viernes, 3 de abril de 2015

Elevado a menos

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Bem, eu que virei abstêmio e que hoje a pedido dos amigos que me viram aqui trancado num apê, sozinho nesta madrugada de três de abril, muito chateado com a Klara (mulher é foda, meu, de escorpião ainda por cima, como a outra), tomei uma cervejinha, agora abri outra, me ocorre de soltar o verbo, abrir meu coração:

"Gremista é bom frito! Viva o Peñarol e o Inter!".

Pronto, aliviei a alma.

Tirando a brincadeira com os amigos tricolores (Nacional de Montevideo, por via de consequência), que tomara que se fodam futebolisticamente, conto uma. Estou aqui em Santa Maria, RS, com a mãe, que fará 92 anos em agosto. Pelo avançado da idade ela virou menininha quanto às lembranças. Por vezes não lembra o que fez há pouco (raríssimas vezes, felizmente), mas da meninice vem tudo com uma claridade, riqueza de detalhes, impressionante.

E lembrando do colégio, lá pela década de 30, me saiu com esta:

- Lá na escola tinha um professor, já velhusco, que falava muito pausado, eu tinha uns 8 anos, e ele lia um livro lá na frente: "... esse é o fundamento...".

Um coleguinha perguntou: o que é fundamento, professor?

Ele respondeu naquela vagareza que o caracterizava:

- É poço..., é buraco..., meu fio.

De outra vez falava de mares e rios por este mundão afora, e outro coleguinha perguntou:

- Qual é o maior rio do mundo, fessor?

- É o Uruguai, meu fio, o Uruguai...

Que família bem boba, A mãe, como quem pressente o fim, deu de escrever memórias, descobri que tenho parentes que nem sonhava, por parte da minha avó, muitos em Palmeira das Missões. Seu pai era professor de cidadezinha do interior. Um irmão mais velho, Ulisses Bindé Salazar, é nome de colégio na cidade de Catuipe, que pertencia a Santo Ângelo. Soube quando me disse que continuava escrevendo seu Diário (as memórias estão à parte), meninas tinham Diário. Pode ler, se quiser, meu filho.

Li passagens recentes, último dos muitos cadernos, tímido pela invasão de privacidade.

"25/03/2015 - Levantei bem, tomei meio Diovan 160. O dia está nublado. Às 10h fomos caminhar, eu e o Antônio, Às 12:20h tomei cápsulas de alho, Marília veio aqui com a Lourdes. Antônio enviou a declaração de imposto de renda pela internet. À noite tomei Glipage e um Diovan 160. Lourdes continua dormindo na Marília. Fiz inalação às 22;20h. Dormi bem."

"26/3/2015 - Levantei bem..."

Na passagem que fala de imposto de renda de uma aposentada, que ganha merreca e paga na fonte uma vida inteira de contribuição, ri com amargor ao lembrar dos gerdaus e paloccis da vida, um dia ainda darei um tiro nesses filhos da puta.

Por estas e outras, quando Natividad estava em creche perguntei um dia:

- Quanto é um mais um, pequena?

- Dois, pai.

- E dois elevado a menos um, quanto dá?

Fácil demais, depois que deduzi num quadro improvisado o porquê do resultado. Nada de decorar fórmulas, precisamos saber o porquê das coisas. Um ano depois, quando ela entrou no ensino formal, comprei um quadro verde de verdade para prosseguir, ela já sabendo mais do que um sobre dois. Matemática e filosofia dá na mesma, pois não?

Tanto que um dia, ao sair daquela vida, não precisei falar de motivos, apenas disse a ela: Gorda (era magra), quanto é um trilhão elevado a menos 2.610?

O método era o mesmo, a dedução igual, ela apenas silenciou e foi chorar no quarto, de dor, aos gritos chorando pelo anúncio da minha ausência física, não me perdoando pela fuga, mas no fundo sabendo que eu jamais a abandonaria.

Saí, mas desde então fui um caco. Poço, buraco, minha fia.
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jueves, 26 de marzo de 2015

Quinta-feira, 26 de março, aniversário de Porto Alegre.

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Às sete da manhã aterrissei no laboratório de análises clínicas com um copinho de plástico ainda quente nas mãos. Logo uma morena de parar o trânsito me tirou umas dez cápsulas de sangue da veia esquerda, a melhor. Coisa boa ter 60 anos (em outubro fechei 62, mas minto 60, gosto de número redondo), o sujeito fica mais solto. A moça disse:

- O senhor quer um copo d’água?

- Não, obrigado, moça, estou muito bem, a tontura é por tua causa, vá ser gostosa assim lá em casa.

Ela riu com gosto. Viram? Coroa pode. Bem que na saída me levou até a porta, com um sorrisinho de tomara que ele me morda e, deixa pra lá. Amanhã pego os resultados e jogo em cima da mesa do maldito médico:

- Toma, pega pra ti e vê se não me incomoda mais. (na cuca é “e vê se não me incomoda mais, seu viado”, mas verbalizarei apenas até o “mais”)

Tenho pavor de médico, aquele arzinho de sabe-tudo que aplica pra cima dos coiós. Houve época em que de vingança me profissionalizei em mulher de médico, antes de começar com as mulheres dos políticos. Não gastei o, bem, o verbo por pouco.

Essa frescura de exames e médico é coisa das minhas irmãs, sempre preocupadas com a saúde do único irmão espada, só porque não vou a médico há oito anos. Pombas, três dias de abstinência de tudo, tudinho mesmo. Bem, passou, agora onze da manhã, há meia hora estou namorando aquela garrafa vermelha, umas dez doses antes do almoço cairão bem.

A primeira irá inteirinha para o santo, para que não dê zebra nos exames. Se der, a culpa é deles, então dou uns cascudos no senhor medicinal pós-graduado, volto lá e incendeio o laboratório, a morena tiro antes.


Bem, vamos às amenidades. Pelo jeito que as coisas estão se encaminhando, com o criminoso boicote econômico prestes a acabar, em contrapartida ao afrouxamento do regime, desde que a ilha não volte a ser o bordel dos mafiosos americanos, acho que vou para Cuba, afinal uns e outros vivem me mandando fazer isso. Ou para a Criméia (Ucrânia?). Ao menos até que passe o fedor de idéias redentoras que ando sentindo.
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lunes, 23 de marzo de 2015

Alô, Palmeira das Missões

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Bueno, no lançamento do meu último livrinho, nem tão livrinho assim, pois tem 176 páginas, capa e ilustrações do cartunista e outros bichos mineiro Nani, da cidade de Esmeraldas, há décadas carioca por adoção, e quarta capa, que eu chamava de contracapa, da artista plástica nascida em São Gabriel (RS), Carmen Medeiros, também como Nani adotada pela capital, ela Porto Alegre, bem, no lançamento, desta vez na minha terra, Palmeira das Missões (RS), os amigos e amigas de infância compareceram em peso. 


Uma beleza, todo mundo feliz no espaço multicultural “Bolicho da Praça”, no meio da Praça da Matriz, no coração da cidade. Ainda que eu tenha me sumido mundo afora há 42 anos, a turma não me esqueceu, pois amigo é o irmão que a gente escolhe. 


São incontáveis os amigos que tive, mas dou dois exemplos: carreguei por décadas num vão na carteira uma foto do Paulinho Sampaio, pois amigos trocavam fotos. Uma 3 x 4, no verso escrito: "Ao Sala, un recuerdo de mi persona". Com o Pato, depois das caipirinhas e do carreteiro - D. Iracema fazia como ninguém um carreteiro de charque, com banha, nada de óleos transgênicos muquiranas - e salada de cebola com vinagre e sal, aí, aos sábados à noite, quando eventualmente sairíamos para lados diferentes, era assim: quanto tu tem? Vinte pilas, e tu? Cinquenta. Somando dá setenta, então é trinta e cinco para cada um. Do Branco nem falo. E o 21 então? Tantos...

Da D. Iracema, mãe do Pato, é impossível, ao citá-la, não lembrar que ao nos ver lá embaixo das árvores ao anoitecer, chegados dos treinos no Ouro Verde - Pato e eu chegamos a jogar juntos no Ouro Verde, eu zagueiro e ele centroavante, como em futebol de salão no SAPAL, que só me convidava nas ruins, e na seleção da cidade, aliás, vai outro aliás: aliás, nunca perdi pelo SAPAL ou pela seleção da cidade. O primeiro era de per si uma seleção, com Sapinho, Xexéu, Pato, o pior jogo foi contra uma CEEE com Pito e um monte de cara bom, homens feitos, e com o Caco de enxerto na goleira deles, saiu um 3 a 3 sofrido pra ambos os lados. Fiz o meu lá de longe, de bico embaixo do pau, empatando o jogo em 3, eia!, só falo das boas, bem...


Onde andava? Esta mania de ir misturando os assuntos... Ah: na semi-obscuridade tomando caipirinha e falando mal dos terroristas de verde (estávamos em plena ditadura, os porões do DOPS e outros bichos banhados de sangue de gente indefesa que berrava alucinada no horror da tortura), a D. Iracema metia a cara na janela e dizia: "A 'fruita' não cai longe do pé", referindo-se ao trago, vez que nossos pais eram meio chegados no mé, o dele já falecido e o meu ainda dando algum trabalho. 

Pobres dos velhos, nada faziam de mal, só trabalhavam, mereciam umas cervejinhas de vez em quando, o diabo é explicar isso pra mulher que, deixa pra lá.

Começamos a função de lançamento de livro às sete da noite, e seguimos na maior calma, com direito a tempo para recordações do que aprontamos na meninice, fotografias, risos...

Claro, a cada dedicatória o humilde autor tomava um copito de cerveja, por vezes dava um tirambaço num cantil que tinha no bolso interno direito do paletó, de um líquido vermelho que passarinho, decididamente, não bebe. No lado esquerdo, sobre o coração, onde normalmente iria um 38, estava a surrada carteira com uns caraminguás para os chopes que inevitavelmente viriam em outro lugar depois de concluídos os trabalhos culturais.

Pelas onze ou meia-noite – não estou bem certo devido aos tragos que me forçaram a beber - estourou a função e, como o prometido, fui encontrar os camaradas mais antigos numa choperia ali perto.

Na choperia estavam, entre outros, Itiberê dos Santos (o Branco), Cesar Tassi, Edu “Polaco” Tassi, o radialista Odercio Hubner, Sérgio Padilha, Luiz Cavalheiro e o nosso sensacional instrumentista (harmônica, gaita de boca ou de beiços) Telmo Mendes. Choperia lotada, deu música nas mesas que juntamos, claro, até eu cantei, se é que aquilo é cantar, duas ou três, destaque para “Mano a mano”. Passada a metade do tango, quando disse:

“Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado;
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás...
Los favores recibidos creo habértelos pagado
y, si alguna deuda chica sin querer se me ha olvidado,
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.

Aí eu já estava com os olhos molhados, pois me lembrei de umas tiangas de outras paragens que só judiaram do meu pobre coração.

Telmo me disse que agora só toca a sua famosa gaita de boca lá de vez em quando, quando bebe. Manifestei minha saudade dos tempos em que ele tocava todos os dias e cantávamos madrugada adentro.

Com Itiberê e Telmo recordei de uma passagem em que estávamos juntos numa galinhada, que na verdade era peruada. Todos gostam de galinha ou peru, mas os boêmios amam é de madrugada, com a penosa ou o penoso roubado, se não for roubado não tem graça. Daquela vez, pisando em ovos, não foi galinheiro que um de nós invadiu às duas da matina, e sim um peruzeiro. O camarada saiu de lá pé por pé abraçado ao enorme bicho, vai passando abaixo da janela do dono da casa e o penoso dispara: Glu-glu-glu! Ali começou a ser estrangulado. Contarei outro dia aquela triste passagem, quando nos expusemos à ira dos Defensores dos Direitos Humanos..., ã, digo, Peruanos.

Tem uma com o Polaco, a gente em Porto Alegre, que aproveitei e lhe pedi autorização pra contar. "Por mim que abiche, Sala, pode contar e botar o meu nome". Quanto ao Cesar, esqueci de lhe pedir se me permite contar que ele morou com uma viração linda de corpo e tudo, rica pessoa, que era alucinada de amor por ele. Outro dia peço e então conto.

As fotos virão com o passar dos dias. Da máquina fotográfica que levamos, minha agente (A Gente) literária Jane Capelão da Silva e eu, que trouxe comigo para Santa Maria, à máquina, não a Jane (tenho irmã hospitalizada, vim para Santa Maria por isso), não consegui arrancar as fotos da miserável, não dei-lhe um tiro para não acordar a mãe, mas grudei o objeto na parede. Amanhã peço pra minha sobrinha, filha da hospitalizada, me ajudar. Porém muitos amigos tiraram fotos e m’as enviarão logo que der, como a amiga Lígia, irmã da Jane, e o nosso anfitrião Aurelio Moraes.

Passei uma manhã percorrendo a cidade. O Antenor Vargas (Tena) nos tirou da cama às sete da manhã e bancou o cicerone, atenciosíssimo. Uma beleza, muita coisa mudada para muito melhor. Só estranhei que sumiram os campinhos onde a piazada jogava bola. Aquele da frente da casa do Sérgio Padilha deu lugar a um mundaréu de casas, idem o da Bariri, meu Deus, onde a gurizada joga bola atualmente? Lembro que quando íamos, nós da Vila Nova, jogar na Bariri contra a turma da Vila 6 de Maio, era uma guerra, não raro fechava o tempo. No campinho da Gal. Firmino, da frente dos Padilhas, a gente enchia o leque e tinha que ir buscar a bola lá dentro da casa dos Bones. Isso me faz lembrar de outras guerras, quando jogávamos contra os bambas da Vila Velha, nunca perdi para eles, eheheh, eles perdiam e saíam reclamando que a gente batia muito, entrando de sola nas divididas, mas esqueciam de contar das meia-luas e balãozinhos que levavam. De se reconhecer que tinham um timaço e eram atletas muito leais.

Obviamente que percebi outras significativas mudanças. Por exemplo, a coxilha da subida para a zona do meretrício, caminho para a Água Morna, está coalhada de habitações. Aliás, não existe mais zona, os arriados dizem que faliu devido à forte concorrência da cidade. A zona, para os amigos da Indonésia que me lêem, era um bairro separado da cidade por alguns quilômetros, para não ofender os bons costumes, onde se exercia a profissão mais antiga do mundo. Foi inaugurado como Vila Jardim, se não me engano, porém pouco antes a capital brasileira havia sido fundada, então imediatamente o povo o renomeou para Vila Brasília, nome logo reduzido para somente Brasília, que, como sabemos, ainda hoje é um infernal prostíbulo, muito pior que a nossa pobre Vila Jardim com seus duzentos cabarés, pois na verdadeira capital pululam criminosos de toda ordem. O Estádio dos Eucaliptus, do Palmeirense, não tem mais eucaliptus, logo os bandos de andorinhas, depois do seu maravilhoso bailado pelos céus, já não têm onde pousar nos anoiteceres de verão.

A história que pretendia contar nada tem a ver com isto, é outra coisa, as palavrinhas acima vão como introito. O que interessa mesmo, que me deixa trêmulo, começa nos próximos parágrafos.

Ah, em tempo: a única foto que de momento disponho para registrar o evento é com Cleri Covcevich, a deslumbrante amiga da minha mana mais velha, esta mana que agora é carioca. Lembrava vagamente da Cleri, mas conheci seu irmão. Aliás, a dama entrou no recinto e quase desmaiei de emoção, não a via desde menino. 

Muito obrigado, Cleri, a mana Lourdinha, que pediu para representá-la no evento por impossibilitada de ir, ficou muito contente, diz que se sentiu verdadeiramente representada com a tua ida. 

Inspirado em Cleri, senhora de rara beleza e amiga que torcerá por mim, daquele instante em diante um pensamentinho ficou latejando. Vamos aos tais "próximos parágrafos", onde as boas intenções serão reveladas.

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Dei um abraço no mui digno amigo Aurelio Moraes, agradeci toda a sua atenção pessoal e a dedicada pelo município que ele bem representa, e me fui para a tal choperia, ruminando aquele pensamento lindo, de certo modo atroz, que culminava com um: "Como fui burro".

Pombas, parei de contar os namoros que tive lá pelo número 250, há muitos anos. Digo que fui namorado de muitas mulheres, mas este é um modo novo de expressar a relação, antes o pessoal diria que fui amigado ou amasiado. Até casado, quando era mais bobinho do que sou agora. Percebo que mudei, estou morando no Covil 7, agora rareiam as namoradas, no máximo doze por ano, em média uma por mês. No Covil 1 foram umas 80, no 2 me amiguei e fiquei dois anos com duas, no total não passaram de 15, piorou no 3, quando voltei ao 1... Sim, amigos, fiquei tísico, mas me recuperei graças a um médico que me receitou uma mistura de abacate com outros frutos, e massa, e ovo frito, comia feito um condenado para poder dar conta. Agora acho que estou ficando velho. Snif.

Depois que a legislação mudou, presumindo casado se com dois anos de convívio, acidentalmente nenhum amor de morar junto durou mais que um ano e onze meses.

Vi-me num grande espelho ao caminhar para encontrar os amigos, mirando o céu ou a calçada da velha Praça onde pisava, pois, mesmo após tanto tempo, conheço uma por uma, estrelas do céu vistas daquele ângulo e pedras daquele caminho. 

Tive somente uma namorada em Palmeira das Missões, antes de me sumir: eu era perdidamente apaixonado por ela, e ela não era da vereda dos guaranis missioneiros: era germânica nascida em Santa Catarina. Demorei demais para me arranjar na vida em Porto Alegre, e ela rapidamente casou com outro, o que compreendi e lhe dei razão. O mesmo ocorreu com uma moça de São Sepé, 120 porto-alegrenses, algumas capixabas, muitas mineiras, em Belém do Pará quase deu certo, em São Paulo elas diziam vamos tomar chopiss, Salito. Nenhuma delas daria certo mesmo, pelo fogaréu que espalhei por aí, não sossegava, queria todas ao mesmo tempo, possível reflexo do trauma com a catarinense.

Na saída da choperia, às duas da matina, hora de roubar uma galinha ou uma perua para amanhecer de festa, meu primo Branco, que me levaria ao hotel no outro lado da cidade, disse:

- Toninho (sou Salazar, Sala, Salito, mas pra ele sempre serei Toninho), vou ali adiante levar um lero, demoro meia-hora, toma aqui esta cerveja, sente ali num banco no meio da Praça, olhe pro céu, recorde de quantas escolas tu foi expulso, só daqui dá pra ver duas, a Normal e o Cacique Nenguirú, que eu já volto, não demoro.

- Pára, Branco, eu que me demiti das escolas, expulso só de uma ou duas, eu era e ainda sou muito tímido, mas brigava, ou mandava algum professor da ditadura à puta que o pariu, nada mais, nunca comecei encrenca.

- Tou brincando, Toninho, vai, senta lá.

Fui. Tomei a cerveja olhando o céu estrelado. E o pensamento acelerando: nunca namorei nenhuma conterrânea. E só quebrei a cara nesta porca vida.

Então me levantei, caminhei até o meio da Praça, e comecei em voz alta:

"Buenas por aqui me acho".

Pra não ferir suscetibilidades fiquei por aí, pois a frase completa todos os gaúchos conhecem, aqui encurto: "Buenas por aqui me acho, cortando crina - ou trança - de china e aparando guampa de macho". Se dissesse, eu diria trança, não sou tão grosso.

Silêncio em Palmeira das Missões, até os grilos se calaram ao ouvir o Buenas por aqui me acho, pensando lá vem bomba. A Estrela da Manhã teve um inusitado brilho.

Então enchi os pulmões e exclamei decidido, para todo o mundo ouvir:

ALÔ, PALMEIRA DAS MISSÕES: VOU ME CASAR COM UMA PALMEIRENSE!

Um ventinho bom invadiu as casas, despertou quem dormia, as insones sorriram, e vieram os gritinhos de vozes femininas de todos os lados: Iurrú; isso, amado, vem pra mim; beijinhos Sala; tou aqui meu amor; tarado te espero; ai meu gatão; querido tou te esperando; vem gostosinho; iuú, quero 69; tou aqui, sou carinhosinha; ai, topo tudo mas só depois de casar de papel passado... (esta última isolei mentalmente, eu, hein?), centenas, milhares de vozes.

Uma felicidade imensa me invadia quando ribombou umas quinze mil estrondosas vozes masculinas, graves, numa vaia universal, o chão estremeceu, caíram quadros das paredes das casas, pratos e espelhos quebraram: Buuuuú...; viado; fiadaputa; vai dar pra quem te come; bichona; quer morrer miserave?; pode te sumir pra Porto Alegre, bobalhão; por aí...

Só pode ser gozação dos caras. Ué, sou da terra, e quem sai aos seus não degenera, nunca traí a raça, espada honesto e sincero.

Pombas, só quero uma das gurias, e para casar. Guria é força de expressão, gosto mesmo é de mulher feita. Casar? Bem, talvez amigar ou amasiar. Antes havia convidado, à guisa de brincadeira, uma linda de origem alemã, ou seria polaca?, na verdade a loura descende de ucranianos, algo como Muzychuk (nome falso, companheiros, talvez assemelhado, aqui ó que vou entregar pra vocês, ainda não desisti dela), aquela que me deixou trêmulo, febril, natural da Vilinha da Palmeira, que encontrei lá perto do Clube quando me encaminhava para o Bolicho da Praça. Que coisa, em Palmeira tem todas as nacionalidades, eu mesmo venho de portugueses e espanhóis, mas Ucrânia... meio longinho, tomara que seja descendente de algum libertário da Criméia.

Dessa não digo o nome completo para não alertar os gansos, pois farei nova investida, vai que eu pegue na loteria e apareça em Palmeira pintado de ouro, as coisas podem mudar... Insinuei meu interesse vagamente, dizendo a ela enquanto caía de joelhos, braços abertos: "Case comigo, ó estrela brilhante, pelo amor de Deus!". E arrematei com elogios que não convém aqui reprisar, vez que palavras um tantinho calientes, tipo: "Ai, querida, quero morrer pelado, aos beijos, na mesma cama que você". Ela abriu aquele sorriso lindo e respondeu: "Nem morta, Sala, já ouvi falar de ti, conheço a tua faminha, e já me incomodei demais com homem nesta vida". É sempre assim, os outros que aprontam e eu que pago o pato.

Tudo bem, um a zero para os detratores que me vaiaram, mas hei de virar esse jogo, pois vou acampar um ano lá no Branco. Meu primo tem cama de casal, geladeira e tudo pra mim num anexo, mais churrasqueira, fogão à lenha, mesona e tudo no galpão ao lado. Como me disse o Estiga ao me encontrar outro dia: "Tu não perde a cisma, hein, meu? Cachorro ovelheiro se avança até em pelego". Pois é, né. E Branco possui uma artilharia de primeira, só não tem tanque de guerra, mas pelo sim, pelo não, levarei mais uns ferros. Ah, não posso esquecer de contar aquela vez em que o Estiga levou uma cerca de arame nos peitos, na zona.

Aguardem-me. Há décadas a felicidade estava na minha cara e não a vi, porém voltarei para as minhas origens, abatido, é certo, mas hei de arrumar a minha vida. Só que vou querer ver a certidão de nascimento da moça, vale as nascidas em cidades vizinhas emancipadas ou não de Palmeira, de Panambi até Frederico. 

Tudo há de dar certo. Serei feliz.


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martes, 3 de marzo de 2015

Corneteando

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Eu ali, paradão na frente do computador, música rolando com Lúcio Cardim, "Matriz ou Filial", e me deu uma coisa. Pensei na Cigana, uma mulher que certa vez me aprontou feio. Remexi num velho baú e achei a corneta roubada do quartel ao dar baixa do exército em Santo Ângelo, onde lavei muito lombo e pau de cavalo. Na verdade a ganhei do corneteiro, que era meu amigo, mas foi roubada igual.

Atravessei a sala grande e abri a porta do quartão. Toquei a corneta a mil às sete da manhã, com "Sentido". As minhas 24 mulheres deram um pulo sentando na camona de miles de metros quadrados, nervosas. O que foi, louco, o que foi? Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, pegou o punhal e se veio pelada de lá: quem foi que brigou contigo, meu amor?!

Volta pra cama, Mariana, não foi nada, só vou fazer um comunicado. Atenção a todas: reunião para discutir assuntos graves da nossa família às dez da manhã, então espero que às cinco para as dez as senhoritas estejam todas na sala grande, vestidas adequadamente. Pensei em tocar "Calar baioneta" para que elas entendessem a seriedade do caso, mas resolvi deixar para mais tarde. Emiti o toque de "Descansar", dei as costas e fechei a porta.

Ouvi uns sussurros de insubordinação da Frida lá dentro, eu e meus ouvidos de gato: "Pombas, ele podia tocar essa porra de corneta às nove e meia então". Fingi que não ouvi, mas a marquei na paleta.

Voltei pra salinha do computador, enchi o copo de vinho e tornei a rodar Lúcio Cardim: "Quem sou eu, pra ter direitos exclusivos sobre ela...".

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lunes, 2 de marzo de 2015

Trio das Quartas

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PRA DERRETER O MEU POBRE CORAÇÃO

Mirem que luxo. Neste domingo o TRIO das QUARTAS em vídeo numa rua do Leblon, despreendidos, arrogância e "se achar" não existe em almas boas, superiores. Artistas de rara sensibilidade.

Aliás, todos os meus amigos são assim, despreendidos: tocam, cantam, desenham, esculpem, declamam, compõem, atuam, pintam ou escrevem em qualquer lugar. Loucos.



O Trio por regra se apresenta em Copacabana (na rua Tonelero, 153, d), no afamado Carioquês, todas as quartas-feiras à noite.



Os queridos: Cláudia Barcellos, ao violino, Renato Aroeira no sax e Kiko Chavez ao violão, Kiko já meio dentro do bar, ai que sede de um chopinho, tirando notas de desmaiar o passante desavisado.

Aroeira, sax doirado (o sax, invenção do belga Adolphe Sax em 1846, emite o som que, em intensidade, mais se assemelha à voz humana), como todos sabemos, também é um dos maiores cartunistas/chargistas e outros bichos do Brasil. A Cláudia, então... bem, o vídeo diz melhor que palavras, essa moça nem precisava ser a virtuose que é, só o seu jeito de ser, o sorriso amigável, vale muitas vidas. Sortudo o Aroeira, seu amor. Pensando bem, sortudos ambos.

No vídeo... "com o auxílio luxuoso de Cosme Lage, na cuíca... E de um super médico/pandeirista que passou por lá..."

Fazem isso pra me provocar, snif, sabem que morro de saudades do Rio. Quem mandou arranjar tanto bolo, tanta filha, tanta namorada, em Porto Alegre. 

Bem, saíram à rua, festejar o aniversário do Rio.

PS: Vi hoje, 11 de março de 2015, recado do Aroeira lá embaixo, com honra ao mérito: "O médico do Pandeiro é o Doutor Alexandre! Vou encontrá-lo, já descobri amigos comuns."


Ou eu que não bato bem, ou é de cinema:  Violino, Saxofone, violão, cuíca e pandeiro. Com gente de alta qualidade. Isso dá LP, CD. Foi o que me disse Aroeira ontem, vai sair disco. Oba!






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martes, 3 de febrero de 2015

TECNICALIDADES: Petrobrás, corpo funcional, auditores e outros bichos

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Como profissional tem um treco me incomodando desde o primeiro traque no caso Petrobrás. Finalmente alguém da imprensa se tocou, pois lá adiante em sua coluna no Estadão em 1º de fevereiro a senhora Eliane Cantanhêde diz:

"Um parênteses doloroso, constrangedor: nunca tantas pessoas - dos governos, da área privada e principalmente dos quadros da empresa - lavaram as mãos, fecharam olhos e ouvidos e calaram diante de tamanho descalabro. Ninguém via aquilo tudo?! Durante tanto tempo?!"

Pois é, auditores internos, auditores externos, conselho fiscal e, principalmente, o quadro funcional, este lotado de gente que é do ramo, ninguém viu nada, ninguém pressentiu nada? Em parte relevo a auditoria externa, mas somente no caso de ter sido realmente formado um grande cartel envolvendo todos os grandes fornecedores, pois aí a comparação de preços vai para o brejo, mesmo contando, como deveria ser o caso, com engenheiros especializados no grupo de auditores.

Em estatal conselho fiscal não conta, são apadrinhados políticos, quando não políticos não reeleitos, que estão lá, numa reunião trimestral de um dia, mensal quando muito, com passagens aéreas, hotel, diária e mordomias pagas pela "fiscalizada", para receber polpudos honorários e dizer Sim aos números apresentados, num teatrinho de péssima qualidade, como o Sr. Tesoureiro em Itaipu, um que dizem que logo estará preso, pois não é bem de usina hidrelétrica que ele entende. Quem o colocou lá na tesouraria e em Itaipu?

Pois hoje leio que a minha confrade Dilminha, hoje Vossa Excelência, e aqui quem abre parênteses sou eu: melhor chamar de ex-confrade, pois desde que se mandou para Brasília nunca mais me deu o ar de graça, não sei ao certo a razão, se por refém dos notórios de São Paulo ou para evitar briga feia, pois ela sabe muito bem que caso fosse convocado a ajudá-la ao primeiro sinal de 171 desbarataria a tapa a tropa de ladrões que a cerca, antes de chamar a polícia, pois o caminho das pedras é fácil de encontrar para quem quer ver, nem se precisa conhecer rengo sentado e cego dormindo. Gritacéu com holofotes, pois como sabemos há que se fazer barulho como proteção, para evitar que mandem te matar na calada da noite, sabemos como é, pois não?, um assalto por encomenda, onde a vítima reagiu e tal, a armação de sempre, salve Celso Daniel, temo que aquela assombração acabe saindo de lombo liso e sem dar com a língua nos dentes. Esta mania de ir mudando de assunto...

Bem, dizia que hoje leio que a nossa presidente - que reputo uma pessoa inteligente, séria e honesta - deseja o balanço da Petrobrás com o aval dos auditores independentes. Como se dizia lá na velha Palmeira das Missões: quero ser um cachorro se o Parecer - que os ilustres agora chamam de Relatório em inútil tentativa de tirar o seu da reta - dos nobres auditores não vier com, no mínimo, uma bruta ressalva, maligna na medida que será sem quantificação, isto é, colocando em dúvida todos os números, os ativos, passivos e patrimônio líquido, como também ao resultado do exercício, onde sabe Deus o quanto o custo do produto vendido está inflado pela grana que foi parar no bolso dos assaltantes. Tenho mesmo curiosidade de ver como virá o tal "Relatório", visto que a múlti europeia em 31/dez/2013 emitiu o seu parecer limpinho da silva, está tudo certinho, escreveu.

Por mi parte a última vez que botei o pé numa estatal, talvez a mais sensível da esfera federal, acompanhado de cinco colegas - desses cinco quem corria menos voava - caiu o presidente, "indicado" político, obviamente, antes da entrega do nosso Parecer. Se antes meu nome tinha sido riscado aí que apagaram de vez. Sobrevivi, ó nobres políticos, malgrado seus esforços pelo contrário, mas reconheço que não foi mole.

De observar que por alguma razão desconhecida as nossas estatais tem verdadeira paixão por empresas de auditoria multinacionais, pródigas em escândalos mundo afora, enquanto temos auditorias nacionais muito mais competentes. Aliás, não apenas as estatais como todos os grandes conglomerados empresariais amam falar "ingreis", o velho complexo de vira-latas. 

Lembro de um banco que explodiu no século passado, onde o seu Contas a Receber era de 10 bilhões, sendo 9 bilhões falsos, simplesmente os devedores não existiam, e os tetéios dos auditores múltis "não viram". Ninguém foi preso, à época nada se investigava seriamente, o poder político desses que agora são oposição impedia qualquer medida nesse sentido, o governo assumiu o preju e botaram uma pedra em cima do assunto. Enfim, europeus e norte-americanos agradecem penhoradamente a distinção, pois seus governos ficam sabendo, antes do nosso, de nossos números, quando não de segredos estratégicos.

Y así pasan los días.

(A charge é do Aroeira)

sábado, 24 de enero de 2015

Um chope pra distrair

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Hoje ouvi um som que sempre rola no Beco do Oitavo, aqui em Porto Alegre a turma não esquece, no verão então nem se fala.

Ninguém esquece muitas coisas. Eu também não esqueço. Saindo da Rua da Praia subo a Rua da Ladeira pensando em ir de a pé até o Beco do Oitavo ouvir música e tomar umas e outras com o pessoal, e repentinamente lembro de Mr. Febraban, uma raiva surda me corrói o coração. O agiota facínora que, além de me fincar um processo nas costas, agora encarregou um escravo português pra espalhar que a culpa da agiotagem é minha, que se dependesse dele os juros seriam baixinhos, que dá desconto se eu pagar aquele caminhão de dinheiro. Hipócrita asqueroso, vou pagar não, meu chapa, nadinha, vou é te dar um tiro na cara.

Sei que ele contratou uns mercenários pra me apagar caso eu não pague, eu já imaginava, conheço seus métodos, mas ele deu azar porque fiquei sabendo no mesmo dia. Antes o tiro seria nos peitos, agora será na cara, não adianta se cercar de mil seguranças, vou disparar com bala dundum de cima de um prédio a trezentos metros de distância, com teleobjetiva acoplada no rifle. Irá para o velório, antes do inferno, de caixão fechado.

Entro à esquerda na Rua Nova, que os viados rebatizaram de Andrade Neves, e lá adiante resolvo fazer uma pausa e me instalo, suado, numa mesa na rua do bar "Viene!", em frente à Travessa Acylino de Carvalho. Ao me ver o garçom me reconhece e grita pra dentro: "Um chope torre!". Concluo a frase em pensamento: "pra distrair", já com a cabeça em Dolores.

Ao diabo com o Febrabo, outro dia abotôo o paletó daquele filho da puta. Saí de casa de camiseta regata do Inter, não tinha como enrustir a Magnum no corpo. Ah, Dolores... Vou pensar em Dolores Sierra.

Acabo tomando seis torres geladérrimas antes de seguir em frente, com uns tirambaços de trigo-velho para sentir aquele calorzinho na goela.

Vem!

A canção inunda a Rua da Fonte, vinda de um dos carros parados na fila da sinaleira.

É dele mesmo, do pernambucano Paulo Diniz (Paulo Lira de Oliveira - Pesqueira, PE, nascido num dia de verão como hoje, 24/01/1940), não faz muito tempo soube que ele continua rodando por aí, distribuindo emoções vivas, agora numa cadeira de rodas por conta de uma tal doença misteriosa que felizmente não lhe afetou a cuca nem a voz.

Aos amigos que agora estão pelos bares, aqui ou na praia: tomem uns trinta chopes por mim, os tirambaços podem ser de steinhager, visto que de momento estou de recesso, até amanhã à tardinha somente, pois também sou gente, ué.

Post Scriptum: O textinho, à exceção dos dois últimos parágrafos, ainda dará samba.



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Meu texto final sobre o caso Charlie

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Aí está, o texto do Miguel do Rosário. Como disse o mestre Santiago: "Enfim um texto definitivo para quem quiser saber o que era realmente o jornal Charlie, órgão de esquerda extremamente combativo e lamentavelmente mal compreendido ou desentendido pela própria esquerda ou parte dela, que de repente hipocritamente virou 'respeitadora das religiões'".

A minha simpatia para com o Miguel não advém do fato de sermos igualmente uns duros de grana, nem por uns processinhos nas costas (ao que parece sou um pouquinho mais vingativo, para mim a Justiça termina e vira outra coisa quando se transforma em injustiça, eles que venham), e sim porque ele é excelente de pena e de pensamento.

Vale a pena ler a íntegra, que copiei/colei do Tijolaço.

Logo no começo Miguel diz:

"Pobre, sem filhos, morando num quarto e sala na Lapa.
Mas livre.
E em Paris.
Não quero pensar nos R$ 20 mil que o diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, conseguiu arrancar de mim na Justiça, e que terei de pagar a qualquer momento.
Liberdade de expressão, para a Globo, vale só para blogueiros de Cuba e chargistas de Paris."

O assunto é o Charlie, porém concluo dizendo que desliguei esse lixo de tevê para sempre há mais de 20 anos, mas, em solidariedade ao Miguel do Rosário, desde Porto Alegre mando à merda esse tal de Ali Camelo e todos os donos da porcaria da Globo - metástase -, que vão sifuder. Um dia a casa cai.



Meu texto final sobre o caso Charlie


17 de janeiro de 2015 | 12:32 Autor: Miguel do Rosário

racista
Estou em Paris, onde permaneço até o dia 23.
Minha mulher veio a trabalho e aproveitei para ficar em seu quarto de hotel. Comprei uma passagem em duas vezes, no cartão, com pagamento da primeira parcela no próximo dia 5. Digo isso para afastar insinuações sobre minha “prosperidade”. Infelizmente continuo um blogueiro pobre, que vive da mão-para-boca, sem outra renda que as assinaturas e contribuições dos leitores, além dos anúncios randômicos do Adsense.
Pobre, sem filhos, morando num quarto e sala na Lapa.
Mas livre.
E em Paris.
Não quero pensar nos R$ 20 mil que o diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, conseguiu arrancar de mim na Justiça, e que terei de pagar a qualquer momento.
Liberdade de expressão, para a Globo, vale só para blogueiros de Cuba e chargistas de Paris.
Para blogueiros do Brasil, é só porrada e processo na Justiça. De vez em quando morre um blogueiro assassinado, sem que haja qualquer repercussão em nossa mídia.
Eu sempre detestei essas ondas linchatórias das redes sociais, que não admitem o contraditório, e vão num crescendo que se transforma rapidamente numa grande fogueira inquisitória.
No caso do Charlie, com a sua redação dizimada, e seus desenhistas mortos, sem poderem se defender, fiquei particularmente indignado com as acusações apressadas contra seu trabalho.
E mais chocado ainda porque as acusações partiram principalmente da esquerda, absorvida por um rancor incrível contra os desenhistas. Mesmo depois de explicados os contextos das charges mais pesadas, e esclarecido que a linha do jornal era fortemente anti-racista, pró-socialista, pró-trabalhista, progressista, as pessoas agora torcem a boca para dizer que os desenhos “não são engraçados”, ou que são de “mau gosto”.
Como se isso tivesse alguma importância diante da conjuntura!
Humor é uma questão de gosto, evidentemente.
O francês tem um humor historicamente negro, talvez em vista de um passado com tantas tragédias. Enquanto pesquisava as edições do Charlie, numa mesa do centro George Pompidou, um senhor sentado a meu lado apontou-me uma notícia que ele lia no jornal.
O título era algo como: “Lucro da indústria de tranquilizantes dispara após atentados”.
Ele sorria maliciosamente. A notícia era um chiste puro de humor negro. Sempre haverá alguém faturando em cima da tragédia alheia.
O humor negro é um humor triste, como um palhaço olhando a si mesmo no espelho.
Aliás, pensando bem, nós, brasileiros, também temos humor negro. Só que ele não aparece nos jornais. Rimos de “memes” infames nas redes sociais, mas ficaríamos chocados de ver as mesmas imagens em nossos periódicos.
Mas voltemos para o caso Charlie Hebdo, cuja honra eu resolvi defender, sabe-se lá porque.
Através de uma pirueta cheia de incompreensão, alguns brasileiros passaram a comparar o humor libertário do Charlie ao humor reaça que eles tanto odeiam no Brasil.
É uma confusão fatal.
O humor reaça brasileiro é bancado pelos monopólios. Nem preciso ler a Globo para saber que a emissora tentou faturar politicamente com a tragédia, associando-se aos jornalistas mortos.
Não tem nada a ver.
Charlie tinha muito mais a ver com a blogosfera do que com a mídia corporativa.
A Globo é propriedade da família Marinho, os maiores bilionários do país.
Charlie era um jornal pobre, que em novembro publicava editorial pedindo aos leitores para o salvarem da bancarrota.
Lembrei-me imediatamente dos frequentes e desesperados pedidos de SOS deste Cafezinho.
Charlie era um jornal de esquerda.
Um jornal que combatia de frente a extrema-direita e suas políticas racistas e anti-imigrante. Os desenhistas não tergiversam. A extrema-direita é o inimigo.
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A partir de 2012, com a ascensão de François Hollande, do Partido Socialista, ao poder, Charlie passou a fazer um contraponto à esquerda ao governo, sempre protestando contra as concessões do presidente ao conservadorismo econômico.
Mas o fazia com muita estratégia, mantendo a artilharia pesada contra a Frente Nacional, a famigerada extrema-direita francesa, que está em ascensão, e a centro-direita representada pelo UMP, de Nicolas Sarkosy.
Eu analisei uma coletânea de edições do Charlie, publicada há alguns anos, com resumo de seus trabalhos desde sua fundação, em 1969, quando sucede um jornal mensal de humor, intitulado Haraquiri, até 2004. E depois analisei, com muita atenção, umas trinta ou quarenta edições mais recentes, além desta última, publicada após a tragédia, e que vem se esgotando dia após dia nas bancas de jornais, num fenômeno de sucesso editorial jamais visto em lugar nenhum do mundo.
Não era, de maneira alguma, um jornal “islamofóbico”. Era um jornal ateu, com notória tendência anarquista, com uma volúpia maravilhosamente iconoclasta, o que é bem diferente.
Não há nenhuma charge ou desenho contra o Islã, mas somente contra os jihadistas que matam gente inocente, e mesmo assim, esse tema não é, nem de longe, dominante no jornal.
Pelas acusações nas redes, deu-se a impressão que o Charlie vivia para chocar e humilhar os muçulmanos na França. Outros o acusaram de sionismo.
Não é verdade. Não encontrei nenhum editorial em favor de Israel, mas vários textos em favor da Palestina.
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O editorial de Charlie, de novembro do ano passado, critica o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e os deputados da UMP (centro-direita francesa, partido de Sarkosy) por não reconhecerem o Estado palestino, lembrando que a OLP, a autoridade nacional palestina, reconhece o Estado de Israel.
Charlie também criticava o Hamas e as facções palestinas mais radicais, que advogam a destruição de Israel. Alguns desenhistas do Charlie eram judeus, como Wolinsky, um senhor de 80 anos cujo pai fugiu da Polônia durante a II Guerra, e que deve ter perdido inúmeros parentes e conhecidos nos campos da morte nazistas.
Não podemos esquecer que os judeus formam uma minoria na França. São 600 mil judeus, contra 6 ou 7 milhões de muçulmanos na França. E que desde priscas eras, as vítimas dos atentados terroristas na França são sempre os judeus, não os muçulmanos.
Na Palestina, no Iraque, as vítimas são muçulmanos. Na França, ainda são judeus.
Claro que há uma questão de classe, muito forte na França.
Apesar do país não possuir um percentual significativo de miseráveis, e do Estado francês ainda ser socialista (ao menos em comparação com Brasil e EUA), com um sistema público de educação e saúde  universal, inúmeros programas sociais, amplo seguro desemprego, transporte público de massa de altíssima qualidade, a vida não é um mar de rosas para os mais pobres, que vivem nas periferias.
Os jovens de ascendência árabe, misturados a uma população crescente de imigrantes ilegais, criaram uma cultura própria, rica, contestadora. Há muitos rappers muçulmanos na França, cujas músicas trazem títulos como: “Não ao laicismo” e “Sou muçulmano, não entre em pânico”.  Não vou fingir que conheço todas as músicas, mas suponho que há canções interessantes, com letras agressivas e políticas, que tocam a juventude. Todos foram solidários com as vítimas e seus parentes, contudo.
Esses jovens odiavam, é preciso admitir, o jornal Charlie Hebdo, por causa da decisão dele de publicar as charges de Maomé. Eles não conheciam quase nada do jornal. Nunca leram uma edição. Tinham apenas uma visão simplista, construída pelo maniqueísmo típico de redes sociais, cujo exemplo vimos também no Brasil, de que Charlie era “islamofóbico”.
Este foi o caldo cultural que levou os terroristas a fazerem o que fizeram.
Também entre esses jovens, há um gigantesco ceticismo em relação à mídia tradicional. Teorias de conspiração proliferam rapidamente entre eles. Não se acredita que o atentado tenha sido cometido realmente por islâmicos, mas sim orquestrado por Israel, ou pelos EUA, ou pela extrema-direita, para jogar a França contra os muçulmanos.
Essas informações eu tirei do Le Monde de ontem, que entrevista vários jovens muçulmanos do sul da França.
A última edição de Charlie, pós-atentado, traz uma análise destas teorias. Elas não se sustentam, de nenhuma forma, diz o jornal.
Agora já se conhece a história pessoal dos terroristas. Eles efetivamente se ligaram a elementos com histórico no jihadismo internacional, e aderiram ao islamismo radical. Não eram, contudo, experts. Eram muito jovens, e o seu crime foi, de longe, a ação mais ousada que jamais empreenderam. Talvez por isso os detalhes mais patéticos, como esquecer a carteira de identidade perto do local do crime.
Não vou dispensar totalmente nenhuma teoria de conspiração porque sou blogueiro e, como tal, altamente sensível a elas. Mas da mesma maneira que não posso dispensá-las, também não posso abraçá-las.
E esta teoria é mais difícil de acreditar porque os terroristas admitiram as suas intenções , a Al Qaeda o reinvindicou,  e a reação dos islamismo radical foi de júbilo. O Estado Islâmico chamou os terroristas de “heróis”.
O jornal era crítico às políticas norte-americanas e europeias no Oriente Médio, e criticava frequentemente a política de ocupação de territórios de Israel.
Alguém falou que a França proibiu uma manifestação pró-Palestina no ano passado. Sim, e o Charlie foi contra essa proibição, prevendo, acertadamente, que aquilo apenas iria estimular os radicais e afugentar as pessoas de boa paz – maioria – que apoiam a Palestina. Acabou que houve a manifestação, mesmo sem autorização do governo, e foi liderada pelos grupos mais radicais e mais violentos.
Culpar Charlie por qualquer erro da política externa francesa, desde os mais antigos, na Indochina, passando pela guerra da Argélia, até os mais recentes, como o apoio à Otan na derrubada de Kadafi, e o apoio aos rebeldes sírios, seria como pretender culpar a Caros Amigos pela Guerra no Paraguai e pela privatização da Vale.
Charlie sempre foi contra as guerras.
JOGO: Para você a perna deste jovem foi
JOGO: Para você a perna deste jovem foi arrancada por uma mina: theca, russa, chinesa, francesa.


O jornal trazia, frequentemente, desenhos contra o genocídio em Israel. Alguns são bem fortes, sempre na linha do humor negro que ele usava para tudo.
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Na charge acima, vem escrito no chapéu: “Não nos deixemos comover!”
O texto que aponta para a barriga da mulher palestina diz: “Esconderijo de armas do Hamas”. E o soldado israelense no tanque fala ao rádio: “O colo do útero parece dilatado, um morteiro será lançado!”
São muitas charges assim! Não há nenhuma charge pró-Israel. Nenhuma!
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Na charge acima, a legenda no alto diz: “fim do embargo ao Iraque”. E mostra a chuva de mísseis caindo sobre Bagdá.
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Na charge acima, outra denúncia terrível em forma de humor. O título diz: “pensem no material escolar de hoje”. A menina pergunta ao pai: “papai, precisa me comprar outras pernas”. Ao que o pai responde: “de novo?”
Não podemos, evidentemente, criar uma imagem edulcorada e santa que o Charlie jamais quis para si. Ao contrário, sempre buscou, deliberadamente, a malícia. Seu humor sempre foi cruel e sarcástico. Mas seu objetivo não era humilhar, e sim promover uma crítica libertária, uma crítica que liberta.
Haverá um tempo, no futuro, em que os principais intelectuais islâmicos admitirão que o trabalho de Charlie ajudou a religião a purgar suas franjas medievais e sectárias. Essa luta nunca foi apenas do Charlie. Nos países islâmicos, também se tenta criar espaços de liberdade, humor e autocrítica.
O Charlie mesmo foi atrás de periódicos de países muçulmanos que tentavam brincar com os dogmas de sua religião.
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O título da matéria diz: “Piadas heréticas em terras muçulmanas”, e traz vários exemplos de charges e desenhos publicados em jornais de países islâmicos. Alguns são incrivelmente ousados politicamente, com críticas pesadas a um jihadismo que as elites árabes incentivam juntos aos mais pobres, mas do qual preservam seus filhos.
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É uma questão a se pensar. As elites árabes incentivam o jihadismo por razões bem distantes de uma guerra anti-imperialista, mas porque assim evitam que o povo produza uma consciência de classe que os levem a querer coisas como melhores salários e mais serviços públicos.
Se todos concordam que não há santos em geopolítica, então devemos admitir que nem a França é nenhuma santinha libertária, nem as elites árabes são movidas por puro idealismo anti-imperialista. Tanto que mandam seus filhos estudarem nas melhores universidades da Inglaterra, França e EUA, enquanto os pobres são incentivados a matarem outros árabes. As principais vítimas do terrorismo islâmico são os próprios muçulmanos.
Entre as charges que os acusadores do Charlie chamam de “islamofóbicas”, poderíamos incluir, por exemplo, as que mostram o “palhaço terrorista”?
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O que querem os palhaços terroristas?, diz a legenda sobre o desenho. O palhaço responde: “quero arrancar um sorriso”.
Estou selecionando apenas as charges que tratam do tema Israel-Palestina ou de terrorismo. 90% das charges do Charlie tratavam de outros temas.
A mania de mostrar a bunda, ou enfiar objetos nos rabos de figuras públicas, que tanto horrorizaram o público quando o personagem atacado foi Maomé, é na verdade uma antiga marca do Charlie.
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A capa do jornal mostra o presidente norte-americana, George Bush pai, e a legenda diz: “O primeiro presidente com uma palma de ouro enfiada no rabo”. Ainda na capa, um desenho simpático de Michael Moore, o cineasta americano que é o pesadelo da direita.
Claro, esse tipo de charge choca o público brasileiro. No post anterior, eu expliquei que as artes francesas têm uma antiga tradição em chocar, em escandalizar. Um século antes de Machado de Assis, com suas histórias pudicas da burguesia fluminense, a França tinha Marques de Sade, descrevendo cenas eróticas de personagens do submundo.
A igreja católica, maioria na França, era o alvo preferido do Charlie Hebdo, desde a sua fundação.
Muitos acusadores dizem que eles não desenharam profetas de outra religião com a mesma crueldade com que o fizeram com Maomé. Talvez.
Talvez eles devessem ser mais ousados e mostrar Jesus com a bunda de fora, com um sinal do crescente estampado em suas nádegas.
Mas quem disse que eles não o fariam?
Mortos, é que não farão mesmo.
De qualquer forma, é justo perguntar: por que eles fizeram charges tão agressivas contra Maomé?
Bem, já mostrei e provei que eles faziam charges em favor dos palestinos, e contra os EUA.
Mas, de fato, nos últimos meses, os editores de Charlie se mostravam preocupados com a expansão do Estado Islâmico. E acusavam o Ocidente de não ver que a fonte do islamismo radical estava na Arábia saudita, o verdadeiro estado islâmico.
Os editores do Charlie não estavam gostando nada da expansão do obscurantismo islâmico no oriente médio e na própria França. Como ficou provado pelo atentado, eles tinham absoluta razão.
Sabemos que o Ocidente tem culpa pelo surgimento do Estado Islâmico. Em posts anteriores, expliquei isso em detalhe. Mas isso não nos impede de criticar o Estado Islâmico por si e repetir que nem tudo é guerra social. A Arábia Saudita é um dos países mais ricos do mundo, e incentiva  a proliferação de uma ideologia ultrarreacionária, contra a mulher, contra o homossexual, contra o laicismo.
A gente entende que há um fundo sócio-político no aumento do conservadorismo religioso em áreas pobres do Brasil, mas isso não pode nos fazer calar críticas contra as  lideranças que florescem nesse meio, como o Pastor Malafaia.
Se houvesse um Charlie Hebdo no Brasil, teríamos uma profusão de charges contra as lideranças evangélicas e católicas, as quais, na minha opinião, seriam muito bem vindas!
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Muito se falou da presença de Benjamin Netanyahu na marcha de domingo, que reuniu quase 4 milhões de pessoas. Ora, não se pode culpar os mortos pela presença do primeiro ministro de Israel. O governo da França chegou a pedir que ele não viesse, mas ele, oportunista, fez questão de vir. Ao cabo, acho que teve um lado positivo, de ver o primeiro ministro de Israel e o presidente da Palestina, marchando juntos.
Se um punhado de jornalistas de uma revista de esquerda do Brasil fossem mortos por radicais religiosos, e houvesse uma grande marcha no Rio ou São Paulo, em prol da paz e da liberdade de expressão, seria um absurdo culpar os jornalistas mortos pela presença de Kassab e Ronaldo Caiado!
Um texto na edição pós-atentado, um dos sobreviventes aborda com duro sarcasmo esse apoio generalizado que vem de todos  os lados. Ele torce para o tempo passar e tudo voltar ao normal, quando os idiotas da direita atacavam o Charlie por sua posição política, e ele poderá contra-atacar do jeito que sempre fez, chamando-os de idiotas (em francês, “con”).
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Lembram daquela polêmica sobre a charge da ministra da Justiça da França, uma senhora negra, retratada como macaca?
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Explicamos mil vezes que a charge vinha no contexto de uma acusação a uma política da Frente Nacional, que havia xingado a ministra de macaca. O Charlie, antirracista, tomou a defesa da ministra.
Eis aqui os textos e uma outra charge, que contextualizam a situação:
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Editorial atacando Anne-Sophie Leclere, política da Frente Nacional, que comparou a ministra Christiane Taubira a um macaco. O texto diz: Leclere, o macaco é você, até porque você veio do macaco como todos, embora no seu caso, parece não ter evoluído muito. Em seguida, o texto diz que o sistema político sonhado pela Frente Nacional lembra, em efeito, aquele dos babuínos e dos gorilas, com um chefe dominante se impondo pela força. Termina dizendo que alguns primatas são bem mais evoluídos que os membros da FN.

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A charge comemora a condenação da política do FN pelo crime de racismo contra a ministra.

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Acima, 4 charges de denúncia à violência israelense na Palestina, publicadas em edições recentes do Charlie: na primeira, o soldado israelense chama a senhora ferida, segurando uma perna: “Madame! Você esqueceu uma coisa”.
Na segunda, um israelense brinda com um palestino: “Em reconciliação, há Sion”,  ao que o palestino, degolado, responde: “Há um idiota também”. Há um  jogo de palavras e seus sons, intraduzível. Reconciliação em francês se pronuncia “reconciliacião”, ou seja, termina com o som de “sião”.  Na mesma palavrão, também há o fonema “con”, que significa idiota.
Na terceira, um retrato de casamento entre dois intransigentes: Netanyahu, primeiro-ministro israelense, e Mechaal, dirigente do Hamas.
Na quarta, o soldado israelense enrola nos braços as tripas de uma velhinha palestina, e fala: “quem faz a bagunça é que tem de arrumá-la”.  Uma crítica à inutilidade de medidas paliativas depois que o estrago da guerra está feito.
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Encerro o post com uma charge tipicamente charliana, de humor negro e pegada de dura crítica política e social. O desenho mostra um menino atrás das grades, com olhar triste. “Prisão aos 13 anos”. Diante dele, seus pais dirigem o carro com expressão eufórica. A legenda no alto explica a cena:  “Enfim, férias tranquilas!”
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