martes, 16 de junio de 2015

Lanceiros

.
D. Julieta saiu fazer compras, fiquei sozinho com as suas vinte hóspedes do cabaré, digo, da pensão. Ui, só muié e eu. Todo fresco ofereci música, com seu Paulo Vanzolini na cabeça. Já paguei mais de vinte e cinco pra me livrar de erros feios que cometi.

Tela cheia, por favor.

Esse lance do "lanceiro" me faz lembrar dos meus queridos punguistas de Porto Alegre. Eu lá, de terno e gravata no Mercado Público, quem vejo? A turma da cadeia, de Charqueadas e do Presídio Central, se fazendo de sonsos. Olhava-os com ar de repreensão, em silêncio: "Tirei-os da cadeia, seus putos, e estão doidos pra voltar", mas sabendo que a tigradinha não tinha muita escolha, analfas de pai e mãe que eram. Aí eu saía do Mercado, tomar um chope longe, pros lados do Gasômetro, quanto mais longe melhor. 

Sabia que ao menos seguiriam algo que lhes ensinei: "Não batam de pobre, se um dia forem obrigados, no desespero, peguem cola-fina hijo de pápi, quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão". Sei que errei ao dizer isto, mas fiz, assumo.

Sabia que logo um iria trombar (comigo por perto não fariam, não eram doidos de desrespeitar quem os visitava no Natal, Dia dos Pais, Ano Novo, etc, naquelas pocilgas chamadas presídios), desequilibrando o sujeito, outro bateria a carteira e a entregaria a um terceiro num gesto sorrateiro e rápido, este que se sumiria na multidão. Se alguém se flagrasse da manobra e fosse atrás levaria uma punhalada de um quarto. Que vida.

Claro que eu tinha que me pelar pra entrar na prisão, revista. Mas dizia, rancoroso, pro carcereiro da portaria: "Gostaria que fosse a tua mãe a me ver pelado, moleque". Dizia baixinho, só pra ele ouvir. Reaja que te pego na rua outro dia. Fingiam que não ouviam. Ora me revistar. Depois pararam com isso, se quisesse entraria com metralhadora sob o bruxo, um sobretudão preto que uma mulher me deu.

Querido Dr. Marino De Castro Outeiro: tu sabe como comecei a entrar em Presídio, lembra? Foi no Central, quando o amigo me aconselhou e me ajudou a tentar tirar um neguinho lá de dentro. Aí conheci o resto da meninada lá trancafiada, eles se revezavam no convite pra ir lá, palestrar em dias tristes, Parodiando Jaime Caetano Braun, começava assim: "Meus irmãos de território, sou o Sala das Missões, vim aqui neste Dia da Criança para me acalmar, e se puder acalmar os corações dos amigos, pois não tememos a vida e muito menos os ratos...", e lá ia conversaiada pra moçada, invocando espíritos.

Hoje já meio longe daqueles tempos, quase rio de uma bobagem que falei. Pedi pra desligarem as poucas luzes que tinha, vamos ficar no escuro, quero um minuto de silêncio, vamos fechar os olhos, que todos pensemos em nossos pais, mulheres, namoradas, irmãos, filhos, enfim em todos que amamos, pedindo a Jesus que olhe por eles, pois Jesus passou coisa pior do que hoje vocês passam aqui neste lugar horrível. O Coió correu a desligar. Na penumbra fez-se um silêncio comovente. Passado o minuto retomei a palavra: "Não devemos nunca esquecer de respeitar nossos pais, respeitar os mais velhos...". Aí um moleque do mezanino falou lá de cima: "Mas, Sala, bandido também fica velho, e bandido sem-vergonha a gente não respeita". Dizer o quê? Respondi: "Tu tem razão, meu fiinho, eu quis dizer aqueles que merecem respeito", mas ele me pegou, sorri pro lado dos mais velhos, que já estavam sorrindo para o meu lado também.

O salão sujo, caindo aos pedaços, superlotado de moços com os olhos arregalados, muitos se apertando ao alto no mezanino, eu sentado no chão no meio do salão daquele horror, pernas cruzadas. Eles deixavam um parente de lado para me levar, pois jamais entrei no inferno por mãos oficiais. Quando inverno entrava de sobretudo, terno azul, camisa branca, gravata vermelha, mesmo na ala que os guardas não entravam, não eram loucos, quem tem cu tem medo. Em novembros das Crianças, sem sobretudo. Andei escrevendo isso em algum lugar. Dia destes crio coragem e publico, a conversa é muito longa, as lágrimas são muitas, de ensopar o pátio de tomar sol, ou chuva e frio em tristes invernos.

E tem pessoas (?) querendo enfiar meninos de dezesseis lá dentro. Não, senhores demos, não estou me achando. Como dizia o outro (salve, seu Martinho da Vila), burgueses são vocês, eu não passo de um pobre coitado. Alguém aí, dos meus adversários, lembra da cabecinha que tinha aos dezesseis? Dezesseis nada: dos abobados que eram aos vinte e cinco anos? Alguns abobados até hoje, aos sessenta.
Olhando pra trás pela névoa do tempo vejo que fiz muito pouco, porque mais não podia.


Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida
Eu já devia ter rasgado
E não podia
Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
vinte e cinco
Francamente foi de graça

sábado, 30 de mayo de 2015

Efêmero domingo no Beco do Oitavo

.
Pelas nove da manhã um maravilhoso sol em Porto Alegre. Estamos em mesas espalhadas defronte ao Beco do Oitavo. Eu no meio de duas mesas juntas na ponta da calçada, nóti aberto, meu companheiro do lado é Luciano Peregrino, para o caso desta joça empacar, ele sabe tudo de computador de mão. Só não tem solução quando o sinal some. Cobram os olhos da cara e não fornecem o sinal como prometido, aqueles... bem, isso é outro papo, hoje não vamos falar de máfia. Acho que não.

Aqueles filhos de uma puta das múltis!

O Contralouco está sinalizando o fechamento da rua, já colocou os cones numa ponta, caminha para a outra. Domingo é assim, quem manda são os boêmios, a prefeitura já tem o resto da semana para não trabalhar. Aqui carro não passa, a criançada pode brincar na rua. Nossos cones são cor-de-vinho, para diferenciar dos cor-de-laranja da Prefa, a nossa cor serve para avisar aos moradores das outras ruas do bairro: podem chegar que hoje tem festa. Aliás, o Portuga disse que cedinho viu passar um carro com três fanáticos do bando do J. Bolsonaro.

A turma se alvoroçou - ai que vontade de quebrar a cara dos viados - mas o Portuga intervém, acha que foi por descuido, estavam chapados e não lembraram que aqui não podem fazer o que fazem na Rua Paulista.

Marquito Açafrão foi lá no Botequim do Terguino buscar o tonel e os espetos para o churrasco, os malucos que agora estão lá o ajudarão a trazer, vem todo mundo. Nisto chega a velha Jezebel fantasiada de cigana, se contorcendo e cantando "Ai se eu te prego". Recebe uma vaia estrondosa. Em seguida ganha efusivos aplausos, quando a turma percebeu que a letra é diferente daquela do sertanojo. Não podemos aqui declinar a belíssima letra, tem muita rima em u, ica e eta.

Trago rolando, os boêmios aos poucos começam a falar de como foi a noite de sábado. Isso vai demorar, muita gente ainda não chegou. O gaiteiro Nino emudece a rua com os acordes de La Vie en Rose. Peço ao Portuga um duplo de uísque com angustura. Leila Ferro se aproxima timidamente e diz: "Tio Sala, enquanto o pessoal prepara tudo, será que eu poderia botar uma música no teu blog?". Levanto-me prontamente: "Claro que pode. Vou no banheiro, doçura, bote tu mesmo!". E passo esta geringonça para a Leila, que senta no meu lugar.

Mr. Hyde, o médico da confraria, que passou a noite de plantão no Pronto Socorro, chegou ainda de jaleco com um barril de chope às costas. Enquanto passa em direção ao interior do bar, vai avisando: "É só pra mim, seus palhaços, hoje quero me afogar, o que vi de madrugada ninguém merece, mesmo com 20 anos de profissão!". Putz, ficamos imaginando. Daqui a pouco relaxa e se solta, já chegou desabafando, é só do que precisa.

Onze e meia da manhã. Tocaram cinco vezes a música da Leila, as mulheres dançando como a Tulipa.

Contralouco: "Essa moça, a Tulipa Ruiz, é o meu tipo, docinha e gostosa, viva... Eu casava para sempre, levaria flores todos os dias".

Jussara do Moscão: "Pára, Contra, não vai azarar a vida da guria...".

Contralouco: "Mas é sério, pombas! Aqui nunca se pode ser sincero!". E saiu emburrado lá para a frente do bar. Gustavo Moscão olha de lado para a Jussara, magoou por quê?

Um dos assuntos que tomou as mesas foi a croniqueta que Salito de la Noche postou ontem no blog, "Eu vou botar teu nome na macumba", a tigrada gostou, contei sobre o dia em que Gustavo Moscão surrou um urubu evangélico de fatiota.

Gustavão todo humilde na mesa da ponta, minimizando: "Ora, não foi nada, gente, só uns tapas, ele tinha só uma faquinha, briguinha...". Ora, depois da "briguinha" arrastou o sujeito pelos cabelos por dois quarteirões...

Chegou o boêmio, ator e dramaturgo Nicolau Gaiola. Em pé, também não precisou pedir a atenção de todos, já o esperavam. Copo de chope na mão, começou:

"Senhores seus e senhoras minhas, em nome dos empinantes do Oitavo e do Terguino, proponho um brinde pela liberação da cerveja, de todas as marcas do mundo, em todos os ambientes do Brasil".

Todos encheram os copos e se puseram em pé, a quem passasse pareceria que se preparavam para cantar o hino nacional.

Secaram os copos, a turma voltou a sentar, e Nicolau prosseguiu:

"Nos estádios de futebol e de todos os esportes, nem preciso falar: há que se colocar torneiras de cerveja gelada nas arquibancadas, é o mínimo que se pode esperar. O Lula51 pretendia fazer isso, mas os conservadores o compraram naquele pacote da carta de Recife. E vamos dar um fim à discriminação aos doentes, começando por incentivar os bares dos hospitais...".

Mr. Hyde estremeceu e deu um salto para a frente: "Não, misericórdia, hospital não, pelo amor de Deus!".

Nicolau levou um susto, se atrapalhou, e continuou tentando se recuperar:

"Bem, ã, sobre hospitais então vamos rediscutir o assunto mais tarde, o Hyde ainda tá nervoso. Mas e as igrejas, meus amigos, as malditas igrejas, como aguentar sem uma cervejinha gelada?! Os coveiros como aquele do Moscão, os botaremos no seu lugar, isto é, de garçom! Já os da católica, pelas roupas parecerão garçonetes! Com música!".

Aplausos frenéticos, viva, bravo! As mulheres se finando de rir.

"Na Câmara de Vereadores!, na Assembléia Legislativa!, no Congresso Nacional!, bêbedos talvez os amigos do alheio façam algo que preste, além de aumentar os próprios salários todos os dias! Nos bancos, liberar nos bancos, meus amigos, só meio bebum para aguentar as taxas daqueles agiotas!".

"Nas faculdades, um barrilzinho de 20 litros por sala de aula!. Como estudar, tolerando a péssima qualidade do ensino e dos professores durangos, sem um chopinho à mão, como, como!?".

Os malucos começaram a se meter no seu discurso, acrescentando locais, sugerindo também mesas de sinuca em todos, e melou tudo.

(...)



lunes, 11 de mayo de 2015

Alô, sou eu, mãe

.
Feliz Dia das Mães! Estou lejos mas me sinto aí junto da senhora.

(...)

Sim, mãe, prometo ficar calminho doravante, ontem foi a última vez que me incomodei pra valer, mas a senhora sabe que faz tempo que não ando armado, então não deu nada, pois não sou moleque para andar de briga de mão. Quem lhe contou isso?

Tinha que ser aquele otário, vai me pagar.

Sim, entreguei todas as armas pros palhaços do desarmamento, bem..., sim, todas. O quê, a Marília viu uma automática? Só uma? Deve ter sido esquecimento, amanhã mesmo entrego aos palhaços, junto o silenciador que é proibido para pobres, como as armas o são, eles podem...

Não tive culpa, a senhora me conhece: primeiro foi aquele vizinho corno, depois uns abobados naquele teatrinho nojento do São Pedro, antro de gigolôs do povinho, depois aquele médico asqueroso, pedófilo, no Beco do Oitavo.

Estou calmo, mãe, é que dá raiva só de lembrar. O quê, por me conhecer? Manhe, eu mudei, sou adulto, e aquela gente merecia um tiro. Óbvio que não vou mais.

Sim, tou dizendo, não entro mais em baile de cobra. Como? Ora, mãe, essa estória de ter 26 mulheres é brincadeira com os amigos, no meu apartamento nem caberiam tantas.

Claro que estou procurando namorada, mãezinha. Sei que já estou moço, 62, hora de criar juízo com uma boa companheira, a senhora me diz isso todos os dias.

Sim, uma mulher culta, sincera.

Peraí, essa parte, se vai ser alemoa, nega ou marciana, eu é que resolvo.

Tá... me cuido sim, meus créditos vão acabar, de noite ligo de novo.

Beijos, a senhora é a luz da minha vida. Carpe diem, nunca esqueça que o Toninho lhe ama. Ó, espera, não esqueça de tomar os remédios!
.


viernes, 3 de abril de 2015

Elevado a menos

.
Bem, eu que virei abstêmio e que hoje a pedido dos amigos que me viram aqui trancado num apê, sozinho nesta madrugada de três de abril, muito chateado com a Klara (mulher é foda, meu, de escorpião ainda por cima, como a outra), tomei uma cervejinha, agora abri outra, me ocorre de soltar o verbo, abrir meu coração:

"Gremista é bom frito! Viva o Peñarol e o Inter!".

Pronto, aliviei a alma.

Tirando a brincadeira com os amigos tricolores (Nacional de Montevideo, por via de consequência), que tomara que se fodam futebolisticamente, conto uma. Estou aqui em Santa Maria, RS, com a mãe, que fará 92 anos em agosto. Pelo avançado da idade ela virou menininha quanto às lembranças. Por vezes não lembra o que fez há pouco (raríssimas vezes, felizmente), mas da meninice vem tudo com uma claridade, riqueza de detalhes, impressionante.

E lembrando do colégio, lá pela década de 30, me saiu com esta:

- Lá na escola tinha um professor, já velhusco, que falava muito pausado, eu tinha uns 8 anos, e ele lia um livro lá na frente: "... esse é o fundamento...".

Um coleguinha perguntou: o que é fundamento, professor?

Ele respondeu naquela vagareza que o caracterizava:

- É poço..., é buraco..., meu fio.

De outra vez falava de mares e rios por este mundão afora, e outro coleguinha perguntou:

- Qual é o maior rio do mundo, fessor?

- É o Uruguai, meu fio, o Uruguai...

Que família bem boba, A mãe, como quem pressente o fim, deu de escrever memórias, descobri que tenho parentes que nem sonhava, por parte da minha avó, muitos em Palmeira das Missões. Seu pai era professor de cidadezinha do interior. Um irmão mais velho, Ulisses Bindé Salazar, é nome de colégio na cidade de Catuipe, que pertencia a Santo Ângelo. Soube quando me disse que continuava escrevendo seu Diário (as memórias estão à parte), meninas tinham Diário. Pode ler, se quiser, meu filho.

Li passagens recentes, último dos muitos cadernos, tímido pela invasão de privacidade.

"25/03/2015 - Levantei bem, tomei meio Diovan 160. O dia está nublado. Às 10h fomos caminhar, eu e o Antônio, Às 12:20h tomei cápsulas de alho, Marília veio aqui com a Lourdes. Antônio enviou a declaração de imposto de renda pela internet. À noite tomei Glipage e um Diovan 160. Lourdes continua dormindo na Marília. Fiz inalação às 22;20h. Dormi bem."

"26/3/2015 - Levantei bem..."

Na passagem que fala de imposto de renda de uma aposentada, que ganha merreca e paga na fonte uma vida inteira de contribuição, ri com amargor ao lembrar dos gerdaus e paloccis da vida, um dia ainda darei um tiro nesses filhos da puta.

Por estas e outras, quando Natividad estava em creche perguntei um dia:

- Quanto é um mais um, pequena?

- Dois, pai.

- E dois elevado a menos um, quanto dá?

Fácil demais, depois que deduzi num quadro improvisado o porquê do resultado. Nada de decorar fórmulas, precisamos saber o porquê das coisas. Um ano depois, quando ela entrou no ensino formal, comprei um quadro verde de verdade para prosseguir, ela já sabendo mais do que um sobre dois. Matemática e filosofia dá na mesma, pois não?

Tanto que um dia, ao sair daquela vida, não precisei falar de motivos, apenas disse a ela: Gorda (era magra), quanto é um trilhão elevado a menos 2.610?

O método era o mesmo, a dedução igual, ela apenas silenciou e foi chorar no quarto, de dor, aos gritos chorando pelo anúncio da minha ausência física, não me perdoando pela fuga, mas no fundo sabendo que eu jamais a abandonaria.

Saí, mas desde então fui um caco. Poço, buraco, minha fia.
.
.

jueves, 26 de marzo de 2015

Quinta-feira, 26 de março, aniversário de Porto Alegre.

.
Às sete da manhã aterrissei no laboratório de análises clínicas com um copinho de plástico ainda quente nas mãos. Logo uma morena de parar o trânsito me tirou umas dez cápsulas de sangue da veia esquerda, a melhor. Coisa boa ter 60 anos (em outubro fechei 62, mas minto 60, gosto de número redondo), o sujeito fica mais solto. A moça disse:

- O senhor quer um copo d’água?

- Não, obrigado, moça, estou muito bem, a tontura é por tua causa, vá ser gostosa assim lá em casa.

Ela riu com gosto. Viram? Coroa pode. Bem que na saída me levou até a porta, com um sorrisinho de tomara que ele me morda e, deixa pra lá. Amanhã pego os resultados e jogo em cima da mesa do maldito médico:

- Toma, pega pra ti e vê se não me incomoda mais. (na cuca é “e vê se não me incomoda mais, seu viado”, mas verbalizarei apenas até o “mais”)

Tenho pavor de médico, aquele arzinho de sabe-tudo que aplica pra cima dos coiós. Houve época em que de vingança me profissionalizei em mulher de médico, antes de começar com as mulheres dos políticos. Não gastei o, bem, o verbo por pouco.

Essa frescura de exames e médico é coisa das minhas irmãs, sempre preocupadas com a saúde do único irmão espada, só porque não vou a médico há oito anos. Pombas, três dias de abstinência de tudo, tudinho mesmo. Bem, passou, agora onze da manhã, há meia hora estou namorando aquela garrafa vermelha, umas dez doses antes do almoço cairão bem.

A primeira irá inteirinha para o santo, para que não dê zebra nos exames. Se der, a culpa é deles, então dou uns cascudos no senhor medicinal pós-graduado, volto lá e incendeio o laboratório, a morena tiro antes.


Bem, vamos às amenidades. Pelo jeito que as coisas estão se encaminhando, com o criminoso boicote econômico prestes a acabar, em contrapartida ao afrouxamento do regime, desde que a ilha não volte a ser o bordel dos mafiosos americanos, acho que vou para Cuba, afinal uns e outros vivem me mandando fazer isso. Ou para a Criméia (Ucrânia?). Ao menos até que passe o fedor de idéias redentoras que ando sentindo.
.

lunes, 23 de marzo de 2015

Alô, Palmeira das Missões

.
1

Bueno, no lançamento do meu último livrinho, nem tão livrinho assim, pois tem 176 páginas, capa e ilustrações do cartunista e outros bichos mineiro Nani, da cidade de Esmeraldas, há décadas carioca por adoção, e quarta capa, que eu chamava de contracapa, da artista plástica nascida em São Gabriel (RS), Carmen Medeiros, também como Nani adotada pela capital, ela Porto Alegre, bem, no lançamento, desta vez na minha terra, Palmeira das Missões (RS), os amigos e amigas de infância compareceram em peso. 


Uma beleza, todo mundo feliz no espaço multicultural “Bolicho da Praça”, no meio da Praça da Matriz, no coração da cidade. Ainda que eu tenha me sumido mundo afora há 42 anos, a turma não me esqueceu, pois amigo é o irmão que a gente escolhe. 


São incontáveis os amigos que tive, mas dou dois exemplos: carreguei por décadas num vão na carteira uma foto do Paulinho Sampaio, pois amigos trocavam fotos. Uma 3 x 4, no verso escrito: "Ao Sala, un recuerdo de mi persona". Com o Pato, depois das caipirinhas e do carreteiro - D. Iracema fazia como ninguém um carreteiro de charque, com banha, nada de óleos transgênicos muquiranas - e salada de cebola com vinagre e sal, aí, aos sábados à noite, quando eventualmente sairíamos para lados diferentes, era assim: quanto tu tem? Vinte pilas, e tu? Cinquenta. Somando dá setenta, então é trinta e cinco para cada um. Do Branco nem falo. E o 21 então? Tantos...

Da D. Iracema, mãe do Pato, é impossível, ao citá-la, não lembrar que ao nos ver lá embaixo das árvores ao anoitecer, chegados dos treinos no Ouro Verde - Pato e eu chegamos a jogar juntos no Ouro Verde, eu zagueiro e ele centroavante, como em futebol de salão no SAPAL, que só me convidava nas ruins, e na seleção da cidade, aliás, vai outro aliás: aliás, nunca perdi pelo SAPAL ou pela seleção da cidade. O primeiro era de per si uma seleção, com Sapinho, Xexéu, Pato, o pior jogo foi contra uma CEEE com Pito e um monte de cara bom, homens feitos, e com o Caco de enxerto na goleira deles, saiu um 3 a 3 sofrido pra ambos os lados. Fiz o meu lá de longe, de bico embaixo do pau, empatando o jogo em 3, eia!, só falo das boas, bem...


Onde andava? Esta mania de ir misturando os assuntos... Ah: na semi-obscuridade tomando caipirinha e falando mal dos terroristas de verde (estávamos em plena ditadura, os porões do DOPS e outros bichos banhados de sangue de gente indefesa que berrava alucinada no horror da tortura), a D. Iracema metia a cara na janela e dizia: "A 'fruita' não cai longe do pé", referindo-se ao trago, vez que nossos pais eram meio chegados no mé, o dele já falecido e o meu ainda dando algum trabalho. 

Pobres dos velhos, nada faziam de mal, só trabalhavam, mereciam umas cervejinhas de vez em quando, o diabo é explicar isso pra mulher que, deixa pra lá.

Começamos a função de lançamento de livro às sete da noite, e seguimos na maior calma, com direito a tempo para recordações do que aprontamos na meninice, fotografias, risos...

Claro, a cada dedicatória o humilde autor tomava um copito de cerveja, por vezes dava um tirambaço num cantil que tinha no bolso interno direito do paletó, de um líquido vermelho que passarinho, decididamente, não bebe. No lado esquerdo, sobre o coração, onde normalmente iria um 38, estava a surrada carteira com uns caraminguás para os chopes que inevitavelmente viriam em outro lugar depois de concluídos os trabalhos culturais.

Pelas onze ou meia-noite – não estou bem certo devido aos tragos que me forçaram a beber - estourou a função e, como o prometido, fui encontrar os camaradas mais antigos numa choperia ali perto.

Na choperia estavam, entre outros, Itiberê dos Santos (o Branco), Cesar Tassi, Edu “Polaco” Tassi, o radialista Odercio HubnerSérgio Padilha, Luiz Cavalheiro e o nosso sensacional instrumentista (harmônica, gaita de boca ou de beiços) Telmo Mendes. Choperia lotada, deu música nas mesas que juntamos, claro, até eu cantei, se é que aquilo é cantar, duas ou três, destaque para “Mano a mano”. Passada a metade do tango, quando disse:

“Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado;
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás...
Los favores recibidos creo habértelos pagado
y, si alguna deuda chica sin querer se me ha olvidado,
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.

Aí eu já estava com os olhos molhados, pois me lembrei de umas tiangas de outras paragens que só judiaram do meu pobre coração.

Telmo me disse que agora só toca a sua famosa gaita de boca lá de vez em quando, quando bebe. Manifestei minha saudade dos tempos em que ele tocava todos os dias e cantávamos madrugada adentro.

Com Itiberê e Telmo recordei de uma passagem em que estávamos juntos numa galinhada, que na verdade era peruada. Todos gostam de galinha ou peru, mas os boêmios amam é de madrugada, com a penosa ou o penoso roubado, se não for roubado não tem graça. Daquela vez, pisando em ovos, não foi galinheiro que um de nós invadiu às duas da matina, e sim um peruzeiro. O camarada saiu de lá pé por pé abraçado ao enorme bicho, vai passando abaixo da janela do dono da casa e o penoso dispara: Glu-glu-glu! Ali começou a ser estrangulado. Contarei outro dia aquela triste passagem, quando nos expusemos à ira dos Defensores dos Direitos Humanos..., ã, digo, Peruanos.

Tem uma com o Polaco, a gente em Porto Alegre, que aproveitei e lhe pedi autorização pra contar. "Por mim que abiche, Sala, pode contar e botar o meu nome". Quanto ao Cesar, esqueci de lhe pedir se me permite contar que ele morou com uma viração linda de corpo e tudo, rica pessoa, que era alucinada de amor por ele. Outro dia peço e então conto.

As fotos virão com o passar dos dias. Da máquina fotográfica que levamos, minha agente (A Gente) literária Jane Capelão da Silva e eu, que trouxe comigo para Santa Maria, à máquina, não a Jane (tenho irmã hospitalizada, vim para Santa Maria por isso), não consegui arrancar as fotos da miserável, não dei-lhe um tiro para não acordar a mãe, mas grudei o objeto na parede. Amanhã peço pra minha sobrinha, filha da hospitalizada, me ajudar. Porém muitos amigos tiraram fotos e m’as enviarão logo que der, como a amiga Lígia, irmã da Jane, e o nosso anfitrião Aurelio Moraes.

Passei uma manhã percorrendo a cidade. O Antenor Vargas (Tena) nos tirou da cama às sete da manhã e bancou o cicerone, atenciosíssimo. Uma beleza, muita coisa mudada para muito melhor. Só estranhei que sumiram os campinhos onde a piazada jogava bola. Aquele da frente da casa do Sérgio Padilha deu lugar a um mundaréu de casas, idem o da Bariri, meu Deus, onde a gurizada joga bola atualmente? Lembro que quando íamos, nós da Vila Nova, jogar na Bariri contra a turma da Vila 6 de Maio, era uma guerra, não raro fechava o tempo. No campinho da Gal. Firmino, da frente dos Padilhas, a gente enchia o leque e tinha que ir buscar a bola lá dentro da casa dos Bones. Isso me faz lembrar de outras guerras, quando jogávamos contra os bambas da Vila Velha, nunca perdi para eles, eheheh, eles perdiam e saíam reclamando que a gente batia muito, entrando de sola nas divididas, mas esqueciam de contar das meia-luas e balãozinhos que levavam. De se reconhecer que tinham um timaço e eram atletas muito leais.

Obviamente que percebi outras significativas mudanças. Por exemplo, a coxilha da subida para a zona do meretrício, caminho para a Água Morna, está coalhada de habitações. Aliás, não existe mais zona, os arriados dizem que faliu devido à forte concorrência da cidade. A zona, para os amigos da Indonésia que me lêem, era um bairro separado da cidade por alguns quilômetros, para não ofender os bons costumes, onde se exercia a profissão mais antiga do mundo. Foi inaugurado como Vila Jardim, se não me engano, porém pouco antes a capital brasileira havia sido fundada, então imediatamente o povo o renomeou para Vila Brasília, nome logo reduzido para somente Brasília, que, como sabemos, ainda hoje é um infernal prostíbulo, muito pior que a nossa pobre Vila Jardim com seus duzentos cabarés, pois na verdadeira capital pululam criminosos de toda ordem. O Estádio dos Eucaliptus, do Palmeirense, não tem mais eucaliptus, logo os bandos de andorinhas, depois do seu maravilhoso bailado pelos céus, já não têm onde pousar nos anoiteceres de verão.

A história que pretendia contar nada tem a ver com isto, é outra coisa, as palavrinhas acima vão como introito. O que interessa mesmo, que me deixa trêmulo, começa nos próximos parágrafos.

Ah, em tempo: a única foto que de momento disponho para registrar o evento é com Cleri Covcevich, a deslumbrante amiga da minha mana mais velha, esta mana que agora é carioca. Lembrava vagamente da Cleri, mas conheci seu irmão. Aliás, a dama entrou no recinto e quase desmaiei de emoção, não a via desde menino. 

Muito obrigado, Cleri, a mana Lourdinha, que pediu para representá-la no evento por impossibilitada de ir, ficou muito contente, diz que se sentiu verdadeiramente representada com a tua ida. 

Inspirado em Cleri, senhora de rara beleza e amiga que torcerá por mim, daquele instante em diante um pensamentinho ficou latejando. Vamos aos tais "próximos parágrafos", onde as boas intenções serão reveladas.

2

Dei um abraço no mui digno amigo Aurelio Moraes, agradeci toda a sua atenção pessoal e a dedicada pelo município que ele bem representa, e me fui para a tal choperia, ruminando aquele pensamento lindo, de certo modo atroz, que culminava com um: "Como fui burro".

Pombas, parei de contar os namoros que tive lá pelo número 250, há muitos anos. Digo que fui namorado de muitas mulheres, mas este é um modo novo de expressar a relação, antes o pessoal diria que fui amigado ou amasiado. Até casado, quando era mais bobinho do que sou agora. Percebo que mudei, estou morando no Covil 7, agora rareiam as namoradas, no máximo doze por ano, em média uma por mês. No Covil 1 foram umas 80, no 2 me amiguei e fiquei dois anos com duas, no total não passaram de 15, piorou no 3, quando voltei ao 1... Sim, amigos, fiquei tísico, mas me recuperei graças a um médico que me receitou uma mistura de abacate com outros frutos, e massa, e ovo frito, comia feito um condenado para poder dar conta. Agora acho que estou ficando velho. Snif.

Depois que a legislação mudou, presumindo casado se com dois anos de convívio, acidentalmente nenhum amor de morar junto durou mais que um ano e onze meses.

Vi-me num grande espelho ao caminhar para encontrar os amigos, mirando o céu ou a calçada da velha Praça onde pisava, pois, mesmo após tanto tempo, conheço uma por uma, estrelas do céu vistas daquele ângulo e pedras daquele caminho. 

Tive somente uma namorada em Palmeira das Missões, antes de me sumir: eu era perdidamente apaixonado por ela, e ela não era da vereda dos guaranis missioneiros: era germânica nascida em Santa Catarina. Demorei demais para me arranjar na vida em Porto Alegre, e ela rapidamente casou com outro, o que compreendi e lhe dei razão. O mesmo ocorreu com uma moça de São Sepé, 120 porto-alegrenses, algumas capixabas, muitas mineiras, em Belém do Pará quase deu certo, em São Paulo elas diziam vamos tomar chopiss, Salito. Nenhuma delas daria certo mesmo, pelo fogaréu que espalhei por aí, não sossegava, queria todas ao mesmo tempo, possível reflexo do trauma com a catarinense.

Na saída da choperia, às duas da matina, hora de roubar uma galinha ou uma perua para amanhecer de festa, meu primo Branco, que me levaria ao hotel no outro lado da cidade, disse:

- Toninho (sou Salazar, Sala, Salito, mas pra ele sempre serei Toninho), vou ali adiante levar um lero, demoro meia-hora, toma aqui esta cerveja, sente ali num banco no meio da Praça, olhe pro céu, recorde de quantas escolas tu foi expulso, só daqui dá pra ver duas, a Normal e o Cacique Nenguirú, que eu já volto, não demoro.

- Pára, Branco, eu que me demiti das escolas, expulso só de uma ou duas, eu era e ainda sou muito tímido, mas brigava, ou mandava algum professor da ditadura à puta que o pariu, nada mais, nunca comecei encrenca.

- Tou brincando, Toninho, vai, senta lá.

Fui. Tomei a cerveja olhando o céu estrelado. E o pensamento acelerando: nunca namorei nenhuma conterrânea. E só quebrei a cara nesta porca vida.

Então me levantei, caminhei até o meio da Praça, e comecei em voz alta:

"Buenas por aqui me acho".

Pra não ferir suscetibilidades fiquei por aí, pois a frase completa todos os gaúchos conhecem, aqui encurto: "Buenas por aqui me acho, cortando crina - ou trança - de china e aparando guampa de macho". Se dissesse, eu diria trança, não sou tão grosso.

Silêncio em Palmeira das Missões, até os grilos se calaram ao ouvir o Buenas por aqui me acho, pensando lá vem bomba. A Estrela da Manhã teve um inusitado brilho.

Então enchi os pulmões e exclamei decidido, para todo o mundo ouvir:

ALÔ, PALMEIRA DAS MISSÕES: VOU ME CASAR COM UMA PALMEIRENSE!

Um ventinho bom invadiu as casas, despertou quem dormia, as insones sorriram, e vieram os gritinhos de vozes femininas de todos os lados: Iurrú; isso, amado, vem pra mim; beijinhos Sala; tou aqui meu amor; tarado te espero; ai meu gatão; querido tou te esperando; vem gostosinho; iuú, quero 69; tou aqui, sou carinhosinha; ai, topo tudo mas só depois de casar de papel passado... (esta última isolei mentalmente, eu, hein?), centenas, milhares de vozes.

Uma felicidade imensa me invadia quando ribombou umas quinze mil estrondosas vozes masculinas, graves, numa vaia universal, o chão estremeceu, caíram quadros das paredes das casas, pratos e espelhos quebraram: Buuuuú...; viado; fiadaputa; vai dar pra quem te come; bichona; quer morrer miserave?; pode te sumir pra Porto Alegre, bobalhão; por aí...

Só pode ser gozação dos caras. Ué, sou da terra, e quem sai aos seus não degenera, nunca traí a raça, espada honesto e sincero.

Pombas, só quero uma das gurias, e para casar. Guria é força de expressão, gosto mesmo é de mulher feita. Casar? Bem, talvez amigar ou amasiar. Antes havia convidado, à guisa de brincadeira, uma linda de origem alemã, ou seria polaca?, na verdade a loura descende de ucranianos, algo como Muzychuk (nome falso, companheiros, talvez assemelhado, aqui ó que vou entregar pra vocês, ainda não desisti dela), aquela que me deixou trêmulo, febril, natural da Vilinha da Palmeira, que encontrei lá perto do Clube quando me encaminhava para o Bolicho da Praça. Que coisa, em Palmeira tem todas as nacionalidades, eu mesmo venho de portugueses e espanhóis, mas Ucrânia... meio longinho, tomara que seja descendente de algum libertário da Criméia.

Dessa não digo o nome completo para não alertar os gansos, pois farei nova investida, vai que eu pegue na loteria e apareça em Palmeira pintado de ouro, as coisas podem mudar... Insinuei meu interesse vagamente, dizendo a ela enquanto caía de joelhos, braços abertos: "Case comigo, ó estrela brilhante, pelo amor de Deus!". E arrematei com elogios que não convém aqui reprisar, vez que palavras um tantinho calientes, tipo: "Ai, querida, quero morrer pelado, aos beijos, na mesma cama que você". Ela abriu aquele sorriso lindo e respondeu: "Nem morta, Sala, já ouvi falar de ti, conheço a tua faminha, e já me incomodei demais com homem nesta vida". É sempre assim, os outros que aprontam e eu que pago o pato.

Tudo bem, um a zero para os detratores que me vaiaram, mas hei de virar esse jogo, pois vou acampar um ano lá no Branco. Meu primo tem cama de casal, geladeira e tudo pra mim num anexo, mais churrasqueira, fogão à lenha, mesona e tudo no galpão ao lado. Como me disse o Estiga ao me encontrar outro dia: "Tu não perde a cisma, hein, meu? Cachorro ovelheiro se avança até em pelego". Pois é, né. E Branco possui uma artilharia de primeira, só não tem tanque de guerra, mas pelo sim, pelo não, levarei mais uns ferros. Ah, não posso esquecer de contar aquela vez em que o Estiga levou uma cerca de arame nos peitos, na zona.

Aguardem-me. Há décadas a felicidade estava na minha cara e não a vi, porém voltarei para as minhas origens, abatido, é certo, mas hei de arrumar a minha vida. Só que vou querer ver a certidão de nascimento da moça, vale as nascidas em cidades vizinhas emancipadas ou não de Palmeira, de Panambi até Frederico. 

Tudo há de dar certo. Serei feliz.


.


martes, 3 de marzo de 2015

Corneteando

.
Eu ali, paradão na frente do computador, música rolando com Lúcio Cardim, "Matriz ou Filial", e me deu uma coisa. Pensei na Cigana, uma mulher que certa vez me aprontou feio. Remexi num velho baú e achei a corneta roubada do quartel ao dar baixa do exército em Santo Ângelo, onde lavei muito lombo e pau de cavalo. Na verdade a ganhei do corneteiro, que era meu amigo, mas foi roubada igual.

Atravessei a sala grande e abri a porta do quartão. Toquei a corneta a mil às sete da manhã, com "Sentido". As minhas 24 mulheres deram um pulo sentando na camona de miles de metros quadrados, nervosas. O que foi, louco, o que foi? Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, pegou o punhal e se veio pelada de lá: quem foi que brigou contigo, meu amor?!

Volta pra cama, Mariana, não foi nada, só vou fazer um comunicado. Atenção a todas: reunião para discutir assuntos graves da nossa família às dez da manhã, então espero que às cinco para as dez as senhoritas estejam todas na sala grande, vestidas adequadamente. Pensei em tocar "Calar baioneta" para que elas entendessem a seriedade do caso, mas resolvi deixar para mais tarde. Emiti o toque de "Descansar", dei as costas e fechei a porta.

Ouvi uns sussurros de insubordinação da Frida lá dentro, eu e meus ouvidos de gato: "Pombas, ele podia tocar essa porra de corneta às nove e meia então". Fingi que não ouvi, mas a marquei na paleta.

Voltei pra salinha do computador, enchi o copo de vinho e tornei a rodar Lúcio Cardim: "Quem sou eu, pra ter direitos exclusivos sobre ela...".

.

lunes, 2 de marzo de 2015

Trio das Quartas

.
PRA DERRETER O MEU POBRE CORAÇÃO

Mirem que luxo. Neste domingo o TRIO das QUARTAS em vídeo numa rua do Leblon, despreendidos, arrogância e "se achar" não existe em almas boas, superiores. Artistas de rara sensibilidade.

Aliás, todos os meus amigos são assim, despreendidos: tocam, cantam, desenham, esculpem, declamam, compõem, atuam, pintam ou escrevem em qualquer lugar. Loucos.



O Trio por regra se apresenta em Copacabana (na rua Tonelero, 153, d), no afamado Carioquês, todas as quartas-feiras à noite.



Os queridos: Cláudia Barcellos, ao violino, Renato Aroeira no sax e Kiko Chavez ao violão, Kiko já meio dentro do bar, ai que sede de um chopinho, tirando notas de desmaiar o passante desavisado.

Aroeira, sax doirado (o sax, invenção do belga Adolphe Sax em 1846, emite o som que, em intensidade, mais se assemelha à voz humana), como todos sabemos, também é um dos maiores cartunistas/chargistas e outros bichos do Brasil. A Cláudia, então... bem, o vídeo diz melhor que palavras, essa moça nem precisava ser a virtuose que é, só o seu jeito de ser, o sorriso amigável, vale muitas vidas. Sortudo o Aroeira, seu amor. Pensando bem, sortudos ambos.

No vídeo... "com o auxílio luxuoso de Cosme Lage, na cuíca... E de um super médico/pandeirista que passou por lá..."

Fazem isso pra me provocar, snif, sabem que morro de saudades do Rio. Quem mandou arranjar tanto bolo, tanta filha, tanta namorada, em Porto Alegre. 

Bem, saíram à rua, festejar o aniversário do Rio.

PS: Vi hoje, 11 de março de 2015, recado do Aroeira lá embaixo, com honra ao mérito: "O médico do Pandeiro é o Doutor Alexandre! Vou encontrá-lo, já descobri amigos comuns."


Ou eu que não bato bem, ou é de cinema:  Violino, Saxofone, violão, cuíca e pandeiro. Com gente de alta qualidade. Isso dá LP, CD. Foi o que me disse Aroeira ontem, vai sair disco. Oba!






.