Eu estava em Belô quando minha filha
bióloga-botânica me escreveu contando que o indivíduo e sua turma - a mesma do
Britto - queriam extinguir a Fundação Zoobotânica do RS e outras entidades
cruciais para nosso estado.
Quando a menina, lá pelas tantas,
gritou (maiúsculas é grito, segundo convenção de emails e facebook, pois não?):
NÃO ACREDITO NO QUE ESTÁ ACONTECENDO!, parei para pensar nos reflexos de
tamanha barbaridade, senti que era diversionismo, o chamado bode na sala,
desviarem a atenção para cometerem atrocidades maiores.
Pior: na hora do grito imaginei a
guria chorando. A "minha" guria chorando por causa desses vândalos.
Aí pensei onde escondi minhas armas de fogo, pero vim sereno, ainda não era e
nem será motivo para tanto.
A turma foi à luta, e o mundo
inteiro, literalmente, se manifestou contra o horror, desde a ONU, todos os
países civilizados, até instituições de apoio à ciência e à biodiversidade
também de todo o Brasil.
Fez bem o pessoal, pois dessa gente
tudo pode se esperar. Vai que passe no Assembléia Legislativa o projeto
inominável, que, mirem o escárnio, apresentado em regime de urgência, 30 dias
para ser discutido e votado, pois sabemos como deputados são movidos, com as
exceções de praxe que servem para confirmar a regra.
Estou de olho nos deputados ainda em
cima do muro, da base de apoio desses elementos. Terão seus nomes escancarados
aqui e no blog Ainda Espantado todos os santos dias, com detalhes de suas vidas
políticas, se possível com o auxílio de humanistas de suas cidades de origem.
É o mínimo que posso fazer, já que
mais não posso, são adultos demais para levarem varadas nas pernas.
(Na foto, que estraga o meu blog, o governador do estado do RS, que tirei para inimigo dos gaúchos, dela, até aí não dá nada, mas que tirei, principalmente, para meu inimigo).
I Em pleno inverno, 29ºC em Porto Alegre às 15:30h. Saí para uma caminhada no Parque da Redenção, pertinho de onde me escondo.
Já no caminho percebi que uns gringón de terno e gravata me seguiam. Andei pela Redenção, mas somente pelos lugares apinhados de gente. Logo decidi me embrenhar pela Cidade Baixa, ali ao lado.
Ô vida boa, os bares lotados às quatro da tarde. Fui direto ao boteco do Capeta, uma festa, ele não me via há dois meses, pois fugi do frio, andei lá por cima do Brasil. Depois dos abraços falei:
- Capeta, me descola o 38 que tenho plantado no forro do bar, tem uns caras querendo sarna para se coçar.
Os sarnentos, convenientemente, haviam sentado em mesa ali fora do bar da frente. Também fui para uma mesa lá fora do bar do Capeta, sentando com o Chumbo, Tico da Antonieta e Filé, que pela noite tocam pandeiro, cavaco e violão:
- E aí, vagabundagem, ninguém trabalha mais nesta cidade?! - exclamei.
- Olha quem falando - respondeu o Filé.
- Bora buscarem os instrumentos, hoje vamos começar mais cedo - eu disse enquanto me convencia de que o primeiro tiro teria de ser no de camisa azul e dente de ouro, o mais perigoso. II
Como sabem os amigos mais chegados, aqui em Porto Alegre o meu
fogão é quase aquilo que chamam de "industrial", pois é muita boca
para comer. Atualmente menos, isso porque com essa história de ficar viajando
pelo Brasil por mais de dois meses perdi nove putiangas, das 27 agora tenho só
18, mas ainda assim muita gente. Deixa estar, as desgarradas hão de voltar
chorando, aí a minha comissão sobre os seus ganhos, de apenas 65% do bruto (depois tiro as despesas, bóia, aluguel do meu rancho, plano
de saúde, beijos, conselhos, etc), para elas subirá para 90.
Bueno,
as 18 mulheres estão se virando na noite da Portinho, e o otário aqui encara o
fogão, elas não comem nessas porcarias de boates... vá lá, passa por boate, nem
de graça, são cuidadosas com a saúde.
Cinco quilos de mandioca - adoram mandioca, não posso perder o
ponto, gostam durinha -, cinco de carne de panela e três de feijão, de feijão
sou quem gosta mais. Arroz e saladas farei antes de chegarem às quatro da
matina. Faço comida de "sustância" porque na minha ausência só comiam
pizza e outras porcarias de restaurantes, tenho pavor de restaurante.
Aí toca o telefone, é Bruno Contralouco. Está num bar da Cidade
Baixa cercado pelos meganhas de um mafioso chamado de Gringón, querem lhe fazer
a pele. Será a Camorra? Pombas, já a expulsamos muitos anos atrás. Diz que eram
somente cinco caras, ia encarar sozinho, mas chegaram mais cinco, todos
armados, dá para notar o volume nos casacos e nas pernas, pede ajuda.
Digo-lhe não saia daí do Bar do Capeta por nada deste mundo,
desligo as panelas, pego a Magnum e a Glock e vou lá, ando doido para apagar um
gringón. Na saída telefono para o Gustavo Moscão: pegue o AK 105 e tente se
posicionar no telhado do bar da frente do Bar do Capeta, os gringóns estarão de
costas, eu vou ficar de frente pra eles, me avise quando estiver pronto que vou
atravessar a rua. Vão ver o que é tocaia.
III
Ainda
sobre essa história de uns políticos quererem extinguir a Fundação
Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
Tenho
um lado pessoal envolvido e tal, conforme e-mail da minha filhoca Natividad que
antes transcrevi, afinal a guria interrompeu um segundo doutorado, onde ganhava
uns cinco mil limpinhos de um órgão federal (bolsa) para entrar para a FZB
(concurso público, sim senhor, eu os meus nunca mamamos em "quem
indica") ganhando bem menos. Uma boa troca: promessa de estabilidade e
fazer o que sempre quis, pois é bióloga de doutorices e tudo. Com emprego
certo, endividou-se comprando apartamento financiado e se embrenhou no
trabalho.
Realizou
o sonho: passa dias e dias pelas campinas e matas do RS, vestes rudes e
chapelão na cabeça - no verão o sol é inclemente - pesquisando plantinhas e não
sei mais o quê, o que tem risco de extinção e tal, não entendo do riscado, apenas
acompanho de longe a sua luta.
Há
alguns meses, quando um bundão começou o terrorismo, me disse: "Paiê, não
se trata de eu perder o emprego apenas, como tu diz a gente sempre se vira,
posso lecionar, posso fazer outra coisa, aprendi contigo a não ter medo de
nada, é que isso será o maior crime perpetrado contra a biodiversidade, é
inimaginável o dano, choro só de pensar".
Terrorismo,
sim. Ameaça psicológica doentia. Irresponsáveis, não são homens sérios. Comigo
a conversa será outra, pois reitero: enquanto brincavam de bonecas eu morava em
prostíbulo de favor, enquanto eu lia Nietzsche davam a bunda ou chupavam
pirulito em lares gordinhos.
Ora,
claro que cá comigo tenho certeza de que isso é bode na sala, armar um gritedo
com um absurdo desses para passar outros absurdos aparentemente de menores
danos, mas com lucro certo para quem os palhaços obedecem.
Verei
direitinho quando chegar em Porto Alegre. Mas vai que, tal a qualidade da
"base de apoio" desse "esperto", o projeto passe? Quem
cuidará da biodiversidade do pampa e das florestas? Quem cuidará do Jardim
Botânico situado em Porto Alegre? A Monsanto?
No
particular, o que ela não gosta de falar mas eu falo: seja quem for o
beneficiário do disparate, ele devolverá a taxa de inscrição que a menina pagou
para fazer e ser aprovada no concurso público, montes de gentes que prestaram
para duas vagas, pois nem biólogos a FZB tinha, quem devolverá? Quem a
indenizará pela interrupção da Bolsa de Estudos?
Sim,
quem iniciou a estruturar ou reestruturar, com seriedade, a Fundação
Zoobotânica foi o governo anterior.
Ainda
não sei como será, mas vai se preparando, Sr. Sartori & Cia., o revide, de minha
parte, é certo que virá. De qualquer modo que venha, o senhor não vai gostar
nadinha.
Processe-me pelo que quiser, como sempre faço quando
"querelado" vou lá e digo ao juiz: "Sim, confirmo que o chamei
assim, e tenho umas coisinhas a acrescentar que não quis dizer em
público".
De
ladrão, o que seria grave, não o chamei, ainda não sei. Estou muito tranquilo, mas podem ir perdendo o sono.
Tudo bem? Te enviei mensagem pelo celular de Dia dos Pais. Não sei se recebeste.
Espero que esteja tudo bem por aí. Te desejo tudo de melhor.
Bom, o motivo deste e-mail é
a gravidade da situação que envolve a minha instituição Fundação Zoobotânica -
FZB do RS. Enviei um e-mail ontem para todos os meus contatos, inclusive para ti. Ali tem
tudo explicadinho.
Resumo: o Sartori enviou na
sexta passada à Assembléia projeto de lei de extinção da FZB/RS e demissão de
todos os funcionários, em caráter de urgência, isto é, a ser votado em até 30
dias. NÃO DÁ PARA ACREDITAR NO QUE ESTÁ ACONTECENDO.
Estamos mobilizando todos
que conhecemos. ONGs, universidades, estudantes, etc, estão todos nos apoiando.
Peço que leia o material que te enviei no e-mail anterior.
Venho pedir o teu apoio, em
especial. No teu Blog, onde puder. Se tiver algum contato político que possa
ajudar entre os deputados, pessoa conhecida na mídia, etc.
Bom, estou muito triste,
porque não é um trabalho qualquer - é o trabalho que eu amo, e uma instituição
muito importante pro RS.
Um dos baiões mais lindos que ouvi na vida, autoria do mineiroToinho
Gomes. No vídeo pelo sensacional cavaquinho deAusier
Vinícius, que inventa, adapta, esse é "doido".
Estou certo de que o baião logo será reconhecido como um clássico nacional.
Os créditos de todos os músicos vão ao final do vídeo, inclusive
com Sô Tião do Bandolim, que faleceu neste 2 de agosto.
Li em
algum lugar, ou alguém me disse, que o título do baião foi posto por SÔ TIÃO DO
BANDOLIM. É que tem certo momento em que o violonista que acompanha leva um
drible, periga se perder.
Toinho Gomes, grande instrumentista como também compositor, já
compôs, e entregou partitura, emocionado, em homenagem ao Sô Tião, tempos atrás. .
Giuseppe
Artidoro Ghiaroni ((Paraíba do Sul, RJ, 22 de fevereiro de 1919 - Rio de
Janeiro, 21 de fevereiro de 2008).
Ninguém
morre de repente.
Quando dizem que Fulano
faleceu subitamente,
morreu estupidamente,
é engano,
é puro engano!
Pode ser que
a ave ferida
ou a árvore abatida
ou a casa demolida
ou outras coisas assim
deixem de súbito a vida
(vida ou coisa parecida),
achando um súbito fim.
Mas quanto
aos seres humanos,
nenhum morre de repente.
É um processo inteligente,
lentamente, lentamente,
Leva meses, leva anos.
Leva o tempo
em que a viúva
faz a presença do ausente.
A saudade permanente
é um longo dia de chuva.
Lembramos diariamente
o bar que ele freqüentava
os cigarros que fumava,
as coisas que planejava.
Tudo aquilo que era dele
volta à baila noite e dia.
O mundo ficou sem ele
como uma casa vazia.
As canções que ele cantava!
As piadas que dizia!
Passam
anos... Cinco... Sete...
Quem ainda se lembrava?
O bar que ele freqüentava
virou uma lanchonete.
As canções
que ele cantava
são do tempo do Chalaça.
As piadas que contava
hoje não teriam graça.
O mundo se modifica.
Os cigarros que fumava
Nem a fábrica fabrica.
A viúva, conservada,
Está de novo casada,
E dizem que ficou rica.
Agora sim,
falecido!
Agora sim, faleceu!
Anos após ter morrido,
Só – de todos esquecido –
Depois que tudo o esqueceu!
Ninguém
morre de repente.
Quando dizem que Fulano
faleceu subitamente,
morreu estupidamente,
é engano,
é puro engano.
Gente morre lentamente,
lenta e dolorosamente,
dia a dia, ano após ano!
D.
Julieta saiu fazer compras, fiquei sozinho com as suas vinte hóspedes do
cabaré, digo, da pensão. Ui, só muié e eu. Todo fresco ofereci música, com seu
Paulo Vanzolini na cabeça. Já paguei mais de vinte e cinco pra me livrar de
erros feios que cometi.
Tela
cheia, por favor.
Esse
lance do "lanceiro" me faz lembrar dos meus queridos punguistas de
Porto Alegre. Eu lá, de terno e gravata no Mercado Público, quem vejo? A turma
da cadeia, de Charqueadas e do Presídio Central, se fazendo de sonsos.
Olhava-os com ar de repreensão, em silêncio: "Tirei-os da cadeia, seus
putos, e estão doidos pra voltar", mas sabendo que a tigradinha não tinha
muita escolha, analfas de pai e mãe que eram. Aí eu saía do Mercado, tomar um
chope longe, pros lados do Gasômetro, quanto mais longe melhor.
Sabia que ao
menos seguiriam algo que lhes ensinei: "Não batam de pobre, se um dia
forem obrigados, no desespero, peguem cola-fina hijo de pápi, quem rouba de
ladrão tem cem anos de perdão". Sei que errei ao dizer isto, mas fiz,
assumo.
Sabia
que logo um iria trombar (comigo por perto não fariam, não eram doidos de
desrespeitar quem os visitava no Natal, Dia dos Pais, Ano Novo, etc, naquelas
pocilgas chamadas presídios), desequilibrando o sujeito, outro bateria a
carteira e a entregaria a um terceiro num gesto sorrateiro e rápido, este que
se sumiria na multidão. Se alguém se flagrasse da manobra e fosse atrás levaria
uma punhalada de um quarto. Que vida.
Claro
que eu tinha que me pelar pra entrar na prisão, revista. Mas dizia, rancoroso, pro
carcereiro da portaria: "Gostaria que fosse a tua mãe a me ver pelado,
moleque". Dizia baixinho, só pra ele ouvir. Reaja que te pego na rua outro
dia. Fingiam que não ouviam. Ora me revistar. Depois pararam com isso, se
quisesse entraria com metralhadora sob o bruxo, um sobretudão preto que uma
mulher me deu.
Querido
Dr. Marino De
Castro Outeiro: tu sabe como comecei a entrar em Presídio, lembra? Foi no
Central, quando o amigo me aconselhou e me ajudou a tentar tirar um neguinho lá
de dentro. Aí conheci o resto da meninada lá trancafiada, eles se revezavam no
convite pra ir lá, palestrar em dias tristes, Parodiando Jaime Caetano Braun,
começava assim: "Meus irmãos de território, sou o Sala das Missões, vim
aqui neste Dia da Criança para me acalmar, e se puder acalmar os corações dos
amigos, pois não tememos a vida e muito menos os ratos...", e lá ia
conversaiada pra moçada, invocando espíritos.
Hoje
já meio longe daqueles tempos, quase rio de uma bobagem que falei. Pedi pra
desligarem as poucas luzes que tinha, vamos ficar no escuro, quero um minuto de
silêncio, vamos fechar os olhos, que todos pensemos em nossos pais, mulheres,
namoradas, irmãos, filhos, enfim em todos que amamos, pedindo a Jesus que olhe
por eles, pois Jesus passou coisa pior do que hoje vocês passam aqui neste
lugar horrível. O Coió correu a desligar. Na penumbra fez-se um silêncio
comovente. Passado o minuto retomei a palavra: "Não devemos nunca esquecer
de respeitar nossos pais, respeitar os mais velhos...". Aí um moleque do
mezanino falou lá de cima: "Mas, Sala, bandido também fica velho, e
bandido sem-vergonha a gente não respeita". Dizer o quê? Respondi:
"Tu tem razão, meu fiinho, eu quis dizer aqueles que merecem
respeito", mas ele me pegou, sorri pro lado dos mais velhos, que já
estavam sorrindo para o meu lado também.
O
salão sujo, caindo aos pedaços, superlotado de moços com os olhos arregalados,
muitos se apertando ao alto no mezanino, eu sentado no chão no meio do salão
daquele horror, pernas cruzadas. Eles deixavam um parente de lado para me
levar, pois jamais entrei no inferno por mãos oficiais. Quando inverno entrava
de sobretudo, terno azul, camisa branca, gravata vermelha, mesmo na ala que os
guardas não entravam, não eram loucos, quem tem cu tem medo. Em novembros das
Crianças, sem sobretudo. Andei escrevendo isso em algum lugar. Dia destes crio
coragem e publico, a conversa é muito longa, as lágrimas são muitas, de ensopar
o pátio de tomar sol, ou chuva e frio em tristes invernos.
E
tem pessoas (?) querendo enfiar meninos de dezesseis lá dentro. Não, senhores
demos, não estou me achando. Como dizia o outro (salve, seu Martinho da Vila),
burgueses são vocês, eu não passo de um pobre coitado. Alguém aí, dos meus
adversários, lembra da cabecinha que tinha aos dezesseis? Dezesseis nada: dos
abobados que eram aos vinte e cinco anos? Alguns abobados até hoje, aos
sessenta.
Olhando
pra trás pela névoa do tempo vejo que fiz muito pouco, porque mais não podia.
Na
praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida
Eu já devia ter rasgado
E não podia
Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
vinte e cinco
Francamente foi de graça
Pelas nove da manhã um maravilhoso
sol em Porto Alegre. Estamos em mesas espalhadas defronte ao Beco do Oitavo. Eu
no meio de duas mesas juntas na ponta da calçada, nóti aberto, meu companheiro
do lado é Luciano Peregrino, para o caso desta joça empacar, ele sabe tudo de
computador de mão. Só não tem solução quando o sinal some. Cobram os olhos da
cara e não fornecem o sinal como prometido, aqueles... bem, isso é outro papo,
hoje não vamos falar de máfia. Acho que não.
Aqueles
filhos de uma puta das múltis!
O
Contralouco está sinalizando o fechamento da rua, já colocou os cones numa
ponta, caminha para a outra. Domingo é assim, quem manda são os boêmios, a
prefeitura já tem o resto da semana para não trabalhar. Aqui carro não passa, a
criançada pode brincar na rua. Nossos cones são cor-de-vinho, para diferenciar
dos cor-de-laranja da Prefa, a nossa cor serve para avisar aos moradores das
outras ruas do bairro: podem chegar que hoje tem festa. Aliás, o Portuga disse
que cedinho viu passar um carro com três fanáticos do bando do J. Bolsonaro.
A
turma se alvoroçou - ai que vontade de quebrar a cara dos viados - mas o
Portuga intervém, acha que foi por descuido, estavam chapados e não lembraram
que aqui não podem fazer o que fazem na Rua Paulista.
Marquito
Açafrão foi lá no Botequim do Terguino buscar o tonel e os espetos para o
churrasco, os malucos que agora estão lá o ajudarão a trazer, vem todo mundo.
Nisto chega a velha Jezebel fantasiada de cigana, se contorcendo e cantando
"Ai se eu te prego". Recebe uma vaia estrondosa. Em seguida ganha
efusivos aplausos, quando a turma percebeu que a letra é diferente daquela do
sertanojo. Não podemos aqui declinar a belíssima letra, tem muita rima em u,
ica e eta.
Trago
rolando, os boêmios aos poucos começam a falar de como foi a noite de sábado.
Isso vai demorar, muita gente ainda não chegou. O gaiteiro Nino emudece a rua
com os acordes de La Vie en Rose. Peço ao Portuga um duplo de uísque com
angustura. Leila Ferro se aproxima timidamente e diz: "Tio Sala, enquanto
o pessoal prepara tudo, será que eu poderia botar uma música no teu
blog?". Levanto-me prontamente: "Claro que pode. Vou no banheiro,
doçura, bote tu mesmo!". E passo esta geringonça para a Leila, que senta
no meu lugar.
Mr.
Hyde, o médico da confraria, que passou a noite de plantão no Pronto Socorro, chegou ainda de jaleco
com um barril de chope às costas. Enquanto passa em direção ao interior do bar,
vai avisando: "É só pra mim, seus palhaços, hoje quero me afogar, o que vi
de madrugada ninguém merece, mesmo com 20 anos de profissão!". Putz, ficamos
imaginando. Daqui a pouco relaxa e se solta, já chegou desabafando, é só do que
precisa.
Onze
e meia da manhã. Tocaram cinco vezes a música da Leila, as mulheres dançando
como a Tulipa.
Contralouco:
"Essa moça, a Tulipa Ruiz, é o meu tipo, docinha e gostosa, viva... Eu
casava para sempre, levaria flores todos os dias".
Jussara
do Moscão: "Pára, Contra, não vai azarar a vida da guria...".
Contralouco:
"Mas é sério, pombas! Aqui nunca se pode ser sincero!". E saiu
emburrado lá para a frente do bar. Gustavo Moscão olha de lado para a Jussara,
magoou por quê?
Um
dos assuntos que tomou as mesas foi a croniqueta que Salito de la Noche postou
ontem no blog, "Eu vou botar teu nome na macumba", a tigrada gostou,
contei sobre o dia em que Gustavo Moscão surrou um urubu evangélico de fatiota.
Gustavão todo humilde na mesa da ponta, minimizando: "Ora, não foi nada,
gente, só uns tapas, ele tinha só uma faquinha, briguinha...". Ora, depois
da "briguinha" arrastou o sujeito pelos cabelos por dois quarteirões...
Chegou
o boêmio, ator e dramaturgo Nicolau Gaiola. Em pé, também não precisou pedir a
atenção de todos, já o esperavam. Copo de chope na mão, começou:
"Senhores
seus e senhoras minhas, em nome dos empinantes do Oitavo e do Terguino,
proponho um brinde pela liberação da cerveja, de todas as marcas do mundo, em
todos os ambientes do Brasil".
Todos
encheram os copos e se puseram em pé, a quem passasse pareceria que se
preparavam para cantar o hino nacional.
Secaram
os copos, a turma voltou a sentar, e Nicolau prosseguiu:
"Nos
estádios de futebol e de todos os esportes, nem preciso falar: há que se
colocar torneiras de cerveja gelada nas arquibancadas, é o mínimo que se pode
esperar. O Lula51 pretendia fazer isso, mas os conservadores o compraram
naquele pacote da carta de Recife. E vamos dar um fim à discriminação aos
doentes, começando por incentivar os bares dos hospitais...".
Mr.
Hyde estremeceu e deu um salto para a frente: "Não, misericórdia, hospital
não, pelo amor de Deus!".
Nicolau
levou um susto, se atrapalhou, e continuou tentando se recuperar:
"Bem,
ã, sobre hospitais então vamos rediscutir o assunto mais tarde, o Hyde ainda tá
nervoso. Mas e as igrejas, meus amigos, as malditas igrejas, como aguentar sem
uma cervejinha gelada?! Os coveiros como aquele do Moscão, os botaremos no seu
lugar, isto é, de garçom! Já os da católica, pelas roupas parecerão garçonetes!
Com música!".
Aplausos
frenéticos, viva, bravo! As mulheres se finando de rir.
"Na
Câmara de Vereadores!, na Assembléia Legislativa!, no Congresso Nacional!,
bêbedos talvez os amigos do alheio façam algo que preste, além de aumentar os
próprios salários todos os dias! Nos bancos, liberar nos bancos, meus amigos,
só meio bebum para aguentar as taxas daqueles agiotas!".
"Nas
faculdades, um barrilzinho de 20 litros por sala de aula!. Como estudar,
tolerando a péssima qualidade do ensino e dos professores durangos, sem um
chopinho à mão, como, como!?".
Os
malucos começaram a se meter no seu discurso, acrescentando locais, sugerindo
também mesas de sinuca em todos, e melou tudo.