. Livre do resguardo, fez sua rentrée em 7 de abril com uma crônica intitulada "Da salvação da pátria", em que relatava seu primeiro contato com a soldadesca revolucionária ao sair de casa para uma volta pós-operatória no quarteirão onde morava, em Copacabana. Reconfortante deboche da arrogância e das paranoicas patriotadas dos milicos, essa crônica assinalou o surgimento de um novo Cony, não mais o praticante folgazão da arte de falar mal, mas, a partir do primeiro ato institucional baixado pelo novo governo, em 9 de abril, o implacável ocupante de uma coluna rebatizada O Ato e o Fato.

"O que houve foi um simples golpe de direita para a manutenção de privilégios", sintetizou Cony. Três dias depois, uma bordoada no "patriotismo estéril" dos revolucionários. Na crônica seguinte lançou a expressão "revolução dos caranguejos" e recebeu sua primeira ameaça de morte. Fanáticos armados, sedentos por vingar o brio e a honra dos militares, cercaram o prédio em que ele morava e suas filhas, de 13 e 9 anos, atormentadas por sucessivos telefonemas obscenos, tiveram de ser levadas para a casa de um amigo.

À fascistoide truculência o Correio reagiu com um enérgico editorial e Cony com esta advertência: "Sou um homem desarmado, não tenho guarda-costas nem medo. Tenho, isso sim, uma obra literária que, bem ou mal, já me dá uma razoável sobrevivência. Esse o meu patrimônio, essa a minha arma. Qualquer violência que praticarem contra mim terá um responsável certo: general Costa e Silva, ministro da Guerra, Rio - e, infelizmente - Brasil".

A primeira leva das crônicas indignadas de Cony resultou num livro, O Ato e o Fato, lançado em junho pela Civilização Brasileira, com prefácio do editor Enio Silveira, orelhas de Hermano Alves e Mário da Silva Brito, mais apêndices de Carpeaux, Edmundo Moniz e Márcio Moreira Alves. Evaporou nas livrarias em menos de uma semana; e em 12 meses já contabilizava cinco reedições. Multidões superlotavam as noites de autógrafos do cronista, desconhecidos lhe agradeciam, comovidos, pela bravura de suas diatribes e pela ajuda que eventualmente prestara a algum parente preso ou desaparecido.

Cony acabaria preso pela primeira vez em novembro de 1965, por sua participação no episódio dos "Oito do Glória". Na abertura de uma conferência da Organização dos Estados Americanos no Hotel Glória, do Rio, ele e mais Glauber Rocha, Antonio Callado, Márcio Moreira Alves, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, o diretor de teatro Flávio Rangel, o diretor de fotografia Mário Carneiro e o embaixador Jaime Rodrigues abriram uma faixa denunciando a ditadura recém-instalada, deram uma vaia, e foram presos no ato, além de qualificados de "moleques" pelo jornal O Globo.

Glauber e Callado ficaram na mesma cela de Cony. Quatro dos oito "moleques" aproveitaram a clausura de quase um mês para tocar adiante quatro obras afins e fundamentais para a cultura brasileira: Glauber escrevendo o roteiro de Terra em Transe (em papel de embrulho); Callado terminando Quarup; Cony iniciando Pessach; e Joaquim Pedro tendo o lampejo de Os Inconfidentes. Esses eram os verdadeiros revolucionários. Os verdadeiros moleques estavam no poder.

jueves, 13 de marzo de 2014

Na meia-luz do tempo

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Para Lenzi e Donato, onde estiverem. Para Regina Clara, que não esqueço.

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Rodou e despencou de súbito. Mal compreendeu o giro e o mergulho, a mudança instantânea, e estava no quarto azul. O insólito do acontecimento não o perturbou, nada mais sentiu que um leve sobressalto. O passe foi tranquilo, imediatamente a sensação de perda que desde a infância inquietava o seu interior desapareceu. 

Conhecia muito bem o quarto azul, remontava à época dos primeiros sonhos incompreensíveis, vagos. Os sonhos continuaram, enigma cada vez maior, mas o local e os objetos adquiriram assustadora nitidez. Conhecia a sua intimidade, todos os seus segredos, desvelados um a um nas noites em que se quedava aprisionado pelas lembranças do impossível, do inocorrido, do que não pode ser. Agora estava ali. Permaneceu alguns momentos imóvel e logo desistiu de compreender, precisava esperar. Descontraiu os músculos do rosto, as mãos crispadas relaxaram. Mirou cauteloso as pequenas lâmpadas acesas no alto de cada canto da peça, sabia que eram pintadas de azul. Escorreu o olhar sobre a ampla penteadeira, reconhecendo esmaltes, escovas, cosméticos, perfumes e adereços, intocados, novos. Desceu o olhar para o tapete e parou, intuitivamente teve a certeza de que a seguir veria a cama circular.

Entre relutante e ansioso subiu os olhos, e lá estava, no meio do espaço azulado da penumbra do ambiente, envolta pela suave floresta de edredom. O contraste do verde-água, da penumbra e do anil mostraram os reflexos luminosos do leito. Um estremecimento. Andou alguns passos atraído pela visão cerebral da cama desarrumada, ao chegar perto deu-se conta de que estava alinhadíssima, correta em cada nuance. Olhou para o lado e o grande espelho do roupeiro declarou outra forma que esperava sem saber: um homem com o seu rosto vestido com terno claro, camisa branca, gravata xadrez de azul e marrom, bigode bem aparado e cabelos lustrosos penteados para trás. Então a primeira descoberta, o nome que irrompeu em seus pensamentos como um tiro: Malena! Junto ao nome, vieram-lhe a memória um aflito par de olhos castanhos e a cicatriz no seio. 

Um vontade irrestível arrastou-o para a pequena sala, saiu do quarto disposto a ligar a vitrola. Afastou as almofadas e na semi-obscuridade acionou o antigo instrumento, rodando o disco que jazia à espera. Em baixo volume ouviu o tango antigo romper o silêncio. Sentou-no divã e acendeu um cigarro negro, ficando a fumar e esperar. Na estante, o conjunto em porcelana: o jarro em forma de lua, a menina com a cesta de flores e o gato de expressão misteriosa. Acendeu a luz do abajur, desejou admirar o ar de cumplicidade e sentir o fascínio irradiado pelo gato de porcelana. Na parede, a máscara de carnaval, com o esgar de ironia desenhado nos lábios. Um porta-retratos vazio na mesinha. Sem aviso veio a pergunta: "Por que Malena está demorando?".

Imerso em divagações ouviu o telefone tocar. Não se mexeu. Chamou três vezes e parou. Aspirou com volúpia a tragada do cigarro, o telefone voltou a chamar mais três vezes e calou-se. Colocou o cigarro no cinzeiro. Tocou novamente, e na terceira chamada a senha completou-se, hora de atender. A amada voz: "Alô, meu amor, que bom que você está aí, eu sabia, não se vá, não demoro, não se vá, beba alguma coisa, não se vá, não se vá...". Nervoso abriu uma garrafa de vinho e outra de soda, misturou no copo e retornou ao quarto, deixando na vitrola o lamento de outro tango longínquo. Excitado estendeu-se na cama. As imagens começaram a surgir, logo a atropelar-se, um álbum de fotografias folheado em alta velocidade, todo o seu corpo sacudiu-se em frêmitos: o corpo de Malena dentro de um vestido negro, com os olhos vermelhos e o rosto lavado em lágrimas. 

Depois rindo e convidando com os braços, jogada na cama com os cabelos espalhados no travesseiro. No bar de uma rua incógnita, os amantes impossíveis levantando um mudo e fervoroso brinde ao incerto amanhã. Na segunda-feira, o discreto olhar à distância, protegida pela sombrinha, promessa e pedido de calma. Em outra segunda de tristeza inutilmente tentando divisar o vulto querido na avenida mais larga do planeta, povoada de gentes que vão e vêm. Cada um dos secretos e arriscados encontros.  A nudez, o amor febril na cama, nas almofadas, no tapete, no divã, amor repetido à exaustão. O abraço louco à porta, a dor de Malena em ir-se embora, a dor por deixá-la ir-se. O grito de "falso amigo!" e o calor do projétil perfurando-lhe as costas. Malena levando flores. Malena recusando-se a viver. Malena cortando os pulsos ajoelhada sobre um túmulo. A inconformidade, o fato negativo não aceito, o protesto pelos recantos do universo.

Ao ouvir o ruído do elevador parando no segundo piso saltou da cama, correu e sem raciocinar abriu violentamente a porta, no momento em que Malena jogou-se como se pretendesse atravessá-la, caindo em seus braços com o grito de "Tanguero, também voltaste!". Agarrados, bebendo um do outro o sal das lágrimas, internaram-se no apartamento. No caminho de confidências, da retomada de predestinação, ela sussurrou com voz entrecortada: "De que lugar e tempo vieste, Tanguerito?". "De Lisboa, 1988, meu amor, e tu?". "Desfaleci em Calcutá, em 1987". 

Dias depois, vestiram-se cuidadosamente para passear no entardecer portenho. Buenos Aires é linda quando as luzes começam a acender-se. É sábado, já não temem vingança, não se importam com o julgamento alheio. Ao saírem do prédio 348 da avenida Corrientes o fizeram de mãos dadas, abertos em sorrisos. E caminharam em direção à noite, como se ninguém os visse.


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domingo, 9 de marzo de 2014

O 8 de março

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E segue-se o Dia da Mulher, que suponho sejam todos os dias, como dos homens, como todos os dias são das mães e crianças, de velhos, de tanta gente.... de todos os humanos. Como dizia o outro, todo dia é dia de índio, de animais, de plantas.

As mulheres tem o 8 de março como dia de protesto, vigoroso, e vai crescer, visto que ainda estamos longe de um mundo melhor, mas nada pessoal nem localizado, é MACRO. E só assim o compreendo, ao 8. A luta é contra a ignorância. Ignorância é o que a palavra diz, não saber, ignorar. Por falta de escolas. E voltamos a bater na mesma tecla.

Quando as mulheres deixarem de ser escravas (macro) votarão em homens e mulheres, sem distinção, com propostas de políticas publicas igualitárias, e que as cumpram. Aqui no Sul ainda temos tristes problemas, que só a escola resolverá. Há lugares bem piores no Brasil, tanto que, quem abre a boca são mulheres das capitais. Igualzinho como no tempo das ditaduras: nos grandes centros urbanos a KKK dos bolsonaros, da católica que Francisco está colocando nos eixos, dos fanáticos outros, não conseguem identificar nem controlar, perseguir, machucar, o que já não ocorre em pequenas e médias cidades, nestas se abrir a boca acabou a sua vida.

Em certos países ainda extirpam o clitóris entre 12 e 14 anos, com faca suja, a família surpreendendo às onze da noite a criança dormindo numa casinhola da fronteira do Afeganistão, e sob a luz de vela a cortam para protegê-la de prazeres proibidos no futuro. Religião? Ora, se fosse só isso. Sim, a mãe junto, no mais das vezes é a mãe quem extirpa, repetindo o que com ela fizeram, crê naquilo, a coitada, com pais e irmãos segurando a criança à força. O diabo é a falta de livros, escolas, a incapacidade de raciocinar, de divisar o horizonte humanitário. As que se rebelam, antes queimavam, depois eram comunistas, hoje defendem aborto e muitos outros direitos naturais, se eles puderem as matam, para calar essa cadela, essa mulher, que nos botou no mundo!

Mulheres que matam, que insultam, gente vil, ora, delas o mundo está cheio. O que se reclama é equilíbrio, pois as leis, na imensa maioria dos países, fecham os olhos se o agressor for o homem.

Outro dia fui comprar dois tomates, pouco antes falei com uma amiga criança, mas amiga desde o tempo em que a peguei nenê no colo, eu com trinta. Tomamos umas cervejas, eu de bermuda e chinelo de dedos, esqueci os tomates, eu amo aquela guria. Era pertinho da mercearia onde eu iria. Na mesa de uma tropa onde ela estava fui maltratado por uma senhora, ela fria, malvada coroa, qualquer coisa que dissesse estaria errado, calei a boca.

Começou no Boa Noite. Boa pra ti, pra mim tu não sabe. Certo, ahn, bah, eu pensei em ir em Clube até, mas não vou, tocam sertanojos, eu gosto de marchinhas, de samba, mais marchinhas, sabe, carnaval à antiga. Foda-se, tem que respeitar os sertanejos, tu está discriminando os sertanejos. Não, dona, é que hoje é segunda de carnaval... Cada um faz seu carnaval, seu discriminador. Ahn, sim, concordo, só quis dizer do Carnaval que eu gosto! Posso ter gosto? E virei o rosto para o outro lado pensando que deve haver ainda...


Por mim que tu faça o que tu quiser, cara, ela ainda disse, como se eu fosse um assassino por não gostar de música sertanojas (nada e ver com sertaneja, que também pro meu gosto entrariam fora de hora). Eu me respondi em silêncio: eu não, sou um cara de paz, mas ainda hoje tu vai encontrar, quem procura...

Amanhã ou depois lerei no jornal que ela matou alguma criança, ou a algum boêmio na boa, no caso deste último no bar Rossi, porque em cama jamais me pegaria, não gosto de mulher agressiva, para não dizer outra coisa.

Tomei mais uns tragos em casa e não fui à Carnaval algum, temeroso de encontrar aquela senhora, eu desarmado, já viu... gente que joga nenê vivo no lixo, pela brutalidade que atinge a todos os humanos feridos de morte. Não, isso é caso isolado. A briga é MACRO, para um dia chegarmos no particular, um dia a bruta ignorância se esvairá.

Isso exemplo ruim, gente ruim. Se for falar dos espancadores, então, haja páginas.


Pelo que a turma briga é abrangente, as feministas e as mulheres em geral sabem disso. O desequilíbrio. Para cada assassina ou espancadora temos milhares de "homens" piores. Tem de tudo. Então as gurias aos poucos estão saindo do sério. Não como disse um militar da ditadura: "Às favas os escrúpulos", nunca, elas querem guerra, só que aqui pelo lado humano, e não dos assassinos que nunca tiveram escrúpulos.

O que reclamam é direitos iguais. E pedem pouco. Mas isso não se constrói assim tão fácil, entra a política, como forçá-los a legislar para todos? Começando por escolas para todos, boas escolas públicas, tão boas que acabem com as particulares. Como, se a maioria das mulheres, como seus maridos, ainda votam a cabresto, pela famigerada dívida de gratidão, quilo de arroz ou médico numa hora ruim? Como? 

E não adianta eu berrar, se adiantasse já teríamos. As mulheres berrando talvez mudemos para muito melhor, visto que a perfeição, na vida como em todas as artes, é mera ilusão que temos aqui neste pó do Universo.

Por isso voto nelas. Quanto mais bruxa, mais me fascina. Não andam por aí roubando, como esses coitadinhos.
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martes, 4 de marzo de 2014

Bêbado no Carnaval

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Acabo de contar a um amigo, César Tassi, hoje morador de Passo Fundo (RS), que não se surpreendeu nadinha, pois amou a pessoa e hoje reverencia a memória do Graúdo tanto quanto eu. 

Divido com os demais rapazes como advertência: cuidado com a bebida, os camaradas são finos em aprontar pra gente. Falo aos reis e valetes, mas poderá servir a alguma dama, no inverso.

Nestes tempos em que uma palavra sem nenhuma maldade pode nos levar à guilhotina, pelo fanatismo reinante, apanha safado, esclareço que nada tenho contra homos, é tal a discriminação que já senti vontade de ser viado só para pararem de me perseguir, mas sou hetero, pombas. Bandidos são outros, eu fora.

Eu era muito novinho, uns 21 anos, 74 Kg com músculos nos lugares certos (seco na barriga, agora com 77 estou bico e pena), tímido a dar com um pau. Até hoje não acredito no que me disse o meu querido uruguaio Hélio Oristín, o "Graúdo", ele já quarentão, que comigo alugava pelo sistema árabe "rachid" uma casinha antiquíssima caindo aos pedaços no Menino Deus. Casinha que remontava aos açorianos, de dois minúsculos andares, com uma escadinha perigosa no meio, eu dormia em cima. A gente num miserê danado.

Deu-se que num Carnaval ou 7 de Setembro, mais certo Carnaval, a névoa dos anos me traz incerteza quanto à data comemorativa, certa vez acordei no 666 (sei do número e não creio) da rua 17 de Junho com uma negona pelada ao lado, baixinha, careca e com uns 200Kg, eu espremido quase caindo da cama de solteiro.

Soltei um grito e saí correndo nu, desci a escadinha voando, mal senti suas tábuas soltas, muito puto da cara, botando a culpa no Hélio Graúdo, dizendo que ele a tinha colocado na minha cama pra me sacanear, e ele se defendendo: "Foi tu, Saladinha, tu tava bêbado, nem vi que hora tu chegou, mas já tava amanhecendo, só ouvi o barulhão, tu tava feio, no escuro depois ela deve ter tirado a peruca e a cincha...".

Fiz cara de dúvida, ainda furioso, e ele arrematou com um risinho no canto da boca: "Hoje cedo dei uma espiadela, olhei de longe só pra ver se tu tava respirando, fiquei tranquilo e fui comprar comida, tu sobreviveu, Saladinha querido. Ainda bem que acho que não é homem, embora o pé...". Subi a milhão, agora sem tocar nas tábuas, cheguei na cama e abri as pernas da dorminhoca, ufa, era mulher. Olhando para o pé 34 dela gritei lá de cima: "Seu filho da mãe!". Nesse momento achei-a linda. E aqui falo da senhora sem preconceito de gordura ou de cor da pele, imagine, tive tantas negas depois, ainda tenho, amadas. Eu era mesmo muito novo, me assustaria igual se fosse uma alemoazona careca.


Até hoje acho que ele me sacaneou, o que tinha de sincero tinha de tinhoso. Até virgem creio que eu era. Ele foi legal, já partiu e nunca o esqueço, a bondade em pessoa, me ajudou tanto... Para rir de mim poderia ter aproveitado que eu dormia e me esfregado clara de ovo crua na bunda, aí já viu, despertar com gosma escorrendo pelo ânus...

Tomei fogos homéricos na vida, talvez ainda tome alguns, dor-de-cotovelo, quem sabe o amanhã? Tomei, sim, de vomitar, de subir de bunda as escadas de casa, mas jamais esqueci algo, nada de no outro dia dizer que não me lembro. Lembrei sempre cada detalhe, cada palavra ouvida ou pronunciada, embora impossibilitado de reagir pelo tamanho da borracheira. Salvo por aquela vez, apagou tudo.

Então, pelo sim, pelo não, nunca se sabe, amigos, convém tomar cuidado com a bebida, vai que não tenham a sorte que tive.
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