sábado, 28 de junio de 2014

Churrasco de ouro

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Hoje cedo eu estava em frente à banca 38 do Mercado Público de Porto Alegre, namorando os vinhos e uísques expostos, quando levei um tapinha nas costas e ouvi vozes me festejando.

Eles, os boêmios Wilson Schu e Gustavo Moscão, abraços e tal. No rodízio de assadores, são os encarregados do churrasco no botequim, previsto para sair depois do jogo do Brasil e antes do jogo do Uruguay, no meio da rua. Lá é assim, se chover a turma improvisa cobertura para os barris de latão cortados que lhes servem de churrasqueira. Vieram comprar a carne. 

Contaram-me que antes passaram na Mercearia Zaffurtari, lá na Cidade Baixa, mas o gringo está impossível, ninguém mais agüenta os seus preços. 

- Sala, o sujeito quer R$ 24,90 o quilo de ripa da chuleta, disse Gustavo.

- A picanha é cinqüenta contos!, esbravejou Schu.

Enquanto conversávamos comprei meus vinhozinhos, em seguida acompanhei-os até as bancas de carnes. Na que paramos deu para ver, bem em nossa frente, que a ripa está a R$ 11,90 o quilo.

- Viu? Como vamos comprar dez quilos de ripa, fora outras coisas, só aí a economia será de... deixa ver, hummm, dá treze, vezes dez: 130 paus, falou o Mosca.

Nesse ponto, enquanto aguardavam a chamada da sua senha de atendimento, com muita gente na frente, me contaram que o Bruno Contralouco, que tinha ido junto à Zaffurtari, armou um banzé por lá. Exigia falar com o dono, que não estava, obviamente, então encheu de osso o pobre do gerente, em altos brados:

- Quer dizer que aqui vocês tem o Bezerro de Ouro, é? Pegaram aquele dos crentes, cresceu, virou touro e botaram a cruzar com a Bezerra de Diamante do Boifrio, e agora estão vendendo os descendentes, novilhos castrados entupidos de veneno, mas com pedigree de meio ouro e meio diamante?

O Contra lembrou do Bezerro de Ouro bíblico porque em outros tempos andou se informando, para conhecer o inimigo, como dizia, pois tem bronca de uns tais bispos e pastores que andam de preto por aí. Em frente ao botequim eles não passam mais, ali é certo que apanham, agora quando ele quer se divertir sai caçá-los por outros bairros, nas proximidades dos seus templos, que chama de agências de picaretagem. Certa vez entrou numa, lá perto da Rodoviária, e foi um escândalo, o sujeito lá na frente gritava Aleluia e ele berrava Saravá. Acabou saindo no braço com os gorilas, que não contavam que o Contra é bom de boxe, jiu-jitsu e savate, deu neles lá dentro.

Quando apelou para adjetivos impublicáveis a respeito do gringo da Zaffurtari a turma o arrastou de lá, antes que a polícia chegasse. Uma barbaridade. Não quis vir com os amigos ao Mercado Público porque resolveu se meter na sua gráfica, disse que ia imprimir cinco mil panfletos para distribuir em toda a Cidade Baixa, “dizendo umas verdades e propondo boicote ao filho da mãe”, como disse. Cá comigo penso que isso não vai acabar bem, o gringo não conhece o Bruno, não sabe com quem está lidando.

Pedi aos amigos que me considerem entre os que estarão no churrasco, o rachid da despesa é depois, e me fui para as bancas de legumes, carne já comprei ontem.

Tomara que o Brasil vença, assim talvez o Bruno esqueça o dono da mercearia ao menos por hoje.

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viernes, 27 de junio de 2014

Chile e Brasil: Viva!

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O Chile... o querido país da Cordilheira até o Pacífico, de tanta tradição linda: bem vindos, amigos chilenos, os que puderam vir, espero não apenas os ricaços, hermanos, ao nosso País. Mesmo com mercenários nos representando, isso agora não importa. São bem vindos, sintam-se em casa, pois em casa estão.

Somos todos humanos. É só futebol, o que nos une de verdade são laços de humanidade, de idênticos sofrimentos, a falta de tudo, pela miséria, a ânsia de escolas boas para todos, comida para todos, a presidente Michelle luta e sei que está disposta a dar a vida pelo Chile, como o povo chileno daria, imagine se não, a presidente eleita pela vontade popular. Temos os mesmos problemas, mais acima ou abaixo do nível do mar.

O chamado primeiro-mundo ainda verá, não será para sempre que a FIFA e outros órgãos, principalmente os da economia, serão deles, com a cumplicidade de nossos antipatriotas, gentes cuja terra natal é o dinheiro, insensatos.

Porém em esforço conjunto, sul e centro americanos, estamos evoluindo a olhos vistos, criticados pelos vendidos, aqueles, os vendidos ao nortista, a peste que assola a toda Sul América, Central, e ao mundo. Um dia virão humildes, e os receberemos bem, mas os lesa-humanidade serão enquadrados.

Como sabem, torcerei pelo meu Brasil no sábado, mas ao fim, aconteça o que acontecer, sairemos abraçados.

Somos irmãos. Saudades de Antofagasta.

Abraço.

Salazar.

martes, 24 de junio de 2014

Carta à Haidée

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Porto Alegre, 24 de junho de 2014.

Prezada amiga Haidée

Camarada gateira, escrevo para mandar e pedir notícias, os anos vão passando e a gente vai esquecendo uns dos outros. Aqui família bem, minhas gurias me abandonaram, de casa, né, posto que foram tocar em frente as suas  vidas. Pai sofre, ainda bem que são muitas, sempre aparece uma que outra para levar um papo de dois minutos.

Veja só o que me aconteceu. Tudo começou com um sonho de algo que nunca tinha lembrado: eu com 12 anos, subindo a rua da Vila Nova, lá na cidade da qual fugi, assoviando, as pessoas colocavam cadeiras na rua, na calçada, noites de luar, verão. Passar por eles me dava um frio, nunca olhei para os lados. Nove da noite, ao passar tangueando ouvi de um velho, com murmúrios de aprovação das velhas, todos com mais de 20 anos, ou 22: "Olha como o guri assovia bem, La Cumparsita, flauteado...". 

"E com floreios", disse uma velha de 19 de quem reconheci a voz, era minha parente longe. Joguei a cabeça mais para cima, para trás, grudei os olhos nas estrelas lá em cima, em desafio ao mundo, e segui caminhando, sem poder impedir meus ouvidos de gato. Ninguém me gostava naquela cidade, embora eu desse a vida por eles na hora do pega, se preciso fosse um dia, meus concidadãos, tudo por dinheiros que eu não tinha e porque eu era teimoso, e assoviei mais lindo ainda, agora com Sabor a Mi. 

Depois piorou.

De tão nervoso e abalado esta noite consegui dormir apenas três horas, das onze às duas. Despertei com um pesadelo terrível, eu ensopado de sangue em meio a animais num ambiente branco, meta a esfaquear um sujeito. Saltei da cama e passei a procurar a minha adaga no quartinho de bugigangas. Encontrei-a devidamente embrulhada num pano, mais um saco de plástico por fora. Depois passei a remoer vingança. Deu-se o seguinte.

Ontem levei o Gatolino e o Louco de Fome ao médico de gato, minha estréia nessa área, porque ambos estavam com umas bolinhas na parte superior do corpo.

Sabe o cara de 60 anos, que parece 80, que quer parecer ter 30? Sabe jogador de baralho de carpetas de vigésima categoria, aquele que deixa a unha do mindinho crescer para marcar cartas? Sabe um babão que tenta ares de dançarino de tango, com o colete molhado de baba? Sabe o cara que em vez de prestar atenção no felino fica olhando para o traseiro das mulheres com gatos nos braços?

Pois é: o elemento era isso e mais um pouco, com aquela vozinha de taquara rachada. Fui ao consultório desarmado, nem me lembro mais de arma de fogo, sei que entreguei toda a artilharia à campanha do desarmamento, pelo que já estou há tempos arrependido. Quer dizer, entreguei todas as armas menos uma, nunca se sabe o futuro, fiquei com um 38 especial, mas o escondi tão bem que esqueci onde e nunca mais o achei, sei que está aqui em casa, se for preciso outro dia boto tudo abaixo e o encontro, mas lá na hora pensei em pegar um ferro qualquer, um vaso, para arrebentar a cabeça do filho da, vai, da mãe. Ou uma corda para enforcar o miserável, ando com saudades de fazer um nó de forca, a última vez que fiz foi quando me desgostei com certo deputado. Ai que raiva, vem cada pensamentinho...

Como sou civilizado somente lhe chamei a atenção, falando alto, com delicadeza: "Ô, seu bosta, vai fazer o serviço ou não? Posso voltar outro dia se está tão ocupado em olhar as bundas e os seios das senhoras".

Ele me mirou, pensou bem na resposta que daria, e veio com aquele risinho de hiena, se fazendo de meu amigo para as senhoras pensarem que eu estava brincando. Foi para já, receitou isto e aquilo. Considera-se esperto, para completar o perfil.

Depois do “exame” que fez me tomou 130,00 por gatinho. 260 paus. No total, perdeu dez minutos examinando os dois. O Gatolino não queria, fazia Fuuuuuu e fugia pro meu lado, um fiasco, voava pelos cantos pedindo socorro, eu tive que pegá-lo, bater um papo e tal, e segurá-lo enquanto o Mr. Hyde Cat fingia que o examinava, o Gatolino odiou o nojentão. Ao final meteu-lhe a pata na cabeça, arrancando-lhe a peruca, bem feito. Na sua vez, o Louco de Fome só fazia Huummmm de brabo, segurei-o também para o bandido passar-lhe a sua mão de pintar catacumbas.

Eu numa eme que ando... Paguei. Talvez volte lá buscar o meu e matar o filho da, vá lá, da mãe.

A dois paus o quilo de média qualidade, média nada, boa, 260 dá 130 Kg de arroz. Com 130 Kg eu como dois anos e picos. As madames me confirmaram que 130 por consulta é o preço que vêm pagando ao criminoso.

Dos dez minutos que ele gastou, uns 7 eu levei acalmando o Gatolino. Mais um ou dois com o LF, de modo que, dando de barato, ele trabalhou um minuto, outro para rabiscar a receita.

Antes de pegar em armas, preciso me informar. Então me diga, querida amiga, quanto estão roubando, digo, cobrando, aí em Florianópolis?

Aqui, neste ponto, hoje de manhã pretendia encerrar esta missiva, mas apenas a interrompi. Agora três da tarde. Parei porque me deu na veneta e pouco antes do meio-dia resolvi telefonar para o vagabundo, me identifiquei e tal, e disse:

- Seguinte, meu chapa: você me roubou, seu puto, ou me devolve a grana ou vou cometer um veterinariocídio.

- O quê? O senhor está me ameaçando?

- Não, senhor, não estou ameaçando: estou prometendo.

- Vou telefonar para a polícia!

- Pra dizer o quê, malandro? Que eu telefonei para avisar que os gatinhos não sararam graças a ti? Com isso não dá nada, o resto tu está inventando. Mas agora me deu mais raiva. Poderei te pegar amanhã como daqui a um ano, durma com essa, mas que vou te pegar, ah, eu vou. E quando te pegar não estarei assoviando La Cumparsita nem Sabor a Mi.

- Como?!

Desliguei.

Pois é, minha amiga, nada como a gente ser sincero com as pessoas, quem não se comunica, se trumbica, como dizia o velho palhaço. Há pouco chegou um motoboy me trazendo um envelope com os 260. O homem foi honesto.

Mesmo assim, mande me dizer quanto os picaretas estão cobrando aí, de repente passo a levar o Gatolino e o LF passear em Floripa, em época de revisão médica, pode sair mais em conta. Aproveitarei para visitá-la para tomarmos uns mates e colocarmos em dia as nossas conversas.


Saudades. Grande abraço.
Salito.

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sábado, 21 de junio de 2014

La Nave del Olvido (1)

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Só lembro que estava barbudo de seis meses, unhas compridas nas mãos e nos pés, quebravam, doíam, e sujo, sujo, sujo. Fezes grudadas na grossa camisola marrom, por baixo nu, com feridas causadas pela sujeira, me ardiam as partes íntimas. Antes disso somente um vago semblante de mulher, uma espada, colocava o corpo na frente para defendê-la, e a seguir coberto de sangue. Névoa, lembrança fugidia, passava e me enlouquecia, onde está? Não voltava.

Viva na mente apenas a última cena, esta sim: eu já dentro do enorme barco, com mais uns duzentos entre homens e mulheres, no leme um louco que berrava palavras incompreensíveis, era um dialeto do lado esquerdo da Grécia, um estrangeiro. Vi de longe, a uns cem metros no cais, quando Michel chegou gritando, atirou-se sobre os soldados com raiva, não façam isso. 


Já tinham feito. Ouvi seus gritos enquanto o espancavam, gritava meu nome. Fomos navegando mar adentro, sem comida, sem água, com aquele homem dirigindo, ele robusto, descomunal, espumando pela boca, urrando. Dei-me de que eu estava na temível nau dos insensatos.


Sete dias depois os que não morreram ou gemiam se contorcendo, por beber água salgada, começaram a beber o sangue uns dos outros. Luta feroz, ninguém tinha arma. Pedaços de pau, alguns ferros arrancados da embarcação, unhas e dentes. Quando ameaçavam vir para o meu lado viam as lascas pontudas que improvisei, uma em cada mão, e então iam para os mais fracos. E comeram os velhos e velhas, mulheres, logo ninguém se entendia mais, precisei me defender, eu abatia e logo muitos caíam em cima, comendo os corpos, suas bocas vermelhas de sangue e o olhar de desvario. 


Eu mirei o grandalhão do leme, que já tinha matado três pelo sangue. Fiquei com raiva ao ver como comeu uma moça franzina. Lábios tórridos, resolvi beber o sangue dele, se fosse preciso, ali já perturbado com tudo aquilo, sem saber de onde vim, quem era Michel, para onde íamos. Deus fugiu.


Quando não pude mais, vendo o bacanal de carnes e sangue, perdi a cabeça, alucinado saí do meu canto e o peguei por trás, metendo-lhe uma lasca de um barril seco na nuca, peguei bem, com a corrida e violência a ponta saiu no céu da boca. Ao abatê-lo e morder o seu pescoço com fúria é que me dei conta de onde estávamos. 

La Nave del Olvido. O risco me feriu o cérebro, explodiu, fiquei estatelado por um instante, parei, mas no desespero logo segui mordendo a sua jugular com mais força, com sede e fome, chupando o sangue que saía aos borbotões, queria comer seus olhos, sua bunda, tudo. No primeiro dia o sangue bastou. Todos morreram. Eu não, eu comi peitos, pernas, pedaços, restos. Quando não tinha mais nada, comi panos, madeira. E o mundo se acabou.


Deitado na proa da nave, naquele fedor, alguém me levantou pelas costas, para me fazer sentar. Levantou um esqueleto moribundo. Abri os olhos, tonto, mole, tornei a desmaiar. Senti água no rosto e agredi a quem não via, com últimas forças vindas não sei de onde, água, água, água. Seguraram-me com força, me imobilizaram, e me deram água aos poucos, agora eu urrava como aquele, mais água.




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viernes, 20 de junio de 2014

Na primeira dividida

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Fui fazer o exame de varredor do Congresso, eu moro no fim de Planaltina, me viro, meu, daí que o exame era às duas da tarde mas às nove da manhã eu tava na área. Esta é a minha grande oportunidade. É trabalho certo, varrer, cara, só varrer. Com a direita e o toco é um abraço. O velho Souza do Riacho Fundo me deu a letra, falou com um cara importante, um que vai pegar michês no Riacho 2, me indicou pra ele. Fui meio sem jeito, não gosto de pedir bexiga, mas o Souzão disse que se eu não comer outro come. Nada de frescura com o cara, ele falava do emprego.

Passou, que sufoco, agora tou aqui, sentado na frente do casebre, enquanto a mulher mexe com alegria na panela de feijão, eu com um liso de branca de dois dedos daqueles de mão aberta do mindinho ao polegar, bebendo, eu mereço, ela sabe. Eliete volta e meia sorri feliz, chamando, não quer que eu fique na chuva, com um sinal digo deixa eu, morena, e lembro, lembro de mais esta.


Salário de 7 paus. Por 7 paus eu varria até a mãe deles. Éramos oito os candidatos, para quatro vagas, alguns dos caras sorriam, com jeito de estou aprovado. Uns bundinhas.

A única pergunta foi o que eu achava da Copa, do futebol. Por aí. Saquei, eles pensavam em entender a minha vida, a vida da Eliete, do Maicon e da Xuxita, todos da Silva, minha família, pelos meus sentimentos de futebol. Eu, hein?

Me deram papel e caneta. Escrever eu sei mais ou menos bem, só me falta o braço esquerdo que perdi aos dezessete anos, o hospital recusou, mas o tenho até o cotovelo. Respirei fundo, e caprichei nos garranchos. Odiei os caras que me olharam daquele jeito e seguiam olhando.

Sou do tempo em que não se xingava no ouvido o adversário: "Comi tua mãe, seu viado". Isso fazem rindo, as famílias deles rirão no findi, durante o churrasco entre atletas de clubes amigos, rivais, como falou um sabão da globo outro dia. Sabe o que o fulano me disse?, e riem. Nem andava feito gazela de agarramento na grande área. Nada disso, nada de papo nem agarramento, se gosta de pegar em homem, meu caro, nada contra, mas errou de lugar e de homem, vá pegar no pau de quem quiser, aqui viemos jogar futebol.

Muito menos amizade de milhão, esse o grande problema, enquanto o povo passa fome, acham que não sei?, os carinhas ganham milhão por mês. Viram gazelas em campo, afinal são amoitados com os cartolas no roubo, o centroavante amiguinho amanhã será companheiro do clube que pagar mais pelo nada que faz, a não ser agarramento, umas putas. Putas de milhão, meu.

Não mesmo. Não era assim que eu queria. O senhor vai entender.

Na primeira dividida, lá no meio de campo, longe da área, ele ia parar no Japão, para saber que aqui não, violão. Aí tu diz, sem gritar mas para ele e seus companheiros de ataque e todo seu time ouvirem bem: na próxima vai ser pior. O juiz também ouve, e daí? Mas sem raiva, na boa. E ele que tente pra ver. Se tentar, aí já viu, sem perder a cabeça, mas ele sai de maca por acidente. Quem sabe, sabe, não há tevê que perceba. Brutamontes e amiguinhos de findi não sabem.

E ele que se cuide, se entrar corrido, pode levar um balãozinho de costas, para desmoralizar.

Ao fim da partida, seu, o bem-bom deles vem te cumprimentar: vocês venceram, muito se deve a ti. Quer trocar camisinhas. Você tira a sua, dá de presente ao fã, e diz: homem não tou fazendo, a tua entrega para a maninha, diz que eu mandei pra ela.

Zagueiro que se preza empurra os companheiros do meio e da frente pelo exemplo, naquela de eles pensarem: se o cara está se matando lá atrás, até apelando, a gente também precisa se mexer, mostrar a que viemos. Algo assim.


O Brasil vai se fuder nesta Copa.

Não sei se eu e muitos colegas, se tivéssemos um começo certo, comida, apoio, roupas de jogo, aprendizado, poderíamos ter sido grandes atletas. Não sei. Só sei que assim... melhor não ter sido.

Isto é o que eu penso sobre futebol. 

Obrigado.

Entreguei a prova. Sabia que estava reprovado, os outros caras eram capachos de políticos, só vieram fazer fita.

Vou embora pra casa, tirar esta roupa apertada do irmão da Eliete, e vou mentir de novo pra ela e pras crianças que deu tudo certo. Na parada de ônibus me despeço dos outros otários sem políticos, abraço, mano, se faltar rango pinte lá em casa, a gente se ajeita. E começa a chover, o ônibus não vem, um protesto trancou tudo lá na saída, me diz um cara de radinho. Tomara que  os carinhas que protestam pelo menos matem alguém da repressão, duvido.

Pra mim chega. Vou pegar aqueles caras do Congresso, sozinho, mano a mano, um por um, sem pai nem político pra ajudar, antes que a comida termine. Vou cortá-los ao meio. Já que não posso mais jogar, vou pra dividida de outro jeito.

Duas horas depois chego em casa, ensopado e rindo para a Eliete. Beijo ela na boca, corresponde com saliva quente, adocicada, pastosa de tesão, a nega é assim, se beijar na boca se molha, depois diz ai, homem, todo molhado, se esquiva contente, se fazendo, dou gargalhada, abraço minhas crianças com felicidade, Papai chegou, passou no exame.

Aí vim aqui pra fora, na chuva, olhar pra eles.

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miércoles, 18 de junio de 2014

O que se perdeu

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Janio de Freitas, ontem na Folha

Os defensores do xingamento dirigido à presidente da República, adeptos do argumento de que apenas foi usada a linguagem das arquibancadas de futebol, formalmente têm razão. Mas o fato fez parte de mais do que os hábitos dos campos de futebol, mais do que um insulto pessoal e mais do que seu alegado sentido político.

Na raiz e na forma daquele fato está a realidade de que os brasileiros não têm educação nenhuma. A que tiveram, e não há dúvida de que a tiveram, perderam toda. Como e por quê, não está identificado nem procurado, o que por si já é prova da falta de educação. Mas nada a ver com a educação escolar, que a outra independe desta.

A cafajestice é a regra, sem diferenciação entre as classes econômicas. Na vulgaridade da linguagem, na indumentária "descontraída", na ganância que faz de tudo um modo de usurpar algo do alheio, na boçalidade do trânsito, nos divertimentos escrachados, na total falta de respeito de produtores e comerciantes pelo consumidor, enganado na qualidade e furtado no valor --em tudo é o reinado do primarismo mental e dos modos da falta de educação.

O baixíssimo nível moral e intelectual do Congresso, o comercialismo dos dirigentes políticos e dos partidos, o negocismo que corrompe as administrações públicas, tudo isso é a própria falta de educação, invasiva e ilimitada. E crescente.

Ao xingamento a Dilma Rousseff seguiram-se, como atos políticos, três eventos: a convenção do PSDB para oficializar a candidatura de Aécio Neves à Presidência, a convenção do PT para a candidatura de Alexandre Padilha ao governo paulista, e a primeira aparição política que Eduardo Campos se dignou a conceder ao seu Estado desde que deixou o governo pernambucano. Foram três festivais de grosserias e insultos em nome da política.

Exceto Eduardo Campos, que sugeriu ser o governo federal "um bocado de raposa que já roubou o que tinha que roubar", tudo o que foi noticiado como dito nos atos poderia ser dito com alguma elevação. Aécio Neves, Lula, José Serra, Fernando Henrique, no entanto, não recusaram a regra vigente. A julgar pela conduta deste grupo de candidatos e dirigentes, e pelo que até agora disseram Aécio e Campos, está prenunciada uma campanha pela Presidência com falta absoluta de ideias e o máximo da agressividade mais primária.

A propósito, Eduardo Campos, com a originalidade de que pôde dispor, disse dos xingamentos a Dilma Rousseff que "na vida a gente colhe o que a gente planta". Quando o vaiarem, descobrirá o que plantou com seu comentário.

BEM ENTENDIDO

Seria voltar bem mais de um século, se o propósito do vice-presidente Joe Biden, em sua prevista visita hoje a Dilma Rousseff, for mesmo "retomar a relação de confiança" entre Brasil e Estados Unidos. Mas o governo americano e Joe Biden são menos pretensiosos. É claro que ele se refere, aliás explicitamente, à retomada das relações anteriores aos incidentes entre o governo Obama e os de Lula e Dilma.

Ou seja, no dizer de Biden, "relação de confiança" é a que vigorou quando o governo americano violava as comunicações de todo o governo brasileiro, da Petrobras e de outras empresas, e até da própria presidente.


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viernes, 13 de junio de 2014

Os chargistas da Copa

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O blog Ainda Espantado é prova cabal, há anos, do apreço e admiração que tenho pelos chargistas brasileiros. Porém nos últimos dias se desconectaram da realidade, não todos, mas a imensa maioria. Vão por eles, pelas suas "valentias", pagas a bom preço, seja em numerário ou pela covardia de manter o status quo. Vai um exemplo, somente um, pois são centenas, que me perdoe o autor, pego para judas. Não é judas, é somente mais um enganado, saindo pelo menos.

Subestimam as pessoas que protestam por um Brasil melhor. Subestimam homens e mulheres. Vá lá que critiquem, é do jogo, mas isso... Francamente, precisamos ter responsabilidade, sabedores do efeito de uma obra popular na memória da população, sempre desprotegida e reclamando do governo, já que Deus nos dá apenas conforto espiritual. Ou serão mesmo cobras mandadas?

A briga não é contra a presidente Dilma, como pretendem alguns que venderam o Brasil e querem, na maior cara de pau, voltar ao poder, faltou vender o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, na próxima conseguem, renderá muito mais, pelo "por fora", do que os cargos de diretores fictícios desses órgãos, onde já têm muita grana e mordomias e ajudam parentes e comparsas. 


Não. A briga dos manifestantes é por um Brasil melhor, em apoio à presidente, a qualquer que seja o governante, mas também em favor dessa mulher que jamais teve sua honra posta em dúvida, como as deles foram postas, ela que é refém dos vagabundos de sempre, o peemedebê, muitos donos de jornais. Os fascistas, quando não nazistas, donos das tevês e de certos grupos empresariais ajudam. 

Alguns errados do governo foram presos, assim a nossa Justiça decidiu, li os autos, aceitei, mas os deles ainda não, e é horrível o dano que causaram. Vamos em frente.

Quem vaiou a presidente na abertura da Copa? O povo? 

Negativo, foram os donos de tudo, da área VIP do estádio, ingresso de mil reais, mais uísque, petiscos franceses, será que até cama para diversão com moças compradas? Não, camas depois, nas mais caras boates de São Paulo. E me vem o Marcelo Tas, outrora um bom palhaço, fazer figura? Um bostinha que não viu o tempo passar. O que o dinheiro não faz. E a idade, um velho cerebral, por dinheiro, ajudante dos nazis da Band certa vez o vi.

A presidente, ganhando líquido menos de 20 mil reais, encarregada de levar o Brasil nas costas, submetida diariamente a desgaste físico e emocional terrível, lutando para evitar que os gatos sigam metendo a mão, os próprios e os deles, estes piores, sendo vaiada por essa canalha. Lá dentro, como na área VIP, uns caras ganhando um milhão por mês, como o inteligente Felipão, que tanto fez pelo Brasil... fora a verba da propaganda.


A moçada reclama porque assim melhora o governo, e este aceita, nunca houve tamanha liberdade de expressão como agora. Imaginem o Opus Dei, governador de São Paulo, como presidente, já teriam atirado de metralhadora. Há erros e tal, claro que sim, esta Copa não deveria ter existido, mas não é culpa da Dilma, e todos festejaram quando o Lula foi lá para buscá-la. Todos que eu digo são os canalhas que hoje reclamam, eu, pessoa física, fui contra sempre, como contra foi uma minoria. Mas, eles...

Se todos fossem como vocês, nobres artistas, aquelas pessoas que protestam seriam uns merdas, com o perdão da palavra. O que vocês vêm cometendo é desrespeito que beira a molecagem. As pessoas que saem em protestos pacíficos, exigindo seus mínimos direitos, não são assim. Querem que a Copa, e os senhores, se fodam.

Dizendo melhor: o cara que sai com uma placa dessas não é leviano como são os dejetos, novamente com o perdão da palavra, que insinuam tal leviandade. Mais respeito, por favor, não julguem os outros por si mesmos.

E reitero, abri o voto para Randolfe Rodrigues. Não falei em partido ou opção perfeita. É a minha. Respeito a opção dos meus concidadãos. Agora, se em eventual segundo turno ficar a Dilma e aqueles, nem preciso dizer para que lado saio.



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jueves, 12 de junio de 2014

Tempos de bola

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Certa vez fomos jogar pelo time da Guarita, uma localidade famosa por ser área de proteção indígena, 23 mil hectares, da tribo Kaingang, no noroeste do Rio Grande do Sul. Aristides Fortes, Osni Vargas e eu, de Palmeira das Missões. De enxertos, para reforçar o time dos guaritenses. Osni deslocado lá pela ponta-esquerda e eu e Tide fazendo dupla no miolo da zaga. O Tide e o Osni fora de posição, mas numa boa, em conciliação, a moçada da terra até então titular não gostou muito de virar reserva de uns carinhas vindos de outro lugar. 

Fomos para conhecer um lindo recanto deste mundo, de um verde estonteante, maravilhoso, com seus riachos límpidos, e para ganhar.

Na primeira partida, de ida, o "nosso" time havia perdido em casa por 7 a 0. A guerra entre eles era fogo, a diretoria guaritense não se conformou, então fomos convidados e levados de Palmeira, tratados como reis pelo povo da Guarita, para o jogo de volta, lá não sei onde. Sacanagem dos caras da Guarita, buscar "boleiros" de fora, naquela de "agora eles nos pagam!".

Mas a sorte já andava bailando, o inimigo havia se adiantado na crueldade, a vingança antecipada, sem saberem o que o lado de cá estava tramando, sabiam que boa coisa não era. Estavam acertados com o juiz (que era deles, parente de dirigente ou algo assim, soubemos depois): era cair na área e pá, daria penalti. 


Entramos em campo com todos os olhos grudados em nós, os três rapazotes que não conheciam. Os atletas e dirigentes adversários ficaram furiosos, dava para ver de longe, mas frios, sabiam que o juiz era deles. E logo viram a que viemos. Ao final do primeiro tempo a gente ganhava de 4 x 0. 

O Osni, rápido e raçudo, arrumou muita confusão na área adversária. Mesmo Tide e eu demos de subir em escanteios, eu para saltar e ele para pegar o rebote, era um massacre, os outros sete, mais o goleiro, do time da Guarita, se empolgaram com a nossa presença, Tide e eu aqui atrás matando no peito, sérios, distribuindo. Na primeira bola desmoralizei o centroavante, dando-lhe um balãozinho de costas, quem mandou entrar corrido.

O Tide se adonou da meia-cancha, sua posição original, nem parecia quarto-zagueiro, orientando os companheiros para se deslocarem antes de passar, a turma foi aprendendo. 

O Osni botava fogo lá na frente, iam cinco em cima, pauleando, ele caía sem largar o porco, levantava, batiam de novo, para matar, levantava, fingia sair por aqui e ia pelo outro lado, se desvencilhava e conseguia: dava de bandeja para a turma fazer, no coração da área vazia. Tudo ia dando certo, todos jogando bem, iríamos meter de dez para cima neles, mas jogo muito peleado, os bichos não se entregavam fácil, e batiam até na sombra.

O jogo estava tão bom que resolvi testar algo que tinha vontade e nunca tinha feito: aparar de bicicleta um tiro de meta do adversário, devolvendo. A bola veio zunindo por cima e subi muito alto, a peguei de raspão, e caí de ponta cabeça lá de cima. Tide se assustou ao ver a queda, arregalou os olhos, correu e me disse, já aliviado, ao ver que não tinha quebrado o pescoço: "Qual é, Salazar, quer se matar?!". Não queria, não.

E nada de os caras conseguirem cair na nossa área em embate corporal, a gente chegava antes, tirava de letra. No início do segundo tempo o Tide prensou uma bola com o avante deles, dois metros fora da área, o cara vindo de sola e o Tide meio que tirando o pé (na catega, que tinha demais, mas firme, não era bobo), não precisava esforço para afastar, o outro perdeu o equilíbrio, caiu, e o juiz não teve dúvida, pá, penalti!

Um escândalo: Tide sofreu a falta, levou vantagem, fora da área, e o canalha deu penalti, na cara de todo mundo. Enquanto o Tide, braços abertos para o alto, fazia uma cara de o juiz enlouqueceu, eu corri em direção ao árbitro, reclamando da arbitrariedade, nem vi que um dos caras do nosso time, mais velho, bugre forte, atarracado, kaingang que era milico na Guarita, foi até a cerca, arrancou uma tábua e veio a mil para cima do senhor juiz, só vi quando ele desceu a lenha.


Acabou o jogo ali, fechou o tempo. Invasão de campo pelas torcidas, pau comendo. Eu queria entrar na festa, mas o Osni e um velho da Guarita me pegaram, me tirando da parte boa. O Tide alguém já tinha tirado.

Se fosse lá pelos lados dos vizinhos da Guarita, o juiz de Brasil x Croácia teria muita dificuldade em voltar vivo ao seu país.

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martes, 10 de junio de 2014

domingo, 8 de junio de 2014

Boa noite, Vila Isabel

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Sexta-feira

Nove da noite fui ali no Beco da Morte, no bar do Darci, comprar algumas cervejinhas, 48 acho que dá para hoje e amanhã. Tinha um negão me seguindo, deixei para lá, sei quem é, mal não vai me fazer, não é louco, ninguém é louco, ao menos enquanto eu tiver o 38 no bolso interno do paletó, no lado do coração.

Tem coisas que só acontecem na Cidade Baixa. Na dobrada para o escuro na Lobo da Costa topei com uma bruta cobra com um sapo na boca. Mamma mia. Sapo não, o pai dos sapos, sapão, não sei como entrou nessa fria, ele esperneando com uma perna pra fora, mas não adiantava mais. Deixei-os lá se divertindo, sou a favor dos animais.  Bem que a cobrona podia brincar com o negão, que congelou lá atrás ao assistir a cena. 

No boteco dei de cara com o Bruno Contralouco perdido para estes lados, me disse que estava rondando uma tianga por ali, mulher de um... Pára, Contra, não quero saber. Só ia dizer que o milico anda dobrando serviço com essa história de Copa, Sala, que coisa!, então a festinha vai sair de noite, de noite é muito melhor que de tarde.

Diz que ficou até às oito na sua gráfica lá na rua do Arvoredo, ultimamente o movimento esquentou com a politicalha encomendando santinhos, eles se antecipam, estão há meses em preparativos para entrar a mil no cu do povo em agosto. Saí às oito, disse, porque já tava me dando vontade de errar nas fotos dos caras, botando um jacaré no lugar.

Como sou a favor dos animais, fiquei indignado. Pera aí, meu, bota outra coisa, a cara deles já fica bem, diz tudo. Ele ainda argumentou, mas Sala, esses répteis comendo o povo como quem come sapo, enjoei!


Agora fui eu quem congelou. O Contra é perceptivo, espírita.

Ficamos de tomar uns tragos amanhã, no Beco do Oitavo, teremos cantorias no Botequim do Terguino. Grande Bruno, figuraço.

Voltei para casa, o Cara de Cadela me ajudou a trazer os frascos, 48 cascos pesa. Depois tomei umas seis, entrei no feicebuc, ouvi uns sambas do Antônio Augusto, e comecei a me sentir sozinho. Odeio ficar sozinho. Pensei em abrir o bacalhau que trouxe pela manhã do Mercado Público, mas não é do odor que sinto falta, sinto falta é delas.

Ó vocês, felizes da vida, que saem namorar e tomar uns merengues na sexta-feira, bolso com cinco de cem, que Deus os ajude nessa trama de felicidade e amor.

Eu aqui, snif, de plantão, como todas as noites, sofrendo solitário e imaginando os risos das ruas, dos bares, as músicas que pedem aos instrumentistas e cantores. Não, não estou doente, ou estou, se da cuca, para suportar tamanha humilhação.

Ocorre que minhas mulheres trabalham à noite, das 16 às 4 h da matina, doze horas na batalha, e fico eu encarregado de fazer comida e cuidar dos gatos. Tem nego do outro lado da rua me cuidando, detrás daquele poste, elas conferem. Até as vizinhas, que eram um desafogo para as horas de solidão, elas espantaram. A do oitavo andar uma polaca completamente alucinada, pelos ruivos em tudo, entre as pernas muitos, um tufo, ui, botava a sala em penumbra e dançava se contorcendo com música russa antes de me pegar. 

Pois é, depois de champanhes, delírios, me entreteram no quarto de cá, onde na cama rosa cabem seis delas, mais eu, enquanto as outras duas, Mariana de Rosário e a haitiana Sybille, quebravam a cara da polaca: uma garrafada no rosto, chutes e o empurrão escadaria abaixo. Não morreu mas ficou manca na queda, agora me olha de longe e sai em disparada, manquejando, olhos esbugalhados de medo.  Mulheres...

Bom, hoje consegui fazer oito pastéis para esperá-las. Na embalagem vinda da Romênia dizia que havia meio quilo, a olho vi que tinha uns vinte pastéis. Só saiu oito porque errei nos doze primeiros.

Refoguei o guisado da Mercearia Zaffurtari, tudo embolado, precisei esmagar com uma colher, finquei sal e pimenta, tomate picadinho, cebola e um saco de tempero verde, à parte cozinhei três ovos pra misturar depois, dentro dos pastéis.

Aí lembrei que elas mandaram fazer sequinhos e quase torrei a panela. Como se fosse eu a gostar de lambuseira... deixa pra lá. Derramei uma garrafa de azeite na panela pretona e comecei a função, me cuidando para não me queimar, mais queimado que ando com elas impossível. Gostei da atividade. Eu não sabia, mas tinha uma película de plástico envolvendo cada bendito pastel, fritei junto.

Reclamei na sacada, gritando aos vizinhos, cuidado aí, queimaram plástico, há horas queimam, otários! 

O que faz a bebida. Depois é que me flagrei.

Azar, com oito cada uma come metade. Disso não posso reclamar: metade sempre deixam pra mim.

No fim de semana elas estarão em casa, sábado e domingo, ufa, pelo menos isso. Semana que vem aquele negão vai sofrer um penalti, pra elas aprenderem que ao Sala ninguém prende nem observa.

Sábado

Uma linda noite em Porto Alegre. Saí às três da tarde, quando as mulheres ainda dormiam. Pela manhã ouvi Feitiço da Vila no rádio e saí com uma saudade da Vila Isabel por dentro, do Martinho, de todos aqueles loucos e loucas.

Comprei umas loterias e fiz uma fezinha no bicho da federal, depois dei uma passada no boteco do Darci ali do Beco da Morte. O pessoal queria que eu entrasse numa Vida a cem paus que armaram na mesa do fundo, mas não fui, tenho compromisso, hoje vou jantar fora e dançar com minha amadas. 

Conheço mesa de sinuca, fui profissa, depois de entrar pega fogo, o cara só sai no outro dia, os locos teimam em te deixar ir embora levando o deles. À meia-noite tu ganhou mil, quer sair e não pode, é de lei na malandragem, sair da jogatina ganhando, se os caras querem mais, de jeito nenhum, desmoraliza. Aí tu fica, até eles se pelarem, mas aí já é nove da manhã e perdeste as mulheres, passaram a noite te esperando, encrenca certa em casa, mesmo chegando com quatro mil.

Fiquei de papo com o Contralouco, que armado até os dentes passou na zona para comprar munição de 38. Tomamos umas dez repolhudas. Ele não parava de olhar para a porta, quando me contou que ontem deu zebra naquele seu assunto com a mulher do milico. Bem que o avisei, nisso de pular a cerca de campo alheio um dia a casa cai. Dei um endereço para ele se entocar na Vila Cefer, lá estará protegido até que a tormenta passe, e voltei pra casa.

Apartamento vazio. Na mesa da sala os gatos me olhando e um bilhete: "Salito, a patroa telefonou, com isso de Copa tem uma homarada lá, vamos ter que dobrar serviço. Tentamos te ligar mas tocou aqui, tu esqueceu o telefone em casa". Faltou papel para os beijos de batom, seguiu no verso. Ao lado uma pilha de notas de cem. Na mesa oito gatos, os delas, faltava o meu, o Gatolino, que como eu não gosta de andar em bando, sai muito papinho fútil.


Cadê meu miau?, perguntei. O apartamento às escuras, mas lá de algum lugar, longe, veio a resposta: miau.

Era só o que me faltava, eu e o gataréu, as gatas de verdade no serviço. Mais uma desilusão. Que destino bem ingrato. Ruíram todos os meus planos com as donas. Vou à sacada da frente e vejo o negão lá atrás do poste, no outro lado da rua, se fazendo de estou aqui por acaso. Elas foram mas deixaram o espião pra me cuidar, é hoje que ele vai sofrer um penalti.

Sento um pouco, com o coração aos pedaços de tanta tristeza. Depois sirvo uma losninha, bebo enquanto penso nos passos que darei esta noite. Para espairar boto rodar um samba dos camaradas Acyr, Chiquinho e Mauricio. Com uns caras que gosto muito: Almir e Zeca. Destino bem insensato mesmo.


Dou uma saidinha. Lá embaixo miro o negão se fazendo de salame, bem que me viu. Atravesso a rua, ele tenta sair de fininho mas digo volta aqui, meu amigo, é contigo mesmo. Ele pára. O que tu prefere: um tiro no joelho ou dizer que se distraiu com o acidente de carro ali na esquina? Que acidente?, diz ele, mas logo se tocou, quando eu disse: Bom, a escolha é tua, mas agora não me olhe mais, se olhar o tiro será na cara, o que prefere? Olhou para baixo e falou: não entendi o que senhor disse, eu estava só passando, mas prefiro me distrair com o acidente na rua, um estrondo, os passageiros se machucaram, um morreu, não vi o senhor sair. 

Bom rapaz, ligeiro de raciocínio.

Retornei e servi uma dose porreta de dyabla verde.

Será que ainda consigo uma passagem de última hora para o Rio de Janeiro? Pego o telefone. Ainda hoje, na verdade amanhã, meia noite e trinta descerá o avião, logo chegarei espalhando felicidade, chapéu atirado para trás, exclamando ao chegar no primeiro bar do bairro: Boa noite, Vila Isabel!

Domingo

(...)


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