sábado, 10 de marzo de 2018

QUANDO PRECISEI

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Maldito o dia em que precisei, sem emprego por ser honesto demais, ora demais, ou se é honesto ou não é.

Sumiram todos. Todos eles e elas: amantes, parentes e amigos.


A pessoa sabe que precisa ir ao agiota, digo, ao banco, tirar o saldo. Com medo não vai, diz pra si mesma vou amanhã, e os dias passando, amanhã vou sem falta, e não vai. Gasta pouco na mercearia com cartão de débito, de crédito não tem, um quilo de arroz, um pé de alface, um toco de fumo em corda e uma garrafa de pinga mucufa.

Passa o cartão morrendo de medo que diga que não tem o suficiente, uns 15 reais. Ufa, passou.

Hoje vou lá tirar o saldo, naquela de seja homem já que a vovó Marica não foi.

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(Fragmento do conto "Quando precisei")
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FUI MAS NÃO FUI

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Eu lá deitado no meio da capela 6 do São Miguel e Almas, deixando o tempo passar, curtindo a experiência nova. Alguns choros no entorno, de lágrimas e instrumentos musicais. Bem belo, despreocupado, chega de problemas, pra mim deu. Com padreco não preciso esquentar a cuca, minhas filhas não deixarão pisar no ambiente, muito menos abrir a boca.

Brigaçada de mulheres, ele era meu, sua vagabunda, teu coisa nenhuma, era meu, tapas, gritos, tinha umas trinta se agredindo verbal e fisicamente, até garrafada saiu. Eu quietinho na minha, não sou bobo. Acalmaram as onças, por enquanto.

Imaginei as minhas 37 filhas roxas de vergonha pelo gritedo das tiangas. Ouvi alguém dizer a elas: deem uma saída, meninas, fazer um lanche, descansar um pouco. Lá se foram elas, pois parou o choro lacrimal que tinha do meu lado esquerdo.

Chega um amigão, me olha e diz: "Enfim parou de beber e fumar, né, loco, vai com Deus, meu irmão, não demora estaremos novamente juntos". Até políticos apareceram, nunca fizeram nada por mim e vem fazer média, os filhos da puta.

Foi então que um sujeito que não ia com a minha cara inventou de dar discurso, exaltando as minhas supostas qualidades. "Um gênio, teria ganho um Nobel de Literatura se fosse jornalista e as editoras publicassem os seus livros...".

Foi demais, não aguentei, sentei no caixão: "Deixa de ser hipócrita, meu chapa, tu fez de tudo para me prejudicar na vida!".

Foi uma correria danada. Ficou só a nega Zilda, com os olhos arregalados. Desci de lá, quase derrubei o esquife, e perguntei: "Onde é o bar mais próximo, minha nega, tou com sede, vamos juntos?".

(A ilustração é do Edra Amorim)
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sábado, 3 de marzo de 2018

AMO

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Hoje a solas com a Jacira e a Aline demos de contar histórias, verídicas. As gurias me saíram com cada uma, das tarinhas dos caras no tempo em que elas rodavam a bolsa na rua, desde chupar o dedo mindinho do pé até pedirem introdução de garrafa de Coca-Cola no ânus. Teve até um presidente de um famoso clube de futebol que pedia para fazerem cocô em cima dele.

Eu contei uma singela, pois taradices, se as tenho, são leves. 

Duas da madrugada. No covil estavam eu, a nega Eliete, 26 anos linda e gostosa, recém separada, uma baixinha enfermeira de 30, tarada como só, e uma dona boazuda de 29 que levantei na PUC, esta que fazia eventuais programas para poder pagar a faculdade, conosco estava no amor. Só gente fina e amorosa.

Eu resisti na cama grandona mas elas me acabaram, era demais para a minha bola, leite pra todo lado, lamberam, chuparam o pau já meio mole, ui que delícia. A Eliete em noite de estréia não vacilou, as outras a chuparam e beijaram até cansarem e ela foi decente e valente, retribuiu. Falei vou lá na sala tomar uma cerveja e botar uma música, sigam de festinha. 

Elas continuaram de beijos e chupações. Abri a cerveja, sentei no sofá da sala e fiquei ouvindo o disco. Ouvia os gemidos de lá do quarto, palavras de assim, mais para cima, puta, ai querida, aperta...

Uma hora depois elas se exauriram, vieram peladas para a sala, bem felizes. Aí a Eliete, com os olhos brilhando me beijou a boca e com a singeleza dos simples, era a que tinha menos estudo ali, sorrindo me disse:

- Eu não sabia, meu amor, mas não é só pau, eu também amo chupar buceta.

Ficamos rindo dessa tirada até o amanhecer, quando depois de comer pizza reiniciamos os trabalhos.
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viernes, 2 de marzo de 2018

LA HIERBA

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Teve um presidente que dizia que fumou mas não tragou. Mentiroso e burro que é uma porta, molengão e guampudão de Paris.

Eu confesso, com 33 anos disse: não vou morrer sem experimentar. Uma tragada só e tonteei, pouca-prática dei um fumadão naquele baseado grosso, a advogada que me deu me apertou o nariz. Pagou caro, pois dali em diante eu não parava de rir, e bateu um tesão dos infernos.

Isso à meia-noite no Alto da Bronze. Sete da manhã e eu ainda ria, ouvindo a Quinta Sinfonia de Mahler via as aves pernaltas dançando num lago imaginário, ela pedindo pelo amor de Deus, tou morta de cansada, saia de cima de mim, eu vou por cima. Pegadeira, não ia me deixar mal, mete cadelinha tesuda.

As aves, a música, a mulher a mil por cima... Primeira e última vez que pitei, uma só tragada. Ela, experiente com a erva e outros caras, que me disse tu não pode, energia estranha, o nego que já sonha acordado sem fumar, imagine fumando, vai pro hospício.

Tou de olho na parte da medicina, vai que amanhã ou depois a erva me salve a vida.




COMO É LINDO O RIO GUAÍBA

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Sou bobinho pero nem tanto, então não guardo papéis da vida profissional em casa. Muitos deles perigosos, digamos. Aqui podem encontrar centenas de contos mal ou bem acabados, nada mais. A papelada perigosa está distribuída por aí em muitos lugares, muitas cópias, milhares de papéis, dezenas de caixas. Prevenção daquela bobagem de se algo me acontecer eles se fodem. Os originais estão parte num cofre em outro estado da Federação, outra parte em outro cofre em Montevideo.

Hoje ao meio-dia saí da Cidade Baixa, dei voltas de despiste indo a Teresópolis, mania de perseguição, mas eles são otários, há meses percebi que me seguem. Levaram o drible lá na Vila Cruzeiro, saí deitado dentro de uma fubica de uns assaltantes de banco meus amigos.

Ali pelas três da tarde estava dentro de um barco indo para o Arquipélago. Rever uns documentinhos antigos que envolvem até o pescoço um gaúcho ladrão da quadrilha do Temer. Há anos não via a nega velha que guarda, só lhe mando uma graninha trimestral, ano passado nem mandei, desamoroso. Levei hoje, junto com as rosas amarelas e brancas.

Estou lá vendo os documas, tomando uma cerveja que a neguinha velha comprou no bolicho, e de dentro de uma mascada caiu um cheque de um tal Banco do Progresso S. A., agência de Cuiabá, nominal a mim. "Dois mil seiscentos e cincoenta cruzados novos", datado e assinado em 29 de novembro de 1989.

Na dureza que ando caí pra trás. Hoje essa grana, com correção pela merreca da poupança dá mais de vinte mil contos, pela inflação real uns cinquenta, por que diabos na época não descontei o cheque? Vá lembrar. O emitente, amado, ainda é meu credor por outras desta vida.

Botei o cheque de volta no meio dos papéis, fica de lembrança. Pedi para a netinha de 14 anos da nega ir lá adiante tirar vinte xerox. Fiquei mais duas horas na ilha, tomando cerveja e relembrando com a negada os velhos e bons tempos.

Voltei de barco com os documas dobrados no bolso interno do casaco, com estes o "Fodão" da Odebrecht se fode comigo.

Meu Deus, como é lindo o Rio Guaíba.
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lunes, 26 de febrero de 2018

MEUS AMIGOS DA PM

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Não posso ver PM, confesso, me dá um nojo... Não dos pobres homens fardados, uns bichos analfas, alguns, outros à procura de futuro, estes últimos gente boa, tem família, obedecem por um salário miserável. Todos precisamos comer, né. Bem, os criminosos de farda, já bandidos, também tem família.

Outro dia fiquei amigo de dois PMs aqui na Cidade Baixa, os guris de plantão na esquina da Rua da Olaria com a... deixa assim. Ia passando, e aí, camaradas, estão em pé há horas, vi de manhã, vou buscar umas cadeiras, tem um boteco ali adiante, ele me empresta... Não, senhor, muito obrigado, disse um. A esta hora não tem crime, de madrugada é que fede. Não senhor, a gente tem que ficar aqui em pé até às 18h, não pode sentar, disse outro. Homens de 25 ou 28 anos, cada um dava um e meio de mim, bem preparados fisicamente.

Bem apessoados, bonitões, gentis, para mim não escapou o fugaz olhar de medo de um mundo estranho que não conheciam.

Puxando papo me contaram a vida, como passei alguns horrorezinhos tenho facilidade de comunicação. De dar dó, mentiram na prova para serem aprovados no nazismo. Logo serão como os outros, pela contaminação, isso eu não disse a eles, vamos com calma.

Sabem usar a arma? Mais ou menos, Sala. Nessas alturas eu já era de casa, disse que eu era o escritor pobre da Cidade Baixa, um já tinha ouvido falar. Se sabem mais ou menos precisam treinar, tem que pegar a arma como se pega em moça, mas rápido, e estão mal ajeitadas, puxem mais para lá e deixem o fecho descolado. Ensinaram que só se toca em arma em perigo real, crime acontecendo? Sim, Sala, ensinaram. Tá bom, muito cuidado, vou tomar uma cerveja e volto aqui na hora de ir embora, vocês são uns ótimos policiais, meus fios, té mais "Fulano", té mais, "Sicrano".

Não sei se os verei novamente, mas vou escrever sobre as duas horas de conversa que tivemos. Jamais os esquecerei, nem eles esquecerão de mim.

De madrugada dá morte, tiros, berros até ao amanhecer. Calçadas cheias de sangue. Quem recebe propina dos bares por isso, para não se ver um PM na rua? Os meninos que ficaram meus amigos é que não são.

Não, a culpa não é daqueles trogloditas de capacete quando em turno de serviço, de plantão para espancar manifestantes, machucar professores desarmados, pessoas que lutam pelas famílias também deles, os PMs, e sim de quem está em cima, de quem sempre esteve em cima. E da incompetência da esquerda quando no poder.

Não mudou nada, bem que no RS o seu José Paulo Bisol tentou certa vez. Sem tirar a valentia, a prontidão para a luta, matar ou morrer, mas mudar algo naqueles cadernos podres da ditadura.

O chefinho deles, que não manda porra nenhuma porque é um boboca leitoso, agora no RS é o Mr. Boate Kiss.
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MIRANDO EM QUEM MESMO?

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Assunto complicado. Não vou à escola desde criança, obviamente. Porém quando era criança lembro que tinha bandidinhos, em especial os filhotes de ricaços, que riam das nossas roupas, do nosso jeito tímido, espancavam os mais fracos e bons de alma.

Se o infeliz tirar um dez, eu vivia faltando aula mas era azarado nisso, merece apanhar de dez riquinhos na hora do recreio, para depois sangrar na hora da saída. 

Assim era. E ninguém lembrou de fazer lei para coibir o horror.

Conheci um tal de Deoni, entre outros, que era igual ou pior, este quando ia na aula ia sem caderno, e na prova também tirava dez, em prova objetiva não tinham como não dar. Era odiado pela direção da escola, por alguma razão ficamos amigos.

Vivo falando em acerto de contas em rua escura. Teria volta um belo dia com os "ruins" de alma, vingativos por si ou outrem. O Deoni nem lembrava, estava nem aí, mas eu sim, lembrava o que fizeram comigo três anos atrás. No fim das contas quites, sem mortes, eles arrebentados com juros e correção monetária.

Para mim profes de cara feia, menino mau, ao me defender de agressão ou risinho. Para o filhinho do doutor, ai queridinho, vai pra casa descansar, o malvado te machucou, ele vai ser penalizado. Lá vinha uma semana de suspensão, para mim não fazia a menor diferença, não iria mesmo na aula. Na volta, dez na prova.

Agora o problema deve ser droga, só pode, que na época não existia, ao menos para as crianças. Quem tem mesada para comprar droga? Eu peguei uma nota de dois merréis aos dez ou doze anos, não dava meio sorvete.

Por que certos meninos e meninas são tão revoltados? Por que um professor não domina com rigor, carinho, retidão, igualdade de tratamento, a classe? Não falo de paciência, porque suponho que é a primeira coisa para quem se propõe a lidar com crianças, todas carregando problemas de ordens diferentes.

Os professores devem saber. Dentro daquele ou daquela que está lá na frente dando a aula mora uma criança, que muitas vezes não separa a criança do professor. Como juiz, esse canalha de Curitiba é um patético exemplo.

E enroscam a espora no pelego, causando danos irreparáveis.

O abjeto e anônimo site Escola, do PSC Bolsonaro:

https://www.soescola.com/2017/04/agora-e-lei-familia-de-aluno-que-agredir-professor-sera-resposabilizada.html


viernes, 23 de febrero de 2018

A ditadura do Facebook

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.Fui bloqueado sumariamente pelo Facebook, sem direito a defesa. Sem direito a defesa, insisto, sem sequer um e-mail ou telefone para que a pessoa possa ponderar algum equívoco da parte do aparelho tecnológico.

O serviço é grátis, por isso podem fazer e acontecer? Não mesmo, cobram bilhões em propaganda, e não ganhariam um centavo se não houvesse usuários na outra ponta. Usuário não senhor: cliente, que paga por tabela, esta a questão que cedo ou tarde será levada aos tribunais, um tal de direito coletivo. Não ficou clara a acusação, mas suponho por uma foto que peguei no Google Imagens.

Aconteceu o seguinte: em 21 de fevereiro a musa Norma Benguell estaria completando 83 anos de idade, se viva fosse, faleceu em 2013. Junto ao carinho em breve comentário, lembrando da grande artista brasileira, postei esta foto, repito, do Google Imagens, que suponho do mesmo grupo empresarial do Facebook, Gmail e outras ramificações.


Na foto da década de 60 aparece o seu pequeno seio esquerdo. Se tivesse um confete em cima do mamilo não seria "pornografia" no entender dos funcionários do Facebook, uma máquina, possivelmente.

Bloquearam-me, enquanto pululam enormes tetas em fotos de carnaval, entre outras coisas. Certo dia vi até um animal pregando um gatinho vivo numa tábua, horror puro, entre coisas piores, repito.

Parece que a empresa se chama Facebook Online do Brasil Ltda., com sede no Itaim Bibi, em São Paulo. A pergunta é: qual é o órgão brasileiro que aprecia essa ditadura? A Justiça, o cara que mora nuns cafundós vai gastar com advogados enquanto está bloqueado? Não, não é isso que falo, pergunto é quem é que fiscaliza a tomada do nosso espaço virtual com tamanha brutalidade, como se os clientes fossem seus escravos?

Abri outra conta no Facebook, e mal tinha começado a recuperar nomes, convidar pessoas, postar saudações aos amigos que viram o convite, e fui novamente bloqueado, agora nem sonho a razão.

Obviamente que se sabe, ou se imagina, os problemas para monitorar milhões de pessoas, até bandidos e qualquer um que queira participar da rede social, não deve ser nada fácil. O que parece inaceitável é não haver um canal de contato para reclamações..

E agora? Se não tenho telefone e o meio que uso para me comunicar com o mundo é o Facebook?
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jueves, 22 de febrero de 2018

GATO DE RUA PELA VIDA

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De tão puto da cara fiz coisas na vida das quais me arrependo. Arrependo-me de algumas, bem entendido, na maioria acertei na pinha. Desta não me arrependo, peguei leve.

Chutei a lata de moedas que o mendigo sentado na calçada ao lado da porta de entrada me estendeu. Puxei a aba do chapéu e subi as escadas. Entrei no cabaré disposto a matar as putiangas e quem mais se atravessasse, ora vão contrariar a puta que as pariu, comigo não.

Elas se chavearam lá dentro do quarto grande, mortas de medo. Os únicos seis clientes do puteiro saíram correndo espavoridos ao verem o 38 de bico para baixo. Não atirei neles, não era com eles que eu estava bravo.

Os dois leões de chácara se mijaram, eu disse corram pro banheiro seus vagabundos, e fiquem lá. Por pouco não queimei um que me olhou descontente de rabo de olho.

Os gatos, ao me verem entrar, esticaram os rabos para cima, ficaram feitos a querida planta Espada de São Jorge, o jeito dos queridos felinos de demonstrar alegria e apreço quando reconhecem um irmão que só lhes fez bem.

Desarmaram-me o espírito, alguém gosta de mim e festeja a minha chegada. Eu tinha resolvido castrar o canalha do veterinário que os castrou mal, bêbado no cabaré, deixando sequelas graves. Para ele ver como é bom. Olho por olho, dente por dente.

Castrar eu sei que é necessário, mas assim não, me aleijou os gatos, andam meio de lado, eu tinha recebido os exames da clínica de gatos onde os levei. O bandido não estava no bordel, teve sorte, sorte que não duraria para sempre. O infeliz errou de homem, não perguntou quem era o dono e irmão dos gatos.

Voltei lá fora, me desculpei com o velho pedinte, por favor o senhor me perdoe, eu tava nervoso, não quis lhe desrespeitar, e lhe alcancei dez contos.

Fiquei sozinho no cabaré, luz negra, numa mesa do meio bebendo vinho e ouvindo uns discos do Nelson Gonçalves. Duas horas depois as mulheres timidamente começaram a sair do quarto grande. Fiz que não vi. Caíram de joelhos na pista de dança pedindo perdão, chorando lágrimas de crocodilo.

Demorei, fingindo que não as via nem ouvia, até Nelson terminar a canção, mas depois as desculpei por um gesto: guardei a arma. Vão lá no banheiro e digam pros leões de araque que os mandei ir embora.

Porém as marquei na paleta, barato não sairia. Vou repetir, putas: ninguém, nem hospital, corta familiar meu, não corta nem vocês, sem que eu esteja presente e autorize.

Levei dois anos procurando, ele tinha dado nome falso, mas era mesmo formado. Um dia achei o veterinário criminoso. Os meus bugres de Eldorado do Sul o trouxeram amarrado para o cabaré, eu queria que elas vissem.

O bandido não gostou nada de ser castrado com faca semi-cega, a mesma faca que ele havia usado com os meus parentes.

Quando ele sentiu o drama pediu aos berros pelo amor de Deus, eu estava bêbado. Eu também estou bêbado, respondi, enquanto me abaixava. Pensei em cortar-lhe a garganta, para amenizar o sofrimento, mas me controlei, morreu se esvaindo pelos testículos extirpados.

Mesmo eu cuidando das suas sete vidas meus gatos agora só tem quatro. Eu perdi cinco, tenho duas ainda, e vou vendê-las muito caro.

Cuidado comigo, governador dos puteiros, elas erraram, mas aconteceu em seus domínios.
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DE TERNO MARROM (1)

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Mandei o dono da fábrica de facas a puta que o pariu, peguei o saldo da rescisão de contrato e saí de Cachoeirinha num ônibus de linha. Naquele dia eu completava 22 anos.

Em menos de uma hora, a tarde morrendo, já estava em Porto Alegre. Fui na loja Huddersfield – Comércio de Tecidos da Rua da Praia e comprei alguns metros de alpaca marrom, saí com um saco na mão em direção a logo ali, na Rua Dr. Flores, onde o alfaiate Laudir tinha o seu negócio num sexto andar.

Seu Laudir, preciso que o senhor me faça um terno bacana, agora vai ou racha, vou arrumar um emprego melhor, se Deus quiser, um que também exija cuca em vez de só as mãos. Ele saiu medindo tudo, o pano que levei e eu, bem contente, perguntando como ia indo a minha vidinha e tal, sorrindo.

Não sei a razão mas o Laudir me queria bem, pra mim fazia camisas simples, de mangas curtas, no baratilho, quase de graça, ele sabia que eu era um menino duro de grana. Aliás, o Laudir era atencioso, generoso, com todo mundo.

Uma semana depois saí de lá o fino, o terno combinando com o chapéu bogart marrom, as mulheres adoraram. Ainda tinha dinheiro, pensei em comprar uma arma lá na Galeria do Rosário, mas o anjo de dentro disse agora não.
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