jueves, 21 de agosto de 2014

É vítima, mocinha

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Hoje vi uma moça, jeitinho de universitária, não sei se com ou sem paitrocínio, linda, rosto pintado, erguendo um cartaz que dizia, pera, acho o cartaz:




Nota dez para o cartaz da moça, pela boa intenção. Se estivesse se referindo ao povo da Dinamarca, tudo bem, mas aqui o cartaz comete uma brutal injustiça, fruto da ignorância, no caso tenra ou manipulada, a ignorância. Há muitas, para não falar da minha, que só falo do que vi e examinei. E aqui nada vai em demérito à gatinha, ao contrário, sei que fez com boa intenção, de repente se de milhões saíssemos com cartazes iguais plantaríamos um grilo onde ele é necessário, embora o grosso dos votos estejam em áreas onde jamais pisaremos. Não, nada contra ela, belo gesto, ainda que equivocado. Parabéns à moça.

O probleminha é outra ignorância, esta que traz a marca da maldade de alguns, que marcam os outros como gado: os milhões de pessoas não somos nós, são eles, o conjunto de um povo burro, inculto, sendo forçado a engolir globos e tal, que rindo elege tiriricas e ladrões (ricaços, ou mandados por ricaços) por ignorar tudo, por absoluta incapacidade de pensar, ainda vendendo voto a quilo de arroz. Como resolver isso? Escolas boas, salários ótimos para professores, estrutura, tudo de bom. Oh, uma maravilha, em 30 anos teremos outro País.

O sujeito, a mulher dele, se vissem a menina com o cartaz, e conseguissem traduzi-lo mais ou menos para o seu mundo, entenderiam picas, ela é louquinha filhinha de papai, diria ele, e ririam. À noite contariam aos parceiros na saída do templo do Edil Macedônio ou de outro canalha desses, e ririam de novo. São milhões de risos, refém de patifes pelo desconhecimento de tudo.

Quem decide isso, sobre a ignorância, o orçamento, a roubalheira, senão o Congresso Nacional?, há séculos um antro de larápios e assassinos formam clãs, que são os próprios ou foram eleitos por banqueiros, empreiteiros, estrangeiros, eleitos com os votos do mesmo povo miserável de quem sugam o sangue desde sempre, de pai para filho, sangue de pessoas a quem atraiçoam para ter casa na praia, conhecer Paris, o mundo, desviar milhões para paraísos fiscais. Esse Congresso que jamais permitirá que exista um povo de média cultura e politizado. Logo teremos ex-futebolistas como Darnlei e Jardel como legisladores, como tantos outros do passado e do presente, em todas as unidades da suposta federação, bichos pagos a bom preço por quem dirige o açougue onde os cortados somos nós. Culpa deles? Nada, são mulas, não sabem o que fazem, salvo o engorde da conta bancária. Obedecerão ordens de quem os levou para levar os incautos que os admiravam como... boleiros. Decisões quem tomará serão os mesmos de sempre. Tiriricas são bons para buscar os votos dos seus, que nunca foram seus, maltratando-os.

Os "empresários", ah, engrossou aqui. O fabricante de chinelinhos vagabundos de plástico, onde 70% do custo de produção era a propaganda na Globo e Xuxas daquela merda ruim para iludir ignorantes, se os governantes não abaixassem as calças, metendo no do povinho, ele mudaria a fábrica para o Nordeste, como mudou, onde pode pagar salários miseráveis e ganhar isenções, de modo a ficar ainda mais podre de rico. (Uns buchos e ruins de cama as mulheres desses caras, o que não vem ao caso, nem prima vai).

Pronto, podem tudo. Isso quando não compram, pagando para eleger, um cabritto qualquer. As fábricas de sapatos, oh, houve tempo em que faliram todas... que peninha, o desemprego. Vai ver quanto têm lá fora, em paraíso fiscal? Quem faliu quem? Empresários... E reclamamos quando alguém sequestra ou mata um animal desses.

E todo mundo sabe disso, o fisco, a justiça, os políticos, e os que mandam. Exceto quem? O povinho que engole novelinhas e faustões e sei mais o quê.

Papo antigo este, achei que a moçada, como a guria do cartaz, sabia. Deveria saber, todas as ciências humanas, supunha, trazem economia no caminho do bacharelato, e o ambiente universitário eu cria livre, será que ainda tem censura, ou os professores é que nunca foram à luta e nada sabem do que se passa lá fora? 


O inimigo, o câncer, não é o povinho. O diabo é como sair deste inferno sem que o povo se machuque ainda mais, só cobrando o roubo de volta aos cofres públicos. Bilhões em paraísos fiscais, hoje talvez quase na marca de um trilhão, em dólares, dezenas de orçamentos anuais do país para educação e saúde.

Não há presidente que resolva, refém que é dos bandoleiros. Um privatiza, dando a alma aos inimigos, vendendo até a mãe da gente; outro resiste, comprando inimigos a bom preço para tentar equilibrar a balança, esses, os inimigos, se vendem fácil, mas na hora do vamos ver não vão ajudar, vão trair.

Saia dessa. Dos nazis do DEM e outros bichos menores dá para nos livrarmos fácil, mas e dos facínoras do PMDB, como?

Abre aspas: O Lula poderia, não fosse a Carta de Recife, onde ele e seus fedelhos nos venderam a todos ao adquirir autorização do grande capital para ganhar uma eleição que estava caindo nas nossas mãos, só mais 4 anos e levaríamos, sem negociar com os vilões, ao natural. Ao se vender, jogou pelo ralo 40 anos de lutas.

E agora, de um lado, os inimigos asquerosos, de outro o PT como fortes concorrentes. No meio a Marina. Pois faço qualquer coisa, exceto a que os paulistas fizeram, mas jamais sairei pela direita.

Repito: se eu fizer negócios com um bandido, um traficante, um ladrão, quem mudou, ele ou eu?

Aqui no Sul, ao falarmos de sexo de jumentos com éguas, de onde sai burro ou mula, e o amor não transcorre bem, a isso chamamos de impasse em conversas de galpão.

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miércoles, 20 de agosto de 2014

Por causa delas

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Caros amigos do facebook, hoje é quarta-feira, 20 de agosto de 2014, 17h em Porto Alegre. Estou muito puto da cara. Por pouco não mando metade dos chamados amigos às putas que os pariram, que amigos não são, malgrado os esforços que dispensei.

Para evitar desabafos, falemos de trivialidades, que é só o que aparece aqui. Para aguardar o jogo do Inter com o São Paulo, no Beira Rio, a maioria da turma – uns quarenta dos setenta colorados que são esperados – já se encontra no Beco do Oitavo, por enquanto o chimarrão correndo, somente alguns dão uns tiros nuns copitos de “dyabla verde” (cachaça marisqueira em conserva de losna, como todos sabemos), intercalados com o chimarrão, somente para irem firmando a mão, ao contrário dos demais não bebem de manhã, pois ninguém quer se estragar antes das 22h, horário do jogo.


Como comecei a tomar umas e outras ontem, chateado porque discuti com as mulheres e resolvi dar-lhes um susto, me sumindo de casa, deverei apagar ali pelas 20h, horário em que os boêmios começarão a assar o churrasco no meio da rua, com cavaquinho, dois violões e muitos couros alegrando o pessoal. Perderei o churrasco e o embate entre esses dois grandes clubes do Brasil. Por mim que clubes e atletas abichem, que se fodam, ganhando 300 ou 500 mil por mês, que enfiem no rabo.

Elas hão de sentir o quanto dói uma saudade. A estas horas já foram para o trabalho, pintadas, salto 20, fingindo-se de felizes. Voltarão para a nossa casa pelas 4:30 da matina, o expediente termina às 4, mas não pretendo aparecer em casa, isto só depois de se matarem me telefonando, implorando por tudo o que é santo. 

Engraçado que nenhuma telefonou ainda, será que fui eu quem deu mancada? Não pode, ontem perdi a paciência, mas só dei um tiro no dono da boate onde elas trabalham, em seguida Mariana de Rosário e Frida Von Allenborn ficaram na frente do miserável e voaram em mim, me abraçando, não pude queimar o cara com mais alguns tecos, e ainda por cima errei o único disparo, era para pegar nas fuças e só arranquei uma orelha do bandido. Elas querem o quê? Ele que me aguarde. Ufa, falemos de coisas agradáveis.

Ah, aos amigos do Paquistão: chimarrão é algo que nós gaúchos chupamos numa cabaça oval... não, não é isso que vocês pensaram, isso também, claro, ahn, começo de novo: enfiamos na cabaça até o fundo um negócio duro, de aço ou latão... tem também um montinho em cima da cabaça... não, ah, procurem no google, a losninha já me pegou, tem algo a ver com erva, não aquela, outra. 

Pensando bem, vou dar uma banda pela Rua João Alfredo e às 4h estarei em casa. Se não me tratarem bem amanhã mesmo me mando para o Rio de Janeiro. Homem sofre, porém sei que nada melhor que um dia após o outro.

Por que não telefonam? Por quê? Bandidas, não têm sentimentos, putas, querem me fazer chorar. Vou telefonar para dizer-lhes umas verdades e mandar arrumarem as minhas coisas, hoje mesmo caio fora, para me verem terão que me achar no Rio, duvido que consigam. Ué, achei a arma no bolso de dentro de lá, sobre o coração, normal, mas no de cá ao tocar senti o objeto diferente, tiro, é o telefone roxo da vizinha polaca do sétimo andar. Cadê o meu telefone? Ai, meu Deus, vou já para casa.

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NE: Camiseta do Internacional, ilustração da internet, de um popular qualquer na praia de Copacabana.
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sábado, 16 de agosto de 2014

SAN LORENZO DE ALMAGRO: ¡Yo a vos te amo, Ciclón!

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"Tantos años de espera valieron la pena para que estas lágrimas derramadas intenten describir esta noche histórica, emocionante e inolvidable.
Quisquillosa, esquiva, histérica. Bienvenida a Boedo.
¡Yo a vos te amo, Ciclón!"

E O PAPA PAPOU

No Brazilzil a Grobo passa ao vivo até torneio de cuspe em distância nos EUA, seu patrão, e nas Oropas, por contratos do chefe.

A Libertadores de America nunca foi considerada, mesmo sendo a competição mais emocionante do planeta, depois da Copa do Mundo, salvo se tiver clube brasileiro no confronto, e nem sempre, se o clube brasileiro for gaúcho, por exemplo, os patifes desconhecem: em 1983 não passou nenhum jogo, nem mesmo a decisão, quando o Grêmio sagrou-se campeão do mundo num jogo que parou o mundo e imortalizou mais a camisa tricolor. Aqui a sua filial RBS transmitiu, só para gaúchos e catarinos, o resto do país, a depender deles, nem ficaria sabendo, mas ficaram no dia seguinte, isso ninguém controla, como poderiam controlar com aquele timaço acendendo o rastilho e o Renato explodindo? Futebol é diferente de política, daquele o povo gosta desde criança.

O mundo inteiro reconhece o Grêmio de Porto Alegre. Certa vez me surpreendi num documentário sobre o Afeganistão, em primeiro plano o narrador da TV norueguesa num campo devastado de bombas, falando agitado, e ao fundo, passando, olhos assustados, um menino com uma camiseta... do Grêmio. Alguém deu algo que amava ao menino refugiado, e ele, como todos ali, sabia muito bem de que time era - um campeão do mundo lá do sul do mundo, um lugar imaginário, com comida, sem bombardeios ianques, sem matança desenfreada, com escola para frequentar, com família tranquila -, uma relíquia aquela camisa, senti no ato que deu-lhe esperanças de uma nova vida. Tenho certeza de que ele sobreviveu àquele inferno.

Naqueles tempos, depois, quando o Grêmio desfalcado perdeu um mundial, seria o segundo, quem não lembra que o Felipão ainda começando a ser técnico, enrubesceu e, coagido, foi obrigado a dizer umas verdades, no ar, na tevê, na cara de um velho que eles tanto exaltavam, que empurravam como poeta para vender jornal e papo mole na sua rede, mas que não passava de um bobalhão que mal sabia juntar letras, aquele Armando Nogueira, que já morreu, está gravado. 

Aqui no Sul tinha um tal que o imitava, nesse joguinho de tu me elogia que te elogio também. Professor. Imagino os cérebros que saíram da faculdade com professores assim. Quem não lembra do Cid Moreira, aquele vendido, lendo notícias contra nossos times e todos que não fossem do Rio e SP? Para não falar no amor à ditadura assassina. Era pago para isso. Está rico, como seus chefes? Do quê? De dinheiro, ah, sai. Covardes.

Com o Inter foram forçados a passar em rede nacional, FIFA em cima, pressionando, então passaram, mas torcendo contra, como aliás torceu contra toda a imprensa paulista e carioca (a imprensa, não o querido povo paulista e carioca), e atolamos no Barcelona, então tido como seleção do mundo. Um bailado inesquecível do Iarlei.

O resto do Brasil torcia por nós, são brasileiros, e o grito de emoção que se ouviu quando Fernandão levantou a taça começou no Amapá, inundou Roraima e veio descendo, engrossando mais em Goiânia, e se veio, por cima deles até o Chuí.

O Papa Francisco festejou, feliz, o seu CLUB ATLÉTICO SAN LORENZO DE ALMAGRO, azul e rojo, levantar pela primeira vez o título de Campeão da América. O Chico não assiste à grobo, não é loco, viu pela tevê pública Argentina, o governo pagou para todos assistirem de graça todo o campeonato, para que o povo não ficasse à mercê de ladroezinhos.

Agora, aqui fico na torcida para que o San Lorenzo ganhe o mundo, como aqui já ganhamos, só com dois grandes clubes, duas vezes.

Desde el Sur.

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NE: A frase inicial, entre aspas, é do site do Club Atlético San Lorenzo de Almagro.

NE2: A charge é do artista Frank Maia, do jornal A Notícia, de Joinville, Santa Catarina, Brasil.


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Exorbitante

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Por Alex Moraes*

não me foi dada nenhuma originalidade
não sou único
não surpreendo sozinho
tropeço entre análises
inconclusas
se bem que.

auto-análises
confusas, despencadas por
falta de nexo e parâmetro
à espera da batuta alheia,
não a de cualquiera,
sim a de quem escuta
bem arraigado
minha profusão de banalidades

não posso ser crítico
assim, quietinho,
na minha
sem a batuta essa
que enraíza a torpeza
numa ontologia vivaz.

desorbitado, petulante,
exorbitante, pretensioso
o que eu quero mesmo é
pensar-me através de todos
é salvar-me através de todos
(ou morrer nas suas mãos)

quero que as assembleias gerais
de estudantes e trabalhadores
modulem minhas sinapses
me infundam razão


* 
Alex Martins Moraes (foto à Carlito Gardel), 15/06/1988, poeta, gaúcho de Porto Alegre, é homem de Ciências Sociais, com ênfase em antropologia. O Rei da cidade de Porto Alegre. Hoje em doutorado em Buenos Ayres.

(roubamos, na maior cara de pau, sem pagar direitos, o poema do seu blog Porta Prosas, e roubaremos mais)


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viernes, 15 de agosto de 2014

Quando virei só um retrato

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Entrei na toca da onça. Pintora, sobre isso nada havia me dito. Correu no espaço de luz azulada, telas com pessoas nuas, muitas telas, armou uma luz branca em minha direção e disse: vou te pintar, tire a roupa da cintura para baixo, sapatos e meias também. Epa, a onça é louca, quer me ver nu assim em frio, nem beijo me deu, mas, bêbedo daquele jeito tirei, de lado, um tanto envergonhado, não tenho pau grandão molinho, nem grande duro..., um pudor bobo, a mulher apenas tem manias, louca, vou nessa..., tirei a roupa pensando é para já que ela tira também. 

Em dois tempos tinha a tela onde iria me retratar pronta, e a ela correu alucinada, atirando cores, logo desenhando, pintando, misturando tintas, parando para me olhar, eu só com chapéu, camisa, gravata e paletó. Parou o trabalho: tire em cima também, o chapéu não. Tirei. Agora recoloque o casaco. E lá fiquei só com o chapéu e o paletó azul no corpo, o paletó aberto na frente, como ela ordenou. 

Ela lá longe, uns oito metros, com luvas e tintas, águas, agitada, mexia nuns vasos, panelas, potes, tirava as luvas, voava com as mãos cheias para a tela, ansiosa me olhando, lavava as mãos, recolocava as luvas, em alguns momentos se jogava furiosa na tela que eu não via, logo ela própria estava pintada de muitas cores pelos respingos da orgia: cinza, preto, gelo, marrom... Vermelha na boca, parecia um vampira dessas de cinema, com os olhos faiscando. A mulher é bonita mas é louca, pensei, sempre quis ter uma, uma louca com quem eu pudesse ser eu, e peguei a garrafa ao lado das almofadas e a esvaziei bebendo no gargalo.

Pare assim, com a garrafa erguida! Parei.

Eu só queria transar com alguém, qualquer uma, ela ou qualquer outra. Qualquer uma também não, ela tinha aqueles olhos especiais que não desgrudavam de mim no bar da Rua da Olaria, olhos iguais aos meus, os dela soltando chispas. Com tantos homens de pau duro lá disponíveis, com sorrisinhos e musiquinhas da moda, que a abordavam de dois em dois minutos com essas palavras comuns que funcionam, ela olhava só para mim. A noite toda, eu não queria pegar as bruxinhas da noite, prefiro me masturbar a pegar, e ela não me tirava os olhos. Pegou-me. Que diabos essa doida viu em mim? Estremeci quando com um leve sinal de cabeça me convidou a sair. Vamos para a minha casa, meu estúdio, disse rouca ao nos encontrarmos na saída.


Vai mais para perto, disse me orientando com os braços, deite nessas almofadas. Agora vire para cá, de frente. Logo quando eu começava a ter uma ereção pelo jeito dela se mexer daquele jeito. Havia tirado o casaquinho e a saia, ficou lá de salto alto, calcinha e camiseta. Eu via seus seios pela camiseta branca, mulher de pele branca mas passaria por negra ou morena, como passou na penumbra da boate, a calcinha preta, olhos pintados em preto, carnuda, por alguma razão me pareceu doce, de algum modo crua.

Vire o quê?

A bunda.


Como?

Mostre a bunda, por favor, não me impeça, eu preciso...

Ah, é assim? Mostrei a bunda.

Alguns minutos e perguntei: vai demorar muito, madame? O madame de ironia. 
Não sei, vai, mais uma hora, talvez menos, não sei, não fale comigo, me atrapalha. Agora vire de novo, abre bem as pernas, esticado, agora dobre um pouquinho, mais para cá, assim, o pau ao lado...

E de súbito, quando eu me virava pela décima vez, gritou alto, uma coisa que saiu de dentro: tem medo de altura. E seguiu em fúria sobre a tela. Bebeu mais do que eu, pensei, adivinhou que detesto altura, odeio, é horror dentro de mim, trauma de infância.

Não me oferece mais uma bebida, não me dá um beijo, moça?, arrisquei.

Não... não sei, fique quieto, depois..., preciso terminar. 

Aí meti a mão no bolso de fora do casaco, peguei um cigarro, o isqueiro e acendi. Ela paralisou: Não pode fumar, não pode, e começou a chorar.

Vesti-me com pressa, as calças, enfiei os sapatos, só deixei a camisa, a gravata e as meias, ela ainda paralisada, pranto ensopando o rosto, mão com o pincel no ar, vi que tem mesmo um belo corpo de mulher, média e valente. Caminhei até a porta do estúdio que dava na rua.

Ela enfim correu e me segurou, onde vai? Vou fumar lá fora, se aqui dentro não pode, moça. Afastei-a com a mão enquanto saía. Mal sabe a mulher que cansei de tudo.

Está bom, disse afogueada, vou aproveitar para aumentar a vermelha, mais rubra, sim, carmim, e sumiu lá para dentro.

Enchi disso. Passou um táxi e acenei por acenar, na dobrada da outra ruazinha os faróis me pegaram em cheio. No fundo queria voltar, gostei dela, não sabia o que fazer. Antes de sair do umbral olhei para dentro, vi a tela por um espelho que tomava toda a parede de lá.

Não gostei do meu retrato que ela pintou, não era um Dorian Gray mas tinha uma coisa ruim nos olhos, no jeito, no ar. Ela não me ama, procura um amor que não existe, como eu procurei. 

Entrei no táxi e pedi que me levasse até a ponte do Rio Guaíba. No meio da ponte paguei e o dispensei, o cara me disse são três da manhã, meu, tem certeza de que quer ficar aqui? Sim, vou ficar aqui. Dancei na pista, por milagre sem movimento algum, um silêncio... Ao longe risos de alguns pescadores de um barco que passava, bailando mirei a luzinha sumir em direção ao Gasômetro.


Fiquei sozinho, subi no parapeito, medo de altura, olhei o rio lá embaixo, peguei a arma do bolso de dentro, revi a minha vida que ela pintou não sei como, era feia mesmo, ensaiei um passo de dança, deu certo, saltei e me atirei na cabeça enquanto voava.


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martes, 12 de agosto de 2014

Verás que um filho teu (1/5)

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Em espanhol saio com as brancas: 1. P4R, P4R 2. P4BR, PxP 3. B4B, D5T+ 4. R1B, P4CD 5. BxPC, C3BR 6. C3BR, D3T 7. P3D, C4T. Já perdeu, esta foi de amador. 8. C4T, D4C 9. C5B, P3BD 10. T1CR! Te peguei, filho da puta, ... PXB 11. P4CR, C3BR 12. P4TR... Encurralei o bandido. ... D3C 13. P5T, C4C. Diabos, estou repetindo a Imortal. Se eu tomar o partido das negras na jogada 19 a coisa pode mudar de figura, no fim acaba dando empate. Não fosse a bobagem do sétimo lance. Assumo as negras, Kieseritzki que me desculpe: 19. ... D7C!

O outro tabuleiro, o outro, o outro, arrá, senhor Kasparov, cedendo o empate, apertado de tempo, não é, meu?

(...)


É madrugada e chove, chove, chove, em Porto Alegre. Ando excitado, vi uma mulher na vidraça embaçada. Meu amigo, passo a contar coisas do meu dia a dia, não todas, talvez os antigos sonhos que povoam meus dias e minhas noites, talvez cenas que hoje revejo com os olhos arregalados. Aconteceram mesmo? Estou vivendo em vão? Não sei. Ouça-me.

Quando entrei no armazém do lado, pela enésima vez eles pararam de falar. Novamente o silêncio gelado, de provocação. De soslaio percebi o ruivo barbudo me indicar aos outros com o queixo, troçando. Como sempre, fingi não notar e pedi a comida e a bebida que preciso, estendendo o rol que o funcionário conhece. Enquanto o homem descia as garrafas de conhaque da parede, olhei para fora, absorto.

Aves de rapina! Se o animal tenta fugir ficam torcendo para que morra, querem que desista da fuga, que volte a habitar o cemitério de vivos ao qual pertencem. Aguento porque não gosto de supermercados. Raramente acontece de algum desavisado continuar falando, quando isso ocorre os meus ouvidos captam comentários esparsos, sobre futebol, política, amor e morte, mas apenas fragmentos: procuro me concentrar nos mantimentos que compro. Com eles, as palavras que uso, em geral, são monossílabos, "Obrigado", "Sim", "Não", "Desculpe". Um dia rugi um "Me deixa". É o suficiente para mantê-los afastados por enquanto. Sinto no ar a revolta contida, pronta a derramar, sei da inveja que corrói seus corações. Esperam que o "diferente" cometa um deslize. Mas sou controlado, meu amigo.

(...)

Marion,

Não gosto não é a expressão certa: você odeia supermercados, o luxo, o supérfluo e, admita, os donos. A insanidade de pretender desembarcar desta nave nojenta requer muito cuidado, com a turba sufocada. Você tem razão, a corja de dirigentes nunca ligou para gente como nós, perdidos que somos na multidão de robôs. Com intrometidos comuns não precisaram sequer gastar uma bala, bastou uma ordem para que nos relegassem ao esquecimento. 

Por falar nisso, lembre-se de que você não é mais primário. Onde já se viu chamar juiz de safado, capitalista de corrupto, senador de sonegador (observe que rima), em plena ditadura militar! Seu palhaço, a grande máfia não liga a mínima se você existe. Esqueça isso. O perigo real, físico, vem das sarjetas, dos lobos famintos que espreitam a sua solidão. A sua inconformidade os ofende. Muito cuidado.

(...)


Este conhaque parece água. Qualquer dia destes, quando as equações se revelarem, vou comprar um vidro estrangeiro para comemorar. Ahahahahah...

Eu sei que é covardia / cinco contra um não acontece / liberdade / liberdaaaaade / ainda que tardiaaaaaaaaaa.
Eu sei e superei / isso é tudo lo que quieren de mi / ao deste bolero plagiado, um sopro... loirinha tesuda, sem fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.

Eu canto bem, eu canto bem, eu canto bem! Ahahahahahahahahah...

(...)


Escastelado neste décimo andar, bailando no Lumiére de Piazzolla, reflito se não é o caso de adquirir uma arma. A ti confesso: tenho medo. Creio ser uma boa idéia, outro dia planejo como chegar nos arsenais do câmbio negro. Por ora preciso obter cigarros negros, cansei de fumo em rolo, aqui só temos rubios.

Ah, hoje à tarde encontrei de novo a loira boazuda no elevador. Só nós dois subindo. Parece que continua com medo de mim. Antes apanhei a correspondência na caixa, vi que ela espantou-se ao me ver recebendo cartas. Certa vez colei o ouvido a sua porta e a ouvi falar ao velho: "Esse aí da frente é um pobre coitado, não tem ninguém no mundo". 

Só podia ser a meu respeito, é minha vizinha de frente. Isto porque vão muitos anos desde que evaporei. Sumi. Não ouço rádio, não leio jornais, não vou ao cinema, enfim, desliguei. De televisão jamais gostei, nunca tive. Não sei nem quero saber o que se passa no mundo. Durante estes anos por duas ou três vezes fui assaltado por uma terrível vontade de retornar. Passou.

Tintim. 1. P4R, P4AD; 2.C3AR, P3D... Desta vez eu o pego.

(...)


Marion

Estou muito aflito com essa repentina insegurança. Suportou até agora, não pode soçobrar. É loucura, meu caro, pensar em voltar a ler as opiniões sobre economia expendidas pelos Chacais (o Delfim ainda está vivo, e é camarada da esquerda...), ou a saber das versões que sobrepujam os fatos, ou das caixinhas de sonegação (ahahah), esta é boa. Lembra?, elegiam com o imposto sonegado, mais o dinheiro roubado, depois roubavam e sonegavam mais. Lembra do assassinato em massa promovido por fluticolores redes televisivas? Lembra que as pessoas de mediana cultura desconheciam tudo, à exceção do vil metal? Pois então sente-se para ver o que direi: agora piorou!

Hoje minha carta será mais longa. Que tal discutir o seguinte:

Você já chegou realmente a sentir satisfação com algo que tenha feito, a não ser o prazer dos sentidos? Que saudade é essa? De ter que adquirir conhecimentos que vão se perder no primeiro acidente de automóvel ou na primeira parada cardíaca? De vestir-se como os outros, à americanês, para não ser segregado? De ter que comer as mesmas comidas na mesma hora que todos? De cumprir horários para proporcionar maior gozo a um tubarão? Saudade de ser compelido, primitivamente, a crer em deuses, para encher os bolsos de alguns ou amenizar o medo de outros? De ter de se casar e criar filhos, de construir um futuro imaginário, para que mais tarde os filhos se matem pelos seus bens durante o velório, enquanto a companheira dá a bunda para outro qualquer como se nunca tivesse conhecido o sempre lembrado?

Sente falta das regras de bom comportamento, de moral, de ética, que não são observadas por quem as apregoa e exalta? Esqueceu que a organização da turba foi inventada por seres que representam tudo aquilo que nós, humanos, temos de pior, pelo triste substrato material? Quer viver mentindo aos outros e a si mesmo, admite ser mais um indivíduo vulgar, mesquinho, hipócrita e canalha? Quer pertencer a um grupelho que aspira chegar ao poder como meio de justificar a selvageria, depois tornando-se igual? Quer voltar a ver possíveis Chopins, Beethovens, Piazzollas, pensadores, talentos, morrendo de fome pelas vilas de miséria pelo simples motivo de terem nascido do lado errado? Quer dizer que você é pequeno assim, covarde assim? 

Não, você não é. Você e eu somos livres. Acho mesmo bom que compre uma arma. Sugiro uma metralhadora curta e algumas granadas, não se preocupe por não saber manuseá-las, você é foda, energético, aprende usando. Só não se suicide, não dê esse gosto.

(...)



43. P8C=C++. Ganhei, ganhei, ganhei! Liiiiiiiiiiivreeeeee, nasci como a brisa... Eu bebo de manhã! Eu bebo de manhã! O conhaque é meu e faço o que quiser, derramo na bunda, não é da conta de ninguém. De ninguém!

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viernes, 8 de agosto de 2014

Mamãe me ensinou a rezar

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Mamãe me ensinou a rezar antes de dormir. Eu, que não creio, obedeço.

Senhor

Primeiro desejo que as crianças assassinadas na Faixa de Gaza estejam em seus braços, meu Pai. O Senhor as cuidará, e jamais as esqueceremos. Hão de se juntar felizes às que morrem de fome na África e em muitos lugares do mundo, sem que o império mova uma palha, lá não tem petróleo. Não sei se ainda bem, pois se tivesse talvez fosse pior.

Guarde-as todas, Senhor, qualquer que seja o seu nome, entidade maior de todos os humanos, e castigue os malvados que cometeram esse horror, os nomes o Senhor sabe, todos sabemos quem são os assassinos covardes. E faça isso logo, porque o estou achando muito atirado nas cordas desde que o mundo é mundo.

Voltando aos criminosos em evidência: nas voltas que a vida dá, estariam se vingando de atrocidades que o Senhor permitiu, logo em cima de quem nada lhes fez além de briguinhas porque lhes tomaram as terras a pau, eu também reagiria, ora. Estariam querendo recuperar Hitler e sua imensa turma, nove décimos da Alemanha, por pouco o Brasil não entrou nessa pelo lado alemão, que não estariam tão enganados assim no horror que cometeram?

Estão justificando matanças? 

Na cara do mundo, planejadamente, estão tentando exterminar não uma tribo, e sim uma histórica nação, pelos planos de poder dos EUA no Oriente, na cara do mundo que finge que não vê, pois a ONU é uma cadela dos EUA, e mesmo essa cadela, por alguns funcionários, está aterrorizada. O Brasil saltou, com nossa presidente, criticou fortemente, a Argentina idem, pela sua presidente, e muitos outros países também, mas quem vai parar o genocídio?

Eles que continuem, com a sua permisssão, mas que vão arranjando bunkers, porque chegará o seu dia, e suas mortes, de todos os bandidos, jamais pagarão o assassinato de uma só criança inocente. E a maldade recairá, em vingança, sobre os descendentes que nada fizeram, e a roda do mundo segue, inexorável, em banhos de sangue, na vingança do outro que se vingou, que se vingou... Malditos americanos.

E o Senhor, o que anda fazendo, que mal pergunto? Ora vai aplicar em outro, dia destes mato um padreco, mais um, aliás, desses punheteiros e estupradores.

Os pedidos que eu faria hoje eram muitos, para levar de novo o Coberto Ralos - me faltaste naquela vez que pedi, há vinte anos, e os sertanojos, bah, um monte, mas diante da seriedade do primeiro pedido encabulei, podem esperar. Até porque daí não sai nada. Ah, ameaçam a gente de morte, o Deus vingador, ora vai à merda, estou tremendo de medo.

Assim seja.
Obrigado, dominus vobiscum, blá, blá, blá, vê se se mexe. Et cum spirito etc, tou caindo de sono.
Amém e Saravá. Eu ti amo.

PS: Aquele papo me tirou o sono, fiquei meia hora no escuro e nada. Os pastores da tevê nós mesmos cuidaremos, com faca cega, viu, para doer, se o senhor não se importar. Não será fácil, os bichos andam com arsenais em seguranças mal-encarados, mas somos do bem, deixa comigo, em último caso apelaremos para a ignorância com tiros dundum de dois km, na cara dos filhos da puta, se puder mande um Anjão ajudar, um anjão brasileiro, pois estou por aqui de porcarias que o império me finca, uns cagados que só são bons em filminhos nojentos.
Ah, ainda, se o senhor puder avise às minhas mulheres para ligarem seus diabólicos telefones, senão terão encrenca feia às 4:30 da matina, queria avisar a elas que a polaca do oitavo andar está se mudando pra cá, vamos nos apertar, mas a festa vai esquentar, pela conversa que tivemos antes, ela anda bem loca, achei que era por mim mas é por nós todos, iremos juntos à missa de sétimo dia do milico. Spirito tuo. Saravá de novo, Amém. Eu ti.


PS2: Tá difícil, agora é uma gata de rua chorando, corro lá para ajudá-la e ela some. Se der, destrua a Europa e os EUA. Eu ti e Buuuu pra ti, que é pra mim, que ainda ouço tolices.

jueves, 7 de agosto de 2014

No sacrifício dos extremistas, urrú!

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Amada filhoca, hoje pela manhã fiz a mudança, enfim, saindo para sempre do covil defronte ao cemitério para um abrigo mais ameno. Abracitos a ti, querida, aí no matinho. Destrua os chips dos telefones, compre outros, três, eu acabei de fazer o mesmo, alguém passará aí amanhã e te dará um número sem conversa.

Aqui tudo certo, só rotina. A mudança nada teve contra os mortos, amados, não fazem mal a ninguém, estão noutra, o medo é dos vivos. Uns que se acham muito vivos, são traiçoeiros pela brutalidade das almas, alguns nem é falta de escolas, lembremos que Hitler, Netanyahu e outros tantos tiveram boa instrução.

Desejo felicidades aos vizinhos que ficaram em outro tipo de sepulcro, agora podem falar mal sem o perigo que antes corriam, pois eles me fizeram ficar perigoso, muito perigoso, tudo o que eu não queria. Eu só queria viver em paz a minha vida, como os deixava em paz para viver as suas, mesmo os vendo ajoelhar para animais como o Edil Macedônio, essência de ignorância, não a do canalha Edil, a deles que vão atrás, nem Judas a teve tão profunda, tanto que este teria se matado em ato contínuo à burrice, segundo a lenda. 

Na mudança, entre sacos de panos na parte de cima do guarda-roupa do quarto aquele de lado, que era depósito, adivinhe o que achei? A camiseta do mini-bloco de carnaval "Xupa mas não baba", minúscula réplica do lindo e grandão de Laranjeiras, no Rio, chupa com xis, uma festa. Boas lembranças.


Entreguei as chaves ao comprador, desejei boa sorte ao casal, o lugar é bom e protegido. Novamente eu disse: tomem cuidado com os vizinhos, aproveitem a vida, é uma só. As minhas tiangas também se despediram com abraços, a ele, palavras de incentivo, a ela cada uma demorada, abraçada falando ao ouvido da mulher, baixinho, sussurrando bons presságios, por isto gosto delas, e nos fomos em vida nova, eu e minhas tiangas. 

Eles, os vizinhos, tentaram me dobrar quando comecei a chegar com duas, em suas concepções uma vergonha. Suas mulheres, com eles ao lado, deram de fazer piadinhas quando as gurias saíam para o trabalho, sempre recatadas, talvez pelas saias curtas e pelo salto 20 naquele areal da saída, foi aí que os enfrentei a todos, venham, sejam homens, covardes, eu parado sob chuva no condomínio, só com um punhal, não veio ninguém, então gritei vou pegar um por um na próxima vez que olharem com maldade para as moças, e me sairá fogo das mãos. 

Naquela vez me tiraram do sério mesmo. Armei-me mais. Só imagino o que fariam se eu fosse homo, bi, tri ou multissexual, ou qualquer coisa que não o papai-mamãe daqueles evangélicos criminosos.


Passou. Só volto lá se o rapaz e sua esposinha que me compraram o imóvel reclamarem. Se disserem "precisamos da ajuda que tu prometeu", eu vou. Pedi a ele que me avisasse na primeira, não entendeu bem, mas algo me diz que logo vai entender, eles são árabes, ela usa burka em certas ocasiões, por tradição, não são fanáticos, comigo riram, beberam e jantamos de cara limpa, mas têm lá suas vidas a viver como querem, nenhum mal causam, a guria está grávida de quatro meses, merecem viver felizes, e não como certos animais tentam impor.

Por que tenho que ter a mesma vida deles? Uma mulher que só diz sim, os falsos amigos de sempre? Por quê? Por que não posso ter a minha vida sem ser discriminado? Devo-lhes algo? Não devo. O Deus deles, aquela coisa ridícula de ameaça, ah, não vou para o céu deles, e alguém quer ir para esse céu fantasmagórico? Filhos da puta.


Se ele reclamar que algo correu mal irei diferente, aí não, mas com calma, esperarei uma noite de tormenta, lá tem tormenta seis vezes por ano, estarei esperando, e nesse dia vou matar a todos, sem deixar rastro, não fiz antes por causa das gurias, que insistiram para deixar para lá, insistiam venda, José, vamos nos mudar, sair daqui, por favor. Aceitei porque deixaria rastro.


Na chegada do frete ao destino, tirei o chapéu e o casaco, arremanguei a camisa de manga comprida e fui ajudar os freteiros, para não me quebrarem retratos de parede, LPs, etc, e eis que vejo lá adiante na calçada aquela mulher desfilando com seu otário, otário que ela já deve ter falido, me abandonou por dinheiro há cinco anos, embora toda semana quisesse encontros escondidos, fui em muitos, e o nojo só cresceu, como se eu não soubesse que até em automóvel ela deu tudo, sexo anal até em estacionamento, para pegar o zé-otário. O que dói é quando a burrice subestima.

Vinha em minha direção. Quando me viu de lá de uns vinte metros quase desmaiou, senti daqui, dei as costas e peguei aquele toca-cd em forma de bola, e quando ela estava em cima, quase passando atrás de mim, cinco metros, peguei o disquinho brilhante de um cd e acionei. 

A música inundou a rua. Nelson Gonçalves cantando, pararam lá, ela se amparou no sujeito, ele insistiu e vieram. Ao passarem Nelson já dizia com sua bela e forte voz, de homem:  


Tudo porém foi inútil
Eras no fundo uma fútil
E foste de mão em mão
Satisfaz tua vaidade
Muda de dono à vontade
Isso em mulher é comum
Não guardo frios rancores
Pois entre os teus mil amores
Eu sou o número um.

Ela ao passar começou a soluçar alto.

Nesse instante voltaram as mulheres, que tinham entrado na frente para ver os melhores lugares da casa para colocar os móveis, e aí, como por mágica, ela parou de chorar. O otário seguiu perguntando, preocupado: "O que foi meu amor? No templo Jesus vai te acalmar". Fiquei com vontade de gritar: Ela anda com saudade de suruba.

Ouvi-a dizer algo como me lembrei de um bandido, quero que ele morra. 

Novamente me controlei, vontade de dizer: E homem pra isso, esse bosta não será.

Porém fiquei quieto, era o que ela queria, mulher eu conheço, queria que eu matasse o pobre e bom homem, então ficaria responsável por ela. Morreu para mim, se quiser voltar vai ter que se ajoelhar, e não a quererei.

Eu só pensei em explodir um templo de gatunagem, como antes amaria detonar a católica, esta menos, parou de roubar agora, depois de quase dois mil anos surgiu um bom pastor, o Chico argentino. Estava calmo, só queria olhar para ela. Olhei-a, mentindo para o imbecil, pela conversa dele se encaminhavam a algum templo. Senti que ela não tinha tirado ainda todo o dinheiro dele, ia junto para evitar que ele entregasse muito para o canalha do elemento que se diz pastor.

Logo soube por um dos freteiros que tinha um comércio do Edil duas quadras adiante. O cara anda me perseguindo, vou começar a procurá-lo também, vai ver o que é bom. Só não posso contar às gurias, vai que me estranhem mesmo sendo humanistas que defendem todas as opções, religiosas, sexuais, de alimentação, de tudo. Depois contei, sim, claro que contei para elas que revi a malvada - não minto, conto todos os fatos, elas quietas e eu contando da passada na calçada, da música, dos sentimentos que antes falei. Só guardei meus pensamentos do que vou fazer, isso somente saberão depois. Quase morreram de rir, e me disseram tu nunca mais vai entrar em fria assim, a gente não vai deixar.

Nem eu vou fazer bobagem, concordo, mas cá comigo já os vejo com o coração aos pedaços, atiro bem, não me conhecem. Penso que vou fazer o que deveria ter feito na outra moradia, agora não irei por elas, na conversa de mulheres que me impediu de fazer o que queria. Não guardo frios rancores, tomara que todos os humanos vivam muito, afinal, aqui se faz, aqui se paga. Eles não. Deles vou cobrar o sofrimento que nos causaram pelo seu fanatismo doentio.


Noite feliz, cansados. Mudança é fogo. Mariana de Rosário enquadra Sibylle para descascar batatas. Assume rindo o fogão ligado, a geladeira também está boa, as mulheres estendem panos e cobertores sobre as camas grudadas, naquele mar de desajeito do primeiro dia.  Carmine insiste, tire os sapatos, homem, relaxe. Tiro.

Pergunto para Frida onde diabos meteram as minhas armas, a caixa com as outras, no bolso do casaco só tenho o 38. Frida diz que não sabe, vai procurar, mas Sahlah clareia seu lindo rosto e voa para cima do guarda-roupa, empurra e o caixão cai no chão com um estrondo, eu só olho quieto, conheço a palestina, nada de recriminar, com a queda poderia explodir as granadas. Ela, que nua saiu do banho, se veste com a burka azul, abre a caixa e de trás do seu deus diz: agora que todos saímos de lá pegue eles, eu te ajudo. Todas aplaudem, urrú!

Custei a entender. Estavam me escondendo suas intenções. Mariana mete a cara na porta da cozinha, rindo, urrú. Logo todas pedem para esperar um ano, para não deixar rabo, mas vamos matá-los a todos. 

Como se eu fosse fazer diferente.

Assim, deliciado confesso, é vida boa. Urrú!



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NE: Em blog aproveitemos o texto do José. 
A valsa "Número Um" é de 1939, de Benedito Lacerda e Mário Lago.





domingo, 3 de agosto de 2014

Alto da Bronze

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"Hoje eu pobre profano
me lembro de ti e dos meus desenganos
Oh! meu Alto da Bronze dos meus oito anos"


A relíquia de Plauto de Azambuja Soares, o Foquinha, e de Paulo Coelho - este é outro cara, pelo amor de Deus, não aquele múmia, este Paulo Coelho era um querido e decente pianista e compositor, tinha orquestra.

"Alto da Bronze", composta em 1938. O ano da minha primeira morte, morri com cinco tiros pelas costas num amanhecer na Alfândega, mas que ninguém se preocupe, foi nada, estou aqui. O título referindo, como bem sabem os moradores deste alegre porto, ao logradouro (só os Correios usam esta palavra, sempre faz-me rir) e a bela e teimosa negra de ébano que morava num matinho lá em cima, nos altos do Centro, de onde se via o maravilhoso rio Guaíba passando, sem prédios para cortar a visão, com seus pescadores e crianças brincando à beira, pequeninos vistos lá de cima. 


Em 1916 foi que soube da negra Bronze, de muitas décadas antes. Uns negros velhos me contaram no Mercado Público, com os olhos brilhantes de cachaça descreveram a negra que ouviram dos seus pais escravos: alta, esguia, carnuda, falsa magra, brava, olhos com fogo se eles se aproximassem, vista assim de cinquenta metros parecia um estátua de bronze, parada em frente ao casebre com ar de desafio. Isso os pais que contavam ouviram dos pais deles. Morava sozinha lá em cima, no mato. Tempo esse, em 1916, quando me contaram e fiquei com vontade de conhecê-la embora soubesse que voltar no tempo não podia, tempo em que eu morava numa pensão mucufa na Rua da Praia com cinco mulheres alegres, no segundo e último andar, todinho nosso. 

Foi nessa época que conheci Pixinguinha, um neguinho de 18 anos que chamavam de Chico Dunga, ficou meu amigo e ali embaixo no Centro, num boteco da Rua Clara, nós todos bêbedos em madrugada alta, compôs um choro-polca a que denominou Carinhoso. A modéstia me impede de dizer em quem se inspirou e dedicou em homenagem.


À frente da pensão começava a se erguer um prédio fino, com projetista alemão, que viria a ser o Hotel Majestic (hoje Casa de Cultura Mário Quintana), unindo os dois lados da Travessa Araújo Ribeiro. Uma barulheira danada a construção, todo santo dia, tanto que mudamos para o Alto da Negra Bronze, uma beleza aquela casa antiga, com abacateiro nos fundos, e flores, e ainda tinha um resto de matinho por lá. Apaixonei-me pela neta da negra Bronze, uma escultura de ébano também, saiu à avó, mas esta é outra história.


Lá em cima onde passa a Rua Formosa, que os malditos políticos para agradar aos milicos mudaram o nome para Rua Duque de Caxias, vontade de dizer umas besteiras, deixo assim, lá é o Alto dela, só dela, eterna Bronze. A historiagrafia semi-oficial insiste em dizer que ela era prostituta, porque o assédio era grande por parte dos magnatas, e não levavam. Deixem que digam, a difamação foi o que restou aos indignos repelidos e poderosos, não sabem o que é passar fome e suportar com bravura. Eu vi, minh'alma estava lá.


A canção diz um pouco do meu grande amor por Porto Alegre, eu que cheguei de passagem e fui ficando, por horrores, amores, desenganos e mortes, pela ordem mas em certo momento em completa desordem, e ainda me sinto em trânsito, um menino que não sabe para onde ir. Quando morava no Alto da negra Bronze - muitos anos fiquei lá - me sentia menos intruso. E agora meu rosto se encharca, mal vejo as teclas pelas lágrimas, preciso voltar lá, plantar um matinho, ainda que seja nos fundos de alguma casinha que restou.

Em voz de homem soa melhor, foi feita para homem, mas não encontrei.

A Elis não se aguentou e disse, pouco se importando com o gênero, sem alterar a letra, nada de profana, que como todo artista que se preza ela era: disse profano. A Pimentinha era fogo, deveria ter casado comigo, a boba, bastaria comparecer a botecos de pobre perto do rio, em torno de meia-noite ou mais, que me encontraria, os anos de vida que nos separavam não eram tantos assim. Dia destes volto ao limbo e a encontro.

Salve Foquinha, Paulo e Elis, que exaltaram o Alto da Bronze que tanto amo.