domingo, 15 de noviembre de 2015

A branca do Inter (1)

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Em pleno sábado à tarde o deputado do DEM arranjou uma reunião para conversar com os comparsas sobre uma maneira de entregar a Fundação Zoobotânica aos amigos da especulação imobiliária. Saiu às três dizendo que voltava antes das nove.

O telefone tocou, peguei um táxi e fui lá fud... ã, conversar com a sua esposa, uma loira muito piranhona, pra casar com ele só podia, né. Precisei de apenas meia hora para desmanchar a onça, virou uma sopa. Entre ida e vinda demorei duas horas, cheguei às cinco. Voltei com mais três mil no bolso.

Fui de burro, pervertido, pois prefiro petesudas solteiras, essas direitosas são cheias de nhén-nhén-nhén.

Voltei e começaram os meus problemas: me bati atrás da minha camiseta branca do Internacional de Porto Alegre, e nada de achar. Achei duas rubras do Colorado, mais três do amado Peñarol, mas a branca neca pau.

Enquadrei as tiangas: "Todas já lá pra sala, reunião de família". Sentei no meio do sofá grande, cruzei as pernas, copo de uísque na mão, elas nervosas, sentiram que vinha esporro feio. Enfileiradas em pé, só de calcinha. Jacira de Uruguaiana pelada total, com aquele montão de bombril preto à mostra, chamei-lhe a atenção: "A senhora poderia vestir uma calcinha como as outras, sua despudorada?". Saiu em disparada buscar um paninho.

Até os felinos da casa, Gatolino e LF, se perfilaram no meio delas. Mariana de Rosário do Sul, a índia que em 99 eu trouxe da Serra do Caverá, ainda menina de 19 anos, a única que se permite vir de gracinhas devido à minha complacência, sou louco pela bugra, disse desaforada: "Quer que a gente bata continência também, querido general Salito?".

Dia destes a atiro pela janela.

(segue)


viernes, 13 de noviembre de 2015

O Rio que era doce

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Autoria e direitos de Moema Leite. Colhi em rede social e publico sem autorização da autora, em caso de discordância removo imediatamente.

Mais que um grito, um libelo diante do horror cometido por seres sem sentimentos.


Morreu o lugar que eu nasci,
Morreu meu cavalo
Meu cachorro e minha história;
O que eu tinha de mais bonito,
Agora, só na memória.
O peixe virou cimento;
E a igreja, e a escola?
Nem sino, nem movimento!
Sobrou nada da plantação!
Nenhum quadro na parede;
Nada prova que sou José,
nada diz que sou João;
Enlameados documentos,
Soterrados com crianças
E adultos sem esperança;
Acabou-se a minha Bento;
Chorou Elvira, retratando o fato,
que cortou seu coração
Mas choro não limpa o rio,
Nem devolve a vida ao chão...
Correu longe o leito de morte
Uma lama sem distinção,
Cobrindo os sonhos de todos
Matando a paz e a mansidão
E o Rio, que era doce até então,
Hoje, Vale nada não!

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miércoles, 11 de noviembre de 2015

Fruta pode roubar, hortaliça não

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Meus amigos porto-alegrinos por adoção, como os adotivos de outras paragens, hão de entender meu saudosismo.


Há pouco fui dar uma espiada na Mercearia Zaffurtari, como faço diariamente. Não compro nada, só confiro a evolução da gatunagem nos preços. Vou na hora do pico, quando sempre encontro misturados aos clientes os caras que vão bater algo furtivamente. Torço pelos caras, não raro lhes dou uma piscadinha e digo ao passar: "Vai firme, malandro, que ajudo a dar cobertura com o corpo".

Normalmente são três, um bate e dois cobrem as câmeras com o corpo. Tem incontáveis maneiras de desviar a atenção dos guardas e das câmeras, mas aqui não vou entregar a rapadura.

Tive um amigo, o Paulino, este agia sozinho, que todas as noites de inverno levava algo por dentro do sobretudo, uísque, vinhos caros, salmão, etc, nas mãos umas coisinhas baratas. Certa vez o flagraram por um buraco de observação que tinham colocado na parte superior da Mercearia. Enquanto não passar no caixa eles nada podem fazer, e foram na saída, logo que passasse o caixa seria preso.

Malandro é malandro: passou os baratilhos que iria pagar e um sentimento estranho o invadiu, algo no ambiente não o agradou, como nos contou depois. Então olhou para fora e viu os caras olhando para ele. Tirou tudo dos bolsos internos e depositou atrás de si, dizendo: "Achei que tinha dinheiro, moça, mas esqueci em casa a carteira, por favor mande recolocar nos respectivos lugares". E saiu rindo dos cinco trouxas que o aguardavam.

Esta mania de ir mudando de assunto ainda vai me botar na cadeia. Voltando ao saudosismo: fiquei morto de vontade de voltar para a cidade onde vivi até os 20 anos. Lá a gente tinha de tudo de graça: hortaliças e frutas. Se alguma não tivesse no pátio da gente, tinha no do vizinho.

Na minha casa a gente tinha abacate, bergamota, laranja, limão e lima. Na casa do padrinho Jofre Vargas tinha ameixa vermelha e amarela, romã, goiaba, mais laranjas e tudo. Na casa do Pato Martins mais um monte de cítricos. E assim por diante. O que não tivesse, como banana, a gente roubava em pomares longínquos. Por alguma razão só se afanava frutas, poucas para comer na hora, sem culpa; hortaliça não, jamais, que aí o cara seria ladrão.

Nos fundos da casa do Pato tinha uma enorme propriedade coalhada de árvores frutíferas, mas o velho era brabo. Atirava de espingarda com chumbinho na gente, então íamos nos arrastando na hora da sua siesta. Certa vez ele armou pra nós e não dormiu, quando vimos se veio lá de dentro atirando. Foi guri espavorido para todo lado, eu errei o caminho e fui parar na casa do Biba, lá longe perto de um colégio de onde fui expulso. Que susto. Hoje penso que era festim, mas na época...

Pois hoje vi na Zaffurtari umas romãs inchadas de agrotóxicos por R$ 40,00 o quilo, uma três ou quatro dá um quilo. Em reais o equivalente a vinte quilos de arroz. Dei mais uma volta e passei de novo por onde estavam, esbarrei num gordo e caí em cima das romãs, que se espalharam por toda a Merceria, foi o meu acidental protesto, que também foi a deixa para umas figuras lá do outro lado se avançarem nas mercadorias enquanto todos olhavam para cá.

Nessa Mercearia muito me diverti antigamente, desde uns 30 anos. Eu chegava, muitas vezes de viagem, ainda de terno e gravata, todo sério, comprava algo e dizia para o/a caixa: "Moça(o), tou chegando de viagem, de uma reunião de empresários no Rio de Janeiro, sabe o que o dono daqui disse, para explicar porque tudo é tão caro? Porque paga demais para os funcionários". Todos os funcionários por perto ouviam, e se olhavam. Uns riam, outros ficavam puto com o dono. Eu sempre serião.

Tanto fiz que minha cabeça andava à prêmio, a notícia chegou ao dono e seus aspones, queriam saber quem era o cara que andava envenenando a moçada. Fiz isso em todas as filiais. Nunca me pegaram. Se pegassem repetiria e diria mais na cara deles, eu era ruinzinho, mas não deixei me pegarem por pura diversão.

O que me salvou a tarde foi que andando pela Cidade Baixa encontrei o mestre Santiago Neltair Abreu, o artista que já é patrimônio cultural da cidade e do estado. Santiago é homem novo, do tipo que nunca envelhece, sempre jovem, serelepe, e não perde nada, tem corrida. Para se ter uma idéia, ele recentemente recusou a indicação para patrono, xerife, da maior feira do livro da América, a nossa, de Porto Alegre. Ambos apressados, mas tivemos tempo para levar um lero rápido, sorrisos e um abraço.

Na volta comprei algumas cervejas no armazém do Nelson e vim para casa escrever estas mal-traçadas. 

Amanhã irei novamente lá na Zaffurtari.

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lunes, 9 de noviembre de 2015

MUTIRÃO DE BUNDAS - Loterias da CEF, a maldosa picaretagem

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Na dureza em que ando, e necessitando de muito café no bule para montar um novo harém, fui fazer uma fezinha numa lotérica. Bem, montar não, aumentar. Preciso muito de mais uma mineira, mais uma paulista, mais uma carioca, mais uma capixaba, e as que serão as primeiras piauense e amazonense. E três gaúchas que estão doidas para dormir nos meus pelegos. Assim fecharei em trinta e cinco o plantel. Epa, trinta e seis, ia esquecendo a linda moça do Pará, que está por aqui com aquela vida, bela e confiante que quer vir pro Sul. Fechado.

Com volantes na mão e anúncios à vista perdi alguns minutos fazendo cálculos de cabeça. Não vale a pena aprofundar os cálculos posto que a essência salta à vista. O problema não reside exatamente nos cálculos.

O problema é a deslealdade dos nossos governantes desde que inventaram a tal loteria para enxugar os bagarotes do povo. É a má-fé, é a desigualdade. É a premeditada injustiça.

Por exemplo, na Mega Sena é possível se marcar de 6 até 15 números para acertar os 6 do prêmio principal. Se marcando 6 custa R$ 3,50, marcando 15 custará 17.517,50, o preço aumenta de acordo com as possibilidades matemáticas de acerto, e o sujeito que marca 15 tem 5.005 vezes mais chances de acertar que o infeliz que marcou 6. O que marcou 6 tem uma chance em 50.063.860, o que marcou 15 tem uma em 10.003.

Vem o cara que tem dinheiro frio, pois roubou da Petrobrás, ou levou bola dos Planos de Saúde, ou tomou do mesmo povinho em templos de falsidade, etc., e joga cem cartões de 15, em combinações feitas por computador: pronto, vai a quase noventa por cento de chances de acertar, ou seria mais, não calculei, importa aqui é o substrato da sacanagem.

Esquenta a pecúnia mal havida, quem não lembra do canalha do João Alves? Tá cheio de políticos nesse bolo.

Quer dizer, para um pé-de-chinelo honesto como eu e 99% da população brasileira, só se nascer com um vulcão virado para a Lua para ganhar o maior ou ao menos um bom prêmio, somente o fiote virado para a Lua que no céu flutua não adianta.

E por aí vai a jogatina toda, em todas as modalidades, Loto, Timemania, Lotomania, Chupomania, Miaumania, Fácil não sei o quê, etc.

São feitas para os ricaços ganharem. Claro, mesmo que o governo abocanhe a maior parte da grana arrecadada, é dinheiro para amansar a vida de qualquer um, dá para montar o harém, comprar uma mansão, se reeleger deputado, investir em operadoras de telefonia, e sobra muito.

Daí que apenas de vinte em vinte anos se ouve falar que uma lavadeira da Bahia pegou na Loto. Nos demais centenas, milhares, de sorteios todos os ganhadores quietinhos, adivinhem quem são?

Em vez de democratizar a jogatina, por que é feito assim, de tirar dos pobres para dar para os larápios?

Seria impossível um modo equânime? Não mesmo, não é impossível, é facílimo: bastaria preço único, tantos números, o mesmo para todos, e uma aposta por cabeça, o número do CPF inserido no cartão de apostas controlaria. O sujeito pode até botar o CPF da família inteira, mas seriam apostas simples, para todos os efeitos os familiares exerceram seu direito de apostar.

Pronto, tudo resolvido. Cairia a arrecadação? Possivelmente, mas o povo apostaria mais, com confiança no seu governo, nas pessoas que dirigem o nosso País, este que estaria respeitando a todos como cidadãos e cidadãs iguais perante a lei.

Seguirão roubando do povo.

Aqui em casa combinei com as mulheres: fizemos cinco apostas de 7 números na Mega, deu 122,50 paus, e no dia do sorteio ficaremos todos pelados com a janela aberta, virados de bunda para a Lua. Pode ser que a estratégia de 28 bundas em mutirão funcione.

Vontade mesmo é de esganar essa gente.

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miércoles, 4 de noviembre de 2015

Alô, Dilma

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Pois ontem tomei todas e liguei para a Dilma. O meu amigo Helio certa vez fez pior, de plantão na imobiliária em que trabalhava como agenciador se embebedou e ligou para o Idi Amin Dada, em Uganda, foi um escarcéu, entrou a embaixada do Brasil no meio, um estrago.

A Dilminha é minha amiga particular, embora não fale com ela desde que foi para Brasília, e sou um brasileiro que votou nela, pombas, não teria problema algum.

Ando por aqui de ver o governo acuado, sem um segundo de sossego desde que o zé-bonito, aquele que nunca trabalhou na vida, golpista cuzão, perdeu a eleição junto com os anti-PT. Assim ninguém governa nem bordel.  Resolvi dar-lhe uns conselhos, tipo livre-se desses paulistas de merda e vá para o ataque, menina, cabecear na área deles, pois são mais sujos que pau de galinheiro.

Vou resumir:

- Trim.

- Pois não, segundo-sargento Zenóbio, ao seu dispor.

- Alô, boa noite, segundo-sargento Zenóbio, tu é o homem dos sofismas, hein, cara-pálida, chegadinho numa retórica. Quero falar com a Dilminha. Aproveito para mandar um abraço pro Obama, que está ouvindo esta ligação.

- Quem deseja?

- Salito, de Porto Alegre, sou amigo dela.

Passei meu nome completo, dos pais, avós e bisavós, identidade, CPF, situação matrimonial, etc, e ele disse um instantinho, vou transferir.

- Alô, pois não, primeiro-sargento Zito, ao seu dispor.

- Quero falar com a Dilminha, amigo Zito, jogou no Santos, né? Aproveito para mandar outro abraço pro Obama, que está ouvindo a gente.

Tornei a passar o meu nome completo, dos pais, avós e bisavós, identidade, CPF, situação matrimonial, etc, e ele disse um instantinho, vou transferir.

- Aqui o primeiro-tenente Zózimo, ao seu dispor.

- Seu Zózimo, jogou no Bangu, malandro. Quero falar com a Dilminha. Sou o Salito, anote aí o nome e os documas, os pais e tudo.

- Anotado. Aguarde na linha, senhor.

- Alô, aqui é o capitão Zeferino. Às ordens.

- Puta que pariu, Zeferino, pelo jeito só vou chegar numa porra de general daqui um mês.

Nesse momento a Polícia Federal invadiu meu apartamento, um carteiraço do agente Zeca - tá morando em Xerém, malandro, vida boa -, e fui levado como suspeito de terrorismo.


Isso é coisa que se faça prum companheiro, Zilma?

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Menos um

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A maldita campainha aos berros. Fingi que não ouvi. Seguiu berrando. Ao cabo de cinco minutos me levantei contrariado, estava no meio de uma obra-prima aqui.

Espiei pelos buracos da veneziana: um baixote de terno preto lá embaixo. Como pastor da Universal não é, andam fugindo de mim, do Bruno Contralouco e do Gustavo Moscão, pois já quebramos a cara de uns cem desses viados, só restou uma alternativa.

Só pode ser Oficial de Justiça querendo entregar intimação da justa ou me cobrar o que não devo e não vou pagar, aqui não tem nada de valor que possam levar. Reconsidero: é só para entregar intimação, se fosse para roubar meus cacos viria com meganhas junto. Conheço essa racinha.

Vesti-me, botei chapéu e uns óculos escuros enormes. Os vizinhos estão avisados, vão por mim, mas vai que ele tope com o corno do andar de baixo, de vingança por comer a sua mulher periga me entregar.

Desci parecendo o Waldick Soriano, ares de quem vai passear. Meti a chave e abri o portão do meio das grades do prédio e pisei na calçada, quando ele parou de meter o dedo na buzina alheia.

- Bom dia, o senhor mora aqui?

- Não, não moro, tava assaltando um apartamento.

- Ã, desculpe, o senhor sabe se tem alguém no apartamento 701?

- Sei, sou eu. Muito prazer, Carlos Fagundes - e estendi a mão.

- Eu procuro por Antônio Salazar Fagundes, consta que seria neste endereço, é seu parente?

- Meu camarada, essa maravilha de pessoa, um amor de cara, é sim meu parente, primo-irmão, filho do tio Bastião. Só que ele morreu em Manaus há três anos, aliás soube que morreu feliz empernado com umas índias. Posso ajudar em algo?

- Ã, morreu?

- É, morreu, desde então este mundo ficou muito mais pobre, boêmio como aquele nunca mais. Se é alguma herança que o senhor quer entregar procure as filhas dele, mas moram todas no exterior, Alemanha, Macedônia, Egito, Cuba, Burundi... não será fácil encontrá-las. E se o senhor me desculpar tenho um compromisso ali no bar da esquina, até logo.

Menos um pra incomodar.

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jueves, 29 de octubre de 2015

Eu, Bruno João, no exílio em Porto Alegre

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Estou ficando velho, mas valeu a pena ter sido amigo de casa da D. Lourdes Rodrigues, a Dama da Canção, bah, e conhecer outros personagens da noite de canções, hinos da boemia, alguns meio de longe porque muito mais velhos, mas me conheciam: Lupicínio, Cléa Ramos, Darcy Alves, Jessé Silva, Peri Cunha, Rubens Santos, Zilá Machado, Mário Barros, Clio Paulo, Azeitona, bah, tantos... Alcides Gonçalves não conheci pessoalmente, mas alguém me disse que ele soube do menino que rondava a noite.

Lá com vinte anos e meio vendo os "coroas" no palco sem perder de vista a Terezinha garçonete de amor, linda, bailando por entre a penumbra das mesas. Jamais me daria bola, sem um vintém no bolso. Mas ela olhava sim para o mocinho duro de grana e desempregado, surgido do nada vestindo uma camisa de mulher, instalado na mesinha de favor.

Sem que eu visse ela via sim, ela que tinha mandado um chope para a noite inteira. Relaxe os músculos do rosto, moço, tu é bonito mas assim fica feio, dizia se abaixando ao passar lá no cantinho escuro.

Ela tinha 25.

Um dia nos acertamos conversando - nada de frescura - num amanhecer sob o arvoredo da Praça Garibaldi ali perto, onde eu morava no banco da praça que dava para o coleginho, ficamos amigos. Era Teresa, mas eu a chamava de Zaíra, devido a uma música que eu gostava tanto, tanto quanto dela. Onde andará aquela guria?

O Chão de Estrelas era na José do Patrô. Inesquecível.

E anos depois o bar "Gente da Noite", com Túlio Piva e Eneida Martins. Meu Deus, eu queria namorar a D. Eneida, vá cantar bem assim lá no catre onde durmo, tinha melhorado, já não morava em banco de praça. Juro que gostaria mesmo, mas não ousaria, até porque aquele foi o puteiro mais sujo em que morei, e ela era uma senhora fina que jamais me olhou.

O tempo passou. Muitos morreram. Deus, essa mentira, não quis que eu morresse, me fez passar horrores, frio e fome, decepções, desencantos, obrigou-me a assistir humanos doentes de cobiça pelo vil metal, me matou amigos e mulheres, mas eu morrer não. 

Se existisse esse Deus o otário pensaria que sou agradecido, ah ah ah... Eu doido para morrer! Sim, mas não pelas mãos de sujeitinhos vulgares, ou ladrões donos de tudo, aí entra o amor próprio.

Com a idade de Cristo, há exatos 30 anos, jurei nunca mais tocar em arma de fogo. Cumpri. Nestes últimos anos fui tentado pelo imaginário Capeta, foi por pouco, mas aguentei, se tiver que matar mais um será novamente de punhal, punhal não jurei. De repente abro da barriga até o pescoço uma meia-dúzia de filhos da puta. 

Este 2015 está conseguindo ser pior do que os 30 anos que passaram. Ando louco para fazer todas as bobagens que deveria ter feito, hoje já teria mandado para o suposto inferno metade dos patifes de Porto Alegre. 

Hei de suportar. Acho que já vivi um pouco. Tem uma síria-espanhola doente mental de ciumenta que diz que me ama, de repente resisto mais um pouco, me seguro na vontade de ir para baixo da terra.

Confesso que andei chorando muito por aí, me arrastando por esta cidade que nunca foi minha.

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NA1: Resumo apertado do rascunho de um longo conto, sem final previsto.

NA2: A gravação de Zaíra, entre outras, no youtube foi gentileza de Antônio Augusto dos Santos "Bocaiúva", o mineiro que protege a música popular de todo o Brasil e de além, antes que se percam, e que, já que os porto-alegrenses não o fizeram, eternizou a voz da D. Lourdes na rede mundial com lindas imagens.

NA3: Na imagem da internet é euzinho, sim, para modelo de costas já servi, de frente diziam que era muito feio, em montagem de vá saber quem.

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viernes, 23 de octubre de 2015

Vou, hoje eu digo que vou

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Embora resumido o melhor site de MPB que encontrei foi o Dicionário Cravo Albin disponível na rede mundial. Mas o que tem de omissões, erros, é assustador. Achei que era sustentado por verbas públicas, ao menos deveria ser, tal a importância do tema que trata.

Este samba maravilhoso soube por outras fontes que é de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, lá no Cravo não tem um pio. E se fosse arrolar aqui as tais omissões e erros, levaria anos. Não culpo o seu Albin, mas alguém anda vacilando, o governo? Verbas? Faltam profissionais que entendam e amem MPB? Estou procurando emprego.

Essa música vai a propósito de uma mulher que me disse que estava produzida para sair para qualquer bar e dar para qualquer um, e que no dia seguinte veio me dizer que tinha bebido, que era mentira. Então tá. Normalmente o Joca aqui tolera três mancadas antes de mandar longe. Nesse tipo de manifestação caio fora na primeira. Pois não foi a primeira vez, de bobo tolerei uma anterior.

Sabia que eu estava compromissado com problemas familiares e sem dinheiro. Se tem algo que conheço desde menino é esse tipo de gente: mulher fácil e raivosa. Como dizia o samba "Me enganei redondamente, com você, ó flor", mas não levou muito tempo não, nem um ano.

Vou matar o marido dela, dar-lhe um defunto fedido e mal-intencionado de presente de Natal, o marido que ela escolheu por identificação moral, agora se matam por causa de alguma grana na repartição dos poucos bens, enquanto penso se o dano que me causou é motivo para mandá-la também para o inferno.

Se tem algo pior que homem bêbedo, caindo pelas tabelas, caindo na rua, resvalando no meio-fio, o último estágio da decadência, da destruição pessoal, é mulher assim ébria, de quebra dando para qualquer vagabundo em qualquer bar. Pela visão masculina, obviamente.

Choro em silêncio, de raiva e de dor.


sábado, 17 de octubre de 2015

Sábado em Copacabana, o ódio e o Correio do Povo

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Reconsidero o título da postagem. Talvez fosse ganância desmedida em vez de ódio, reflito alguns minutos e concluo que nesse caso essas palavras se confundem, então deixo como está e vou em frente na pequena história.

Sábado pela manhã, o véio Armando e eu no La Maison na esquina da Santa Clara, pés estendidos em cadeiras mirando a Av, Atlântica, lá fora, só de calção, tomando caipirinha e comendo salgadinhos, bem belos, quando assistimos a um atropelamento terrível, uma vovó levando o netinho nenê para encontrar os pais na areia, e pá, um furgão matou os dois, a velhinha atravessou errado. Meu, nunca esqueci aquilo, até hoje me dói ao pensar no casal lá da orla depois. Paralisei de impotência, raiva, foi na nossa frente e nada pudemos fazer. O Véio me puxou: termine a caipirinha e vamos para a água, guri.

Eu já era chefete, mas de fato guri. Não conheço quem não ame o véio Armando Krause, sensacional, como homem e amigo, além de grande profissional.

A tarde seguiu morna, sem vontade. Enchemos a cara depois do mar, na tentativa inútil de esquecer o que tinha se passado às onze da manhã. Fiquei com uma coisa na cabeça, a voz do Graúdo Oristín: "Quem tem muitas não tem nenhuma, Saladinha". Por mim que se explodam.

A gente tinha combinado de à noite ir para o Café Nice dançar, mas a idéia morreu com as mortes.

Bêbedos entramos no Hotel Bandeirantes da Rua Barata Ribeiro ali pela meia-noite, ele foi para o seu quarto e eu para o meu. Abraços, te cuida, meu, te cuida tu também, amanhã é domingo, não fique triste. Sim, vamos pra praia cedo, jogar bola com a negada. O Véio e eu já éramos camaradas do pessoal que joga futebol na areia, a gente entrava um para cada lado, eu prometendo que iria lhe dar um balãozinho.

Do meu apartamento de fundos vislumbrava onde morava a baiana Rosália, num predião da Tonelero, que me amava de amor e luxúria, ui, e, deixa pra lá.

Mal entrei no chuveiro para tirar o sal e tocou o telefone.

- Sim.
- Cabelinho, pegue o primeiro avião amanhã para Porto Alegre, a "***** vai te ligar, já mandei olhar os horários de vôos, está tentando pelo das 19 da Varig.

A gente gostava desse das 19, um luxo, o 737 levava 1:30h no máximo direto Rio-POA, normalmente 1:20h. Ele me chamava de Cabelinho por uma nesga que me caía na testa, cabelo fininho.

- Não quero ir, doutor, não terminei na controiada da Brahma, ainda estou na Cidade, na sede da Skol, e prometi aos diretores da Brahma que volto lá na quarta-feira.

- Mando outro pra Skol, com o pessoal da Brahma já conversei, tu vem para Porto Alegre, terça-feira começaremos auditoria num novo jornal, e quero você chefiando a equipe, pelo menos nesta primeira visita.

- Não vou, Dr. Ah, não, aí não quero ir, se é aquele jornal que estou pensando...

- Estou mandando, vem sim.

Fui no vôo das 19 de domingo. Segunda-feira conversei com os colegas que iriam comigo, a preparação técnica, orientei quem vai fazer isso ou aquilo, depois aquele papo de sempre, evitar opinião pessoal, ser gentil com os funcionários da empresa, se der bronca eu assumo, etc.

Na terça-feira nos encontramos todos na frente da sede do tal outro jornal, às 8 da manhã. Todos sabendo da recomendação, ordem, do doutor querido, ao final da tarde de segunda-feira, quando disse que era proibido citar "Correio do Povo". Eu ri, com saudades do Rio de Janeiro.

Ao entrarmos falei: - Não esqueçam o que o nosso dono falou, é proibido falar em Correio do Povo, tem uns judeus aqui que o odeia, quer quebrá-lo, tem política no meio, vocês sabem onde estamos nos metendo.

Os colegas auditores assentiram, todos sérios.

Entrei na sala de reuniões deles, junto com meus dez auditores, todos homens feitos, com menos de 30 ou beirando os 31 naquela ocasião, eu tinha uns 33, era “guri”. A sala cheia de diretores e gerentalhas, estavam nos esperando, antes de estender a mão ao chefão deles, parei e exclamei para um dos meus:

- Esquecemos de comprar o CORREIO DO POVO! Vai lá na banca e compre, meu colega, por favor.

No outro dia eu estava empernado com a Rosália em Copacabana.

O meu dono fulo comigo em Porto Alegre.

Eles não sossegaram até liquidar com o seu Caldas Júnior.
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Sozinhos em Acapulco

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Eu mentia a ela que o meu trabalho era cuidar de uma garagem das cinco da tarde até às oito da manhã. De repente virava o turno, eles me telefonavam. Nunca tive hora.

A gente precisava comprar um apartamento, eu queria lhe dar uma vida melhor, melhor que aquela casinha florida que tínhamos no Morro Santana.

Meu negócio era outro, muito diferente, assalto a banco de capuz preto e armas pesadas, não para atirar em alguém, para proteger o cara do maçarico, malditos caixas eletrônicos, rendem pouco, para dividir por vinte, nós e os informantes. Uma merreca.

Tinha dias em que eu inventava viagens, o patrão insistiu, gosta de mim, vou ganhar mais alguma grana, nega. Ficava fora duas semanas.

Sem ela saber, por precaução, de tanto que eu a amava, desde que resolvi ir para o inferno, para junto dos banqueiros, deixava um amigo cuidando de longe pela sua saúde. Ela ia pro coleginho da vila lecionar.

Um dia um dos meus negros a viu muito alegre, na minha ausência, toda fresca para um branco de carrão.

Nesse dia a gente iria entrar com tudo numa agência bancária ali de quem vai para o estádio Olímpico. Ficamos meses cavando o buraco desde o outro lado da rua, emperramos num duto do departamento de águas, aí achamos melhor entrar à luz do dia, mascarados, mais fácil. Entramos.

Eu pensando em três anos antes, quando ela vivia sozinha, uma coitada a quem alimentei, curei as feridas, vesti. Amei.

Matei o gerente quando se meteu a esperto, apertou o botãozinho embaixo, cinco disparos da AK7. Filho da puta, lambe ovo de banqueiro, perdendo a vida pelos assassinos. Eu sabia que o gesto do cara seria inútil, mas atirei igual. Tínhamos tempo e camaradas na polícia que desligaram tudo por acidente naquele momento. Dez minutos.

Deixei a mulher para lá, o trabalho era mais importante. Na hora me prometi: vou ficar quieto por um mês ou dois anos. Quando apaguei o gerentalha eu pensava em enchê-la de roupas lindas, viver um pouco naquela praia maravilhosa, gozando do bom e do melhor, para só depois enforcá-la de madrugada, no bangalô à beira-mar em Acapulco, sabendo o que perdeu. 

Os camaradas me estranharam quando queimei o otário, sabiam que não gosto de morte, mas ninguém ousou me criticar.

Neste golpe, onde recuperei um pouco do que os banqueiros roubam, minha parte foi dois milhões. Com a grana na mão, que um finório depositaria em meu nome lá longe, pensava nela: Ah, querida, vamos para uma praia mexicana.

Cheguei na soleira da casinha lá no cimo do morro e ela correu me abraçando apertado: Ai, Bruno, meu amor, que saudade!


Voltei, negra, tu nem sonha com o que te espera, meu amor, vamos sair do país. Para Acapulco, arrume as trouxas que o avião sai nesta noite.
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