miércoles, 28 de mayo de 2014

Conseguimos chegar

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Um sentimento me diz que ali adiante há clareiras, o escuro está aqui, procuramos luz, precisamos de luz. Chega, vamos lá, eu na frente, andamos dias e noites, anos, e surgiu uma clareirinha. Parei, a tribo inteira logo atrás, estes galhos não são seguros. Um lugar assustador, o cheiro denunciou. Aspirei o ar, func, func, senti os carnívoros grandes rondando escondidos. Fiz um sinal e retornamos em silêncio, vamos pelo outro lado. Sei que acharemos uma clareira maior.

Seguimos pelo escuro. O tempo passou célere, muito tempo, éramos outros, mas depois o esforço começou a dar resultado. A primeira clareira que encontramos foi pequena, ínfima, não dava um metro quadrado, olhamos para cima, vimos ralos raios de sol entrando fininhos pelas copas das árvores na imensidão depois das nuvens, os fios de ouro não chegavam ao chão, porém a esperança se fortificou, os parcos rainhos de sol avistados no alto nos incentivaram a seguir pelas árvores antigas de caules grossos e de brutos espinhos. A gente subia apenas até trezentos metros, mas elas continuavam, iam até Deus.

Descansamos um pouco, estávamos em transição, a mata gigantesca piorava, decidi que era melhor irmos caminhando, pelo chão os perigos eram grandes mas escaparíamos das aves. Caminhar era dolorido, de toda maneira doía tudo, se andando em pé ou de quatro, fomos revezando o modo, de quatro ou de pé quando conviesse, e seguimos, fomos abrindo picada à facão pelo chão, em certo instante desacostumamos das árvores, vieram as cobras mil quilômetros em frente, saltei quando uma se desatou da árvore e voou para enrolar, apertar e engolir o companheiro Jhesu, saltei e o meu facão de pedra cortou a tarde, e tornou a cortar, era imensa, chega de frutas amargas, à noite comemos cobra assada em fogo de choque de pedras.

Dobramo-nos nas caudas e dormimos num buraco que achei no meio e atrás de uma cachoeira, ouvindo os rugidos famintos dos animais da noite. No outro dia retomamos a viagem, éramos mais uma vez outros, eu de novo na frente, passamos por um pântano interminável, feio, fomos atacados e matamos jacarés em defesa das nossas vidas, não dava para desviar, eles vinham em cima de supetão, traiçoeiros, saíam da água aos arrancos. Ao sairmos do atoleiro uma ave bicuda apareceu repentinamente, com seus olhos horríveis, vinda de uma daquelas árvores diferentes, já menores que as antigas porém ainda imensas, a ave de asas gigantescas nos roubou uma criança, as garras desceram sem dó nem perdão, pegou-a de um modo que esguichou sangue do corpinho esmagado, e subiu célere, pasmos a assistimos engolindo a menina lá no alto ao pousar. Subi na árvore enlouquecido de ódio, mas eu já não era o mesmo, apesar dos cinco membros de apoio. 


Descansamos de novo. À noite nos contentamos em comer carne de jacaré, em silêncio. Fazer fogo ficou fácil, quando o céu não derramava. Um dia comeremos ave bicuda.

Reiniciamos a caminhada. O tempo passou e não nos apercebemos, habituados a andar em frente sem saber para onde. Novamente éramos outros. Passamos em outra mata fechada, árvores sem espinhos, de folhas verdes lindas, não nos desviamos da natureza, de passagem a acariciamos, surgiram flores, poucas ainda, uma amarela aqui, uma branca lá, aquela vermelha desabrochando, viram? Conseguimos!

E aí não paramos mais, não sentimos cansaço, e um belo dia, muitos anos depois... que maravilhoso amanhecer, saímos de uns folhões de floresta rasa, onde vimos e nos alimentamos de animais menores, fáceis de capturar, e surgiu enfim a clareira imensa, iluminada de sol por inteiro, exultei, cego de felicidade: saímos finalmente da caverna. Risos, desnudou-se o campo aberto até onde as vistas enxergavam, a mata em torno maravilhosa, frutífera, muito adiante pessoas num povoadinho transitando em mercados de frutas e legumes, aparentemente sem reis, sem bandidos, sem analfabetos escravos de bandidos, vimos bares, lares, alegria.

Eles usavam roupas de couro. A gente  nu.

Estamos em casa, a casa que ansiosamente procurávamos, empolgados nos abraçamos e caminhamos eretos em sua direção, primeiro devagar, logo aumentando o passo, ao fim em desabalada carreira. A tribo inteira com lágrimas nos olhos, mas eu no fundo intranquilo, bobo perdedor sempre fazendo a frente nas ruins, sentia que tinha perdido algo. Parei de chofre. Pararam todos atrás.

Demorei pensando, não entendia, e os meus foram se mexendo, passando devagar por mim, logo estavam novamente aos pulos em direção ao futuro, eu preso à terra pela incompreensível enchente de pensamentos que me pregou. Fiquei lá, no meio do campo, cabeça zunindo, doendo. Toquei meu peito, minhas pernas, meu rosto, tudo no lugar, aí tentei balançar o rabo e não o senti, meu íntimo congelou: eu já não o tinha.


Caí de joelhos, arreganhei minha boca de macaco cheia de dentes, transido de dor, e urrei feio, um terrível lamento para toda a natureza ouvir. Não sabia que tinha chegado ao céu, mas sentia que tinha, enfim, chegado ao inferno.
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lunes, 26 de mayo de 2014

Morrendo em São Paulo (1/4)

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Meu nome é Francisco del Rio Silveira, não esqueça isso, menino, nasci em Iraí e de lá saí com nove anos de idade, já sabendo atravessar o rio Uruguay nadando de costas, e vi, vivi, ninguém me disse, não esqueça... 

Desmaiei ou deu um branco. Passou a letargia.

Agora estou numa chácara nas cercanias de Montevideo, e os espero, a eles, que estão me caçando, podem surgir a qualquer momento. Olho em torno e peço ao moço que me ajude a chegar no mato, não convém ficar na casa, ele me ajuda e vamos. No mato fico, tenho somente dois tiros na Magnum, estou morto se eles chegarem. Fique aqui também, muchacho, não volte lá de jeito nenhum, como é o teu nome? 

Pablo -, responde timidamente.

Certo, Pablo, tu é um anjinho, um santo. Vamos ficar quietos aqui, não se levante.


Confio que os meus cheguem antes. O ferimento não é tão grave assim, fiz torniquete com o cinto do grandalhão que ficou sem nuca na vicinal, acertei-o na boca de baixo para cima, seus miolos foram parar em Punta Del Este, onde pretendo pegar um dos reis cearenses. Vai ver Seven-Eleven. Para me matarem terá de ser em São Paulo. Eu quero voltar a São Paulo, murmuro nervoso. O rapazola uruguaio que me achou no meio da estrada, e conseguiu um telefone, diz: "San Pablo?", aceno com a cabeça dizendo que sim mas agora não, agora fico aqui. Ele queria buscar socorro, não mesmo. Um bom guri, hei de recompensá-lo, sem estragar a sua vida, sem tirá-lo do seu mundo. Enquanto espero, repasso os acontecimentos, ainda não entendi tudo.



No tempo da onça havia uma loja, chamada Casas Pernambucanas. Na verdade muitas lojas, em todas as cidades do Brasil, que antecederam os vampiros dos xópins. Outro dia dou os nomes dos donos dos xópins, tudo político com grana roubada, se o povo souber sai quebrando tudo, mas alguns seguirão frequentando xópins, burrice não tem limite. Fodam-se, que dêem a bunda para o Corinthians, que morram esses dejetos.



Não os nomes dos donos das lojinhas de xópins, esses não são donos de nada, são apenas os filhos da puta que pagam um alto percentual do faturamento para o Tesso Jerê e seus amigos, ah, para os donos, os vampiros. A Pernas Bacanas não é deste tempo, é de outro, quando vendia panos para o povo que amava doar o sangue e o hímen de suas filhas para os bichos sugadores, bichos que perto do que veio depois... as Pernambucanas era uma espécie de Silvio Santos, o jacaré Abravanel, ou um pastor de jatinho, ou Faustão cuzão, algo assim, se fazendo de amigo da massa. Afasto a idéia, meu íntimo reclama, pula esta parte, me dá nos nervos e me embrulha o estômago, acaba saindo palavrões que me ferem os ouvidos e me fazem sentir leviano, inverte, o cara ruim passo a ser eu e não as hienas de quem falo. Não sou como eles.



Casas Pernambucanas: "Quem bate? É o friooo.... Não adianta bater, que eu não deixo você entrar...". E dê-lhe a vender cobertores ao povinho. Era uma boa loja, perto do que veio depois.



Trouxe-me lembranças. Lembro-me de tudo, agora dá para contar sem me meter em briga de canalhas da escuridão, de ladrões de cemitérios, antes não dava, não por medinho - meu Deus, preciso apertar mais, o sangramento vazou, não quero perder a perna -, mas para não ser injusto, os outros não conheci. Imaginei, e imaginação deixa assim, e tinha filhas para cuidar. Agora posso, pois estou no meio da tempestade, raios cruzando, um me pegou a perna, outro o ombro de raspão, eles são numerosos, mas vou matá-los, um por um.



Certa vez em São Paulo, num ótimo hotel da Cerqueira César, de 4 estrelas, na época tinha essa frescura de estrelas, uma fraude, pertinho da Consolação, eu e uma turma de mais dez a trabalho lá nos hospedamos. O trabalho era foda, responsa e tudo, grave, num bancão de agiotagem da Paulista, um dos maiores bancos, ou grande áfrica do Sistema Financeiro Nacional, pior que traficante de armas e órgãos humanos, de crianças de preferência, órgãos mais frescos, já viram como os amo. Eu vi, né.



E eu de chefinho de um monte de caras, eu o mais novo, chefe porque era meio tantã ou outra coisa ruim. Loco de atar não era. Aí que chegamos de bando no domingo à noite, em vôo noturno pela Gol, quem sabe Varig devorada que nem o osso restou, comemos merda no avião, sanduíches no hotel, dormimos, uns se masturbaram lá nos seus quartos, não é da nossa conta, eu telefonei para uma mulher, e na segunda-feira fomos à luta.



Fiz reunião com os mafiosos do banco, os colegas juntos, não sou bobo de ficar sozinho com eles, meus colegas de bico fechado, eram minhas testemunhas, numa sala que mais parecia o Memorial da América Latina, um andar inteiro, no palco eu e eles, os paulistas frios, seguros de si, valentes, patriotas, os mais burros tentando ser alegres. Não sabiam com quem começavam a lidar, eu ouvindo quieto suas mentiras, calmo, ponderado. Só rindo. Depois da hipocrisia, pedi salas e telefones, não iríamos usar os telefones deles, pedi para pensarem que. Grampo puro. 



Já sozinhos nas salas que nos deram, nomeei o nosso encarregado de conseguir café, indiquei onde meus camaradas trabalhariam, o que deveriam olhar e tal. Para mim separei a parte ruim, onde o nego precisa ter sangue-frio congelado, e incomodei-me, sorrindo com ar de besta, já ao começar a olhar os títulos de crédito dos caras: de dez bilhões no mínimo cinco eram falsos. Fiquei frio, mas um luzeiro se acendeu no cérebro. Os meus colegas eram bons, logo um também achou um pedrão no meio do caminho, ai, ai, ai. Tudo em silêncio, nada de os funcionários deles, leva e trás documentos, perceberem. Para conversar perigos eu os convidava para sair, passear e tomar um café na Rua Augusta.



Primeiro dia. Às 4 da tarde eu seguia atencioso, agora pedindo arquivos de tudo, inclusive do dono, mandei abrirem o cofre da sala privativa do chefão, não queriam, este é particular, mas engrossei, particular deixa em casa, e abriram, e isso foi fatal. Ao sair, às 5, o senhor diretor me disse que o donão de tudo, do Brasil, queria falar comigo no dia seguinte. Também quero, respondi. 



À noite pizzaria na Consolação. Os viados da pizzaria não tinham mostarda, um colega insistiu, a gente paga, não tem bar aberto onde possa buscar? O garçom, a um olhar do italiano proprietário da birosca, engrossou, disse que era coisa de gaúcho, homem que é homem não estraga a pizza com mostarda ou kétichup, e cuspiu na pizza. Errei. vi a cobra mandada, mas levantei e meti a mão na cara dele, estraguei a pizza, paulista filho da puta, gaúcho come churrasco, não essa merda bailando em azeite fedorento. E peguei a pizza e enfiei-lhe metade na goela, o insolente resistiu e dei de novo, ali me machuquei e ele desmaiou. 



Deu um rebu. Errei, e voltei para o hotel com a mão muito machucada, a pegada foi forte, o infeliz não morreu mas quase, foi para uma UTI. Uma incomodação danada depois, não sei o que me deu, poderia pegá-los depois, a solas. Saí da delegacia, acusado de tentativa de assassinato de um modesto trabalhador que vestia a camisa do Corinthians. Nojento, deveria tê-lo matado, mas  algo não fechava, no táxi para o hotel resolvi passar pela pizzaria, vi o dono lá dentro de papo com o mesmo sujeito que tinha visto antes, de longe no aeroporto, na entrada do hotel e no outro lado da Paulista. Eu e meus olhos castanhos, como não ver o bicho.



Apaguei quase tudo, devo estar ficando louco. Liguei para Porto Alegre pedindo uma arma de trinta tecos e munição. - Hoje mesmo estará no hotel, me responderam. 



Cheguei no hotel e no hall dei de cara com a herdeira das Casas Pernambucanas. Não acreditei no que vi.


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sábado, 24 de mayo de 2014

Estão Voltando as Flores (2)

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A famosa marcha-rancho de 1961, letra e música de Paulo Soledade (Paranaguá, PR, 29/6/1919 - Rio de Janeiro, RJ, 27/10/1999), é única.

"Estão Voltando as Flores", letra curtinha. Um hino de esperança.

Com os "Pequenos Cantores de Belo Horizonte", do Colégio Santo Agostinho, em vídeo hoje postado no youtube pelo amigo Antônio Bocaiúva (Antônio Augusto Santos).


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viernes, 23 de mayo de 2014

Perfídia (20)

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O bolero, um clássico mundial, é de Alberto Dominguez (Alberto Dominguez Borrás, San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, 21/4/1911 - 2/9/1975), que o compôs em 1939.

Hoje com o Trio Guadalajara, em gravação de 1951.

martes, 20 de mayo de 2014

Mesário voluntário

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Pontualmente às 20:30h, uma querida amiga me comunicou que estava passando um ótimo programa na Televisão Educativa - TVE, única que presta em Porto Alegre apesar das pavorosas limitações de orçamento, como aliás ocorre em todo o País com suas congêneres, com início às 20h. Histórias do Sul: 100 anos de Música. Vai até o dia 23 de maio, este 23 de maio que nada tem a ver com a avenida Itororó, amigos paulistas, menos ainda com os heróis de 1932, e sim apenas com a próxima sexta-feira. Liguei o treco e descobri que durava trinta minutos, até às 20:30h. Logo ela enviou outro recado, muito gentil de sua parte, avisando o que eu já sabia, que o show tinha acabado. Amanhã pego na hora, se der.

Porém valeu a pena ligar o caco velho, coisa que raramente aqui acontece. É uma Philips que era jovem em 1977, só funciona depois de dez porradas em cima, dos lados e na cara, e isto porque o moleque filho da coroa gostosa que mora no terraço - ela me disse que tem 34, ora se 43, ou 53 cortado à faca, é coroa nada, enquanto lá em cima eu tratava de assuntos de alcova com carinhos leves na cara e cabelos da louca, espancamento até respeito mas não é comigo, bem, tanto implorou que dei-lhe uns tapas -, ahn, quase me perco, bem, o moleque enjambrou uns negócios para reviver a arma da globo. 


Duas horas depois desci extenuado, branco como cera, e paguei-lhe com dois baseados que um consumidor chapado deixou cair na escadaria do prédio, o gremistinha saiu dando pulinhos e me chamando de papai. Lembrou de algo e voltou-se dizendo: "Ah, fiz um gato pra ti, agora pode pegar tevê a cabo pela geringonça, se gostar me paga quando puder". Espero que não tenha torturado o Gatolino. A Pati, sua mãe, exclamou lá de cima para o mundo inteiro ouvir, querendo me comprometer: "Volta de noite, amor da minha vida, vou fazer massa!". Vou é fugir para a Patagônia.

Um tanto entrevada a minha tevê, nos últimos tempos liguei somente em decisão nacional de futebol, isto se o Inter ou o Grêmio estivessem jogando contra a indiada lá de cima, o que, infelizmente, tem acontecido muito pouco, a última vez foi há uns 8 anos, quando o Inter em seguida ganhou o mundo, depois do histórico drible de corpo do Iarlei que deixou o capitão espanhol catando borboletas à unha no deserto, logo o passe magistral que colocou Gabiru num maravilhoso oásis, vai e faz, companheiro, adeus Barcelona, adeus Dolores Sierra. Quase morri do coração. Aquele Iarlei merece ser imortalizado em vida, com um monumento na Avenida Padre Cacique.

Valeu a pena porque ouvi alguma propaganda até compreender que o 100 Anos de Música tinha terminado, e depois de desligar me toquei que um dos anúncios dava conta de que existe no Brasil um negócio chamado Mesário Voluntário.

Pera aí. A palavra Voluntário me remete para trabalho gracioso. Bem, o retrospecto não ajuda, vez que os famosos Voluntários da Pátria eram os miseráveis e prisioneiros forçados a marchar contra os irmãos ali adiante, ou vai para a guerra ou morre, enquanto os ladrões ricos, como? Ladrões ricos? Eta redundância, bastaria dizer ricos, levavam as honras e as medalhas da Copa, digo, da guerra, mas a origem do vocábulo, "voluntarius", de fato tem o sentido de ir por vontade própria, atualmente com claríssima conotação de ajudar no mole, isto é, sem remuneração pelo esforço pessoal, no máximo sendo ressarcido dos custos materiais. 


Mais ou menos como na guerra, o general diz para o não sei quem, que diz para o capitão, que diz para o tenente, que diz para o sargento, economizei na milicada, para não ficar o dia inteiro escrevendo sobre suas hierarquias, e o abacaxi estoura onde? No soldado raso, aquele que foi à força, ou vai ou morre, seu filho da puta, apanha, vai para a guerra aprender a defender a nossa grana e dos nossos sócios, os mercadores e fabricantes de armas, quem manda não ser um Muhammad Ali, exclama o sargento, já me olhando: "Quem é o maluco que topa encarar sozinho aquela metralhadora inimiga?". O negão olha o campo aberto, sabe que vai morrer, pensa: "Pro Brasil escravo eu não volto, prefiro morrer", e sai no peito e na raça brandindo o punhal. No caso de um milagre ganharia uma medalha de latão, as de ouro, como sabemos, já estavam destinadas para o Duque e seus comparsas..

Outro dia ouvi alguém falar em Voluntários da Copa. O chargista Caba da Peste, quem vem a ser o amigo Newton Silva, lá de Fortaleza, volta e meia pega no pé dos caras, voluntários-otários. Mas estes em último caso até passa, nunca se sabe, de repente o pessoal quer assistir aos jogos de graça, entra no estádio a pretexto de voluntariar algo, troca de camisa e fica numa boa tomando cervejinha e assistindo o jogo, vez que o preço do ingresso só permite ricaço e estranja, pé-de-chinelo não entra nem em sonhos.


Pipoqueiro talvez entre, se assinar um contrato comprometendo-se a entregar 98% do faturamento para a FIFA, este é outro que entra lá, tira debaixo da cesta a sua garrafa de mé, atira a cesta num canto, quem quiser que se sirva, e vai assistir o jogão entre França e Honduras, abertura da Copa no Beira Rio, torcendo para Honduras, é ambulante mas não é sonâmbulo. O vendedor de pé-de-moleque os moleques proibiram, vá entender. Milicos também, pagos por todos nós, mas precisam ficar de costas para a peleja, mirando o comportamento de quem o paga. De fato a sua presença seria necessária, caso olhassem para o lado certo, na Copa haverá muito bandido com o fiofó enfiado nas cadeiras de honra, a começar pelo larápio presidente da própria FIFA, com o ladrãozinho do Jerome a lhe lamber o saco no intervalo, o que não fazem por dinheiro. Mania de mudar de assunto.

Mas, convenhamos, Mesário Voluntário? Essa foi forte. Lembrei-me de Bruno Contralouco. O Oficial de Justiça ou coisa que o valha levou a intimação para que ele fosse mesário numas eleições, isso no século passado, numa briguinha entre predadores e predados, quando Fernando Collor chorava na tevê reclamando que o Lula tinha um equipamento de som 3 em 1 e ele não, seu honesto papai só havia lhe deixado redes de rádio e televisão, depois acusou o Lula de provocar aborto na esposa, que foi quando descobrimos a doçura do fair play da admirável elite brasileira diante do perigo de ver seu mandalete entregar o osso. Claro, o lindinho venceu a disputa, e o Lula, que no futuro viria a ser seu sócio e grande amigo, ficou chorando enquanto ouvia o jogo do Córintiã pelo radinho de pilha. 


Bom, o Bruno abriu a porta, o sujeito perguntou pelo Bruno e ele, que não é bobo, respondeu Quem? O sujeito novamente leu o seu nome. Ah, você está falando do Bruno Contralouco, o cara mudou-se há muito tempo, até o mês passado estava em Belém do Pará. Qual o assunto, sou o Jucão, primo-torto do gaudério, caso ele telefone eu posso avisar, é urgente?

O funcionário da justiça eleitoral disse a que veio. Aí o Contra emputeceu: mas façam-me o favor, vocês não andam regulando bem: o pobre do Bruno separou-se da mulher, uma alemoa perigote que ele tinha, dava para todo mundo enquanto o coitado trabalhava por uma vida melhor, e agora está lá na Amazônia há dois anos lutando pela sobrevivência, e vocês, com tanto bancário e funcionário público que trabalham seis horas por dia, trabalham é força de expressão para dizer coçam o saco, ali dando sopa, vêm logo atrás dele?

O homem esboçou abrir a boca para dizer algo e o Contra seguiu a mil, vermelho de pura indignação. 

Por isso que este País não vai para a frente! Se ele telefonar não vou dizer nada, ora bolas! Se o coitado puder vir será para ver a família, tem uma filha lá na Vila Cefer, e cumprir sua obrigação de cidadão, votando, e vossas excelências querem que no único dia de rever familiares o cara fique trancado? Francamente, nem morto!

O sujeito voltou para o Tribunal Eleitoral e devolveu o papel ao juiz: este aqui está há dois anos na Amazônia e talvez nunca mais volte, apaguem o pobre homem. Riscaram o seu nome do rol de vítimas, nunca mais convocaram.

E agora existe Mesário Voluntário? Essa história está mal contada, tem gato na tuba.


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sábado, 17 de mayo de 2014

Camila Costa, a Valsa rosa, a Juriti, a loba da Tasmânia, a pantera e eu

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Pediu ao vento, que violento 
Arrancou-a do jardim
E então o colibri
Pegou a rosa enfim valsando pelo ar
Deixou-a sobre a cama dele e
Nunca mais foi lá 




Amo a Valsa rosa.

É da Camila (parceria com Ruy Quaresma), que é minha amiga no facebook, onde ela raramente entra. Camarada, melhor dizendo, amiga de tu lá e eu cá, este mundo, como em geral, é fogo. Mas há confiança, neste sem fim de distância, com inadvertida semi-rima.

Detesto artistas famosos, quase tudo fabricação, todos cheios de si, numa burrice danada, felizes por encantar a plebe de visão curta e orelhas longas, como dizia "Nitie". Detesto e livrei-me deles.

A Camila não, ela é diferente, pois de três em três anos, ou um às vezes, em madrugadas, ela chegando de shows trocamos algumas palavras por telefone, ou sei lá, mensagem, sempre nos dizendo que a vida está boa. E esse frio aí na Suécia, guria? Um gelo!, no carnaval estarei no Rio.

E aí no Sul, Porto Alegre? Aqui? Gelo, em outubro estarei em Niterói.

Outro dia sonhei que a cantante tinha 33 anos. Comemorava no mesmo dia que eu, que fechava 61. Linda, festejando na Dinamarca. Abri um champanhe de madrugada, bebi e saí. Do fundo do bar telefonei para as minhas filhas, conversei sobre seus doutorados, saber como estavam, tudo rápido, pois lembrei que havia esquecido de ligar no mês passado, logo em abril, todas nascidas em abril, rosas de abril...

Por último a mais novinha, que se faz... ora se faz, é, de sensível, saiu igual por dentro, falou sonolenta. Depois do Oui?, reconheceu a minha voz e exclamou: Sala, que milagre... 

Como vai, gorda, tudo certinho aí? Tudo, pai, e tu? Amenidades e tal, até que com a boca ainda meio pastosa me disse: Olha, não é pela hora, não me leve a mal, pai, mas o que está se passando? Está pelos bares? É cinco e meia. O senhor não estava casado com a loba da Tasmânia? Tu me disse que daria a vida por ela, e...

Do senhor passou para o tu, no fundo não gostei, temi ter acordado a guria. Porém segui de bom-humor, amei o Oui, sinal de que segue no lado francês, e não daqueles lambe-ovos dos norte-americanos.

Nada, Juriti, psit... não fala alto. Deixa eu te contar: finalmente conheci a pantera chamada Rosa, que eu sempre quis. Negra, 43, um doce de alma, aquele sorriso... Tu sabe que sou conservador, pai não deve dar detalhes sobre certas coisas, se não te diria que tem um corpão, já viu aquelas bailarinas que dançam
levando as escolas de samba com o rebolado, a bunda, cada peitão, pois é, e um olhar de fogueira que diz esse castanho é meu, o castanho sou eu, ai meu Deus... 

Ela quietinha, algo a interessou, conheço meu povo.

Arham, epa, pula isso, andei bebendo. Ju, ela me olha com carinho, é singela, eu é que não presto e vou... deixa pra lá. Na próxima vez, quando chegarmos em casa, antes de mais nada vou botar o disco da Camila, a Valsa rosa. Vou dar um baile nessa nega, vai conhecer gaúcho redomão.

E por que não está agora junto dela agora? Não aguenta sem sair para a rua, né? A mulher deve ter ficado esperando tua ligação. Se vai transar com a "tadinha" da madame, pai, pra andar contigo deve ser muito inocentinha mesmo, e tu todo nervoso por ser a noite... manhã, de estréia, aviso que ela, por mais vivida que seja, se gostou mesmo de ti também estará nervosa, como tu dando a vida para não demonstrar, estou escrevendo sobre isso no pós-doutorado, vai por mim, em trepação vai rindo, porém amor, amizade, companheirismo, é outro papo, e isso de nervosismo passa depois de dez minutos de pelados na tua cama, e sugiro botar outra música, aquele bolero de Tanto tiempo disfrutamos de este amor, nuestras almas se acercaron tanto así, ou nenhuma. Esquece a Valsa rosa, também gosto, amo, é epílogo, pai, por favor não vá me gastar assim, guarde para a festa de casamento.


Hummm, refleti: está ficando sabida. 

É que ela mora no Rio de Janeiro, Ju, e eu agora estou em Porto alegre.

Ué, não tinha comido todas as mulheres do Rio de Janeiro, faltou essa?

Tudo intriga, pequena, só tive umas quinhentas cariocas, e a população feminina por lá passa de cinco milhões, acho que não darei conta.

Notou que tu está ficando velho, pai?

Eu mereço, mas me vinguei. Esquece isso. Tu tem namorado aí, gorda? É francês? Tenho pavor de francês, tudo viadinho.

(boceja com enfado e murmura algo, pareceu "Eu mereço")

Tu tem pavor de qualquer um que se aproxime de mim, não se flagra. Te conto amanhã, ligue mais cedo. E tiau, vê se cria juízo desta vez, seu tasmânico. Bjin.

Liguei exatamente pra isso, pra dizer que agora achei o caminho certo, mas tu não entende que cansei de carnes, quero é amor! Tiau, tolinha
. Beso.

Ahahah, entendo sim, te conheço. Clic.

Minha filha deve ser louca, Deus meu, o que foi que eu botei no mundo? Vá lá, atenciosa, de paz, apaixonada, sensível, linda, inteligente, carinhosa, boba... puxou por quem? Bem, acho que por mim, mas o resto, isso de perguntona e respondona, puxou por aquela que mal me lembro. 


Ora, casamento. Eu falava de amor. Vou ligar para a Conceição. Eu me lembro muito bem.


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lunes, 12 de mayo de 2014

Discutindo com Gatolino

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Gudi naiti, ouvi ao entrar em casa, num gatês enrolado, parecia gente falando. Em gatês é miado, sabem, né.
          
Virei-me de pronto para o Gatolino, antes de acender a luz da sala, ele que me olhava zombeteiro de cima da mesa, em posição de ataque. Ainda que iluminado pela lâmpada fraca do hall do apartamento, percebi o faiscar dos seus olhos, queria encrenca. Ué, agora tu fala, projeto de leão?

Engoliu em seco, por essa ele não esperava, o "projeto" arrebentou com seus brios. Sorri. Mas recuperou-se, com uma névoa escura diante dos olhinhos respondeu com dificuldade, mantendo a categoria, não iria entregar a rapadura já na saída: não falo, sou gato, apenas mio, tu que andou bebendo, depois das duas meias de uísque ainda sai para a rua, e me volta sozinho, mimimi, não pegou ninguém, e rola na mesa, se finando (falsamente) de rir.

Baixou o jogo. Fiz de conta que nem ouvi.

Sai fora - respondi - voltei porque não quis pegar as gatas, muito usadas, todos os dias dando sopa ali naquele bar finório da Olaria, e todo dia alguém diferente leva, eu hein (percebi que ele não sabe que meia mais meia dá uma, mas guardei para pegá-lo numa melhor).

Mimimimi... o bobão é preconceituoso, quer para casar, mimimi, o que tem de mal beijo com gostinho do pau dos outros? Enjoou? Miiiiiiiiiiiiiimimmi. Agora dá cambalhotas e se fina em gargalhadas gaiteadas, achei que ia morrer. Equilibra-se, novamente em pé, com uma patinha na boca, sufocando o riso, e acrescenta: conta outra, no estado em que tu anda pegaria até a minha avó Gatilde, mimimimi...

Esse gato pirou, só pode. Quase respondi que descasei mil vezes, nada mais distante da realidade a besteira que ele disse, amo três mulheres, de longe, e que fiquem assim, e que voltei para cometer um gatocídio que há meses venho planejando. Mas sou calculista, virei o assunto e saí por coisas que ele não entende, estava mesmo precisando trocar uma idéia com alguém inteligente, o feicebuc está insuportável, a turma de boa cuca hoje não apareceu por lá.

Pára de besteira, Gatolino. É que impliquei com a tal de TV Revolta. A todo momento recebo imagens da referida, então, se me permite o amigo, sei do que falo, tu nem tem feicebuc, ahahah.

Mimimimi... para ver TV melhor não ter face, não sou imbecil, prefiro filme antigo do Garfield, mimimimi... (vou matar o miserável, mas não dou o braço a torcer)

É três boas imagens dessa Revolta, sabe, né, imagens apartidárias, como disfarce, e crã, uma fincada para esculhambar com a Dilma. O dono deve rir muito enquanto conta o dinheiro que lhe pagam, com gente trabalhando de graça para difundir, novamente se me permites.

Mimimimi... que sei eu de Dilma, meu chapa, vou é chamar a vó Gatilde, tu não mata nenhuma, salvo se cair morta, e a vó morreu (olha para o céu, que é o teto do apartamento): Senhor Gadeus, mande minha vó Gatilde pra esse otário, ahn, e meio quilo de fígado pra mim.

Sórdida insinuação. Filho da puta, isso já é abuso: reclamando de falta de comida. De castigo ficará uma semana comendo ração de múltis, aquelas nojeiras de comprimidos marrons, vai acabar pegando um câncer! Faço-me de desentendido e continuo.

Nunca entrei nesse site, então não sei de nada, meu caro Gatolino, só recebo as imagens pelo feice. Tu sabe quem é o dono? Quem repassa, além de concordar com o que viu, deve saber, suponho.

Mimimimi... otário, anda mal de grana e tá com inveja do ladrão, mimimimi...

Agora foi falso e mentiroso. Bem, quanto à grana até que não está errado. Mas sigo: Não senhor, veja só:

Na última imagem que me mandaram aparece uma mistureba de Joaquim Barbosa com uma não sei quem, antes de sair chamei a Jurema. Jurema é a morena que me ajuda com a limpeza, pois faço comida, lavo pratos, roupas no balde - na máquina de lavar é com ela, não entendo do negócio -, mas isso de varrer e lavar o chão não é comigo, ela olhou a foto e me disse que a mulher é uma nazista do Sílvio Santos, mas não tem certeza. Compliquei com ela: peraí, Ju, nazista, que conversa é essa? Não sei, Sala, ouvi por aí, e não gosto dela, toda se achando, metida a dona da verdade, mas aposto que se encostar desmancha, cai a casca dos outros em quem a molenga se fia, e nem pense em comer o bicho, periga pegar uma peste. Jurema, Jurema... isso são modos? Ele solta um mimimi curto e segue atento, esperando um deslize, de queixo caído, debochado, sabia que estava perdendo mas não admitia.

Prossegui: eu nem sabia que o Senor Abravanel ainda estava vivo, tem nego que demora a morrer, teima, resiste em largar o osso do povinho, como fez o Roberto Marinho, durou cem anos! Não é de duvidar que este empurre, antes de largar o ossão, uma Sílvia e um Sílvio Jr., como fez o outro, para seguir fodendo o povo de lá do inferno, que osso, digo, que vida. Pois, na imagem dizem que 99% por cento da população quer o Joaquinzão para presidente e essa percanta como vice, já viu uma coisa dessas, água e azeite?

Mimimi, o que faz a inveja, só porque no século passado vendeu um continho pra Globo, entregando direitos de filmagem e tudo, e eles pagaram a miséria de dois salários mínimos, mimimiiiiiiiiimi...., agora morre de rir mesmo, não gostei da conversa, como será que ele descobriu isso? De repente solta um ronquinho, dá uma estrebuchada, se desequlibra e cai de cima da mesa, fica estatelado de barriga para cima perto da parede, preciso fazer respiração boca a boca no infeliz, dou soquinhos no coração, apavorado volto ao boca-boca, boca com gosto de fígado de boi, que deixei antes de sair, e de uísque! Foi ele quem bebeu aquela outra meia garrafa!

Volta a si, respira fundo, tenta se localizar, por fim arreganha os dentinhos e emenda:

Mimimimi... se fosse 69 eu até entenderia, uuui, é o que tu anda precisando, só não sei se a vó Gatilde vai topar, é muito antiquada, mas 99? Miiimiiimiiiiii...

E dispara em direção à sacada, eu corro atrás dizendo volta aqui seu castrado de merda. Pensa que quero matá-lo, mas que nada, vou é convidá-lo para mais um uísque, pelo menos numa coisa concordamos: 99 ninguém merece.



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domingo, 11 de mayo de 2014

Cidade Baixa: 15 da Camila

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Certa vez o "Carlos" (troquei o nome, né,  a hipocrisia nacional diz que o jogo do bicho é contravenção penal, só rindo) convidou ao Pato Bolé, meu compadre, e a mim para o aniversário de 15 anos da sua filha.

O Carlos era o bicheiro da Cidade Baixa, em rachid com um cara do Rio e um cola-fina de Porto Alegre. Gente finíssima, o Carlos, nunca pegou em arma, uma caaalma, sempre se acertou na boa com os adversários, em tempos de guerra era o mediador, finura mesmo, mas sabia o que fazia, que tentem. O cara do Rio de Janeiro também boa gente, negão de 150 Kg, alegre, festivo, este compareceu ao niver. O de Porto Alegre deixa pra lá.

O Carlos um neguinho médio, 1,75 m, nem parrudo nem magrela, assim como eu, eu 1,79, mas nem gordo nem magro, enfim, não era armário. Casado com a Loirete, uma loira mais baixa que ele, mas polpuda, outra gente fina. Boazuda, quando andava pela Rua da Olaria em cima daquele salto 20 o Carlos se benzia em casa, a cachorrada de toda a cidade ia atrás para ver o requebro, vai, vem, da, ahn, da polpa. Pero sincera e honesta, tinham cinco filhas, mais umas dez e ele me alcançaria, nessa época eu estava na quinze. A gente ria muito por essa de só fazer menina, e acordávamos que homem lá em casa, ou casas, já chega eu. O niver era da sua guria mais velha, a Camilinha.

Uma honraria e tanto, sermos distinguidos pelo amigão que bebia e jogava xadrez com a gente no bar do Carlito Higgins, uruguaio, outro amigão, ele e a Jacira. A mulher do Carlito um doce, trabalhava na Saúde, ali num Posto da rua dos milicos, ai meu Deus, uma depois do 18º do Forte de Copacabana, o... Otávio Correa, isso, uma depois da Otávio e uma antes da Rua da República, deu branco no nome, mas ali pertinho, no setor de doenças venéreas. O Carlito se arriava nela porque passava o dia inteiro pegando em pau para colher material - tinha que pegar, apertar, espremer a cabeça e colher o líquido no buraquinho dos paus dos caras - mas se arriava só entre nós, no começo ficava fula da vida, ora onde já se viu contar coisas assim, vermelha, mas com o tempo ela também ria. Um casal de amor, Carlito e Jacira, com seu lindo guri.

Claro que fomos. A festa contaria com conjunto de samba de primeira, dez caras, com tudo o que tinham direito. No próprio Bar do Carlito, na esquina da Rua da Olaria com Lopo, pouquinho mais pra lá, onde atualmente tem algo, restaurante ou coisa assim. Na época ali pegava fogo de amizades, uma alegria só, boêmios se abraçando, tomando lisos, música, violões correndo, e os tabuleiros de xadrez pelas mesas. Alguém já jogou uma Siciliana bêbado às três da matina, valendo a despesa? Não tente. A Siciliana é semi-aberta, hoje uma das prediletas dos grandes campeões, mas a gente treinava mesmo, e gostava mais, das abertas: escocesa, italiana, húngara, espanhola, russa... uma festa. Eu amava ir para cima deles com o gambito Evans, que foi uma tentativa de se modernizar a italiana, fatal se um domina e o outro não está habituado.

Só eu e o Pato fomos convidados, o bar estaria fechado para outras pessoas, deu uma ciumeira danada, mas os borrachos velhos aguentaram, estaríamos representando a todos, pois viria a parentalha do Rio, Floripa, Miami e o diabo, iria faltar lugares. Guardados os tabuleiros.

Lá fomos à noite. Levamos flores para a gatinha, eu rosas amarelas e o Patinho vermelhas, eu argumentei que 15 é nada, levo amarela, não é rosinha mas também não é de mulherão, a guria é cabaço, meu, e ele ponderando que tinha de ser vermelhas, a guria já se acha mulherzinha, para incentivar paixão, se sentir bem, etc. Puta que nos pariu, e agora? Tomamos um trago num boteco uma quadra antes e resolvemos misturar os dois buquês, depois de virar um copo em cima. 

Entregamos juntos, os dois segurando. Posamos para fotos já na chegada, a gente de terno e gravata, perfumados, nos trinques, alegria, aquilo lotado, umas duzentas pessoas onde caberiam cinquenta, e dê-lhe ixtou aqui, purrque, papos em carioquês. Branquelos eu, o Pato, a esposa do Carlos, mais uns três parentes, e ainda dois ou sete que não lembro direito, também não fiquei cuidando, ora. As gurias dele passavam por negras, lindinhas de morrer. Abraços, felicidade. Todos estávamos felizes, molinhos. O camarada do Rio sentou junto conosco, na mesma mesa, figuraço, em poucos minutos ficamos amigos para sempre.

Bebemos, comemos, rimos, dançamos - eu dancei com todas as suas pequeninas, exceto com a aniversariante, primeiro o pai -, e a tigrada lá no palco metendo para valer, o negão do surdo dava uns dois de mim, e lá rindo e ferro na boneca, o cavaquinho, o bandolim, flauta, dois violões, reco-reco e o escambau, bah, todos, os sambas pegados se ouvia em todo o bairro, soube depois, mas era de entontecer mesmo, mesmo inglês sairia dançando, aquilo mexe até com almas que já subiram.

Chegou o momento: o Carlos foi lá no palco dizer algumas palavras para a menina, antes de tirá-la para a valsa. Disse bem, amor da minha vida e tal, a guria subiu lá, a mãe também, as maninhas, mais abraços, lágrimas. Pato, Julião carioca e eu emocionados aqui embaixo. Adivinhem qual o bobo que não segurou uma lágrima, ah, era penumbra, fraca mas era.

Incidente na portaria. O nosso segundo armário teve que dar uma porrada num mauricinho invasor. Foi nada. Os porteiros impediram a Cidade Baixa inteira de entrar, o povo pensava que era paguei e estou dentro, a música atrai, e música boa, negada também do Rio, e eu de tão azarado fiquei logo de diagonal para a porta, na mesa da outra parede, com tanto espaço na frente e lá atrás, rei do peso. Na época eu era meio perigosinho, então quando apareciam as putiangas na porta perguntando pelo Sala e os negão barravam eu me abaixava e o Pato dava cobertura com o corpo. Uma gritou, mas eu vi o chapéu dele! Azar, dona, está enganada. Ufa. O Pato ria, o Julião idem, este dizendo que a Cidade Baixa tem algo do Rio. A coragem dele, "algo". A Cidade Baixa dá de dez a zero em toda a zona boêmia do Rio, de lambuja ainda podem somar o Bexiga de Sampa, mais Santa sei lá o quê.

Bom, o conjunto já havia tocado muitos sambas, todos não porque samba não tem fim, era coisa de onze da noite quando o Carlos cometeu a solenidade de dizer palavras de amor à filhinha. Estava a família no palco, ameaçando descer para a valsa e continuar a festa, quando se ouviu uma voz: "Vocês são racistas, negada de merda, não tocam música judia".

Era o médico da família, um velhinho franco-israelita, Monsieur Bertrand. O velho judeu era francês, israelita por adoção e brasileiro para incomodar: o pai dos chiclés, numa água de dar gosto. Uma beleza de se ver: um metro e cinquenta, terno cinza claro, camisa azul e chapéu coco preto. Nunca vi aquele velho sóbrio, mas era bom de medicinas assim mesmo, creio que se fosse sóbrio atender a alguém o paciente não aceitaria, era bom bêbado. Tinha entrado com carteiraço exatamente por isso: médico da família. O Carlos olhou de relance para os porteiros, rapidamente, mas retomou o controle, mandou a família para as mesas, eta nego bão.

Voltou ao pódio. No microfone disse: o que foi, doutor? Não ouvi, muito barulho...

- Foi pica nenhuma, essa negada aí é racista! Não toca música de judeu.

Silêncio repentino no salão. A esposa do Carlos tossiu lá atrás, visivelmente contrariada.

- O senhor quer qual música, doutor, Hava Nagila para a celebração que hoje fazemos?

- Hava nada, isso é coisa de cigano, quero uma pura! Qualquer uma judia.

Carlos deu uma pensada... Voltou-se e andou até os músicos, cochichou e retornou.

- Vai sair, doutor, em sua homenagem, obrigado pela presença.

Desceu e foi para a mesa da família, no caminho nos sorriu.

Acabou de chegar na sua mesa e o conjunto entrou a milhão, o couro comendo:

"Judia de mim! Judia..."

Quando acabou, sem uma palavra a turma começou a tocar Desde el Alma, solo de cavaco com batidas secas lindas, e foi aumentando, todos os músicos e instrumentos se integrando. E Carlos dançou com Camila.

Que noite. Inesquecível.

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sábado, 3 de mayo de 2014

Maurício Chester de Aragão

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Conversando amigável e distraidamente com meu amigo Carlos Valle, na frente de uns vinhozinhos, discutimos futebol por um tempão, ele é gremista, eu colorado, enjoamos de falar mal dos nossos clubes, ele falando mal do dele e eu mal do meu, pois mesmo com amizade forte ninguém é louco de falar mal do time alheio, isso é prerrogativa de cada sofredor, individualmente, no máximo a gente se dá o direito de uma abaixadinha de cabeça, em ar de concordância, quando ele chama o seu time de podre e tu sabe que a podridão já secou, é muito pior, fora a gatunagem que ele atura, ahahah. Ele faz o mesmo. Fazer o quê? Somos amigos.

A seguir animados lembramos os papos do Nietzsche quando este andava bêbado e apaixonado, altas filosofias, e depois de sete garrafas já tínhamos falado até da calcinha da princesa Victoria da Suécia, ui, gostosa, 36 anos, ele insistia que ela usa azul e eu teimava com vermelha, ora azul para uma morenaça daquelas. Ele tornava a insistir: azul cai bem em morena; discordo, azul cai bem em alemoa, vermelho é lindo, sim, em corpo moreno, e fomos papeando numa boa, e de repente o assunto virou e chegamos numa encruzilhada, por causa de um bicho. Parece que a dúvida é antiga.

Saímos do bolicho Vinhos, Queijos & Etc. e fomos embora. Nunca vi chamar salame, massa, polenta e frango assado de & Etc, e tinha outras coisas também, mas cada louco com a sua mania, e nos custou trezentos paus a conta, para cada um, vinho carinho, um dia ainda capo aquele gringo, pensa que sou deputado? O Carlos prometeu pensar no assunto do bicho. Tiau, Carlito; tiau, Salito.

Em casa fiquei matutando, e me lembrei que tinha um garrafão de vinho que ganhei de presente do irmão de uma gringa de Nova Bassano. O irmãozinho, um metro e noventa e que dá dois de mim no tórax, e olha que sou forte, ele gente muito fina, foi muito gentil, mas nunca fui desarmado lá no mato onde moram, e a gringa, ai meu Deus, eu com um e oitenta e ela com um sessenta e nove, mas sai da frente, se a mãe nos visse apartava, diria: assim tu vai te matar guri. De fato, nunca vi cosa mais linda, rosada, carnuda, e loca, uuuui. Resolvi beber a gringa, digo, o vinho, na gringa Gema vou amanhã para fazermos uma gemada. Abri o garrafão, vinho jovem. E me pus a pensar no bicho. Encapinchei-me com o maldito bicho.

Alguém conhece o pai ou a mãe do "Chester", que é um bicho grande e molengão? Pelo nome, brasileiro não é. Tá, vá lá, temos muitos nomes estrangeiros, isso muda com o tempo, muitos anos atrás poderia ser um orgulhoso Albuquerque, esse já era, ou Aragão, e agora que estamos norte-americanos somos Deivid, não errei não, é assim mesmo. Bem, atualmente contamos com variações de muitos, por exemplo um em honra de um grande artista brasileiro que amava crianças e que foi sepultado em um caixão de ouro, como era mesmo? Rolo na busca da internet, mas... O quê? Não era brasileiro? Era o quê, pedóf... Tá, esqueçamos isto, não importa, são belos nomes, mas Chester não, deve ser sobrenome, quiçá Maurício Chester de Aragão, filho de pais ingleses com um pé na Espanha, que terminou seus estudos em Cambridge e veio explorar, ahn, trabalhar, no Brasil, muita bondade da parte dele. Mas não, são muitos, haja Maurícios. Ou não. O que tem de Mauricinhos... vou ver.

E tem um pequeno detalhe: Carlos e eu só vimos os bichos mortos. Brrr, ai meu deus, isto está virando filme de terror.

Alguém já viu um Chester vivo? Isto é muito importante, pois a nega Cristina, velha amiga, quando desci comprar cigarros, cabeça presa no bicho, e nos encontramos na saída da Mercearia, trocando papos e tal, me disse para evitar o bicho, é zumbi. Tá louca, Cris? Tou louca não, Sala, tudo zumbi, não teime, vai por mim e toma café com jasmim. Ahahah, aprendeu comigo essa do café com jasmim. Despedi-me da Cristina como sempre faço: Tu tá linda com esse bombrilzão preto na cabeça, nega! Ela lá de longe responde: Ahahah, vai-te deitar, cachorrão, tu quer ver é o bom-bril preto de baixo, não vai levar! Nega Cristina é a pessoa mais querida aqui de cima, cuida e olha por todo mundo, é mais braba que um diabo se alguém machucar um bicho. Ela gosta desta brincadeira, a gente faz para provocar os politicamente corretos. Mas... zumbi? Brrr.

Teimo não, a Cristina é mulher curtida, bate uns tambores e sabe tudo, ela, o Juraci e toda a moçada. Sei lá, batuqueira também pode se enganar.

Em casa, com um quarto de garrafão batido, fiquei pensando no que disse a Cris e a mente evoluiu: alguém já viu um Chester pintinho, ou pintinha, correndo alegre no pátio do galinheiro, digo, chesteiro, piu, piu, piu, vou brincar, iuú, piu, piu, piu, como sou feliiz... Alguém viu? Alguém já viu um ovo? Alguém presenciou o nascimento (créc no ovo) dessa avis rara, com médico e tapa na bundinha? Jamé, never, nunquinhas, que eu saiba. Tomei mais um quarto do garrafão, faço o quê agora?

Pá! Consultei o relógio, meia-noite em Porto Alegre, então onze da noite em Quebec, e telefonei para a minha filha canadense. Atendeu feliz, oi, paizinho, tava com saudades, desde 2004 tu não me liga. Respondi que andava ocupado, tudo bem e tal, e fui direto ao assunto, explicando a situação do Maurício Chester de Aragão.  

- Pai: não existe Maurício Chester de Aragão, que conversa de bêbado é essa, tu não cria juízo, já era. Olha pra ti, um cara novo, ainda namora a japonesa? 

- Esquece isso, pequena, fala do bicho.

- Okei. Te digo assim de cabeça. Pra mim Chester não se trata de uma espécie diferente, e sim do modo como o tadinho do frango é criado, numa desgraça do capeta, como tu diz, extremamente confinado, praticamente imobilizado, isto depois de selecionado, escolhem os maiores, a reprodução..., melhor tu não saber, e trabalham nele de modo a ter um peito cada vez maior, e maior, e maior, não sei como fazem, chest em inglês é peito, pai. Triste criação, são uns zumbis, como a maioria dos animais que tu come! Se quer saber mais fale com os caras que produzem, mas não te recomendo, periga tu ficar brabo.

Obrigado, fia. Como vai indo, Ná, ainda leciona? Sim, pai. Claro que leciono, como iria viver aqui?


A vaca da senhora tua mãe continua casada com aquele molengão puto? Sim, paizinho amado. Tu tá com saudades de mim? Tu sabe que tou, pai. Tá bom, vou em junho, mas mande a vaca e o veado sumirem do mapa se não quiserem falecer, ela responde que o Maurício vai sumir, sim, e que ela vai me esperar no aeroporto em junho, beijinhos e tiau.

Então é isso... nessas alturas precisei de dois copos de vinho de gute-gute, pois meu peito parecia que ia explodir, estava crescendo, fiquei imaginando o bicho ali, inerme, inchando, sentia dores de injeção, na asa não, dói!

Dê-lhe drogas na comida dos pobres bichos, pensei. E injeção! Não, injeção sairia caro, é na bóia mesmo. Salvo se o bicho estiver morto, aí só com injeção. Não é possível! A Cris matou: Maurício da Zumbilândia.

A Nadege poderia ter explicado melhor, mas agora recordo que meu amorzinho é vegetariana, pobre da guria, onde fui me meter. 

Bebi mais um quarto do garrafão. Às duas da matina telefonei para a casa da Cris e contei que o bicho se chamava mesmo Maurício Chester de Aragão, mas que era zumbi! Ela respondeu eu não te disse, guri.

Precisava de mais uma opinião. Pá, olhei para o relógio, aqui quatro da manhã, em Estocolmo nove, a princesa já acordou. Telefonei para a Suécia, levei meia-hora tentando me desvencilhar daqueles papos guturais, os nórdicos não falam português, eta país bem miserável, atrasado. Chamaram a embaixada brasileira a intervir, nesta os caras queriam que me identificasse, identidade, cpf, número do passaporte, respondi passaporte nada, otários, estou ligando do Brasil, mas me identifiquei, repassaram para o setor de espionagem da embaixada, imaginei como deve ser a espionagem brasileira e tive um ataque de riso, mas me coloquei em alerta quando disseram que iriam mandar a Polícia Federal me investigar. Babacas ao cubo.

No fim acabei não conseguindo falar com a princesa Victoria, azar o dela, mas deixei recado, todo galante, que por favor mandasse me dizer se o bicho que vestia entre suas lindas pernas, na hora me confundi, esqueci o Maurício Chester de Aragão e pedi que ela me confirmasse se a sua calcinha é vermelha!

Quem souber direitinho, aqui ou nos Esteites, ou na China, ou na Tonga, ou na Monsanto, por favor: mande mensagem para o correio eletrônico abaixo.

salamalaquis762360254230@gmail.com

Agora me deu um frio. Lembrei da conta telefônica. Vou dizer que eles se enganaram, que é o que sempre fazem, sempre a seu favor.

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viernes, 2 de mayo de 2014

Dedo na ferida (sem filosofia, no duro)

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Hoje li umas cem exaltações ao Airton Senna. Nada tenho contra o falecido. Sempre ouvi muita coisa sobre o que representou, e algo me diz que ele sabia, era inteligente e não boboca como os imbecis roteiristas da Globo, nem todos. Eu (o Eu já me parece soberba, mas no meu caso não: o eu é como homem do povo, com consciência de que não sou melhor que ninguém, nem pior), não gosto dessa gente.

Para mim nada representou o gritedo de empurrar goela abaixo, vindo de quem nos rouba, não me comoveu, isto que sou um chorão inveterado, e novamente insisto nada ter contra o cidadão Aírton, o artista do volante de máquinas trilegais morto, como a nenhum famoso de berço bom, tudo na mão. São instrumentos, não são eles que nos roubam. Para cada milhão dado ao gladiador, as aves de mau agouro, de rapina, as ervas daninhas, levam milhares de milhões.

Com o corredor Aírton cheguei a ter grande simpatia, que mantenho, embora ele tenha virado pó por estas e outras da vida: não era dos caras que amam espelho, era sério, um ricaço consciente, neste aspecto avis rara. A grandeza que tinha não residia no fato de ser um hábil motorista rico. Creio que o povo viu isso. Então, se fosse boxeador, ou lateral-direito, teria mostrado a cara, e a alma, igual.

Minha mana me telefonou de Bolonha, na Itália, terra do seu marido, quando ele morreu naquele acidente. Era começo de maio, mas estava um solão em Porto Alegre. Saí do quarto meio tonto, o telefone na sala não parava de gritar. Dez da manhã, meio-dia ou duas da tarde, não sei, atendi e ela dizia morreu, morreu, morreu, e eu de pronto despertei: quem, quem? Assustado, tinha sonhado no dia anterior um sonho ruim com meu primo do Mato Grosso, avis rara, este eu sabia de certeza que era. Agora, logo vai passar no Brasil, agora, estou vendo na tevê italiana, pelo choque morreu, foi muito forte, o socorro está indo atender, mas morreu, morreu, morreu, o Senna, Antônio!

Acalme-se, minha irmã, agora!, e caiu a ligação.

Depois a entendi, deve ser muito ruim a gente em terra estranha ver um conterrâneo morrer sem que a gente possa ajudar. Aqui pode, somos assim, eu no lugar dela também ficaria arrasado.

Fiquei arrasado aqui, pela sua voz e pela morte, qualquer morte me deixa abalado, meu Deus, só vou a cemitério na obrigação, é preciso. Botei um bolero, pedi para as mulheres levantarem, vamos brindar a um ídolo do povo, amadas. Logo elas ligaram a tevê e disseram que não era certa a morte. Mas a mana viu, sabia.

Eu botei outro bolero e disse para as visitas: vou comprar carne para o churrasco. Como estava nu, quase que saio assim, vesti um calção, pequei a carteira e saí sem camisa e de pés descalços para o açougue ao lado, ali na Rua Formosa, elas ficaram lá ansiosas. Saí do apartamento ouvindo as vozes desagradáveis da tevê misturadas com as lindas vozes do grupo musical cantando Reloj, no marques las horas..., do bolero. E o início de choro reprimido das moças. Ao ouvir os chorinhos senti vontade de ser surdo.


Açougue e mercearia. Foi no dia em que procuravam o acertador no jogo do bicho de uma semana atrás, era eu que estava viajando, no número 731. Fiquei feliz. Dez mil, recebi um saco de notas pequenas e muitos cheques de terceiros de um banco de traficantes lá na esquina dos donos de tudo, perto da Paineira. Eu odiava os bancos, e naquela vez tirei o chapéu, os revoltados se organizavam, têm até banco. Não gostei depois, pois ficam iguais aos que combatiam: se transformam em criminosos, como o meu PT acabou fazendo depois, mas isto já é misturar tempos e histórias. É outra história.

Na volta enrusti a grana e depois, enquanto espetava as carnes no pátio, pedi que elas se vestissem e fizessem salada com as batatas que trouxe, ovos tem na geladeira. Trouxe champanhe também. De cervejas a geladeira estava cheia. Embaixo da pia havia 30 garrafas de vinhos, de sede ou fome hoje aqui ninguém morre.


Todas jururu, aí tive que dizer algo, aquela tristeza iria me sufocar, e disse: ouçam, gurias, ele morreu porque queria morrer, enojado de tudo. Poderia ter ido para o seu castelo, com servos, mulheres, mas preferiu se expor, era inteligente demais, queria morrer por ter visto o falso mundo em que vivemos. Diferentemente de outros, que não suportam ficar longe de aplausos de gentes sem tino nem desatino. E acabou ali a conversa.

Então lamento, mas discordo do que se diz. Caba da Peste outro dia lembrou um antigo dito: "Infeliz o país que precisa de heróis", algo assim. Pois é.

Desde que cresci, tinha uns 15 anos, detesto heróis. Pura falsidade. Brigam, roubam, brocham. Ou broxam, os dicionaristas ainda estão pensando. Por mim que briguem ou broxem, o roubo é que me incomoda.

Foi quando vi, aos 15, que depende do berço, pois tive amigos gênios que morreram à míngua pelo berço, ou melhor, pela sua falta. Ora, herói, dirigindo auto, preparado para isso, recebendo vultosos honorários em certo paisínho da Europa para evitar impostos no Brasil, país de alta carga tributária em tese dirigida a melhorar a vida do povo? Autos que os gênios da periferia só podem ver pela Globo, na voz do fazendeiro "Ui, vai Robinho..., vai que é tua Taffarel", aquele merda. Para dirigir um auto, só roubando um fuca, na calada ou na mão grande.

Neste país, até Ronaldão é ídolo. Por jogar futebol é autorizado a dizer besteiras depois que parou. Grande jogador de bola, está feliz? Cala a boca, então, seu lixinho analfabeto, vai pra casa gozar a fortuna. Mas não, os bandidos os buscam e eles vão, rindo, achando que são importantes. Para um povinho cego, são. Mas, cá entre nós, eu morreria de vergonha. São tão desgraçados que não se apercebem da própria pequenez. Sou o cara... E por vaidade, e dinheiro, este nunca é demais, brilham os seus olhinhos de ratos, voltam a foder o povinho inculto. Convertem-se até em legisladores.

Foda-se Aírton Senna. Não a pessoa, acho que era um ótimo cara, mas o que fazem da sua memória... 


Preferiria que o lembrassem como a um irmão, como um maragatinho, que acendessem velas, no silêncio dos sentimentos, sem foguetes de mentira.

Tem até Fundação, onde os ricaços descontam em dobro as esmolas que "dão", do imposto de renda, do nosso.

Fodam-se.

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