domingo, 31 de agosto de 2014

Me dá a penúltima (2)

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Foi falar no indivíduo, o gavião calçudo, e Pixinguinha bate aqui em casa pela voz do Almirante: "Chorei, porque, fiquei, sem meu amor, o gavião malvado, bateu asas foi com ela, e me deixou...". Com esta mentalmente peço a conta, fecha, ninguém merece, fico com ciúmes delas, vai que me apareça um boa conversa, todo zé-bonito. Loucura, ai meu Deus, assim insulto as mulheres, se soubessem o que me passou pela cabeça me xingariam por leviano.

Sozinho, deixo rodar mais outra, e quando Aldir Blanc, acompanhado de muitos malandros do bem, uns paus d'água duca, vai terminando a canção "Me dá a penúltima", dele e do João, torno a me amargurar. Para mim tanto faz mesmo se é noite ou se é dia. Ouço a chuva lá fora, amo chuva, isso me tira do sério, me dá uma tristeza, um homem não merece solidão. Num ímpeto visto o paletó, pego a arma, 38 curto, e resolvo sair. Na porta lembro dos zés-bonitos, volto e pego também a Magnum.

Vou esperar as mulheres lá no boteco em frente à boate onde trabalham, boate com quartos e camas, até isso relevo em favor do futuro que combinamos: um bangalô à beira-mar, risos de crianças, chega de trabalho. Falta pouco, já temos um e meio na poupança, mais quinhentos mil e adeus mundo cruel. Por enquanto é dura a rotina: chegam às 5 da matina em casa, acabam dormindo às 7 da manhã, acordam às 3 da tarde, e pegam no serviço às 4, isso não é vida, e fico eu sempre sozinho, salvo nesse horário do amanhecer, onde nos beijamos e nos damos a algumas taradices, mas é pouco, quero mais, em todas as horas do dia. Pensamos em fazer revezamento, uma não trabalha a cada dia, ficando comigo, de modo que cada uma folgasse a cada dezessete dias, mas fizemos as contas e constatamos que isso retardaria a aposentadoria em quase meio ano.

Daqui até às 4:30h ainda dá para jogar uma Vida na mesa de sinuca oficial do fundo do bar, a esta hora da madrugada a turma de desocupados deve estar engalfinhada a cem contos na entrada, com matada de vinte, com dezenas de pessoas assistindo aos bons de taco. Entro com as vidas de quem tiver menos, é de lei, e pagando a média do bolo, aliás, vidas não, a vida, sempre tem um babaca com uminha só. Com as reentradas o bolo a estas horas deve estar beirando a cinco mil. Uma vida é só do que preciso para levar o deles. Não pelo dinheiro, pois cinco mil dá um quinto do que as mulheres faturam num sábado como este, mas pelo gosto de atirá-los de estouro no canto ou de fiapo no meio, rodando a branca na mesa para vir descolar da tabela aos ingênuos que sonhavam em escapar da limpeza. Ah, limpar a mesa. Com trinta cestas tiro o meu da entrada, fácil com 15 bolas bailando no tapete verde. Depois congelo ainda mais a alma e parto para buscar o bolão.

O expediente delas acaba às 4, mas depois vão tomar banho e trocar de roupa, não virão com cheiro de homem para o meu lado, não são loucas, nem com aquelas saias que é um acinte aos moradores do nosso prédio, comprimento de um palmo abaixo dos quadris, barriga de fora. Conversa e tal, não raro saem às 5 do cabaré. Se a Vida emperrar elas que me esperem tomando cerveja, olhando como se ganha dinheiro sem grande esforço físico. Se bem que nisso elas me entendem, no trabalho são profissionais, jamais se deixam trair pelos sentimentos, nunca chegam ao ápice, os otários é que se esvaem, tiveram bom professor, modéstia à parte, e professor meio brabinho, ué, onde é que estamos.

Eu gosto delas. No boteco tomaremos a penúltima, depois todos para o berço. Gosto delas coisa nenhuma, amo de sincero amor. E boêmio nunca toma a última, sempre será a penúltima, até o dia em que o Velho lá de cima chame, aí sim será a derradeira.

sábado, 30 de agosto de 2014

Lupicínio Rodrigues - Cem anos

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Seguindo em direção ao centenário de Lupicínio, hoje vamos com seu clássico Maria Rosa, composto em parceria com o grande Alcides Gonçalves. Na voz dele, Paulinho.

É de época, pombas, de modo que peço que feministas reclamações sejam feitas ao leiteiro, quando este entregar a garrafa amanhã de manhã. Hummm, garrafa de leite, obviamente, pois certa vez, quando era entregador de leite, fui trabalhar borracho, direto da boemia, tinha entrado no beiço num bar, o Batelão, onde Lupi e Rubens Santos cantavam, o porteiro era meu amigo, uma noite inesquecível. 

Mas ali começaram os meus problemas, me atrasei e cheguei no serviço quase seis da manhã, levei um esporro do chefe, piorou quando às sete me enganei e dei uma garrafa de pinga que tinha no casaco para uma alemoa, acabei apanhando de um gigantesco alemão, que se prevaleceu do meu estado lastimável. 

Assim, as senhoras descontentes com a letra que o encham de osso, ao leiteiro, quando o receberem de bobes nos cabelos e de chambre à porta, pois este leiteiro ouvirá em silêncio, ares de concordino, não será como eu que sugeri à alemoa tirar a sua raiva lá dentro, peladinha.


Esta mulher que outrora a tanta gente encantou
Nenhum olhar teve agora, nenhum sorriso encontrou
E então dos velhos vestidos que foram outrora sua predileção
Mandou fazer essa capa de recordação
Vocês marias de agora, amem somente uma vez
Prá que mais tarde esta capa não sirva em vocês


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O que eu nunca soube fazer (1/4)

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Desperto às cinco horas da madrugada de forma brusca, sobressaltado pelos pensamentos que rondaram o cérebro durante o sono. Ergo-me na cama agitado, olho para os lados, ninguém. Pergunto-me o que será este rufar incessante nos miolos, não consigo traduzir. Mais um sonho ou pesadelo perdido na hora de acordar. Antes lembrava deles, repisados delírios.

Tomei memoráveis pileques pela noite, pelos bares, cogitando com Vinícius onde andaria aquela mulher, tomara que casada não, eu disse. Ele calou-se misterioso e depois de outro uísque afirmou que Piazzolla poderia ter acrescentado solo de violino em Years of Solitud. 

Na reverência do teatro curvado ao som do bandoneón, levantei-me e gritei: admirável argentino!, pena esse seu falso desprezo pela popularidade, essa vaidosa confissão dos que se acham gênios da espécie. Arrependi-me, o que foi que eu fiz? Tranquilizei-me, ninguém ouviu, a platéia seguiu inebriada. Não entendi quando o Poetinha, sentado ao lado, em voz e comportamento deixou explícito que a fundamental beleza é a mera impressão de saúde física transmitida aos nervos através dos olhos. Droga, ninguém fez por mal, é a mania que tenho de tecer armadilhas confusas. Mas, em algum tempo, em algum lugar, fui um cego pobre, perdido por não comparecer.

Felizardo terceiro caí do cavalo a galope irresponsável na picada pouco percorrida, mato úmido de chuva. Faltei à festa com gosto de batom. Desapontado, treinei incansavelmente em florestas devastadas, e ao retornar constatei desolado que a antiga vereda sucumbira, como eu, devorada pelo fogo das entranhas. Ofereci o empate, agora nos completávamos.

Passeei com Cazuza de braço pelas ruas de Porto Alegre, cantando músicas pessimistas, sanguíneos, espantando os viventes na parada do ônibus da manhã que vai à luta, a caminho de alguns palácios do mundo com o firme propósito de examinar as piscinas deles, embora soubéssemos de antemão o conteúdo. Fortalezas inexpugnáveis, linha direta das leis, não pudemos entrar.

Quando a intolerância alheia me rotulou de ovelha negra, dei as costas aos meus pais e concidadãos para sempre, saindo da cidade sob o cósmico luar da meia-noite de querubins, galos e incenso, dizendo basta ao prelúdio de cânticos que evoluía na catedral. Lendas, concílios: cântico, cantochão ou ponto-cantado, gritei, é tudo a mesma coisa! Parabenizei Diderot pela frase de tripas e forcas e fui para a fogueira escoltado pelo inquisidor. Sacrifício de qualidade.

A contragosto dancei um bolero azul com o Paulo César Pereio, na penumbra de uma pista de quadrados alternados em amarelo e marrom, os Velhinhos Transviados atacando de Regalame Esta Noche. O desgraçado com barba de três dias, hálito de uísque, careca e com jeito de quem cheirou, duvidando da virilidade por dançar com outro gaúcho. Eu também, preocupado, será que desmunhequei? Besteira, apenas bons companheiros, a sério preferimos encarar canhão.

Briguei com Tio Sam desta vez discutindo abertamente televisão, invasão, dominação, aberração, contrafação, ablação, subtração, apropriação, corrupção. Canhão. Continuei brigado.

Fiquei de mal com a Elis, ela teimava em... 

(...)

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viernes, 29 de agosto de 2014

Se Jamelão fosse branco (em construção)

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Este o cara que a "Grobo" insistia em chamar de puxador de samba, por cantar na Estação Primeira de Mangueira, mesmo depois de velho, a ditadura no Brasil, ditadura horrível de quem a Globo foi mãe e filha e ajudou em tudo, era paga para isso, ainda é paga para nos manter escravos, mesmo com a ditadura fracassada, insistia, insiste, Tio Sam manda nessa vadia, os lesas-pátria que têm bilhões em paraísos mandam. Aecinho sabe. Todos sabemos. Só que uns querem acabar com isso, e fazer um Brasil para todos, boas escolas, etc. Outros querem que fique assim.

Mesmíssima coisa foi a luta contra a escravidão dos negros, uma mácula que ainda precisa ser resgatada, como a indígena. Quem não queria? Em que partidos estão?

Cantor, para a grobo, eram as merdas que queriam empurrar no povo, e conseguiram, pela sua editora de discos, etc,, basta ver o que hoje promovem, então desfazer dos outros, subliminarmente como agem covardes, lhes parecia um bom negócio. Conseguiram, foi uma devastação na cultura nacional, todos nos transformamos, as crianças, em norte-americanos, vendo rambos de mentiras ainda hoje. Volta e meia levam algum estranho, mas às duas da manhã, com um merdinha de apresentador, para dizer que é democracia. Conseguiram, mas não com todos.

Puxador...

Não mesmo, sou cantor há décadas, quem puxa são vocês, moleques, dizia irritado, e acabava ali a entrevista.

Depois eles diziam no jornal que ele era ranzinza... E isso que Jamelão não perguntou aos moleques como os chefes deles obtiveram a concessão de rádio e tv, nem disse que deveriam estar presos por ladrões sujos.

O negócio deles é dinheiro, é medo de viver, e se para ganhar mais precisarem matar crianças, de um modo ou de outro, matam.


Uma das mais belas vozes do Rio de Janeiro, que encantou o país.

martes, 26 de agosto de 2014

Meia-noite em Palmeira das Missões

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Meia-noite entramos no Galpão da Boa Vontade, na Vila Velha. Tomás Candal, Joel Chitão, Tijolinho, Estiga e mais um que não recordo, e eu, o mais gurizinho. O um que não lembro deu no pé quando o ambiente pesou.

Jamais gostei de lá, onde um dia matariam Juarez Godoy. Da cidade já não gostava, pois a imensa maioria de donos de tudo amava, como ainda ama, a ditadura militar. Assassinos.

O baile gaúcho indo bem, nós bebendo cerveja na economia, todos meio duros, e rindo na mesa, o nego Chita junto com o Tomás (Tomaz?) era uma festa, se entendiam sem precisar se olhar, e o Estiga junto, riam por nada, felicidade pura, e sabiam tudo. Tomás um avião de luas e ruas, e Chita o melhor taco do mundo em cesta e em quase tudo, o quase porque o Pato era melhor em domínio de branca. O Estiga músico, e vivido pacas, boêmio in natura, aquele tem cada história, até cerca de arame nos peitos levou. O Tijolinho boa praça, amigo, sincero, e bobo não era, mesmo tendo pai rico, ora, rico, um lutador, rico para a gente que tinha menos ou nada, nada a ver com os ricos de verdade que chupavam o sangue do povo, mas isso jamais influenciou seus atos.

Eu inebriado por estar num baile com amigos, e logo com que amigos, os feras. Eu amava aqueles caras, ainda amo. Com cinco copos de cerveja fiquei tontinho, bem feliz, tinha uns 15 anos. Os mais velhos, rindo e contando piadas, de jeito nenhum foram dançar, para isso eram introvertidos, falavam mal deles na cidade, vão dormir tarde, jogam sinuca, bebem... Se convidassem alguma a dançar perigavam levar um carão. Era ditadura, o reino da burrice.

Mentiras de cidade pequena, Tomás nunca se embebedou, Chita, Estiga e Tijolinho idem, naqueles tempos jamais fizeram fiasco. Não gostavam deles porque eram boêmios, e, salvo o Tijolo, não tínhamos pais abonados, e o pai do Tijolo, que não era tão abonado assim, ali de nada servia, Tijolinho ficava na dele, tentando se ambientar conosco. Um amor de Tijolinho.

Aí olho para a pista, ver as moças dançando, mesmo que a gente não tivesse coragem de tirar as moças é bom ver seus corpos, pernas, imaginar e tal, e um sujeito do lado de lá, uns trinta de idade, me faz uma banana, com raiva. Olhei para trás, era para alguém atrás de mim. Não tinha ninguém atrás de mim. Olhei de novo, ele fez de novo, era comigo. Nunca tinha visto o cara mais gordo. Imediatamente pensei, não era tão inocente: É porque com 15 anos virei titular do Ouro Verde, Caco no gol, o lateral direito não recordo, Rubão, Salazar e Canhoto a defesa, Mandioca no meio... só podia ser isso. Virei titular pela bondade do Chambão Chaves, grande atleta e homem como poucos, o lugar era dele, e ele que me levou.

Pronto, a confusão se armando. Mesmo menino, eu não iria levar ofensa para casa, se no futebol ninguém ousava impunemente e ninguém batia na cara que a mamãe beijou, não seria um filho da puta em baile que me ofenderia sem revide.

O alemão dava um e meio de mim. Falei para os amigos: vai dar confusão, tem um cara que não sei quem é me ameaçando lá do outro lado, acho que vou embora, se ele sair atrás me acerto com ele, tiau e me levantei. O Tomás ralhou: senta!, parentinho. Sentei.

Chita e Tomás cochicharam, eles de frente para a pista, eu estava de costas, mas senti que contaram quantos eles eram. Contaram sete. A gente cinco, tirando o sujeito que saiu ao sentir o drama.

Fiquei nervoso e levantei, é comigo, vou sair. Tomás levantou junto e me disse, senta, tu vai brigar com ele, mas depois. Eu não queria brigar com ninguém, mas não queria que pensassem que me acovardei, assim também não. Sentei de novo.

Esperamos aqui, eles lá, acabar o baile. Últimos a sair, eles se postaram para o lado da saída da cidade, nós aqui em cima na calçada de um velho prédio amarelo. O grandalhão queria me matar mesmo. O Chitão ainda gritou, por que isso, o guri fez alguma coisa de mal para alguém? O próprio alemaozão respondeu: Não, só não gostei da cara dele. Era por ter estreado muito menino no Ouro Verde, só podia, ou por ser amigo do 21, ou do Branco, mas na hora azar, motivos já não importavam, eles queriam.

Chita e Tomás aos gritos de longe acertaram as condições do combate, seria no meio da rua, ele viria de lá e eu iria daqui. Deram o sinal e fui, para morrer, o cara era enorme e eu estava tonto dos copos de cerveja. Ele veio com um sorriso maldoso na boca, sabendo que ia me quebrar todo. Eu tinha a vantagem de ser rápido, músculos em dia pelo futebol, mas brigar com um cara maior, com o dobro da idade...

Quando chegamos a um metro de distância, levantei os braços em proteção, pensando em fingir que lhe daria um soco em cima, mas lhe chutaria os ovos, ele rugiu e veio, quando levei um empurrão vindo de trás, me atirando para o lado, me pegou inesperado, caí na rua, longe do inimigo.

Foi o Tomás Candal Rodrigues. Que disse: "Esperei até agora para ver, seu covarde, se tu teria coragem de tentar bater num menino, perigava até apanhar dele, o guri é bom, mas com covarde como tu ele não vai brigar, quem vai brigar sou eu!".

O grandão se atrapalhou e agrediu o Tomás, que se desviou e ameaçou meter a direita, o cara olhou para a direita e levou um curto de esquerda, Tomás tinha um anel na esquerda que lhe abriu um talho no rosto. Aí, com sangue, quando a gente pensava que começaria a briga de verdade, o sujo se apavorou, seus amigos idem, e saíram correndo em direção ao Espinilho, ou para a zona, tinha uma subida por lá, o nego Chita em cima dos outros, eu já empolgado, Estiga com uma garrafa quebrada na mão, todos nós.

Nunca soube a razão daquilo, da gratuita provocação, mas uma coisa guardei. Amigo é amigo, e Tomás Candal era meu primo segundo, único homem que me chamava de Parentinho e eu gostava, Um homem decente.

Salve Tomás, Salve Joel Chitão, Salve Nelson Tijolinho, Salve Luís Estigarribia.

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Getúlio Vargas, os vermes e onde estão

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Agora, passadas as manifestações de Juremis "acocados" para Edis Macedos, que vende livros sobre Getúlio, passadas as mentiras de pseudos pensadores paulistas, ui, a USP, oh, como se livros somente eles os lessem, ai, a Folha de 1968, o Estadão, e todos que hoje não abrem o bico ao ver uma violenta ditadura em seu estado, com a presidente acuada na ignomímia do que são capazes de lançar, mas eles sem água, imagino se a tivessem, se não tivessem poluído todas as suas águas para vender mais, digo o que Getulio Vargas me lembra: a Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS), Filinto Muller e seus torturadores e assassinos. A DESPS é resultado, neta, bisneta, tetraneta, de longa história de horrores e se vai, desde sempre. Um belo dia a ela sucedeu o DOPS. E Getúlio era santo perto do que fizeram, e fariam com a ditadura. Onde moram os donos do país. Os selvagens que comem caviar com gosto de sangue inocente, onde moram?

Agora sim, já é hora,  falemos disso a sério. Quem impôs, e segue impondo, ditadura no Brasil, antes pelos milicos, agora pela coação, é a elite paulista. Há clãs no RS, em SC de monte, em todo lugar, mas a matriz de Hitler está em São Paulo, os demais seriam esmagados não fosse o poder econômico de onde a serpente mora. Moram nos altos dos morumbis, com cem seguranças em torno dos palácios, eu vi.

O resto é conversa para manter o status quo, e levam o povinho de arrasto.

Brizola não era santo, nenhum político o é, precisam comer, mas Brizola tinha algo mais, muuuuuito mais, e por isso nunca foi presidente do Brasil, eles não permitiriam que alguém tentasse mudança de fato, escolas para todos, essas besteiras, sem mandar matar os desafetos na lei do cão, alguém que desse voz aos mortos de fome de dois anos de idade que hoje perambulam feitos párias pelo Brasil, agora com trinta, os que sobreviveram sem cair na marginalidade para a qual os empurraram, dando graças a Deus se tiverem um casebre para deitar e um mingau aguado para comer.

Ontem morreu um empresário daqueles, um cruel assassino, o primeiro a dar tudo para o Collor, os tais recursos não contabilizados, ou seja, dinheiro de caixa dois, e depois bater boca com o PC quanto sentiu entrando no dele, não me achaque, sou amigo... e ontem todos os políticos correram a lamber o caixão.

Fiquei quieto, morte não se festeja em público. Em silêncio abri uma das champanhes guardadas há tantos anos. Tintim. Foi muito tarde. Por mim poderia ficar vivo, eu queria mesmo é que a áspide, o mentiroso tido como grande tributarista, fosse primeiro para o inferno da sua Opus Dei.

Mas olhei quem correu lá. A Dilma não foi, talvez "problema de agenda", ou por ter vergonha na cara, e mandou o drácula do bando de facínoras ao qual o PT se juntou. Este foi se fazendo de homem sério.


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O primo Bastião

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Um velho, aos oito anos de idade para a gente todos são velhos, deveria ter trinta e muitos, chegou esbaforido dar uma notícia ao pai. O pai velho tinha 35 ou 36, hoje sei, A gente o atendeu no portão de casa, ele me olhou e chamou o pai para um lado. Falou rápido. Eu ouvi. Pelos murmúrios que me chegavam quase inaudíveis mas eu acompanhando o seu mexer de lábios, boa coisa não era, li a palavra hospital.

Logo o pai nervoso me disse que tinha que sair, isso cinco da tarde, estávamos só ele e eu em casa. Eu sei, o senhor vai para o Hospital de Caridade, quero ir junto. Aí o meu velho fez algo de bom: sei lá suas razões mas me levou junto. Visitar o Bastião, fio da tia Otília da Ramada e do tio Quincas, que agora moravam no Espinilho.

Eu ia sempre ao Espinilho, seis léguas, 36 Km na resistência era nada. Lá tinha o rio que passava ao lado da casa, ali de uns doze metros de largura, ou cinco?, na infância tudo parece maior. Rio gelado no inverno, e a tia fazia sopa de milho verde que eu ajudava a plantar e colher no milharal lá detrás, ela ralava as espigas novas que soltavam leite derramado.

O Bastião tinha uns 22 anos, ou 19. Entramos no quartinho do hospital e lá estava ele parecendo uma múmia de cinema de tantas bandagens na caixa do corpo, no rosto e na cabeça, todo enrolado, depois soube que ficou em tiras por culpa de um facão. Por milagre alguém o encontrou se esvaindo em sangue no mato, ao lado de um cara morto.

Aí o Bastião contou pro pai, falando devagar, o pai mandando ele ficar quieto, outro dia conta, mas ele insistiu, malzito mas sem risco de morrer, eu ao lado ouvindo. "Eu não queria briga, tio, mas aí no meio da picada, o nego estava parado de facão na mão, não tinha por onde tirar o cavalo, era no meio do mato, picada estreita, escura de arves, o Toninho conhece", e olhou pra mim, "e o nego gritando cosas feias, de uma morena filha do dono do bolicho que nunca namorei, a gente só tava de zóinho. Aí me lembrei que diz que é feio homem correr, e não tinha por onde sair a menos que desse de rédeas e voltasse, então desci do matungo, peguei minha faquinha da cintura, caminhei pra ele e disse então se bote, negro fiadaputa. Aí nem le conto, tio.".

Anos depois imaginei: facão, em briga corporal, se acertar bem o primeiro faconaço mata ou aleija, aí deu, é como o primeiro soco, que só em filme americano os caras levam e vem de novo, na vida real um soco bem dado tonteia e acabou a briga, dali em diante é um massacre. Mas se errar ou pegar de refilão o faconaço, no corpo a corpo faca é miles de vezes mais eficiente. Facão ou 38 de pertinho, corpo a corpo, vale nada contra uma faca ou punhal. O cara acertou o facão, mas pegou o braço esquerdo, e a faca estava na mão direita, sangrou o elemento na barriga, demora a fazer efeito, veio de novo e cortou o Bastião no peito, no lado, aí parou para ver a barriga vazando, e Bastião malito foi de novo, aí cortou a perna, logo a barriga de novo e puxou para cima, levou um pontaço na cara, e foram indo já deitados, até que o Bastião achou a sua goela.

O primo Bastião já morreu, nem sei de quê, eu já não estava, solito lutava muito longe pela sobrevivência. Mas ao ver Malufes e outros, todos, iguais na televisão, hoje lembrei do meu primo, ele louco de vontade de evitar, seguir em paz a sua vida, até pensou em dar de rédeas. Mas é feio homem correr.


Hora destas teremos que pegar esses caras que insultam, provocam descaradamente, à faca, se for de perto.


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viernes, 22 de agosto de 2014

Perfídia (21)

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O bolero, um clássico mundial, é de Alberto Dominguez (Alberto Dominguez Borrás, San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, 21/4/1911 - 2/9/1975), que o compôs em 1939.

Hoje com o sensacional portoriquenho Daniel Santos (Santurce, Puerto Rico, 5/2/1916 - Flórida, EUA, 27/11/1992).

jueves, 21 de agosto de 2014

É vítima, mocinha

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Hoje vi uma moça, jeitinho de universitária, não sei se com ou sem paitrocínio, linda, rosto pintado, erguendo um cartaz que dizia, pera, acho o cartaz:




Nota dez para o cartaz da moça, pela boa intenção. Se estivesse se referindo ao povo da Dinamarca, tudo bem, mas aqui o cartaz comete uma brutal injustiça, fruto da ignorância, no caso tenra ou manipulada, a ignorância. Há muitas, para não falar da minha, que só falo do que vi e examinei. E aqui nada vai em demérito à gatinha, ao contrário, sei que fez com boa intenção, de repente se de milhões saíssemos com cartazes iguais plantaríamos um grilo onde ele é necessário, embora o grosso dos votos estejam em áreas onde jamais pisaremos. Não, nada contra ela, belo gesto, ainda que equivocado. Parabéns à moça.

O probleminha é outra ignorância, esta que traz a marca da maldade de alguns, que marcam os outros como gado: os milhões de pessoas não somos nós, são eles, o conjunto de um povo burro, inculto, sendo forçado a engolir globos e tal, que rindo elege tiriricas e ladrões (ricaços, ou mandados por ricaços) por ignorar tudo, por absoluta incapacidade de pensar, ainda vendendo voto a quilo de arroz. Como resolver isso? Escolas boas, salários ótimos para professores, estrutura, tudo de bom. Oh, uma maravilha, em 30 anos teremos outro País.

O sujeito, a mulher dele, se vissem a menina com o cartaz, e conseguissem traduzi-lo mais ou menos para o seu mundo, entenderiam picas, ela é louquinha filhinha de papai, diria ele, e ririam. À noite contariam aos parceiros na saída do templo do Edil Macedônio ou de outro canalha desses, e ririam de novo. São milhões de risos, refém de patifes pelo desconhecimento de tudo.

Quem decide isso, sobre a ignorância, o orçamento, a roubalheira, senão o Congresso Nacional?, há séculos um antro de larápios e assassinos formam clãs, que são os próprios ou foram eleitos por banqueiros, empreiteiros, estrangeiros, eleitos com os votos do mesmo povo miserável de quem sugam o sangue desde sempre, de pai para filho, sangue de pessoas a quem atraiçoam para ter casa na praia, conhecer Paris, o mundo, desviar milhões para paraísos fiscais. Esse Congresso que jamais permitirá que exista um povo de média cultura e politizado. Logo teremos ex-futebolistas como Darnlei e Jardel como legisladores, como tantos outros do passado e do presente, em todas as unidades da suposta federação, bichos pagos a bom preço por quem dirige o açougue onde os cortados somos nós. Culpa deles? Nada, são mulas, não sabem o que fazem, salvo o engorde da conta bancária. Obedecerão ordens de quem os levou para levar os incautos que os admiravam como... boleiros. Decisões quem tomará serão os mesmos de sempre. Tiriricas são bons para buscar os votos dos seus, que nunca foram seus, maltratando-os.

Os "empresários", ah, engrossou aqui. O fabricante de chinelinhos vagabundos de plástico, onde 70% do custo de produção era a propaganda na Globo e Xuxas daquela merda ruim para iludir ignorantes, se os governantes não abaixassem as calças, metendo no do povinho, ele mudaria a fábrica para o Nordeste, como mudou, onde pode pagar salários miseráveis e ganhar isenções, de modo a ficar ainda mais podre de rico. (Uns buchos e ruins de cama as mulheres desses caras, o que não vem ao caso, nem prima vai).

Pronto, podem tudo. Isso quando não compram, pagando para eleger, um cabritto qualquer. As fábricas de sapatos, oh, houve tempo em que faliram todas... que peninha, o desemprego. Vai ver quanto têm lá fora, em paraíso fiscal? Quem faliu quem? Empresários... E reclamamos quando alguém sequestra ou mata um animal desses.

E todo mundo sabe disso, o fisco, a justiça, os políticos, e os que mandam. Exceto quem? O povinho que engole novelinhas e faustões e sei mais o quê.

Papo antigo este, achei que a moçada, como a guria do cartaz, sabia. Deveria saber, todas as ciências humanas, supunha, trazem economia no caminho do bacharelato, e o ambiente universitário eu cria livre, será que ainda tem censura, ou os professores é que nunca foram à luta e nada sabem do que se passa lá fora? 


O inimigo, o câncer, não é o povinho. O diabo é como sair deste inferno sem que o povo se machuque ainda mais, só cobrando o roubo de volta aos cofres públicos. Bilhões em paraísos fiscais, hoje talvez quase na marca de um trilhão, em dólares, dezenas de orçamentos anuais do país para educação e saúde.

Não há presidente que resolva, refém que é dos bandoleiros. Um privatiza, dando a alma aos inimigos, vendendo até a mãe da gente; outro resiste, comprando inimigos a bom preço para tentar equilibrar a balança, esses, os inimigos, se vendem fácil, mas na hora do vamos ver não vão ajudar, vão trair.

Saia dessa. Dos nazis do DEM e outros bichos menores dá para nos livrarmos fácil, mas e dos facínoras do PMDB, como?

Abre aspas: O Lula poderia, não fosse a Carta de Recife, onde ele e seus fedelhos nos venderam a todos ao adquirir autorização do grande capital para ganhar uma eleição que estava caindo nas nossas mãos, só mais 4 anos e levaríamos, sem negociar com os vilões, ao natural. Ao se vender, jogou pelo ralo 40 anos de lutas.

E agora, de um lado, os inimigos asquerosos, de outro o PT como fortes concorrentes. No meio a Marina. Pois faço qualquer coisa, exceto a que os paulistas fizeram, mas jamais sairei pela direita.

Repito: se eu fizer negócios com um bandido, um traficante, um ladrão, quem mudou, ele ou eu?

Aqui no Sul, ao falarmos de sexo de jumentos com éguas, de onde sai burro ou mula, e o amor não transcorre bem, a isso chamamos de impasse em conversas de galpão.

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