domingo, 5 de agosto de 2018

Milhões de oficiais de D. Sebastião

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Quando criança na aula de História só se falava na Batalha de Alcácer-Quibir, que se feriu em 4 de agosto de 1578. O combate se deu nas proximidades de uma cidade com esse nome. Eu não entendia absolutamente nada do que a professora dizia, culpa minha certamente, mas sabia que era um acontecimento muito importante, pelo que tratava de decorar nomes e datas. Na prova vinham perguntinhas tipo: Como era o nome do Rei de Portugal na batalha de Alcácer-Quibir? Qual a data em que ocorreu a batalha de Alcácer-Quibir? Na época as questões não eram ainda as chamadas objetivas, de marcar com um “x” a alternativa correta, tinha que escrever. Abaixo ia os garranchinhos em resposta.

Só muitos anos depois fui saber um pouco mais sobre o célebre evento, a começar pelo que levou o nobre D. Sebastião I, filho do Príncipe João Manoel e da arquiduquesa Joana de Áustria, Rei de Portugal e Algarves, ao Marrocos guerrear com os caras. Certo que é pertinho, o Estreito de Gibraltar dá para atravessar a nado, para quem veio ao Brasil um nada, mas só uma boa razão para movimentar um grande exército, 17.000 homens, nestes 5.000 mercenários. Alguns falam em fervor religioso, o que pode ter sido o pretexto e, bom, vamos ao que interessa.

O exército português afastou-se da costa e da proteção dos canhões dos seus navios por teimosia do Rei, contra a vontade dos seus oficiais - alguns queriam prender o rei - penetrando nos domínios muçulmanos, até que no 4 de agosto viu-se diante de 80.000 mouros numa zona quente e quase deserta onde o inimigo conhecia o terreno. Foi esmagado pelas tropas marroquinas sob o comando do sultão Abu Marwan Abd al-Malik, fragorosa derrota, metade do efetivo português morreu e a outra metade foi feita prisioneira. 


D. Sebastião, então com 24 anos, teria morrido, como os demais nobres portugueses que o acompanhavam, aliás, a nata da nobreza pereceu. Não foi um confronto isolado entre muitos de uma demorada guerra: foi a grande batalha inicial e final, decisiva, a guerra acabou ali, uma tragédia que traria severas conseqüências para os nossos colonizadores.

O detalhe é que o corpo de D. Sebastião jamais foi encontrado, nunca se soube se por algum milagre sobreviveu incógnito ou se al-Malik guardou o cadáver como troféu, e o imaginário popular começou a funcionar, acreditava-se que o rei voltaria para salvar o Reino de Portugal de todos os problemas desencadeados após o seu desaparecimento. Surgia o sebastianismo.

O sebastianismo chegou ao Brasil. Antônio Conselheiro, furioso com a elite republicana recém instalada, na Bahia propagava a volta do Rei. Também em Pernambuco esteve presente, citações na Tragédia do Rodeador e na Tragédia de Pedra Bonita, esta última inspirou José Lins do Rego em seu romance Pedra Bonita. Estes os fatos marcantes, mas o sebastianismo esteve presente em todo o Brasil de uma ou outra forma.

A julgar pela entrega das riquezas nacionais acredito que estamos entrando no que virá a ser o mais amargo momento da História do Brasil república. Talvez um curto momento quando visto pelos brasileiros de daqui a 440 anos, mas que será de décadas de sofrimento. Eu não quero um rei de volta, nenhum tolo se passando por salvador da pátria, até porque a colônia sofreu o ônus da aventura, para não falar que um descendente da Coroa outro dia considerava a hipótese de ser vice de um ignorante servil a interesses externos.

Eu clamo por homens que pensem no Brasil, no povo brasileiro, para nas eleições botar a correr os vendilhões que tomaram o poder rasgando a Carta Magna, e que querem levar o país à desgraça ainda maior.
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sábado, 4 de agosto de 2018

Transtóxicos, agrogênicos e transrrepolhudas

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Tempos atrás os boêmios da mesa 1, onde quem corre menos voa, do Botequim do Terguino Ferro, no Beco do Oitavo, capitaneados pelo vegano Nicolau Gaiola, o ator da turma, e pelo expert em vinhos Wilson Schu, foram unânimes ao prever que o plano dos vagabundos, como chamam os políticos golpistas do Congresso e do governo comprados pelas multinacionais da transgenia, de desobrigar as empresas de botar o "T" amarelão em produtos transgênicos, seria tiro no pé.

Logo os pequenos que não tem rabo preso, ou que tem interesse em tomar uma fatia do mercado, passarão a fabricar e estampar nos rótulos, em letras garrafais: "NÃO-TRANSGÊNICO", por tabela dizendo que os sem esse aviso são venenos, explicaram na época. O pessoal diz que tem visto muito, eu não vi. Sou cético com essas coisas, pois nos cigarros os caras escrevem que todo mundo vai morrer da forma mais terrível e o povo segue comprando. Enfim, tudo tem um começo, com o tempo há de vingar, as novas gerações estão vindo com outra cabeça.

O tiroteio mesmo foi deflagrado contra os agrotóxicos, a bancada dos agrojestes – outra expressão dos beberantes do bar, inventada pelo Chinês: agrojeste ou rurajeste, usam ambas, é fruto de uma transgenia onde o cafajeste é introduzido em certo orifício do poderoso agricultor rural – no Congresso Nacional deve estar apavorada. Para desespero dos safados – o safados é novamente expressão usada pelos amigos, eu fora – muitos fabricantes estão colocando "ORGÂNICO" nos rótulos. Pronto, estão identificados: os que não tem essa indicação fazem mal à saúde, carregam a invisível advertência: "Não compre, isto mata".

Falta ainda o Sem Transgênico e Sem Agrotóxico, situações cumulativas, pois a combinação de transgênicos com agrotóxicos, que dizem ser comum em muitos produtos, segundo os entendidos é letal. A Beatriz do Bichinho..., bem, não é que os defenda, mas pondera que os produtores usam transgênicos e agrotóxicos – em ambos evita a palavra veneno – com base em autorização do governo, que possui cientistas que atestam que não são nocivos, para aumentar a produção, reduzindo os custos, de modo que o produto chegue mais barato às prateleiras das grandes mercearias.

Jucão da Maresia diz que esses cientistas tem mais que tomar no cu, uns dizem que banha ou ovo faz mal, outros que faz bem, dependendo que quem os contratou, por dinheiro falam qualquer merda. A turma ri da ideia de baratear os preços, preferem compreender de outro modo, como diz o Chupim: aumentar o lucro fodendo com a saúde dos infelizes. Dizem que um tio do Bichinho, que é padrinho de casamento, possui uma plantação de mamão na Grande Porto Alegre, cada mamaozão...

Não sei a exata razão, mas de fato os produtos com o chamarisco de ORGÂNICOS que tenho encontrado são um pouco mais caros que os envenenados. Enquanto o bolso aguentar só compro orgânico, assim tem sido com arroz, feijão, fubá e tudo o que é hortaliça e raiz, até erva-mate orgânica encontrei. A cada dia que passa aumentam os produtos com o aviso de orgânico.

O diabo são os tais transgênicos, sabe Deus até que ponto esses bichos vem se incorporando à natureza. Em tudo. Na carne então é melhor não pensar, para escapar da transgênese só tendo uma criação de boi, galinha ou pato amarelo no fundo de casa, como diz o Luciano.

Por proposta do mestre Aristarco decidimos todos estudarmos mais o assunto. Até que saibamos exatamente como funciona, desde quem produz  nomes aos bois, e as quantidades produzidas de uma ou outra maneira, sobre o efetivo benefício no combate à fome, sobre os lucros, doenças e mortes, o botequim não emitirá Nota de Aviso ao bairro, nem o Rei da Cidade Baixa proibirá a comercialização.

Enquanto estudamos, para desgosto do Terguino e do Portuga, o Rei Bruno Contralouco decidiu rebatizar temporariamente alguns tragos, até que os dignos proprietários do estabelecimento esclareçam a procedência do centeio, da cana-de-açúcar, do arroz, do milho e de outros cereais utilizados na fabricação da cerveja, da cachaça, da vodka e de tudo, bem como dos limões e outras adições às bebidas.

A cerveja, até então chamada de Repolhuda pelos empinantes, passou a se denominar "Transrrepolhuda". A caipirinha de cachaça agora é "Agrogênica", e a de vodka "Transtóxica". Uma beleza, até a Jezebel entrou nessa: "Portuga, me faz uma Transtóxica, por gentileza, com limão siciliano, querido".
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lunes, 30 de julio de 2018

A mulher do tribunal

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Chamei os amigos Juanito Diaz Matabanquero e Carlito Dulcemano Yanés. Vieram de longe em meu socorro. Carlito entrou clandestinamente no País, os banqueiros do bicho da Av. Paulista querem lhe fazer a pele. Contei-lhes a história, ouviram-me em silêncio, as perguntas viriam depois.

Amigos, fui acusado. Vou tentar explicar, é meio surreal. A Carmélia da Olavo não fez uma reforma na casa que foi da Marli da Padre e que agora é da Keila da José. Cada nome que essas cafetinas arranjam... Bem, um belo dia eu estava bem feliz aqui na Vila, quando fui surpreendido por uma notícia da rádio Corredor: que o muquifo que foi da Marli, que agora é da Keila, que foi comprado com parte do dinheiro de oitenta e tantas malas achadas no apartamento de um assaltante, era meu, e que por via de consequência a reforma não realizada pela Carmélia também era minha. Nesse bolo tem um delator condenado a cento e tantos anos de prisão, mas depois chego lá, para não embolar o meio de campo.

Dei risada, não sabia do que estavam falando, nem conheço pessoalmente a Carmélia e a Marli, só de nome como todo mundo, muito menos a Keila, esta nem de nome conhecia. O gordo das malas eu conheço de vista, é meu inimigo. Deve ser gozação da turma, pensei, pois brinquei com os camaradas outro dia, quando um falou que gostaria de comprar o Moulin Rouge, que é um cabaré bem diferente destes, pois tem a letra "t" no final.

Também estou acostumado com a maldade alheia, já me atribuíram a propriedade de palacetes, frigoríficos, aviões, bancos e não sei mais o que de Porto Alegre. Em certo momento eu era dono até do Beira Rio, da Praça da Alfândega e da Igreja da Matriz, como chamamos a Catedral Metropolitana. Mais uma bobagem, concluí, e esqueci o assunto.

Quando chegou a intimação ainda ri, deve ter sido o Bruno, o sacana acumpliciado com o oficial de justiça, para rirem da minha cara quando eu fosse ao tribunal. Com a mesa do bar cheia joguei em cima a papelada, e aí, malandros, querendo me fazer de bobo? O pessoal leu e todos ficaram sérios. Isto é de verdade, disse Carlinhos Adeva. O Bruno jurou de pés juntos que nada tinha a ver com o assunto.

Eu não sabia, mas os meus problemas estavam recém começando. Eram os caras da MPL - Máfia Preta do Lenocínio - fazendo a sua parte, não contentes com os seus puteiros queriam entrar no meu negócio, deslocaram até o meu domicílio.

(segue)
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A DIREITA EM ZUGZWANG

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(Fragmento)

Certos jogos são para homens e mulheres de alma nobre, de palavra, fibra e respeito. Assim é o xadrez, como também é o por extensão chamado de “xadrez da vida”.

Na imagem a posição após o lance 83 das brancas, na célebre partida entre José de Jesús Nogueiras Santiago e Maikel Gongora Reyes, jogada em 4 de abril de 2001 em Las Tunas, Cuba, no torneio de onde sairia o campeão nacional. O tabuleiro é visto pelo ângulo de visão das brancas de Santiago, como é praxe nas imagens de livros sobre o jogo-ciência.


As negras estão em zugzwang, que no xadrez diz-se da posição em que qualquer movimento feito pelo bando a quem cabe jogar é perdedor. No caso é mortal, pois as peças negras tem apenas um lance possível, perdedor: leva o xeque, mais um lance e a resposta é fatal, xeque-mate.

Como no Brasil em muitas ocasiões e principalmente agora. Esquerda x Direita. A Direita atual (Fiesp, Fascistas, Judiciário, Banqueiros, Agronegócio, Mídia, Entreguistas, etc., EUA como pano de fundo), ciente de que com Lula levaria um histórico xeque-mate dos humanistas e nacionalistas, gritou “Não jogo mais com essas regras!” e derrubou o tabuleiro violentamente, impedindo o final da partida de modo legal, com a plateia do mundo todo estupefata.

Fugiu da batalha com as calças caindo, rasgando o contrato social, apelando para um “xadrez” infame, abjeto, torpe, lance desesperado pensado também num 4 de abril, executado dia 5. É muito difícil, mas talvez perca igual com qualquer regra que imponha, o tempo não para, a ferida não sara e os ludibriados à força aglutinam energias.

Naquele ano de reis em Las Tunas Maikel Gongora Reyes foi homem, não um covarde traiçoeiro: deitou o seu Rei, admitindo a derrota: “Abandono. Gens una sumus”, e apressou-se a apertar a mão do adversário.

No xadrez da vida, quando não há perfídia, traição nem maldade, os erros não são tão grandes que não possam ser corrigidos. Reyes iria procurar melhorar o seu desempenho, errar menos, com honra, para no futuro... quem sabe?
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martes, 29 de mayo de 2018

O Amor na Cidade Baixa (Rei é Rei)

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O que faz a bebida. Bruno Contralouco, Clóvis Baixo e Carlinhos Adeva sentados em mesa na calçada do botequim no Beco do Oitavo às cinco e meia da manhã. De noite atravessada, meio que levantados do chão, os dois primeiros resolveram apostar cem reais para ver quem tinha mais sorte com mulher.

O Rei Bruno disse que aceitou o desafio porque o súdito boboca Clóvis é seu amigo do peito, não perderia tempo com outros palhaços. Como marcador de mulheres o Dr. Carlinhos Adeva, o Diretor Jurídico do Partido dos Boêmios (em constituição), num fogo danado mas circunspecto como se estivesse num tribunal, causa importante.

Saíram lá da sinuca quando estourou, e o Portuga acenou que queria fechar o bar, vou-me a dormir um pouco, ó gajos. Vai dormir, Portugalino, disse o Bruno, mas deixa uma mesa lá fora e um monte de cervejas com gelo no isopor. Dito e feito, o Portuga fez e se mandou. Por via das dúvidas, para o caso de faltar combustível, deixou uma cópia da chave do bar com o Bruno.

A aposta lá fora consistia no seguinte: as mulheres que vierem de lá do lado da Rua da Olaria são minhas, as que vierem de cá da Avenida são tuas, disse o Contra. Minhas e tuas em pensamento, né. Coisa de bêbados.

O Clóvis Baixo encrencou, não mesmo, as que vierem de lá são minhas, as de cá são tuas. O Contra topou sem reclamar. Serviram-se de cerveja, acenderam cigarros e ficaram esperando.

Logo apareceu uma senhora de uns 75 anos, cem quilos, passeando com uma cachorrinha, vinda do lado de lá, o do Clóvis. O Clóvis Baixo argumentou: tá meio passada mas é linda, deve ter muita experiência em cama. O Contra se apertou, mão na boca, ventando pelo nariz, para não rir alto.

O juiz Carlinhos anotou. Mais um tempinho e veio uma boneca de cá, com sangue na roupa branca, do lado do Contra, atirando beijinhos para todos. O Bruno disse é linda, e sabe mais que muita mulher. Foi a vez do Baixo se dobrar quieto.

E começou a aumentar o trânsito, de lá, de cá, dezenas de mulheres indo para o batente, Carlinhos numa água federal mal dando conta de tomar nota. Até às seis e meia da manhã vindas pelo lado a favor do Contra umas trinta, pelo lado do Baixo umas setenta - em direção à avenida João Pessoa o fluxo é maior ao amanhecer, ao anoitecer inverte.

Como estamos aí na pontuação? – Perguntou o Baixo ao Carlinhos.

- Empatados.

Resolveram só mais uma para cada lado, primeiras que aparecessem, para resolver a parada.

Mal encheram os copos e surgiu lá adiante, pelo lado esquerdo, da avenida para cá, pelo lado do Contra, aquele monumento vivo. A baiana que ainda não pintou no bar mas todos já sabem que ela existe. Ela não caminha, esvoaçoa, ginga sorridente com aqueles panos coloridos, como se ondas do mar a embalassem, o bairro inteiro está apaixonado, quando pintar no botequim será a rainha.

- Não vale, tá desfeito o trato! Como a do meu lado ainda não veio posso desfazer! – gritou o Baixo aborrecido.

O Bruno não respondeu, pelo rosto os amigos sentiram que acabou a brincadeira, ficou sereno. Levantou-se tranquilo, sério – e todos ficaram sérios - e esperou a passagem da mulher.

Quando ela estava em cima ele tirou o chapéu, inclinou a cabeça enquanto gingando estendia a mão direita com o chapéu, como a dizer a calçada é tua... o bairro é teu, é teu o meu coração.

Ela sorriu e sorriu e sorriu, olhos brilhando.

O Clóvis gritou quando ela ia lá adiante:

- Quero ser padrinho!

Ela se voltou e sorriu de novo. O Bruno falou aos amigos:

- Vou dar uma abridinha no bar, preciso de um uísque, esta cerveja está choca.

- Por que não foi atrás, acompanhar a guria, Bruno? - Perguntou Carlinhos.

- Porque eu nunca fico bêbado, vejo o outro lado da rua.

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(A imagem, meramente ilustrativa em exaltação a sua beleza, é da cantora baiana Mariella Santiago, querida amiga)
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O sonho ruim de Mariella

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Sabem aqueles pesadelos que têm várias camadas, onde você pensa que já acordou mas ainda tá preso no terror? É assim que eu me sinto quando vejo:

1. General dando entrevista para tranquilizar a população.

2. Político profissional da oligarquia nordestina fechar entrevista citando Che Guevara.

3. Ele, privado de liberdade, liderando as intenções de voto.

Eu, pela greta da porta, vejo um monstro jogar ele vivo na cova e socar terra. Grito mas a voz não sai. E o monstro lá, socando terra, e o cara vivo. Vivo!

(Mariella Santiago, cantora e poeta baiana)
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lunes, 28 de mayo de 2018

EU ACUSO

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O que não entra na cabeça desses irresponsáveis que promoveram o Golpe é que não há solução pacífica possível desde que rasgaram a Constituição. Bastaria esperar o fim do mandato da presidente Dilma e iríamos todos às urnas novamente, quem vencer leva. Básico, é o que diz o nosso sistema legal.

Golpe sim, o programa de governo derrotado nas urnas foi colocado em prática, e muito mais radical do que o proposto pelo partido do pilantra que perdeu a eleição. Aliás, o partido do perdedor mostrou a que ponto de loucura um grupo numeroso pode chegar, como pano de fundo como sempre o substrato material.

Desavergonhados, tomaram à força o que não conseguiram nas urnas. Refiro-me à classe dirigente do partido, pois obviamente na base há pessoas sérias que nem sonham o quão venais são na cúpula. O Lula perdeu eleições, golpeado, roubado pela propaganda da Globo e aguentou, respeitou.

Deputados, senadores... gente que deveria ter sobriedade no trato da vida nacional, cometeram molecagem, basta lembrar o circo na votação do impeachment sem crime. A Rede Globo - com suas repetidoras nos estados - cometeu crime de lesa-pátria, no que é useira e vezeira, lembremos 54 e 64.

O Judiciário perdeu toda a credibilidade que tinha ao entrar "Com Supremo, com tudo" nessa traição à Carta Maior. Não haverá paz social enquanto não houver novas eleições limpas.

Havia problemas no governo da presidente Dilma? Em qual não há? Nos governos tucanos torraram o Brasil, levando toneladas de propina e ninguém sequer foi acusado. No governo Dilma alguns foram acusados, pois não, processa e prende, se for o caso. Não, aquilo de mensalão era pretexto para o Golpe. Instalou-se no centro do poder, agora sim, uma quadrilha. Todos são eméritos ladrões, não se trata mais de casos isolados.

Para piorar prenderam sem provas, num processo ridículo, o candidato preferido pelas multidões, é um preso político por perseguição de encomenda de um juiz, um espectro de homem, de primeira instância. Pensam o que esses levianos, inconsequentes, em vender o Brasil em último caso escorados na "manu militari"? Acham que os militares vão querer entregar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a CEF, os Correios, Eletrobrás, até a Casa da Moeda, como estão querendo? Acham que teremos paz social?

Com ditadura com certeza, como no governo legítimo que foi golpeado, jamais entregaríamos de mão beijada as riquezas nacionais, mas em ditadura não há controle dos maus, então teríamos de novo silêncio pela intimidação, povo ameaçado pelas armas que pagou para a própria defesa em caso de agressão externa, teríamos cemitérios clandestinos, teríamos roubo sem ninguém investigar, teríamos tortura e assassinatos, nunca paz social.

Todos os golpistas entraram para a História do Brasil, seus nomes serão lembrados com desprezo e nojo no futuro.

Eu responsabilizo, acima de todos, o Judiciário. Se não houver um desatino maior, teremos novas eleições. E teremos que tolerar esse Supremo Tribunal Federal, sem moral alguma, em novos tempos de esperança.
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sábado, 26 de mayo de 2018

COMO FUNCIONA A MANIPULAÇÃO EM REDE SOCIAL

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O autor do texto, Henrique Mann (músico, escritor e outros bichos), sabe o que diz. Subscrevo. Assim que no imaginário popular eu viro assassino, se atravessar o caminho dessa gente. Lula vira dono de frigoríficos, do Citibank, a Dilma se transforma em ladra e puta, o que eles quiserem com qualquer um. Daqui em diante só fala o Henrique, dando apenas um exemplo:

O compositor Chico Buarque de Hollanda nunca fez nenhum projeto pela Lei Rouanet. Desde os anos 1960 até o final dos 1990, ele, que já era de uma família de boa situação financeira, ganhou muito dinheiro por ser um dos maiores arrecadadores de Direitos Autorais do Brasil, tendo suas músicas gravadas por artistas do mundo inteiro.

Vendeu milhões de discos e seu shows sempre tiveram lotações esgotadas, ficou muito bem de vida. Há músicos atuais que compram jatinhos, fazendas... ele comprou um apartamento em Paris e montou um time amador de futebol.

Bem, os detratores de Chico começaram a espalhar na internet que ele "Ficou rico com a Lei Rouanet". Também pegaram um trecho de seu próprio DVD no qual ele faz uma piada dizendo que comprava suas músicas de outros compositores e editaram separando só aquele trecho.

Aqui entra o algoritmo que detecta quem são as pessoas reais que detestam Chico Buarque e estão predispostas a espalhar estas mentiras. Fazem isto com inocentes aplicativos nos quais sondam do que as pessoas gostam ou não.

Então 25 ou 30 perfis fakes lançam posts falsos dizendo que Chico compra músicas de terceiros e que ficou rico com a Lei Rouanet. Robots replicam isto aos milhares dando uma aparência de veracidade. Alguns destes perfis falsos fazem anúncios patrocinados com a mentira e o algoritmo direciona para as LTs das pessoas que estão predispostas a replicar aquilo como se fosse verdade.

Algumas replicam por burrice mesmo, mas eu conheço empresários que já trabalharam com Chico e sabem que é mentira, mas espalham a mentira do mesmo jeito, sendo que eles próprios sim são beneficiários de muitos milhões pela Lei Rouanet. Há músicos que replicam a mentira também, inclusive em grupos de WathsApp. É uma coisa impressionante!

Isto mostra, de forma simplificada, como funciona o processo que faz com que a nossa sociedade entre neste turbilhão de enlouquecimento coletivo.

De repente, aquela sua tia velha e pacata começa a defender a tortura e o extermínio em massa; aquele seu amigo músico, que sempre foi boa gente, começa a espalhar mentiras e espumar pelos cantos da boca... foi assim que a sociedade dos EUA elegeu Trump, defensor da Ku Klux Klan e de neonazistas, foi assim que a Inglaterra embarcou no Brexit... e é assim que nossa sociedade está sendo conduzida ao caos e à dissensão social.

Por isto Zuckerberg está pedindo desculpas aos EUA e à Europa. São lágrimas de crocodilo.

Não caia nessa.

PS: A Lei Rouanet é só procurar na rede, trata-se de incentivo à cultura, dinheiro público.

domingo, 20 de mayo de 2018

Ninguém me ama, ninguém me quer

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Sábado frio e chuvoso, as mulheres trabalhando na boate, se fresqueando e indo pro quarto com os bacanos. Detesto isso, mas é a fonte de renda que sai limpa, o leão não mete a pata.

Euzinho, o empregado, que elas usam de cozinheiro, pra limpar a casa, lavar roupas na máquina, tirar o lixo, matar quem as persegue, aqui sozinho mexendo no Par Perfeito.

Verdade que quando querem se distrair, variar - os caras do cabaré não são de nada, peladas em pé me chamam pro meio da sala, Carlos vem cá, ajoelha escravo sem vergonha, chupa. Eu obedeço, sou empregado. 

Elas se excitam, acaba virando orgia com as doze mulheres. Ando cheio dessas cabeças de vento. Duas eu levaria para morar junto.

Bom, nestas alturas nem tão frio este sábado, depois das vinte taças de vinho que bebi fiquei morninho. Então, eis que surge o inesperado. A vida inteira esperando... é mesmo algo inesperado.

Se as pessoas soubessem... desde que nasci ninguém me quis assim de cara, tive que batalhar muito para conseguir algumas doidas na vida, por ser bem dotado de feiúra e nada ou pouco no bolso. Vivo dizendo, sou do tipo que de tão azarado se cair de costas quebro o pau.

Agora subitamente esquentei! Recebi um recado do PP nos seguintes e educados termos:

- Eu preciso te comer! Eu quero te comer! Vou começar te mordendo a orelha! Não fale mais em cometer uma besteira!

Alguém a quem não presto serviços, disse isso por gosto, por amor? Fiquei emocionado, sem jeito, cheio de pudor, e peguei leve:

- Eu topo! Gostosa, tarada, vem sua maluca, tou sozinho, chupo, pulo de cima do guarda-roupa, te dou uns tapas, te enrabo, faço qualquer negócio!

- Me dá o endereço que tou indo já te comer, eu te amo - Ela disse.

- Me viciaram, tu está a fim de morar comigo e mais duas mulheres?!

- Sim!

Enquanto espero torço para que o comer tenha sentido figurado, sabe como é, rei do azar: vai que ela seja uma canibal. Se for, fazer o que numa hora dessas? Dizer:

- Vem, minha antropófaga amada, me morda, me devore, cansei, desacreditei de tudo.

Azar, pelo menos alguém me quis nesta vida.
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sábado, 5 de mayo de 2018

Marido

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Se deixar as mulheres compram qualquer porcaria que lhes surge à frente, parecem crianças, então quem toma conta da grana sou eu. Elas andam com no máximo cenzinho na bolsa, para um táxi e alguma miudeza, nada de cartão de débito ou crédito, conta bancária só eu tenho, a poupança está no meu nome. Levo-as em rédea curta e confiro no que gastam.

Então fazem compras na padaria e dizem "Depois o meu marido vem aqui e paga, a gente mora ali adiante". O mesmo na mercearia, no açougue, na farmácia, na loja de roupas femininas da esquina. O pessoal da Cidade Baixa já me viu com algumas delas, às vezes vou junto. Em janeiro passado andamos de bando pelos bares da Rua da Olaria, da Rua da República, nas festas de verão.

Meu marido pra cá, meu marido pra lá, mandei pararem com essa frescura, ora. Não adiantou, agora entro na mercearia e o dono exclama feliz: "Oba, chegou o Marido!". No açougue o cara diz: "Chegaram umas costelas lindas, Marido". O mesmo em todos os lugares, até na sinuca, a malandragem não perde nada: "E aí, Marido, vai entrar nesta matadinha?".

Na tabacaria: "Então, Marido, vai uns cigarros paraguaios?". Na semana passada cruzei com o cartunista Santiago lá na Rua João Alfredo e ele me me gritou do outro lado da rua, enquanto acenava: "Tá sumido, Marido, há um ano não te via". Devolvi o aceno de amizade "Abraço, meu irmão", e segui pensando putz, até o Santiago! No outro dia o Aristeu, chefão do jogo do bicho, me viu no boteco e veio pro abraço: "Boa, Marido, pegou no quinto prêmio outro dia, hein?".

Os guardadores de carro, os moradores de rua, até na loja de roupas a moça me disse outro dia: "Oi, Marido, veio pagar? Beleza". É assim na agência bancária: "Veio depositar a féria, Marido?". É com os ambulantes da Redenção. Chegou aos ouvidos do médico e do dentista que cuidam da saúde das onças, passei a ser Marido.

Acho que vamos ter que mudar de bairro, estou pensando em Petrópolis e Ipanema, o "Marido" chegou até no Mercado Público lá no Centro, no Menino Deus, daqui a pouco toda a Porto Alegre vai me chamar de Marido. Chato pacas, tenho nome, ora.
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