martes, 25 de agosto de 2020

GATOLINO, O GATO VOADOR

GATOLINO, O GATO VOADOR: DEZ ANOS DE VIDA.

Hoje se completa uma década, desde que voltando da boemia achei o Gatolino na Cidade Baixa, nenezinho, sangrando e tremendo de frio de madrugada, inverno chuvoso. Botei-o no bolso do sobretudo e o levei pra casa. Alguém o tinha castrado e logo o abandonado para morrer de frio e fome. O "alguém" teria sido um veterinário nazista do Menino Deus, hoje quadro importante na Bozália, falta apenas um detalhe para confirmar.

Ele me chama de "meu paizinho extra-terrestre". Fosse humano, ou extra-terrestre como ele diz, o Gatolino agora teria 56 anos. É gato feito, filósofo e tal. Na foto ele me diz, em gatês, que quando eu encontrar o mengele faça com o bandido o mesmo que fez com ele. Não precisava pedir, o mengele que me aguarde.


Saúde, Gatolino querido! .

viernes, 7 de agosto de 2020

MORTE LENTA

 

MORTE LENTA

Ninguém morre de repente. / Quando dizem que Fulano / faleceu subitamente, / morreu estupidamente, / é engano, / é puro engano!

Pode ser que a ave ferida / ou a árvore abatida / ou a casa demolida / ou outras coisas assim / deixem de súbito a vida / (vida ou coisa parecida), / achando um súbito fim.

Mas quanto aos seres humanos, / nenhum morre de repente. / É um processo inteligente, / lentamente, lentamente, / Leva meses, leva anos.

Leva o tempo em que a viúva / faz a presença do ausente. / A saudade permanente / é um longo dia de chuva. / Lembramos diariamente / o bar que ele freqüentava / os cigarros que fumava, / as coisas que planejava. / Tudo aquilo que era dele / volta à baila noite e dia. / O mundo ficou sem ele / como uma casa vazia. / As canções que ele cantava! / As piadas que dizia!

Passam anos...Cinco...Sete... / Quem ainda se lembrava? / O bar que ele freqüentava / virou uma lanchonete.

As canções que ele cantava / são do tempo do Chalaça. / As piadas que contava / hoje não teriam graça. / O mundo se modifica. / Os cigarros que fumava / Nem a fábrica fabrica. / A viúva, conservada, / Está de novo casada, / E dizem que ficou rica.

Agora sim, falecido! / Agora sim, faleceu! / Anos após ter morrido, / Só – de todos esquecido – / Depois que tudo o esqueceu!

Ninguém morre de repente. / Quando dizem que Fulano / faleceu subitamente, / morreu estupidamente, / é engano, / é puro engano. / Gente morre lentamente, / lenta e dolorosamente, / dia a dia, ano após ano!

Giuseppe Artidoro Ghiaroni ((Paraíba do Sul, RJ, 22/2/1919 - Rio de Janeiro, 21/2/2008).

A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos e close-up

lunes, 27 de julio de 2020

A VIDA NÃO É MOLE, MAS PODE SER CROCANTE

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Na situação em que ando, sem dinheiro para o gás, fazendo fogo no pátio com a lenha das paredes da casa, que arranquei na mão, agora estou comendo os chinelos das religiosas do Convento, assados de improviso. Pão Tufa, que aprendi por aí em dificuldades outras.
Li nos seus olhos temerosos aquele pensamentinho ruim: daqui a pouco o louco de fome comerá a nós.
Jamais. Se bem que bem fritas, aquelas que teimam com os mais velhos...



viernes, 10 de julio de 2020

ONDE TEM HOMEM NÃO MORRE HOMEM


(...)
Eu morava no nº 685 da Rua da Varginha, no Centro de Porto Alegre. Há tempos já não morava na rua nem de favor em cabaré. Depois de pular por pensões, repúblicas e JK's comprei um fiador e aluguei um de quarto e sala, cozinha, banheiro, e tanque na diminuta sacada dos fundos. Tinha me casado com uma moça muito prendada, e tinha emprego, agora ganhando três salários mínimos, que de tão mínimos o aluguel me levava a metade. O horror havia passado em parte. Mês de julho, um inverno desgraçado. A gente, no novo apartamento, tinha uma linda filha ainda nenê, fogão a gás, alguns móveis, cama de casal, o berço cheio de paninhos quentes, uns brinquedos e quatro cobertores adultos, um nem tanto, burrinho que um dia me salvou. Por medo da rua de onde vinha tinha um 38 em cima do guarda-roupa. Duas da madrugada, uns 3 graus a temperatura. Algo não me deixava dormir. Levantei-me, me vesti, peguei o 38 lá em cima e quando puxei um dos cobertores a moça acordou. 'Onde tu vai a esta hora?". "Vou ali e já volto." Ela ficou nervosa. Repeti: vou ali e já volto, durma. Hoje sei que devo ter falado com os olhos magoados, pois ela se encolheu. Saí. Na esquina dobrei à esquerda e subi a Travessa do Poço com o cobertor dobrado na mão. Lá em cima, embaixo do viaduto, não tinha mais onde a gente se meter, os buracos eram todos lojinhas alugadas, eu sabia que sem ter para onde correr a turma morava na calçada. Temia que um velho esfarrapado que me aqueceu na calçada anos antes, um encostado no outro, em andrajos se agarrando de frio, ainda estivesse lá.
(...)


(Fragmento de "Os Perturbados de Porto Alegre". Na imagem a antiga Travessa do Poço, foto de Leandro Selister, disponível na rede mundial.)

viernes, 17 de abril de 2020

O TESTAMENTO

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Por hábito escrevo durante os afazeres domésticos. Escrevo na cuca, né. As tarefas como varrer e passar um pano na casa, cozinhar, lavar roupa no tanque, etc., faço no piloto automático, sem nenhuma concentração, de tantos anos que fui escravo consentido de mulheres não preciso pensar, apenas vou tocando, quando vejo está tudo limpinho no lugar certo. Hoje não sei o que me deu, talvez por pressionado pela situação lá fora e pelos dementes que nos governam: ali pelas quatro da madrugada, em meio à lavança de panelas sem querer comecei a “redigir” o meu Testamento. Depois de muitas palavras carinhosas e algumas repreensões indiretas a cada uma das descendentes, dei-me conta de que não tenho o que deixar, nenhum bem com valor de mercado, aí botei que fiz o melhor que pude, dei-lhes ensinamentos e boa escola, acrescentei alguns conselhos, controlando o tom para não fazê-las chorar no dia da leitura. Parei a lavação, quem estava chorando era eu. Lavei o rosto na torneira e acendi um cigarro, elas não estavam presentes para fazer cara feia pelo cigarro. Decidi que as testemunhas diante do tabelião seriam o Bruno e a Jezebel, tudo perfeito. Foi então que um mau pensamento me assaltou: será que existe herança negativa, os descendentes herdando as dívidas? Aqueles canalhas vivem mudando as leis para enriquecer ainda mais os banqueiros, vai que... Era só o que me faltava, se houver vou matar os credores antes de partir para outra. Suspendi os trabalhos e fui remexer no Código Civil, chamado de Novo embora seja de 2002, o meu é um grosso volume, comentado, de duas mil quatrocentas e tantas páginas. Remexi em tudo e não achei o livro, deixei para amanhã – que já é hoje, alguém deve ter pego. Voltei para terminar o serviço, a cozinha ainda era um campo de guerra. Com a cabeça quente dessa história de herança negativa esqueci uma das regras básicas de convivência, logo eu que morei em mil lugares: não se lava nem seca certas coisas de madrugada, muito menos meio levantado do chão, com cinco duplas de uísque na cabeça. Com os pratos correu tudo bem. Depois lavei e sequei direitinho muitos pirex, jarras e potes de vidro, empilhei de baixo para cima do maior para o menor, abracei tudo, uma pilha que vinha da cintura até o nariz, e estava levando para o móvel na sala ao lado onde são guardados, quando sem querer encostei no braço o cigarro que tinha pendurado na boca, queimou; instintivamente afastei rapidamente o braço e lá se foi tudo. A barulheira de vidros se espatifando deve ter sido ouvida em Marte. Logo vieram as vaias do prédio, acordei todo mundo. Alguns gritaram “corno”, “fiadaputa”, “viado”. Pensei em revidar mandando-os à puta que os pariu, talvez dar um tiro num, mas não, fiquei frio, devem andar nervosos também. Amanhã varro os cacos, pelo estouro deve ter caco até no banheiro. Hoje em dia é assim: não restam cacos de vidro grandes, e sim milhões de grãos, maldita tecnologia, e isso que discutem se vidro é líquido ou sólido, pisem numa bolinha daquelas pra ver. Servi mais uma dupla de uísque e fui para a sala grande. Botei um disco, sentei no sofá, cruzei as pernas e fiquei ouvindo o Johnny Alf, pensando que dia destes o inesperado haveria de me fazer uma surpresa. Foi quando tocou a campainha, olhei pelo buraquinho e vi a mulher do nono andar com uma garrafa de champanhe na mão.
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miércoles, 15 de abril de 2020

UM POR TODAS E TODAS POR UM

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Por esa puta costumbre

de andar haciéndome el vivo,
el que se las sabe todas
y todas las ha vivido.
El que tuvo mil amores
llorando sobre su almohada.
¡Por esa puta costumbre
al final no tengo nada!

(Cacho Castaña)

Querida (...)

Esta carta vai em particular para ti, é idêntica a outras 35 enviadas para damas livres e desimpedidas, escolhidas a dedo. Uma delas é médica de probleminhas femininos, outra é farmacêutica, sabe de poções e unguentos, outra expert na dança do ventre, uma jovem atriz pornô, uma estudiosa de sexo tântrico, ... (Kama Sutra é ultrapassado), todas tem uma especialidade, em comum um fogaréu no corpo. Se tudo correr bem em breve se conhecerão e reconhecerão umas nas outras, belas que amam a vida. Ao ponto: não bastasse o que estamos vendo, as notícias são alarmantes. Agora timidamente anunciam que ficaremos em isolamento pelo menos até 2022, porém tenho fontes fidedignas que dizem que será rigoroso até 2050, tanto que os europeus estão fugindo do Brasil, seus governos sabem coisas que não sabemos. Meu bondoso coração não suporta a ideia de sabê-la desacompanhada, mofando triste, sensível poeta socada num frio apartamento, uma mulher assim caliente enlouquecendo de solidão, ah, não. Aqui tem espaço para no mínimo 40 mulheres, com folga, e só estamos eu, 4 ex-freiras estrangeiras e a Jacqueline Traveca, todas almas de luz, cabeças abertas, entendidas em linguística, teatro, dança e muitas outras artes. Mude-se para cá enquanto é tempo, estou convidando. Logo estaremos todos sós, a nação temerosa sem confiança para aproximação física, uma vida sem sentido, o medo aterrorizando as ruas, os loucos e os aproveitadores à solta, nesses momentos os humanos mostram a sua pior face, se transformam em zumbis, mortos-vivos como o Demente que logo será sacrificado.

Nas áreas comuns confraternizaremos, se bem que nada impedirá que nos visitemos nos quartos ou façamos teatro libidinoso, lascivo, no salão principal, vez que outra até ascético, para alimentar o espírito. Tem sauna e academia com equipamentos para exercícios. Onde come um...; onde comem duas, comem quatro, oito, dezesseis... ã... é geral mas agora me refiro à economia interna. Temos um bom estoque, mas enquanto houver produtos faremos compras por telefone e pela internet. Se não sabe cozinhar não tem problema, eu ensino, ensinaremos coisas uns aos outros. Plantaremos legumes e verduras no terraço. Na adega já tem estoque para até 2060. O Casarão é inexpugnável, portas de aço, mas juntos decidiremos o futuro, caso surjam desejos de mudança. Ficaremos naquela de segue o baile, quem está fora não entra e quem está dentro não sai; se sair não volta. 

Venha, amada, traga uma muda de sua flor predileta, algumas roupinhas, objetos pessoais, livros e discos de estimação, gato e cachorro se tiver, atestado médico, todo o dinheiro (se não tiver dinheiro, azar, vem com o corpo) e nada mais. Em anexo vai o Regulamento do Casarão, suscetível de ajustes. Beijos.

Luciano Peregrino, mágico
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domingo, 5 de abril de 2020

FUGINDO DO COVIL-69 NA MÁQUINA DO TEMPO

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Bar fechado. O Terguino se mandou pro mato em férias sem data para voltar, mas a gente sabe que foi para escapar do bicho que chamamos de Covil-69, que era o nome de um apartamento em que morei com quatro alegres mulheres. Baseado nisso é que a turma resolveu convencer o Portuga de que cinco é bom, não dá problemas com as autoridades sanitárias, imploramos que abrisse o botequim. O Portuga andava aborrecido por ficar trancado em casa e encarou o batente. Mas com o bar de porta e janela fechadas, para todos os efeitos não tem ninguém lá dentro, é residência particular, e não deixa entrar mais de cinco. Então por sorteio formamos quatro grupos de cinco boêmios e boêmias. A gente se reveza: num dia vai o grupo 1, no outro o grupo 2 e assim por diante até o grupo 4, somos em 20. Depois mudamos a composição dos grupos, para ninguém se perder de vista por muito tempo. O Portuga lá atrás do balcão, ouvindo os papos e dando opinião. Serve as mesas quando a gente pede algo e volta pra lá.
Chega a ser engraçado: um sentado em cada mesa, estas dispostas a três metros umas das outras, de um modo mais ou menos circular, uma das mesas no meio, esta com a cadeira de rodinhas. Obviamente que quando está presente quem ocupa a do meio é o Rei da Cidade Baixa, Bruno Contralouco. E ficamos lá, bebericando e jogando conversa fora.
Na sinuca lá nos fundos tem três mesas oficiais. Afastamos duas para um canto e ficamos com todo o salão para a mesa que julgamos melhor, com espaço para a gente se movimentar sem passar uns pelos outros a menos de dois metros. Temos regras: se alguém espirrar, tossir seco ou molhado, tá fora, pode ir embora e não volte mais. O Bruno vive se queixando de febre ao chegar, mas rindo. Um vai vai dar a tacada e os outros ficam cada um no seu canto, bebericando enquanto espera a sua vez.
Somos todos apegados, mas parece que em tempos ruins a gente se aproxima mais, sai cada papo... Outro dia, entre um trago e outro lá nas mesas da frente, falou-se de humanismo e de nazismo. Eu, num atraso daqueles, pensava em mulher.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo, entraria nela e iria para Brasília, em 1º de janeiro de 2003, dar uns conselhos pro Lula, começaria dizendo pra ele liquidar com a Vênus Platinada, que a cobra iria picá-lo um dia, ela já tinha feito isso com Getúlio, com Jango e com ele próprio. - Disse o decano Aristarco.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo mandaria o Bozo para Berlim em abril de 1945. - Respondeu Bruno.
- Em 1946 eu o mandaria para Nuremberg para ser julgado. – Disse Luciano, que estava de pouca conversa.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo em 1964 iria para Paris, conhecer o Alain Delon, quem sabe ter um caso. – Disse Jussara.
Aí tomei conta do campinho: - Eu iria para a Alexandria, em 30 a.C., no início de agosto, direto para os aposentos da Cleópatra, já chegaria esmagando a cabeça de uma naja chamada Globo, aquela tinha um veneno mortal, depois me empernaria com a rainha, logo mataria todos os romanos e viraria faraó.
A turma ria muito da ideia de cada um. A conversa tomou outro rumo, mas fiquei matutando sobre as mulheres da História. Meu Deus, a máquina iria rodar mundo, eu salvando as damas só para depois vê-las peladas. Em 48 d.C. comigo por perto ninguém tocaria num fio de cabelo da Messalina. Em 1793 eu os faria engolir a guilhotina e fugiria com a Maria Antonieta. Tantas... De repente voltaria a 45 d.C para levar um lero com a Salomé... pensando bem, melhor não. Não apenas para admirar a nudez das mulheres, antes de tudo por um abraço e um beijo de amor. Absorto custei a perceber que me chamavam lá para a sinuca, ia sair uma matadinha a dez pilas. Puf, meus sonhos de amor viraram fumaça.
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viernes, 3 de abril de 2020

Senhoras: fiquem em casa, ou venham pra minha

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Há décadas a cada ano que passa eu, Bruno Contralouco, sinto mais saudades da Gonorreia e da Clamídia. Senhoras bactérias de linhagem, aristocratas com nomes de princesas: Neisseria Gonorrhoeae e Chlamydia Trachomatis, com pequenos problemas de criação, como os tem todas as filhinhas de mami. E a gente ganhava uma joia dessas fazendo uma coisa boa, sofria um pouquinho depois, mas nada que a Dra. Benzil Benzatina – que nome lindo, Benzetacil para os íntimos, filha da Dra. Penicilina, não curasse. Outra coisa é o patife do vírus HIV, aquilo não vale o que come. Rufião de cabaré de vigésima categoria, que ataca pelas costas, o vagabundo não respeita idade, sexo, classe social nem nada. Estão aperfeiçoando um destemido para liquidar com o monstro, pelo menos até que venha a poção extraída da árvore Célula Tronco: o herói Contravírus; esse é dos nossos, do contra. Tem mais: todos já ouviram falar que lagartixa nunca chegará a jacaré, né? Pois nesse passo também tem a Sífilis Pallidum - se isso é nome que se apresente, subespécie que nunca chegará a bactéria. Também ataca homens e mulheres. A Dra. Penicilina ou alguma de suas colegas, como o grupo de trabalho da Dra. Tetraciclina, acaba com ela.

Até aqui só vejo um probleminha, que não creio que seja divino, os humanos é que aplicam, de acordo com as suas conveniências, crenças e superstições, histórias mal contadas em pergaminhos e depois livros que eles mesmos escreveram, em metáforas que ao longo dos séculos e até milênios vão reescrevendo e dando novas interpretações, sempre tendo a dominação como pano de fundo. Bom, em grande parte do mundo dizem que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso porque transaram, a alegoria foi uma maçã. Quer dizer, botaram o casal no Paraíso cheio de rios e árvores, com tesão – uma cobra provocadora, e era proibido transar. Faz sentido? Para piorar a situação, os expulsaram para outro Paraíso, este terreno: que vão transar lá longe, sem imortalidade. Foi o que eles fizeram. Desse novo Paraíso dou como exemplo a Amazônia, que seres malignos – filhos de Adão e Eva? Duvido. – querem destruir. Não contentes, os deuses deram de mandar pragas mortais para o Novo Paraíso. Puxa vida, já tinham tirado a imortalidade... Muitas dessas pragas adivinhem para quê? Para impedir que transem. Pombas, expulsar tendo a morte como destino não foi o suficiente? Esse assunto me dá vontade de rir, melhor seguir em frente nesta estória, depois retomo o fio desta meada. (segue)


o-o-o

Ilustração: Ronaldo (Vacaria-RS)
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viernes, 6 de marzo de 2020

Desamores e ameaças de morte

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Eu estava preocupado. Elas estavam muito ressequidas, vai que neguem fogo. Passei lanolina - sebo de carneiro, e as coloquei para dormir no sereno da noite. Depois as limpei bem com toalhas de papel. Logo as pintei com tinta preta, não sou bailarino para andar de amarelinho, azulzinho ou vermelho, e botei secar de novo. Depois passei graxa preta. Dei um tempo e as esfreguei com um pano seco para dar brilho.

Não vejo a hora de calçar as chuteiras para dormir, logo que as hipócritas saírem da minha vida. Saudades só tenho da Ramira do Bonfa, que pena. As chuteiras também servirão para me sentir renovado ao subir para a área dos inimigos, outros. Durante o sono elas se mudam, uma para a mão esquerda e outra para debaixo do travesseiro. Bem calçado sou outro cara.


Na subida para aparar o escanteio levarei o meu bando, ora, chega de apanhar. Combinei com eles nos treinos, falei pro neguinho meia-esquerda do presídio e para todos: eu faço o estrago lá na área deles, entrando a mil, recebendo e dando empurrões e cotoveladas, e um de vocês faz o gol, estarão desmarcados, a bola não virá pra mim. Se no aperto ou rebote ela vier pra mim, eu faço.
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