domingo, 11 de mayo de 2014

Cidade Baixa: 15 da Camila

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Certa vez o "Carlos" (troquei o nome, né,  a hipocrisia nacional diz que o jogo do bicho é contravenção penal, só rindo) convidou ao Pato Bolé, meu compadre, e a mim para o aniversário de 15 anos da sua filha.

O Carlos era o bicheiro da Cidade Baixa, em rachid com um cara do Rio e um cola-fina de Porto Alegre. Gente finíssima, o Carlos, nunca pegou em arma, uma caaalma, sempre se acertou na boa com os adversários, em tempos de guerra era o mediador, finura mesmo, mas sabia o que fazia, que tentem. O cara do Rio de Janeiro também boa gente, negão de 150 Kg, alegre, festivo, este compareceu ao niver. O de Porto Alegre deixa pra lá.

O Carlos um neguinho médio, 1,75 m, nem parrudo nem magrela, assim como eu, eu 1,79, mas nem gordo nem magro, enfim, não era armário. Casado com a Loirete, uma loira mais baixa que ele, mas polpuda, outra gente fina. Boazuda, quando andava pela Rua da Olaria em cima daquele salto 20 o Carlos se benzia em casa, a cachorrada de toda a cidade ia atrás para ver o requebro, vai, vem, da, ahn, da polpa. Pero sincera e honesta, tinham cinco filhas, mais umas dez e ele me alcançaria, nessa época eu estava na quinze. A gente ria muito por essa de só fazer menina, e acordávamos que homem lá em casa, ou casas, já chega eu. O niver era da sua guria mais velha, a Camilinha.

Uma honraria e tanto, sermos distinguidos pelo amigão que bebia e jogava xadrez com a gente no bar do Carlito Higgins, uruguaio, outro amigão, ele e a Jacira. A mulher do Carlito um doce, trabalhava na Saúde, ali num Posto da rua dos milicos, ai meu Deus, uma depois do 18º do Forte de Copacabana, o... Otávio Correa, isso, uma depois da Otávio e uma antes da Rua da República, deu branco no nome, mas ali pertinho, no setor de doenças venéreas. O Carlito se arriava nela porque passava o dia inteiro pegando em pau para colher material - tinha que pegar, apertar, espremer a cabeça e colher o líquido no buraquinho dos paus dos caras - mas se arriava só entre nós, no começo ficava fula da vida, ora onde já se viu contar coisas assim, vermelha, mas com o tempo ela também ria. Um casal de amor, Carlito e Jacira, com seu lindo guri.

Claro que fomos. A festa contaria com conjunto de samba de primeira, dez caras, com tudo o que tinham direito. No próprio Bar do Carlito, na esquina da Rua da Olaria com Lopo, pouquinho mais pra lá, onde atualmente tem algo, restaurante ou coisa assim. Na época ali pegava fogo de amizades, uma alegria só, boêmios se abraçando, tomando lisos, música, violões correndo, e os tabuleiros de xadrez pelas mesas. Alguém já jogou uma Siciliana bêbado às três da matina, valendo a despesa? Não tente. A Siciliana é semi-aberta, hoje uma das prediletas dos grandes campeões, mas a gente treinava mesmo, e gostava mais, das abertas: escocesa, italiana, húngara, espanhola, russa... uma festa. Eu amava ir para cima deles com o gambito Evans, que foi uma tentativa de se modernizar a italiana, fatal se um domina e o outro não está habituado.

Só eu e o Pato fomos convidados, o bar estaria fechado para outras pessoas, deu uma ciumeira danada, mas os borrachos velhos aguentaram, estaríamos representando a todos, pois viria a parentalha do Rio, Floripa, Miami e o diabo, iria faltar lugares. Guardados os tabuleiros.

Lá fomos à noite. Levamos flores para a gatinha, eu rosas amarelas e o Patinho vermelhas, eu argumentei que 15 é nada, levo amarela, não é rosinha mas também não é de mulherão, a guria é cabaço, meu, e ele ponderando que tinha de ser vermelhas, a guria já se acha mulherzinha, para incentivar paixão, se sentir bem, etc. Puta que nos pariu, e agora? Tomamos um trago num boteco uma quadra antes e resolvemos misturar os dois buquês, depois de virar um copo em cima. 

Entregamos juntos, os dois segurando. Posamos para fotos já na chegada, a gente de terno e gravata, perfumados, nos trinques, alegria, aquilo lotado, umas duzentas pessoas onde caberiam cinquenta, e dê-lhe ixtou aqui, purrque, papos em carioquês. Branquelos eu, o Pato, a esposa do Carlos, mais uns três parentes, e ainda dois ou sete que não lembro direito, também não fiquei cuidando, ora. As gurias dele passavam por negras, lindinhas de morrer. Abraços, felicidade. Todos estávamos felizes, molinhos. O camarada do Rio sentou junto conosco, na mesma mesa, figuraço, em poucos minutos ficamos amigos para sempre.

Bebemos, comemos, rimos, dançamos - eu dancei com todas as suas pequeninas, exceto com a aniversariante, primeiro o pai -, e a tigrada lá no palco metendo para valer, o negão do surdo dava uns dois de mim, e lá rindo e ferro na boneca, o cavaquinho, o bandolim, flauta, dois violões, reco-reco e o escambau, bah, todos, os sambas pegados se ouvia em todo o bairro, soube depois, mas era de entontecer mesmo, mesmo inglês sairia dançando, aquilo mexe até com almas que já subiram.

Chegou o momento: o Carlos foi lá no palco dizer algumas palavras para a menina, antes de tirá-la para a valsa. Disse bem, amor da minha vida e tal, a guria subiu lá, a mãe também, as maninhas, mais abraços, lágrimas. Pato, Julião carioca e eu emocionados aqui embaixo. Adivinhem qual o bobo que não segurou uma lágrima, ah, era penumbra, fraca mas era.

Incidente na portaria. O nosso segundo armário teve que dar uma porrada num mauricinho invasor. Foi nada. Os porteiros impediram a Cidade Baixa inteira de entrar, o povo pensava que era paguei e estou dentro, a música atrai, e música boa, negada também do Rio, e eu de tão azarado fiquei logo de diagonal para a porta, na mesa da outra parede, com tanto espaço na frente e lá atrás, rei do peso. Na época eu era meio perigosinho, então quando apareciam as putiangas na porta perguntando pelo Sala e os negão barravam eu me abaixava e o Pato dava cobertura com o corpo. Uma gritou, mas eu vi o chapéu dele! Azar, dona, está enganada. Ufa. O Pato ria, o Julião idem, este dizendo que a Cidade Baixa tem algo do Rio. A coragem dele, "algo". A Cidade Baixa dá de dez a zero em toda a zona boêmia do Rio, de lambuja ainda podem somar o Bexiga de Sampa, mais Santa sei lá o quê.

Bom, o conjunto já havia tocado muitos sambas, todos não porque samba não tem fim, era coisa de onze da noite quando o Carlos cometeu a solenidade de dizer palavras de amor à filhinha. Estava a família no palco, ameaçando descer para a valsa e continuar a festa, quando se ouviu uma voz: "Vocês são racistas, negada de merda, não tocam música judia".

Era o médico da família, um velhinho franco-israelita, Monsieur Bertrand. O velho judeu era francês, israelita por adoção e brasileiro para incomodar: o pai dos chiclés, numa água de dar gosto. Uma beleza de se ver: um metro e cinquenta, terno cinza claro, camisa azul e chapéu coco preto. Nunca vi aquele velho sóbrio, mas era bom de medicinas assim mesmo, creio que se fosse sóbrio atender a alguém o paciente não aceitaria, era bom bêbado. Tinha entrado com carteiraço exatamente por isso: médico da família. O Carlos olhou de relance para os porteiros, rapidamente, mas retomou o controle, mandou a família para as mesas, eta nego bão.

Voltou ao pódio. No microfone disse: o que foi, doutor? Não ouvi, muito barulho...

- Foi pica nenhuma, essa negada aí é racista! Não toca música de judeu.

Silêncio repentino no salão. A esposa do Carlos tossiu lá atrás, visivelmente contrariada.

- O senhor quer qual música, doutor, Hava Nagila para a celebração que hoje fazemos?

- Hava nada, isso é coisa de cigano, quero uma pura! Qualquer uma judia.

Carlos deu uma pensada... Voltou-se e andou até os músicos, cochichou e retornou.

- Vai sair, doutor, em sua homenagem, obrigado pela presença.

Desceu e foi para a mesa da família, no caminho nos sorriu.

Acabou de chegar na sua mesa e o conjunto entrou a milhão, o couro comendo:

"Judia de mim! Judia..."

Quando acabou, sem uma palavra a turma começou a tocar Desde el Alma, solo de cavaco com batidas secas lindas, e foi aumentando, todos os músicos e instrumentos se integrando. E Carlos dançou com Camila.

Que noite. Inesquecível.

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sábado, 3 de mayo de 2014

Maurício Chester de Aragão

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Conversando amigável e distraidamente com meu amigo Carlos Valle, na frente de uns vinhozinhos, discutimos futebol por um tempão, ele é gremista, eu colorado, enjoamos de falar mal dos nossos clubes, ele falando mal do dele e eu mal do meu, pois mesmo com amizade forte ninguém é louco de falar mal do time alheio, isso é prerrogativa de cada sofredor, individualmente, no máximo a gente se dá o direito de uma abaixadinha de cabeça, em ar de concordância, quando ele chama o seu time de podre e tu sabe que a podridão já secou, é muito pior, fora a gatunagem que ele atura, ahahah. Ele faz o mesmo. Fazer o quê? Somos amigos.

A seguir animados lembramos os papos do Nietzsche quando este andava bêbado e apaixonado, altas filosofias, e depois de sete garrafas já tínhamos falado até da calcinha da princesa Victoria da Suécia, ui, gostosa, 36 anos, ele insistia que ela usa azul e eu teimava com vermelha, ora azul para uma morenaça daquelas. Ele tornava a insistir: azul cai bem em morena; discordo, azul cai bem em alemoa, vermelho é lindo, sim, em corpo moreno, e fomos papeando numa boa, e de repente o assunto virou e chegamos numa encruzilhada, por causa de um bicho. Parece que a dúvida é antiga.

Saímos do bolicho Vinhos, Queijos & Etc. e fomos embora. Nunca vi chamar salame, massa, polenta e frango assado de & Etc, e tinha outras coisas também, mas cada louco com a sua mania, e nos custou trezentos paus a conta, para cada um, vinho carinho, um dia ainda capo aquele gringo, pensa que sou deputado? O Carlos prometeu pensar no assunto do bicho. Tiau, Carlito; tiau, Salito.

Em casa fiquei matutando, e me lembrei que tinha um garrafão de vinho que ganhei de presente do irmão de uma gringa de Nova Bassano. O irmãozinho, um metro e noventa e que dá dois de mim no tórax, e olha que sou forte, ele gente muito fina, foi muito gentil, mas nunca fui desarmado lá no mato onde moram, e a gringa, ai meu Deus, eu com um e oitenta e ela com um sessenta e nove, mas sai da frente, se a mãe nos visse apartava, diria: assim tu vai te matar guri. De fato, nunca vi cosa mais linda, rosada, carnuda, e loca, uuuui. Resolvi beber a gringa, digo, o vinho, na gringa Gema vou amanhã para fazermos uma gemada. Abri o garrafão, vinho jovem. E me pus a pensar no bicho. Encapinchei-me com o maldito bicho.

Alguém conhece o pai ou a mãe do "Chester", que é um bicho grande e molengão? Pelo nome, brasileiro não é. Tá, vá lá, temos muitos nomes estrangeiros, isso muda com o tempo, muitos anos atrás poderia ser um orgulhoso Albuquerque, esse já era, ou Aragão, e agora que estamos norte-americanos somos Deivid, não errei não, é assim mesmo. Bem, atualmente contamos com variações de muitos, por exemplo um em honra de um grande artista brasileiro que amava crianças e que foi sepultado em um caixão de ouro, como era mesmo? Rolo na busca da internet, mas... O quê? Não era brasileiro? Era o quê, pedóf... Tá, esqueçamos isto, não importa, são belos nomes, mas Chester não, deve ser sobrenome, quiçá Maurício Chester de Aragão, filho de pais ingleses com um pé na Espanha, que terminou seus estudos em Cambridge e veio explorar, ahn, trabalhar, no Brasil, muita bondade da parte dele. Mas não, são muitos, haja Maurícios. Ou não. O que tem de Mauricinhos... vou ver.

E tem um pequeno detalhe: Carlos e eu só vimos os bichos mortos. Brrr, ai meu deus, isto está virando filme de terror.

Alguém já viu um Chester vivo? Isto é muito importante, pois a nega Cristina, velha amiga, quando desci comprar cigarros, cabeça presa no bicho, e nos encontramos na saída da Mercearia, trocando papos e tal, me disse para evitar o bicho, é zumbi. Tá louca, Cris? Tou louca não, Sala, tudo zumbi, não teime, vai por mim e toma café com jasmim. Ahahah, aprendeu comigo essa do café com jasmim. Despedi-me da Cristina como sempre faço: Tu tá linda com esse bombrilzão preto na cabeça, nega! Ela lá de longe responde: Ahahah, vai-te deitar, cachorrão, tu quer ver é o bom-bril preto de baixo, não vai levar! Nega Cristina é a pessoa mais querida aqui de cima, cuida e olha por todo mundo, é mais braba que um diabo se alguém machucar um bicho. Ela gosta desta brincadeira, a gente faz para provocar os politicamente corretos. Mas... zumbi? Brrr.

Teimo não, a Cristina é mulher curtida, bate uns tambores e sabe tudo, ela, o Juraci e toda a moçada. Sei lá, batuqueira também pode se enganar.

Em casa, com um quarto de garrafão batido, fiquei pensando no que disse a Cris e a mente evoluiu: alguém já viu um Chester pintinho, ou pintinha, correndo alegre no pátio do galinheiro, digo, chesteiro, piu, piu, piu, vou brincar, iuú, piu, piu, piu, como sou feliiz... Alguém viu? Alguém já viu um ovo? Alguém presenciou o nascimento (créc no ovo) dessa avis rara, com médico e tapa na bundinha? Jamé, never, nunquinhas, que eu saiba. Tomei mais um quarto do garrafão, faço o quê agora?

Pá! Consultei o relógio, meia-noite em Porto Alegre, então onze da noite em Quebec, e telefonei para a minha filha canadense. Atendeu feliz, oi, paizinho, tava com saudades, desde 2004 tu não me liga. Respondi que andava ocupado, tudo bem e tal, e fui direto ao assunto, explicando a situação do Maurício Chester de Aragão.  

- Pai: não existe Maurício Chester de Aragão, que conversa de bêbado é essa, tu não cria juízo, já era. Olha pra ti, um cara novo, ainda namora a japonesa? 

- Esquece isso, pequena, fala do bicho.

- Okei. Te digo assim de cabeça. Pra mim Chester não se trata de uma espécie diferente, e sim do modo como o tadinho do frango é criado, numa desgraça do capeta, como tu diz, extremamente confinado, praticamente imobilizado, isto depois de selecionado, escolhem os maiores, a reprodução..., melhor tu não saber, e trabalham nele de modo a ter um peito cada vez maior, e maior, e maior, não sei como fazem, chest em inglês é peito, pai. Triste criação, são uns zumbis, como a maioria dos animais que tu come! Se quer saber mais fale com os caras que produzem, mas não te recomendo, periga tu ficar brabo.

Obrigado, fia. Como vai indo, Ná, ainda leciona? Sim, pai. Claro que leciono, como iria viver aqui?


A vaca da senhora tua mãe continua casada com aquele molengão puto? Sim, paizinho amado. Tu tá com saudades de mim? Tu sabe que tou, pai. Tá bom, vou em junho, mas mande a vaca e o veado sumirem do mapa se não quiserem falecer, ela responde que o Maurício vai sumir, sim, e que ela vai me esperar no aeroporto em junho, beijinhos e tiau.

Então é isso... nessas alturas precisei de dois copos de vinho de gute-gute, pois meu peito parecia que ia explodir, estava crescendo, fiquei imaginando o bicho ali, inerme, inchando, sentia dores de injeção, na asa não, dói!

Dê-lhe drogas na comida dos pobres bichos, pensei. E injeção! Não, injeção sairia caro, é na bóia mesmo. Salvo se o bicho estiver morto, aí só com injeção. Não é possível! A Cris matou: Maurício da Zumbilândia.

A Nadege poderia ter explicado melhor, mas agora recordo que meu amorzinho é vegetariana, pobre da guria, onde fui me meter. 

Bebi mais um quarto do garrafão. Às duas da matina telefonei para a casa da Cris e contei que o bicho se chamava mesmo Maurício Chester de Aragão, mas que era zumbi! Ela respondeu eu não te disse, guri.

Precisava de mais uma opinião. Pá, olhei para o relógio, aqui quatro da manhã, em Estocolmo nove, a princesa já acordou. Telefonei para a Suécia, levei meia-hora tentando me desvencilhar daqueles papos guturais, os nórdicos não falam português, eta país bem miserável, atrasado. Chamaram a embaixada brasileira a intervir, nesta os caras queriam que me identificasse, identidade, cpf, número do passaporte, respondi passaporte nada, otários, estou ligando do Brasil, mas me identifiquei, repassaram para o setor de espionagem da embaixada, imaginei como deve ser a espionagem brasileira e tive um ataque de riso, mas me coloquei em alerta quando disseram que iriam mandar a Polícia Federal me investigar. Babacas ao cubo.

No fim acabei não conseguindo falar com a princesa Victoria, azar o dela, mas deixei recado, todo galante, que por favor mandasse me dizer se o bicho que vestia entre suas lindas pernas, na hora me confundi, esqueci o Maurício Chester de Aragão e pedi que ela me confirmasse se a sua calcinha é vermelha!

Quem souber direitinho, aqui ou nos Esteites, ou na China, ou na Tonga, ou na Monsanto, por favor: mande mensagem para o correio eletrônico abaixo.

salamalaquis762360254230@gmail.com

Agora me deu um frio. Lembrei da conta telefônica. Vou dizer que eles se enganaram, que é o que sempre fazem, sempre a seu favor.

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viernes, 2 de mayo de 2014

Dedo na ferida (sem filosofia, no duro)

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Hoje li umas cem exaltações ao Airton Senna. Nada tenho contra o falecido. Sempre ouvi muita coisa sobre o que representou, e algo me diz que ele sabia, era inteligente e não boboca como os imbecis roteiristas da Globo, nem todos. Eu (o Eu já me parece soberba, mas no meu caso não: o eu é como homem do povo, com consciência de que não sou melhor que ninguém, nem pior), não gosto dessa gente.

Para mim nada representou o gritedo de empurrar goela abaixo, vindo de quem nos rouba, não me comoveu, isto que sou um chorão inveterado, e novamente insisto nada ter contra o cidadão Aírton, o artista do volante de máquinas trilegais morto, como a nenhum famoso de berço bom, tudo na mão. São instrumentos, não são eles que nos roubam. Para cada milhão dado ao gladiador, as aves de mau agouro, de rapina, as ervas daninhas, levam milhares de milhões.

Com o corredor Aírton cheguei a ter grande simpatia, que mantenho, embora ele tenha virado pó por estas e outras da vida: não era dos caras que amam espelho, era sério, um ricaço consciente, neste aspecto avis rara. A grandeza que tinha não residia no fato de ser um hábil motorista rico. Creio que o povo viu isso. Então, se fosse boxeador, ou lateral-direito, teria mostrado a cara, e a alma, igual.

Minha mana me telefonou de Bolonha, na Itália, terra do seu marido, quando ele morreu naquele acidente. Era começo de maio, mas estava um solão em Porto Alegre. Saí do quarto meio tonto, o telefone na sala não parava de gritar. Dez da manhã, meio-dia ou duas da tarde, não sei, atendi e ela dizia morreu, morreu, morreu, e eu de pronto despertei: quem, quem? Assustado, tinha sonhado no dia anterior um sonho ruim com meu primo do Mato Grosso, avis rara, este eu sabia de certeza que era. Agora, logo vai passar no Brasil, agora, estou vendo na tevê italiana, pelo choque morreu, foi muito forte, o socorro está indo atender, mas morreu, morreu, morreu, o Senna, Antônio!

Acalme-se, minha irmã, agora!, e caiu a ligação.

Depois a entendi, deve ser muito ruim a gente em terra estranha ver um conterrâneo morrer sem que a gente possa ajudar. Aqui pode, somos assim, eu no lugar dela também ficaria arrasado.

Fiquei arrasado aqui, pela sua voz e pela morte, qualquer morte me deixa abalado, meu Deus, só vou a cemitério na obrigação, é preciso. Botei um bolero, pedi para as mulheres levantarem, vamos brindar a um ídolo do povo, amadas. Logo elas ligaram a tevê e disseram que não era certa a morte. Mas a mana viu, sabia.

Eu botei outro bolero e disse para as visitas: vou comprar carne para o churrasco. Como estava nu, quase que saio assim, vesti um calção, pequei a carteira e saí sem camisa e de pés descalços para o açougue ao lado, ali na Rua Formosa, elas ficaram lá ansiosas. Saí do apartamento ouvindo as vozes desagradáveis da tevê misturadas com as lindas vozes do grupo musical cantando Reloj, no marques las horas..., do bolero. E o início de choro reprimido das moças. Ao ouvir os chorinhos senti vontade de ser surdo.


Açougue e mercearia. Foi no dia em que procuravam o acertador no jogo do bicho de uma semana atrás, era eu que estava viajando, no número 731. Fiquei feliz. Dez mil, recebi um saco de notas pequenas e muitos cheques de terceiros de um banco de traficantes lá na esquina dos donos de tudo, perto da Paineira. Eu odiava os bancos, e naquela vez tirei o chapéu, os revoltados se organizavam, têm até banco. Não gostei depois, pois ficam iguais aos que combatiam: se transformam em criminosos, como o meu PT acabou fazendo depois, mas isto já é misturar tempos e histórias. É outra história.

Na volta enrusti a grana e depois, enquanto espetava as carnes no pátio, pedi que elas se vestissem e fizessem salada com as batatas que trouxe, ovos tem na geladeira. Trouxe champanhe também. De cervejas a geladeira estava cheia. Embaixo da pia havia 30 garrafas de vinhos, de sede ou fome hoje aqui ninguém morre.


Todas jururu, aí tive que dizer algo, aquela tristeza iria me sufocar, e disse: ouçam, gurias, ele morreu porque queria morrer, enojado de tudo. Poderia ter ido para o seu castelo, com servos, mulheres, mas preferiu se expor, era inteligente demais, queria morrer por ter visto o falso mundo em que vivemos. Diferentemente de outros, que não suportam ficar longe de aplausos de gentes sem tino nem desatino. E acabou ali a conversa.

Então lamento, mas discordo do que se diz. Caba da Peste outro dia lembrou um antigo dito: "Infeliz o país que precisa de heróis", algo assim. Pois é.

Desde que cresci, tinha uns 15 anos, detesto heróis. Pura falsidade. Brigam, roubam, brocham. Ou broxam, os dicionaristas ainda estão pensando. Por mim que briguem ou broxem, o roubo é que me incomoda.

Foi quando vi, aos 15, que depende do berço, pois tive amigos gênios que morreram à míngua pelo berço, ou melhor, pela sua falta. Ora, herói, dirigindo auto, preparado para isso, recebendo vultosos honorários em certo paisínho da Europa para evitar impostos no Brasil, país de alta carga tributária em tese dirigida a melhorar a vida do povo? Autos que os gênios da periferia só podem ver pela Globo, na voz do fazendeiro "Ui, vai Robinho..., vai que é tua Taffarel", aquele merda. Para dirigir um auto, só roubando um fuca, na calada ou na mão grande.

Neste país, até Ronaldão é ídolo. Por jogar futebol é autorizado a dizer besteiras depois que parou. Grande jogador de bola, está feliz? Cala a boca, então, seu lixinho analfabeto, vai pra casa gozar a fortuna. Mas não, os bandidos os buscam e eles vão, rindo, achando que são importantes. Para um povinho cego, são. Mas, cá entre nós, eu morreria de vergonha. São tão desgraçados que não se apercebem da própria pequenez. Sou o cara... E por vaidade, e dinheiro, este nunca é demais, brilham os seus olhinhos de ratos, voltam a foder o povinho inculto. Convertem-se até em legisladores.

Foda-se Aírton Senna. Não a pessoa, acho que era um ótimo cara, mas o que fazem da sua memória... 


Preferiria que o lembrassem como a um irmão, como um maragatinho, que acendessem velas, no silêncio dos sentimentos, sem foguetes de mentira.

Tem até Fundação, onde os ricaços descontam em dobro as esmolas que "dão", do imposto de renda, do nosso.

Fodam-se.

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martes, 29 de abril de 2014

Espantado com o Facebook

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Caros amigos do facebook, eu já nasci bêbado, e hoje me superei, que fogo. De tanto que bebi apunhalei meu coração. Por alguns instantes se instalou uma chama ruim, muito ruim. Com grande esforço a espantei, mas morto fiquei, mas aí já estava pensando naquela ingrata, o que faz a bebida.

Na joça do feicebuc até que foi bom, só falta o Markês Putemberg me ensinar a gozar. Foi bom mesmo.

Hoje que já é ontem foi uma bela segunda-feira. Entrei pouco aqui neste porra de feicebuc, mas quando entrei vi pouca apelação em política. Pulei as poucas, já falei, política, religião e futebol - temas distantes mas que se aproximam porque neles colocamos o coração e não a razão - não se discute com agressões, a seguir nesse passo da política daqui a pouco estaremos insultando as religiões uns dos outros.

Estava bom, gentes falando de filhos, de queridos animais de estimação, de poesia, até um conto li, de um camarada do outro lado do mundo. Um loco postou foto de artistas fêmeas, nuas, ui, fotos artísticas, claro, mas sinto tesão seja artista ou não, para além da admiração estética, que vem primeiro. Bem, acho que em primeiro, a depender do meu estado.

E li reclamos, verdadeiros libelos, emocionantes, sobre a situação do povo, dos bandidos vestidos de policiais, das mortes, gente do povo ganhando pouco a serviço dos animais que não economizam água em suas piscinas e jardins, vi pessoas de amor berrando, uivando, por Justiça. Ora, Justiça. Cresci mais um pouco, mesmo revendo coisas que já sabia. Uivei daqui, de ódio impotente contra os mesmos que mandam no mundo. A avenida Paulista estremeceu, os banqueiros correram? Nada, riram de mim, na melhor das hipóteses. Urrei para que irmãos e irmãs humanistas soubessem que não estão sozinhos, e que ando pensando. Deixa estar.

O que faltou lá em cima no primeiro parágrafo, onde se falou de política e religião? O futebol, falemos dele, na boa: lá no gramado não tem choro, se agredir é expulso. Antes a gente batia no adversário enquanto a bola estivesse longe, o juiz não via, e bandeirinha olha o mesmo que o juiz, de outro ângulo. Eu era zagueiro de time amador, e com os "malvados" das cidades vizinhas eu me virava, não era nada fácil, uns grandalhões, alemão de 25 ou 30 anos e eu com 15 ou 16. 

Com a bola longe eu dava tostão por trás no avante deles, naquele músculo fatal, com toda a força, toma, filho da puta! Só viam quando o cara estava caído e eu de mãos para o alto, ele está se fazendo, seu juiz, eu não fui! Depois os demais atacantes pensavam duas vezes quando era eu que estava grudado neles, disparavam, iam buscar bola no meio do campo, eu sabia que tentariam vir, deixa estar. Foram eles que começaram.

De perto eu pulava junto para cabecear, tinha um impulso razoável, para não dizer bom, modéstia à parte, mas antes agarrava os ovos do cara (o velho técnico argentino, o seu Paê, que me ensinou, em particular para não pensarem mal dele, mas insistiu que era para usar só em último caso), esmagando, ele ficava plantado e eu subia com força, aí voava mais alto para cabecear a bola, sem largar os ovos do boca ruim, certa vez me dei ao luxo de matar no peito a bola, e dar um balãozinho no cara enquanto ele caía com as mãos entre as pernas, não tinha juiz que visse, isso para me vingar porque ele tinha dito que comeu minhas irmãs, e na hora de fechar o tempo havia quem apartasse, daqui a pouco já passou, esquecemos, apito final e trocamos camisa e um abraço. Os caras dos ovos me recusaram o abraço, mas soube que nunca mais falaram da largura do sexo da mãe de ninguém, larga e aguada com aquele ríspido tom de voz.

Agora nem isso se pode fazer, tem que tolerar o cara passar o jogo inteiro comendo a mãe e as irmãs da gente, pois tem tevê que flagra tudo, não dá pra dar nem um cotovelaçozinho na boca.

Futebol nos separa por noventa minutos, saí ferido, um dia mão, outro um pé fraturado, dente quebrado, lábios sangrando. Cura. Agora, isso de política nos separa para sempre, e todo mundo vê, não apenas o juiz. Vêem as nossas raivas, que não são por noventa minutos, a torcida e o mundo vêem a nossa cegueira para as razões do outro, nosso concidadão, cegueira vindo de más escolhas quando se trata de tolerância, quando não da nossa criação da qual não conseguimos ainda nos libertar.

Então paremos de chorar, choro transmutado em agressão, vamos no voto, em silêncio. Se eu fosse reclamar mataria o Lula, que eu pari. Se ao menos ele fechasse aquela matraca, aquela obsessão em dizer besteira, não deve ter lido nem a fábula do menino e do lobo. Talvez vote nele ainda, é problema meu. Aguentando a pegada nos ovos, se o outro levou vantagem de alguma forma. Teremos outros circos, outros jogos.

A intolerância com o outro. Nós sabemos tudo. Lemos Nietszche, Bakunin, Hitler e mais uma porrada de caras. Somos iluminados. Uns com foice e martelo, outros com a suástica, nego tem que morrer. E todos os bens nascidos, vai ver se o pai ou avô ou bisavô... desprezamos pobres, só atrapalham. Claro, nem todos, entre meus amigos do feicebuc nenhum. Bem, sei lá, não interessa tanto agora.

Na política não temos inimigos, nem por falsos e fugazes noventa minutos para desopilar: temos nós contra nós mesmos, mágoa duradoura. Levados por alguns "políticos" que aprenderam a falar em público, a gente é tímido como todo homem que não nasceu em berço de ouro, oh santo talento, mas que não passam de uns vermes, que dizem besteira enquanto ficam ricos. 

Mas nem todos. 

Pensemos em selecioná-los melhor. Os melhores, por honestos, mentes abertas, sem preconceitos, de nós. Aquele é bom, desde menino, me representa. No distrital. E cuidemos do que ele faz, de como muda, ou não, o seu patrimônio terreno. E os que tivemos escola, se humanistas, ajudemos o povo a escolher, falando de bem dos homens e mulheres que achamos que merecem, exaltando as suas qualidades, Jamais falando dos defeitos dos que detestamos. Se são defeituosos, cairão sozinhos. Isto se defeituosos demais, pois defeitos todos temos, atire a primeira pedra. 

Esqueçamos, não existem. Inimigos criamos, ou os merdas que querem dominar inventam inimigos para a gente, qualquer camisa que se vista. Pensemos no valor de quem admiramos, informemo-nos, nasceu onde, berço como o de Jesus, faz-me rir, ou ao menos o que fez da vida, como vive. Melhor o voto misto, mas o distrital é necessário, a gente que mora na aldeia conhece os bugres.

Eu estou aqui, o amigo está lá em Palmeira, outro amigo em Cuiabá, outro em São Paulo, outro em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Londrina (terra do André Ladro, onde a juventude ama mesmo é lotar o McGraxas, como nos outros citados), e mais, todos. Somos bons, pensamos, mas ninguém vota na gente. Por quê? Porque não nos candidatamos, porque somos otários, porque aturamos canalhas, porque de nojo deixamos o espaço livre para eles?

Por covardes. Criei-me vendo isto.

Claro, covardes por bobos e tímidos, conosco eles não se metem, não são loucos, morrem, mas tomam tudo da gente depois que a massa ignara, e a temos em imensa maioria, os elegerem. Pensam que Demóstenes ou André foi um? E quem os elegeu, senão os eternos ladrões, famiglias de ladrões que andam com pose de honesto, e a imprensa ladra e a massa ignara levada? Fui eu, foi tu? Claro que não, foram eles, mas sempre dependentes da massa ignara. Esta, a massa, que aplaudia Médici como aplaudiu o Lula. Essa ralé desgraçada que anula teu voto, um bicho desses anula. Essa até o Caronte, o porteiro do inferno leva no lero. Pois é, é a esses que devemos dar escola, porque são nossos iguais, mas sem acesso ao conhecimento.

Nenhum de nós conseguirá arrumar o mundo, nem com duzentos mil "seguidores" sérios no feicebuc ou sei lá, milhões, tem gente que gosta de ser escravo. Isso é coisa para artistinhas da globo, por trás alguns por dinheiro, e não posso jurar que tenha alguém sério lá, artistas e seguidores.

E aqui não se prega moral, porque seria pregar moral nu ou de cueca, pois além de incorrigível mulherengo fui covarde a vida toda: deveria ter sido pastor (pelo amor de deus, nada a a ver com esses pastores que andam aí, comerciantes que Jesus, pra falar da Católica, encheu de porrada) ter pego em armas e tê-los atirado, a esse monte de lixo que governa o sistema capitalista e socialista, gente que se sente feliz por ser chefe, ah, eu sou o cara. 

Coitados. Coitados todos nós. Uma pena, no fundo por dinheiro, mais no fundo pela comida, prazeres, normal. Mais no fundo pelo abuso de predadores sinistros. A comida dá para todos, seus burros.

Ou deveria vestir andrajos e sair por aí falando coisas incompreensíveis para a maioria.

Dia bom. Peguei do meu mano Ivoran Piazzetta aquela do "Você está bêbado?", minúscula em desenho e palavras, mas sensacional. E outras, pobre da sogra também. O feicebuc é um grande canal de comunicação entre amigos, distantes que estamos não importa a razão, muitas vezes pela distância mesmo.

Tomara tenhamos muitos dias assim.
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sábado, 26 de abril de 2014

Contralouco foi à luta. Vou nessa!

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Dei uma saidinha para levar um lero com uns malandros que fazem ponto num boteco em frente à Praça Garibaldi. Os caras já haviam incendiado a Cidade Baixa, com um caminhão de costelas e linguiças assando em três tonéis cortados dispostos no meio da rua. Fecharam a rua por conta própria, a calçada é muito estreita para tantas mesas. Lá dentro uma balbúrdia em torno de duas mesas de sinuca, matadinha a dez pilas.

Bruno Contralouco era o artista da festa, todo mundo o abraçava, davam tapinhas nas costas, pensei que estava de aniversário, ele me viu e disparou em minha direção: “Sala do céu, não te conto a maior!”. Pedimos uns merengues e sentamos num banco da Praça, onde me contou a história. Tinha que ser no particular, o assunto era sigiloso, ninguém sabia. Não posso deixar de dividi-la com os amigos. Passo a palavra ao nosso herói:

“Meu camarada, pode anotar meu nomezinho aí, para saber em quem votar quando no fim do ano elegerem o ‘Rei do Peso 2014’ lá no teu blog, ganhei por antecipação. Ando numa dureza dos infernos, morto e a corvada em roda, devo uma vela para cada santo, tu sabe, quando o cara anda azarado se cair de costas quebra o pau, e ao meio-dia resolvi tentar tirar o talo, fui fazer uma fezinha naquela lotérica do Centro Comercial da João Pessoa: lá mesmo preenchi um cartãozinho de 7,50, sete números, na Quina, outro de 2,00 na Mega, seis números, e um de 8,00 na tal de Timemania, com o Inter de time do coração, total de 17,50, eu tinha vintão no bolso. E foi nessa Timemania que me fodi do primeiro ao quinto.

Como eu estava vestido todo finório, roupa nova, mais tarde pretendia passar no apê de uma tianga que conheci ontem, a moça da lotérica não estranhou e passou a porra do volante na máquina. Meu irmão: preenchi números a mais do que deveria, e devo ter-me atrapalhado com essa frescura de surpresinha e teimosinha. A droga do cartão gerou uma tripa, total 4.000,00. Quatro mil contos! Meu Deus do céu! Bati boca com o dono da espelunca mas não teve jeito, acabei deixando os documas e os cartões impressos da jogatina em garantia e fui à luta. Deixei tudo, o dono não aceitou só a identidade, ficou carteira de motorista e o caralho, até o cartão de dependente da Dilma no plano de saúde, outra Dilma, claro, no da minha o serviço não cobre o Sírio Libanês que todos aqueles patifes usam com o nosso.

Puta que pariu, e agora? Bom, tu sabe que a gente não é filho de pai bobo, e eu nessas alturas tava morto de raiva da Caixa Federal, cabide de emprego dos mesmos do Sírio Libanês, daí que me lembrei de um Caixa Eletrônico não muito longe, lá na (...), que é uma rua de pouco movimento. Levei uma hora para conseguir um capuz, um martelo pneumático, um maçarico e os outros instrumentos, tu sabe. O Janjão Formiga e o Cara de Cadela foram juntos para me cobrir as costas, o Cara deu uns tiros nuns troços de uns postes e deixou o Menino Deus sem luz. O Janjão jogou uns tijolos nas vidraças de duas agências bancárias lá na avenida, para distrair os ratos. Do guarda cuidei eu, mandei ele escolher ficar de mal comigo ou com a Caixa, adivinhe a sua escolha, só pediu que o amarrasse para enganar o chefe depois. Peguei o seu endereço e prometi que um pombo, daqui uma semana ou dois meses, ou meio ano, deixaria dois mil na sua caixa de correspondência. Sabendo que eu sei onde mora vai cuidar com o que vai dizer à justa. Menti, o pombo largou lá enquanto ele recém chamava a polícia. Sala, olha pra mim! Branco e um metro e noventa. Pois ele vai dizer à ratolândia que o assaltante era um negão violento, baixinho, coisa de um metro e sessenta.

Estou morto de vergonha, há dez anos não cometia um pequeno delito. Pequeninho, né, perto do que os políticos fazem em Brasília e em todo lugar é nada. Tomei trinta mil deles. Dei cinco para cada um dos companheiros, voltei lá na lotérica e paguei o homem, ora, sou um cara honesto, o sujeito é um trabalhador, não merece ficar no preju. Os documas eu recuperaria na hora que quisesse, nem precisaria de arma, bastaria dar uns cascudos no cara, mas não seria correto. Na volta passei na Mercearia Zaffurtari e comprei trinta - para homenagear os trinta deles - quilos de carne, uns sacos de carvão e estamos aí, bebida também por minha conta.

E olha só esta tripa (puxou de dentro do paletó) de Timemania, tem quase dois metros. Hoje eu pego eles, tá acumulada em quatro milhas. Há malas que vêm pelo trem! Hei de espantar o azar!”.

Como ele sabia que ando do mesmo jeito me emprestou três mil, eu insistindo que não precisava mas não adiantou, enfiou no meu bolso à força. E deu-me uma belíssima idéia, eu cercado de ladrões e falsos amigos, agora aprendi: também fiz uma fezinha.

Mordi a língua: andava falando dos filhos da puta que muito ajudei e que agora me dão as costas. Existe amigo, sim.
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miércoles, 23 de abril de 2014

Natividad, 30

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Hoje Natividad está de aniversário. Como o melhor que poderia lhe dar, o meu pobre coração, já lhe dei há muito tempo, então ofereço uma música. 

A cantante é Susana Natividad Rinaldi (Buenos Aires, 25/dez/1935).

O clássico, que tem o título original de "Que nadie sepa mi sufrir", música de Angel Cabral e letra de Enrique Dizeo, é de 1936.

Feliz cumpleaños, Natividad Ferreira Fagundes!


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domingo, 20 de abril de 2014

El Babour

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Por falar em marroquina, lá no Marrocos, como em todo lugar, também temos boa música. Aqui a famosa composição de Armand Amar e seu parceiro Khaled.

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viernes, 18 de abril de 2014

Estou chegando, muçulmana, com outras lágrimas

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Como todos os amigos sabem, quando fugi de Palmeira dos Ervais, fugi virgem. Isso mesmo, virgilino da silva, sexo só em sonhos. Claro, não vale besteiras de crianças, nem atividades solitárias, como os padres diziam, eles que eram campeões em, deixa pra lá. 

Também não vale aquela vez com a dama que encarou doze de nós, meninos de quatorze, cada um entregando seus trocados, pois no sorteio fui o último da fila e não suportei o cheiro, nem suportaria se fosse o primeiro, a boca de cigarros e aquele riso nojento, gozei na mão dela, a um toque, tal o nervosismo.

Quis dizer virgem de amor. Transar com amor, ela me ama, eu a amo, ai, guria, me beija..., deixa..., assim, tira, vem... ah, felicidade. E isso que fugi com vinte anos de idade, um velho pouco esperto. De curioso ia na zona olhar, até cantar cantei no cabaré, com Evódio na gaita, mas, namoro de ir aos finalmentes, jamais. Por bobo, preferia assistir de longe a comédia, ainda não sei se por insegurança ou porque as putas eram de fato assustadoras, pela vulgaridade, as pobres. Era a vulgaridade, pois chegava em casa e me masturbava pensando nelas, mas sem pegar.

Amei duas professoras. Uma alemã e outra árabe, em momentos diferentes da vida. Soube recentemente que a árabe está bem viva. A alemoa morreu com 430 Kg e deixou 19 filhos, todos ciumentos que votam no DEM. Ufa, Deus existe, ela gostava de mim, mas pegou um alemaozão porque eu era criança.

Só por saber que a arábica senhora está viva, e gentil, amorosa, feliz lá com seus céus, eu daqui dos meus infernos achei um samba que fala da professorinha. Ela era uma menina, ensinava línguas, poucos anos mais que eu, quatro, cinco se muito. Não lembro da língua dela, mas espanhol não era. E bailava escrevendo no quadro negro, era negro ainda, linda, uma escultura dançando o giz, meu deus, que corpo. Pelo seu nome francês, seria marroquina? Ou argelina? Vá saber, nunca falei com ela pessoalmente, mesmo tendo sido minha professora ela nunca me olhou no rosto, pensava nos velhos, ai que ciúme.

Vai para ela. "Que saudade da professorinha, que me ensinou o beabá...". Vai não, é muito velha. E não me ensinou nada. 


Vai nada, uma otária. Outra música vai para a Sahlah, que já mora comigo. Da Palestina, árabe de verdade.

Agora poderá ensinar, uma muçulmana de parar o trânsito, poderá me ensinar o que andei perdendo pelo caminho.

A ela dou o melhor do meu coração: um bolero. Se ela em sonhos pensar em abraços de amor, eu..., eu...



jueves, 17 de abril de 2014

Fábula para Gardel

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Horacio Ferrer (poema) e Astor Piazzolla (música). 



Ayer me preguntaste, hijito mío,
por primera vez,
quién es
ese Gardel, ese fantasma
tan arisco,
empecinado
con seguir guardado
en la cueva con asma
de su disco
polvoriento.

Lo que yo sé,
te lo cuento:
algunas veces,
cuando te has dormido,
las noches en que hay pena
llena,
se aparece
ese escondido
duendo, medio juglar
y medio loco,
para matear
con tu padre y conversar
un poco.

Ah, si lo pudieras
ver
con su sencilla elegancia fantasmera,
a saber:
en una chalina ligera
de plumas de torcaza sola
sus hombres arrebuja.
El traje es de
cuerdas de guitarras españolas
que
alguna bruja
ñata
y hippie le ha tejido.

La corbata
es de claveles
encendidos,
para abrigar los
cascabeles
de su voz.
Y dos
zapatos, muy de peregrino,
que no son zapatos, sino
que son caminos.

¿Qué en dónde nació?
Hijo mío, ¡qué se yo!
De acuerdo a lo que el mismo me ha contado,
parece que nació trepado
a una veleta
niña
que apuntaba al Sur;
y que un poeta
y un gallito de riña
y un augur
le enseñaron a vivir
y a sonreír.

Será por eso
que salió un poco travieso
¿viste?
como vos
y, como yo,
un cachito triste.

Su sonrisa,
hijo, es una
pícara y honda y rara
raya de tiza
iluminada con luz de la otra cara
de la luna.

Y canta, canta,
canta con su voz de siete gritos,
pero canta, siempre, con ese humilde modo
de quien tiene, por sabio, en la garganta,
dos ojitos
que han visto, ya, del hombre, todo, todo.

Su canto, te diría
que parece
un claro
aljibe
en donde crecen
los tangos pibes
que no se cantaron,
todavía;
y, también, aquellos tangos que ya fueron,
esos que escriben,
en el paragolpes de su camión,
los camioneros
del Cerro y de Constitución.

Después,
el alba ya,
a las cinco en punto,
se me va. Se va.

Y, tal vez,
en su forma melancólica de irse,
se adivina, un cacho,
que ese duende,
tan muchacho,
entiende
mucho de un asunto
muy sumamente serio, que es morirse.

Ayer me preguntaste, hijito mio,
por primera vez,
quién es
ese Carlitos, ese fantasma
tan arisco,
empecinado
con seguir guardado
en la cueva con asma
de su disco.

Y entonces te conté
cuanto sabía-

Mas hoy, mirándote,
pensándote,
besándote,
sé un poco más.
Y es que el hijo
del hijo
de tu hijo, un día,
un día de Junio soleado,
frío y seco
que vendrá,
lo mismo que vos
preguntará
por él.

Y una caliente
zafra de ecos,
ecos de la voz de nuestra gente,
ecos de tu voz
chiquito, y de la mía,
inexorablemente,
contestará:
Gardel, Gardel, Gardel.

miércoles, 16 de abril de 2014

Procurando Amelita

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Durante meses guardei dinheiro para fugir com a Maria Amelia. Ela tinha doze anos a mais do que eu, soube depois, e era cantante de valsas e tangos na década de 30, ainda sem a carreira definida. Eu não sabia dos doze a mais, e pouco me importaria se fossem vinte.

Quando cheguei aos dez mil dólares, na névoa que turvava a minha mente, viajei em meio a relâmpagos, pensei em noite de tempestade. Devo ter adormecido, pois subitamente me vi parado na esquina da Av. Corrientes com San Martin. Liguei de un teléfono público na altura do número 600 da Corrientes, quando a noite se fechava sobre a cidade, já não havia tempestade, apenas chuva fina em baixa temperatura. Para o juncal 12-24. Sabia que ela morava no 348. Foi educada ao atender, reconheci a sua doce voz com o coração aos saltos.

Eu estava saindo do ano de 1934, com os mesmos 19 anos que então possuía. Falei num espanhol misturado com português, procurando manter a serenidade: boa noite, aqui é o teu amor, Amelita. Riu, imaginando trote de algum amigo, a minha voz lhe soou familiar. Aí contei-lhe algumas passagens da nossa vida, com calma para não assustá-la: do desmaio no quarto azul, nuestro cuartito azul, e ela emudeceu do outro lado da linha. Depois de longos segundos, falou num fio de voz: repita o que disse, por favor.  

O quarto azul, ontem, quando pensaram que eu morri, não pode ser outra vida, te acuerda? Sei que algo estranho aconteceu, também não entendo, mas sou eu. Lembra dos espelhos com molduras negras? Do gato de porcelana? Dos chás dançantes aos domingos, de quando fui alvejado pelas costas na Calle Florida? Ela gritou e ouvi o ruído de vidro se quebrando no chão.

Voltou com voz trêmula, diga mais, diga mais, moço... Contei-lhe tudo, que ainda a amava, que não era brincadeira, falei da nossa intimidade, das lágrimas de impotência diante do cruel destino. Após um breve silêncio começou um choro de desespero, agitada, atropelando a voz ao dizer que eu havia descrito um sonho que a assalta desde menina, sonho que terminava com a sua própria morte pouco tempo depois, com os pulsos cortados.

Falou desta vida... Agora já é cantante famosa, faz muitos shows pelo mundo, é casada com um bom homem e possui muitos filhos. Quis me ver esta noite, implorou para nos vermos. Menti que estava no Brasil, pois não pretendia estragar a sua vida novamente. Ouvi uma batida de porta e vozes na residência, pessoas que chegavam alegres. Buenas noches, meu amor, adiós, eu disse. Não vá, não vá, ela gritou caindo novamente em prantos. 

Saí da cabine e fui andando sem rumo, entrei num bar  e me senti um estranho diante das pessoas, tudo tão mudado. Um homem recitou um poema para mim desconhecido, muito triste, como se fora uma evocação de outros tempos, os meus tempos, meu Deus: como se Gardel e meus tempos tivessem morrido, que terminava assim:

Y una caliente
zafra de ecos,
ecos de la voz de nuestra gente,
ecos de tu voz
chiquito, y de la mía,
inexorablemente,
contestará:
Gardel, Gardel, Gardel.

Embebedei-me, para tentar acalmar o tremor que me sacudia a alma, após saber por um periódico do bar que estávamos em 1983. Então me concentrei, sem me mexer ouvi a todos no bar, seus amores, seus gritos, suas reclamações. Gardel morrera em 1935, um ano depois que partimos, eu com 19, ela com 31.

Nunca a esqueci. Jamais a esquecerei. Tornei a andar pela Corrientes e senti que me tornava fumaça enquanto avançava em direção à Florida. 

Espero voltar a Buenos Aires qualquer dia destes, mas não em 1983. Antes, em 1971.
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