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Perdi
o sono por causa do Gatolino. O pobrezinho tem a mania de ir para a sacada
admirar o movimento na avenida, aqui do sétimo andar a vista é boa, as luzes
dos carros, as batidas com motoqueiros, o berreiro dos bêbedos que saem do
cabaré ao lado, as quase mortes de madrugada, os urros dos leões-de-chácara
quando saem para matar, as buzinas, os gritos lancinantes dos carros
fechados ao dispararem o alarme sozinhos. Uma beleza.
Ele olha a avenida com tristeza, nunca sorri (se o cachorro do Coberto Ralos da
lágrima de pingo falso sorri, com aquela de meu cachorro me sorriu latindo,
porque Gatolino não haveria de sorrir?), isso me preocupou. Bich, bich, vem cá,
Gatolino, ele veio. Por que, meu querido, falei já dando um carinho nas
barbelas, nunca sei o nome, mas se fosse galo é a parte do seu corpo abaixo da
orelha, bem antes do pescoço, perto do queixo, do ladinho, gato gosta de
carinho ali, então por que essa tristeza, preto?
Para mim é barbela, embora ele não a tenha nem deste nem do outro lado da cara.
Barbada, jacaré: se eu sustento meu gato, e tu a namorada, problema teu, eu
boto barbelas se eu quiser e fim. É barbela. Certa vez, ele bem novinho ainda,
inflou as barbelas, posição de tigre na calada, devagarinho, e quis pegar um
bicho que passava, errou de passarinho, este era esperto, a corujinha se
desviou, dançando ao passar avoando, flap, flap, olhando feio para ele, e ele
no pulo desandou aqui de cima, adeus sacada, caiu com tudo, do sétimo ninguém
cai em pé.
Peguei-o no ar, pelo rabo, eu, hein? Puxei-o com força, até meu peito.
Perguntei: quer se matar, amado? Pelo miau que saiu, acho que o apertei muito,
me disse que não. Salvei-o. No outro dia veio de novo com essa de querer cair e
o peguei novamente no ar, mas desta vez olhei para baixo e o atirei de lá de
cima: quer ir então vai, para ver o que é bom. Claro, mirei num galho de uma
arvore que tem lá ao lado das grades, seus galhos vão até à metade do segundo
andar, acertei, voou seis andares, foi descambando mas se enganchou num último
galho. Desci as escadarias e o recolhi, estava que era um caco, mas depois
dessa perdeu a vontade de ser gato voador.
Aí me vem o Juremil (uau, compre meus livros, compre meus livros, compre meus
livros, eu sou o cara, uau!, compre meus livros, compre meus livros, compre meus livros, compre meus
livros, compre meus livros, uau, uau, uau!) falar mal do Carlos Heitor. Hoje Carlos tem 88
anos. Enterrou muitos familiares, se não todos os que vieram antes, mas felizmente tem descendentes, ou descendenta, como quer a Dilminha. Foi valente com a ditadura, escritor de dedos finos, exilado a tierras extrañas, sem pegar em
armas, mas foi muito mais que certos moleques que tentam se passar por herói, e escreveu grandes livros. Está com
88 anos, repito, cresci naquela de se respeitar os mais velhos que merecem respeito.
Aí pensei: Gatolino, é hoje.
Carlos amava, já na sua velhice, uma cachorrinha, sua única companheira, e chorou ao perdê-la por morte, veio
o Juremil zombar do amor de um homem por sua cadela, cuspir fel em cima do desamparo alheio. Falei para o Gatolino: esse elemento vai me
escutar, antes que eu coma a..., deixa pra lá, aquela deve ser um bucho.
Então, Mr. Juremil Universal, ouça-me por bem, que mal aqui não vai: a tristeza
do Gatolino é porque nunca amou ninguém, não teve a oportunidade, o castraram
antes. Quando o encontrei pelo mundo o mal já estava feito. Então vamos falar
de sua vida cachorrinha.
(segue)
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