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Mas a praça não era apenas violência, penúria e tristeza.
Hoje, passadas quatro décadas, olhando para trás só me afloram à mente os bons
momentos. Poucos, porém inesquecíveis. Os ruins o cérebro evita, preciso me concentrar para lembrá-los. Rio dos barbeiros. Os companheiros de
desventura cortavam os cabelos uns dos outros com uma minúscula tesourinha,
para ao menos reduzir a cabeleira. O meu eu mesmo cortava à faca pelo tato,
mantinha o rudimentar punhal afiadíssimo, o mesmo punhal com que fazia a barba,
esta era macia, rala; fácil. Os cabelos no começo era complicado, pois só com o
tato, sem espelho, não era tão simples evitar desproporção, uma parte mais
volumosa que outras. Depois conferia o resultado me olhando em alguma vitrine
de loja, não ficava legal. Um dia um dos moradores afanou uma tesoura boa em
algum lugar, aí foi um abraço. Tocava nas regiões da cabeça, media, com os
dedos indicador e médio estendia, prendia a parte excedente e lá ia a tesoura,
trocando de mãos a depender se do lado direito ou esquerdo da cabeça. Era destro,
mas isso ajudou nos esforços para me tornar ambidestro no uso do punhal
para outros fins: o inimigo o via numa das mãos, armava a defesa ou o ataque
baseado nisso, e no último momento, já voando para cima dele, trocava de mão o
jogando para a outra. Um dia consegui um pente, mas o usava somente para
pentear os cabelos, para o corte estava habituado com os dedos. Nunca entrei
numa barbearia, pois desde menino até ficar mocinho a mãe cortava em casa. Muitos
anos depois, certa vez em que fui falar com um intrujão da Travessa Acylino de
Carvalho, já bem vestido, morando num apartamento da Marechal e dono de um
cabaré na João Pessoa, na saída do acerto com o receptador entrei numa das barbearias
para ver se havia outros instrumentos que eles usavam, e os tipos de pente e
tesoura. Assisti o que eles faziam e me retirei sem que ninguém
perguntasse nada, nessas alturas todos na Travessa sabiam quem eu era, não
tinha apenas o punhal por dentro do paletó de passeio.
(...)
(Fragmento do conto A Praça, do livro “Os Perturbados de
Porto Alegre”)
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