martes, 19 de abril de 2016

Da tortura

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Trocando impressões com a amiga bonairense Norma Leticia López, a propósito do horror da tortura por regimes ditatoriais, ponderei que na Argentina muitos foram condenados, até generais, enquanto que no Brasil permanecem - os ainda vivos, pois muitos já morreram - todos impunes. Ela respondeu:
- Sí. Aunque todavía faltan los civiles.
Com efeito, o ovo da serpente em todas as ditaduras da América sempre foi civil. As elites empresariais – industriais, latifundiários, escravocratas, etc. - unem-se para golpear o estado de direito que não lhes convém, negando ao povo qualquer evolução humana e econômica. Querem escravos, não concidadãos. Os militares são manipulados para os protegerem de revoltosos, sempre os há. Não raro os militares, já distantes da função única e primordial de defender a pátria de agressões externas, galgados de empregados do povo a reis-ditadores, tomam gosto pela nova função e o pau pega, passando por cima de qualquer senso mínimo de justiça.
No caso da América do Sul, sempre com o dedo do império que cobiça e vive das nossas riquezas.
Bem, isto qualquer colegial sabe. Queria dizer outra coisa.

Certa vez em Porto Alegre alguns amigos e eu esperamos pelo Dia de Finados para abrirmos umas garrafas de champanhe guardadas há muitos anos, para amargamente comemorarmos a condenação à prisão perpétua de um dos maiores assassinos da ditadura argentina, o capitão Alfredo Astiz, o "anjo loiro da morte". Aqui não tínhamos justiça a comemorar, então nos unimos em alma aos irmãos argentinos, para purgar o sofrimento na exposição pública dos seus crimes.
Aquele indivíduo com alguns traços que lembram um ser humano sequestrou e matou, entre tantos, ao jornalista, escritor e dramaturgo  Rodolfo Walsh, que então contava com 50 anos e não conseguia se conformar com a situação em seu país (para além da perda de sua filha Maria Victória, de 26 anos, em enfrentamento com os carniceiros), no dia seguinte à divulgação de sua Carta Abierta de un Escritor a la Junta Militar. O sociopata amava ferir pessoas indefesas, mas ao primeiro tiro rendeu-se covardemente aos ingleses na Guerra das Malvinas.
Há quem afirme que essa grotesca figura assassinou Francisco Tenório Cerqueira Júnior, pianista que acompanhava Vinícius e Toquinho em shows em Buenos Aires, e que no dia 18 de março de 1976 saiu do hotel para comprar um remédio e nunca mais voltou. Foi torturado por nove dias, e quando constataram que não tinha envolvimento político, que foi engano ou maldosa denúncia, possivelmente o tinham confundido com outro brasileiro, o mataram com um tiro na cabeça.
A ilustração do rosto do torturador é do artista uruguaio Alfredo Sábat, argentino por adoção.
Enquanto isso, no Brasil, depois de tantos anos, ainda temos o terrível desprazer de assistirmos, em rede nacional de tevê, um indivíduo da mesma laia exaltando um dos maiores torturadores brasileiros, ao tempo em que propunha mais um golpe, agora branco, nas barbas da nossa cega e cúmplice "Justiça".

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Correr para onde?

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Amigos, não aguentei e desapareci, aquele maldito câncer acabou comigo. Curei-me, claro, gastando o que não tinha, mas desabei por dentro, o egoísmo e a ingratidão humana me marcaram para sempre.

Tantos anos se passaram e agora creio que posso voltar.

Sigo morando neste cubículo da Rua Otávio Correa aqui na Cidade Baixa, a velha tá com 89, naquela fase que tenho que lhe ajudar a tomar banho, e caduquinha da silva, foi muito judiada na vida, esquece de me cobrar o aluguel do quartinho, mas um dia essa mordomia vai acabar, por enquanto os seus parentes sabem que cuido dela, coisa que eles nunca fizeram, mas quando morrer tou frito, se eu não estivesse aqui já teriam fincado a coitada da D. Iraci num asilo público e vendido o casebre.

Tou devendo na Mercearia do Nelson lá da Av. Venâncio Aires, uns cigarrinhos paraguaios, isqueiro, cachaça e mais umas coisinhas; tou devendo anos de contribuições pra sindicatos de classe, há cinco anos tou devendo pro dentisto, se presidenta resulta em presidente, se empresária dá empresário, então chamo de dentisto, é macho, na época paguei com cheque frio dois implantes e algumas obturações.

Tou devendo duzentos mil para um agiota fiadaputa - o banco Itaú, ele diz que deixa por quatro mil mas este não vou pagar mesmo que eu pegue na Mega; tou devendo pruma mulher, proutra mulher, bem, prumas trinta mulheres que já sumiram da minha vida quando sentiram que daqui não sairia nada.

Não devo luz nem água porque é gato, nesse ponto dou lucro pra D. Iraci. A internet também é gato.

As roupas puídas, comprar novas de que jeito? Sapatos furados, uma droga em dia de chuva.

A Glock e o 38 sem balas, se for atacado pelos nazistas do Parcão, uns que gostam de espancar quem aparenta ser mendigo, terei que me arranjar só com o punhal.

Como estou com o nome fodido em todos os órgãos de proteção ao crédito dos bandidos, arranjar trabalho nem em sonhos, até porque cassaram meus registros profissionais de atuário, advogado, filósofo de meia-tigela, sociológo (este eu rasguei em homenagem ao FHC), até de gigolô.

Para dar uminha de vez em quando pego uma alemoa bunduda de um puteiro da Venâncio lá perto da João Pessoa, ela gosta de mim, faz no amor, mas tem que ser rapidinha pra ela não ter problemas com a cafetina.

Não tomo uma cerveja há séculos, o preço é um roubo. Só pinga mucufa, uma garrafa me dura três dias. Livros eu leio, a moça da Biblioteca Pública deixa eu levar pra casa, toda semana pego cinco, na outra semana devolvo e pego mais cinco.

E por aí vai, não falo em alimentação para não provocar choro nas amizades, só digo que não estou tísico com as sopinhas da velha porque de vez em quando trago umas bananas da Merceria do Nelson.

Pressionado assim, na noite passada sonhei em pegar os 90 milhões da Mega na quarta-feira. Sei que a grana está reservada para magnatas e políticos ladrões, as regras de apostas determinam isso, mas sacumé, de repente um milagre.

No sonho me veio claramente os números, os vi luzindo em doirado no escuro do meu quarto, nove números, sei que os seis que preciso estão ali. O diabo é como jogar, nesta dureza.

Fiz as contas: tenho 459 amigos no Facebook, se cada um me mandar cem contos, junto 45.900,00. Faço a aposta, pago a Mercearia, o dentisto e as mulheres, o restante que se foda, não pago, e sobra dinheiro. Só não sei como pegaria a grana, se os amigos toparem, pois obviamente há anos encerraram minhas contas bancárias. Aceito sugestões.

Ah, se eu pegar as noventa milhas, retribuirei distribuindo pelo menos metade da grana aos amigos. Com uma partezinha da minha metade compro uma mansão e levo a D. Iraci morar comigo, com direito a babá.

Se não pegar, com a grana que sobrar do empréstimo dos amigos e amigas do Face compro munição, muita munição, saberei o que fazer para ganhar dinheiro, logo estarei enviando regularmente dividendos a quem apostou em mim. 

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lunes, 18 de abril de 2016

Aristarco de Serraria, na inauguração de "A Crônica do Dias"

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Como todos sabemos a história registra a passagem pelo nosso planeta de Aristarco de Samos (310 a.C. - 230 a.C.), astrônomo e matemático grego, que foi o primeiro cientista a propor que a Terra gira em torno do Sol (sistema heliocêntrico) e que possui movimento de rotação. Por tais afirmações foi acusado de ímpio, algo como o ateu de hoje em dia, pelo legislador Feliciano Galinha Louca, que, junto com Jair Tortudélio, eram os ignorantes da época, os temos em todas as épocas. Bom, só para chegar ao ponto.

Devido a excelente cultura de seu pai, que embora remediado era dado a leituras, o personagem Aristarco de Serraria (do conto “A cabeça de cada um”, in Um Amor em Porto Alegre, 2015, 176 pág., Ed. AGE), ontem lembrado pelo amigo Luciano Moojen Chaves, custou a ser registrado no cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais da 5ª Zona de Porto Alegre, lá na Rua Dr. Campos Velho, até que ali pelos seus sete anos o velho, já ciente de que o guri era diferenciado, resolveu registrá-lo como Aristarco.

O Serraria ao final é apelido antigo e deve-se ao bairro em que nasceu. Era para ser “da” Serraria, mas ao assinar seus escritos optou por “de” por lhe parecer mais elegante.

Bem, vai trecho do meu longo conto (para mim, tratando-se de conto, 14 ou 15 páginas é longo). O ambiente é o Botequim do Terguino, ali no Beco do Oitavo, na divisa da Cidade Baixa com o Centro da capital gaúcha.

“O filósofo Aristarco de Serraria entra no bar de costas, chamando a atenção da confraria, que ao vê-lo já sabe o que houve: novamente teve alucinações, o boêmio sofre de uma síndrome rara, nasceu assim, que faz com que sinta o mundo rodando em torno de si, por vezes os objetos alçam vôo e ficam enlouquecidos girando ao derredor. A turma apertou as cadeiras e ele sentou-se, dizendo:

- Beijos para todo mundo. Bah, eu ia passando na frente do edifício Palestra Itália da Salgado Filho e o balança-mas-não-cai ergueu-se do chão e veio me seguindo, valsando, vão lá fora e olhem para cima. Hoje eu juro que é de verdade.

Ninguém foi, claro que um prédio de mais de dez andares não iria levantar vôo para seguir o maluco ao som de valsa. Luciano começa a assoviar Desde el Alma, provocativo.

- De outra vez foi o prédio da Prefeitura, depois o Mercado Público, entre outros, Ari. E aqui dentro, como é que está?, perguntou Silvana Maresia.

- Vocês e os chopes estão voando de ponta cabeça, com cadeira e tudo, façam-me o favor, não precisam girar tão rápido, me deixam tonto."

Bem, até aqui foi para os amigos entenderem, como entendem os boêmios, o que aconteceu hoje à noitinha.

O filósofo boêmio entrou no botequim tonto, trôpego, se segurando nas mesas. Quanto sentou disse que desde ontem é o prédio do Congresso Nacional - quase escrevo Carnal - que o segue por todo lugar.

- Normal, Aristarco, você já deveria estar habituado, disse Chupim da Tristeza.

- Estou, sim, é que nunca me aconteceu isto antes, pela primeira vez sinto que vai cair em cima de mim! Vão lá fora e olhem para cima, hoje eu juro que é de verdade.

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A coluna A Crônica do Dias, a exemplo de A Charge do Dias, leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. 

Ele tem as ideias mas eu que pago o pato, terei que escrevê-las, sempre que possível ambientadas no Botequim do Terguino. Antes eram dois bares, que se... fundiram, face a dívidas com o sistema agiotário, desaparecendo ambos levando todos os bens e surgindo outro, limpinho de contas, num negócio de falência de engrupir, mas não entremos em tecnicalidades, disso quem entende é a Fiesp. 

O novo bar, com outro CNPJ, em nome da Leilinha Ferro como testa de ferro, manteve o nome fantasia de um dos falecidos botecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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Controle remoto, minha gente

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Atendi a intimação. Entrei no prédio do Bureau do Distrito Federal intrigado, afinal que diabos queriam comigo? Fiz tudo direito: relacionei os modestos bens adquiridos durante a vida – todos os que estavam no meu nome, paguei uma carrada de dinheiro, com correção monetária, juros e multa. O guarda-livros insistiu para que eu regularizasse apenas os últimos cinco anos, chegou a ser insolente. Ao dispensar os conselhos do ladrãozinho de gravata esclareci que eu nunca soube fazer as coisas pela metade.


Foi a primeira e última vez que apresentei Declaração, de rendimentos com ou sem origem.

Como abatimentos eu havia considerado somente as doações e os dependentes. No formulário, como único elemento digno de nota, tinha a observação que escrevi abaixo da assinatura: “Senhor Collor, não faça como o Sarney, aplique a grana direito”. Eu sou pelo direito, e o homem me convenceu.

Depois de um chá de banco, sentei na frente do indivíduo. Ele disse:

- O senhor não se preocupe, queremos apenas alguns esclarecimentos sobre as doações e os dependentes. O restante está correto, foi acertada a sua decisão de pagar os atrasados, pois vamos dar início a uma devassa.

Interessei-me.

- Que ótimo, meu amigo, quer dizer, então, que os grandes empresários e os políticos, todos os que tem bilhões enrustidos no exterior, estão com os dias contados? A moçada lá da cadeia vai adorar ter essa gente como companhia... A navalha vai cantar.

Ele ficou sisudo, certamente para evitar que eu continuasse tomando aquilo que ele pensava ser liberdades. Disse:

- Quem for pego, irá. Mas, vejamos...

Abriu a minha declaração. Começou a cantilena:

- Doações a creches: somente serão válidas se o senhor apresentar a documentação... Nem consta o CGC...

- Que CGC, cidadão? Desde quando creche caseira, na periferia, tem registro?

- É a lei... Tem mais: distribuição de cesta básica em vilas também não pode, infelizmente. Veja bem: não estou dizendo que o senhor não realizou as despesas, é que existem condições e limites, o seu contador não viu isto?

- Ver ele viu, seu doutor, mas era pago para não ver nem discutir, também tenho os meus limites...

O indivíduo achou que eu estava brincando, sorriu. Muito engraçado, o fiscalzinho. Continuou a brincadeira, lendo a relação de dependentes, em voz mais alta que o necessário:

- Maria Helena Mendonça, nascida em 1º de setembro de 1963; Regina Lemos, 6 de novembro de 1969; Vivianne Moreira, 5 de janeiro de 1972; Karina Martins, 10 de março de 1973; Dione de Jesus, 8 de julho de 1973; Jucilene Quiroga, 16 de dezembro de 1973; Sonia Sem Nome, sem data...

Aqui ele esforçou-se para não rir. Notei que os seus colegas a toda hora passavam diante da porta, espiando para dentro. Continuou:

- Luciana Dal Vitta, 9 de abril de 1974; Vilma Conceição da Silva, 24 de dezembro de 1974. Estas pessoas estão arroladas como irmãs. Agora as suas filhas: Carla Mendonça Luna, 11 de novembro de 1985; Márcia Mendonça Luna, 18 de janeiro de 1987; Vera Lemos Luna, 16 de outubro de 1989; Zilda Luna, 21 de outubro de 1989; Lunera de Jesus Luna, 15 de fevereiro de 1990; Marta Sem Nome Luna, 29 de junho de 1990; Cláudia Dal Vitta Luna, 13 de novembro de 1991. Ufa...

- Ufa o quê? Sei que esqueci de botar algumas.

Olhei sério para o sujeito. Somente então ele deu-se conta de que eu não estava gostando do negócio.

- O senhor me desculpe, mas... o problema... o problema é que suas irmãs tem nomes diferentes, e os nomes das suas filhas correspondem, com uma ou duas exceções, aos nomes delas...

- E daí?

- O senhor deverá apresentar as certidões de nascimentos das filhas, além de comprovar que as suas... irmãs são realmente dependentes.

Entendi: eu ia me incomodar. Esses caras são estranhos, não se flagram. Falei:

- Não vou trazer nada, não, meu amigo, mas gostaria muito de saber quando o senhor ganha, para ficar enchendo o meu saco, acaso tenho cara de marajá? O senhor já investigou as contas dos banqueiros, dos empresários, dos malditos políticos, que só agora sei que não passam de ladrões, do presidente do Congresso para baixo?

- O que o senhor quer dizer com isso?

- Nada de especial. Ah, o senhor já parou para pensar de onde sai a grana que uns e outros usam para pagar resgate em sequestro, ou para mandar de bilhão pra fora do país?

- Está querendo me ofender?

- Nada, esquece. Vamos em frente: o que é mesmo que o senhor deseja de mim?

- Bem, o senhor terá que refazer a declaração, retirando as deduções que não preenchem os requisitos. A diferença de imposto não será grande, perto do que o senhor já pagou.

- Bem, “seu”...

- Fernando Gusmão.

- Pois é, seu Fernando, não vou mudar nada. Acreditei no presidente e declarei tudo, é tudo verdade. E declarei porque torço para que ele consiga melhorar a vida do povo – dessa gente sofrida como eu, que alguns desgraçados sempre teimam em prejudicar, das outras irmãs que não conheço, das outras crianças... Não, não vou mudar nada.

Ele fechou os papéis, encerrando o assunto. Disse:

- Doido ou não, o senhor irá receber um auto de infração. Agora retire-se.

Pois não é que o senhor fiscal irritou-se? Falou como se dissesse “Contra a força não há resistência”. Dei-lhe uma última oportunidade:

- Se eu fosse o senhor, “seu” Fernando, não ficaria me ameaçando...

- Pois o senhor vai receber o auto de infração, sim, sem prejuízo de outras sanções. Retire-se!

Ele não entendera a mensagem. Decerto por ansioso que eu saísse, para correr contar aos colegas que havia topado com um maluco. Deve ter rido muito depois.

Saí furioso, aquilo já estava me tirando do sério. Eu deveria ter deixado o maldito guarda-livros explicar direito lá atrás, antes de encher-lhe a boca de formigas.

Quando cheguei na sede telefonei e acertei o contrato para o “seu” Fernando, para matar um fiscalzinho eu tinha quem fizesse o serviço de graça. Ainda irritado acabei dando um tiro na perna do Japa, mandei-o encomendar um quilo de plásticos de Hong Kong e chegou dez, uma fortuna gasta sem necessidade.

Ontem entrei novamente no prédio, atendendo a quarta intimação. Ouvi outro cara pacientemente, sem reclamar, dizendo que o meu processo estava parado devido a uns problemas internos, e toda aquela conversa das vezes anteriores.

Apenas fiz questão de saber o seu nome completo. Desci pelas escadas. Enquanto decidia se o problema interno seria um acidente de carro ou uma queda nas escadas, examinei detidamente as estruturas do edifício. Se me mandarem mais uma intimação, não vou atender, tive uma ideia brilhante.

Chegou a quinta intimação. Mandei o Japa buscar no porão os nove quilos de explosivos plásticos que restaram.

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A ilustração é do Frank Maia.


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jueves, 14 de abril de 2016

Sifdoendo-se

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Revendo aqui o livro "Chove em Belo Horizonte" já com ponto final, me deu vontade de escrever as palavras que seguem, no contexto de uma história lá dentro. Deixei pra lá, fica para outro.

É mais, como dizia Aracy de Almeida: "Tem mais coisas", mas encurto o relato.

Conheci vagabundos, criminosos, pobretões, ricaços poucos, que eram unânimes em apenas uma coisa: 

"Guampa ninguém merece, malandro, larga do cara e vai sifdoer com quem quiser".

O mesmo para o sujeito que trai a mulher. Sei, tem as crianças, é complicado, aquela de eu era muito bobinho quando casei, mas ainda assim. Os cabarés andam cheios de gente assim, que no outro dia posam de moralistas na sociedade.

Já contei em outro lugar: pelo furinho da parede de um quarto de bordel eu as outras mulheres espiávamos, a pedido da que estava lá dentro, um dirigente de um grande clube dizer para a nossa colega: 

"Caga no meu peito, vagabunda, quero sentir o fedor da tua merda".

Tara é tara, todas respeitáveis. Dessa não gostei nadinha.

Ela, que estava avisada com antecedência da sua visita, tinha tomado um comprimido, aí se abria toda por cima e defecava escorrido.  Gosto é gosto, mas ele tinha uma bela mulher em casa, eu ficava me perguntando se a esposa o conhecia mesmo, depois de tantos anos juntos. Por que não pedia para ela, se se amavam?

Taí, por erro de digitação acabo de inventar outro verbo, sifdoer. Mistura de se foder com se doer, para acabar doendo em alguém, só pode.

Só eu sei o que vi e passei. Hoje, há décadas, não minto pra nenhuma, Se quiser é assim. Se não, vai sifdoer, arranjo outras. Levei sim, mas chegou um dia que resolvi começar a ensinar as mulheres a viver, bola nas costas não, nega. E dei o exemplo, contando tudo. Bola nas costas me perde, se não der morte.

Se não mentir, sifdoa-se como quiser e com quem quiser, cuidado com doença apenas, remédio está caro hoje em dia, hospital nem pensar.

De lá pra cá comecei a ser feliz. Moro com 27 não mais doídas, a mais velha é ex-mulher daquele dirigente, taradinha como só. 

Cada um sai e transa com quem quiser, sem culpa, a vida é uma só. Pode parecer estranho, mas ninguém sai buscar porcaria na rua. A gente se diverte, fazemos comida, contamos piadas, jogamos cartas, nos bastamos. Temos amor. Confiança.

Mentir, esse é o imperdoável crime, jamais, aí não vai. Tem gente que pensa que o crime é dar pra outro ou outra, ora, dar o que é seu? Cada um de nós, humanos, é dono do seu corpo e da sua mente.

Não, o crime, pela ignorância mútua, é mentir. Aí, como dizem os aprisionados da Penitenciária de Charqueadas, qualquer um sai do sério.

Ou vira manso, motivo de riso pelas costas.
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martes, 12 de abril de 2016

As damas de copas

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Levei cinco paradas de pôquer, uma atrás da outra, cinco sequências de paus, em baralho de cinquenta e duas. Tomei a grana deles. Os caras alucinados, roubam e não sabem perder.

O cara mafiosão, os outros iam por ele, encrencou, insinuando que eu estava roubando, mãos ligeiras. Eu disse olha, prezado senhor, te mostro que não. Embaralhe, vou olhar pro outro lado, e eu tiro uma das duas damas de copas.

Olhei para trás enquanto ele embaralhava. Escorreu as cartas de costas na mesa, pode vir, ele disse. Olhei para o céu, para além do teto, depois fechei os olhos, e tateando tirei a dama de copas. A outra eu sabia que estava lá no finzinho.

O muquifo paralisou ao ver aquilo. O sujeito perdeu o moral em Curitiba. Insistiu, tem algo errado, e eu disse tiro de novo, traga dois, um só não dá graça.

Vieram mais dois baralhos novos, total 104 cartas. Ele tirou o lacre e embaralhou, eu de costas. Disse pronto, me voltei e de novo, mirei o céu, fechei os olhos e novamente com os dedos da mão direita tirei a dama de copas.

Aí a carpeta estremeceu, Sentiram que estavam lidando com um louco. Alguns homens me tocaram para pegar luz. O mafioso-mor ficou de beiço caído, olhar mortiço para a dama querida.

Foi quando de novo fechei os olhos, estendi a mão, tateando nas cartas, e tirei outra dama de copas, e outra, e outra.

Ficaram as quatro deitadas para cima, lindas, e eu disse é isto mesmo, senhores, não sou homem de uma mulher só, enquanto por baixo engatilhava o 38 com a mão esquerda, pois, sendo do naipe que sou, há muito tinha decidido mandá-los todos para o inferno.


domingo, 10 de abril de 2016

Reflexos em ré menor

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Resolvi testar os reflexos do Gatolino e o atirei aqui da sacada, sétimo andar. Caiu como bailarino, se agarrando no galho mais alto da arve lá debaixo, ele se dobrou e voltou, meu gato junto no balanço.

Soltou um miau comprido. Como falo gatês entendi, ele dizia: agora, Salinha, desce pelo elevador e vem aqui me buscar, aí desço da arve pro chão, não vou ficar aqui pendurado feito passarinho.

Melhor não, teimei depois de dois copões de pinga. Resolvi testar os meus reflexos, gritei tou indo aí meu neguinho e me atirei de lá de cima. Passei a mil por ele.

Agora tou no HPS, não consigo mover a cabeça.

Solto um miau engasgado, em gatês pedindo socorro pro Gatolino, e a enfermeira diz pro médico esse cara é louco.

Lá de longe ouvi o Gatolino, com miau em ré menor, som que entrou pela noite, dizendo já estou indo.
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sábado, 9 de abril de 2016

O Sombrero do Papa Francisco

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Todos sabemos que o seu Jorge Bergoglio, velho amigo deste Sala, hoje Papa Francisco, antes de ser Papa era odiado pelo Vaticano - ainda é - pela sua opção pelos pobres da grande Buenos Aires, da América e de todo o mundo.

Bem, depois que virou Chicão, nessa formidável revolta do terceiro mundo, África chegando junto, um dia voltou a Buenos Aires e foi lá na igrejinha mais humilde, na Villa 31, um dos bairros mais miseráveis, rezar uma missa.

Saindo de um boteco que tinha estourado duas quadras adiante, um boemio argentino foi cambaleando pela rua com o violão às costas, chapéu na cabeça, paletó com poucos trocos dentro e uma garrafa de marafa no bolso de fora, em direção à igrejinha, era caminho.

Ao passar viu aquela movimentação toda, a igrejita superlotada de gente, e pensou: é nessa que eu vou, tem festa aí, começaram cedo, esses viados, e nem me convidaram.

Foi passando pela multidão lá fora, não cabia todo mundo lá dentro, e conseguiu chegar à porta da igreja, o barraram e mentiu: sou convidado como artista, e passou.

Foi se apertando, levando cotovelaços mas passando pelas gentes, queria chegar lá na frente. As pessoas importunadas diziam: "Señor, el sombrero". Mas um passo e "Señor, el sombrero...", era El Sombrero a cada passo que dava.

Lá no fim o Papa falava palabras boas, conselhos de amor. Peguei o show no começo, pensou.

Alegrou-se. Conseguiu a pau e corda chegar lá no "palco", que era o púlpito, subiu e olhou de modo estranho para o Chicão, disse: "Viejo, como tu é parecido con nuestro amado Papito", isso em espanhol, né, não em portunhol.

Ajeitou o chapéu na cabeça, deu uma dedilhada forte no violão e exclamou para a hinchada:

- A pedido de todos me voy a cantar El Sombrero!

O Papa sentou no chão e sorriu para ouvir o artista.
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