domingo, 8 de junio de 2014

Boa noite, Vila Isabel

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Sexta-feira

Nove da noite fui ali no Beco da Morte, no bar do Darci, comprar algumas cervejinhas, 48 acho que dá para hoje e amanhã. Tinha um negão me seguindo, deixei para lá, sei quem é, mal não vai me fazer, não é louco, ninguém é louco, ao menos enquanto eu tiver o 38 no bolso interno do paletó, no lado do coração.

Tem coisas que só acontecem na Cidade Baixa. Na dobrada para o escuro na Lobo da Costa topei com uma bruta cobra com um sapo na boca. Mamma mia. Sapo não, o pai dos sapos, sapão, não sei como entrou nessa fria, ele esperneando com uma perna pra fora, mas não adiantava mais. Deixei-os lá se divertindo, sou a favor dos animais.  Bem que a cobrona podia brincar com o negão, que congelou lá atrás ao assistir a cena. 

No boteco dei de cara com o Bruno Contralouco perdido para estes lados, me disse que estava rondando uma tianga por ali, mulher de um... Pára, Contra, não quero saber. Só ia dizer que o milico anda dobrando serviço com essa história de Copa, Sala, que coisa!, então a festinha vai sair de noite, de noite é muito melhor que de tarde.

Diz que ficou até às oito na sua gráfica lá na rua do Arvoredo, ultimamente o movimento esquentou com a politicalha encomendando santinhos, eles se antecipam, estão há meses em preparativos para entrar a mil no cu do povo em agosto. Saí às oito, disse, porque já tava me dando vontade de errar nas fotos dos caras, botando um jacaré no lugar.

Como sou a favor dos animais, fiquei indignado. Pera aí, meu, bota outra coisa, a cara deles já fica bem, diz tudo. Ele ainda argumentou, mas Sala, esses répteis comendo o povo como quem come sapo, enjoei!


Agora fui eu quem congelou. O Contra é perceptivo, espírita.

Ficamos de tomar uns tragos amanhã, no Beco do Oitavo, teremos cantorias no Botequim do Terguino. Grande Bruno, figuraço.

Voltei para casa, o Cara de Cadela me ajudou a trazer os frascos, 48 cascos pesa. Depois tomei umas seis, entrei no feicebuc, ouvi uns sambas do Antônio Augusto, e comecei a me sentir sozinho. Odeio ficar sozinho. Pensei em abrir o bacalhau que trouxe pela manhã do Mercado Público, mas não é do odor que sinto falta, sinto falta é delas.

Ó vocês, felizes da vida, que saem namorar e tomar uns merengues na sexta-feira, bolso com cinco de cem, que Deus os ajude nessa trama de felicidade e amor.

Eu aqui, snif, de plantão, como todas as noites, sofrendo solitário e imaginando os risos das ruas, dos bares, as músicas que pedem aos instrumentistas e cantores. Não, não estou doente, ou estou, se da cuca, para suportar tamanha humilhação.

Ocorre que minhas mulheres trabalham à noite, das 16 às 4 h da matina, doze horas na batalha, e fico eu encarregado de fazer comida e cuidar dos gatos. Tem nego do outro lado da rua me cuidando, detrás daquele poste, elas conferem. Até as vizinhas, que eram um desafogo para as horas de solidão, elas espantaram. A do oitavo andar uma polaca completamente alucinada, pelos ruivos em tudo, entre as pernas muitos, um tufo, ui, botava a sala em penumbra e dançava se contorcendo com música russa antes de me pegar. 

Pois é, depois de champanhes, delírios, me entreteram no quarto de cá, onde na cama rosa cabem seis delas, mais eu, enquanto as outras duas, Mariana de Rosário e a haitiana Sybille, quebravam a cara da polaca: uma garrafada no rosto, chutes e o empurrão escadaria abaixo. Não morreu mas ficou manca na queda, agora me olha de longe e sai em disparada, manquejando, olhos esbugalhados de medo.  Mulheres...

Bom, hoje consegui fazer oito pastéis para esperá-las. Na embalagem vinda da Romênia dizia que havia meio quilo, a olho vi que tinha uns vinte pastéis. Só saiu oito porque errei nos doze primeiros.

Refoguei o guisado da Mercearia Zaffurtari, tudo embolado, precisei esmagar com uma colher, finquei sal e pimenta, tomate picadinho, cebola e um saco de tempero verde, à parte cozinhei três ovos pra misturar depois, dentro dos pastéis.

Aí lembrei que elas mandaram fazer sequinhos e quase torrei a panela. Como se fosse eu a gostar de lambuseira... deixa pra lá. Derramei uma garrafa de azeite na panela pretona e comecei a função, me cuidando para não me queimar, mais queimado que ando com elas impossível. Gostei da atividade. Eu não sabia, mas tinha uma película de plástico envolvendo cada bendito pastel, fritei junto.

Reclamei na sacada, gritando aos vizinhos, cuidado aí, queimaram plástico, há horas queimam, otários! 

O que faz a bebida. Depois é que me flagrei.

Azar, com oito cada uma come metade. Disso não posso reclamar: metade sempre deixam pra mim.

No fim de semana elas estarão em casa, sábado e domingo, ufa, pelo menos isso. Semana que vem aquele negão vai sofrer um penalti, pra elas aprenderem que ao Sala ninguém prende nem observa.

Sábado

Uma linda noite em Porto Alegre. Saí às três da tarde, quando as mulheres ainda dormiam. Pela manhã ouvi Feitiço da Vila no rádio e saí com uma saudade da Vila Isabel por dentro, do Martinho, de todos aqueles loucos e loucas.

Comprei umas loterias e fiz uma fezinha no bicho da federal, depois dei uma passada no boteco do Darci ali do Beco da Morte. O pessoal queria que eu entrasse numa Vida a cem paus que armaram na mesa do fundo, mas não fui, tenho compromisso, hoje vou jantar fora e dançar com minha amadas. 

Conheço mesa de sinuca, fui profissa, depois de entrar pega fogo, o cara só sai no outro dia, os locos teimam em te deixar ir embora levando o deles. À meia-noite tu ganhou mil, quer sair e não pode, é de lei na malandragem, sair da jogatina ganhando, se os caras querem mais, de jeito nenhum, desmoraliza. Aí tu fica, até eles se pelarem, mas aí já é nove da manhã e perdeste as mulheres, passaram a noite te esperando, encrenca certa em casa, mesmo chegando com quatro mil.

Fiquei de papo com o Contralouco, que armado até os dentes passou na zona para comprar munição de 38. Tomamos umas dez repolhudas. Ele não parava de olhar para a porta, quando me contou que ontem deu zebra naquele seu assunto com a mulher do milico. Bem que o avisei, nisso de pular a cerca de campo alheio um dia a casa cai. Dei um endereço para ele se entocar na Vila Cefer, lá estará protegido até que a tormenta passe, e voltei pra casa.

Apartamento vazio. Na mesa da sala os gatos me olhando e um bilhete: "Salito, a patroa telefonou, com isso de Copa tem uma homarada lá, vamos ter que dobrar serviço. Tentamos te ligar mas tocou aqui, tu esqueceu o telefone em casa". Faltou papel para os beijos de batom, seguiu no verso. Ao lado uma pilha de notas de cem. Na mesa oito gatos, os delas, faltava o meu, o Gatolino, que como eu não gosta de andar em bando, sai muito papinho fútil.


Cadê meu miau?, perguntei. O apartamento às escuras, mas lá de algum lugar, longe, veio a resposta: miau.

Era só o que me faltava, eu e o gataréu, as gatas de verdade no serviço. Mais uma desilusão. Que destino bem ingrato. Ruíram todos os meus planos com as donas. Vou à sacada da frente e vejo o negão lá atrás do poste, no outro lado da rua, se fazendo de estou aqui por acaso. Elas foram mas deixaram o espião pra me cuidar, é hoje que ele vai sofrer um penalti.

Sento um pouco, com o coração aos pedaços de tanta tristeza. Depois sirvo uma losninha, bebo enquanto penso nos passos que darei esta noite. Para espairar boto rodar um samba dos camaradas Acyr, Chiquinho e Mauricio. Com uns caras que gosto muito: Almir e Zeca. Destino bem insensato mesmo.


Dou uma saidinha. Lá embaixo miro o negão se fazendo de salame, bem que me viu. Atravesso a rua, ele tenta sair de fininho mas digo volta aqui, meu amigo, é contigo mesmo. Ele pára. O que tu prefere: um tiro no joelho ou dizer que se distraiu com o acidente de carro ali na esquina? Que acidente?, diz ele, mas logo se tocou, quando eu disse: Bom, a escolha é tua, mas agora não me olhe mais, se olhar o tiro será na cara, o que prefere? Olhou para baixo e falou: não entendi o que senhor disse, eu estava só passando, mas prefiro me distrair com o acidente na rua, um estrondo, os passageiros se machucaram, um morreu, não vi o senhor sair. 

Bom rapaz, ligeiro de raciocínio.

Retornei e servi uma dose porreta de dyabla verde.

Será que ainda consigo uma passagem de última hora para o Rio de Janeiro? Pego o telefone. Ainda hoje, na verdade amanhã, meia noite e trinta descerá o avião, logo chegarei espalhando felicidade, chapéu atirado para trás, exclamando ao chegar no primeiro bar do bairro: Boa noite, Vila Isabel!

Domingo

(...)


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viernes, 6 de junio de 2014

Gatolino à venda

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Não sei quem anda dando mau exemplo ao Gatolino. Uma da madrugada e ele meta a miar: miosna, mioooósna. Brabo, em pé querendo subir até alcançar um vidro de conserva que tenho em cima do móvel dos livros, conserva de losna, com pinga. Vidrão, cabe dois litros. Talvez o verde que baila dentro o atraia.

Tá, vá lá, de pena do pobrezinho de vez em quando coloco uma dose no seu cocho.

Parece que adivinhou que não vai levar, neste instante olha para o meu copo e começa a miar: mieja, mieja, mieeeja... Controlo-me. Pára, meu, que mieja nada, vai comer a tua ração. Mieerda, mieerda... Sei que aquilo é uma merda, mas as mulheres decidiram, come e fica na tua. Amanhã te dou fígado cru, picadinho, escondido delas.

Com essa sede por miósna vai precisar mesmo de um fígado novo.

Não se pode mais nem tomar uma cervejinha em paz, ora, mieja, enquanto as minhas senhoras estão no trabalho.

Vendo o Gatolino, por um real. De quebra o comprador leva, como bônus de gratidão cento e um reais, o um e mais cenzão estalando.

Se alguma mulher o achar, ou ele voltar, o, ou a, adquirente precisa apenas dizer que fugiu, achou na rua e tal, eu fora, nego que tenha conhecimento dessa transação. Simples assim, pegar ou largar.


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Véio Armando

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Prezado Juca. 
Buenas, gaúcho amigo.

Tchê, sonhei duas noites seguidas com o véio Armando. Nas duas sobre certo sábado à tarde, nós dois lá perto da esquina da Santa Clara, pés estendidos em cadeiras num bar da Atlântica, lá fora, só de calção, tomando caipirinha e comendo salgadinhos, bem belos, quando assistimos a um atropelamento terrível, uma vovó levando o netinho nenê para encontrar os pais na areia, e pá, um furgão matou os dois, a velhinha atravessou errado. Meu, nunca esqueci aquilo, até hoje me dói. Paralisei de impotência, raiva, foi na nossa frente e nada pudemos fazer, o véio me puxou, vamos para a água, guri.
Encasquetei com os sonhos daquela tarde. Tu terias o e-mail ou o telefone do Véio? Se tiver me mande. Abraço, Sala.


Buenas, Sala!
Vai o e-mail do véio, não sei se ainda está valendo. Pelo que sei ele está bem. Abraço, Juca.


Buenas, tchê Véio
Se estiver valendo o seu email, espero que sim, para não gastar dedos copio o e-mail que mandei para o Juca.
Viu, eu sonhando?
Duvido que não lembres daquela triste passagem. Lembro também das boas, todas foram boas exceto essa. Mas aí me ocorreu: isso de sonhar... vai que o índio velho tenha me adoecido, ou algo assim. Vou procurar saber. O Juca me disse que ao que lhe consta o senhor (sempre tive problema nessa de chamar de tu ou senhor, releve) está firmaço, mas de todo modo vai este correio.
Saudades. Mande notícias. Sala.



Mas bah tchê, que contato maravilhoso, há tempos que eu não recebia uma mensagem tão legal, ainda mais lembrando das nossas aventuras em Copacabana. Mas cara, tu te lembra, nós com a cara cheia de caipira ainda jogamos futebol na praia e abandonamos o futebol na metade, e voltamos pra caipirinha, que é bem melhor e menos cansativo. Sala, hoje eu larguei ou a auditoria me largou, também já estou batendo nos 80 anos. Pois é, entre futebol, auditoria e caipira, sou mais a caipira.
Mas cara que saudades, e o Café Nice, pena que passou tão ligeiro. Tu piazito lá abraçado com o Jamelão.
Um tremendo abraço e faça sempre contato, ah eu ia me esquecendo, não me trata de senhor, isto é coisa pra velho, eu continuo sendo o “Veio Armando”, e isso de sonhar é alguma carioca querendo cair na tua cama.



Um beijo, Véio Armando querido, hoje dormirei melhor. Outros sonhos. O "piazito" tinha 28 anos, e o senhor, digo, tu, que já tinha uns 90, ahahaha. Acho que a carioca na minha cama quer sair sem nunca ter entrado. O mundo é assim, quem procura acha. Falaremos, agora tenho seu telefone. 
Sala.

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jueves, 5 de junio de 2014

Ingratidão

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INGRATIDÃO



Na minha família era assim: minha mãe, irmãs, depois esposa e filhas, assistiam filmes americanos, de guerra ou sentimentais. Comédias, de tão rasteiros. O personagem principal, em guerra ou apaixonado, bebia garrafas de uísque e saía, gritava de tristeza e solidão, errante, entrava em inferninhos, brigava a socos, matava até - algum mexicano malvado o provocava, o roteiro sempre igual, “sem querer”, porque estava triste, ele tinha um retrato da namorada no bolso. Negros, nos filmes deles, quando aparecia, eu já sabia: ia morrer. O personagem, de mil caras, era um herói, havia matado famílias coreanas, no derrubar a porta de tramela e lá vai granada, o máximo. Isso antes de correrem feito galinhas, Saigon em fogo, este último filme elas não viram, vieram outros esmigalhar suas cabecinhas. Mesmo sendo humanos, nos filmes que elas amavam só tinha galo. Nunca viram um galo, barbelas e penacho, mas achavam que sim.

Elas choravam de compaixão pelo sofrimento do herói, compreensivas, lindo o ator. Outras pessoas lindas se drogavam pesado, um fiasco atrás do outro, segundo as suas concepções, delas, suicídio à vista, e se suicidavam em cocaína, em esperma doente, sangue contaminado, isso a mim também doía, mas tudo era compreensível e desculpável, os sentimentos da pessoa a levaram àquilo, que pena, e corriam a comprar seus discos, quando cantores, artista morto é lindo. Fotos na parede, quando atrizes e atores. No meu aniversário, nem um abraço.

Maravilhoso era o agenciador de meninas para modelos. Querido era o dentista. Os estupradores donos de creches. Os médicos. Em todos meti uma arma engatilhada no rosto, se não elas estariam perdidas. Uns lixos humanos. O estuprador faleceu sem tocá-las.

Amavam Clinton, Xuxa, Maicon Jékson, Roberto Carlos, Menudos e Caetano Veloso. Médici, Collor e Marília Pera. Amavam todos, uma lista sem fim. A novela da Globo, os atores, as atrizes. O contrarregra, a bunda do Roberto Marinho da ditadura. Nem sonham que mijei no túmulo de alguns, madrugada alta, enquanto os guardas tomavam uísque.

E eu, retrato de alma, desarmado por opção, só lendo uns livrinhos, sem alarde, quase escondido. Eu que buscava lenha no inverno congelado, subindo aquele morro íngreme sem fim açoitado por ventania cortante, resvalando sob chuva, dois passos para a frente e um para trás, costas lanhadas em sangue pelos paus verdes no saco às costas. Eu que depois iria me limpar sozinho, enquanto elas se aqueciam ao fogo, esquecidas de mim, eu que mais tarde ouviria as reclamações da mãe, sobre meu pobre pai.

Eu que saí correndo do trabalho, só Deus sabe como consegui chegar a tempo, da Mauá ao Menino Deus, e levei minha menina ensopando minha roupa e minha alma e o táxi em sangue, dela mas meu, era meu, meu, meu, eu que na corrida de volta peguei uma gravata para mentir, e menti no Pronto Socorro que era fazendeiro rico, para que a operassem não importa o preço, eu ira matá-los se não, ah, iria sim, a equipe de filhos da puta era particular, só pagando na frente, emiti o cheque sem fundos. Eu que fui tão sincero depois ao falar com os canalhas: se ela morrer, vocês morrem todos, família junto, seus ladrões. Eu que era ainda um menino. Eu que paguei com vinte férias e vinte 13ºs adiantados aquele preço. Eu que matei um deles, para me defender, o anestesista, desbocado, sujo, que só pensava em dinheiro, violento, mil processos nas costas, eu que o Presídio Central tirou da cena de morte, ele lá, arma de fogo ainda na mão e com a jugular arrebentada pelo meu punhal, porque eu era amigo das horas ruins, de visitar presídios e asilos e tudo de ruim. As noites que fiquei acordado pensando naquilo depois, sofrendo em silêncio, enquanto elas me miravam daquele jeito...

Alguém tocou numa delas? Lá ia eu, sem aviso, noite fechada, conversar com o valente a quem no mês anterior juravam príncipe querido. No Rio Grande do Sul nunca foi difícil. Quando São Paulo ou Rio de Janeiro, tinha de ser de avião. A arma ia de caminhão, um dia antes. Era tocar a campainha, engatilhar e perguntar, com calma, seguro: me conta, seu, que conversa é essa de ameaçar minha irmã, ou minha filha? Os caras ficavam pior que o Maicon Jékson pálido em caixão de ouro de tolo. Salvo duas vezes em trinta nunca precisei atirar, os valentes se modificavam, desculpe, seu, pelo amor de Deus. Aos dois eu até respeitaria, não fossem drogados que reagiram, mandei-os para o inferno. Aos outros, sobreviventes, me dá nojo de lembrá-los ajoelhados, sem coragem de sequer erguer a cabeça e ver meu chapéu a meio-nariz, e mirar meus olhos de nojo de covardes como eles.

Eu errei em algumas, como ao sair de um apartamento desses e no susto, alguém parecia voar em mim, atirar. Era só um maluco que queria me cumprimentar por justiçar os aliciadores de modelos. Errei mas consertei: me atrasei para a fuga, o furgão lá embaixo já acelerado, e o levei para um hospital. Salvamo-nos todos.

Mas não sou santo, e declaro, ante o juízo Maior, que senti prazer num pecado. Pequei, mijando. É quase como um orgasmo, e o quase tem vantagem porque é perene na alma: fazer uma coisa boa sozinho. Nunca intimidar ou machucar as pessoas, o que é isso, Deus nos livre. Mas fazer uma coisa boa sozinho, e nunca contar para ninguém. O contentamento é maior se a gente nunca conta, é único, arde o peito de paixão. Nunca contar. A solas. Eu lá, pulando o muro do cemitério, quatro da matina, e enquanto os guardas eram entretidos com uma garrafa, paguei uma alemoa putianga, ela nunca soube o porquê, para se fazer de viúva chorosa que passava de madrugada, roupa preta mostrando tudo, para dar a garrafa de J&B para os guris milicos da guarda, e enquanto bebiam, ela mentiu que voltaria, eu com a maior calma mijei no túmulo do general torturador, bota mijada nisso, antes me preparei, tomei seis cervejas de 600, saí de lá pensando a cerveja deve ter molhado a caveira do bandido.

Essa foi a única maldade - será que foi maldade? - que fiz, e nunca contei a elas nem a ninguém. 

Eu, o filho, irmão e pai, que tudo dava, a todos socorria, que nem maconha experimentei, que para matar um semelhante só se em defesa delas, eu... ao menor desejo, se fosse ao bar da esquina beber com simples meio-amigos, conversar, ou namorar, aquela moreninha me olha..., acender as luzes de casa, aquele escuro era assustador, tentar viver... ah, não, eu era um criminoso, onde já se viu, seus olhares de desprezo me imobilizavam. Eu que não tive infância, recebia olhares severos se tentasse dançar sozinho em casa, a rumba comendo no apartamento de baixo. Se eu errasse, cometesse mesmo um errinho de nada, esquecer de tirar o lixo, de lutar pela comida, o que fariam comigo?

Soube depois. Queriam que eu morresse. Por quê?  O que fiz de tão ruim, se dei a vida por elas? Algo de ruim devo ter feito.

Por eu ler livrinhos de gregos enquanto elas amavam os datenas da época, ou desfiles de moda? Nunca impedi nem critiquei, eu só queria sair para não ver o escuro e suas predileções. E saí. 

Será que o ódio foi por isso, por eu ter-me distanciado, em sonhos de querer ser um rapaz culto, um pouco, ao menos? Não pode, isso não. Mas recordo que riram muito, zombeteiramente, quanto falei de Kant, eu tentando decifrar. 

Pior foi a mãe, quando dei um tempo nos antigos, saí da Filosofia, da Antropologia, da Geografia, Matemática, História, para mim é tudo a mesma coisa, conexão natural, e entrei no Direito... para mim foi como se estivesse lendo os anteriores, mesma coisa, terminei de ler um livrinho pequerrucho e fui tomado de emoção, corri para a sala e declarei o final: 

"Ocorrendo, destarte, empate na decisão, foi a sentença condenatória do Tribunal de primeira instância confirmada. E determinou-se que a execução da sentença tivesse lugar às 6 horas da manhã da sexta-feira, dia 2 de abril do ano 4.300, ocasião em que o verdugo público procederia com toda a diligência até que os acusados morressem na forca". ¹

Eu chorando, fosse hoje, quando passamos do carbono 14, o autor teria colocado 6 de abril, dia em que mataram o comunitário Jesus Cristo. O ar de desprezo, enquanto pegavam bolsas para sair, me imobilizou, fiquei lá na sala, livro na mão, tremendo por dentro, murmurando “os exploradores de cavernas”.

Aí buscaram moleques fora. Aguentei berros pela suspeita infundada de extraviar um gato, berros ao pai, eu, atrás o olhar mortiço do cúmplice, que odiava a si mesmo desviando ao seu semelhante, esse não importa, mais um, ela sim, dentro de minha casa, um elemento com quem nunca conversei, quereria me espancar? Era crime levantar a voz ao pai, mas aquilo foi pior, traição vil aos berros, com terceiros sem mundo assistindo. A vida cobra caro. O sujeito pegou gosto, gritou, todo macho, gritou comigo, devo ter feito equivalente a ter matado alguém, mas não recordo, nada fiz, para receber algo assim tão grave nem para receber nada de ruim, o que fiz foi viver para elas, ao preço de desperdiçar a minha vida.

Onze da noite e a sábia, só rindo, cantante sob chuva implacável, vento gemendo, numa noite de breu de uma segunda-feira, inverno, solita, cigarro na boca, erguendo a gola do casaco e apertando o passo, uma luzinha cá e outra lá adiante, ela soçobrando à ventania, dançando com um par desconhecido ao se deslocar decidida do Mercado Público para o Chalé da Praça XV, lá fica aberto até mais tarde, tem bebida, se alguém pedir eu canto, depois pedirei desculpas por ter chorado.

Os caras fazem boleros com nome de Insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado, fez chorar de dor, o seu amor, um amor tão delicado..., cantado em espanhol é mais bonito, e o homem lá do fundo, 38 anos, 45 ou 60, solito no escuro do bar, coração em pedaços, pensa e morre em ingratidão e não sabe lidar com isso, uma surpresa horrível, a ingratidão, quando não espancamento moral e físico, o Super Homem se transformou no Pinguim, o Sargento Garcia prende o Tarzan, na sua cabecinha da tevê alienígena. Onde errei?

Filha é complicado. Calma, meu irmão, tudo passa, deixa chover, chuva lava esperma, rostos, tapas, silêncios, berços, fotos, velas de aniversário, sorrisos, sacrifícios, gestos, gritos, gatos, mentiras, fraquezas, lava febre em noite alta, lava a boneca que compraste deixando de pagar o condomínio em segredo só teu, lava tua arma com que a defendeste indo ao ataque, lava sangue, ossos, chuva tira o horror da flor da terra. Chuva lava lágrimas doídas, derramadas sentado na cama no escuro, sufoca os teus gritos de pranto, lava o sal que ardeu na alma, lava noites sem dormir. No fim a enxurrada de lágrimas leva tudo para o fundo, adubo.

Enquanto estamos aqui, sorríamos, de nada adianta fazer diferente. Olhe o céu, vai chover amanhã. Depois da chuva que tudo leva, um dia ela aparecerá, numa manhã radiosa: "Oi, pai, desculpe, vim porque tava com saudade do senhor. O senhor tinha razão, me perdoe”. Até lá já morri! Haja chuva, nunca virá! Eu errei, em viver só para ela, esqueci da minha vida! E agora isto... me forçando a pegar em armas.

Assim me torturei por doze anos.

Elas eu deixei, o outro não. Vou sumir, um dia volto para cobrar o pobre homem, sozinho em rua escura. Estou velho, com sequelas no fígado, câncer recidivo, talvez este agora me vença, sem dinheiro para um exame de sangue, dias contados, uso óculos, mas aí é que ela me horripila, a burrice, a maldade inconsequente, bruta, a falta de livros, a infeliz por quem capei os melhores dias da minha vida. 

Repugna-me o sangue, o meu, que empurrei para dentro daquele corpo. E ao fim e ao cabo, de quem será a culpa? Quem assumirá? 

Eu. Nas ruins eu vou na frente. É de lei.

Foi num desses dias que desapareci. Dormiram e me esgueirei, ganhei a rua e saí correndo espavorido. Já longe, muito longe, no caminho escuro dos trilhos que circundam a mata, parei, abri a carteira, febril, alucinado caí de joelhos na linha, pensei em ficar ali, ajoelhado, esperando o trem passar por cima de mim, mas o que fiz foi rasgar aos gritos doloridos de solidão expulsa as fotos delas, com ódio da horrível ingratidão. Foi a mais velha, foi a pequena, duas de cada, a da mãe. Depois rasguei os documentos, a carteira vazia joguei longe, dinheiro não tinha, eu estava doente e sem dinheiro. 

Como clandestino peguei um trem que passou, depois outro, e outro, e morri para elas. Porém a roda do mundo não roda como a gente quer, tranca quando queremos que ande, destranca quando já estamos quase conformados à paralisia. Milagres acontecem, e aconteceu o terceiro milagre da minha vida: sobrevivi. 

Tornei-me Marion José, mudando pouco a grafia do meu nome, ainda sem saber do Quincas Berro D'Água, nenhuma surpresa tive quando conheci os parentes do personagem, só chorei muito num quarto de pensão. 

Limpei-as, dei comida, beijei-as na dor, acalmei-as em seus desesperos, curei seus males, e elas seguem lá, querendo me matar, matar ao único ser honesto que conheceram. O filho, o irmão e o pai. 

Não vou voltar, morreram todas, exceto as parricidas. Para voltar seria só por um motivo: matar a um moço que levantou a voz comigo. Mas para quê? Para tornar-me, enfim, um criminoso? Sufoco a revolta, tomara que chova, a noite está linda, preciso de água do céu, minhas plantinhas gostam, eu também. Vou rejuvenescer. Nada tenho a cobrar, se me devem. Nada me devem, quito a conta. 

Pensam que estou morto, talvez lancem imprecações aos céus, na falta de uma lápide onde cuspir, me acusando de... não sei. Lamento não poder ajudá-las amanhã ou depois, já estarei em outra.

É noite e a chuva desce forte aqui em Rocha, sem vento, chuva reta, potes, cântaros, derramada, uma delícia, a canção da natureza que mais amo, os pingos me pegam nas pernas no avarandado, deve estar batendo água também em Montevideo. Penso em Ariana Comesaña, que nunca vi. 

Tiro a camisa, medo que acabe logo o concerto de pingos dessa orquestra de amor, e deito no gramado da frente da minha casinha, ao deitar já ensopado, ah, água do céu. O rádio diz que na Argentina é demais a inundação. Alguns pobres morrerão em La Plata.

Soledad Pastorutti começa a cantar, com Horacio Guarany, Nada tengo de ti. A chuva aumenta.

Que Deus me perdoe pela ausência. Que Deus me perdoe pelo que não sei.

Olhando o céu, a chuva quase me cegando, olhos bem abertos vejo o corisco. Temo por elas, tremo de medo. Que o raio caia em mim, agora, mire em mim, meu Deus! Cobre de mim o que me fizeram, liberte-as.

Temo que elas um dia se matem, ao colher.


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(A obra que ilustra o texto é de Nani Lucas, especial para o conto, como todas que bolou para o livro "Um amor em Porto Alegre")


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Coisa de criança

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Tanto o Peco inticou comigo, que o meu pai não tinha cavalos, que por consequência eu não era de nada, que fiquei pensando na minha cabecinha que ele estava me chamando de pé-de-chinelo. Ele ria e continuava zombando. O meu pai tinha só galos de briga.

O Peco andava num cavalão enorme, lindo, do seu Borja, seu pai. Nunca vi cavalo mais alto, até hoje, lindo, eu olhava daqui de baixo aquela maravilha.

Dormi noites com aquilo, um bicho me mordendo, ora me chamar de pé-de-chinelo - que nunca chamou, era o modo de tratar que dizia. Eu era, se o assunto fosse dinheiro, mas essas coisas não se diz, sem saber o valor de dentro do outro ser humano. Coisa de criança.

Um dia, de tardezinha, defronte ao clube União Operária, em frente ao canto do estádio do Esporte Clube Palmeirense, o Peco falou de novo. Aí estourei: eu tenho uma égua que ganha do teu cavalo. Pronto, a desgraça estava feita. Eu não tinha égua coisa nenhuma, tinha galos brancos, prateados e vermelhos, mas só enchi os tubos, encheu, chega. Ele foi para casa buscar o cavalo, atamos a corrida na rua detrás do Palmeirense, onde morava o seu Nelinho, que eu muito admirava, lateral-esquerdo do Palmeirense que um dia vi sair ensanguentado de campo, erguido por homens apressados, antes que morresse.

Eu não sabia o que fazer, e agora? Vergonha não posso passar. E nos meus oito anos de idade desci a rua nervoso, indeciso. Criei coragem e entrei sorrateiro no pátio do tio, lá embaixo, enviesado à casa do seu Chiquito, grande domador, aqui ao lado da mãe do Russo e da Sara, e roubei a égua do tio João Fagundes.

A égua era o amor do tio, ligeira como nenhuma. Abri a cocheira, passei a mão nela, carinho no pescoço, uma mulherzona de assustar, mas ela veio, belíssima.

Saí com ela devagarinho, eu de a pé, sem camisa, descalço, só de calção, puxando leve, ninguém viu. Para não dizer que ela estava nua, tinha um buçal leve, tirinhas, que lhe cobria acima do nariz. Lá dentro, em cima, na casa, a tia trabalhava com uma loja de roupas e costuras, morri de medo que alguém saísse às escadas do fundo. Apertei o passo.

Ninguém viu.

Afastamo-nos, a égua e eu, e lá adiante montei nela. Em pelo. Peguei devagar as rédeas do buçal, e saímos a trote, dançando pela rua de chão batido, a linda e o ladrãozinho.

Quanto cheguei em frente à casa do mudinho Doracílio, que no futuro seria meu grande amigo, na quina de cá do Palmeirense, o Peco chegou com aquela lindeza de cavalo. Encilhado. Enfrenado. A corrida seria curta, até a esquina do União Operária, uns cem metros.

Emparelhamos e ele largou, se vamo!

Lá no União Operária a meninada na rua, esperando.

Vi o lindo cavalão sair disparado. E nós aqui parados, ela e eu. Soltei as rédeas e gritei, e inventei de cutucá-la com o garrão, dos dois lados ao mesmo tempo, peguei nuns nervos e saímos voando. A égua era louca. Segurei-me em suas crinas. Meu Deus, recordei que alguém falou que deitado vai melhor, para não cair, e me deitei feito índio, pernas encolhidas, me firmando com os joelhos.

A égua não corria, voava.

Em frente à casa do seu Nelinho olhei o cavalão e o Peco, ao passar por eles, eu cuidando para não cair, achei que ia morrer a qualquer momento.

E aí a memória apaga. Não recordo se caí, acho que não, se chegamos na frente, ela e eu, ou não. Estou certo apenas de que os velhos não me xingaram forte demais depois, disso eu lembraria. Forte foi, mas não me bateram. Nunca, nem em sonhos, não eram loucos de me ensinar uma coisa e fazer outra. Eram homens de bem. O moleque fez arte, pensaram, disseram não faz de novo e tal, mas no fundo gostaram.

De mim e do Peco, este outro ladrão de cavalos. Coisa de criança.
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martes, 3 de junio de 2014

TEMPOS DE COPA (1) - O gato Felix

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As emissoras brasileiras de tevê, que são mais concentradas - meia dúzia de larápios - que as rádios, embora estas sejam também resultado do roubo dos famintos brasileiros, vide Sarney, aqui concessões também afanadas para políticos, esqueçamos as rádios, um câncer, mas menor, e falemos daquelas, meia dúzia, que atingem a grande massa de zumbis que somos: elas sabem o que fazem.

Morre um Maiko Jekyllson, eca, ou um grande artista, normalmente um produto de sua fabricação, e elas alucinadas, como as rádios, tocam o dia inteiro, e passam todos os dias, levando mais um vil faturamento, o maior deles, na morte.

Vendem discos e o que puderem, com seus associados, e com seus redatores bem pagos, gente do povo, traidores pela comida e piscina, arrancando até a última lágrima e o último centavo do povão, e enojando alguns pelo descaramento. Eu empaquei.


Depois esquecem para sempre.

Povo esquece, para sempre. 

Até completar dez anos da morte, aí elas lembram, o povo milagrosamente também, levado, e faturam de novo, toma bem dentro!

É uma funerária azul.

Ora, lembremos a grande atriz, o grande poeta, o grande cantor, falemos deles nas escolas, para lembrá-los só precisamos de livros e boas escolas, por décadas até o fim das nossas vidas, que a meninada aprenda, não mais, muito menos assim de soco, fingindo sentimentais, para esquecê-los depois. É mole? Vêm como uma tormenta com dentes à mostra, vampiros asquerosos para chupar sangue doce. 

De soco surpreenderão os não lidos, sabem disso, e assim aumentarão mais cem milhões, ou duzentos, de dólares, sangue levado, em seus saldos em contas no exterior, enquanto o povo morre de fome, ou na fila do SUS. O SUS que é uma bela iniciativa, os donos de tudo a odeiam, vai que essa gentalha comece a exigir... o povo esqueceu como era antes, o horror que era antes. Ao tempo em que a direita era o poder, aqueles nazistas hoje levando carona num aécio ou num bolsonaro.

Certo, o Lula é um traidor, isso ninguém, humanistas ou homens de esquerda, discute. Fanáticos todos os lados têm, ninguém liga, não fedem nem cheiram.

Os enojados nem são tantos, os senhores donos das tevês roubadas não sentem vergonha de encará-los, lendo nos olhos do outro o pensamento: seu covarde, ladrão sem-vergonha, traidor. O dono da tevê nem liga, é mais um maluf. Virou coisa normal ser crápula. Nossos artistas, redatores, contistas, atores, precisam trabalhar para comer, e trabalham para eles. E agora? A cadelice de todos passaria, o grande problema é o povo, eterno lixo sem escola, e por isso manipulado como lixo, pior que lixo, este que em certos lugares está sendo reciclado.

Porém o povo, em parte, está mudando, houve um certo reciclamento a partir do momento em que os homens de bem, apesar do Lula e certos elementos, chegaram ao poder. Parte do povo acordou, já demonstra querer imitá-los, aos bandoleiros, e começa a vê-los como concorrentes. Desorganizados, mal armados, alguns do povo assaltam bancos. São homens de bem, não traficam drogas.

E a maior parte, imensamente maior, começa a enxergar. Ainda somos uns 30% da nação, contra 50 de desvalidos (entre estes os assaltantes) e 20 donos de tudo, nestes 20 uns fedelhos e uns 3% que são de fato os donos da pilhagem e lhes fazem a cabeça. Está mudando.

Os energúmenos possuem fila de espera para a tela azulada, a mentira aos analfabetos, de escola ou ética, uma tira a outra; pelo menos uns dez na fila. Se algum teimar, está fora, tem mais nove. O cara da espera talvez nunca pinte no palco para seguir o baile de mentiras, se uma droga de Roberto Carlos viver demais pingando aquela lágrima de laboratório. O que é ruim não morre. Mas a fila para substitui-lo está lá, os donos não se descuidam, o show de tomar dinheiro não pode parar por causa de um mero imprevisto, uma mortezinha.

Alguém lembra dos Mamonas? Pois é, depois do faturamentão pelo triste episódio, já preparavam o primeiro da fila. Era o Tiririca, com a Florentina. Não fosse a tragédia, dos Mamonas ou outro, estaria até hoje fazendo palhaçadas em um circo de cidadezinha, sem jamais namorar alguém de lá, aqui não.

Sabemos no que deu, e em qual circo o Tiririca comete palhaçadas, bem mandado.

Porém há pessoas - atletas, artistas de todas 
 - que a gente nunca esquece, embora os bichos das redes esqueçam por não mais lhes dar dinheiro.

Com dois parágrafos curtinhos, certa vez lembrei Felix. 


Felix não ganhava fortunas, não dava declarações bestas para as suas tevês e rádios; suas deles, né: ele, como tantos, apenas ia lá e fazia o que sabia e o que queria, treinou para isso: tentar defender o gol do Brasil.

Na minha infância, era só que eu queria, defender o Brasil, no gol, na zaga, meio-campo ou ataque. Dinheiro? Só para viver, quem sabe uma namorada e uma casinha simples quando me tornasse homem. Amigos não me faltariam.

Tem gente boa neste mundo. Hoje no blog a milésima clicou pelo Felix. Sei que mil é quase nada, mas quase é melhor que nada. E um dia... os norte-americanos serão corridos a laço, como qualquer outro que venha querer mandar na gente. 

Falo porque, infelizmente, vi.


Hoje dizem que seu apelido era Papel, por sua suposta magreza (nunca o achei magro demais, a julgar pelas fotos), mas na minha infância lá no fim do mundo a meninada  o chamava Felix, o Gato, pela agilidade, a qual imaginávamos em nossos devaneios juvenis, saltando e pegando  lá no cantinho, fechando o  gol do Flu ou salvando o Brasil diante do Uruguay, firmes na voz do locutor do rádio, já que TV era uma abstração de que somente tínhamos ouvido falar.

Em 2012 suspirei fundo e escrevi: "Hoje o Gato Felix (Félix Miéli Venerando, São Paulo, SP, 24/12/1937 - 24/8/2012) morreu. Estou certo de que os meninos daquela época, que ainda moram dentro da gente, também morrem um pouquinho, como ocorre a cada vez que parte um ídolo do nosso precioso álbum de figurinhas, nos quais por vezes a gente ficava meses pifado, morrendo de ansiedade, por uma que nunca vinha".

Dá um abraço no Garrincha e em todos aí. 

Até logo.


 Y así pasan los días.

viernes, 30 de mayo de 2014

Papos de botequeiros sem ter mais o que fazer

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- Estou pensando em me matar. Preciso levar um lero urgente com o tal de Deus, disse Clóvis Baixo.

Para um início de noite de sexta-feira, a turma aperitivando em mesas espalhadas abaixo da marquise defronte ao bar, o assunto foi recebido com risinhos. Wilson Schu, que separava as carnes na mesinha do assador, disse com ar divertido:

- Mas o que é tão importante que não pode esperar mais uns trinta anos, Baixo?

- Seguinte: eu jogo na Loto desde o século passado, talvez desde que o governo inventou essa porra. E nunca nada. Nunca! Certa vez consegui fazer um terninho, deu 27 pilas, mas isso porque comprei o cartão pronto de um cego. Os meus números, nada, nunquinhas. Ora, que a divindade me perdoe, tenha a santa paciência, assim não dá, cansa.

- Ganha quem aposta altas somas de dinheiro, Baixo, grande número de cartões, é matemática, lembra de Análise Combinatória? As probabilidades, malandro, isso de sorte é para iludir os otários como nós. Vez que outra, de dez em dez anos, surge uma cozinheira baiana que pegou sozinha, e isso só serve para incentivar os miseráveis a seguir entregando os trocos para os milionários -, disse Carlinhos Adeva, que além de advogado é um grande calculista. - Como sabem, Direito e Matemática são ciências irmãs, disso eu entendo, eles cravam no rabo do povo usando as duas.

- Se eu pego um cara desses... -, disse o Contralouco.

- Desses quem? - perguntou Ain Cruz Alta.

- Do governo, ora - respondeu o Contra. - Por tabela os milionários, quem vocês pensam que colocam os viados dos governantes lá? O povo? Não me façam rir.

- Vai ter que pegar muita gente... - disse Silvana Maresia.

- Que eu saiba Matemática é irmã da Filosofia, disse o filósofo Aristarco de Serraria.

- Irmã de todo mundo, pronto - falou Carlinhos.

Clóvis Baixo seca a sua caipirinha de vodka, pede outra, e prossegue:

- Vocês sabem que sou crente, nestas alturas acho que fui, eu cria, ou eu cri. Mas estou achando que o senhor Deus fez o mundo - não me perguntem como - e se atirou nas cordas.

- Papo bem cri-cri, disse Ain.

- Quando falar com Ele, não esqueça de perguntar sobre a matança pelo mundo - disse Zilá.

- E onde está o Amarildo - arrematou Cícero do Pinho.

- Nada de cri, assim que é bom, de repente tu cai no inferno, meu chapa, me disseram que lá é muito melhor, tem festa, trago, e cada diabona, tudo pelada... aquelas sim, ajoelham e já vão rezando, eu quando for para o beleléu já vou chegar avisando ao Capeta: cai fora, meu, fique lá no teu canto com as diabas velhas, as menores de 50 agora vão mudar de dono. Vou tomar o lugar daquele guampudo... já no céu as anjas não são de nada, tudo frígida, cheias de nove horas, rezinhas pelos cantos, vai por mim - disse o Contralouco.

Até as mulheres não contêm o riso.

O velho Walter Schiru, que hoje deu o ar da graça, entorna sua dyabla verde e toma a palavra:

- Deus gosta mesmo é dos políticos, lembram, né?, aquele deputado que acertou duzentas e tantas vezes na loteria. É isso aí: antes a gente tem que roubar do orçamento nacional, depois esquenta o capim jogando na loteria, simples assim. Muito tempo atrás também teve um prefeito de Santos que era abençoado.

- Esquenta o capim? – perguntou Cícero do Pinho, ainda novinho nessas gírias.

- Lava a grana, meu, as verdes - explicou Jucão da Maresia.

- Tá, mas diz aí, Baixo, para quando programaste o suicídio? - diz Jussara do Moscão, provocativa.

- Bem, não é pra já, antes tenho que terminar uns servicinhos. Só aqui no bairro tem umas cinquenta tiangas que não, bem, ainda não namorei. Imaginem na cidade inteira. E preciso repetir a dose com as que já frequentei, o negócio começa a ficar bom a partir da segunda vez.

- Mas não vai pegar os milionários e os caras do governo? - espantou-se o Contralouco.

- São muitos, não daria tempo, prefiro um papo com o cara que fez esses bichos, responde o Clóvis.

- Bem, pelo que entendi Deus não tem o que fazer, pode esperar pra te levar pro andar de baixo, disse Tigran Gdanski.

- Se eu pego um cara desses, disse o Contralouco.

- Quem, Contra, Deus? - ataca novamente a profa Ain.

- Deus não, Deus me livre, mas os seus serafins, querubins, enfim, os aspones, essa catrefa que só coça o saco.

O botequim desaba em gargalhadas. Wilson Schu se encaminha ao tonel no meio da rua, vai deitar os espetos. Cícero do Pinho tira o violão da capa, Chupim da Tristeza também desencapa o seu pandeiro, o cavaquinho ainda não chegou.


Na curva da esquina do Beco da Fonte apontam Luciano Peregrino e Lorildo de Guajuviras. No outro lado surgem a doutora Jezebel do Cpers e Nicolau Gaiola, o teatrólogo insone. A noite promete.
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jueves, 29 de mayo de 2014

O Clubeco da Venâncio

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(Por favor, senhor dono, sei que todos morrem de medo do senhor e da PM, eu também, mas não mande me matar, pois fiz um contrato em Jacarepaguá, e estou ficando com raiva, um pecado)

Depois que a Rua Voluntários da Pátria - já sabemos que de voluntários não tinha nada, vai pelear na guerra ou morre, escravo, negro safado - e seus prostíbulos caíram em desuso, surgiu em Porto Alegre o Clubeco, não o antigo lá da esquina com a Getúlio Vargas, de onde foi expulso pelos moradores. Um pior. Mesmo dono, mesmos canalhas.

Com aparência de bar, ou dancing, vá saber, só entrei uma vez para tirar uma amiga que telefonou desesperada, tinha bebido demais e estava sendo fodida à força no banheiro. Cheguei tarde, e ainda tive que me incomodar com os armários da portaria. Odeio bar ou puteiro que tem armários na frente, gente de bem não entra. De outra vez, no Rio de Janeiro, matei os gorilas, um por um, ao cabo de um ano. Eram 12, no embalo levei mais 18. Deram-se mal porque mexeram com minha namorada baiana da Rua Tonelero, que foi acompanhar umas visitas.

Aquilo me tirou do sério. Seu nome era Rosália. nascida em Salvador. 26 anos. Ao final das suas cartas de amor enviadas a Porto Alegre, assinava com um desenho de uma rosa, emendando grudado "lia". 

Quando tentei argumentar com os armários, gorilas, meganhas, os chamo de muitas maneiras para definir gentalha tão violenta quanto os que os contratam, eu indo para cima, iria bater nos três sozinho, um outro deles, vindo de não sei onde, sacou uma arma e me atirou. Eu tinha saído de casa desarmado, nem sonhava com briga. Calibre grosso, um trovão e ela caiu de costas em mim, mole, olhar se desviando, ali vi que morrer parece prazer pelo olhar, mas sei que não é. Pegou-a em cheio no peito, ela que correu com as mãos para o ar vindo para o meu lado, gritando não, não... Ela tinha visto o movimento enquanto os outros vagabundos sujos me entretinham roncando grosso.

Esse matei por último, um tiro no ânus. Dizimei a todos os seus amigos depois, gente boa não era, conferi. Uns 30. Errei, acabei queimando meros conhecidos, eu estava nervoso apesar da aparência fria. Não errei não, não fizeram comigo mas fizeram com outros, as fichas de policiais deles, de abusos cometidos, impunes, iam daqui até a esquina.


É um puteiro da Avenida Venâncio Ayres, Cidade Baixa, Porto Alegre, onde a solidão fez casa, desgraça sem cama de aluguel que se saiba, que fica de alaúza até às cinco da madrugada, todos os dias, com berros e músicas de mau gosto, sons de garrafadas e palavrões nas brigas na saída. Famílias nos prédios ouvindo caladas tudo isso, tapando os ouvidos das criancinhas. É foda. A turma vai pra isso, pegar alguma bruxa ou bruxo da noite, melhor nem saber de onde vem, uma marginália dos infernos, uma foda, uma aids, uma enrabada. Bom isso.

Ao final da orgia, o dono do cabaré vai embora levando o dinheiro, escoltado por carro da Polícia Militar.

Moram longe, esses caras desse puteiro, a casa fica a cinco quadras de mim, felizmente para o dono da nojeira. O que não está certo é os outros bares serem forçados a fechar às dez ou meia-noite, só porque não pagam propina para a Prefeitura e para maus PMs.

A avenida inteira nem container de lixo tem: tudo para o cabaré.

A moçada da Venâncio está se organizando, viu, senhor Prefeito? Não sabia, mesmo sendo algo estampado aos berros? Acredito, se o senhor for mesmo um completo idiota, no que não creio.

Quando vou à mercearia lá longe, e preciso passar em frente, vejo os negão e brancão de preto, gordos, altos, ameaçadores, à porta do puteiro, então troco de calçada e vou pelo outro lado, olhando para o chão. Hoje não, estou desarmado. Tenho minhas razões.


Vai acontecer quando eu quiser.

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miércoles, 28 de mayo de 2014

Ecos da segunda-feira

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Na segunda-feira que passou, dia 26 de maio, como em todas as segundas-feiras, era o dia de “O Boteco Pensa”, no Botequim do Terguino, sessão cultural que vai para o terceiro ano consecutivo. A programação é variável: palestras, música, prosa, poesia, etc., programa que não excede a trinta minutos de apresentação. Às sete da noite já tem gente saindo pelo ladrão, tal o sucesso da iniciativa, para a apresentação das dez, todos querem garantir lugar, embora na hora do show acabem se levantando, se não o palco improvisado fica encoberto pela gentarada em pé.

A noite já começou animada, pois correu a notícia de que à noitinha, pelas seis da tarde, após dez chopes no Chalé da Praça XV, o Sr. Bruno Contralouco entrou num templo caça-níquel e arranjou confusão com os gorilas de preto, pois a cada vez que o pastorgato gritava Desaloja ou Aleluia, o referido cidadão respondia Saravá a plenos pulmões. Onde já se viu isso, atrapalhar a empresa do honesto e amado Edir.

- Me pularam uns vinte, mas na carinha que a mamãe beijou os putos não bateram, eu que arrebentei com a cara deles, ora, que fim levou a liberdade de expressão? – disse o Contralouco ao chegar muito irritado e com o paletó em tiras.

Essa não foi a principal diabrura cometida pelo ilustre camarada, porém a outra não convém espalhar.

Depois homenagearam o boêmio Luciano Peregrino, ausente, com muitos brindes. Logo vieram discursos exaltando vida e obra do grande companheiro, proferidos por Carlinhos Adeva, diretor jurídico do Partido dos Boêmios, e pelo João da Noite, presidente do PB e candidato a prefeito nas próximas eleições (toda a Cidade Baixa entende que a eleição está no papo, não vai dar nem graça, a criançada da zona já nem o chama de seu Noite, e sim de prefeito, e quando João passa na rua em direção ao boteco as famílias saem à janela aplaudindo), por ontem à tarde Luciano ter chegado à tricentésima mulher de político, honra que coube a uma paulista muito gostosa, de um partidário da Opus Dei e, por via de consequência, da TFP. Isso quem diz é o sábio Aristarco de Serraria, a magnífica inteligência que move o Partido dos Boêmios, nós aqui não entendemos dessas nomenclaturas.

Por telefone Luciano tomou conhecimento da homenagem e compareceu ao botequim a tempo de ouvir o discurso do João e brindar algumas vezes, algumas dezenas, pretendia tomar uma taça por mulher, porém refletiu e achou melhor ir de dez em dez. Oferecida por João, pegou a palavra e agradeceu, com sua grandeza de alma humildemente se desfez de eventuais méritos, creditando-os aos esposos:

- Sei que é meio pouco, sabem como é, se tivesse mais tempo teria passado o instrumento num número bem maior de senhoras. Não conseguiria sequer essas trezentinhas sem a ajuda dos esposos, a quem agradeço de coração, visto que dos sete pecados capitais, Gula, Avareza, Soberba, Luxúria, Preguiça, Ira e Inveja, a maioria dos políticos tem uns probleminhas com o quarto, ahn, o quarto pecado, que se reflete no quarto de dormir, bem entendido, sobrecarregando os demais, via-de-regra a Gula pelo sangue dos desvalidos, esta Gula que é irmã gêmea da Avareza e prima da Soberba, esta última que o Contralouco jura que matará sempre que a encontrar pela frente, e aqui peço calma ao companheiro, para não trazermos ao bar a Ira.

Aplausos e vivas. O Luciano merece.

Pelas nove o presidente João da Noite trocou mensagens eletrônicas com um velho amigo, o Papa Francisco, chamando-o ora de Jorjão, ora de Chiquinho e sendo tratado por querido Juanito de la Noche, esse Papa é mesmo sensacional. Chupim da Tristeza foi a primeiro a exclamar: “Diz aí pro véio que tou mandando um abração”, e assim foi com todos, as gurias metiam perguntas indiscretas, que aqui declinamos, porém afirmamos que o Jorjão saiu-se muito bem nas respostas. O Contralouco mandou dizer que é uruguaio e torcedor do Defensor desde pequenininho, isto porque o San Lorenzo, time do Vossa Santidade, caiu fora da Libertadores. O Papa riu da flauta e mandou um quebra-costelas ao Contra, dizendo que andou tomando conhecimento das suas estrepolias, disse bem que faz, meu fio querido, e encerrou convidando a todos para aparecerem no Vaticano para tomar uns mates, mates até às seis da tarde, depois tem a adega atopetada de vinhos de Mendoza. 

O Papa Jorjão, ou Chiquinho, aproveitou para parabenizar efusivamente Luciano Peregrino pela marca atingida, abençoou-o, político tem mais que sifu, e acrescentou que obra grandiosa é coisa de pessoas iluminadas, pois João antes não tinha se aguentado, o boca grande, e contou o grande feito, dizendo das cariocas, pernambucanas, catarinenses, aquela parente do Ribamar, a loura gostosa vice do peemedebê, a petista maluca, as crentes, mulheres do país inteiro, o Papa se finava de rir com os detalhes picantes. Despediu-se, o ilustre homem, recomendando ao pessoal que não abusasse do álcool e não ficasse até muito tarde, pelo que todos entenderam que poderiam ficar bebendo até às três da manhã. 

Pela madrugada, muito depois, quase no fim da festa dedicaram ao Papito aquele samba-canção do Lupicínio que ele pediu, Venganza, pelo qual é fissurado, e Jucão da Maresia cantou, por vezes imitando o Papa na cantoria, quando em Buenos Aires, depois de uns vinhos, cantava assim na sede canônica:

- Mientras yo tenga voz en el pecho no quiero más nada, que clamar a los santos venganza, oh, venganza, clamar...


Na sessão cultural coube ao teatrólogo Nicolau Gaiola e artistas do grupo “Os Perturbados do Beco do Oitavo” apresentarem o segundo ato da peça “Sarney Nu”, inédita, em parcial pré-estréia só para a crítica especializada – os boêmios – escrita a duas mãos, uma de cada um, do Nicolau e deste que vos fala, da qual oportunamente traremos maiores detalhes, mas quem viu diz que é uma festa. 

No papel do Sarney estava o Mirinho, apelido Cu-de-Arrasto, um ator espetacular devidamente caracterizado: baixinho, bigodinho, pince-nez, notas e mais notas de dinheiro saindo da fatiota modelo ano 1.890, todo afetado. Lá pelas tantas surge um enorme negão representando um diabo drag queen com um descomunal membro vermelhão de borracha, as coisas não iam bem para o lado do baixinho. Nicolau disse que está negociando com o Teatro Rival, no Rio, e com o Renaissance de Sampa, posto que as casas locais alegaram estar com o calendário preenchido até 2.040, salvo o Teatro São Pedro, que teria dito que se recusava a passar sem-vergonhices em seu palco, é sempre assim, santo de casa não faz milagre.

Não precisamos dizer quem colocou o belo apelido no Mirinho, não é? Exatamente, o cidadão que logo abaixo voltará à cena. O ápodo veio sob o argumento de que o Miro, atravessando a rua, ao subir na calçada de tão baixinho esfregava a bunda no meio-fio. Cosa de loco.

Bem, acho que dá para contar. A outra diabrura do Bruno não é tão grande para que a escondamos: foi o azarão que deram dois caras de preto, daqueles, que inadvertidamente lá pela meia-noite passaram em frente ao bar. O Contra viu os elementos do outro lado da rua e voou lá de dentro. 

Foi um pandemônio, acordou a Cidade Baixa, o Bloco do Sono, como é chamada a turma dos caras que tem que pegar no batente cedinho no outro dia, saiu à rua, Luizinho da Polaca à frente - da Polaca, sua mãe, para diferenciar do Luizinho Sabão - mas os malandros examinaram a situação e voltaram para a cama ao perceberem que o amigo não precisava de ajuda. Alguns ficaram até o final do show, imperdível, incentivando o Contralouco com gritos de Bravo. Depois de direitas, esquerdas, ganchos, voadoras, os bandidos se quedaram inertes, fluidos vermelhos vazando de seus corpos. 

Uma beleza, segundo nos disse o próprio Terguino Ferro, dono do botequim, o Contra é foda: os dois armários de oito portas, cento e vinte quilos cada um, surrados por um homem só, de setenta e nove quilos segundo a pesagem da semana anterior. Após espancar os pervertidos, o desvairado correu para dentro, entrou na cozinha e pediu a faca de carne do Portuga, pretendia tirar-lhes o escalpo para ficar de lembrança, pendurados na parede do bar, aí entrou a turma do deixa-disso, deu um trabalhão mas foi contido por uns dez companheiros até que se acalmasse. O João ligou para o boêmio Tenente, que estava de serviço, e a polícia militar veio e levou os de preto para a cadeia, acusados de passar na frente do boteco errado, insultar a pessoa errada, ou outra coisa.

Para segunda-feira que vem está programada uma palestra do grande filósofo e pensador Adolfo Dias Savchenko, dividindo o palco com Aristarco de Serraria, que fará as vezes de provocador. Os cartazes anunciam como título "A Torpeza", acreditamos que os políticos terão papel central em sua fala. O boêmio Adolfo que mudou-se para Córdoba, na Argentina, mas que virá para dividir sua sensibilidade e seus conhecimentos.

Até lá.
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