domingo, 9 de enero de 2011

A milonga dos vencidos

.

Falta alguém no palco

Nervosismo no palco da Reitoria da URGS em Porto Alegre. Estamos em 1969, é o momento da apresentação da música tropicalista Ontem, Hoje, Sempre, de Raul Ellwanger. Ali estão Telminho, Nana, Paulinho, Maria Teresa, está Homerinho, estão quase todos do grupo Os Redondos, mas falta alguém. Falta o próprio compositor. O que terá acontecido?

Semeando um novo momento musical

Desde o começo da década de 1960, vinha crescendo o movimento musical em Porto Alegre. A febre da bossa-nova, com alguns festivais interessantes, a fissura do roquenrol espalhando-se pelos clubes de bairro, a divulgação feita por jornalistas e radialistas especializados (Osmar Meletti, Osvil Lopes, Paulo Deniz, Glênio Reis, Vanderlei Cunha, Marcos Faerman), a excelência musical dos conjuntos melódicos que animavam bailes, tudo parecia preparar a eclosão de um novo momento e um novo patamar para a música feita em nossa cidade. Pouco faltava.

Esse pouco que faltava apareceu com o sucesso dos festivais de música competitivos e programas especializados em música da TV Record, por um lado. Por outro, a crescente ação política dos estudantes também encontrava uma válvula de expressão para seu descontentamento na música, nas rodas de som, nos encontros dos Diretórios Acadêmicos e, por fim, nos grandes festivais de 67/68/69. E os dois grupos de comunicação locais (Caldas Junior e TV Gaúcha) fizeram sua parte, ao levar ao grande público aquele movimento que já não cabia em seus estreitos limites.

Sentimento “estórico”

Vou relatando aqui alguns aspectos de minha experiência pessoal no movimento musical de Porto Alegre, na segunda metade da década de 1960. São impressões parciais, polidas pela seleção da memória e pelo esmeril do afeto. Nada objetivas, relatam fatos verdadeiros filtrados pela interpretação que o tempo gerou. São uma espécie de sentimento “estórico” que me ficou. Seus equívocos fazem parte do meu ângulo de olhar e avaliar fatos reais através do filtro da cabeça e do coração. Sei que os fatos foram únicos, o sentimento foi único e não há como renová-lo, sei que cada um dos que ali esteve faria agora um relato diferente, mas a coisa funciona assim mesmo, cada um é escravo de sua própria cabeça e coração. Talvez por isso eu escreva agora este relato, como uma “estória” escrita por seus atores, ditada pelo sentir de um dos atores, e não pela versão dos vencedores como é habitual.

Época agitada

Nosso país viveu anos de muita movimentação cultural e política após o golpe de 1964. No âmbito da classe média, os estudantes secundaristas e universitários estavam em permanente agitação. Ligar a ação política com eventos musicais de massa era uma tendência natural, e assim ocorreu em nossa cidade.

Desde os pequenos eventos secundaristas, até recitais grandiosos em ginásios (como no Grêmio Náutico União, com 5.000 pessoas e xou de Elis Regina), esse momento de efervescência cultural e social mobilizou milhares de jovens da classe média urbana. Numa época em que nos quatro cantos do planeta a juventude ampliava sua participação social e suas reivindicações políticas, também aqui seu ânimo transformador e transgressor estava sintonizado e atualizado com as tendências principais da época, e isso incluía a criação musical.

Falta alguém na TV Record

Entre os recortes de jornais, folhetos de festivais e fotos que minha mãe “salvou” naqueles anos turbulentos também para ela, está um telegrama da Western Telegraph Company Limited, datado de 11 de setembro de 1968, escrito nos termos seguintes: “Raul Moura Ellwanger, Rua Mostardeiro 1023, Porto Alegre = Favor mandar urgente fita gravada et partitura Ontem Hoje et Sempre Abraços Solano pt”.

É difícil explicar a maravilha que era para um compositor principiante, sem um disco gravado, vindo de uma província distante, numa época em que gravar um disco era quase impossível, ser classificado finalista no Festival da TV Record de São Paulo. Ali, naquela telinha, nos últimos três anos haviam sido catapultadas as carreiras dos maiores compositores modernos que eram e seguem sendo nossos ídolos: Edu Lobo, Chico, Dory, Caetano, Vandré, Gil, Sergio Ricardo. Ali era o degrau para fazer conhecer seu trabalho em todo o país, para ser contratado por uma gravadora, para realizar os sonhos de todos os compositores e intérpretes, ali era o “paraíso”, o sucesso, a realização, o reconhecimento. Mas a partitura e a fita gravada nunca chegaram ao Solano, a música e o compositor nunca subiram ao palco da TV Record. O que aconteceu?

Grandes eventos

Os grandes momentos para a música de nossa cidade foram os festivais da Faculdade de Arquitetura (1968, 1969) e da TV Gaúcha (1967. 1968, 1969) e os recitais coletivos da Frente Gaúcha da Música Popular (Grêmio Náutico União, Clube de Cultura), precedidos das rodas-de-violão nas faculdades (Arquitetura em especial, DCE-UFRGS, DCE-Puc, Clube de Cultura, Direito-PUC, o itinerante Arqui-Volante), e pequenas mostras em escolas de segundo grau (Bom Conselho, Israelita, Aplicação, São João, Júlio de Castilhos). Em paralelo, crescia o público e os grupos que aderiam ao roquenrol; no começo, grupos de bailes pelos bairros que tocavam os sucessos do momento, logo evoluindo para apresentações autorais com perfil próprio. Vale lembrar que não havia nesse momento discos gravados dessas novas gerações, sendo sua divulgação feita de forma pessoal e como notícia jornalística, sem o conteúdo sonoro que atinge milhares de pessoas. Enfim, um movimento musical mais social e mediático, sem aquela base normal dada pela execução pública repetida.

Lá no comecinho da faculdade

No Auditório PUC da Praça São Sebastião, participei de meu primeiro evento sobre um palco organizado. Com Walmor, Rosa Maria, Inara, Griselda, Walney, fizemos uma mostra coletiva de canções de Vinicius e Caymmi, que eram nossos ídolos. Apresentei algumas composições próprias, entre românticas e de protesto: estamos em 1966 e tenho 18 anos. A gente achou um sucesso, o pessoal parece que gostou. Claro que a maioria era de amigos... Depois andei cantando pelos clubes (Cotillon, Leopoldina, Cultura), alguns Diretórios Acadêmicos, bares bacanas como o Brahms, do alemão Metzger, o Baco’s, do Flavio Pinto Ribeiro, a SAT, em Tramandaí, naquela alegre imitação do Vinicius que fazia muito sucesso com as meninas, incluindo uísque, gelo, cinzeiro, letras manuscritas, isqueiro, com a indefectível mesinha para tanta “aparelhagem cênica”. Nestas empreitas, além de Homerinho, estavam Márcio, Bides, Maurício.

Uma música “nova”?

Como compositor me interessava muito pela nova tendência que a gente ia armando um pouco às cegas mas com o instinto certeiro. Procurávamos criar uma estética que fosse moderna, universal, participativa (o que era “normal”), mas com a novidade de ter um conteúdo ligado a nossa própria realidade, a vida de nossa cidade, de nossa geração, de nossa tradição regional transportada para o tempo atual. Podemos imaginar a variedade, a ambiguidade, a confusão que resultava disso, até pela escassez de antecedentes. Podíamos nos inspirar nas canções Alto da Bronze, Rua da Praia, Piazito Carreteiro, Os Homens de Preto e poucas mais. A chamada música “de protesto” de algum modo empalmava com o mito do gaúcho “libertário” e abria algumas possibilidades. A bossa-nova e o tropicalismo agregavam o lado “moderno e atual”.

Em 1967, assisti Gilberto Gil no Cinema Cacique, e ....páft... !!!! Foi a revelação. Seu disco Água de Meninos virou minha bíblia, com Homerinho “tirei” todas as canções. Não procurei copiar o “som” de Gil, mas tentei entender seu modo de “olhar” o material sonoro, sua maneira de “sentir” seu mundo baiano e assim captar seu modo de criar canções. Oito anos depois iria encontrar na Argentina a expressão “proyección folclórica” para significar essa estética.

Chegou um postal do Nepal

Acabo de receber um postal, muito bonito e intrigante: trata-se de uma espécie de forno de barro grande, colocado no centro de uma pracinha. Sobre ele cresceu e vive um tipo de figueira já bem crescida, com suas raízes enlaçando a boca do forno e nele penetrando. Estamos no final de 1970, estou estudando Sociologia na Universidad de Concepción, 500 quilômetros ao sul de Santiago do Chile. Moro na Cabana Ho Chi Min com Jun, Benê e mais uns 20 chilenos de todas as províncias do país. Andei treinando futebol no Deportivo Concepción, mas decidi cuidar dos estudos e participar do processo político da Unidad Popular. O misterioso cartão chega de Katmandu, no Nepal, mandado pelo Homerinho Lopes, integrante até pouco tempo do nosso grupo musical em Porto Alegre. João Alberto anda pelo Peru, Paulinho do Pinho e Mutinho, pela Argentina; alguns “dão um tempo” em São Paulo. Diz-se que um dos nossos está na China!!! O que eles foram fazer lá na Ásia, na América Latina?

A turma da Frente

Há uma foto emotiva e simbólica do coletivo da Frente Gaúcha da Música Popular Brasileira, publicada pela revista Manchete, em 1968. Sobre o fundo da platéia vazia do Auditório Araújo Viana, estão quarenta cantores, instrumentistas e compositores muito sorridentes, com um ar de otimismo e confiança. Seriam talvez a metade de todos aqueles que participavam da Frente, um coletivo informal que ajudou a promover eventos e aglutinar esforços esparsos.

Vou lembrando alguns nomes de compositores ligados à Frente (e também de alguns “desligados”) que foram finalistas em festivais: Paulinho do Pinho, João Alberto Soares, Homerinho Lopes, Laís Aquino, Wanderley Falkenberg, Ivaldo Roque, Mutinho, João Palmeiro, César Dorfman, Paulo Dorfman, Ivan Fetter, Zequinha Guimarães, Luis Marcirio, Geraldo Flack, Luis Mauro, Sergio Napp, Cláudio Levitan, Ney Crist, Marcos Rovinsky, Walter Sobreiro Jr., Mauro Kwitko, Celso Marques, Dirceu Bisol.

Como intérpretes, além dos próprios compositores, predominavam músicos dos conjuntos melódicos de extraordinária qualidade (Norberto Baldauf, Flamingo, Flamboyant) que animavam os bailes e festas do Estado, como Edgar Pozzer, Erica Norimar, Sabino Loguércio, Marlene Ruperti, também músicos jazzísticos de boates como Bambu e Queens’ (Sidinho, Mamão, Sadi, Fernando Collares, Paulo Coelho) além dos novatos Telmo Kotlhar, Ivan Fetter, Paulo Dorfman, Sergio Axelrud, Sandra e Suzana, Liane Levitan, Jorge Schoenfeld, Maria de Lurdes, Vitinho Graef, Nana Chaves, Maria Helena Truda. Nada mau para um movimento semi-amadorístico que começava a se espraiar pelos palcos da cidade.

Roda-de-viola

Ao lado do Cinema Marrocos, na Av. Getulio Vargas, o Roxy Bar tem uma sala vazia ao fundo. Ali se juntam Mutinho, Ivaldo, João Palmeiro, Laís, Paulinho do Pinho, Celso Marques, em rodas-de-viola onde o mote é “mostrar” músicas novas de uns para os outros, numa espécie de crítica recíproca, comentários e geração de idéias e parcerias. Algumas cadeiras, a mesa singela, cervejas, cigarros e muitos violões madrugada afora. Na verdade, uma usina de criatividade contínua, renovada, aberta. Eu sou ali o mais despreparado, mais do que mostrar uma canção nova, são meus ouvidos que estão ligadíssimos nas letras e melodias, são meus olhos que estão grudados na mão esquerda daqueles craques, para memorizar visualmente as “posições” harmônicas para mim desconhecidas e que levavam consigo beleza, originalidade, emoção.

Festivais populares

Como seu nome diz, o Festival Universitário era para acadêmicos, afora alguma parceria oculta. Nele estreou Beth Carvalho, estrela de um grupo que trazia Paulinho Tapajós, Artur Verocai, Danilo Caymmi, Iracema Werneck, Paulinho Machado, Arnoldo Medeiros, Zé Rodrix, Eduardo Conde, Junaldo (canta no disco oficial minha Sim ou Não), que formavam uma nova geração que vinha chegando na MPB e logo teria seu espaço e reconhecimento no cenário nacional. Uma feliz parceria oculta foi a da música vencedora em 1968 (Jogo de Viola), de João Alberto Soares e do “não-universitário” Paulinho do Pinho. Naquela canção que eu “não cantei” em 1969, aparece algumas vezes como co-autor Telminho Kotlhar, como garantia para o caso de eu “sumir”.

Já no Festival Sul-Brasileiro a turma era mais encorpada: Túlio Piva, Alcides Gonçalves, Lupicínio Rodrigues, Hamilton Chaves, Paulo Fagundes, Paulo Ruschel, Luis Mauro, Ivaldo Roque, Sergio Napp, com intérpretes experimentados que já eram enturmados naturalmente. A edição de 1968 classificou para a semifinal nacional “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior, as canções de Túlio Piva (1º lugar), Beto Morgado, Cezar Dorfman, Mutinho e minha (2º lugar), sendo a de Sérgio Napp semifinalista do Festival Internacional da Canção, também no Rio de Janeiro. Após as semifinais no Teatro Excelsior da Visconde do Pirajá, fomos Cezar Dorfman, eu e Túlio Piva para a finalíssima no Maracanazinho. Túlio com grande regional e coro, eu com Os Redondos e Orquestra Excelsior, com arranjo de Paulinho Machado e solo de Nicolino “Copinha” Copia. Essas duas canções têm gravações nos discos coletivos do Festival. Nas finais, estavam Ataulfo Alves, Carlos Imperial, Sérgio Bitencourt, Chico Anísio, Ruy Guerra, Toninho Horta, Capiba, os irmãos Valle, com intérpretes já consagrados como Jacó do Bandolim, Dino, Momento-4, Cynara e Cibele, Taiguara, Roberto Luna, Eduardo Conde e outros.

(Im)possíveis Clubes da Esquina?

Termino de ler um livro maravilhoso: Os sonhos não envelhecem, de Marcio Borges, uma espécie de relato confessional do Clube da Esquina de Minas Gerais em seus primeiros e vitais 15 anos. É 2009 e estou no Bairro Petrópolis de Porto Alegre, o mesmo bairro onde Marcio “deu um tempo” com sua esposa no final da década de 1960. Nesse livro, emotivo e sincero, a gente percebe o processo de gestação de um movimento musical maravilhoso na sua criação poética e sonora, nos seus intérpretes, na sua postura cidadã, na síntese do universal com o regional, do moderno com o tradicional. Como um pequeno grupo de amigos de bairro, na verdade moradores de quase um só prédio, imersos na mesma atmosfera inquieta e contestadora em que gravitava a juventude brasileira em cada uma de suas regiões, pode gerar todo um universo criativo, popular, desafiador, belo, sutil e singelo para presentear nossos corações sedentos. A pergunta salta aos meus lábios: poderíamos ter tido e sido um clube da esquina, um clube da lomba, da várzea, mas enfim algum “clube”? Poderíamos ter tido essa chance, poderíamos ter sabido ser aquele clube? Nossa música, nosso sentimento regional e cívico, nossa geração, tinha asas para voar essa viagem encantadora que viajaram Marcio, Wagner, Milton e demais associados do Clube?

Na linha do pênalti

Em diferentes momentos e com distintos graus de possibilidade, alguns nomes da nossa moçada, na segunda metade dos anos 60, estiveram perto de colocar sua música no “grande palco” da MPB. Sucesso em toda a cidade, recebeu o Grupo Canta-Povo, com suas canções autorais, a visita da direção da Philips carioca, decidida a contratá-lo. Clandestino em São Paulo, cruzo com Carlinhos Hartlieb, Laís Marques e Hermes Aquino que acabam de vencer um festival paulistano, junto ao grupo Liverpool. Piscamos os olhos em silêncio ao cruzarmos na Av. São Luis; é mais prudente que não se fale comigo. Túlio Piva e eu estivemos em pleno Maracanazinho, ao lado de consagrados compositores. Minha canção está classificada para o Festival da Record. Elis grava canções de Mutinho, Napp, João Palmeiro. Erica Norimar é contratada por um selo nacional. Nossas canções se destacam em todos os festivais. Mas alguma coisa não funciona, fica-se sempre no “quase”. Qual será o problema?

A cereja podre

Na Folha da Tarde, de 27 de abril de 1968, há um longo artigo de “Apresentação” da Frente Gaúcha da MPB, assinado por mim: diz ali que “[...] universitários, profissionais liberais, profissionais da música, trabalhadores e poetas se unem para em definitivo lançar as bases de um novo centro da música brasileira, em condições de equiparação com os demais pólos musicais do país”. Em dezenas de recortes, vou descobrindo o potencial dessa turma alegre e atrevida. No quinhão que me toca, leio expressões como “música vigorosa”, “segurança total”, “em sua música nada é gratuito”, “Raul surgiu como um furacão”, às quais tem que ser dado o desconto do momento, mas, de qualquer modo, indicam a boa aceitação do meu trabalho.

Tendo ficado de fora do movimento musical por uns dez anos (entre clandestinidade, condenação pela Lei de Segurança Nacional e exílio), sempre pensava em qual teria sido o destino dessa nossa grande turma. No retorno a Porto Alegre, gravei meu primeiro LP e comecei de novo do ponto onde tinha parado, 10 anos antes. Descobri o pior: tudo tinha parado por dez anos. Medo, exílio, perseguição... alternativas místicas, muito baseado e LSD, cooptação, “pra-frente-brasil”, família, trabalho, desinteresse e temores da mídia, foram fatores que ceifaram o movimento. A cereja podre e perversa desse bolo é o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. Como em quase tudo no Brasil, o AI-5 cortou pela raiz aquele movimento musical, aquele ímpeto criativo, aquele ânimo participativo.

Viajando no som...

Como o sonho é livre, e já vi um pouco desse filme em outras paragens, deixo correr a fantasia. Vejo o Canta-Povo gravar seus três primeiros discos, arrasando em todo o país, motorizado por uma multinacional de disco. Seus compositores afinam a criação, melhoram arranjos, testam junto ao público. Muitos intérpretes estão gravando canções desse “Clube da Lomba” ficcional, com outros sotaques e abordagens, Laís e Wanderley fazem sucesso na voz de Agostinho dos Santos e Gal Costa. Paulinho do Pinho grava discos com sua levada inigualável ao violão, com um sexteto de craques da Rua Caldas Junior, esquina Riachuelo. Homerinho incrementa sua parceria com Zé Rodrix. Arranjos de Paulinho, Paulo Dorfman, Paulo Coelho, Telminho vão colorindo os discos.

Alguns estudam com Armando Albuquerque, Ester Scliar, Zé Gomes, Alda Gomes, Bruno Kiefer, no Seminário Livre de Música. Erica Norimar estoura na televisão nacional, Sabino Loguércio grava discos lindos com nossas canções. Elis Regina é nossa embaixadora, coloca nossas canções no disco e televisão. Odeon e Philips contratam nossos artistas, investem pesado na promoção. Carlinhos Hartlieb, Bicho-da-Seda, Liverpool e Hermes estão na cena tropicalista-roqueira. Convidados para o programa de Roberto Carlos, sábado à tarde na TV Record, gravam um disco coletivo que será histórico. Faço bonito no Festival da Record. Gravo meu primeiro disco, algo “esquerdoso”. Devo até curtir um exílio suave na Europa, que aproveito para criar parcerias com Gilberto Gil. Mutinho deslancha na parceria com Toquinho e Vinicius. Sua “Valsa dos Compositores” é sucesso na voz de Dorival Caymmi.

Guilherme Araújo apaixona-se pela música do sul e passa a empresariar artistas daqui. Novos programas de TV, novos xous e projetos por todo o país, alguns convites para a América Latina, músicas gravadas na Espanha e Portugal. Entrevistas na Revista do Rádio, fofocas, briguinhas, namoros e casamento mediáticos, críticos bacanas e críticos babacas. Ciúmes, plágios, novas parcerias e melhores canções. Tranquilidade profissional, boas turnês, direitos de autor em dia.

Bom, estou fantasiando livremente, mas essa é uma fantasia bem pobre e tola, pois este delírio que aqui esbocei, com sabor algo paródico e um jeito algo absurdo, seria o “normal” que deveria acontecer, mas que virou “anormal” e terminou por não acontecer mesmo. Na real. Sinto muito.

Milonga dos vencidos

Aquele cidadão que faltou no palco da UFRGS e que não apareceu no festival da TV Record, já deu para perceber que sou eu mesmo. Muitas outras coisas aconteceram das quais eu nada sei, pois fui o mais ausente na continuação. Quis contar a minha parte. Ao se comemorar 30 e 40 anos dos festivais e da Frente Gaúcha da nossa grande música que poderia ter acontecido, o que se ouviu na cidade foi um vasto e gritante silêncio. Chama a atenção a omissão dos músicos que participaram da época, eu incluído. Chama a atenção o mutismo dos grandes apoiadores, os Grupos Caldas Jr. e RBS, bem como de jornalistas e pesquisadores. Chama a atenção o silêncio da UFRGS (onde aconteceram os maiores eventos) e seus vários departamentos (Música, História, Letras, Extensão), que têm por objeto esta documentação e resgate.

O AI-5 correu um telão de silêncio sobre nossas canções. A omissão atual é como uma continuação daquela repressão, a mesma espada que cortou a vida musical corta agora a memória daquela vida musical. Não interessa saber-se de um grande movimento popular e cultural que houve aqui, na nossa aldeia, no botequim da esquina. A versão que fica é a dos vencedores, a versão da ditadura, a versão da mentira, a versão do silêncio: “Aqui não houve nada”. Espero ter contado aqui um pouco da milonga dos vencidos: afastem de mim esse “cale-se”.

.

João Palmeiro (1)

.
Ontem à noite, com João da Noite, Walter Schumacher e Jacque Viúva Negra, tomamos todas na calçada do bar O Porto, ali no Beco do Oitavo.

O Centro de Porto Alegre, e a cidade como um todo, é maravilha nesta época: os chatos e os barulhentos estão todos na praia.


Dolores, por ora, lejos de mi.

Salito sem escolta. Naquela rua os mercenários de Mr. F. Febraban podem até entrar, mas sair não saem.

Depois da chuva ao entardecer, uma noite amena, sábado luminoso, que tornou-se mais agradável com a chegada do compositor João Palmeiro (João Luiz Silveiro Palmeiro - Rio de Janeiro, 03/04/1941), de quem voltaremos a falar em longa entrevista que está sendo preparada por Walter, com músicas, fotos e tudo.

João Palmeiro é gaúcho de boa cepa, estava de passagem pelo Rio quando nasceu.

No lero que levamos, muitas histórias inesquecíveis, sabe tudo da noite da capital dos últimos 50 anos. Recordou seu antigo parceiro Mutinho (Lupicínio Moraes Rodrigues. Porto Alegre, 04/02/1941), baterista e compositor, sobrinho do Lupi, que se mandou mundo afora há décadas. Interessante este cara: nas suas muitas canções em parceria com Toquinho e outros artistas, as melodias são dele, o baterista. Os parceiros entravam com a letra.

João revisitou com saudades a Ivaldo Roque e Paulinho do Pinho, entre muitos outros. A Elis, que gravou uma bossa de sua autoria. A vivacidade do poeta é contagiante, com os olhos brilhando narra fatos, festas, porres, como se estivesse lá agora. Lá pelas tantas o nome de Raul Ellwanger por alguma razão foi citado de passagem, o que nos fez chegar ao bunker e rolar um "onde anda você".

A obra do Raul é magnífica, é um dos grandes da música brasileira. Mas o que nos chamou a atenção foi algo que não tínhamos visto, de alguma maneira nos passou despercebido: o pungente relato dos anos de chumbo. Anos que mal vimos, talvez por morarmos de favor num lupanar que não queremos lembrar, lá isolados do mundo, sonhando em um dia cursar o Supletivo de segundo grau.

Postaremos a seguir o texto do Raul.

Por enquanto, ficamos com uma canção do Mutinho, letra e interpretação do Toco.

Candeia, Malandro Histórico e Martinho.

.
Sempre ela. Jacqueline 'Viúva Negra" Pompadour. Um anjo, linda por dentro e por fora. Fugiu de Campito Bueno ao ver a ignorância e a futilidade de cabeças malfeitas, sexo pelo sexo, sexo por falso amor, amor falso trocado por falso amor, dinheiros pairando, a insegurança, la mentira, e tornou-se uma referência neste mundo de Deus. Ela, que em momento ruim elegeu o bolero Hipócrita como a grande canção do século passado, é lindo mesmo, ela que... Epa, mudando de assunto de novo.

Está bem, Jacque, de coração - sei que o teu bate junto -  no teu pedido que anseia incentivar o bloguinho, aí vai um amostrinha do que foi e do que é para o Brasil, para o Rio primeiro, o grande CANDEIA. Falar desse cara... falar de gênio, tentaremos em breve, dia destes, mas não será fácil.

Dos sambas que vão, com a participação de Manacéia - que já deu refresco Aqui - o primeiro Zeca cantou antes, do seu Alcides Histórico. O segundo diz que Amor Não é Brinquedo, do Candeia e do Martinho da Vila. Isso você já sabe, Jacque, que não é brinquedo, e por isso também logo exaltaremos Martinho, dia destes, nenhum deles precisa de exaltação, mas é preciso, a moçada não pode esquecer, e estão aí os invasores...

Pra ti, amiga Jacque, e para Dolores Sierra, se me permite, amor é amor.




.

sábado, 8 de enero de 2011

Falha de S. Paulo

.
VERGONHA NACIONAL!

"8 janeiro 2011
100 dias de censura da Folha!

Flagra da festa na Barão de Limeira vazou para o FalhaLeaks!
Hoje, sábado, 8 de janeiro, a censura da Folha e o processo contra os criadores da Falha de S.Paulo completam 100 dias (acompanhe sempre nosso contador a la Estadão aí no alto).

São mais de 3 meses impedidos de fazer piada direito por conta de uma liminar e nos defendendo de uma ação que nos cobra dinheiro a título de indenização por “danos morais” (ah, a moral da Folha…). Mas deixa estar, pelo menos vazou (FalhaLeaks!) esse curioso flagrante da festa comemorativa dos 100 dias de censura promovida por Otavinho Vader na Estrela da Morte sede da Folha: ...".

Pescado do site (clique, leia, passe adiante) DESCULPE A NOSSA FALHA, que conta tudinho sobre a estúpida censura ao blog satírico Falha de S. Paulo, promovida pelo homenageado, o jornal (tu)barão Folha de S. Paulo.
Tão asquerosa e antidemocratica a atitude do jornal tubarão, que já mereceu severas críticas de Julian Assange, do Wikileaks, que a classificou como "grande escândalo".

Patrunfos.

.



.

Refresco com Zeca Pagodinho

.
O Zeca envia e-mail (ou foi do aspone, Zeca?) para reclamar, de brincadeira, que ainda não lembramos dele aqui no blog. Está certo, mermão. Mas o amigo poderia aparecer mais seguido, louras supergeladas temos à beça. Vem tranquilo, na retaguarda Juanito e Kafil coordenam o resto do pessoal.

Quando pintares serás apresentado a uma composição do João da Noite, a marchinha "A cuia do Gilmar Dantas não tem dono" (título provisório). Começa assim: "Bestial, vou te enrabar neste Carnaval, para deixares de ser algoz...".
Não dá para dizer mais, ainda não possui registro, e periga algum animado bloco de foliões de Brasília assumir na boa o direito autoral da letra. Mas é sem cuspe, isto é, sem refresco.
A melodia, do mesmo João, é divina.
Apostamos que vais querer gravar a tempo de explodir nas paradas já em fevereiro, inaugurando nova etapa em tua espetacular carreira. Outra vida, maravilhosa, somando-se às que já tens.

Isto posto, vamos com um samba de 1947,  autobiográfico, do lendário  Alcides Malandro Histórico (Alcides Dias Lopes, da Velha Guarda da Portela. Rio de Janeiro, 17/12/1909 - 09/11/1987), talvez com alguns versos incorporados por Candeia (Antônio Candeia Filho. Rio de Janeiro, 17/08/1935 - 16/11/1978), o primeiro a gravar, em 1978, pouco antes de ele mesmo morrer, o desabafo do velho malandro.
Houve época em que éramos mais ingênuos, chegamos a pensar que alguém tinha composto o samba em nossa homenagem, coincidências, seu Alcides.

Na voz dele mesmo: Zeca Pagodinho (Jessé Gomes da Silva Filho, Rio de Janeiro, 04/02/1959), acompanhado da Velha Guarda.



.

Dueto dos Gatos

.
Como Refresco-homenagem, a peça de Gioachino Antonio Rossini (Pésaro, 29/02/1792 -  Paris, 13/11/1868), célebre compositor erudito italiano.

Antes da oferenda, penduramos um enorme galho de arruda na orelha.

Vai como singelo reconhecimento aos nossos políticos sujos. Principalmente ao PMDB, mas é para todos os impotentes, predadores que carregam a sede do velho substrato material. Exceções não contam, até aparecer algum pobretão.

Por uma questão de justiça, aproveitamos a boa ocasião para homenagearmos também os banqueiros do Brasil.

Silvio Berlusconi, o lixão do mundo

.
No Brasil, sabemos que certos elementos se apossaram, com a mão do gato, através da política ralé ou de negociatas encobertas por políticos lesa-pátria, de grandes redes de comunicações, rádios e tevês, principalmente. E todos também sabemos o uso que fazem desses instrumentos.

Nenhuma novidade. Basta ligar a televisão, o livro do povo. Aquilo emburrece qualquer um.

Mas muita gente se engana ao imaginar que isso é privilégio brasileiro, a suposta herança maldita dos portugueses, e que no Velho Mundo as coisas são diferentes. Em alguns raros países, onde a educação para todos atingiu níveis de excelência, são diferentes, sim, exceções que confirmam a regra.

De resto, o mundo todinho é igual. Nas atuais ditaduras, as do capital, são sempre os mesmos a levar a plebe como gado. Promovem o desconhecimento dos fatos e roubam o seu país, suas crianças, como roubariam qualquer outro, afinal, fronteiras são imaginárias mesmo, apenas para comover o povinho numa partida de copa do mundo, felicidade e ignorância caminham juntas espontaneamente.

Como se uma criança doente ou com fome não chorasse de modo idêntico aqui ou na Cochinchina. A eles importa é dinheiro, poder. Cremos que devido à impotência física e mental, como já falamos neste blog. Pouco nos importaria essa satisfação indireta de suas impotências, coitados, não fosse o terrível dano que suas taras promovem, as dores, fomes e mortes que causam.

A Itália tem os seus sarneys, seus marinhos, seus jaders, sua globo, uma lista imensa. Tem os seus bandidos. Como os daqui, donos de tudo, a começar pela imprensa. Quando algo não corre como esperavam, desviam o assunto, encontram um Cesare Battisti qualquer para servir de bode expiatório. No Brasil os barões da imprensa são profissionais nessa técnica, não por acaso os nossos fascistas deram de atacar Battisti, mirando no governo Lula.

Sobre um repugnante e bruto  italiano, eis o que escreveu o brilhante Mauro Santayana, com o comedimento que lhe é peculiar, no dia 15 de dezembro de 2010:

Um palhaço endinheirado

"Os jovens voltaram ontem às ruas de Roma, cidade emblemática do Ocidente, protestando contra a decisão da Câmara dos Deputados, que manteve Berlusconi na chefia do governo. Houve vitrines de bancos arrebentadas a paralelepípedos. coquetéis molotov lançados contra a polícia, veículos oficiais e automóveis de luxo incendiados, centenas de prisioneiros, dezenas de feridos, As manifestações também ocorreram em outras cidades, entre elas, Milão e Bolonha.

As manifestações de ontem vieram depois dos graves incidentes em Londres, e há rumores de que se preparam novos protestos em Paris e em Berlim. Os jovens parecem retornar àqueles meses do vendaval de 1968, em que estavam dispostos a reconstruir o mundo, submerso na injustiça. O mundo, hoje, está bem mais injusto. De repente — é a sensação do observador — os jovens se dão conta de que lhes estão confiscando o futuro. Na Inglaterra, destruída nos últimos trinta anos pelo neoliberalismo de Mrs. Thatcher e seus seguidores, os empréstimos concedidos aos estudantes de classe média para custear os cursos superiores são um contrato Faustiano: muitos dos rapazes e moças se formarão já devendo de 70 a 100 mil libras ao governo, com esse aumento das taxas universitárias. Seus projetos de vida — entre eles os de casamento e formação de uma família — devem ser postergados.

No caso da Itália, grande parte da juventude — infelizmente, nem toda ela — também se considera ofendida e humilhada por um homem tão rico quanto insolente, que se esquiva da senilidade pagando a jovens prostitutas para que componham os seus serralhos eventuais, montados em luxuosíssimas mansões, e governa como quer. À custa dos favores públicos e de sua própria e inexaurível bolsa, ele tem comprado grande parte do Parlamento, para obter as leis mais esdrúxulas que o vêm mantendo no poder. Também agora foi assim, ao cooptar três parlamentares da oposição a fim de, com seus votos, impedir que a moção de desconfiança contra ele fosse vitoriosa. Além de outras diferenças entre ele e Mussolini, o fascista Benito era um intelectual, enquanto Silvio não passa de um palhaço endinheirado."

Y así pasan los dias.

Salito.


.
(A foto adaptada do Führer italiano foi incluída por nosotros)







viernes, 7 de enero de 2011

Refresco

.
Lembrando RIACHÃO (Clementino Rodrigues - Salvador, BA, 14/11/1921), uma das mais expressivas figuras da MPB. Obra riquíssima, crônicas do cotidiano.
Sempre esquecido, com as exceções que confirmam a regra, como em 1972, quando Caetano e Gil, voltando do exílio, gravaram seu samba "Cada macaco no seu galho" e sacudiram o Brasil.
 
Entre muitas histórias, destacamos uma: nos anos de chumbo da Ditadura Militar que a Globo tanto exaltou e apoiou, Riachão tem um samba proibido pela Censura. A música se chamava ‘Barriga Vazia’ e a letra falava da fome: "Eu, de fome, vou morrer primeiro / você, de barriga, também vai morrer um dia".
A notícia da censura corre a cidade e em 1976, num show no Instituto Cultural Brasil Alemanha, a platéia universitária exige que Riachão a cante. O público pede com tanto entusiasmo que os músicos começam a executá-la e ele se vê obrigado a cantar o samba, fato que repercutiu na imprensa como uma "provocação" do sambista aos militares. Vejam nos vídeos abaixo a cara de agitador que Riachão possui... só rindo. 

Aqui em milagrosa aparição na "Grobo", pela madrugada, cantando com Beth dois sambas de sua autoria.
 

 

Cesare Battisti e Pontius Pilatus

.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, negou ontem à tardinha a imediata libertação de Cesare Battisti.

Em seu despacho dá a entender que Lula o manteve no Brasil ao arrepio das condições impostas por aquela infalível Corte. Insultou meio mundo no despacho que cometeu.

Até as pedras da Cidade Estrutural sabem que esta discussão de há muito deixou de ser técnica. O que as pedras não sabem é em que se transformou. O que pretende o tribunal político, formado por técnicos indicados por políticos, acima de qualquer suspeita?

O nobre ministro, nobre para as suas negas, pensamos mas não devemos dizer - insistimos, para que não paire dúvida: acima de qualquer suspeita (era só o que faltava, um reles cidadão jogar sombras sobre os meritíssimos que estão lá por indicação e luta política, jamais por competência, não senhor) -  é o mesmo que, na madrugada de 24 de setembro de 2010, não sabia o que fazer quando a votação sobre a aplicação da Lei da Ficha Limpa deu empate, 5 a 5, embora a ele coubesse o voto de Minerva. Qualquer filósofo de buteco, caso de João da Noite, notou a obviedade de que bastaria seguir o entendimento do TSE (que validou). Bem lembramos que vimos pela tevê o ministro Joaquim quase ter uma síncope ao se dar conta de que ninguém queria ouvi-lo nem entende-lo.

Como interessado-mor no resultado, o honesto Joaquim Roriz, o que não vem ao caso. Águas passadas.

Agora, amarelou de novo.

Decidiu reabrir o processo! No confuso arrazoado esse objetivo não ficou claro, mas foi o que fez.

O advogado de Cesare emitiu nota, com poucas palavras, retiradas as inúteis: "A manifestação do Ministro Peluso viola a decisão do próprio Supremo Tribunal Federal, o princípio da separação de poderes e o Estado democrático de direito".

E segue: "O Presidente do STF votou vencido no tocante à competência do Presidente da República na matéria. (...) ... não pode, legitimamente, transformar sua posição pessoal em posição do Tribunal. Como qualquer observador poderá constatar da leitura dos votos, quatro Ministros do STF (Ministros Marco Aurélio, Carlos Ayres, Joaquim Barbosa e Carmen Lúcia) entenderam que o Presidente da República poderia decidir livremente. O quinto, Ministro Eros Grau, entendeu que, se o Presidente decidisse com base no art. 3, I, f, do Tratado, tal decisão não seria passível de revisão pelo Supremo. O Presidente da República fez exatamente o que lhe autorizou o Supremo Tribunal Federal, fundando-se em tal dispositivo e nas razões adiantadas pelo Ministro Grau".

E arremata: "A manifestação do Presidente do Supremo constitui uma espécie de golpe de Estado, disfunção da qual o país acreditava já ter se libertado. Não está em jogo o acerto ou desacerto político da decisão do Presidente da República, mas sua competência para praticá-la. Trata-se de ato de soberania, praticado pela autoridade constitucionalmente competente, que está sendo descumprido e, pior que tudo, diante de manifestações em tom impróprio e ofensivo da República italiana. De mais a mais, as declarações das autoridades italianas após a decisão do Presidente Lula, as passeatas e as sugestões publicadas na imprensa de que Cesare Battisti deveria ser seqüestrado no Brasil e levado à força para a Itália, apenas confirmam o acerto da decisão presidencial. Em uma democracia, deve-se respeitar as decisões judiciais e presidenciais, mesmo quando não se concorde com elas”.

Assim, depois de 4 anos confinado em odiosa prisão preventiva, o homem seguirá encarcerado, agora sem base legal alguma, aguardando os Excelentíssimos tetéias retornarem da praia, lá por fevereiro ou março.

Como o processo volta às mãos do verdugo (o ministro Joaquim acha que é pior que isso), que defendeu a extradição com o mesmo ímpeto febril com que soltou o Daniel Dantas, fica a questão: ele ousará reabrir a pendenga? A que pretexto?

João da Noite comenta que esses caras podem ser estudiosos, mas falta-lhes a rua, o escuro, a fome, não têm mundo, de repente é caso de pouca mulher, todas as fontes do direito natural, do velho bom-senso, para ao fim perguntar:

"Será que se fosse um banqueiro, acusado de surrupiar ao povo umas 7.500.000 (sete milhões e meio) de cestas básicas, seria libertado para em seguida fugir para a Itália?"

Sabemos que foi o que aconteceu com Salvatore Cacciola em julho de 2000. Sabemos também da dificuldade dos julgadores em condenar políticos e ricaços em geral.

Respondo: Não sei, João, não sei.


Fotos, pela ordem: Cesare Battisti (a quem o Brasil concedeu refúgio), e os simpáticos ministros Cezar Peluso e Gilmar Mendes (este último, a quem o processo agora retorna).
.

Site do Comitê de Solidariedade, com muitas informações: http://www.cesarelivre.org/

"É interessante e oportuno assinalar que as reações violentas e grosseiras de membros do governo italiano, agredindo a dignidade do povo brasileiro e fugindo ao mínimo respeito que deve existir nas relações entre os Estados civilizados, comprovam o absoluto acerto da decisão de Lula." (Dalmo de Abreu Dallari)





jueves, 6 de enero de 2011

Vozes e vozes

.
O grande autodidata, jornalista e pensador brasileiro Mauro Santayana (Minas Gerais, 1932), na foto, ontem trouxe algumas considerações sobre o caso Cesare Battisti, vale a pena ler a íntegra da matéria, no Jornal do Brasil.

Alguns excertos:

"O melhor que devemos fazer, diante de novas manifestações contra a decisão soberana do Brasil em negar a extradição de Battisti, é atender à recomendação dos velhos sábios: deixar que os protestos entrem por um ouvido e saiam pelo outro. Quando a Itália concedeu boa acolhida a Salvatore Cacciola, o Brasil se manteve em silêncio, tendo em vista a sua condição de cidadão italiano. Esperou-se a boa oportunidade, e ela surgiu quando Cacciola foi passear sua impunidade no Principado de Mônaco.
(...)
Nos anos 70... o hoje ministro La Russa - o mais irado inimigo do Brasil no caso Battisti - já era notório militante da extrema-direita.
(...)
Enquanto alguns manifestantes protestavam ontem, diante da nossa embaixada, na Piazza Navona, a poucos metros, na via lateral, o Corso del Rinascimento, outros pediam a libertação...".

Como se vê, há Vozes e vozes tratando do assunto. Há Biografias e biografias. O melhor mesmo é sermos caravana: passarmos alheios aos latidos.


"Criar não é ato de prestidigitação. Uma frase não sai da cabeça como o coelho da cartola do ilusionista. Criar é cavar na colina da memória, abrir galerias, tatear rochas, apalpar os veios." (Mauro Santayana).


.