miércoles, 21 de noviembre de 2012

Me dá um livro, tio, n'A Charge do Dias

.
Os boêmios chegaram em peso ao Botequim, pelas seis e meia da tarde, um saco de carne nas costas de cada um, mas acusando o Portuga de falsidade ideológica, ora fazer aniversário quatro vezes por ano, o último, quem não lembra, foi em 4 de julho. As mulheres entraram menos agressivas, com uma bruta torta de morango, carregada por Jussara e Silvana. Noventa velas, para judiar do pobre luso, que, supõe-se, fará 45 ou 48. Vão acender mais tarde.
 
Presente tu vai ver no apagar da vela, ó puto - disse o Contralouco - recém se chegando nas cervejas com trigo-velho. O Portuga, embasbacado com o tamanho da torta, só atinou em responder que puto em Portugal é guri de até 10 anos, já passei, não sou mais puto, disse, e nesse instante os boêmios leram no seu ar a palavra saudade.
 
Leilinha, que precisava sair com o rapaz do PSOL, não quis nem saber: intimou-os pelas escolhas das obras. Já, náu, ahora!
 
Ufa, o blog agradece. Por ontem e por hoje, aí vão os artistas do traço e do pensamento.
 
Duke, de O Tempo (Belo Horizonte, MG).
 
 
 
 
Mário, da Tribuna de Minas (Belô, MG). Quem vê, até parece que o Mário entende de prostíbulos, deve ser jornalista, ouviu falar, disse Lúcio.
 
 
 
Como é festa no Botequim, e a gente aqui da palafita temos um avião a pegar de madrugada, vai sem comentários a obra do valente (só isso, valente? Não mesmo, muito mais: um homem de bem, que sonha em mudar o que for possível, e... ah) Nani, como todas hoje. Mas bem que dá vontade, saibam os amigos.
 
 
 
Um achado do Sid, do Metro1. Para essa gente quadrada que pensa só em si, qualquer cor que tenham. Vai para a parede do botequim, disse Aristarco.
 
 
 
 
Por falar em figura geométrica, quadrilátero regular, eis a bela obra do Pelicano, do Bom Dia (São Paulo, capital).
 
 
 

Entrada para o último GRENAL, n'A Charge do Dias

.
Por alguma estranha conjunção astral, nenhum boêmio apareceu no botequim pela manhã. Ontem alguns avisaram, sabe como é, vez que outra é preciso trabalhar saindo de casa às seis da matina. Logo no aniversário do Portuga (faz 4 vezes por ano, o esperto). Para nosotros, estão aprontando para o lusitano.
 
No Botequim só tem dois gremistas, dos habitantes das mesas centrais e da janela, isto é, da "diretoria", que são Wilson Schu e o próprio Portuga, embora este, ocupado em atender a clientela, raramente arranje tempo para se sentar com a turma. Só quando está com algum problema grave ou no fim da noite, quando ajuda a entornar as saideiras, nestas ocasiões mortalmente preocupado que a Lei Seca apreenda a sua fubica na ida para casa.

A velha fubica é o único meio para buscar mantimentos para o botequim, diariamente, agora que o Mavericão do Terguino sucumbiu, se desmanchou sozinho de tão velho e usado. Os brigadianos gostam de fuder pobre, bafômetro e tudo, repete ele, que acaba tomando uma cerveja sem sabor. O Contralouco insiste, se der zebra deixa comigo, depois eu pego um por um, mas ele não se convence. Está certo, para que incomodação. Para mal dos pecados, beber às três da manhã, para acordar às seis e sair às compras no mercadão?
 
Leilinha enviou a sua escolha ainda pela manhã, ela que escolhe solita, seu direito como coordenadora da coluna A Charge do Dias. Homenageou ao Portuga, sócio do seu pai no bar, embora ela e seu pai sejam colorados.
 
Com o Sinovaldo do Jornal NH (Novo Hamburgo, RS). O Terguino Ferro, pai da Leilinha, não ficou atrás: presenteou-o com um ingresso para o último grenal na história do lendário Estádio Olímpico, do Grêmio, de tantas lágrimas e glórias. O grenal ocorrerá no dia 2 de dezembro, que será um belo domingo. Aqui ficamos matutando onde o Terguino conseguiu o ingresso, pois nestas alturas já deve estar valendo cem mil cada um. Um presente inesquecível, mas o despreendimento do Terguino não nos surpreende, ele é assim, primeiro os amigos.
 
 
 
 
 
 
À noite saberemos as escolhas dos empinantes.

.

martes, 20 de noviembre de 2012

Camila Costa

.
"O x do problema" (Noel Rosa) com a cantora carioca Camila Costa, ex-Sururu na Roda. Camila, além de ser ótima, princesa encantada, teve o bom gosto de no seu vídeo apresentar a grande Aracy de Almeida, de papo com Hermínio Bello de Carvalho e ao som do conjunto Época de Ouro.

Salve, Camila!



Lembranças do mensalão (II)

.
Quando a gente começa algo desta magnitude, de propor guardar textos sem ódio sobre a Ação Penal 470, há que se ter em mente que se trata somente disto: guardar textos, reuni-los. Muitos pesquisadores e comerciantes de toda sorte estão fazendo isso desde o começo, para amanhã ou depois jogarem livros para os pouco ilustrados, a preço de ocasião. O circo armado, eles lá, megafones na mão, com os olhos presos na plateia, com suas certezas e interesses. Uns esquecerão, convenientemente, os ministros Levandowski e Toffoli em suas manifestações; outros, convenientemente, os lembrarão. O mesmo para Joaquim Barbosa e demais membros da Suprema Corte. Todos esquecerão os advogados, seres abjetos. Concentrarão ogivas naqueles ministros com quem desacordaram. Atos falhos, escancarados, se pretenderem se passar por imparciais, o que sabem não pertencer ao mundo terreno.
 
Ontem, que já é anteontem, abrimos com um texto da notável jornalista Dora Kramer, linhas que cumprimentavam um homem pelo seu aniversário e sua aposentadoria, pela sua trajetória. E o texto foi irretocável, quem assistiu ao julgamento sabe que a Dora não fez favor algum. A Dora é tida e havida como direitosa. Se o é, nesse texto não o foi. Anteontem, domingo, cometeu honra ao mérito.
 
Hoje trazemos o famoso jornalista Mauro Santayana, uma glória nacional, ao nosso ver, em sangrenta defesa do que sabe e acredita. Surpreendeu-nos, o pensador.
 
Enfim, a gente de longe enxerga pouco. E não mais se falará aqui sobre lados e ângulos de visões, os autores falarão por si. Por ser o começo, foi preciso o esclarecimento, pois este blog está lleno de passagens sobre o que pensamos, por termos visto.
 
 
UM JULGAMENTO POLÍTICO
 
Por Mauro Santayana
 
O julgamento da Ação 470, que chega ao seu fim com sentenças pesadas contra quase todos os réus, corre o risco de ser considerado como um dos erros judiciários mais pesados da História. Se, contra alguns réus, houve provas suficientes dos delitos, contra outros os juízes que os condenaram agiram por dedução. Guiaram-se pelos silogismos abengalados, para incriminar alguns dos réus.
 
O relator do processo não atuou como juiz imparcial: fez-se substituto da polícia e passou a engenhosas deduções, para concluir que o grande responsável fora o então Ministro da Casa Civil, José Dirceu. Podemos até admitir, para conduzir o raciocínio, que Dirceu fosse o mentor dos atos tidos como delituosos, mas faltaram provas, e sem provas, não há como se condenar ninguém.
 
O julgamento, por mais argumentos possam ser reunidos pelos membros do STF, foi político. Os julgamentos políticos, desde a Revolução Francesa, passaram a ser feitos na instância apropriada, que é o parlamento. Assim foi conduzido o processo contra Luis XVI. Nele, de pouco adiantaram os brilhantes argumentos de seus notáveis advogados, Guillaume Malesherbes, François Tronchet e Deseze, que se valiam da legislação penal comum.
 
O julgamento era político, e feito por uma instituição política, a Convenção Nacional, que representava a Nação; ali, os ritos processuais cediam lugar à vontade dos delegados da França em processo revolucionário. A tese do poder absoluto dos parlamentares para fazer justiça partira de um dos mais jovens revolucionários, Saint-Just. Ela fora aceita, entre outros, por Danton e por Robespierre, que se encarregou de expô-la de forma dura e clara, e com a sobriedade própria dos julgadores - segundo os cronistas do episódio - aos que pediam clemência e aos que exigiam o respeito ao Código Penal, já revogado juntamente com a monarquia.
 
- “Não há um processo a fazer. Luis não é um acusado. Vocês não são juízes, vocês são homens de Estado. Vocês não têm sentenças a emitir em favor ou contra um homem, mas uma medida de segurança pública a tomar, um ato de providência nacional a exercer. Luis foi rei e a República foi fundada. E Robespierre, implacável, explica que, em um processo normal, o Rei poderia ser considerado inocente, desde que a presunção de sua inocência permaneceria até o julgamento. E arremete:
 
- “Mas, se Luis é absolvido, o que ocorre com a Revolução? Se Luis é inocente, todos os defensores da liberdade passam a ser caluniadores. Os fatos posteriores são conhecidos.
 
O STF agiu, sob aparente ira revolucionária de alguns de seus membros, como se fosse a Convenção Nacional. Como uma Convenção Nacional tardia, mais atenta às razões da direita - da Reação Thermidoriana, que executou Robespierre, Saint Just e Danton, entre outros - do que a dos montagnards de 1789. Foi um tribunal político, mas sob o mandato de quem? Quem os elegeu? E qual deles pôde assumir, com essa grandeza, a responsabilidade do julgamento político, que assumiu o Incorruptível? E qual dos mais exacerbados poderia dizer aos outros que deviam julgar como homens de Estado, e não como juízes?
 
Como o Tartufo, de Molière, que via a sua razão onde a encontrasse, foram em busca da teoria do domínio do fato, doutrina que, sem essa denominação, serviu para orientar os juizes de Nurenberg, e foi atualizada mais tarde pelo jurista alemão Claus Roxin. Só que o domínio do fato, em nome do qual incriminaram Dirceu, necessita, de acordo com o formulador da teoria, de provas concretas. Provas concretas encontradas contra os condenados de Nurenberg, e provas concretas contra o general Rafael Videla e o tiranete peruano Alberto Fujimori.
 
E provas concretas que haveria contra Hitler, se ele mesmo não tivesse sido seu próprio juiz, ao matar-se no bunker, depois de assassinar a mulher Eva Braun e sua mais fiel amiga, a cadela Blondi. Não havendo prova concreta que, no caso, seria uma ordem explícita do Ministro a alguém que lhe fosse subordinado (Delúbio não era, Genoíno, menos ainda), não se caracteriza o domínio do fato. Falta provar, devidamente, que ele cometeu os delitos de que é acusado, se o julgamento é jurídico. Se o julgamento é político, falta aos juizes provar a sua condição de eleitos pelo povo.
 
Dessa condição dispunham os membros da Convenção Nacional Francesa e os parlamentares brasileiros que decidiram pelo impeachment do Presidente Collor. As provas contra Collor não o condenariam (como não condenaram) em um processo normal. Ali se tratou de um julgamento político, que não se pretendeu técnico, nem juridicamente perfeito, ainda que fosse presidido pelo então presidente do STF.
 
A nação, pelos seus representantes, foi o tribunal. O STF é o cimo do poder judiciário. Sua sentença não pode ser constitucionalmente contestada, mesmo porque ele é, também, o tribunal que decide se isso ou aquilo é constitucional, ou não. A História, mais cedo do que tarde, fará a revisão desse processo, para infirma-lo, por não atender às exigências do due process of law, nem a legitimidade para realizar um julgamento político.
 
O julgamento político de Dirceu, justo ou não, já foi feito pela Câmara dos Deputados, que lhe cassou o mandato.
.
.
(a foto-ilustração não consta no original).

lunes, 19 de noviembre de 2012

Futebol dos ricos n'A Charge do Dias

.
Os boêmios decidiram começar a semana numa boa, sem esquentar a cabeça. Bem, eles ao menos, tirando as brincadeiras em dia de jogo, não esquentam a cuca com futebol.

De há muito sabem das maracutaias desse esporte, que - como disse Nicolau - como tudo se transformou num grande engodo para enrabar os pobres, eles lá com suas políticas neoliberais, ora 500 mil por mês para um pedaço de carne sem cérebro...

Qualquer coisa que eles façam - disse Jussara do Moscão também de dia ruim - é para tomar do povo, como iriam viver esses vampiros se não fosse isso?

Pesou.

Em seguida chegou o Contralouco, pelas seis e meia da tarde, mal pediu uma losninha e foi dizendo que o dia foi péssimo, acordou às seis da manhã, sentou na cama, louco de vontade de matar um pastor eletrônico. Com as mãos, salientou, estrangular o desgraçado. Tomei um banho gelado mas não adiantou, disse. 

O concessionário da tevê bota outro - troçou Tigran Gdanski.

Aí que tá - esclareceu o Contralouco - no banho me toquei, depois do corvo eu ia pegar o dono da televisão.

Jezebel se meteu, falando na falta de verba para construir postos de saúde, melhorar as escolas, os presídios, mas a turma não queria, hoje, discutir esses assuntos.

Amigos - falou Aristarco - antes de chegarmos nos políticos e no povinho, quem sabe cumprimos o combinado: só futebol, não política de futebol, o espetáculo da massa ignara, dinheiro desviado. Fazer de conta que é futebol, pombas, vamos ou não? Se alguém falar dos donos da CBF, os ladrões criminosos, do consentimento da Dilma, eu vou embora.

Silêncio. Jucão da Maresia murmurou um não adianta mesmo.
 
Marquito Açafrão contou que o novo Maracanã será lindo. Terá espaço VIP, com mais luxo que os aeroportos. Espaço ilimitado, ar-condicionado, bares finos, cabaré e sei lá o que mais. O povo se apertando do outro lado. Esclareceu que por povo entenda-se a classe média de cinco mil para cima, porque o povão mesmo não vai passar nem perto dessas catedrais. O cara ganhando seiscentos contos por mês, vai pagar oitenta o ingresso? Fala sério. Riu.
 
De modo que os boêmios, mesmo que alguns possuam recursos de sobra, jamais entrarão nos novos estádios. Porém amam futebol, melhor seria bons campeonatos de várzea, onde a turma joga por amor, na raça, mas estes, se ainda existem, são disputados lá nos cafundós, sem nenhuma divulgação. Isto quem disse foi Walter Schirú (o xiru antigo, alemão, insiste no acento agudo ao seu antigo Schmidt), o mais velho da confraria, que tem aparecido raramente.
 
Amam futebol, e como, e a camisa dos seus times - a meninice nunca nos foge - apesar das malditas propagandas estuprando as camisetas que adoraram. O Janjão diz jamais ter visto coisa mais horrível que aquele BMG cor-de-laranja, gigantesco, manchando a camisa de alguns clubes, viram o Santos, brancura, virar aquela bosta ridícula? O que faz o dinheiro: Banco da Merda Grande, arremata.

Aristarco ameaça se levantar para ir embora. Silêncio de novo. Ele olha para os amigos de jeito incerto e senta novamente, até o pé de oliveira do Beco do Oitavo entendeu que mais uma e ele sai sem volta hoje.
 
Enfim, para encurtar o relato, importa é que se decidiram a começar bem a semana, só de tirar o Maluf - sócio do Lula e do PT, os seus inimigos fascistas, a Veja, os políticos em geral, do pensamento, já é um senhor refresco. Disto os empinantes não trataram, nós aqui é que, embaralhados com a vida, nos metemos a traduzir os pensamentos dos outros, afinal quem mora na aldeia conhece os bugres, ou deveria.
 
Leilinha Ferro se compadeceu dos coroas (para ela, pelo menos, 30 já é coroa) e admitiu três obras dos artistas do traço e do pensamento.

Amorim, em seu sítio.

 
 

Mário, no Tribuna de Minas (Belô, MG).

 


Cazo, do Comércio do Jahu (Jaú, SP). Desnecessário dizer que todos lamentaram a queda do grande Palmeiras de tantas glórias (o pai do Lúcio Peregrino conheceu pessoalmente Tupãzinho e Ademir da Guia), tanto que passaram a discutir as regras. Na Argentina é diferente, apenas um mau campeonato, uma fase ruim, não derruba, também levam em conta os anos anteriores, disse Lorildo de Guajuviras.




Leilinha Ferro, que é colorada mas está nem aí, solidarizou-se com os boêmios, mas de lado, e ficou com o grande cearense Newton Silva (em seu blog).



(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos dias se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)

domingo, 18 de noviembre de 2012

Lembranças do mensalão (I)

.
Hoje inauguramos a seção "Lembranças do mensalão", com matérias tratando dos fatos que desaguaram na Ação Penal 470, e sobre a própria Ação Penal. O critério para a seleção é simples: bons textos, que lancem alguma luz sobre qualquer fato ou etapa do imbróglio, desde o comportamento delitivo, descrito na peça de acusação, até o julgamento e sua repercussão.
 
Todos temos lado, tomamos posições, então não importa qual é o lado, este ou aquele ângulo de visão, mas terão de ser textos escritos sem ódio, com bom senso. Sugestões ou contribuições serão bem-vindas.
 
Abrimos com a coluna deste domingo da jornalista Dora Kramer, no Estadão.
 
Algodão entre cristais
 
Por Dora Kramer
 
Fácil não foi. Houve mesmo momentos em que o ministro Carlos Ayres Britto achou que não conseguiria cumprir o propósito de incluir o julgamento do processo do mensalão na agenda do Supremo Tribunal Federal durante sua breve presidência.
 
Seriam apenas sete meses, em função da aposentadoria compulsória aos 70 anos completados hoje, a respeito dos quais Ayres Britto começou a pensar desde o ano anterior.
 
Decidiu que se empenharia no exame da Ação Penal 470 ao juntar os fatos: o caso acontecera há sete anos, a denúncia havia sido recebida há quase cinco, a instrução terminara um ano antes, a prescrição de alguns crimes batia à porta do processo.
 
Não obstante as condições objetivas favoráveis, Ayres Britto sentia a atmosfera desfavorável e um obstáculo concreto a ser transposto: o revisor Ricardo Lewandowski dava indicações de que não liberaria seu parecer tão cedo.
 
Além disso, recebia ponderações de amigos de que talvez não fosse um bom negócio se envolver numa confusão desse tamanho em tão pouco tempo de presidência.
 
O tribunal paralisaria os trabalhos, viveria boa parte de sua gestão em função de um único processo e ainda receberia críticas por ter feito coincidir o julgamento com as eleições municipais.
 
Os argumentos não pareciam consistentes ao ministro Ayres Britto. A paralisia de outros processos seria um preço inevitável e as eleições fazem parte da rotina do País. O ministro quis antecipar o julgamento para maio, mas não conseguiu devido às resistências no colegiado.
 
Vencidas pouco a pouco em negociações prolongadas. Foram inúmeros encontros preparatórios até que no dia 6 de junho foi anunciada oficialmente a data do início do julgamento para dali a dois meses. Lewandowski e Antonio Dias Toffoli não foram à reunião, alegando outros compromissos.
 
Entre as poucas pessoas que apoiavam a empreitada estava a ex-ministra do STF Ellen Gracie. Presidente da Corte quando a denúncia foi aceita, em 2007, ela telefonou para Ayres Britto para dar apoio e dizer que ele era a pessoa certa, no lugar certo.
 
A combinação de suavidade, persistência e firmeza faziam dele o perfil ideal para levar adiante o processo.
 
Ainda assim houve um momento, mais ou menos um mês antes de conseguir bater o martelo, em que o ministro viu a coisa feia e achou que não seria possível fazer o julgamento a tempo de evitar a prescrição de alguns crimes, tamanha era a pressão. Implícita, jamais explícita.
 
Ele perdeu a conta das vezes em que ouviu a pergunta "por que julgar?". À qual rebatia com um "por que não julgar?" que deixava o interlocutor sem resposta.
 
Olhando os últimos três meses no retrovisor o ministro evita qualquer crítica aos colegas, mas aponta que os desentendimentos entre eles foram responsáveis pelas situações mais difíceis que teve de enfrentar durante o julgamento. Principalmente quando as divergências resvalavam para o campo pessoal, beirando o insulto.
 
Nessas ocasiões Ayres Britto via a coisa realmente feia - "um verdadeiro sarapatel de coruja", na expressão da Sergipe natal - e improvisava.
 
Quando era possível cuidava de elevar a "taxa de cordialidade" no plenário com alguma tirada poética, mas quando não havia jeito suspendia a sessão e promovia um entendimento informal que se traduzia na restauração da formalidade na volta dos ministros ao plenário.
 
Carlos Ayres Britto deixa o Supremo Tribunal Federal sem nostalgia - "tenho facilidade para virar a página", diz - e absolutamente tranquilo quanto ao dever cumprido pela Corte.
 
Não vê sentido nas críticas de que o STF deixou de lado a ortodoxia jurídica para se comportar como tribunal de exceção.
 
"Heterodoxo foi o caso. A novidade não está no julgador, mas no processo julgado, na quantidade de réus, na gravidade dos crimes e na ousadia dos criminosos. O Supremo fez o que deveria ser feito."


.

Churrasco na rua, n'A Charge do Dias

.
Devido ao feriadão, quando os chargistas brasileiros deram uma esticadinha até as praias do Caribe, esta coluna não saiu sexta e sábado. Hoje, cansados de merengues (caipirinha de vodka com algumas pétalas de rosas  brancas), camarões e milho-verde, depois champanhes ao luar, os artistas do traço deram as caras.

Os empinantes do botequim, devidamente autorizados pela Srta. Leila Ferro, recuperaram o tempo perdido. O Botequim desde cedo lotado em mesas na rua, em preparativos para o churrasco de domingo, que costuma sair lá pelas três da tarde. Os preparativos são trago e cantoria, pois o churrasco propriamente dito, no rodízio que se procede, será de exclusiva responsabilidade de Wilson Schu e Tigran Gdanski, uma bela dupla, pois o primeiro só admite carne malpassada, e o outro bem, de modo que todos os gostos serão contemplados. Juro que prefiro malpassado com hífen, mas fazer o quê.

Destaque para o Contralouco, que chegou direto da boemia, só passou em casa para tomar um banho e vestir a sua camisa nova do Inter. Entre outras estrepolias, chegou e logo deu em cima da noiva oferecida, a trintona gostosa da zona, que costuma passar de short apertadinho pela outra calçada do Beco do Oitavo, fazendo zóinho para a turma. O conquistador atravessou a rua e a acompanhou até a outra esquina, cheio de papo e de gestos, sob assovios e aplausos da malandragem. 

Retornou alegrão e inventou um buquimequi de Portuguesa e Grêmio, a dez paus o prognóstico, e abriu a jogatina marcando 4 x 0 para os paulistas - só para provocar o Portuga, gremista doente -, alegando que ia de Portuguesa para homenagear o dono do botequim. O dono do botequim, o próprio Portuga, bom cabrito, fingiu que não notou. Alex Sociológico, gremista, fez outro buquimequi, agora com Inter e Corinthians, onde o Portuga silenciosamente cravou 5 x 0 também para os paulistas.

Pela camisa, o Contralouco mereceu o seguinte comentário da mestra Jezebel do Cpers, decepcionada com o seu vermelho: "Depois de perder tudo... Normal, ele é louco mesmo".  

A coluna  A Charge do Dias foi a primeira preocupação séria, às dez iniciaram as escolhas. Leilinha, caixa do bar e  coordenadora deste espaço, começou com a sua, de modo a dar o exemplo e livrar-se logo do encargo, sabe que se deixar por eles só receberemos as obras à noite.

Como os cantineros, a jovem princesa tem plena consciência de que tudo começa pela (falta de) educação. Ao elogiar a sua escolha, o sábio Aristarco de Serraria usou palavras fortes, o que lhe é incomum, causando estranheza nos amigos: "Os filhos da puta conseguiram, depois de espalharem tanta miséria e ignorância, agora colhem os frutos", referindo-se às notícias de tiroteios e incêndios relatados por Lúcio Peregrino nas notícias do notibuc.

- Quem são os filhos da puta - perguntou Gustavo Moscão -, os empresários?

- Não, Mosca, os grandes empresários, bancos e corporações, aqueles da pilantropia, e os seus perniciosos asseclas, os políticos, esses animais discursantes que ensinam ao povo que o crime compensa.

Nicolau Gaiola, o ator e teatrólogo, tratou de desviar o assunto, afinal é domingo, e no meio da rua encenou pequena parte da sua peça "Sarney Nu", em cinco minutos levou a massa ao delírio.

Bem, a Leilinha ficou com o Zop.



Os boêmios e boêmias mostraram toda a sua alegria com o espetáculo que assistem diariamente no Brasil. Escolheram as seguintes.

Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).



Frank, de A Notícia (Joinville, SC).




Sinfrônio, do Diário do Nordeste (Fortaleza, CE).




Kayser.



Cláudio, do Agora S. Paulo (SP, capital). Após as preciosidades anteriores, com esta chegamos ao limite humano da tolerância e fizemos uma pausa para uma caipirinha, de outro jeito não vai.




Voltamos a tempo de ver que os boêmios arremataram com o sempiterno Nani.



(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos dias se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)

jueves, 15 de noviembre de 2012

Plauto Cruz

.
Hoje o nosso espetacular flautista e compositor Plauto de Almeida Cruz está de aniversário (São Jerônimo, RS, 15/11/1929). Desde os 15 anos Plauto mora em Porto Alegre, mas rodou mundo, levado pelo seu talento.
Abaixo, um raro vídeo, supomos de meados da década de 90, resgatado por Raíssa Amaral. Só Deus sabe como o resgatou, pois era dado por perdido devido a um incêndio ocorrido na TV Cultura, segundo nos conta o grande Aguinaldo Loyo Bechelli (já referido no blog, em Alcides Gonçalves por Aguinaldo Loyo Bechelli).
Nele, além de Plauto, Aguinaldo e outros bambas, temos outro famoso gaúcho, Jessé Silva, autor da obra executada.
Plauto que anda meio amolado, como se dizia, e que na segunda-feira passada teve um show em sua homenagem no Teatro Renascença.

Feliz niver. Saúde, Plauto!




O destino dos condenados, n'A Charge do Dias

.
No botequim, Aristarco de Serraria, depois da primeira losninha, surpreendeu o pessoal:
- Acordei com o quarto girando, a cama girando, eu, roupas, cinzeiro, garrafa, discos, tudo girando, em perfeita elipse, e durante a giração dei de pensar na imaturidade dos nossos dirigentes, logo estava com o general Figueiredo na cabeça. Na verdade, o País inteiro deve andar pensando nisso.
Silêncio. Todos sabem que Aristarco sofre de um problema que faz com que às vezes sinta tudo girando, mas ficaram boiando quanto ao general. Clóvis Baixo disse:
- Não entendi, Aristarco, explica isso.
- Ah, o Figueiredo certa vez disse que, se fosse um chefe de família que ganhasse um salário mínimo, dava um tiro na cabeça. Na verdade disse que daria um tiro no coco, o que dá na mesma. Parece que falou isso numa escola, com plateia de crianças.  A esquerda, hoje no poder... bem, hoje não é mais esquerda, mas são os mesmos caras, caiu de pau: primeiro, porque não se diz uma coisa dessas, numa sentada chamando aos trabalhadores de covardes e declarando a impossibilidade de se viver com aquela miséria; segundo, admitindo que não mandava porra nenhuma, mesmo sendo o ditador de plantão.
O Portuga lhe traz outra losninha, dá um talho e prossegue:
- Agora, essa do Ministro da Justiça, o Cardozão, de um partido que esperneava por um salário mínimo justo e agora faz das tripas o coração no Congresso para mantê-lo indigno, enquanto enche ainda mais as burras dos banqueiros e empresários larápios. Não viram?, o cara falou que preferiria se matar a cumprir pena nos presídios brasileiros. Dizer isso em público, sendo televisionado...
- Ah, são todos assim, Ari, imaturos e interesseiros. É que agora vai arder no deles, se é que os mensaleiros não vão se safar da cadeia. Se tivessem preocupação real com os presídios, começariam com o aumento do salário mínimo, a par de melhorar as condições das prisões -, diz Carlinhos Adeva.

Tigran Gdanski intervém:
- Pera aí, gente, de fato foi uma frase muito infeliz, disse uma bobagem, um homem nessa posição não pode ser leviano, deve saber manter a boca fechada, mas haveremos de convir que a Dilma não pode arrumar um país, que há décadas sofre dessas mazelas, de uma hora pra outra.
- Amigos. Os estados têm responsabilidade nisso, não é apenas o governo federal. Os estados alegam falta de recursos, devolvendo a bola para a União, que abocanha tudo. Jogo de empurra. Aqui mesmo em Porto Alegre temos uma dessas sucursais do inferno -, diz Lúcio Peregrino.
(Este blog tratou do assunto, em A sucursal do inferno)
Nicolau Gaiola, disposto a virar o assunto incômodo, argumenta:
- Daqui a pouco vocês vão dizer que ele quis solucionar o problema, sugerindo que todos os apenados se matem, pronto, tava resolvido, não precisaríamos mais de presídios. Ora, claro que não é isso. Pensemos o seguinte: um sujeito estudado, ministro de Estado, político experimentado, não bate prego sem estopa, não diz coisas impensadas. Algo eles querem. O tempo nos dirá.
- E tem uns irresponsáveis querendo reduzir a maioridade penal -, lembra Wilson Schu.
Nesse momento entra o Contralouco e exclama lá da porta:
- Viva Los Millonarios! Vai se preparando, Portuga! 
E vai rindo ele mesmo pegar uma cerveja na geladeira. Depois some para os fundos do bar, para as mesas de sinuca, falando em dar a sete livre para qualquer um, a 20 paus.
O botequim é um antro de colorados, hoje todos pessimistas com o destino do Grêmio na Copa Sul-Americana. Disse Clóvis Baixo:
- O placar de 1 x 0 em Porto Alegre foi muito magrinho, eles correm o risco de saírem goleados de Bogotá.
- Acho que o Rentería vai fazer a festa. Gente, todo mundo aqui às dez da noite, vamos assistir direto do El Campín -, avisa Jucão da Maresia.
O Portuga fica quietinho lá no caixa, ao lado de Leilinha Ferro. Dali a pouco vai ao banheiro e volta vestindo a sua camisa tricolor, a titular. Segue sem dizer uma palavra, mas o bar vai abaixo em gargalhadas.
- Bonito pijama, Portuga, - diz Gustavo Moscão.
- Só estamos comentando as possibilidades, Portuga, fora o Contralouco ninguém está secando... - , diz Clóvis Baixo.
- Oh, sim, compreendo, claro que não -, ele responde, irônico.
Leilinha pede que iniciem a escolha das obras do dia. Não demoraram muito.
Ficaram com a obra do Marco Aurélio, de Zero Hora (Porto Alegre, RS).
E com a do Sinovaldo, do Jornal NH (Novo Hamburgo, RS). Esta deu muito o que falar. Os boêmios concluíram que a pena maior para um pau-mandado objetiva fazê-lo dar com a língua nos dentes, tem peixe grande que ainda não caiu na rede. Aristarco, Carlinhos Adeva e Wilson Schu foram os únicos a discordarem, o Supremo não se prestaria a armadilhas stalinistas, usando a lei para tanto. Os malditos políticos é  que foram poupados, insistiu Carlinhos.
Miss Leilinha Ferro não ficou de fora do tema principal. Parou na obra do Amarildo, da Gazeta Online (Vitória, ES).
(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos dias se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)

miércoles, 14 de noviembre de 2012

Sinta-se em casa, n'A Charge do Dias

.
Os empinantes escolheram a obra do Tiago Recchia, da Gazeta do Povo (Curitiba, PR).
 
 
 
 
E a do Amarildo, da Gazeta Online (Vitória, ES).
 
 
 
Leilinha Ferro ficou com o Sponholz, do Jornal da Manhã (Ponta Grossa, PR).
 
 
 
(A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que há poucos dias se..., bem..., se fundiram (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário, como eles dizem. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro)