viernes, 8 de agosto de 2014

Mamãe me ensinou a rezar

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Mamãe me ensinou a rezar antes de dormir. Eu, que não creio, obedeço.

Senhor

Primeiro desejo que as crianças assassinadas na Faixa de Gaza estejam em seus braços, meu Pai. O Senhor as cuidará, e jamais as esqueceremos. Hão de se juntar felizes às que morrem de fome na África e em muitos lugares do mundo, sem que o império mova uma palha, lá não tem petróleo. Não sei se ainda bem, pois se tivesse talvez fosse pior.

Guarde-as todas, Senhor, qualquer que seja o seu nome, entidade maior de todos os humanos, e castigue os malvados que cometeram esse horror, os nomes o Senhor sabe, todos sabemos quem são os assassinos covardes. E faça isso logo, porque o estou achando muito atirado nas cordas desde que o mundo é mundo.

Voltando aos criminosos em evidência: nas voltas que a vida dá, estariam se vingando de atrocidades que o Senhor permitiu, logo em cima de quem nada lhes fez além de briguinhas porque lhes tomaram as terras a pau, eu também reagiria, ora. Estariam querendo recuperar Hitler e sua imensa turma, nove décimos da Alemanha, por pouco o Brasil não entrou nessa pelo lado alemão, que não estariam tão enganados assim no horror que cometeram?

Estão justificando matanças? 

Na cara do mundo, planejadamente, estão tentando exterminar não uma tribo, e sim uma histórica nação, pelos planos de poder dos EUA no Oriente, na cara do mundo que finge que não vê, pois a ONU é uma cadela dos EUA, e mesmo essa cadela, por alguns funcionários, está aterrorizada. O Brasil saltou, com nossa presidente, criticou fortemente, a Argentina idem, pela sua presidente, e muitos outros países também, mas quem vai parar o genocídio?

Eles que continuem, com a sua permisssão, mas que vão arranjando bunkers, porque chegará o seu dia, e suas mortes, de todos os bandidos, jamais pagarão o assassinato de uma só criança inocente. E a maldade recairá, em vingança, sobre os descendentes que nada fizeram, e a roda do mundo segue, inexorável, em banhos de sangue, na vingança do outro que se vingou, que se vingou... Malditos americanos.

E o Senhor, o que anda fazendo, que mal pergunto? Ora vai aplicar em outro, dia destes mato um padreco, mais um, aliás, desses punheteiros e estupradores.

Os pedidos que eu faria hoje eram muitos, para levar de novo o Coberto Ralos - me faltaste naquela vez que pedi, há vinte anos, e os sertanojos, bah, um monte, mas diante da seriedade do primeiro pedido encabulei, podem esperar. Até porque daí não sai nada. Ah, ameaçam a gente de morte, o Deus vingador, ora vai à merda, estou tremendo de medo.

Assim seja.
Obrigado, dominus vobiscum, blá, blá, blá, vê se se mexe. Et cum spirito etc, tou caindo de sono.
Amém e Saravá. Eu ti amo.

PS: Aquele papo me tirou o sono, fiquei meia hora no escuro e nada. Os pastores da tevê nós mesmos cuidaremos, com faca cega, viu, para doer, se o senhor não se importar. Não será fácil, os bichos andam com arsenais em seguranças mal-encarados, mas somos do bem, deixa comigo, em último caso apelaremos para a ignorância com tiros dundum de dois km, na cara dos filhos da puta, se puder mande um Anjão ajudar, um anjão brasileiro, pois estou por aqui de porcarias que o império me finca, uns cagados que só são bons em filminhos nojentos.
Ah, ainda, se o senhor puder avise às minhas mulheres para ligarem seus diabólicos telefones, senão terão encrenca feia às 4:30 da matina, queria avisar a elas que a polaca do oitavo andar está se mudando pra cá, vamos nos apertar, mas a festa vai esquentar, pela conversa que tivemos antes, ela anda bem loca, achei que era por mim mas é por nós todos, iremos juntos à missa de sétimo dia do milico. Spirito tuo. Saravá de novo, Amém. Eu ti.


PS2: Tá difícil, agora é uma gata de rua chorando, corro lá para ajudá-la e ela some. Se der, destrua a Europa e os EUA. Eu ti e Buuuu pra ti, que é pra mim, que ainda ouço tolices.

jueves, 7 de agosto de 2014

No sacrifício dos extremistas, urrú!

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Amada filhoca, hoje pela manhã fiz a mudança, enfim, saindo para sempre do covil defronte ao cemitério para um abrigo mais ameno. Abracitos a ti, querida, aí no matinho. Destrua os chips dos telefones, compre outros, três, eu acabei de fazer o mesmo, alguém passará aí amanhã e te dará um número sem conversa.

Aqui tudo certo, só rotina. A mudança nada teve contra os mortos, amados, não fazem mal a ninguém, estão noutra, o medo é dos vivos. Uns que se acham muito vivos, são traiçoeiros pela brutalidade das almas, alguns nem é falta de escolas, lembremos que Hitler, Netanyahu e outros tantos tiveram boa instrução.

Desejo felicidades aos vizinhos que ficaram em outro tipo de sepulcro, agora podem falar mal sem o perigo que antes corriam, pois eles me fizeram ficar perigoso, muito perigoso, tudo o que eu não queria. Eu só queria viver em paz a minha vida, como os deixava em paz para viver as suas, mesmo os vendo ajoelhar para animais como o Edil Macedônio, essência de ignorância, não a do canalha Edil, a deles que vão atrás, nem Judas a teve tão profunda, tanto que este teria se matado em ato contínuo à burrice, segundo a lenda. 

Na mudança, entre sacos de panos na parte de cima do guarda-roupa do quarto aquele de lado, que era depósito, adivinhe o que achei? A camiseta do mini-bloco de carnaval "Xupa mas não baba", minúscula réplica do lindo e grandão de Laranjeiras, no Rio, chupa com xis, uma festa. Boas lembranças.


Entreguei as chaves ao comprador, desejei boa sorte ao casal, o lugar é bom e protegido. Novamente eu disse: tomem cuidado com os vizinhos, aproveitem a vida, é uma só. As minhas tiangas também se despediram com abraços, a ele, palavras de incentivo, a ela cada uma demorada, abraçada falando ao ouvido da mulher, baixinho, sussurrando bons presságios, por isto gosto delas, e nos fomos em vida nova, eu e minhas tiangas. 

Eles, os vizinhos, tentaram me dobrar quando comecei a chegar com duas, em suas concepções uma vergonha. Suas mulheres, com eles ao lado, deram de fazer piadinhas quando as gurias saíam para o trabalho, sempre recatadas, talvez pelas saias curtas e pelo salto 20 naquele areal da saída, foi aí que os enfrentei a todos, venham, sejam homens, covardes, eu parado sob chuva no condomínio, só com um punhal, não veio ninguém, então gritei vou pegar um por um na próxima vez que olharem com maldade para as moças, e me sairá fogo das mãos. 

Naquela vez me tiraram do sério mesmo. Armei-me mais. Só imagino o que fariam se eu fosse homo, bi, tri ou multissexual, ou qualquer coisa que não o papai-mamãe daqueles evangélicos criminosos.


Passou. Só volto lá se o rapaz e sua esposinha que me compraram o imóvel reclamarem. Se disserem "precisamos da ajuda que tu prometeu", eu vou. Pedi a ele que me avisasse na primeira, não entendeu bem, mas algo me diz que logo vai entender, eles são árabes, ela usa burka em certas ocasiões, por tradição, não são fanáticos, comigo riram, beberam e jantamos de cara limpa, mas têm lá suas vidas a viver como querem, nenhum mal causam, a guria está grávida de quatro meses, merecem viver felizes, e não como certos animais tentam impor.

Por que tenho que ter a mesma vida deles? Uma mulher que só diz sim, os falsos amigos de sempre? Por quê? Por que não posso ter a minha vida sem ser discriminado? Devo-lhes algo? Não devo. O Deus deles, aquela coisa ridícula de ameaça, ah, não vou para o céu deles, e alguém quer ir para esse céu fantasmagórico? Filhos da puta.


Se ele reclamar que algo correu mal irei diferente, aí não, mas com calma, esperarei uma noite de tormenta, lá tem tormenta seis vezes por ano, estarei esperando, e nesse dia vou matar a todos, sem deixar rastro, não fiz antes por causa das gurias, que insistiram para deixar para lá, insistiam venda, José, vamos nos mudar, sair daqui, por favor. Aceitei porque deixaria rastro.


Na chegada do frete ao destino, tirei o chapéu e o casaco, arremanguei a camisa de manga comprida e fui ajudar os freteiros, para não me quebrarem retratos de parede, LPs, etc, e eis que vejo lá adiante na calçada aquela mulher desfilando com seu otário, otário que ela já deve ter falido, me abandonou por dinheiro há cinco anos, embora toda semana quisesse encontros escondidos, fui em muitos, e o nojo só cresceu, como se eu não soubesse que até em automóvel ela deu tudo, sexo anal até em estacionamento, para pegar o zé-otário. O que dói é quando a burrice subestima.

Vinha em minha direção. Quando me viu de lá de uns vinte metros quase desmaiou, senti daqui, dei as costas e peguei aquele toca-cd em forma de bola, e quando ela estava em cima, quase passando atrás de mim, cinco metros, peguei o disquinho brilhante de um cd e acionei. 

A música inundou a rua. Nelson Gonçalves cantando, pararam lá, ela se amparou no sujeito, ele insistiu e vieram. Ao passarem Nelson já dizia com sua bela e forte voz, de homem:  


Tudo porém foi inútil
Eras no fundo uma fútil
E foste de mão em mão
Satisfaz tua vaidade
Muda de dono à vontade
Isso em mulher é comum
Não guardo frios rancores
Pois entre os teus mil amores
Eu sou o número um.

Ela ao passar começou a soluçar alto.

Nesse instante voltaram as mulheres, que tinham entrado na frente para ver os melhores lugares da casa para colocar os móveis, e aí, como por mágica, ela parou de chorar. O otário seguiu perguntando, preocupado: "O que foi meu amor? No templo Jesus vai te acalmar". Fiquei com vontade de gritar: Ela anda com saudade de suruba.

Ouvi-a dizer algo como me lembrei de um bandido, quero que ele morra. 

Novamente me controlei, vontade de dizer: E homem pra isso, esse bosta não será.

Porém fiquei quieto, era o que ela queria, mulher eu conheço, queria que eu matasse o pobre e bom homem, então ficaria responsável por ela. Morreu para mim, se quiser voltar vai ter que se ajoelhar, e não a quererei.

Eu só pensei em explodir um templo de gatunagem, como antes amaria detonar a católica, esta menos, parou de roubar agora, depois de quase dois mil anos surgiu um bom pastor, o Chico argentino. Estava calmo, só queria olhar para ela. Olhei-a, mentindo para o imbecil, pela conversa dele se encaminhavam a algum templo. Senti que ela não tinha tirado ainda todo o dinheiro dele, ia junto para evitar que ele entregasse muito para o canalha do elemento que se diz pastor.

Logo soube por um dos freteiros que tinha um comércio do Edil duas quadras adiante. O cara anda me perseguindo, vou começar a procurá-lo também, vai ver o que é bom. Só não posso contar às gurias, vai que me estranhem mesmo sendo humanistas que defendem todas as opções, religiosas, sexuais, de alimentação, de tudo. Depois contei, sim, claro que contei para elas que revi a malvada - não minto, conto todos os fatos, elas quietas e eu contando da passada na calçada, da música, dos sentimentos que antes falei. Só guardei meus pensamentos do que vou fazer, isso somente saberão depois. Quase morreram de rir, e me disseram tu nunca mais vai entrar em fria assim, a gente não vai deixar.

Nem eu vou fazer bobagem, concordo, mas cá comigo já os vejo com o coração aos pedaços, atiro bem, não me conhecem. Penso que vou fazer o que deveria ter feito na outra moradia, agora não irei por elas, na conversa de mulheres que me impediu de fazer o que queria. Não guardo frios rancores, tomara que todos os humanos vivam muito, afinal, aqui se faz, aqui se paga. Eles não. Deles vou cobrar o sofrimento que nos causaram pelo seu fanatismo doentio.


Noite feliz, cansados. Mudança é fogo. Mariana de Rosário enquadra Sibylle para descascar batatas. Assume rindo o fogão ligado, a geladeira também está boa, as mulheres estendem panos e cobertores sobre as camas grudadas, naquele mar de desajeito do primeiro dia.  Carmine insiste, tire os sapatos, homem, relaxe. Tiro.

Pergunto para Frida onde diabos meteram as minhas armas, a caixa com as outras, no bolso do casaco só tenho o 38. Frida diz que não sabe, vai procurar, mas Sahlah clareia seu lindo rosto e voa para cima do guarda-roupa, empurra e o caixão cai no chão com um estrondo, eu só olho quieto, conheço a palestina, nada de recriminar, com a queda poderia explodir as granadas. Ela, que nua saiu do banho, se veste com a burka azul, abre a caixa e de trás do seu deus diz: agora que todos saímos de lá pegue eles, eu te ajudo. Todas aplaudem, urrú!

Custei a entender. Estavam me escondendo suas intenções. Mariana mete a cara na porta da cozinha, rindo, urrú. Logo todas pedem para esperar um ano, para não deixar rabo, mas vamos matá-los a todos. 

Como se eu fosse fazer diferente.

Assim, deliciado confesso, é vida boa. Urrú!



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NE: Em blog aproveitemos o texto do José. 
A valsa "Número Um" é de 1939, de Benedito Lacerda e Mário Lago.





domingo, 3 de agosto de 2014

Alto da Bronze

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"Hoje eu pobre profano
me lembro de ti e dos meus desenganos
Oh! meu Alto da Bronze dos meus oito anos"


A relíquia de Plauto de Azambuja Soares, o Foquinha, e de Paulo Coelho - este é outro cara, pelo amor de Deus, não aquele múmia, este Paulo Coelho era um querido e decente pianista e compositor, tinha orquestra.

"Alto da Bronze", composta em 1938. O ano da minha primeira morte, morri com cinco tiros pelas costas num amanhecer na Alfândega, mas que ninguém se preocupe, foi nada, estou aqui. O título referindo, como bem sabem os moradores deste alegre porto, ao logradouro (só os Correios usam esta palavra, sempre faz-me rir) e a bela e teimosa negra de ébano que morava num matinho lá em cima, nos altos do Centro, de onde se via o maravilhoso rio Guaíba passando, sem prédios para cortar a visão, com seus pescadores e crianças brincando à beira, pequeninos vistos lá de cima. 


Em 1916 foi que soube da negra Bronze, de muitas décadas antes. Uns negros velhos me contaram no Mercado Público, com os olhos brilhantes de cachaça descreveram a negra que ouviram dos seus pais escravos: alta, esguia, carnuda, falsa magra, brava, olhos com fogo se eles se aproximassem, vista assim de cinquenta metros parecia um estátua de bronze, parada em frente ao casebre com ar de desafio. Isso os pais que contavam ouviram dos pais deles. Morava sozinha lá em cima, no mato. Tempo esse, em 1916, quando me contaram e fiquei com vontade de conhecê-la embora soubesse que voltar no tempo não podia, tempo em que eu morava numa pensão mucufa na Rua da Praia com cinco mulheres alegres, no segundo e último andar, todinho nosso. 

Foi nessa época que conheci Pixinguinha, um neguinho de 18 anos que chamavam de Chico Dunga, ficou meu amigo e ali embaixo no Centro, num boteco da Rua Clara, nós todos bêbedos em madrugada alta, compôs um choro-polca a que denominou Carinhoso. A modéstia me impede de dizer em quem se inspirou e dedicou em homenagem.


À frente da pensão começava a se erguer um prédio fino, com projetista alemão, que viria a ser o Hotel Majestic (hoje Casa de Cultura Mário Quintana), unindo os dois lados da Travessa Araújo Ribeiro. Uma barulheira danada a construção, todo santo dia, tanto que mudamos para o Alto da Negra Bronze, uma beleza aquela casa antiga, com abacateiro nos fundos, e flores, e ainda tinha um resto de matinho por lá. Apaixonei-me pela neta da negra Bronze, uma escultura de ébano também, saiu à avó, mas esta é outra história.


Lá em cima onde passa a Rua Formosa, que os malditos políticos para agradar aos milicos mudaram o nome para Rua Duque de Caxias, vontade de dizer umas besteiras, deixo assim, lá é o Alto dela, só dela, eterna Bronze. A historiagrafia semi-oficial insiste em dizer que ela era prostituta, porque o assédio era grande por parte dos magnatas, e não levavam. Deixem que digam, a difamação foi o que restou aos indignos repelidos e poderosos, não sabem o que é passar fome e suportar com bravura. Eu vi, minh'alma estava lá.


A canção diz um pouco do meu grande amor por Porto Alegre, eu que cheguei de passagem e fui ficando, por horrores, amores, desenganos e mortes, pela ordem mas em certo momento em completa desordem, e ainda me sinto em trânsito, um menino que não sabe para onde ir. Quando morava no Alto da negra Bronze - muitos anos fiquei lá - me sentia menos intruso. E agora meu rosto se encharca, mal vejo as teclas pelas lágrimas, preciso voltar lá, plantar um matinho, ainda que seja nos fundos de alguma casinha que restou.

Em voz de homem soa melhor, foi feita para homem, mas não encontrei.

A Elis não se aguentou e disse, pouco se importando com o gênero, sem alterar a letra, nada de profana, que como todo artista que se preza ela era: disse profano. A Pimentinha era fogo, deveria ter casado comigo, a boba, bastaria comparecer a botecos de pobre perto do rio, em torno de meia-noite ou mais, que me encontraria, os anos de vida que nos separavam não eram tantos assim. Dia destes volto ao limbo e a encontro.

Salve Foquinha, Paulo e Elis, que exaltaram o Alto da Bronze que tanto amo.



jueves, 31 de julio de 2014

Amores (1)

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Estou feliz que vieste, moça...
Não sou moça, sou mulher, tenho 41 anos.
Sim, me desculpe, prezada senhora.
Não sou senhora, sou mulher.
Sim... então, prezada mulher...
Não sei isso de prezada, mas pode dizer.
Como foram esses 41 anos? Espere, deixe eu encher a tua taça.
Não quero falar sobre isso, o cara era um pau no cu.
O cara?
Um não, uns quantos, só coisas negativas, eu fora, comigo não.
Sim... Ahn, pois bem, mulher, eu gostei do teu jeito de caminhar, desengonçada, uma ave lin...
O quê, desengonçada? Não sou isso, não gostei, acho que vou embora.
Quis dizer que me deu uma coisa boa o teu jeito, estou feliz que tenhas aceitado vir tomar vinho comigo neste bar, estou contente, andava muito só.
Está feliz mesmo, não minta?...
Sim, estou feliz, ora mentir, para quê? Veja no meu rosto, e ao ver agora o teu breve sorriso, que vi outro dia – raramente sorris, a noite ficou mais linda.
Não te notei, quando tu viu?
Ah, meses atrás, quando esbarraste numa idosa ao subir no ônibus aqui na Rua da Olaria.
Ah, me lembro da velhinha, caiu feio, não olha por onde anda, juntei ela.
Tintim?
Tintim, não, assim não, pelo outro lado, João, é João, né? Não viste que uso a mão esquerda? Assim, tintim. E tu, faz o quê, não me diga que é advogado, esses caras só enrolam.
A gente é que se deixa enrolar. Apenas ando por aí, procurando um amor, uma mulher desengonçada, com jeito de ave...
Não sou daquelas que tu pensa, se aceitei não pense que...
Tua taça está vazia, mulher, espera, assim, este branco é excelente...
Meu nome é Clorilda, mas não gosto, pode me chamar de Clora.
Sim, Clora, eu já sabia, gostei de ti, sabe, a ave...
Gostou porque não me conhece.
Pode me dar um beijo?
Não.
Por que repetir tanto essa palavra?
Não entendi, que palavra?

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miércoles, 23 de julio de 2014

O meu amor por Elizeth

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Ontem amigos de bar e eu conversávamos sobre o aniversário de 84 anos de Élton Medeiros. Eles são amigos recentes, antes nunca os tive, os dois que tive morreram sem ver. Não pude deixar passar a ocasião, tonteei, pedi outra bebida e com a voz meio que embargada em certa altura, contei-lhes.

Tinha uns 15 anos quando ouvi pela primeira vez o samba Pressentimento, do seu Élton em parceria com Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth Cardoso cantava. Meu Deus, guri introvertido, me apaixonei por Elizeth. Prometi a mim mesmo, segredo que nunca contei a ninguém, que um dia fugiria de Palmeira das Missões, iria ao Rio de Janeiro e casaria com Elizeth. Coisa de criança? Não mesmo. 

Ela solitária, triste, linda, ouviria os meus passos, caminhando alta madrugada, amanhecendo numa senda verde, e diria: "Vem, que o sol raiou, os jardins estão florindo, tudo faz pressentimento, que este é o tempo ansiado, de se ter felicidade. Vem, meu grande amor...". Eu sairia do inferno para o paraíso, me aninharia em seus braços.

Ir ao Rio fui, muitos anos depois que saí dos meus infernos, tive muitos outros infernos pela frente até conseguir, e ao conseguir fui demais até, de ficar quatro meses por ano, quase virei carioca, porém a segunda parte não deu, ela era um pouco mais velha que eu, 32 anos de diferença, pouco me importava, até dava, mas era casada, avó, e eu tinha uma querida guria de companheira em Porto Alegre. Nunca sequer a vi pessoalmente.

Se fosse procurá-la em sua casa, bem vestido, ainda que modestamente, de terno escuro, gravata, chapéu que já então ninguém usava, rosas amarelas nas mãos, sei que ela e sua família me atenderiam bem, sou um cara decente, e me tirariam para amigo quando contasse sinceramente o motivo que me levava. Estranhariam inicialmente, depois ela riria, aquele riso solto de alegria, me abraçaria, me daria até algum conselho, uma bebida, um café, no fim, na hora de ir embora, me beijaria com carinho e pediria para voltar quando quisesse. Voltaria, passando a visitá-la regularmente, a cada ida ao Rio. Tímido deste jeito, claro que não fui. Vai que me saísse tudo ao contrário.

O máximo que pude fazer foi levar-lhe flores, rosas vermelhas, dois meses depois que morreu. Sozinho, numa manhã de domingo carioca de um julho em que chovia, chovia... eu lá parado no Cemitério do Caju, as lágrimas quentes que me queimavam o rosto se confundiram com a chuva, ninguém notou, não tinha ninguém mesmo, e naquele silêncio de abandono um surdo da Portela ecoava nos meus ouvidos, em terrível marcação de tristeza. Ainda hoje, agora, neste julho chuvoso de Porto Alegre, o ouço: BUM... e um tempo interminável enquanto ressoa, anos, até a mão do portelense abafar já miudinho, bó. E vem de novo, BUM... a marcha fúnebre dos sambistas. Meu coração, uma turbulência que contrastava com o rosto molhado, de teimoso nunca se demonstra, foi se adaptando ao surdo, acalmando, esfriando, mas um frio ruim. Por instinto temi que parasse, então ajeitei as flores, beijei a pedra com seu nome e saí.

Entrei naquele cemitério com 37 anos físicos, 80 de lambadas nas costas, apanhado da vida, e saí com 80 físicos e não sei quantos de mundo. Enfiei-me num inferninho na Cidade, para beber, as mulheres faziam barro e eu só dizia me deixa, dona, isso ao meio-dia. 

À tarde fui procurar minha mana carioca, que morava em Copa, ela surpreendeu-se, não sabia que eu estava no Rio, perguntou e respondi que vim por motivos de saudades, e para encerrar o assunto indesejável menti que foi pela baiana da Tonelero. E fomos tomar uns chopes lá na areia, a chuva tinha passado. A mana reclamou que eu chorava por qualquer coisa. Resisti por bobo, dizendo que quando furei a onda foi de olhos abertos, ardeu. Ela riu. Mana conhece a gente. Retribuí com uma loucura: hoje vai chover muito mais, trovões e relâmpagos. Ao anoitecer ela arregalou os olhos, trovejou antes, relampejou depois, e foi água que Deus mandava, caiu um raio na praia, bem em nossa frente à beira d'água. Ela correu e se abrigou num bar do outro lado da Atlântica. Eu lá na praia, água pelos joelhos, gritava aos céus: me leve também, atire em mim se for bem homem! Onde está a felicidade, cadê a Elizeth, depois de tanto tempo ansiado, onde está?

Caiu outro raio ali adiante. A mana me buscou, ralhando com raiva, fui junto para protegê-la, perigava um cair nela, em mim sei que não cairia, Ele era meu devedor.

No fundo do meu coração ainda a amo, à Elizeth como à minha mana, esta fora de concurso, como amo ao seu Élton, seu Hermínio e tantas outras pessoas da Cidade Maravilhosa e do Brasil. Mas ela de modo diferente, era a Elizeth Cardoso, minha namorada, minha mãe, minha mulher, minha amiga, meu tudo, uma doce ilusão que me manteve vivo quando o mundo me queria morto.

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domingo, 20 de julio de 2014

Gigolô é a mãe

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O marido da polaca do oitavo andar, sargento ou major, algo assim, não entendo dessas hierarquias, só sei que se diz milico da pesada, daqueles de espancar e jogar pimenta e balas de borracha nos meninos e meninas, todo vestido de preto parecendo oficial da SS, macho que não se identifica confiante na impunidade, e se achando o cara por dar porrada em gente desarmada, bem, o otário chega em casa às duas da matina, então por precaução ela sai antes da uma, já conversamos o que tínhamos que conversar. Na saída ela ri e diz que não vai escovar os dentes, para que ele sinta o gostinho ao beijá-la na chegada, a tianga é doida, um dia vai acabar me arranjando incomodação.

Minhas mulheres chegam às quatro, e antes disso tenho muito trabalho a fazer, prometi a elas limpar o bendito fogão ora tapado de gordura, só na tampa interna do forno tem meio dedo, anos sem limpar e meta costela gorda. Disseram-me que derramando vinagre corta o barato da meleca, depois é só fincar detergente e ficar uma hora lixando com bombril. Já derramei duas garrafas de vinagre de álcool, por cima e por dentro do nosso bicho de seis bocas. Daqui a pouco vou lixar e lavar o amoroso, para que depois elas me lixem e lavem com mais ímpeto.

Hoje será mole, depois é só lavar roupa: vou ligar o negócio com sabão azul dentro e deixar girar, exceto as calcinhas, essas lavo no tanque, na mão, por gosto.

Por fim, farei comida para esperar as onças, as pobrezinhas chegam cansadas, hoje será spaghetti ao alho e óleo, comida de corredores e ginastas, vai direto para o sangue, energia pura, com salada de cebola com kiwi. As gurias só comem em casa, aquela comida lá do trabalho só bêbado para agüentar. Quando entrarem ficarei frio, pernas cruzadas no sofá da sala, engravatado, de terno azul-marinho, camisa celeste e chapéu bogart marrom com faixa azul, elas amam a gravata marrom italiana que me deram de presente - antes usava vermelha sangue, mas elas me disseram que não sou gigolô para andar de terno listrado e gravata berrante -, ouvindo o disco do Noite Ilustrada, fumando e tomando vinho, me fazendo de acabei de chegar da rua, depois que arrebentei com o último negão elas pararam de mandar me seguir, esperando que olhem o fogão, cosa más linda que vai ficar.

Depois nos ajuntaremos, os oito, na camona para assistir um filme, russo, elas sabem que americanos aqui não cabe, uns cagados querendo fazer a cabeça pela intimidação, como se tivessem três ovos, no último perdi a paciência e estraguei uma televisão, 38 especial com bala dundum é foda. Adivinhem se não fui elogiado carinhosamente pelos vizinhos, qualquer dia destes meto umas dunduns na cara deles, pois a polaca me confidenciou que uns e outros andam cochichando pelas minhas costas, me chamando de gigolô. Gigolô é a mãe, não sabem a trabalheira que tenho cuidando da casa e protegendo as gurias. Sou dono de casa, pombas, profissão "do lar", com a diferença que saio a hora que quero e quem protege sou eu, como bem sabem os imbecis que inventaram de mexer com as mulheres, eles já não estão entre nós. 

Cafifas são eles, que trancam as coitadas em casa, rodeadas de filhos, se matando de trabalhar para agradar os pulhas, enquanto eles vão entregar o dinheiro em bares e puteiros, deixa estar, vou passar o pau em todas, tempo não me falta entre quatro da tarde e quatro da manhã, quando as minhas estão na batalha. Quando estraguei a tevê os mancadas acreditaram que o fogão tinha explodido, como da outra vez que explodiu mesmo, naquela foi uma explosaozinha de nada, só queimou uma parte dos meus cabelos, além do corte no rosto pela tampa da panela que voou. Como são burros, se o tiro foi ouvido lá no Beira Rio.

Visto a velha calça Lee de serviço, boto rodar um bolachão do Nelson Gonçalves, mais uma meia-dúzia pendurados para irem caindo, adoro bolachão antigo, Paulinho da Viola, João Nogueira, Nei Lisboa, Clara Nunes, Nana Moskouri, sem esquecer a diva Kiri Te Kanawa, e mãos à obra, a felicidade custa caro.

(...)

A nega Conceição do Cativeiro Dourado foi a primeira a ver a lindeza, voltou da cozinha dando pulinhos de alegria, “Iuuú, o Salitinho não saiu, ficou trabalhando!”. Correram todas para a cozinha admirar a obra. Marieta de Uruguaiana exclamou: “Ai, tá lindo, branquinho, parece minha bundinha gostosa”. Jussara de Lisboa a interrompeu: “Só que esse é a gás, querida, e a tua come lenha”. Marieta não se conformou: “Sim, come lenha, e aos metros, por isso ganho mais do que tu”. E ficaram batendo boca, eu gelado, só me meto se partirem para o tapa. Jussara fez rima com o nome da Marieta, um troço de pulou a valeta, aí Frida, irritada, encerrou o assunto ao dizer que bundinha mais branca que a sua ninguém tem, e que se juntassem espichadas as lenhas que todas levaram no fogão daria para ir daqui à Fortaleza.

Alheia a tudo, a haitiana Sybille seguia fincando pequenos estiletes de pau em bonecos, precisava terminar também o seu trabalho, faltavam vinte políticos no seu vudu, eu que encomendei. Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, lá quieta no outro sofá, pensativa, me olhava séria, li seus pensamentos: jurou matar a polaca do oitavo se me tenteasse novamente, onde já se viu, querer roubar o homem, da outra vez foi garrafada, na próxima será punhal na goela. Ela está certa, essa polaca é muito sem-vergonha.


Minhas amadas me deram nos nervos. Mudo de assunto e pergunto do faturamento, elas começam a colocar os dinheiros em cima da mesa, conto a grana, R$ 8.900,00, comentam, como que se desculpando, que o movimento estava fraco, digo que para um sábado está bom demais. Guardo oito paus, deixando os novecentos para as despesas diárias, os oito segunda-feira deposito na poupança conjunta que abri para o futuro, com este ficaremos com novecentos e doze mil. Sem a minha assinatura ninguém mexe, eu posso mexer. Quando chegar a cinco milhões paramos e vamos gozar a vida em algum bangalô à beira-mar. 

Sirvo drinques para elas, tacinhas de vermute com cereja em palito para a maioria, martini com azeitona para Frida e Mariana de Rosário do Sul, me deram tesão, e pelo jeito que me olham serão as primeiras, boto rodar o samba Meu sonho é você, com o Noite, e pergunto se já tomaram banho. Carminda, Mariana e Frida não tomaram, se metem as três peladas no chuveiro. Lavou tá nova, meu. Da sala ouvimos os risos quando Carminda quis chupá-las debaixo d'água. Arrumo a mesa para o jantar às cinco da manhã. Daqui a pouco, na hora de dormir, vou querer voltar ao assunto das bundinhas, domingo não trabalhamos, temos todo o tempo do mundo.

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sábado, 12 de julio de 2014

O ovo da serpente

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É pessoal. Tirem as crianças da sala, esta história começa hoje mas irá longe. Não vou morrer calado, prefiro morrer de tiro.


Agora passa de noite alta em Porto Alegre, quatro e picos da manhã. Como diriam os boêmios antigos, estamos no cu da madruga. 

Para não dizerem que andei bebendo, como se eu fosse como eles, que perdem o tino com meia-dúzia de cervejas, isto se suas mulheres lhes permitirem tomar alguma, para não insinuarem que sou uma pessoa ruim, deixo para amanhã para perguntar se as razões porque quase me mataram ainda persistem, em Palmeira das Missões, cidade do Rio Grande do Sul onde passei os verdes anos. Pedirei que levantem a mão aqueles, daquela cidade, que não defendem e sonham com a volta da ignóbil ditadura, de animais de óculos escuros torturadores, incluindo um aleijado mental que outro dia alguém elogiou como governador de "todos" os gaúchos. Sem voto, imposição pelas armas, avenida Paulista, Vieira Souto e, mandando mesmo, americanos por trás dos imbecis. Dois ou três conterrâneos sei que não, mas gostaria de ver as mãozinhas do resto, a maioria.

"Todos" os negros dele. Governador meu e de muitos meninos sofridos nunca foi, à força não, por uns canalhas ladrões, Viamão que o diga, e assassinos, como aquele torto de boca torta. Enquanto sorriam, com comida farta à mesa, eu dormia na rua em Porto Alegre, fugitivo daquela nojeira, depois puteiros de favor, depois repúblicas... Coisa bem repetitiva, já falei antes, me dá engulhos repetir, mas parece que tem gente que não lê.

Aprendi muito dormindo na rua, muito em puteiros, quando de pena uma prostituta me juntou na rua, nas repúblicas que depois vieram começaram a surgir um que outro amigo do peito, a miséria aproxima os humanos, precisam dividi-la, o contrário do que ocorre com a riqueza roubada. Mais tarde Pato mudou-se por minha causa, vindo de Curitiba para cá. Com ele eu já não estava sozinho, podia me arriscar com tudo, tinha bóia e um quartinho garantidos para minhas crianças em caso de precisão. Impossível não citar a minha mãe, a quem por cartas eu mentia que estava tudo bem: me mandava comida pelo correio, latas de sardinhas, azeite, massa, mesmo eu jurando que não precisava.

Amanhã perguntarei essa e outras, hoje não convém, andei bebendo, minhas senhoras me chamam para a cama, melhor assim, pois se para me desqualificar, antes de tentarem me matar, me caluniaram até me chamando de bêbedo, a uma criança de 17 anos, imaginem o que fariam agora. Será que fariam, com homem? Sem os milicos, pegariam em arma para me encontrar no mano a mano no meio da rua?

Amanhã pergunto.

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sábado, 5 de julio de 2014

Arriba, Argentina

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Antigamente os letristas sul-americanos falavam muito em torvelinho, torbellino, para ilustrar vida atribulada, coração sem direção ou cabeça de vento. Enfim, acho que aconteceu comigo de ontem pra cá, só no coração, ou na cuca também, sei lá, depois penso nisso. Em torvelinho.

Deu-se que uma inglesa da Copa, magrona alta, morena de trinta e tantos, ui, mochila nas costas, não me perguntem como veio parar em Porto Alegre, visto que sua seleção sumiu do mapa no Dia de São João, ontem se entreverou comigo num bar da Rua da Olaria, às duas da matina. O resto não me lembro, como disse o Bruno no dia seguinte àquele em que derrubou a porta do Clube Independente a tiros, deu nos gorilas, tirou a roupa e entrou nu no baile, arma em punho para o caso dos caras virem novamente atrapalhar uma pessoa de boa intenção. 

Sei que ao sair ela tirou algo da mochila e falou: “Deixo um vatted de presente pra ti, mai lóve”. Algo me diz que esse mai lóve está errado, deixa assim, agora não tenho tempo. Também não me perguntem onde ela aprendeu a falar português, nosso assunto não dependia de conversa, mas sua habilidade será útil no futuro, gostei dela, sabia até palavras boas no calor de beijos, algumas bem fortes... deixa pra lá. Mal ouvi, virei para o outro lado, ainda com sono, pensando espero que não seja um gato o que está me deixando, já chegam o Gatolino e o LF pra me incomodarem.

Eis que agora me vejo com um copo na mão, cheio daquele líquido avermelhado do frasco que me deixou. Levanto os olhos e vejo a tevê colorida, hoje em dia todas são coloridas? Na tela ou seja lá como se chame isso, Argentina jogando contra a Bélgica. Baixo os olhos: estou ajoelhado, será que andei rezando?

Que vergonha, meu Deus, ontem falei aos amigos que não queria mais saber de Copa do Mundo, enfurecido com a atuação brasileira no segundo tempo diante dos irmãos bolivianos. Como dizer que torço emocionado pelos hermanos meus vizinhos?

Ah, amigo é coisa para se guardar, como dizia o compositor mineiro Fernando no seu poema para a Canção da América. Os amigos hão de compreender meu pobre coração.

Arriba, Argentina!

Tomara que ela volte.


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martes, 1 de julio de 2014

Lechuza

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Acordo no meio da noite, 4:15, do dia 1º de julho de 2014. Estou vivo ainda? Apalpo, estou. Enfim recordando a briga que a memória teimava em esconder. Fiquei muito sentido com aquilo, os anos não cicatrizaram a ferida que se abriu no meu coração. Hoje vou fechá-la. Para fechá-la, machuco o meu coração ferido.

Foi por uma bobagem. Sempre é assim, quando muito jovem a gente mete as mãos pelos pés. Ainda bem, o quanto antes melhor, se não for assim depois vêm os tapas e acaba em pancadaria, talvez morte. Acho que Aldir Blanc andou falando algo parecido. 

Não pode dar certo quando uma pessoa ama Beethoven e a outra é fissurada no programa do faustão, e o bobo do Mozart ama e casa pelo corpão da moça. É o que ocorre antes dos divórcios, mas antes não tinha divórcio, a sociedade discriminava pessoas separadas. As pessoas sofriam duplamente. Mais difícil era uma moça querida, amante de livros e de Mahler, querer casar com um atleta semi-analfabeto, pela beleza física do humano, e sua conta bancária, mas acontecia. Destino: tapas na boca, nos olhos, à mesa. Ou uma vida destruída na subserviência, com um destruidor ou destruidora com alma de dar dó pela pequenez.

Não estou falando de marias-chuteiras ou pneu, boleiros ou corredores de auto, hoje motivo de risos, muitos risos errados, porque ali o destino seria pior. Pode ser. Mas não se pode generalizar, há gente maravilhosa em todos os meios. Todos temos uma vida apenas, e dignos somos todos os que a vivemos sem prejudicar ao outro, detentor de uma vida igual a nossa.

Hoje a sociedade discrimina menos. Porém briga, separação, deixa a cicatriz em nossas almas, aos que a tem. Eu desconfio da franqueza de quem sai rindo de uma relação de um ano, imagine dez ou trinta. A pessoa pode ser boa, mas mente a si mesma. Se sair fingindo que não foi nada, ou falando mal do outro, não aprendeu nada. Sequer entendeu que ninguém erra sozinho.

E com crianças no meio, melhor nem falar.

Logo a carne nos toma satisfações e saímos procurar companhia em sites de pessoas igualmente necessitadas, para repetir os mesmos erros. Melhor pagar uma prostituta, que depois não vem incomodar, me disse certa vez um primo, com brutal franqueza, aquele tem mundo, embora ele não fizesse isso, era feliz em casa. Também nunca fiz, antes havia morado em bordel de favor, ainda mocinho conhecia aquela vida, transei com todas as trinta moças do lugar, elas me ensinaram tudo o que sabiam, que manhãs, que tardes, de favor,na caída da tarde me beijavam, e chorávamos juntos pelo destino que nos colocou naquelas camas, era até amanhã, para brincar com as crianças, jogar cartas, diversão, não era somente me ensinarem coisas boas na cama. Até mais, as noites eram de quem pagava, mas na falta de amor de verdade depois tentei e não pude, escrevi sobre isso.

O nosso caso era um pouco, não muito, diferente, ambos gostávamos de boa música.

Caidinha por mim, mimosa, eu amava e conhecia mais tangos que ela e sua família inteira e metade da Argentina, tínhamos amizade apenas, talvez aí o erro, se tu não namorar, outro namora, para não dizer outra coisa.

Amizade coisa nenhuma, ao menos por mi parte: eu alimentava esperança de cumplicidade, beijos, nudez, amor, e em certa noite, querendo agradá-la, disse que achava lindo, fascinante, o seu narizinho de lechuza.

Pra que.

Ela me saiu mal, com um no me gustó com tom de voz inimigo, revoltada, e eu não gostei do seu tom de voz, de raiva por um elogio que cometi, e um tantinho irritado (tinha bebido todas) aumentei: gostei do teu narizinho de lechuza culebra. Fui-me al yuyal.

Fechou o tempo, ela me chamando de bandido, asesino e maricón. A pobre, depois dela tive miles de mulheres, enquanto ela parou no primeiro bobo que a encestou.

E agora, vinte anos passados, fica me acordando de madrugada, o telefone gritando. Vi na luz azulada do celular 5411, ligação de Buenos Ayres, de novo. Chorei de joelhos ao lado da cama, apertando as mãos na cabeça, mas não atendi.

Pero hoje reconheço que eu poderia ter tido mais paciência, ser o que chamam de tolerante, mas sabonete não, por favor. Verdade mesmo, preciso ter mais paciência com as pessoas, tentar entender suas dificuldades. A vida inteira assim? E ninguém correspondendo? Ora vai, acabou a paciência. A rua está cheia de mulheres. Quer um escravo, dona? Faz-me rir o que andas dizendo. Eu queria um amor.

É aquilo, tu leu cem mil livros e desaprende de pegar leve, um grave erro, pois nada sabemos, nunca saberemos, salvo que sei que não sei, como disse aquele outro.

Alex Moraes, o que me diz, nobre poeta e pensador? Falo do Alex porque argentino de Porto Alegre deve entender melhor essas letãs que cantam tangos.

Enfim, perdi a mulher, por burro. E nunca consegui mudar, se é assim que as coisas funcionam sou e sempre serei burro. Insensato destino.

Na última vez que a vi pareceu-me envelhecida, gasta, desesperançada, e ainda com aquele seu lindo narizinho de lechuza.

Una lechucita.

Deixo um tango (1944, música de José Dames y letra de Horacio Sanguinetti).

Viva a Argentina! Os belgas e estadunidenses que se fo... se explodam.

Vou tentar dormir, se ela deixar.



Nada, nada queda en tu casa natal...
Sólo telarañas que teje el yuyal.
El rosal tampoco existe
y es seguro que se ha muerto al irte tú...



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A foto que ilustra a postagem é da cantante argentina Julia Zenko, que interpreta "Nada".

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sábado, 28 de junio de 2014

Churrasco de ouro

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Hoje cedo eu estava em frente à banca 38 do Mercado Público de Porto Alegre, namorando os vinhos e uísques expostos, quando levei um tapinha nas costas e ouvi vozes me festejando.

Eles, os boêmios Wilson Schu e Gustavo Moscão, abraços e tal. No rodízio de assadores, são os encarregados do churrasco no botequim, previsto para sair depois do jogo do Brasil e antes do jogo do Uruguay, no meio da rua. Lá é assim, se chover a turma improvisa cobertura para os barris de latão cortados que lhes servem de churrasqueira. Vieram comprar a carne. 

Contaram-me que antes passaram na Mercearia Zaffurtari, lá na Cidade Baixa, mas o gringo está impossível, ninguém mais agüenta os seus preços. 

- Sala, o sujeito quer R$ 24,90 o quilo de ripa da chuleta, disse Gustavo.

- A picanha é cinqüenta contos!, esbravejou Schu.

Enquanto conversávamos comprei meus vinhozinhos, em seguida acompanhei-os até as bancas de carnes. Na que paramos deu para ver, bem em nossa frente, que a ripa está a R$ 11,90 o quilo.

- Viu? Como vamos comprar dez quilos de ripa, fora outras coisas, só aí a economia será de... deixa ver, hummm, dá treze, vezes dez: 130 paus, falou o Mosca.

Nesse ponto, enquanto aguardavam a chamada da sua senha de atendimento, com muita gente na frente, me contaram que o Bruno Contralouco, que tinha ido junto à Zaffurtari, armou um banzé por lá. Exigia falar com o dono, que não estava, obviamente, então encheu de osso o pobre do gerente, em altos brados:

- Quer dizer que aqui vocês tem o Bezerro de Ouro, é? Pegaram aquele dos crentes, cresceu, virou touro e botaram a cruzar com a Bezerra de Diamante do Boifrio, e agora estão vendendo os descendentes, novilhos castrados entupidos de veneno, mas com pedigree de meio ouro e meio diamante?

O Contra lembrou do Bezerro de Ouro bíblico porque em outros tempos andou se informando, para conhecer o inimigo, como dizia, pois tem bronca de uns tais bispos e pastores que andam de preto por aí. Em frente ao botequim eles não passam mais, ali é certo que apanham, agora quando ele quer se divertir sai caçá-los por outros bairros, nas proximidades dos seus templos, que chama de agências de picaretagem. Certa vez entrou numa, lá perto da Rodoviária, e foi um escândalo, o sujeito lá na frente gritava Aleluia e ele berrava Saravá. Acabou saindo no braço com os gorilas, que não contavam que o Contra é bom de boxe, jiu-jitsu e savate, deu neles lá dentro.

Quando apelou para adjetivos impublicáveis a respeito do gringo da Zaffurtari a turma o arrastou de lá, antes que a polícia chegasse. Uma barbaridade. Não quis vir com os amigos ao Mercado Público porque resolveu se meter na sua gráfica, disse que ia imprimir cinco mil panfletos para distribuir em toda a Cidade Baixa, “dizendo umas verdades e propondo boicote ao filho da mãe”, como disse. Cá comigo penso que isso não vai acabar bem, o gringo não conhece o Bruno, não sabe com quem está lidando.

Pedi aos amigos que me considerem entre os que estarão no churrasco, o rachid da despesa é depois, e me fui para as bancas de legumes, carne já comprei ontem.

Tomara que o Brasil vença, assim talvez o Bruno esqueça o dono da mercearia ao menos por hoje.

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