miércoles, 15 de septiembre de 2010

Fui eu!

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Ex Prezada Mad Madam Mim.

Uma matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo desta quarta-feira diz que o irmão da ministra Erenice Guerra, da Casa Civil, José Euricélio Alves de Carvalho, é apontado por auditoria do próprio governo como responsável pelo desvio de R$ 5,8 milhões da editora da UnB em contratos fantasmas. No desvio, estariam inclusos pagamentos ao próprio José Euricélio e a Israel Guerra, filho da ministra que atuaria como lobista.

Essa Folha... vive a inventar coisas, não sossegam!

Euricélio e, que junção legal, Israel Guerra, devem ter sofrido muito com bullying, uma prática execrável que muitas vezes conduz a vítima ao delito. Recomendo a leitura do livro do escritor Marcos Rolim, eu estou lendo, Carlito - Dulcemano - Yanés, meu amado uruguayo e cubano, brasileiro de amor, por conta de ser pai de uma tropinha de meninos, me trouxe um exemplar.

Há uns cinquenta anos penei com isso, pelo nome que carregava, pelas roupas velhas e apertadas, pelo jeito de andar, pelo sotaque, por tudo, mal sabia que era porque eu era pobre, pouco vigoroso fisicamente e um ano, por baixo, mais novo que todos (naquela faixa de idade um ano é muito!). Indefeso em um meio estranho, na primeira em que entrei na escola percebi os risinhos. Pior foi depois, no prevalecimento, chegar em casa com os lábios rachados, escondendo da mãe.

Vinguei-me logo que alcancei os caras em corpo e estatura, Deus foi generoso comigo, me deu algum cérebro, e isso a riqueza não lhes deu. Alguns continuavam maiores e malvados, mas precisei somente completar 14 anos, ali estava pronto. Peguei-os um por um, longe de todo mundo, rua escura, de frente. A sós eles não são tão valentes, ou tão covardes.

Hoje sei que eram mocinhos, no fundo inculpables, e sei que trouxeram de casa a má-criação, não foi na escola que aprenderam. Azar, me pagaram, e como.




De acordo com a reportagem, a relação de pagamentos, digamos, suspeitinhos, da UnB traz pelo menos R$ 134 mil destinados a José Euricélio e a Israel Guerra entre 2005 e 2008, período em que Erenice, depois de passar por um caminhão de cargos de dívida de gratidão política (esse o melhor eufemismo que me ocorre agora) era secretária-executiva da Casa Civil, subordinada à então ministra Dilma Rousseff, atual candidata do PT à presidência da República.

A ti, Mad.



O jornal diz ainda que José Euricélio era da direção da editora e coordenador-executivo dos programas que, segundo relatório da Controladoria-Geral da União, tiveram R$ 5,8 milhões desviados para 529 pessoas.

Um cargo de muita responsabilidade, parabéns ao Euri, chegou lá.

Claro, sei que você, sempre tão competente quando ministra, gerentona cuidadosa, de faca na bota, bem informada, não podia sonhar com coisas assim, imagine. E não se pode mandar investigar os funcionários e amiguinhos, nem falo no crime de violar contas bancárias, como o Boquinha fez com o Francenildo, que depois quase morreu de fome pela covardia da sociedade que o Boquinha mandava. Onde anda esse filho de uma puta asqueroso? Não o caseiro Francenildo, o outro.

Não pode mesmo, imagine se a família de uma amiga iria ter indícios de enriquecimento ilícito. Incompatibilidade patrimonial? Nem pensar. Ler relatórios de Controladorias? É coisa para burocratas que não tem o que fazer, ora.

Sabe o que mais? Eu sei que esses caras são inocentes, pois FUI EU que roubei. E isso aí que divulgaram é nadinha perto da obra toda, as notícias não me fazem jus. É muito mais.

Aliás, toda a roubalheira, desde o governo Collor, passando por Sarney, Fernando Henrique e agora no governo atual, nunca teve culpados, simplesmente porque não me pegaram, tudo FUI EU.

Quaquaquá, eu. Se metam comigo.

EU SOU O LADRÃO SUJO, CRÁPULA! Até ASSASSINO, na medida  em que roubei recursos do povo enquanto crianças morriam de fome neste país de filhos da puta. Comprei brinquedos caros para as minhas crianças, futuros bandidos de pobrezinhos na escola.

Outro dia trarei a lista de todos os casos de gatunagem (concussão, formação de quadrilha, furto qualificado, extorsão direta e indireta, apropriação indébita, estelionato, uma lista enorme, sou culpado até de comer sem pagar no restaurante do senado) e os nomes dos justos injustamente acusados, até o querido Marcos Valério teve o desgosto de ver seu nome envolvido, alguns pensam que é um monstrinho malcriado e irresponsável, a começar pelo seu país, pura mentira, pessoas que dizem merecem prisão.

Sim, fui eu. Sempre fui eu, não me viram?, aqui escondido atrás desta máquina de escrever, espalhando desgraça, sendo tratado de doutor, eminência, mesmo sendo um vagabundo de última categoria, vulgar, de causar vômito só pela pose que mantenho? Por eu ser um merda que perto de mim gigolôs de prostítulos ralés são gente de bem?

Não perceberam? Ou perceberam e ficaram todos quietinhos, na esperança de roubar, digo, levar algum? Ou de medo?

Admiro-me de eu mesmo. "Me abri pra mim mesmo", como disse Teodósio, o Moço, ao acertar na loteria esportiva e em seguida determinar que os salteadores de estradas, os ladrões qualificados, os apóstatas, os hereges, os mentirosos e os agoureiros não possuem direito de asilo. Dificultou, amizade, em qual das duas casas públicas irão se esconder os imperiais meliantes, quem lhes dará abrigo amanhã ou depois com uma ficha dessas?

Como consegui tal façanha, não possuindo competência de parentesco? Como pude, se não fui nomeado vampiro em banco de sangue por ser filho de alguém da nomenklatura? Que milagre me permitiu essa proeza se os portões dos palácios se cerravam à minha passagem? Como, se tenho aversão a lustrar botas com o lingueirão e não sou proxeneta em eleições?

Problema para os julgadores, Salito ficará silente no tribunal, conforme faculta o Art. 5º de Hamurabi. Se quiserem, que entendam que a confissão não basta, e provem. Eu não sou um desses canalhas, não minto, não nego. Eu confesso.

Fui eu.

Viu, Ricardo Kotscho, diz aí que o gatuno Ainda Espantado se auto-incriminou, no verbo.

Gatuno é uma maldade que se comete com o gato, só por causa da mãozinha rápida e sorrateira, mas o que fazer, tornou-se corriqueira a referência ao insidioso L. A. R. Appio da antiguidade, nosso estimado larápio que hoje desfila encantado pelos corredores de Brasília.

Estamos entendidos, Mad? Agora pode voltar ao seu emprego de candidata a presidenta, vai.


Desabraço.


Salito


Y así pasan los dias.

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Foto: Um listrado e ladino gato gordo, de descendência ignorada, salvo ser filho da mãe.

martes, 14 de septiembre de 2010

Aleluia, Gretchen


Em comício ontem em Joinville (SC), bela cidade que teve o azar de acolher e acobertar nazistas no pós-guerra, o presidente Lula criticou o DEM - Democratas (ex-PFL, ex-ARENA) dizendo que o mesmo alimenta o ódio e deve ser "extirpado" do país, e que não quer acreditar que o povo de Santa Catarina irá colocar no governo uma pessoa de um partido que entrou na justiça para acabar com o programa de bolsas universitárias do ProUni.

Sempre começo a rir compulsivamente quando vejo o nome atual do partido que foi a razão e o sustentáculo da ditadura militar. "Democratas". Nunca vi tanto fel. Eu já vi cara-de-pau neste mundo, algumas irritantes, como o Boris Casoy, do antigo CCC - Comando de Caça aos Comunistas - ele nega..., tudo bem, então não era -, falando em democracia na televisão, mas neste caso desato em gargalhadas, é demais. Para não falar da Globo. É como dono de prostíbulo onde nos fundos esquartejam pessoas inocentes querer se dizer pastor, ó Jesus, o que aliás também já temos.

Bom, estou me recobrando, ã... aqui do alto da palafita, entendi que o presidente quis dizer o que disse: extirpar da política, desarraigar, arrancar, mas pelo voto, que é o que se pede em comícios. Nessas horas é bom lembrar que o presidente não é o letrado Sarney marimbondo no rabo.

Não, nada de torturar os cidadãos, a ditadura se foi. Interessante que os DEM imediatamente pensaram em arrancar de outra maneira, sei lá qual, por que será?

Um dos caciques do DEM, que alguns mal-intencionados chamam de Demônios, o sincero e probo Rodrigo Maia, não deixou passar:

- O caminho para extirpar o adversário é na linha da Alemanha nazista. O presidente age de forma autoritária ao invés de deixar o eleitor decidir.

O honrado e frugal direitão José Aleluia, do mesmo DEM, não deixou por menos:

- Está nascendo um déspota. Ele demonstra o viés antidemocrático do governo para o qual o Brasil está caminhando. Espero que a frase sirva de advertência para o povo brasileiro de que esse é o caminho de um partido cínico.

O poderoso chefão de clã e daquela região, o carinhoso extremão Sr. Jorge Konder Bornhausen, que era governador biônico na época da ditadura (em seu governo houve a Novembrada, com prisões e espancamentos de estudantes), e que em 2005, referindo-se ao PT do molusco, havia dito: "Estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos", também achou demais:

- Aconselho o presidente Lula a não faltar com a verdade, a não inaugurar obras inacabadas e a não ingerir bebida alcoólica antes dos comícios.
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Biônico, para a torrente de moçadinha que lê este bloguinho, é aquele treco onde há partes eletrônicas substituindo o órgão. Braço biônico, por exemplo. Era como a resistência jocosamente chamava os indivíduos que representavam a ditadura nos cargos, levados aos postos na silenciosa noite do horror, sem eleições, sem comícios, que assassinava brasileiros tendo como pretexto zelar pela Segurança Nacional. Então, os civis que eram íntimos e razão do regime despudoramente viravam prefeito biônico, senador biônico e governador biônico. Na marra. Alguns aproveitavam para aumentar a fortuna.

E esse DEM agora trouxe para si, entrando nele, a outro grande partido de financistas. Levarão?

Passando por cima de mim, sim.

Heil!


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Lima Barreto



Lima Barreto volta e meia é lembrado. Ultimamente tem sido com mais frequência, talvez pelo efeito das eleições em algumas almas.
Já na sua estréia como escritor, em 1909, veio com o seu belo e terrível Recordações do Escrivão Isaías Caminha, por alguma razão publicado através de uma editora de Portugal.
Uma obra-prima que mais tarde custou-lhe a vida.
Os ofendidos não lhe perdoaram as verdades proferidas. Aquele mulato, libertário, plebeu, relaxado na escrita... como ousa!
Não sei onde meti o meu velho exemplar, então reli na Biblioteca Virtual.
Tendo os jornais brasileiros de hoje como suporte, para a caneta não me falhar, anoto fragmentos.


Sobre os críticos de literatura:

"Se o nome do autor era obscuro, se as informações colhidas lhe não davam de pronto um estado civil decente, Floc adiava a notícia e esperava que os grandes nomes da crítica se pronunciassem. Se eram favoráveis ao livro, ele repetia os elogios, ampliava as observações; se eram desfavoráveis, o elegante e viçoso crítico dava curso à sua natural hostilidade aos nomes novos que não surgiam nos jornais. Havia, porém, uma casta de autores, que ele sempre elogiava; eram os diplomatas. Um destes senhores publicou certa vez uma compilação de naturalistas e de receitas agrícolas, com fingimentos de Maeterlinck, sobre as frutas nacionais. Floc não se conteve: desandou um folhetim inteiro sobre o volume, elogiando a sua virtuosidade artística, o seu estilo límpido e sereno, mostrou o pensamento panteístico que o animava, só porque o primeiro-secretário da Legação de Caracas dissera que o mamão era terno e resignado".

E lá adiante metia na boca do seu personagem Leiva:

"... A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda a prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com o seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o Sol nasce é porque eles afirmam tal coisa... E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades...

...é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também... É um poder vago, sutil, impessoal, que só poucas inteligências podem colher-lhe força e a ausência da mais elementar moralidade, dos mais rudimentares sentimentos de justiça e honestidade! São grandes empresas, propriedade de venturosos donos destinadas a lhes dar o mínimo sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores... Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um que os combata... Há necessidade de dinheiro; são preciosos, portanto, capitalistas que saibam bem o que se deve fazer num jornal... Vocês vejam: antigamente, entre nós, o jornal era de Ferreira de Araújo, de José do Patrocínio, de Fulano, de Beltrano... Hoje de quem são? A Gazeta é do Gaffrée, o País é do Visconde de Morais e assim por diante. E por detrás dela estão os estrangeiros, inimigos nossos naturalmente, indiferentes às nossas aspirações..."

Cem anos se passaram. Folgamos que tudo mudou...

La puñalada

Dos outros:

O Marcelo Migliaccio: quando o conheci, um bom moço; hoje um bom homem.
Não sei se me explico bem: eu sou charrua de bom ou ruim, sin medio agradable. Ni mucho ni poco. Bom. Bueno!

Em seu blog de jornalão (em Rio Acima), tem alguns recuerdos.

Não sei se teve a intenção, mas percebe-se claramente que o Lula e amigos, mais os covardes, aquela mistura, pela ordem, de aproveitadores com intelectuais de buteco, mudaram.

O Serra, não mencionado, digo eu: endireitou de vez, dominado pela ultradireita conservadora, amado pelos Bornhausens, Jereissatis e Gerdaus, Opus Dei, et caterva, se não parar (olha, Dorucha...) vira pior que palhaço de gafieira.
Serra mudou. A ultradireita a que hoje pertence, como pertenceu FHC, ela, o câncer do Brasil, segue a mesma serpente malvada, da fome de tudo aos seus irmãozinhos que assistem ao jogo da valeta.

Os Ferreiras Netos seguem iguais, sem tirar nem pôr, a postos em todos os veículos de comunicação: âncoras e comentaristas, os vis animaizinhos, serviçais do parágrafo anterior.

E o Plínio?


Diz o Marcelo:

Plínio de Arruda Sampaio


Conheci Plínio de Arruda Sampaio (conheci não, falei com ele apenas uma vez) durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1988.


Acompanhei o esforço dele e dos outros deputados chamados de "esquerda" para introduzir na nova Constituição tópicos que melhorassem um pouco a vida do trabalhador brasileiro, tão vilipendiado ao longo da nossa história.

Mas a briga não era fácil. Do outro lado, o lado da concentração de renda, estava um grupo apelidado de Centrão, que de centro não tinha nada, era de direita mesmo.

A Suderj informava: "Entra em campo o Centrão, com Roberto Campos, José Lourenço, Jarbas Passarinho, Roberto Cardoso Alves, Gastone Righi, Arnaldo Faria de Sá, Amaral Neto, Luis Eduardo Magalhães, Marco Maciel, Inocêncio de Oliveira e Roberto Jefferson.

E mais uns 300 deputados e senadores no banco de reservas.

A seguir, surgia do túnel à esquerda o time adversário: Plínio Arruda Sampaio, Lula, Fernando Henrique, Genoíno, Paulo Paim, Cristina Tavares, Edmilson Valentim, Mario Covas, Luiz Gushiken, Florestan Fernandes e Lysâneas Maciel.

E outro catatau de gente se aquecendo para entrar no tapete verde e travar uma batalha verbal com o pessoal que não queria mudar nada naquele país arcaico e quase feudal que teimava em existir.

Plínio de Arruda Sampaio, que agora se torna conhecido de muito mais gente como candidato do PSol à Presidência, foi um político que aprendi a admirar de longe durante aquelas votações.
Pela coerência e, principalmente, pela sua educação no trato político, mesmo com adversários às vezes truculentos e intransigentes.

Certa vez, já na campanha presidencial de 1989, o jornalista Ferreira Neto, que apoiava Collor descaradamente, chamou o então Caçador de Marajás alagoano para uma entrevista em seu programa de TV.

Não chamou Lula, como mandava a lei, e a Justiça o obrigou a fazê-lo à força, para uma entrevista que duraria o mesmo tempo que a de Collor. Como Lula não pôde ir, mandou seu companheiro petista Plínio, que ouviu e respondeu pacientemente a todas as perguntas provocativas de Ferreira Neto.

Perguntas do tipo:

- Se o PT ganhar a eleição a classe média terá de dividir seus apartamentos com os mendigos da esquina?

Plínio respondia a absurdos como esse didaticamente, com respiração inabalável. E eu em casa pensando: por que ele não manda esse entrevistador às favas(1)?

Ao final do programa, porém, enquanto Ferreira Neto fazia o tradicional encerramento, o parlamentar levantou-se subitamente e foi embora, sem se despedir e nem sequer olhar para trás. Um final constrangedor para uma entrevista indecente.

No dia 5 de outubro de 1988, quando recebi meu exemplar da nova Carta, vi que vários jornalistas estavam pedindo autógrafos a constituintes.
Fiz o mesmo. E, ironicamente, fiz questão de pegar uma assinatura do deputado baiano José Lourenço (PFL), justamente um dos que mais acenara com o fantasma de um golpe militar a cada votação que avançasse nos direitos dos trabalhadores. Ele me olhou desconfiado, porque sabia que era uma ironia. Mas assinou.

Além de Lourenço, pedi autógrafos ao Vladmir Palmeira, ao Genoíno e ao Plínio, que levou um susto quando me aproximei.

Visivelmente feliz e orgulhoso com o fã inesperado, ele assinou e, de todas, a sua é a que mais prezo quando abro o já amarelado livro para recordar o passado.





(1) à PQP. Tradução de Salito.

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Pois é, La Puñalada é uma milonga do Caledonio Flores. Fala de sinceridade, paixão e amor. E da vontade de.
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domingo, 12 de septiembre de 2010

Deonísio da Silva


Baseado em um episódio da guerra do Paraguai, a retirada da Laguna, esse romance nos dá uma visão crítica e solidária do homem brasileiro. Uma história de amor, aventura e denúncia.
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Deonísio da Silva, em interessantíssimo artigo falando das mazelas do nosso país, no que tange aos escritores, ao tempo em que exalta a Jornada de Literatura de Passo Fundo (íntegra em A casa do escritor brasileiro) finalmente escreveu:

"O Brasil real é bem diferente daquele apresentado por nossa grande imprensa. Quem quiser conhecê-lo ou se informar sobre o que acontece neste outro grande país não pode limitar-se à leitura de jornais como O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. São nossos maiores jornais, mas ignoram o Brasil. Os dois paulistas cobrem mais São Paulo. Os dois cariocas, mais o Rio. O resto do país depende dos jornais locais e regionais. Vale o mesmo para o rádio e a televisão.
Ando tão desanimado com nossa grande imprensa que pode até parecer encrenca ou má água que guardo em meu monjolinho interior. Mas, não. Água é para correr e tocar moinhos. Sofrimento é para sair na urina: o que não sai na grossa, que saia na fina. Se fosse ressentido, não seria assinante de dois grandes jornais e não compraria o terceiro nas bancas.
Em 1992, ganhei o Prêmio Internacional Casa de las Américas com o romance Avante, soldados: para trás. O júri foi presidido por José Saramago. Quem repercutiu foram amigos que trabalhavam nesses jornais, como Geraldo Galvão Ferraz e Norma Couri, no Estadão; Mário Pontes, no JB. A Folha pautou o assunto, um prêmio internacional, para seu caderno regional, FolhaRibeirão, cidade com a qual não tenho qualquer ligação, a não ser morar a 90 km dela, porque vivo há dezoito anos em São Carlos. A revista Veja pautou o tema para a Veja Interior, hoje já falecida. Claro, não era denúncia de nenhuma mazela de terceiro mundo. Era uma conquista semelhante a um feito glorioso em olimpíadas às quais ela dá capa."


Com efeito, lembro bem, recordo que o Saramago implicou com o título do romance do Deonísio e por conta disso quase que ele não leva o prêmio. Felizmente o grande português entendeu que apenas o seu desagrado pelo título era muito pouco para retirar a honraria do catarinense.


Sim, ir a Cuba e vencer o Casa de Las Americas não é para qualquer um. Na época fiquei muito feliz por ver um brasileiro, meu vizinho, na época praticamente desconhecido do grande público, se tornar uma celebridade. Que glória!


Em seguida veio um imenso nojo dos nossos meios de comunicação, das televisões, dos jornais, dos donos dessa porcalhada toda, dos profissionais que atuam nesse macabro faz de conta. Qualquer estrangeiro solta um punzinho e eles ficam agitadíssimos, oh, o John, o Mark...


O feito do Deonísio era para ter batido na capa, sim, de todos os jornais e revistas. Merecia entrevistas com o autor em todas as televisões, em horário nobre, em programas de auditório, o diabo a quatro.


Por essas e outras é que no Brasil admiro tanto a raça dos escribas que não são amigos dos múmios donos de tudo, o sujeito tem que ter muito peito para dedicar-se a rabiscos.
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sábado, 11 de septiembre de 2010

JÁ!

É longa a matéria, mas é preciso que todos leiam. O Luiz Cláudio Cunha dá uma lição de profissionalismo, para além do horror à injustiça.


JORNAL JÁ!


Como calar e intimidar a imprensa
Luiz Cláudio Cunha
no Observatório da Imprensa

“Quando o mal é mais audacioso, o bem precisa ser mais corajoso.” (Pierre Chesnelong, 1820-1894, político francês

Agosto, mês de cachorro louco, marcou o décimo ano da mais longa e infame ação na Justiça brasileira contra a liberdade de expressão.

É movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, 60 anos, agora candidato ao Senado pelo PMDB do Rio Grande do Sul e supostamente alheio ao processo aberto em 2001 por sua mãe, dona Julieta, hoje com 89 anos. A família atacou em duas frentes, indignada com uma reportagem de quatro páginas, publicada em maio daquele ano em um pequeno mensário (tiragem de 5 mil exemplares) de Porto Alegre, o JÁ, que jogava luzes sobre a maior fraude da história gaúcha e repercutia o envolvimento de Lindomar Rigotto, filho de Julieta e irmão de Germano.
Uma ação, cível, cobrava indenização da editora por dano moral. A outra, por injúria, calúnia e difamação, punia o editor do JÁ e autor da reportagem, Elmar Bones da Costa, hoje com 66 anos. O jornalista foi absolvido em todas as instâncias, apesar dos recursos da família Rigotto, e o processo pelo Código Penal foi arquivado.
Mas, em 2003, Bones acabou sendo condenado na área cível ao pagamento de uma indenização de R$ 17 mil. Em agosto de 2005 a Justiça determinou a penhora dos bens da empresa. O JÁ ofereceu o seu acervo de livros, cerca de 15 mil exemplares, mas o juiz não aceitou. Em agosto de 2009, sempre agosto, quando a pena ascendera a quase R$ 55 mil, a Justiça nomeou um perito para bloquear 20% da receita bruta de um jornal comunitário quase moribundo, sem anúncios e reduzido a uma redação virtual que um dia teve 22 jornalistas e hoje se resume a dois – Bones e Patrícia Marini, sua companheira. Cinco meses depois, o perito foi embora com os bolsos vazios, penalizado diante da flagrante indigência financeira da editora.

Até que, na semana passada, no maldito agosto de 2010, a família de Germano Rigotto saboreou mais um giro no inacreditável garrote judicial que asfixia o jornal e seu editor desde o início do Século 21: o juiz Roberto Carvalho Fraga, da 15ª Vara Cível de Porto Alegre, autorizou o bloqueio online das contas bancárias pessoais de Elmar Bones e seu sócio minoritário, o também jornalista Kenny Braga. Assim, depois do cerco judicial que está matando a editora, a família Rigotto assume o risco deliberado de submeter dois dos jornalistas mais conhecidos do Rio Grande ao vexame da inanição, privados dos recursos essenciais à subsistência de qualquer ser humano.

O personagem de Scorsese

Afinal, qual o odioso crime praticado pelo JÁ e por Elmar Bones que possa justificar tanta ira, tanta vindita, ao longo de tanto tempo, pelo bilioso clã Rigotto?
O pecado do jornal e seu editor só pode ter sido o jornalismo de primeira qualidade, ousado e corajoso, que lhe conferiu em 2001 os prêmios Esso Regional e ARI (Associação Riograndense de Imprensa), os principais da categoria no sul do país, pela reportagem “Caso Rigotto – Um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não esclarecidas”.A primeira morte era a de uma garota de programa, Andréa Viviane Catarina, 24 anos, que despencou nua do 14º andar de um prédio na Rua Duque de Caxias, no centro da capital gaúcha, no fim da tarde de 29 de setembro de 1998.
O dono do apartamento, Lindomar Rigotto, estava lá na hora da queda. Ele contou à polícia que a garota tinha bebido uísque e ingerido cocaína. Nenhum vestígio de álcool ou droga foi confirmado nos exames de sangue coletados pela criminalística. O laudo da necropsia diz que a vítima mostrava três lesões – duas nas costas, uma no rosto – que não tinham relação com a queda. Ela estava ferida antes de cair, o que indicava que houve luta no apartamento. Um teste do Instituto de Criminalística indicou que o corpo de Andréa recebeu um impulso no início da queda.
No relatório que fez após ouvir Rigotto, o delegado Cláudio Barbedo, um dos mais experientes da polícia gaúcha, achou relevante anotar: “[Lindomar] depôs sorrindo, senhor de si, falando como se estivesse proferindo uma conferência”. Os repórteres que o viram chegar para depor, no dia 12 de novembro, disseram que ele parecia “um personagem de Martin Scorsese”, famoso pelos filmes sobre a Máfia: Lindomar usava óculos escuros, terno azul marinho, calça com bainha italiana, camisa azul, gravata colorida e gel nos cabelos compridos. O figurino não impressionou o delegado, que incluiu na denúncia o depoimento de uma testemunha informando que Lindomar era conhecido como “usuário e traficante de cocaína” na noite que ele frequentava – por prazer e ofício – como dono do Ibiza Club, uma rede de quatro casas noturnas que agitavam as madrugadas no litoral do Rio Grande e Santa Catarina.
Em dezembro, o delegado Barbedo concluiu o inquérito, denunciando Lindomar Rigotto por homicídio culposo e omissão de socorro.
Lindomar só não sentou no banco dos réus porque teve também uma morte violenta, 142 dias após a de Andréa. Na manhã de 17 de fevereiro, ele fechava o balanço da última noite do Carnaval de 1999, que levou sete mil foliões ao salão do Ibiza da praia de Atlântida, a casa mais badalada do litoral gaúcho. Cinco homens armados irromperam no local e roubaram a féria da noitada. Lindomar saiu em perseguição ao carro dos assaltantes. Emparelhou com eles na praia vizinha, Xangrilá, a três quilômetros do Ibiza. Um assaltante botou a arma para fora e disparou uma única vez. Lindomar morreu a caminho do hospital, com um tiro acima do olho direito. Tinha 47 anos.

O choque de Dilma

A trepidante carreira de Lindomar Rigotto sofrera um forte solavanco dez anos antes, com seu envolvimento na maior fraude da história gaúcha: a licitação manipulada de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), uma tungada em valores corrigidos de aproximadamente R$ 840 milhões – 21 vezes maiores do que o escândalo do Detran que submeteu a governadora Yeda Crusius a um pedido de impeachment, quase três vezes mais do que os desvios atribuídos ao clã Maluf em São Paulo, quinze vezes maior do que o total contabilizado pelo Supremo Tribunal Federal para denunciar a “quadrilha dos 40″ do mensalão do governo Lula.
Afundada em dívidas, a estatal gaúcha de energia tinha dificuldades para captar os US$ 141 milhões necessários para as subestações que gerariam 500 mil quilowatts para 51 pequenas e médias cidades do Rio Grande. Preocupado com a situação pré-falimentar da empresa, o então governador Pedro Simon (PMDB) tinha exigido austeridade total.
Até que, em março de 1987, inventou-se o cargo de “assistente da diretoria financeira” para acomodar Lindomar, irmão do líder do Governo Simon na Assembléia, o deputado caxiense Germano Rigotto. “Era um pleito político da base do PMDB em Caxias do Sul”, confessaria depois o secretário de Minas e Energia, Alcides Saldanha. Mais explícito, um assessor de Saldanha reforçou a paternidade ao JÁ: “Houve resistência ao seu nome [Lindomar], mas o irmão [Germano] exigiu”.
Com a chegada de Lindomar, as negociações com os dois consórcios das obras, que se arrastavam há meses, foram agilizadas em apenas oito dias. Logo após a assinatura dos contratos, os pagamentos foram antecipados, contrariando as normas estritas baixadas por Simon para evitar curtos-circuitos contábeis na CEEE. Três meses depois, a empresa foi obrigada a um empréstimo de US$ 50 milhões do Banco do Brasil, captado pela agência de Nassau, no paraíso fiscal das Bahamas. Uma apuração da área técnica da CEEE detectou graves problemas: documentos adulterados, folhas numeradas a lápis, licitação sem laudo comprovando a necessidade da obra.
A sindicância da estatal propôs a revisão dos contratos, mas nada foi feito. A recomendação chegou ao governo seguinte, o de Alceu Collares (PDT), e à sucessora de Saldanha na pasta das Minas e Energia, uma economista chamada Dilma Rousseff. “Eu nunca tinha visto nada igual”, diria ela, chocada com o que leu.
Dilma só não botou o dedo na tomada porque o PDT de Collares precisava dos votos do PMDB de Rigotto para ter maioria na Assembléia. Para evitar o risco de queimaduras, Dilma, às vésperas de deixar a secretaria, em dezembro de 1994, teve o cuidado de mandar aquela papelada de alta voltagem para a Contadoria e Auditoria Geral do Estado (CAGE), que começou a rastrear a CEEE com auditores do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e do Ministério Público. Dependendo do câmbio, o tamanho da fraude constatada era sempre eletrizante: US$ 65 milhões, segundo o CAGE, ou R$ 78,9 milhões, de acordo com o Ministério Público.
A denúncia energizou a criação de uma CPI na Assembléia, proposta pelo deputado Vieira da Cunha, líder da bancada do PDT em 2008 na Câmara Federal. Vinte e cinco auditores quebraram sigilos bancários e fiscais. Lindomar Rigotto foi apontado em 13 depoimentos como figura central do esquema, acusação reforçada pelo chefe dele na CEEE, o diretor-financeiro Silvino Marcon. A CPI constatou que os vencedores da licitação, gerenciados por Rigotto, apresentavam propostas “em combinação e, talvez, até ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas”.
O relatório final lembrava: “É forçoso concluir pela existência de conluio entre as empresas interessadas que, se organizando através de consórcios, acertaram a divisão das obras entre si, fraudando dessa forma a licitação”. O JÁ foi mais didático: “Apurados os vencedores, constatou-se que o consórcio Sulino venceu todas as subestações do grupo B2 e nenhuma do B1. Em compensação, o Conesul venceu todas as obras do B1 e nenhuma do B1. A di ferença entre as propostas dos dois consórcios é de apenas 1,4%”.

O aval de Dulce
A quebra do sigilo bancário de Lindomar revelou um crédito em sua conta de R$ 1,17 milhão, de fonte não esclarecida. O relatório final da CPI caiu na mão de um parlamentar do PT, o também caxiense Pepe Vargas, primo de Lindomar e Germano Vargas Rigotto.
Apesar do parentesco, o primo Pepe, hoje deputado federal, foi inclemente na sua acusação final: “De tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a prática de corrupção passiva e enriquecimento ilícito de Lindomar Vargas Rigotto”.
Além dele, a CPI indiciou outras 12 pessoas e 11 empresas, botando no mesmo balaio nomes vistosos como Camargo Corrêa, Alstom, Brown Boveri, Coemsa, Sultepa e Lorenzetti. No final de 1996, a Assembléia remeteu as 260 caixas de papelão da CPI ao Ministério Público, de onde nasceu o processo n° 011960058232 da 2ª Vara Cível da Fazenda Pública em Porto Alegre. Os autos somam 30 volumes e 80 anexos e mofam ainda na primeira instância do Judiciário, protegidos por um inacreditável “segredo de justiça”. Em fevereiro próximo, o Rio Grande do Sul poderá comemorar os 15 anos de completo sigilo sobre a maior fraude de sua história.
Esta incrível saga de resistência e agonia do JÁ e de Bones provocada pela família Rigotto foi contada, em primeira mão, neste Observatório, em 24 de novembro de 2009 (“O jornal que ousou contar a verdade“).
No dia seguinte, uma quarta-feira, Rigotto telefonou de Porto Alegre para reclamar ao autor que assina aquele e este texto.

- Isso ficou muito ruim pra mim, Luiz Cláudio, pois o Observatório é um formador de opinião, muito lido e respeitado. Ficou parecendo que eu estou querendo fechar um jornal. Eu não tenho nada a ver com isso. O processo é coisa da minha mãe. Foi a minha irmã, Dulce, que me disse que a reportagem era muito pesada, irresponsável. Eu nem conheço este jornal, este jornalista…

- Rigotto, a dona Julieta não é candidata a nada. O candidato és tu. A reportagem do JÁ tem implicações políticas que batem em ti, não na tua mãe. E acho muito estranho que, passados oito anos, tu ainda não tiveste a curiosidade de ler a reportagem que tanta aflição provoca na dona Julieta. Se tu estás te baseando na avaliação da Dulce, devo te alertar que ela não entende xongas de jornalismo, Rigotto! Esta matéria do Bones é precisa, calcada em fatos, relatórios, documentos e conclusões da CPI e do Ministério Público que incriminam o teu irmão. Não tem opinião, só informação. O teu processo…

- Não é meu, não é meu… É da minha mãe…

- Isso é o que diz também o Sarney, Rigotto, quando perguntam a ele sobre a censura que cala O Estado de S.Paulo. “Isso é coisa do meu filho, o Fernando”…

- Eu fico muito ofendido com esta comparação! Eu não sou o Sarney, não sou!…

- Lamento, mas estás usando a mesma desculpa do Sarney, Rigotto.

- Luiz Cláudio, como resolver isso tudo com o Bones? A gente pode parcelar a dívida e aí…

- Rigotto, tu não estás entendendo nada. O Bones não quer parcelar, não quer pagar um único centavo. Isso seria uma confissão de culpa, e ele não fez nada errado. Pelo contrário. Produziu uma reportagem impecável, que ganhou os maiores prêmios. Eu assinaria essa matéria, com o maior orgulho. Sai dessa, Rigotto!

Coincidência ou não, um dia depois do telefonema, na quinta-feira, 26, Rigotto convocou uma inesperada coletiva de imprensa em Porto Alegre para anunciar sua retirada como possível candidato ao Palácio Piratini, deixando o espaço livre para o prefeito José Fogaça.

O modelo de Roosevelt
Naquela mesma quarta-feira, 25 de novembro, a emenda ficou pior que o soneto. O advogado dos Rigotto, Elói José Thomas Filho, botou no papel aquela mesma proposta indecente que ouvi do próprio Germano Rigotto, confirmando por escrito ao editor a idéia de parcelar a indenização devida de R$ 55 mil em 100 (cem) módicas prestações.
Diante da altiva recusa de Bones, o advogado pareceu incorporar a doutrina do big stick de Theodore Ted Roosevelt (1901-1909), popularmente conhecida como “lei do tacape” e inspirada pela frase favorita do belicoso presidente estadunidense: “Fale com suavidade e tenha na mão um grande porrete”.
O suave advogado Thomas Filho escreveu então para Bones: “… em nova demonstração de boa-fé, formalizamos nossa intenção em compor amigavelmente o litígio acima, bem como a possibilidade [sic] de nos abstermos de ajuizar novas demandas judiciais…”.
Certamente para tranquilizar o filho candidato, o advogado reafirmava na carta a Bones que a ação contra o jornal era movida “unicamente” por dona Julieta, que buscava na justiça o ressarcimento pelo “abalo moral” provocado pela reportagem do JÁ, que misturava “irresponsavelmente três fatos diversos que envolveram a figura do falecido”. Ou seja, dona Julieta Rigotto, que entende de jornalismo tanto quanto os filhos Dulce e Germano, não consegue perceber a obviedade linear de uma pauta irresistível para qualquer repórter inteligente: o objetivo relato jornalístico sobre um homem público – Lindomar – morto num assalto pouco antes de ser julgado pelo homicídio culposo de uma prostituta e pouco depois de ser denunciado no relatório de uma CPI, redigido pelo primo deputado, pela prática comprovada de “corrupção passiva e enriquecimento ilícito” na maior fraude já cometida contra os cofres públicos do Rio Grande do Sul. Mas, na lógica simplória da mãe dos Rigotto, uma coisa não tem nada a ver com a outra…
Para garantir o tom “amigável” entre as partes, o advogado de dona Julieta propôs a Bones os termos de uma retratação pública, suave como um porrete, enfatizando três pontos:

1 – “Dona Julieta nunca teve a intenção de fechar o jornal”;
2 – “a ação não é promovida pela família Rigotto, mas apenas por dona Julieta”;
3 – “retirar o jornal de circulação, para estancar a propagação do dano”.

Tudo isso, incluindo o ameno confisco de um jornal das bancas em pleno regime democrático, segundo o tortuoso raciocínio do advogado, serviria para “tutelar a honra e a imagem de seu falecido filho”.
Neste longo, patético episódio, que intercala demonstrações de coragem e altivez com cenas de pura violência, fina hipocrisia ou corrupção explícita, ficou pelo caminho o contraste de atitudes que elevam ou rebaixam. Diante da primeira ação criminal de dona Julieta na Justiça, o promotor Ubaldo Alexandre Licks Flores ensinou, em novembro de 2002:
“[não houve] qualquer intenção de ofensa à honra do falecido Lindomar Rigotto. Por outro lado, é indiscutível que os três temas [a CEEE e as duas mortes] estavam e ainda estão impregnados de interesse público”.

O orgulho de Enedina

Apesar da lucidez do promotor, o caso tonitruante da CEEE não ecoa nos ouvidos surdos da imprensa gaúcha, conhecida no país pela acuidade de profissionais talentosos, criativos, corajosos. Nenhum grande jornal do sul – Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul -, nenhum colunista de peso, nenhum editorialista, nenhum blog de prestígio perdeu tempo ou tinta com esse tema, que nem de longe parece um assunto velho, batido ou nostálgico.
O que lhe dá notória atualidade não é o ancestral confronto entre a liberdade de expressão e a prepotência envergonhada dos eventuais poderosos de plantão, mas a reaparição de seus principais personagens no turbilhão da corrida eleitoral de 2010.

Germano Rigotto, o líder governista que emplacou o filho de dona Julieta na máquina estatal, é hoje o candidato do maior partido gaúcho ao Senado Federal.
A ex-secretária Dilma Rousseff, que ficou estarrecida com o que leu sobre as fraudes de Lindomar Rigotto na CEEE, é apontada pelas pesquisas como a futura presidente do Brasil, numa vitória classificada pelo renomado jornal inglês Financial Times como “retumbante”.
Tarso Genro, o ex-comandante supremo da Polícia Federal, que executou as maiores operações contra corruptos da máquina pública, lidera a corrida ao governo gaúcho e, certamente, tem os instrumentos para saber hoje o que Dilma sabe desde 1990.
O primo Pepe Vargas, que mostrou isenção e coragem no relatório da CPI sobre a maior fraude da história do Rio Grande, é candidato à reeleição, assim como o deputado federal que inventou a CPI, Vieira da Cunha.
É a lógica perversa do interesse eleitoral que explica o desinteresse até dos principais adversários de Rigotto na disputa pelo Senado.
O candidato do PMDB está emparedado entre a líder na pesquisa da Datafolha, a jornalista Ana Amélia Lemos (PP) – que subiu de 33% em julho para 44% na semana passada – e o candidato à reeleição pelo PT, senador Paulo Paim – que cresceu de 35% no início do mês para 38% agora. Rigotto caiu de 43% para 42% no espaço de três semanas.
Na Região Metropolitana de Porto Alegre, Ana Amélia bate Rigotto por 47% a 39%. Seus oponentes desprezam o potencial explosivo do “Caso CEEE” porque todos sonham em ganhar o segundo voto dos outros candidatos, o que justifica a calculada misericórdia e o piedoso silêncio que modera a estratégia de adversários historicamente tão diferentes e hostis como são, no Rio Grande do Sul, o PT, o PMDB e o PP.
O que é recato na política se transforma em omissão nas entidades que, ao longo do tempo, marcaram suas vidas na luta pela democracia e pela liberdade de expressão e no repúdio veemente à ditadura e à censura. Siglas notáveis como OAB, ABI, SIP, Fenaj e Abraji brilham pelo silêncio, pela omissão, pelo desinteresse ou pelo trato burocrático do caso JÁ vs. Rigotto, que resume uma questão crucial na vida de todas elas e de todos nós: a livre opinião e o combate à prepotência dos grandes sobre os pequenos, apanágio de toda democracia que se respeita.
A OAB e seus advogados, no Rio Grande ou no Brasil, que impulsionaram a queda de um presidente envolvido em denúncias de corrupção, não se sensibilizam pela sorte de um pequeno jornal e seu bravo editor, punidos por seu desassombrado jornalismo e mortalmente asfixiados pelo cerco econômico surpreendentemente avalizado pela Justiça, que deveria proteger os fracos contra os fortes – e não o contrário.
A inerte Associação Brasileira de Imprensa jamais se pronunciou sobre as agruras de Bones e seu jornal. Só em setembro de 2009, um mês após a denúncia sobre o bloqueio judicial das receitas do JÁ, é que a Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas do RS trataram de fazer alguma coisa: uma nota gelada, descartável, manifestando solidariedade à vítima e lamentando a decisão “equivocada” da Justiça.
A Associação Riograndense de Imprensa, que em 2001 conferiu à reportagem contestada do JÁ o seu maior prêmio jornalístico, só quebrou o seu constrangedor silêncio ao ser cobrada publicamente por este Observatório, em novembro passado. Todos os membros da brava Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo têm a obrigação de conhecer a biografia de Elmar Bones, que nos anos de chumbo pilotou o CooJornal, um mensário da extinta Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (1976-1983) que virou referência da imprensa nanica que resistia à ditadura.
Bones chegou a ser preso, em 1980, pela publicação de um relatório secreto em que o Exército fazia uma autocrítica sobre as bobagens cometidas na repressão à guerrilha do Araguaia. Algo mais perigoso, na época, do que falar na roubalheira operada pelo filho de dona Julieta na CEEE… No site da Abraji, a entidade emite sua opinião em quatro notas, nos últimos dois anos. Critica o sigilo eterno de documentos públicos, defende o seguro de vida para repórteres em zona de risco, repudia um tapa na cara que uma repórter de TV do Centro-Oeste levou de um vereador e, enfim, faz uma vigorosa, firme, veemente manifestação a favor da liberdade de expressão… no México. Ao pobre JÁ e seu editor, lá no sul do Brasil, nenhuma linha, nada.
A poderosa Sociedade Interamericana de Imprensa, que reúne os maiores veículos das três Américas, patrocina uma influente Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação, hoje sob a presidência de um jornal do Texas, o San Antonio Express News. Entre os 26 vice-presidentes regionais, existem dois brasileiros: Sidnei Basile, do Grupo Abril, e Maria Judith de Brito, da Folha de S.Paulo. Envolvidos com os graves problemas da Paulicéia, eles provavelmente não podem atentar para o drama vivido por um pequeno jornal de Porto Alegre. Mas, existem outros 17 membros na Comissão de Liberdade da SIP, e dois deles bem próximos do drama de Bones: os gaúchos Mário Gusmão e Gustavo Ick, do jornal NH, de Novo Hamburgo, cidade a 40 km da capital gaúcha. Nem essa proximidade livra as aflições do JÁ e seu editor do completo desdém da SIP.
Este monumental cone de silêncio e omissão, que atravessa fronteiras e biografias, continua desafiando a sensibilidade e a competência de jornais e jornalistas, que deveriam se perguntar o que existe por trás do amaldiçoado caso da CEEE, que afugenta em vez de atrair a imprensa.
A maior fraude da história do Rio Grande, mais do que uma bomba, é uma pauta em aberto, origem talvez da irritação dos Rigotto contra o editor e o jornal que ousaram jogar luz nessa história mal contada.
Os volumes empoeirados deste megaescândalo continuam intocados nas estantes da Justiça em Porto Alegre, protegido por um sigilo inexplicável que só pode ser útil a quem mente e a quem rouba, não a quem luta pela verdade e a quem é ético na política, como fazem os bons repórteres e como devem ser os bons políticos.
O bom jornalismo não é aquele que produz boas respostas, mas aquele que faz as boas perguntas – e as perguntas são ainda melhores quando incomodam, quando importunam, quando constrangem, quando afligem os consolados e quando consolam os aflitos.
A emoção é a última fronteira de quem perde os limites da razão. Elmar Bones tinha ganhado todas as instâncias do processo criminal, quando um juiz do Tribunal de Justiça, na falta de melhores argumentos, preferiu se assentar nos autos impalpáveis do sentimento para decidir em favor da mãe de Germano Rigotto:
“Não há como afastar a responsabilidade da ré pelas matérias veiculadas, que atingiram negativamente a memória do falecido, o que certamente causou tristeza, angústia e sofrimento à mãe do mesmo (…)”.
Dona Julieta Rigotto, viva e forte aos 89 anos, ainda sofre com a honra e a imagem maculadas de seu falecido filho, Lindomar.
Dona Enedina Bones da Costa tinha 79 anos quando morreu, em 2001, poupada assim da tristeza, angústia e sofrimento que sentiria ao ver o drama vivido agora por seu filho, Elmar. Mas ela teria, com certeza, um enorme, um insuperável orgulho pelo filho honrado e corajoso que trouxe ao mundo e ao jornalismo.

Velório à Pampulha (final)


Alguém fala “É a vida...” e subitamente um novo silêncio desce no apartamento. Veio natural, sem combinação, um silêncio demorado, ficando mais pesado a cada segundo. Sinto seus olhares para o caixão. Também me dá uma coisa engraçada, melancólica, difícil de dizer.

Então compreendo que olharam para o copo, para o centro da peça, novamente para o copo, e cada um pensa em quando e como será a sua vez. Durou uns dois minutos, uma eternidade.

Madalozzo nervoso grita: “Quem vai botar o disco desta vez?!”, espantando em parte a sombra que pairava.
A Vera: “Alguém trate de achar Perfídia aí, todo mundo sabe que ele é doido pelo bolero”.
Acham umas vinte versões, optam pelo Nelson Gonçalves.


Segue o baile. O Joeci numa água de dar tristeza; aliás, há vinte minutos olha para cá com uma cara de greve de fome no décimo dia, meneando a cabeça e repetindo, penalizado: “O camarada...”. Deixa estar, algumas comidinhas ele se recobra e vai provocar o Pato para uma sinuca. Será uma partida justa e equilibrada, imperdível, quando a farra acabar quero assistir. Claro, o Pato dará de vantagem cem pontos e a sete livre.

A Verinha embarcou no uísque do Roni, vem e me sussurra: “Desgraçado, merecia era morrer de tiro, onde já se viu na cama...”, depois vai para o lado do Danilo, se abraçam e choram copiosamente. Tinha que filmar.

O Beto irmão do Roger, vestido de ninja, todo de preto, irrompe na sala em disparada, estaca e solta o seu grito de guerra: “Rá!”, em posição de ataque. Depois, servindo-se de trago, tira o capuz e conta que pretendia dar um karatê na morte mas a bandida não se defendeu.

As mulheres trazem os comes, o Maga experimenta o frango à passarinho e emputece: “Esqueceram o sal! Logo no velório de quem! Andando com vocês até eu morria!”. Feriu as pobrezinhas.


Entra o Baixo Clóvis, pelas observações que fazem veio pilchado, todo macanudo. Pára defronte ao caixão e balbucia: “Eu não acredito...”, fica me olhando um tempão para se certificar e sai em busca de cerveja. Esse com uma mísera caixa de brahmas dorme na mesa, espero que hoje ao dormir não seja em cima de mim.

O Maia pede silêncio e ninguém liga, o papo, a bebida, a comida com sal póstumo e a música têm prioridade. Indigna-se e esbraveja: “Silêncio, por favor!”. Todos se calam, exceto o Madalozzo.

O Maia, olhando feio para o comunista, de novo pede licença, compenetra-se e calmamente toma a palavra: “Senhores e senhoras. Façamos desta solenidade um ato político. Como todos sabem, e bem falou o pioneiro estagirita, o homem é um animal político, por isso o homem civilizado é o melhor dos animais, e a reflexão tem como base a discussão sobre a escravatura natural e a escravatura convencional...”.

O Madalozzo solta um rugido: “Ah, não, pode parar, Aristóteles de novo, já chega o tal de Nicômano do outro dia, seu imbecil!”. Pronto, feita a bagunça. Gente apartando, empurrões.

Acalmados os ânimos, Maia retoma: “Bem, abstraídos os pensadores, falando agora de modo que alguns ignorantes possam entender, eu proponho ampla divulgação das idéias do sempre lembrado, pois além de ter sido muito querido pelos bares...”, pigarreia, lembra que não em todos, tosse, pensa em remendar mas desiste, continuando: “..., deixa inúmeros admiradores anônimos e..., afinal, morrem pouquíssimos comunistas no Brasil...”.

Sórdida insinuação, mas agüento firme. A massa petista, maldosa, ri entredentes. Protesto veemente do Joeci: “Amoral, tendencioso, respeite ao menos na morte!”. O Ireno e o Celso a muito custo seguram o Madalozzo, fora de si, que quer partir para a agressão com uma garrafa, achou as estocadas diretas para ele.

O Maia finge que não é com ele e vai: “..., é que, na verdade, felizmente morrem poucos, daí porque temos tantos companheiros vivos, mas o Salito doeu, o camarada valia por uns mil dos que conheço”. Falou isso olhando para o Mada. Aplausos, mas Joeci resmunga. O Ireno novamente tem de segurar o Mada. O Maia vai prosseguir quando o Maurri arranca-lhe a palavra: principia, impetuoso, um discurso em alemão. Deve estar dizendo que eu era antipático, metido a sabe tudo, mas às vezes tolerável, quando calado. O Roni aplaude.

O Roger suspira de saudade do seu amigo germânico, recordando a melancólica despedida no aeroporto, ou sou eu que estou imaginando coisas? Maurri começa uma letra erre e o Maia revida a intromissão: “... tenho certeza de que era apreciado até pelos desconhecidos!”. O Roger dá um pulo da cadeira e, fiel à mania de convidar estranhos à mesa, exclama: “Concordo plenamente. Mais, não só concordo como vou agora lá no Pampulha, pois tem uns que não nos conhecem: quatro egípcios, três holandeses, três suecas e um iraquiano (murmúrios na sala), sem falar nos dois baianos perto do banheiro das mulheres e do uruguaio que vai passando na rua”. Não entende a explosão de risos e sai porta afora gritando: “Estrangeiros e solitários de todo o Universo, vinde a mim; eu, o fenício, sou o pai de vocês!”. O Maurri, fuzilando o Maia com um olhar sanguíneo, encolerizado prossegue o discurso em alemão. Achtung!


Sessão nostalgia: o Pato conta a história da vez em que fomos num churrasco na periferia, num pessoal bem povão mesmo. Levou a carne, se não levasse iríamos comer capim, eles tinham apenas dois ou três tomates. Lá pelas tantas, conta que a neguinha, mulher do dono da casa, inventou de me dar bola, de se esfregar, na cara do marido e de todo mundo. Aquilo me incomodou. Essa eu contaria melhor, mas na voz dele saiu assim: “O compadre me entregou o 38, pedindo pra mantê-lo bem à mão, que ele ia resolver aquilo. Passou a retribuir a frescura. Com todo no mundo na sala, ele a convidou para ir pro quarto do casal, a peça ao lado da sala. Ela foi! Fechou a porta. O marido e todos sentados nos sofás da sala. Dali a pouco veio lá de dentro o som de tapas, choro da mulher, entramos no quarto e o compadre tava sentado na cama, de roupa, e ela pelada, cruzada sobre as pernas dele, apanhando de palmadas na bunda. A bunda num vermelhão! Para aprender a respeitar o marido. E saímos vivos de lá!”. A turma ri a não mais poder. E ninguém pense que já andei armado, que idéia mais besta, o 38 era de brinquedo, mas na época eu até que tinha bons motivos para andar com um canhão.

O Ivens se empolga: “O Concapurfa certa vez se vestiu de mulher, de uma gringa que arranjou, e a gringa vestiu a roupa dele, chapéu e tudo, e saíram pra noite, de festa, depois ficaram uma semana no Motel dos Alpes. Veio um primo do Paraguai, de Pedro Juán Caballero, visita-lo, e quem acha o doido? O primo queria procurar nos hospitais, IML, mas eu e o Pato dissemos não... vamos começar pelos motéis. Achamos no terceiro que fomos, na portaria negaram, mas depois que saímos avisaram ele”. Concapurfa porque houve um probleminha com uma senhora contra-parente dele, do que não convém falar.

Os outros se empolgaram, resolveram contar histórias também. Pato começa com as pescarias onde se pescava de tudo menos peixes, o Baixo conta da vez em que interrompi o trânsito da Av. Cauduro para fazer churrasco no meio da rua.

Alguém observa que o Ivens havia entrado furtivamente e não chegou perto do corpo. Ele, segurando a cachacinha lá de fora, diz que não suportaria. Reclama que brigou com a mulher e pede sinceramente que o próximo a morrer que trate de morrer de dia, ela não permitirá que torne a sair altas horas da noite, às dez. Ainda pergunta pelo Roni, mas não lhe dão ouvidos. É mesmo, sumiu o Roni.

Resolvi cochilar um pouco, mania de repetirem sempre as mesmas histórias. Contem uma que eu não sei. Não dormi, mas desviei o pensamento.


Recomeça a cantoria. O Ivoran continua com ar ameaçador para o meu lado. Essa mania de virar caixão... O Danilo desvia a sua atenção pedindo ajuda para preencher os cheques da vaquinha dos comes e bebes, mas o Ireno se antecipa em auxiliar. O Ireno iludido, pensando ser sortudo porque não tive tempo de invadir o balança-mas-não-cai dele, não perde por esperar.

Enquanto o Madalozzo puxa um baseado, calculando se a estas horas não tem mulher nova no Blue Jazz, o Schiru encerra a história da chinoca que conheceu no passado e passa a descrever os atributos do violão espanhol que possui. O Alhambra, segundo ele, sofre um longo e rigoroso processo, desde a maturação da madeira, passando pela colagem especial, levando em conta até a umidade relativa do ar da região a que se destina. Alguém sibila: “Queria ver no Pólo Norte...”. Schiru ignora o cochicho e, por fim, resolve tentar uma zarzuela do Paco de Lucía. O Danilo e o Beto, este ainda de ninja, saem sapateando e estalando os dedos. Olé!

Conseguiram comunicar o Xavasco, que neste instante chega abalado. Respira fundo e convida os presentes para, em pé, prestarem um tributo à memória do venerável amigo. Arrastão de cadeiras, todos em pé, ele tira uns acordes sentimentais do violão, acelera e, esmerando-se, começa baixinho: “Naquela mesa ele sentava sempre...”. Os que sabem a letra, acho que todos, juntam-se numa só voz, subindo o volume pausadamente, Verinha segura a melodia, no tom ditado: “..., e me dizia sempre o que é viver melhor...”. Quando concluem estão com a voz embargada: “Naquela mesa está faltando eeele, e a saudade deeele, está doendo em miiiiiim”. Faço um terrível esforço para não chorar. Eles derramam rios de lágrimas.

O trago rola com mais intensidade, a Verinha mal consegue falar de emocionada, o Ivoran de há muito só gesticula e emite sons de macaco-da-noite. Não vejo o Renan, acho que foi embora; não, não foi, está de perfil. A reboque o Joãozinho consegue a atenção da turma para algo extremamente importante que tem a dizer. Quando todos se fixam nele, de novo dispara: “Viva o Brizola!”. Querem matá-lo.


O Celso desafia o Pato, debochando que é campeão do mundo. O Pato replica que taça Toyota não quer nem de graça. O Aldêmio intima o Ireno sobre a caderneta de poupança das gorjetas dos garçons do Pampulha e o Celso prontamente toma interesse pelo assunto. O Ireno diz que não sabe do que se trata e vai lá para o pátio.

Madrugada entrando e o Claudião aterrissa na minha frente fazendo um bruto escândalo, com uma fieira de palavrões, agitadíssimo. O pessoal procura tranqüiliza-lo mas ele teima em me dar vinho goela abaixo. Obrigado, irmão, aquela vodka já foi há horas. Acalma-se um pouco, abraça alguns, e saindo avisa que vai até o carro pegar a carne, o carvão e o barril de chope. Não acredito, o infeliz vai fazer churrasco. Com cinco litros de chope, além do que já bebeu, vai querer me levar para Buenos Aires.

Pato resolve acabar comigo, canta: “Vende-se um apartamento, bem no centro da cidade, por um preço de ocasião, por motivo de saudade...”. Ainda não foi desta vez, mano mais velho.
Ele disfarça uma lágrima sofrida e queixa-se: “O demente poderia ter esperado pra gente festejar pelo menos até o ano dois mil”. Snif, snif, do Claudião, já de volta, e do Joeci.

Regressa o Roger só com os egípcios e as suecas, e um tradutor para os egípcios. As suecas não vão precisar. Aos encontrões uns quinze foram recepcioná-las à porta. Cintilam ávidos os olhos das louras ao verem a homarada sequiosa. Uma interminável paparicação, gentilezas, aqueles brutos se transformaram em doces rapazes. O que faz uma camanga de carne nova. Ninguém olha para os esfinges. O tradutor fugiu quando o mandaram comprar Underberg.


Chegam mais duas mulheres. Nos calcanhares delas entra o Schumacher. De novo a correria para a porta, nestas alturas os viados perderam a compostura. Não deram nem boa noite para o Schumacher, que vai largar na cozinha os vinhos especiais que trouxe.

As mulheres choramingam ao meu lado, meu amor... buaaaaá... mas logo aceitam ir lá para fora tomar uma bebidinha com a cachorrada. “Eram” minhas.

A festa se inflama, o Maia e a Verinha interpretam Adiós Muchachos, ele a plenos pulmões, a Vera com aquela vozinha doce, novamente segurando a melodia antes que o Maia meta a letra do tango na melodia da Marselhesa. O Xavasco na outra ponta embola tudo cantando uma de sua autoria, depois de dizer que era para agradecer um texto que escrevi borracho para a inauguração do seu boteco na Cidade Baixa.

O Joãozinho quer que alguém cante uma do Jerri Adriani, valha-me Deus. O disco no prato roda Exaltação à Mangueira: “A Mangueira chegou, ô, ô...”, com o Jamelão e a bateria da verde-rosa em volume mil. Inúmeros casais dançando ao redor do caixão, creio que uns dançam samba, outros tango, outros uma mistura. Joeci e Schiru afiguram tango com umas que não vi entrarem nem ouvi a voz. Roger diz que precisa sair para telefonar para o Havaí, avisar o Frederico sobre a fatalidade.

O Paulo portuga faz tempo que chegou, depois de fechar o Pampulha, mas só agora se manifesta, mostrando ao Milton as fotos de Portugal que prometeu mostrar a mim, consciência pesada, né?

Finalmente o Tigran conta a razão de estar enfurecido com uns argentinos. Representando o Clube dos Polacos, foi disputar uma partida de xadrez com o campeão do Clube Argentino do Cristal. O seu adversário com tapa-ouvidos, e a torcida argentina fazendo algazarra, bem ao seu lado até trombone tinha. Ele não conseguia se concentrar, mas ainda assim estava vencendo, logo iria transformar um dos peões das torres em Rainha, um ou outro era fatal. Aí o juiz, também argentino, o desclassificou por offside: sus peones estaban mui adelantados. Todos declaram guerra à Argentina.

Esforço-me para contatar o Pato por telepatia, Pato deve ser telepata, ora, para ele cantar Boneca Cobiçada, mas ele nem se toca, mete uma do Nei Lisboa em minha homenagem.

Cheiro de churrasco incendiando lá fora e ninguém cobra do Claudião o pernoite, o interdito deve ter pego no sono. Tigran voa para o pátio, para variar está com fome. O Ivens, que por incrível que pareça conseguiu mesmo fugir de casa, a Verinha e o Magalhães agora discutem as minhas qualidades. Poucas.

O Paulo entoa um fado tristonho que se perde na alaúza. Roger volta dizendo que o Frederico não poderá comparecer ao evento, não dá tempo e além disso amanhã tem a final do campeonato de surf, mas que prometeu tentar trazer uma havaiana para cada um. Vai aplicar sandálias neles, penso.

Maia está quase convencendo a vizinha do terceiro andar a largar do peéfeéle, sólidos argumentos. Os egípcios isolados num canto, sem bebida, até o Roger arrependeu-se de tê-los trazido, estão rezando um ralabarrala incompreensível, mas o Danilo adverte que vai ter um faniquito se um dos árabes não parar de dar em cima dele. Só sei que se um desses pilantras entrar numa de me embalsamar eu mato. Joeci desata a chorar novamente, mas agora é por lembrar da fazendeira que amava em Brasília.

Elevo uma prece, para baixarem a música e entregarem um violão para o Schumacher, mas quê, aumentam o volume.


O Ivoran se confunde e tira o padre roxo para dançar, o filho da mãe da voz fininha na moita foi ficando, ficando, apostando na doce ilusão de salvar uma alma, enquanto bebia do meu. O padrequinho reluta em dançar, Ivoran intima: “Ou dança ou apanha, sirigaita”. O de roxo explica que é petê, progressista e tudo, mas não adianta, não convence o exagerado, logo sai dançando, com a mão do Ivorix na sua bunda. Bem feito, quem mandou vir de vestido. Ouço gemidos vindos do quarto mais próximo e digo a mim mesmo que é uma das alienígenas, embora o ai-ai me soe familiar. O Roger dança com uma das suecas sem se mover, enamorado, na certa vai querer viajar para a Suécia no mês que vem. Espreito outra sueca dançando sozinha, ah, não, está com o Renan.

De minha parte, estou de olho na bancária de vermelho, uma alemoa que não conheço, mas juro que vou conhecer um dia. Roni volta alegre de um dos quartos, não consigo ver nada dos quartos na posição em que estou, mas sei que veio de lá. Ele volta piadista, todo contente, e fico alucinado porque não enxergo quem voltou junto.

O Maurri solta um berro que me viu com os olhos abertos, o Maga manda ele se cuidar com o delirium tremens, anda bebendo demais. Eu fechadinho quando alguns me olharam.

A bancária amada e querida, segurando a fronte com o indicador, polegar acima do queixo, recostada à estante, copo cheio na outra mão, diz com voz de gata rouca: “Até que é bonitão o do esquife, parece que está vivo, pena que foi pro beleléu, acho que ia me dar bem com ele...”. Quase pulo desvairado fora daqui gritando amor da minha vida, mas me controlo, sei que o Madalozzo mira perigosamente para o meu lado, e para o lado da minha morena predileta que lhe apresentei um dia, ele ainda indeciso sobre pular nela já ou esperar mais um pouco. Peço clemência a Deus, hoje não. Ouço o brado do Ivoran, ao se dar conta de que o padreco é homem, andou passando a mão no lugar errado: “Rua, patife!”. O padreco estava gostando da dança.


Colocaram as minhas lâmpadas coloridas, na sala as azuis. Compreendo que para os quartos foram as vermelhas e as verdes. A sala se transforma em suave é a noite. Agora sim, a zoeira é total. Os canalhas deram de traficar copos e garrafas por cima de mim; Torço que derramem na minha boca, uma dupla de absinto com uísque cairia bem, mas nada. A Verinha sai sem se despedir.

Disfarçam ainda com samba no prato, muitos dançando, outros cantando, mas sei que logo-logo vão rodar “F Comme Femme”. Cansado e com sono – não dormi ontem – tento me manter acordado, mas o organismo não agüenta, relaxo, azar, mais tarde dou o susto neles, é muito cedo, talvez duas ou três da manhã.


Desperto com o estrondo e instintivamente sento no caixão, o sono quebrou a concentração do japonês. Escuro, devem ter quebrado as lâmpadas azuis, resta somente uma pequenina na mesinha do canto. Ouço o ronco em uníssono, muitas formas humanas espalhadas pelo chão, pelas almofadas, sofás... o barulhão deve ter sido pelo desabar do último. Pelo estado do apartamento parece que houve uma batalha.

Perscruto a penumbra, acostumo os olhos, e constato que houve realmente uma batalha, com jeito de orgia. Cinco e vinte da manhã, a última vela lutando para piscar em seu final. A escura penumbra azul, o bruxulear da vela sumindo e a densa bruma de inverno entrando pela janela dão um aspecto surrealista ao ambiente, cena de corpos atravessados, garrafas atiradas, copos, almofadas, disco de bolero na derradeira faixa: “Frio en el alma, porque no estás conmigo, pena que llevo, como una maldición...”.

Abandono o caixão com dificuldade, as pernas dormentes, louco de vontade de tomar vinho, nem em sonhos pretendo ficar perto destes doidos. Um vento cortante bate a veneziana, me congela, fecho a janela. Tenho a nítida impressão que de gozador passei a palhaço do festim. Eles me pagam. Ora, pagam nada, a idéia foi minha. Uma das suecas pelada, deve ter ousado um strip-tease, as minhas parceiras não vejo. Jogo cobertores por cima dos malucos. Faltam muitos companheiros, o Pato deve ter saído providenciar alguma coisa, ou saiu para se manter afastado do bacanal. O aroma das flores me faz lembrar um tango aprendido na adolescência, e um aviso repentino me rasga a cabeça: o Recanto Latino vai fechar logo, se eu não aparecer. Saio apressado, tomo um táxi e chego lá com a casa ainda quase cheia, vejo de longe.

O Antonio Moreno abre a porta e me sento com ele numa mesa perto da entrada, protegido pela sombra. Lá no palco, o Pato, o Claudião e a Nina Moreno conversam seriamente, a Verinha na mesa a estibordo. A cantante uruguaia finalmente toma o microfone e anuncia, em portunhol: “Carísimos, me voy a cantar la ultima en esta noche, después los músicos y yo tenemos de hacer una apresentación, desde ahora hasta al mediodia, si no más, no velório de un loco que se murió... un adiós a Salito!”.

Não resisto, levanto, ando até o meio da pista de dança e grito: Nina, mi viejita, canta Por La Vuelta!


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Covil 4, Rua Duque de Caxias, 196/101, Alto da Bronze, Centro de Porto Alegre, agosto de 1990.
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Magnus!


Magnus Carlsen (Sven Magnus Øen Carlsen, 30/11/90 på Hisvik i Tønsberg), o jovem norueguês que está para muito além dos computadores que enviam espaçonaves aos confins do Universo, aclamado no mundo como o Mozart do chess, é hoje o número 1 do planeta, com rating de 2.826, seguido do búlgaro Veselin Topalov e do atual campeão mundial, o indiano Viswanathan Anand, estes com 2.803 e 2.800, respectivamente.

Observada a burocracia da FIDE (Federação Internacional de Xadrez), logo, logo, talvez em 2.011, deverá arrebatar o título de mais jovem campeão do mundo da história.

Neste momento se prepara para o Grand Slam em Bilbao, onde ele e Vishy Anand juntam-se aos vencedores da etapa de Shangai, Vladimir Kramnik e Alexei Shirov, para ver quem é o bambambã de 2.010.

O mocinho concedeu rápida entrevista por telefone ao blog.

Salito: Olá, Magnus, muito obrigado por conceder esta entrevisa. Você ainda não venceu o Morelia/Linares, antigo Ciudad de Linares, mas teve participação em 2009. Quais foram as tuas impressões sobre o evento, e qual a tua visão geral sobre o México e Espanha?

Magnus Carlsen: I fjor det faktum at jeg var invitert til Morelia/Linares ble en stor suksess i seg selv, og jeg hadde ikke noen spesielle forventninger. Vinne 3 av de 5 første spillene var litt uvirkelig, og selvfølgelig den store samlede resultatet styrket min oppfatning av Morelia / Linares som en stor turnering på alle måter. Respekt og takknemlighet mottatt fra tilskuere og fans i løpet av turneringen i fjor var også noe veldig spesielt.

Salito: Entendo. Os jogos em Morelia começavam às 22:30 h, horário da Europa Central. Lembro que a Noruega inteirinha ficou sem dormir para assistir a transmissão ao vivo. Ao mesmo tempo, todos os jornais em seu país estabeleceram colunas regulares de xadrez, para acompanhar a tua trajetória. Você não se sente pressionado por isso? Ou te dá maior motivação?

Magnus Carlsen: Jeg er ikke helt sikker på det er nye sjakk kolonner i norske aviser på grunn av meg, men jeg setter pris på at de dekker turneringer hvor jeg deltar regelmessig. Jeg har en tendens til å fokusere mer på min egen forventninger. Jeg er ikke så opptatt av hva andre mennesker forventer, selv om jeg setter pris på entusiasmen og støtte mottatt fra norsk sjakk samfunnet.

Salito: Mamedyarov disse que teve que declinar do convite de Morelia/Linares por causa do calendário apertado do torneio, mas ele também mencionou o efeito negativo de vôos de longa distância. Qual é a sua experiência com viagens longas e distantes, a mudança de fuso horário e a acomodação?

Magnus Carlsen: Reise og tidssone endring er slitsomt, men dette gjelder for alle spillere og jeg er nok ikke bli verre enn min eldre motstandere :-) Endring av boligen ikke er et stort problem idet hotellet standarder generelt er svært høy på elite turneringer.



Salito: É verdade, de fato é mais complicado para os mais velhos, o Ivanchuk reclamou disso quando esteve em Caxias do Sul. Já decidiste de quais torneios participará nos próximos meses? Todos os do Grand Prix?

Magnus Carlsen: Jeg vil spille Amber Rapid & Bind for øynene turnering. The 2nd and 3rd quarter program is not certain yet. 2. og 3. kvartal program er ikke bestemt ennå. Vi vil vite mer om et par uker fra nå. Når det gjelder GP, tror jeg det er mer hensiktsmessig å reagere på FIDE før adressering dette offentlig.

Salito: Nós sabemos que você gosta de jogar futebol e tênis de mesa. Quais são as suas outras atividades de lazer?

Magnus Carlsen: Jeg liker å tilbringe tid med venner, gå på kino, leser jeg mye, og det hender jeg gjør noen andre idretter som tennis eller på ski. Utenfor sjakk Jeg tror jeg er en eganske vanlig tenåring.

Salito: Obrigado, Magnus. Boa sorte nos torneios, nos veremos em Bilbao em outubro.

Magnus Carlsen: Takk, jeg!
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