domingo, 20 de abril de 2014

El Babour

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Por falar em marroquina, lá no Marrocos, como em todo lugar, também temos boa música. Aqui a famosa composição de Armand Amar e seu parceiro Khaled.

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viernes, 18 de abril de 2014

Estou chegando, muçulmana, com outras lágrimas

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Como todos os amigos sabem, quando fugi de Palmeira dos Ervais, fugi virgem. Isso mesmo, virgilino da silva, sexo só em sonhos. Claro, não vale besteiras de crianças, nem atividades solitárias, como os padres diziam, eles que eram campeões em, deixa pra lá. 

Também não vale aquela vez com a dama que encarou doze de nós, meninos de quatorze, cada um entregando seus trocados, pois no sorteio fui o último da fila e não suportei o cheiro, nem suportaria se fosse o primeiro, a boca de cigarros e aquele riso nojento, gozei na mão dela, a um toque, tal o nervosismo.

Quis dizer virgem de amor. Transar com amor, ela me ama, eu a amo, ai, guria, me beija..., deixa..., assim, tira, vem... ah, felicidade. E isso que fugi com vinte anos de idade, um velho pouco esperto. De curioso ia na zona olhar, até cantar cantei no cabaré, com Evódio na gaita, mas, namoro de ir aos finalmentes, jamais. Por bobo, preferia assistir de longe a comédia, ainda não sei se por insegurança ou porque as putas eram de fato assustadoras, pela vulgaridade, as pobres. Era a vulgaridade, pois chegava em casa e me masturbava pensando nelas, mas sem pegar.

Amei duas professoras. Uma alemã e outra árabe, em momentos diferentes da vida. Soube recentemente que a árabe está bem viva. A alemoa morreu com 430 Kg e deixou 19 filhos, todos ciumentos que votam no DEM. Ufa, Deus existe, ela gostava de mim, mas pegou um alemaozão porque eu era criança.

Só por saber que a arábica senhora está viva, e gentil, amorosa, feliz lá com seus céus, eu daqui dos meus infernos achei um samba que fala da professorinha. Ela era uma menina, ensinava línguas, poucos anos mais que eu, quatro, cinco se muito. Não lembro da língua dela, mas espanhol não era. E bailava escrevendo no quadro negro, era negro ainda, linda, uma escultura dançando o giz, meu deus, que corpo. Pelo seu nome francês, seria marroquina? Ou argelina? Vá saber, nunca falei com ela pessoalmente, mesmo tendo sido minha professora ela nunca me olhou no rosto, pensava nos velhos, ai que ciúme.

Vai para ela. "Que saudade da professorinha, que me ensinou o beabá...". Vai não, é muito velha. E não me ensinou nada. 


Vai nada, uma otária. Outra música vai para a Sahlah, que já mora comigo. Da Palestina, árabe de verdade.

Agora poderá ensinar, uma muçulmana de parar o trânsito, poderá me ensinar o que andei perdendo pelo caminho.

A ela dou o melhor do meu coração: um bolero. Se ela em sonhos pensar em abraços de amor, eu..., eu...



jueves, 17 de abril de 2014

Fábula para Gardel

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Horacio Ferrer (poema) e Astor Piazzolla (música). 



Ayer me preguntaste, hijito mío,
por primera vez,
quién es
ese Gardel, ese fantasma
tan arisco,
empecinado
con seguir guardado
en la cueva con asma
de su disco
polvoriento.

Lo que yo sé,
te lo cuento:
algunas veces,
cuando te has dormido,
las noches en que hay pena
llena,
se aparece
ese escondido
duendo, medio juglar
y medio loco,
para matear
con tu padre y conversar
un poco.

Ah, si lo pudieras
ver
con su sencilla elegancia fantasmera,
a saber:
en una chalina ligera
de plumas de torcaza sola
sus hombres arrebuja.
El traje es de
cuerdas de guitarras españolas
que
alguna bruja
ñata
y hippie le ha tejido.

La corbata
es de claveles
encendidos,
para abrigar los
cascabeles
de su voz.
Y dos
zapatos, muy de peregrino,
que no son zapatos, sino
que son caminos.

¿Qué en dónde nació?
Hijo mío, ¡qué se yo!
De acuerdo a lo que el mismo me ha contado,
parece que nació trepado
a una veleta
niña
que apuntaba al Sur;
y que un poeta
y un gallito de riña
y un augur
le enseñaron a vivir
y a sonreír.

Será por eso
que salió un poco travieso
¿viste?
como vos
y, como yo,
un cachito triste.

Su sonrisa,
hijo, es una
pícara y honda y rara
raya de tiza
iluminada con luz de la otra cara
de la luna.

Y canta, canta,
canta con su voz de siete gritos,
pero canta, siempre, con ese humilde modo
de quien tiene, por sabio, en la garganta,
dos ojitos
que han visto, ya, del hombre, todo, todo.

Su canto, te diría
que parece
un claro
aljibe
en donde crecen
los tangos pibes
que no se cantaron,
todavía;
y, también, aquellos tangos que ya fueron,
esos que escriben,
en el paragolpes de su camión,
los camioneros
del Cerro y de Constitución.

Después,
el alba ya,
a las cinco en punto,
se me va. Se va.

Y, tal vez,
en su forma melancólica de irse,
se adivina, un cacho,
que ese duende,
tan muchacho,
entiende
mucho de un asunto
muy sumamente serio, que es morirse.

Ayer me preguntaste, hijito mio,
por primera vez,
quién es
ese Carlitos, ese fantasma
tan arisco,
empecinado
con seguir guardado
en la cueva con asma
de su disco.

Y entonces te conté
cuanto sabía-

Mas hoy, mirándote,
pensándote,
besándote,
sé un poco más.
Y es que el hijo
del hijo
de tu hijo, un día,
un día de Junio soleado,
frío y seco
que vendrá,
lo mismo que vos
preguntará
por él.

Y una caliente
zafra de ecos,
ecos de la voz de nuestra gente,
ecos de tu voz
chiquito, y de la mía,
inexorablemente,
contestará:
Gardel, Gardel, Gardel.

miércoles, 16 de abril de 2014

Procurando Amelita

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Durante meses guardei dinheiro para fugir com a Maria Amelia. Ela tinha doze anos a mais do que eu, soube depois, e era cantante de valsas e tangos na década de 30, ainda sem a carreira definida. Eu não sabia dos doze a mais, e pouco me importaria se fossem vinte.

Quando cheguei aos dez mil dólares, na névoa que turvava a minha mente, viajei em meio a relâmpagos, pensei em noite de tempestade. Devo ter adormecido, pois subitamente me vi parado na esquina da Av. Corrientes com San Martin. Liguei de un teléfono público na altura do número 600 da Corrientes, quando a noite se fechava sobre a cidade, já não havia tempestade, apenas chuva fina em baixa temperatura. Para o juncal 12-24. Sabia que ela morava no 348. Foi educada ao atender, reconheci a sua doce voz com o coração aos saltos.

Eu estava saindo do ano de 1934, com os mesmos 19 anos que então possuía. Falei num espanhol misturado com português, procurando manter a serenidade: boa noite, aqui é o teu amor, Amelita. Riu, imaginando trote de algum amigo, a minha voz lhe soou familiar. Aí contei-lhe algumas passagens da nossa vida, com calma para não assustá-la: do desmaio no quarto azul, nuestro cuartito azul, e ela emudeceu do outro lado da linha. Depois de longos segundos, falou num fio de voz: repita o que disse, por favor.  

O quarto azul, ontem, quando pensaram que eu morri, não pode ser outra vida, te acuerda? Sei que algo estranho aconteceu, também não entendo, mas sou eu. Lembra dos espelhos com molduras negras? Do gato de porcelana? Dos chás dançantes aos domingos, de quando fui alvejado pelas costas na Calle Florida? Ela gritou e ouvi o ruído de vidro se quebrando no chão.

Voltou com voz trêmula, diga mais, diga mais, moço... Contei-lhe tudo, que ainda a amava, que não era brincadeira, falei da nossa intimidade, das lágrimas de impotência diante do cruel destino. Após um breve silêncio começou um choro de desespero, agitada, atropelando a voz ao dizer que eu havia descrito um sonho que a assalta desde menina, sonho que terminava com a sua própria morte pouco tempo depois, com os pulsos cortados.

Falou desta vida... Agora já é cantante famosa, faz muitos shows pelo mundo, é casada com um bom homem e possui muitos filhos. Quis me ver esta noite, implorou para nos vermos. Menti que estava no Brasil, pois não pretendia estragar a sua vida novamente. Ouvi uma batida de porta e vozes na residência, pessoas que chegavam alegres. Buenas noches, meu amor, adiós, eu disse. Não vá, não vá, ela gritou caindo novamente em prantos. 

Saí da cabine e fui andando sem rumo, entrei num bar  e me senti um estranho diante das pessoas, tudo tão mudado. Um homem recitou um poema para mim desconhecido, muito triste, como se fora uma evocação de outros tempos, os meus tempos, meu Deus: como se Gardel e meus tempos tivessem morrido, que terminava assim:

Y una caliente
zafra de ecos,
ecos de la voz de nuestra gente,
ecos de tu voz
chiquito, y de la mía,
inexorablemente,
contestará:
Gardel, Gardel, Gardel.

Embebedei-me, para tentar acalmar o tremor que me sacudia a alma, após saber por um periódico do bar que estávamos em 1983. Então me concentrei, sem me mexer ouvi a todos no bar, seus amores, seus gritos, suas reclamações. Gardel morrera em 1935, um ano depois que partimos, eu com 19, ela com 31.

Nunca a esqueci. Jamais a esquecerei. Tornei a andar pela Corrientes e senti que me tornava fumaça enquanto avançava em direção à Florida. 

Espero voltar a Buenos Aires qualquer dia destes, mas não em 1983. Antes, em 1971.
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Ameaça, calúnia, injúria e difamação

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Como seria fácil de se antever, em ano de eleições o facebook e outras redes sociais estão sendo invadidas por quadrilhas especializadas em denegrir a imagem de seus futuros adversários nas urnas, mediante remuneração ou apenas para destilar seu ódio. É fácil reconhecê-los: não dizem a quem são favoráveis, escondem suas predileções. Muitos ingênuos - nem tão ingênuos assim - repassam as barbaridades sem conferir a autenticidade das informações, por virem ao encontro dos seus anseios. Daí que a iniciativa do PCdoB chega em boa hora, oxalá a moda pegue.

AMEAÇAS SERÃO INVESTIGADAS

Por Jandira Feghali, no Jornal do Brasil de 16/abr/2014.

Pelo livre território da internet — tema em que o Partido Comunista do Brasil atuou na recente aprovação do Marco Civil — surgiram ameaças contra a honra, moral e a vida de nós, parlamentares comunistas e cidadãos brasileiros.

Rompendo o limite do que diz nossa Constituição ao garantir a "liberdade de expressão, vedado o anonimato", um grupo apócrifo ultraconservador vem tentando nos intimidar com o que há de mais baixo nas provocações. Por meio de identidades falsas e, na certeza da impunidade, espalham mentiras e boatos sem fundamento, com um único e escuso objetivo: nos agredir.

Contudo, a mesma bancada que representa o ideário da liberdade e da democracia não se intimidou e acionou todos os instrumentos cabíveis dentro do Estado Democrático de Direito, como a Polícia Federal, o Ministério da Justiça e a presidência da Câmara dos Deputados.

É importante ressaltar que a internet e as redes sociais são espaços voltados para o fomento à expressão e debate de opinião. Todos nós defendemos que esta possibilidade esteja cada vez mais acessível a todos os cidadãos. Mas não podemos permitir que nestes mesmos locais a exaltação ao crime e as ameaças registradas, tipificando crimes em nosso Código Penal, continuem impunes.

Foram iniciados os inquéritos de investigação para levantar a real autoria dos ataques covardes de alguns internautas anônimos. Feito isso, as "pessoas físicas" responderão por seus atos, sendo julgadas e responsabilizadas pela Justiça. Será que manterão suas ameaças quando a verdade vier à tona?

Ideologias e posições políticas, sejam quais forem, existem para se discutir democraticamente as melhores propostas para o país. Não se pode calar uma voz ou descerrar uma bandeira na base da agressão e da intimidação. Por isso, digo, continuaremos fortes em nossa luta progressista, recorrendo sempre que for necessário à Justiça, para manter viva a chama da democracia.
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lunes, 14 de abril de 2014

Sonhando com a deusa

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Hoje amanheci chorando, soluçando alto, quase gritos incontidos, acho que inundei o prédio de água salgada, os vizinhos tocaram a campainha, tudo bem contigo, camarada? Sim, desculpe, tudo bem, obrigado. Todo sem jeito.

Aí lavei o rosto, abri uma cerveja, e fiquei bem. Chorava de saudades da Marisa Monte. Sonho ruim, as desilusões deram de me assaltar até dormindo. Aquela droga de bebida verde, o absinto, me empanou a memória. Também, 73 graus de teor alcoólico... Mais as cervejas que a Jane me mandou, já viu.


Só agora lembrei, sem estar certo se sonhei ou aconteceu mesmo, por que não casei com Marisa: recordo que eu ia convidá-la a juntar os trapos e ela leu meus pensamentos pelos meus olhos castanhos, deveriam estar brilhando de bobice, adiantou-se, impetuosa: vai te catar, gaúcho babaca, sou monte e não montaria. E saiu batendo a porta. Só faltou me chamar de pobretão, pura verdade, pois esse foi o motivo da retirada.


Fiquei catando coquinhos sem dizer uma palavra, juro que não tinha pensado em frescuras, ela deveria andar mordida com outros caras e eu paguei o pato. Deixa assim, no sonho, será que foi sonho?, ela estava muito magra mesmo, para o meu gosto.

Pero pensando nela, a deusa-cantora, lembrei de uma jóia da nossa música popular. 


Vomito raiva de fel no banheiro, verde como a bebida. Estou nu e está frio em Porto Alegre. 

Danço sozinho no apartamento, para viver e esquentar o corpo.

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sábado, 12 de abril de 2014

O homem que traçava retas

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O premiado conto é da escritora paranaense, de Cascavel, Lucimara V. Vaz.





Era uma vez um menino que tinha uma grande habilidade para desenhar linhas retas de qualquer tamanho e em qualquer posição. Por certo que descobriu sua habilidade num desses dias que ficam marcados na memória de vida, e que ela não lhe veio pronta e acabada.

Num dia ensolarado, quando tentava colocar na folha de um caderno de desenho a paisagem em frente à igrejinha, todos os seus traços tendiam a tornar-se retos. A igreja foi retratada com exatidão; os canteiros e as árvores mal foram esboçados. A professora, ao comentar algo sobre ter mãos e olhos firmes, estimulou um gosto que lhe duraria a vida inteira e uma ambição que se manteve viva enquanto todas as demais esperanças falhavam.

Ele queria ser um homem que traçava retas perfeitas. Inicialmente ele descobriu que, se a linha fosse muito extensa, apenas no meio ficaria exata e trabalhou com grandes extensões de muro para aperfeiçoar-se nas grandes retas, antes de passar para folhas de metro, com lápis nº 2. Descobriu também que, conforme o material de desenho, a pressão da mão deveria modificar-se.

Lápis de grafite macia exigiam apenas um descansado gesto, como o pincel atômico bem novo; e este, como as canetas de ponta porosa, dava uma grossura desigual para a linha, o que também foi corrigido com muito tempo e treinamento. Ao superar a adolescência, era hábil com todos os materiais de desenho convencionais. Os colegas levavam para ele os cartazes escolares: com traços contínuos e precisos, desenhava uma moldura a exatos três milímetros da borda da cartolina, sem falhar. Levou a tentativa para telas e tintas, panos e cerâmicas.

Em pouco tempo, a associação de artesãos lhe levava pequenos e delicados vasinhos de porcelana, corações e caixinhas para que seu traço perfeito delineasse em dourado as encantadoras peças de argila cozida. Passou as férias com o primo da Funai na reserva Pataxó, aprendendo a traçar com o dedo, sobre o próprio corpo, com a tinta do urucum e do jenipapo, retas e mais retas concêntricas e geométricas. Tentou a faculdade de arquitetura. As plantas desenhadas em papel vegetal, um primor de precisão, o encantavam.

Cursou até o terceiro ano, quando as condições de vida o obrigaram a trocar o estudo pelo emprego. A imagem da tristeza é uma linha truncada, pensou. Conheceu uma linda moça. Apaixonou-se. Comparou o amor a duas retas paralelas que, ao encontrar-se no infinito, tornam-se uma só. Casaram-se e, no livro de registros de casamento, com um pouco de tinta de ouro que guardara especialmente para a ocasião, sublinhou o nome de ambos com traços retos e luminosos. Teve filhos. Trabalhou. Não se pode dizer que tenha sido um sucesso profissional ou que tivesse obtido da vida tudo que queria. O fato indiscutível é que criou a prole com as necessidades decentemente atendidas.

Passava horas com os filhos ao colo, ensinando mãozinhas gorduchas a traçar retas no papel. Nenhum herdou sua invulgar habilidade; aposentou-se com quinze quilos a mais do que tinha ao casar-se e um grosso par de óculos que dava a seu olhar um aspecto confuso. Enterrou a esposa num certo dia de primavera, em tudo semelhante ao dia em que a conhecera; poderia ser o mesmíssimo dia, semelhante em luz e cor, emoção e desejo, não fosse os longos anos permeando um e outro. Ele pensou: entre o início e o fim, o caminho é reto.

Conheceu os netos e viveu ainda uma dúzia de anos, entretido a ressuscitar velhos sonhos. Voltou para a faculdade, mas descobriu que preferia cochilar nas aulas. Viajou para a cidade natal e nela não reconheceu nada, a não ser o traçado das ruas. O violão, com suas seis cordas esticadas, levantou-lhe indagações filosóficas sobre a tensão das retas que o distraíram da música. Tentou se dedicar à pesca, mas a morte chegou antes que tomasse o gosto.
Quando, no hospital, esperava chegar o derradeiro momento, ouviu no corredor perguntarem quem era o paciente daquele quarto. A enfermeira respondeu: é o homem que sabe desenhar linhas retas.

Sorriu e faleceu.
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miércoles, 9 de abril de 2014

Um gato para Carlos Heitor Cony

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Perdi o sono por causa do Gatolino. O pobrezinho tem a mania de ir para a sacada admirar o movimento na avenida, aqui do sétimo andar a vista é boa, as luzes dos carros, as batidas com motoqueiros, o berreiro dos bêbedos que saem do cabaré ao lado, as quase mortes de madrugada, os urros dos leões-de-chácara quando saem para matar, as buzinas, os gritos lancinantes dos carros fechados ao dispararem o alarme sozinhos. Uma beleza.

Ele olha a avenida com tristeza, nunca sorri (se o cachorro do Coberto Ralos da lágrima de pingo falso sorri, com aquela de meu cachorro me sorriu latindo, porque Gatolino não haveria de sorrir?), isso me preocupou. Bich, bich, vem cá, Gatolino, ele veio. Por que, meu querido, falei já dando um carinho nas barbelas, nunca sei o nome, mas se fosse galo é a parte do seu corpo abaixo da orelha, bem antes do pescoço, perto do queixo, do ladinho, gato gosta de carinho ali, então por que essa tristeza, preto?

Para mim é barbela, embora ele não a tenha nem deste nem do outro lado da cara. Barbada, jacaré: se eu sustento meu gato, e tu a namorada, problema teu, eu boto barbelas se eu quiser e fim. É barbela. Certa vez, ele bem novinho ainda, inflou as barbelas, posição de tigre na calada, devagarinho, e quis pegar um bicho que passava, errou de passarinho, este era esperto, a corujinha se desviou, dançando ao passar avoando, flap, flap, olhando feio para ele, e ele no pulo desandou aqui de cima, adeus sacada, caiu com tudo, do sétimo ninguém cai em pé.

Peguei-o no ar, pelo rabo, eu, hein? Puxei-o com força, até meu peito. Perguntei: quer se matar, amado? Pelo miau que saiu, acho que o apertei muito, me disse que não. Salvei-o. No outro dia veio de novo com essa de querer cair e o peguei novamente no ar, mas desta vez olhei para baixo e o atirei de lá de cima: quer ir então vai, para ver o que é bom. Claro, mirei num galho de uma arvore que tem lá ao lado das grades, seus galhos vão até à metade do segundo andar, acertei, voou seis andares, foi descambando mas se enganchou num último galho. Desci as escadarias e o recolhi, estava que era um caco, mas depois dessa perdeu a vontade de ser gato voador.

Aí me vem o Juremil (uau, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, eu sou o cara, uau!, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, uau, uau, uau!) falar mal do Carlos Heitor. Hoje Carlos tem 88 anos. Enterrou muitos familiares, se não todos os que vieram antes, mas felizmente tem descendentes, ou descendenta, como quer a Dilminha. Foi valente com a ditadura, escritor de dedos finos, exilado a tierras extrañas, sem pegar em armas, mas foi muito mais que certos moleques que tentam se passar por herói, e escreveu grandes livros. Está com 88 anos, repito, cresci naquela de se respeitar os mais velhos que merecem respeito.

Aí pensei: Gatolino, é hoje.

Carlos amava, já na sua velhice, uma cachorrinha, sua única companheira, e chorou ao perdê-la por morte, veio o Juremil zombar do amor de um homem por sua cadela, cuspir fel em cima do desamparo alheio. Falei para o Gatolino: esse elemento vai me escutar, antes que eu coma a..., deixa pra lá, aquela deve ser um bucho.

Então, Mr. Juremil Universal, ouça-me por bem, que mal aqui não vai: a tristeza do Gatolino é porque nunca amou ninguém, não teve a oportunidade, o castraram antes. Quando o encontrei pelo mundo o mal já estava feito. Então vamos falar de sua vida cachorrinha.

(segue)
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sábado, 5 de abril de 2014

Edu Krieger: Desculpe, Neymar

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Não, nem todos os nossos artistas são omissos, ansiosos por fama e dinheiro fácil, temos muitos engajados por um futuro melhor para todos os brasileiros. Assim que o grande músico, compositor e festejado sambista Edu Krieger (Eduardo Lyra Krieger, 5/2/1974, Rio de Janeiro, RJ) entrou rasgando em defesa do povo humilde do Brasil. 

O blog Ainda Espantado subscreve o que disse o grupo de ativistas de mídia NINJA:

"No Brasil, coube mais à música que à filosofia, ao jornalismo ou às ciências políticas, o papel de motor da reflexão e da crítica nos setores mais populares do povo.

Quando se lança luz ao abismo das diferenças sociais e nosso encontro marcado com o transe parece mesmo inevitável, é preciso ser ousados como os craques, ao roubar a bola e emplacar o gol. O Brasil só será campeão com DIREITOS e MAIS DEMOCRACIA.

Na melhor tradição da crônica política musical que teve em Chico Buarque um de seus máximos expoentes, o músico carioca Edu Krieger compôs 'Desculpe, Neymar!'. A canção já nasce candidata a clássico nesta constelação luminosa da música popular brasileira.

Não se pode perder a esperança em um país cuja CRIATIVIDADE está a serviço de VENCER o abismo entre os Brasis."

Salve, Edu! Viva o povo brasileiro!

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À Gomes de Sá

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Nove da noite em Porto Alegre, a Cidade Baixa em polvorosa. Andando pela Rua da Olaria assisti a cidade toda, até os cães e gatos, tomando chope, e eu impossibilitado. As senhoras bem-vestidas - não vi sequer uma moleca com calça de brim mostrando o rego - ao me verem passar com a camisa colorada nos seus 105 anos só faltavam pular nela, na camisa, com os olhos dizendo vem aqui beber, meu vermelho, tem lugar na mesa. E eu em seco. Logo eu. Pensei em beber um, mas lembrei que não sei tomar menos de quinze. Paciência, domingo a minha vingança será terrível. Segui em frente.

Andando no interior da imensa Mercearia Zaffurtari senti o cheiro inconfundível, maravilhoso, de bacalhau (que ninguém pense besteira aí). Não resisti, comprei cem gramas, face ao preço da mercadoria, pois se comprasse mais teria que deixar a camisa do Inter no caixa. Peguei batata rosa e um vidro de azeitonas. Vou fazer à Gomes de Sá para matar a saudade, embora hoje faça uma noite quente na capital gaúcha. Um copinho de vinho não corta o efeito do antibiótico, disse-me o meu amigo dentista, que me fez um buraco com adaga para salvar a pátria de um dente. Tenho um tinto Periquita que há dias está me provocando através do vidro do armário.

O cobra nesse prato é o portuga António Augusto Peixoto Magalhães, imigrante de Paredes de Baixo, Freguesia de Gove, Concelho de Baião, Distrito de Porto, mas não posso telefonar a esta hora, o seu bar ali no Beco do Oitavo deve estar um sufoco, superlotado, e ele correndo de um lado a outro equilibrando pizzas e cervejas.

Eu me viro: fui à receita pela internet.


MODO DE PREPARO

1. Demolhe o bacalhau, coloque-o num tacho e escalde-o com água a ferver;


Demoli o bacalhau e na falta de tacho de bugre usei uma panela comum, e finquei-lhe uma chaleira fervente em cima. 


No segundo item me atrapalhei.

2. Tape e abafe o recipiente com um cobertor e deixe ficar assim durante 20 minutos;

Hesitei mas fui: remexi nos panos de inverno guardados na parte de cima do guarda-roupa e peguei um cobertor, com o qual enrolei a panela depois de tampada. Larguei-a em cima da mesa, pois no fogão perigava cair com aquele bruto cobertor desajustado.

3. Escorra o bacalhau, retire-lhe as peles e as espinhas e desfaça-o em lascas;

Essa foi mole, bem, médio, pois achei as minhas lascas meio grandes, tipo engasga-gato. Lambi as mãos, o sal me deu sede, enchi um copito de pinga com losna, assim de brinquedo, só para molhar o bico. Vai dar tudo certo, depois da pinga irei para o item 4. 

4. Ponha estas num recipiente fundo, cubra-as com leite bem quente e deixe ficar de infusão durante 1 hora e meia a 3 horas;

O copo de losninha, que não era tão pequeno, somado às cervejas que tomei antes de tudo começar, me deixou meio tonto. Esqueci de comprar leite, mas achei um frasco de leite de dendê, digo, de coco, no armário, deve servir. O azeite de dendê foi junto para combinar. Nos ingredientes o sujeito falou numa folha de louro mas não disse onde meter, de modo que foi no leite de coco com dendê.

Quero ser um cão se esperar três horas, esperarei uma e meia e olha lá. 

Se não der certo, no que não creio, encaro sanduíche com a amada garrafa Periquita, que traz um vinho muito simples para os entendidos, mas que corresponde ao meu bolso e me faz lembrar aquela mulher que adorava se vestir de branco transparente sem nada por baixo. Aliás, vou tomar um copinho enquanto espero a "1 hora e meia". Saco.

Pensando bem, é melhor sair e comprar mais algumas garrafas. Na volta trago uma das mulheres, preciso de uma louca, qualquer uma, nem que seja gremista.

A receita segue assim, que Deus me ajude:

5. Entretanto, corte as cebolas e o dente de alho ás rodelas e leve a alourar ligeiramente com um pouco de azeite
6. Junte as batatas, que foram cozidas com a pele, e depois peladas e cortadas às rodelas
7. Junte o bacalhau escorrido
8. Mexa tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar
9. Tempere com sal e pimenta
10. Deite imediatamente num tabuleiro de barro e leve a forno bem quente durante 10 minutos
11. Sirva no prato em que foi ao forno, polvilhado com salsa picada e enfeitado com rodelas de ovo cozido e azeitonas pretas

Nota: Esta é a verdadeira receita de bacalhau à gomes de sá , tal como a criou o seu inventor, que foi comerciante de bacalhau no porto.
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