sábado, 14 de abril de 2018

Eu, Juremil

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Alvíssaras! Eu estou muito apressado, mas, como eu supus que amanhã ou depois acabarias escrevendo sobre genialidade, eu me antecipo (eu marco de cima, eu pulo junto, eu sou o Inter sonhado, uau!).

Antes, Salito, uma correção: meu nome não é mais Juremir, eu mudei. Uau! Agora eu sou Juremil. O perfeito Juremil. O sagrado Juremil. Tá, bota aí também o humilde Juremil, o singelo Juremil, para não prejudicar os negócios. Huhu! Eu explico: eu fiz uma retrospectiva da minha ultragrandiosa obra e eu concluí que eu sou nota mil em tudo. Ninguém me supera. Juremil-mil-mil! Eu engambelo aqueles franceses imbecis por uma questão de estratégia. Prestígio e grana (ui que ameaço de orgasmo), me entende, não é, ninguém é de ferro, e também para viajar semanalmente a Paris, aquela cidadezinha mais apagada que a minha Dodô Desasada, o extinto pombal fronteiriço onde brotei bem no instante em que houve aquela conjunção (ui) planetária. Comparando com Jesus, dez a zero para eu, uau! As velhinhas me atacam na rua para me abraçar, huhu!, e isso que não viram meu pintão.

Sabe, Salitre, eu li tudo o que os gauleses escreveram, aliás, eu li tudo o que foi escrito no mundo desde os escritos dos alienígenas, me prestei até a ler os contos do ceguinho Borges, mas eu vou reescrever cem por cento em hieróglifos hititas, com a simplicidade e leveza do sacerdote Juremil, eu vou champoliá-los (oba) em 2011, eu vou cobri-los de rubor, eu vou fazer um barulhão, eu vou romper as fronteiras do pensamento, uau, rumo ao espaço, eu só imagino a cara do velho Fiódor Dostô, uau, e tem mais: eles que esperem eu publicar a minha nova obra-prima (chama-se EU, JUREMIL, trioriginal, hein?) onde eu provo, pela mesma dialética transcedental assassinada pelo Emanuel (o babaca do Kant) que aquele lero de imperativo categórico está invertido, e que o François-Marie Arouet era ridente devido à idiotice, espirituoso nada, ironia fina ele vai ver. Eu, eu... bem, naquele tempo não tinha livro meu na praça, eia, eu vou compor sonatas em braile para causar felicidade e espanto ao rústico Beethoven! Viva le futur antérieur!

Eu sou especialista em tudo: física quântica, filosofia, futebol, mais umas cem mil coisas só na letra éfe, tudinho, tudinho. Eu falo e eu traduzo todas as línguas conhecidas e desconhecidas! Uau!

Eu morei em Adis Abeba, em morei em Atenas, eu morei em Amsterdã, eu morei em Belgrado, eu morei em Berlim, eu morei em Bucareste, eu em Budapeste também. Uau! Eu morei no Cairo, eu morei em Copenhague, eu morei em Dublin, Estocolmo, Lisboa e Londres, eu morei em Luxemburgo, eu morei em Madrid, eu morei em Moscou, eu morei em Roma, eu... acho que pulei algumas, maldita memória, preciso tomar meus comprimidos... tá, comece aí todo o Abc até Viena! Uau! Em Bujumbura não, ahahah, desculpe, Saltito, uau!

Bem, eu ia falar de quê mesmo, deixa eu ver... Tá bom, eu... ahm... eu... eu... Bem, eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... Hummm, eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... Uau! Eu quebro a rotina e hoje eu falarei de mim, mas só um pouquinho, eu estou meio atrasado para meus milhares de compromissos. Viu a economia no título que eu, o lacônico Juremil, botei agora lá em cima? Eu. Huhu!

Ah, eu tive uma namorada em cada uma daquelas cidades! Uau! Estranho... não recordo os nomes, ah, nome não importa. Uau!

Tu já leu o meu último livro? Cara, não é pra eu me gabar, eu não sou disso, mas é um clássico como nunca houve, na terra como no céu, aquele Shakeaspeare deve estar se revolvendo no túmulo, mortinho de inveja. Já na segunda página eu ensino o pessoal a conjugar os verbos. Eu me arrependi-me (ops) de publicar, está além do alcance da massa encefálica dos não escolhidos. Agora já era. Tu já comprou? Se não, compre logo, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, vai esgotar, para ti eu faço um precinho camarada, eu sou o dono do pedaço no Reino dos livros, escribo en el periodico Letters of the People, huhu! Agora eu sou Universal. Lá no outro, o reino da judéia, a concorrência fica promovendo aquele canhestro da última página, ahahah. E eu faturando. Faturando a fama, claro. Eeeeeuuuuuuuuuuuuu!

Lembra daquele portuguesinho inexpressivo, o José Sarraceno ou Salamargo? Mais cheio que o Luiz Fernando. Pois é, morreu o crucífero (oba), iupi, iupi, iupi, dou pulinhos, morreu, morreu, morreeeu, se apressou a bater as botas pra não ter que ver o saco de nobél que eu vou abocanhar, viva, viva, vivaaaa, eu vou sarambecar lá nas Canárias, uau!

Bem, eu... eu... eu, uau!, eu preciso ir, até a próxima, eu estou atrasado para um show que eu vou dar à tarde lá na universidade dos caras de preto, como você diz, Eu vou-lhes (gostou? Vou-lhes) contar umas estórias básicas que eu inventei sobre as estorinhas sem graça daquele baiano, o Amado. As gurias vão delirar, ui uau! Depois eu tenho de dar uma palestra sobre nanorrobótica medicinal a partir da experiência com cágados, en passant eu ainda vou proferir outra, uma teleconferência d'échecs para os meus amigos Veselin Topalov, Magnus Carlsen e demais top-twenty (sobre as falhas das análises dos computadores na variante Leningrado da Ninzo-Índia), sem deixar de apresentar meus programas de rádio e TV, depois ainda uma aula de direito aeroespacial, e lá pelas dez, enfim, uma aparição no São Pedro, eu vou estrear um novo solo de oboé, eu, eu, eu, eu, uau, eu não dou conta, eu não dou conta, eu não dou conta...

Eu preciso ir, eu preciso ir... dê uma chegada aqui pela Rua da Praia, eu preciso te mostrar (en passant que o tempo voa) meu penteado atual. Rapaz, lindooooooooooooo, combina com o jeans que eu comprei no Marrocos. Uau! Ei, já comprou um livro meu?

Uau!, uau!, uau!

Juremil

PS.: E tu, Salatiel, ainda ingere bitter purinho? E aquela tua chinoca de Rivera, uuuuuuuui, conta, conta, conta.

viernes, 13 de abril de 2018

Tábua de mútua salvação

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Saí da minha rua, a Octavio Correa, subi a Olaria e caí na Av. Venâncio Aires, ainda nos limites da Cidade Baixa de Porto Alegre. Ia ver um negócio de grana, tava duro, sem cigarros e sem bebida em casa.

Levei uma hora, parando a todo momento, papo com comerciantes menores, lixeiros, as molecas que se viram, os viados, os catadores... em direção a uma loja de conveniência no posto da João Pessoa com a Venâncio, ver o saldo bancário, lá tem um troço de caixa eletrônico sem sacanagem. Sem sacanagem até aquele momento, convém examinar antes de enfiar o cartão.

Sacanagem é o preço da cerveja e de tudo o que aqueles filhos da puta vendem, não compro nada lá, salvo em horas de desespero. Bom, cheguei lá, meti o cartão, digitei a senha da CEF me-da-cu e saiu o papelzinho: R$ 0,45, nada de me dá, eu que tomei no cu.

Tou fodido e mal pago, e agora? Voltei cabisbaixo pela Venâncio, pensando seriamente em assaltar aquela merda de agência do BB lá na Azenha. Ia passando no puteiro 305 da Venâncio e uma mulher me atacou:

- Tu é o Bukowski da Cidade Baixa, né?

Pobre do Bukowski, vitimado por tal comparação.

- Depende, gringa, para pagar ou receber?

- Não, li um conto teu uma vez, se chama Brisa.

- Hummm, é, fui eu que cometi. Tu se vira nesse cabaré aí?

- Tou me virando, sim. Vamos tomar uma cerveja, queria conversar contigo, aquele conto me emocionou, meu pai era trabalhador de levar saco nas costas... Sou a Maria da Lua. Se tu puder, né, não quero incomodar, teus compromissos, literatura...

- Saí sem dinheiro, Lunera, se não iria com amor e carinho junto contigo, tu é linda e gostosa, nunca vi mulher mais bonita, amo peitão grande assim... Tu gosta de tudo?

- Gosto de tudo. Mas não se preocupe, eu tenho dinheiro, vamos, vai...

- Topa tudo mesmo?

- Tudo.

Gostei dela. Tive uma abobada que topava tudo com qualquer um, até chupar dentro de carro, atrás de árvore, e me dizia que topava só comigo.

- Qual é a tua tarinha?

- Ai, muitas, tudinho, amo vela quente pingando e dupla penetração, mas tem mais...

- Tarada, eu amo ménage. Tu tem alguma amiga de fé?

- Tenho.

- Pegadeira boa?

- Bota boa nisso. Vou combinar com ela, se tu quiser. E tu, tem namorada?

- Não tenho mais.

- Por quê? Tu tá bonitão.

- Essas mulheres são tudo cheias de preconceito, cansei, deixa pra lá.

- To falando contigo há poucos minutos e sabe de uma coisa: gostei de ti, cara.

- Tá, eu também gostei de ti, então vamos de mão tomar uma cerveja lá na Olaria, longe da tua viração?

- Tem um cara lá na Olaria que anda me perseguindo, eu era muito nova e me dominou, não deixava eu estudar. Agora que tou na PUC voltou a incomodar. Se ele falar comigo não se meta, não vale a pena, deixa que eu resolvo.

- O que faz na PUC?

- Direito. Um dia vou ser delegada, pegar todos os colas-finas que sempre ficam impunes.

- Oba, siga dedicada nos estudos, vai dar tudo certo.

- Tu é o primeiro que me diz isso, todo mundo diz que depois, por dinheiro ou de medo, entro pro esquema e só prendo pobre.

- É assim mas não é bem assim, tem pessoas boas lá. Lembrei de uma coisa, antes vamos dar uma passadinha no meu covil, pra mim me vestir decente, sapato, calça, camisa e paletó.

- Vai pegar arma, né, por causa do cara que falei antes?

- Vou, e não fale nada. E tem outra: não estou sem dinheiro aqui, por estar de tênis e bermuda, na verdade ando morto e a corvada em roda, tem nada em casa, tou sem nenhum, nem pro cigarro.

- Oba, então arranjei um gigolô armado. Tenho dez mil no banco e vou tomar mais desses palhaços que vem ao cabaré, por serviços prestados. Sinto que tu me pagará em dobro, de um jeito ou de outro.

Guria corajosa e inteligente. Peguei na mão dela, cruzamos os dedos, torcendo, quentes, bem felizes, e saímos andando pela avenida. Noite linda em Porto Alegre, tomara que chova mais tarde.
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sábado, 7 de abril de 2018

J'ACCUSE

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Les Misérables

O Judiciário foi idealizado para ser a consciência de todos, vejam a etimologia, a história.

Salvo no período da ditadura, quando muitos se acadelaram e cometeram horrores, juízes julgavam pelos autos, pelas provas, mantendo obsequioso silêncio fora disso, conforme determinam as regras que juraram observar. Acadelaram-se com as exceções de praxe, homens que honram a toga e o juramento. 

Minoria?

Agora isto, com o pérfido e semi-analfabeto de Curitiba, posando de homem sério, só falta o bigodinho e o uniforme da SS, com o assentimento dos covardes seus superiores.

Por tabela carta branca aos moleques sem mundo, fascistas da "Lava Jato", o nome já é uma piada, covil de caolhos e seletivos torturadores mirins, a estatura daquele Dallagnol é de chorar, cobra mandada que se diz cristão prometendo jejuar para obter injustiça, a que ponto chegamos.

Jejum, alguém já falou e dizem os seus livros sagrados, se faz sem contar para ninguém, e de horror à injustiça os mesmos livros sagrados estão cheios.

Todos fanáticos úteis ao projeto, calculado, de cabeça pensada, de imbecilizar ainda mais o povo, rumo à escravidão consentida.

Querem acabar com o Brasil, querem sangue? Querem seus palácios incendiados, ou contam com as Forças Armadas para voltar ao assassínio de milhares de rebeldes inocentes?

Aquele papo do criminoso Jucá, do grande acordo, citava generais, é aí que se apoiam, o ás sangrento na manga? É o que parece. 

Contam com os nossos filhos que juraram defender a Pátria em caso de agressão externa para, em vez disso, matar a quem os sustenta, o povo que lhes paga uniformes e armas?

Em princípio vai o meu desprezo ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ, medrosos, corporativistas, covardes que arrumaram uma boca boa em suas vidas. Essa gente de que falava Taiguara, que pensa só em si.

Obviamente ao STF, pois foi o Barroso quem deu carta branca ao meliante de Curitiba, rasgando as leis, aí então os bandidos menores, instalados em todas as instâncias, até em TRF's, se encorajaram, e toda a podridão saltou dos bueiros, o líquido viscoso do fascismo latente, mau, fedendo.

Roma caiu por menos. E quem apoia esse estado de coisas vai se arrepender, a história se repete, os omissos logo serão vítimas do horror que aplaudem contra os seus vizinhos.

Omissos alguns somente. Não a turba ignara, que nem sonha com o que está realmente em jogo, que quando a assassina Fiesp e a Globo a mandou, correu a bater panelas. Estes logo sofrerão as consequências, a persistir o estado de exceção.

(Na imagem alguns desses senhores, que sabem que a instituição que não funciona é a deles, no meio um homem sem mundo, raivoso, pouco lido, ao seu lado dois fascistas, doentes fanáticos pela criação)


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sábado, 17 de marzo de 2018

A irmã do Potinho

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Fui dormir na casa do amigo Potinho, os seus velhos pais estavam viajando. Tava só ele e a irmã em casa. Bebemos, comemos, jogamos cartas até tarde. Modéstia à parte, com cartas sei mexer, e de sorte tiro a carta que quiser de qualquer baralho viciado ou virgem.

A guria Jussara de saia curta cruzava as pernas de um jeito... e depois me olhava com um olhar de queimar, fiquei em chamas mas me controlei.

Irmã de amigo meu pra mim é homem, eu fora. Dormimos tarde, nós dois num quarto, ela no outro.

Quando acordei pela manhã ele tinha se mandado, pegar cedo no batente, deixou um bilhete: Tá em casa, mermão, fique aí, vou levantar uma grana, ao entardecer eu volto, e vou falar com uns caras pra ver se te arranjo um emprego. Minha mana gosta de ti, se ela escorregar, execute, bem vindo à família.

Que filho da mãe o Potinho, sou melhor em cartas mas ele sabe mais do que eu.

Li o bilhete, botei água esquentar no fogão pra fazer café, e passei na frente do quarto da guria. Tava nua na cama, agora os olhos em fogo me olhando, ela siriricando sem o menor pudor.

Não lembro o que fiz, só recordo dos gritos dos vizinhos pelo cheiro do metal da chaleira derretendo no fogo.

O Potinho é nosso padrinho de ajuntamento, que virou casamento cinco anos depois, a gente lá casando com as meninas gêmeas daquela manhã pela mão.

Mulher é bicho de Deus mas também do Diabo. Até hoje quando chego em casa ela me olha, os olhos se incendeiam, e de saia curta cruza as pernas daquele jeito.
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sábado, 10 de marzo de 2018

EU DEIXO

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Ao sair antes para comprar um presentinho pro meu priminho que amanhã completará cinco anos de idade, na volta vim por lá e dei uma parada no bar do Nadir, ali perto da igreja Sagrada Família na Rua José do Patrocínio. Tava superatolado de gente, digo, superlotado.

As mulheres de rodar a bolsa - umas novas na parada, ui, o pessoal do AAA da Igreja, estes tomando água mineral, os malandros, as travecas lindas e perfumadas, a turma da punga lá no Centro, todos pularam em mim aos beijos e abraços de corpo inteiro.

Salito, seu malandrão, onde andava por todos estes anos? Que saudade, eu era apaixonada por ti! E aí, camarada, conseguiu fazer a vida? Tinha 17 filhas, quantas tem hoje, maluco? E por aí vai, muitos choramos.

Todo mundo feliz. Respondi tou morto e a corvada em roda, mas sabem como é, a gente dá um jeito, ainda não precisei pegar em arma. As próximas dez cervejas são por minha conta, Nadir, exclamei feliz.

O que vocês estavam fazendo quando cheguei, amontoados lá no fundo? A gente tava vendo uma notícia na Internet, uma vagaba Carmen Lúcia, que mal sabe tocar siririca e chupar pau, livrou a cara de mais um ladrão podre.

Mudei de assunto. Alguém quer jogar sinuca? Há anos não pego num taco, dou a sete livre. O Julião da Maleva saltou: só a sete não tem graça, é covardia, Sala. Então dou a cinco, a seis e a sete. Uma das bonecas novas se escalou.

O Nadir trouxe a caixa de bolas, do às à sete. Ela encaminhou-se ao taqueiro, escolheu um taco enquanto dizia: é hoje que te como, fama tu tem, quero ver.

Eu vou deixar, pensei.
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QUANDO PRECISEI

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Maldito o dia em que precisei, sem emprego por ser honesto demais, ora demais, ou se é honesto ou não é.

Sumiram todos. Todos eles e elas: amantes, parentes e amigos.


A pessoa sabe que precisa ir ao agiota, digo, ao banco, tirar o saldo. Com medo não vai, diz pra si mesma vou amanhã, e os dias passando, amanhã vou sem falta, e não vai. Gasta pouco na mercearia com cartão de débito, de crédito não tem, um quilo de arroz, um pé de alface, um toco de fumo em corda e uma garrafa de pinga mucufa.

Passa o cartão morrendo de medo que diga que não tem o suficiente, uns 15 reais. Ufa, passou.

Hoje vou lá tirar o saldo, naquela de seja homem já que a vovó Marica não foi.

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(Fragmento do conto "Quando precisei")
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FUI MAS NÃO FUI

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Eu lá deitado no meio da capela 6 do São Miguel e Almas, deixando o tempo passar, curtindo a experiência nova. Alguns choros no entorno, de lágrimas e instrumentos musicais. Bem belo, despreocupado, chega de problemas, pra mim deu. Com padreco não preciso esquentar a cuca, minhas filhas não deixarão pisar no ambiente, muito menos abrir a boca.

Brigaçada de mulheres, ele era meu, sua vagabunda, teu coisa nenhuma, era meu, tapas, gritos, tinha umas trinta se agredindo verbal e fisicamente, até garrafada saiu. Eu quietinho na minha, não sou bobo. Acalmaram as onças, por enquanto.

Imaginei as minhas 37 filhas roxas de vergonha pelo gritedo das tiangas. Ouvi alguém dizer a elas: deem uma saída, meninas, fazer um lanche, descansar um pouco. Lá se foram elas, pois parou o choro lacrimal que tinha do meu lado esquerdo.

Chega um amigão, me olha e diz: "Enfim parou de beber e fumar, né, loco, vai com Deus, meu irmão, não demora estaremos novamente juntos". Até políticos apareceram, nunca fizeram nada por mim e vem fazer média, os filhos da puta.

Foi então que um sujeito que não ia com a minha cara inventou de dar discurso, exaltando as minhas supostas qualidades. "Um gênio, teria ganho um Nobel de Literatura se fosse jornalista e as editoras publicassem os seus livros...".

Foi demais, não aguentei, sentei no caixão: "Deixa de ser hipócrita, meu chapa, tu fez de tudo para me prejudicar na vida!".

Foi uma correria danada. Ficou só a nega Zilda, com os olhos arregalados. Desci de lá, quase derrubei o esquife, e perguntei: "Onde é o bar mais próximo, minha nega, tou com sede, vamos juntos?".

(A ilustração é do Edra Amorim)
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sábado, 3 de marzo de 2018

AMO

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Hoje a solas com a Jacira e a Aline demos de contar histórias, verídicas. As gurias me saíram com cada uma, das tarinhas dos caras no tempo em que elas rodavam a bolsa na rua, desde chupar o dedo mindinho do pé até pedirem introdução de garrafa de Coca-Cola no ânus. Teve até um presidente de um famoso clube de futebol que pedia para fazerem cocô em cima dele.

Eu contei uma singela, pois taradices, se as tenho, são leves. 

Duas da madrugada. No covil estavam eu, a nega Eliete, 26 anos linda e gostosa, recém separada, uma baixinha enfermeira de 30, tarada como só, e uma dona boazuda de 29 que levantei na PUC, esta que fazia eventuais programas para poder pagar a faculdade, conosco estava no amor. Só gente fina e amorosa.

Eu resisti na cama grandona mas elas me acabaram, era demais para a minha bola, leite pra todo lado, lamberam, chuparam o pau já meio mole, ui que delícia. A Eliete em noite de estréia não vacilou, as outras a chuparam e beijaram até cansarem e ela foi decente e valente, retribuiu. Falei vou lá na sala tomar uma cerveja e botar uma música, sigam de festinha. 

Elas continuaram de beijos e chupações. Abri a cerveja, sentei no sofá da sala e fiquei ouvindo o disco. Ouvia os gemidos de lá do quarto, palavras de assim, mais para cima, puta, ai querida, aperta...

Uma hora depois elas se exauriram, vieram peladas para a sala, bem felizes. Aí a Eliete, com os olhos brilhando me beijou a boca e com a singeleza dos simples, era a que tinha menos estudo ali, sorrindo me disse:

- Eu não sabia, meu amor, mas não é só pau, eu também amo chupar buceta.

Ficamos rindo dessa tirada até o amanhecer, quando depois de comer pizza reiniciamos os trabalhos.
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viernes, 2 de marzo de 2018

LA HIERBA

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Teve um presidente que dizia que fumou mas não tragou. Mentiroso e burro que é uma porta, molengão e guampudão de Paris.

Eu confesso, com 33 anos disse: não vou morrer sem experimentar. Uma tragada só e tonteei, pouca-prática dei um fumadão naquele baseado grosso, a advogada que me deu me apertou o nariz. Pagou caro, pois dali em diante eu não parava de rir, e bateu um tesão dos infernos.

Isso à meia-noite no Alto da Bronze. Sete da manhã e eu ainda ria, ouvindo a Quinta Sinfonia de Mahler via as aves pernaltas dançando num lago imaginário, ela pedindo pelo amor de Deus, tou morta de cansada, saia de cima de mim, eu vou por cima. Pegadeira, não ia me deixar mal, mete cadelinha tesuda.

As aves, a música, a mulher a mil por cima... Primeira e última vez que pitei, uma só tragada. Ela, experiente com a erva e outros caras, que me disse tu não pode, energia estranha, o nego que já sonha acordado sem fumar, imagine fumando, vai pro hospício.

Tou de olho na parte da medicina, vai que amanhã ou depois a erva me salve a vida.




COMO É LINDO O RIO GUAÍBA

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Sou bobinho pero nem tanto, então não guardo papéis da vida profissional em casa. Muitos deles perigosos, digamos. Aqui podem encontrar centenas de contos mal ou bem acabados, nada mais. A papelada perigosa está distribuída por aí em muitos lugares, muitas cópias, milhares de papéis, dezenas de caixas. Prevenção daquela bobagem de se algo me acontecer eles se fodem. Os originais estão parte num cofre em outro estado da Federação, outra parte em outro cofre em Montevideo.

Hoje ao meio-dia saí da Cidade Baixa, dei voltas de despiste indo a Teresópolis, mania de perseguição, mas eles são otários, há meses percebi que me seguem. Levaram o drible lá na Vila Cruzeiro, saí deitado dentro de uma fubica de uns assaltantes de banco meus amigos.

Ali pelas três da tarde estava dentro de um barco indo para o Arquipélago. Rever uns documentinhos antigos que envolvem até o pescoço um gaúcho ladrão da quadrilha do Temer. Há anos não via a nega velha que guarda, só lhe mando uma graninha trimestral, ano passado nem mandei, desamoroso. Levei hoje, junto com as rosas amarelas e brancas.

Estou lá vendo os documas, tomando uma cerveja que a neguinha velha comprou no bolicho, e de dentro de uma mascada caiu um cheque de um tal Banco do Progresso S. A., agência de Cuiabá, nominal a mim. "Dois mil seiscentos e cincoenta cruzados novos", datado e assinado em 29 de novembro de 1989.

Na dureza que ando caí pra trás. Hoje essa grana, com correção pela merreca da poupança dá mais de vinte mil contos, pela inflação real uns cinquenta, por que diabos na época não descontei o cheque? Vá lembrar. O emitente, amado, ainda é meu credor por outras desta vida.

Botei o cheque de volta no meio dos papéis, fica de lembrança. Pedi para a netinha de 14 anos da nega ir lá adiante tirar vinte xerox. Fiquei mais duas horas na ilha, tomando cerveja e relembrando com a negada os velhos e bons tempos.

Voltei de barco com os documas dobrados no bolso interno do casaco, com estes o "Fodão" da Odebrecht se fode comigo.

Meu Deus, como é lindo o Rio Guaíba.
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