sábado, 6 de noviembre de 2010

Perfídia (2) - Alceu Valença

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Carlito "Dulcemano" Yanés, o boêmio nascido em Havana e criado em Montevideo, nosso homem das letras e das doidices de amor, reaparece depois de uma semana.

Pelo andor, nada bem. Anda meio que caindo para os lados, uma ginga como quem dança pela vida. Mas percebi algo diferente, estava mais lento. Sem chapéu, rosto afundado em amargor.



Kafil, na guarda fronteiriça da casa, ouviu um "Oi, Nego", quase sussurrado, li os lábios no Oi nego. Em seguida levantou os olhos e me viu no alpendre, matito na mão, Dolores no colo, e gritou, quase um pedido de socorro:



- Salito, me muero de hambre y deseo! Y no me queda un mango!



Senti a dor não pelas palavras, mas pelo modo diferente na voz, lancinante, fora do seu comum. E pelo jeito de andar, os nossos conhecemos num olhar. Não gostei do que vi e depois ouvi. A mão de Dolores, me tocando com calma, compreensiva, me disse que ele não quis desrespeitar a presença feminina. Não precisava, eu sabia, mas Dolores é assim, amada.



Juanito Diaz Matabanquero, saindo da cozinha de adaga e carne nas mãos, sem olhar replicou bem alto:



- La primera y la última cosa las podemos resolver, Manito.



E vamos pular o restante, coisa muito séria no coração do irmãozinho. Problema pessoal, nós sabemos o quanto ele apostava naquela moça. Como já dizia o Poetinha, "Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais mas sabe menos do que eu...".



O introito que agora faço é para explicar a razão de repetir música aqui no bloguinho.



A punhalada que levou na alma só os anos, ou Deus, vai consertar ou não. O tempo, que a tudo liquida, vai acabar com todos nós sob este lindo céu de Porto Alegre ou de Luanda. O que somos, o que levamos no coração, quem sabe?



A comida que não comeu, a gente arruma pra já. Grana também se resolve. O resto ele faz por si, não nos engana. Amanhã surge de chapéu na cabeça e com uma pinguancha sem amor.



Mas estamos vivos. E nada neste mundo vai impedir que tenhamos momentos felizes. Foi só o que eu disse a ele. Além disso somente recordei Francisco Otaviano, palavras que desde menino carrego no coração:


Quem passou pela vida em brancas nuvens,
e em plácido repouso adormeceu,
quem nunca sentiu o frio da desgraça,
quem passou pela vida e não sofreu.
Foi espectro de homem, não foi homem,
só passou pela vida, não viveu.

 

Aí vai, Carlos, mas hoje vai em português da "Ólinda" do pernambucano Alceu (Alceu Paiva Valença, São Bento do Una, 01/07/1946), uma glória nacional, com versão do não menos notável Lamartine Babo, o Lalá (Lamartine de Azeredo Babo, Rio, 10/01/1904 - 16/06/1963), para treinares melhor a língua, mirando hablar com outra mulher linda e querida, olhos azuis, como querias, se Deus quiser. O Alceu e o Lalá, Alberto Dominguez, e Renoir. Na verdade a versão de Lamartine diz "Mandaste em troca, eu não esqueci" na letra de Perfídia, mas o Alceu pode.

Ou vai pelo Lalá, Carlito, como naquele samba, com uma morenaça pra variar: O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata eu quero o teu amor.
Abra uma cerveja, chega de caipirinha.
Pode chorar.

viernes, 29 de octubre de 2010

Estão Voltando as Flores

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["Ei, Mr. F. Febraban; ei, Dan, eu sei onde vocês estarão no feriadão, e novamente vocês nem sonham onde eu e o pessoal estaremos. Viram, parece que não deu certo o Globogate da semana passada, seus golpistas filhos da puta. Domingo à noite abriremos uma champagne, muitas champagnes, para festejar a derrota da sua turma de bandarras. Ouçam meu riso, seus bandoleiros (bando de doleiros também), seus agiotas sugadores do povo. Ahahah... e tomem muito cuidadinho comigo nos próximos dias, nem preciso matá-los, pois tenho uma amiga necromante que está doidinha pra invocar certas entidades, jogando-as para cima de vocês."]

E tornamos a saudar a primavera. Ah, a vida é boa.

Aos amigos apenas: esta marcha-rancho de 1961, com letra e música do Paulo Soledade (Paranaguá, 29/6/1919 - Rio de Janeiro, 27/10/1999), é única.

"Estão Voltando as Flores", letra curtinha. Um hino de esperança. A recebemos hoje, com Altemar, da doce amiga Vanda Turco, junto a um pacote de músicas boas.

Não entendo como nossos artistas não tornam a gravá-la num outubro qualquer, esperando o carnaval, com uma grande banda, coro e tambores a fuzéu. Levantaria o Brasil. O Emílio Santiago andou gravando, mas apesar da sua bela voz, não gostei do arranjo nem da lentidão, ela merece explosão, coro alegre, mais taróis, couros ardendo.

Aqui com Nelson Sargento, (Rio, 25 de julho 1924), cantor, compositor, ator, escritor, artista plástico e pesquisador da música popular brasileira. O som não ajuda, mas vale pelo grande Nelson.


 
Vê, estão voltando as flores

Vê, nessa manhã tão linda
Vê, como é bonita a vida
Vê, há esperança ainda
Vê, as nuvens vão passando
Vê, um novo céu se abrindo
Vê, o sol iluminando
Por onde nós vamos indo.

VIVA O BRASIL!

E já nos emocionamos aqui, maioria com os olhos molhados, e botamos a cantar essa menininha Til abaixo.

Refresco 1

Como a turma aqui do AE hoje cai fora, um para cada lado, o refresco fica em dose dupla.
Primeiro, o doido do Tim Maia (Rio, 15/09/1942 - 15/03/1998), o Síndico do Brasil, que adorava peitar a malvada Rede Globo e que amava ervas especiais. Maluco de atar, mas além de enfrentar a "Grobo" reintroduziu os sopros na música popular brasileira.

Joaquim desperta apavorado

Joaquim Balaio Neves reaparece. Que sonhinho, hein, JB? Só de ler me deu uma aflição danada. Alheio a política, estou postando devido aos fatores psicológicos expostos, muitos brasileiros estão assim nestes últimos dias. Também já andei tendo pesadelos semelhantes, na época em que li um livro sobre a história dos papas. E aqui já falamos, à exaustão, em quem vamos votar contra. Ilustramos a matéria com um tubinho verrmelho, mas você não ia querer um gajo dentro, não é?
Abraço.
Salito.

Coisa estranha, Salito, as notícias de ontem me causaram um aflitivo pesadelo. Estava o ... (não vale palavrão, Joaquim) do José Serra com o papa Bentão da ... (de novo, Joaquim, poderia ter referido a Onan que todos entenderiam), junto com o Gregorião VII das orgias, aquele de quem você sempre fala, na capela Sistina.
Você sabe que antigamente era nesse local que os papas cometiam suas orgias, né, enquanto lá de baixo, um porão de galerias, vinham os gritos dos hereges sendo torturados, acho que isso os excitava.
Primeiro o Serra, todo bispão dentro de um vestido tubinho carmim, vendia a Petrobrás para os padres italianos da máfia, depois dançava pelado com o Bentão da Santa Fogueira (de novo, troquei para "Santa Fogueira", coisa amena perto do que colocaste).
Um caótico emaranhado de cenas, rapazes e moças nus, muito sangue, e os berros lancinantes do povo lá de baixo. Volta e meia olhavam para o meu lado, senti que pensavam em me empalar. O Bentão não me perdia de vista, e lá pelas tantas veio para o meu lado. Meti-lhe a mão nas fuças e então fui cercado por uns vinte bandidos. Estava acuado, sem ter para onde correr.
Rapaz, acordei gritando, ensopado de suor, acho que despertei o prédio todo com o grito de pavor.
Que alívio, ufa, quando me dei conta de que foi apenas um sonho mau. Lá se foi a Suzana para a cozinha, preocupada, fazer chá de camomila.

Mas este mundo me ensinou que sonhos muitas vezes são uma advertência.

Depois dessa, eu que já tinha decidido votar na Dilma para não permitir que os múmios retomem o poder, agora descobri que sou ferrenho admirador da minha presidenta desde criancinha, se a encontrar na rua vou lhe pedir um autógrafo de joelhos. Vai que junto com a Petrobrás o Serra decida vender também a Suzana e o meu filhote Carlinhos para os estranjas. De quebra, ainda vai querer que eu ajoelhe para os padrecos, eu, hein? Aqui, ó.

Bom feriadão a todos aí do AE.

JBN

PS: Maravilha a interpretação da fantástica Elza Soares no "Bambino", um descanso para a alma diante do que nossos ouvidos são obrigados a ouvir diariamente. E a própria canção, uma obra-prima da dupla Wisnik-Nazareth. Valeu.

jueves, 28 de octubre de 2010

O anjo das pernas tortas

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Mané Garrincha ou simplesmente Garrincha (Manoel Francisco dos Santos, Pau Grande, RJ, 28 de outubro de 1933 — Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 1983), se vivo hoje completaria 77 anos.




O "Alegria do povo", um dos maiores jogadores de todos os tempos, marcou de forma indelével a história do futebol brasileiro. Representante do futebol-arte em sua plenitude, com seu dribles abusados e desconcertantes, na Copa de 1962 carregou o país nas costas e trouxe o caneco. Com Garrincha e Pelé jogando juntos, a seleção jamais perdeu uma partida.



Vinícius de Moraes homenageou-o com o poema "O anjo de pernas tortas":



A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.



Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!



Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.



Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!



No dia seguinte a sua morte, Carlos Drummond de Andrade, numa crônica publicada no Jornal do Brasil, escreveu:



"Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.".



Devido a seu rumoroso caso com a cantora Elza Soares, seu grande amor, foi perseguido por uma sociedade eivada de preconceitos.



Vinte anos depois da sua morte, a própria Elza Soares, em comovente aparição, encerra o imperdível filme de Milton Alencar "Garrincha, A Estrela Solitária", cantando a tocante Bambino (letra de José Miguel Wisnik e música de Ernesto Nazareth).

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Posfácio (epa!)

Aqui tenho a mania, instintiva, de achar que tudo é óbvio, todos entendem tudo. Mas não, hoje um amigo me alertou: tem a moçadinha, ansiosa mas nem sempre com os professores certos, a depender da alma que ouve a outra, porque "certo" ninguém é. Mais um doido a chorar? Melhorou. Bem por aí, desprezamos os caras certos, que ainda por cima exploram os bugres com a sua "sabedoria" adquirida mal e porcamente pela cultura de mentira, do sistema horroroso, que o dinheiro pagou e foi assimilada a seus modos. Alma não tem preço. Quase falo mal de dois baianos, deixa pra lá, seria injustiça, só dois brasileiros entre tantos.

Então vejam, meninos e meninas, a história dessa mulher, Elza Soares: hoje, 21/9/2012, ainda é a maior cantora em atividade do mundo. Maior em tudo. Aquele coração... Sempre foi uma das maiores do mundo, desde menina, apesar dos percalços por ser negra e teimosa num Brasil de acéfalos dirigentes que premiam uns aos outros com Juca Patos da vida. Honrosas exceções não contam, confirmam.

Da canção Bambino, ali em cima temos os autores. O Ernesto Nazareth nasceu no Rio em 1863, e ali morreu em 1934. Um colosso reconhecido pelo mundo todo.

O letrista, que também é músico, múltiplo artista, fantástico artista e ser humano, José Miguel Wisnik, nasceu em São Vicente, SP, em 1948, e está vivíssimo, para a alegria dos sentimentais e loucos que não se entregam. Já dediquei páginas a ambos neste blog de mal escritas palavras, eles que me perdoem, disse muito pouco.

Tem muito mais sobre essa nossa gente, basta a gente ir fuçando com o coração, mente arejada, esta que, confesso, ainda tenho muito pouco, vi escolas muito tarde, do lado de fora, salvei-me um pouquinho pelo supletivo de inúteis panfletos no conjunto, ora decorar fórmulas, mas tinha um de literatura que não dizia nada mas me incentivou a tomar a biblioteca pública como moradia.

E tem aquela coisa incompreensível de sentir a vida, a boemia, os sonhos acordado, a razão sem razão de viver, parece impossível colocar em palavras, mas isto vocês já sabem.



martes, 26 de octubre de 2010

Meia-noite no buteco

Ontem lá pela meia-noite, no bar Vagão da Meia Noite, próximo a Usina do Gasômetro, Juanito Diaz Matabanquero (sim, Mr. F. Febraban; sim, Dan, ele está aqui, e com as costas bem guarnecidas, então vão tirando o cavalinho da chuva), João da Noite e eu tomávamos uma das muitas que antecedem a antepenúltima enquanto ajustávamos uns detalhes de algo que precisamos fazer nesta semana, quando alguém mexeu no telão do bar, que reprisava um velho show do Noite Ilustrada. (Viram o que tem de "noite" no parágrafo? Pura coincidência).

Do show saltou para um debate ao vivo entre candidatos.
João da Noite, que contava uma passagem de sua história com uma gringa de Nova Bassano a quem muito amou,  ilustrando com o samba do Vanzolini que diz "...reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima", gravado pelo velho Noite, repentinamente pára de falar, abre os braços e reclama: "Era só que o me faltava, um politicalho e uma politicalha". Opa, disse eu, fala baixo, João.

A mexida na tevê foi obra de um magrelo nervoso, que plantou-se bem à frente do aparelho e ficou roendo as unhas, na torcida por um dos..., hummm, bem, um dos candidatos.

A mesa ao lado, lotada de gente feliz, morreu instantaneamente, todos levantaram e foram embora. Os dois boêmios da mesa do fundo, já altíssimos do chão, que matutavam algum recuerdo, trataram de tirar uma soneca, em dois minutos ressonavam sobre a mesa, um sono reparador, eles merecem, todo boêmio é um menino grande.

João, de frente para o telão, contrariado, fixa nele a sua atenção. Eu sigo falando baixo com Juanito, ele me dá conta do problema que Miquirina Segundo teve com os ladrões de cabras lá nos altos do pastoreio. Calçou o pé na macega e feriu quatro dos cinco, mas sofreu um corte feio no braço, não fosse a chegada de Kafil acha que o perderíamos.

"Debate é apelido!", grita João da Noite. "Isso é briga de rua, briga de bugio, baixaria, mas é tudo verdade o que dizem um do outro, é pouco!". O magricela com desagrado mira de soslaio para trás, mas dá de cara com Juanito e num átimo se arrepende.

"Psit, João, fala mais baixo", tornei a dizer.

João se descontrola fácil, diz que neste mundo o pobretão que não é recalcado é mentiroso ou alienado. Faz sentido. E ele também é, digamos, um pouco espalhafatoso de nascença, mas me atende e dá uma baixada na bola. Sem elevar a voz entra numa de ironia grossa. Fazendo cara de santo: "Querem matar um ao outro, mas por quê, ó Jeová, tanto fingimento, o que será que eles querem ganhar, no fundo, claro que não é dinheiro e cargos para o seu bando, o que será então, ó Osíris?".

Sigo achando sem graça a conversa, mas Juanito não se aguenta, rompe em sonora gargalhada, e segue em ataque de riso, à beira das lágrimas balbuciando: "No, es por amor a "Bracil".

João acaba rindo junto. O que faz a bebida.

O magrelo da primeira fila desta vez não olhou.

E João se adonou da palavra, quando a molha só ele fala. Afirmou, desfiando um sem número de razões, que esse tipo de circo é transmitido assim tão tarde para proteger as crianças, nossos órgãos de imprensa são muito responsáveis.

Faz sentido.

Emaranhou-se conectando e desconectando pensamentos, falou em novela das nove, do aleijume cerebral de alguém chamado faustão topo-gigio, e em dez minutos voltou atrás, dizendo que, pensando melhor, assim está tudo errado: o certo é o contrário, é o debate ser visto apenas por crianças, únicas pessoinhas que poderiam se divertir com os comediantes.

Eu já com dificuldades em me concentrar, tanta coisa a fazer nos próximos dias. Mas faz sentido. Imaginei a criançada rolando de rir pela sala. Mas infelizmente é para outra espécie de crianças, que a esta hora também dormem. Acaba estourando a bomba nas mãos dos notívagos.

Juanito contestou: hijos mios no, señor, pornografia no.

E ficaram trocando belas impressões sobre tão "empolgante" assunto. João parece ter lido meus pensamentos e observa: "Isto é para ninguém ver agora, estão encenando para passar depois no horário político obrigatório".

Entendi: os joões decidiram me estragar a noite em português e em espanhol. Sorvi a loira gelada. Loira me faz bem ao fígado, o que me faz mal são alguns políticos e todos os "pastores", como os amigos sabem. Afastei-me em devaneio, passei a elaborar mentalmente os nossos compromissos - meu e de Juanito - para quarta-feira.

Ressurge, vibrante, o filósofo político: "Sim, senhores, isto não é para adultos, estes se sentem subestimados, maltratados, insultados, se ofendem e trocam de canal ou desligam a droga da tevê". O magricela ouviu mas ficou frio.

E sobe o tom: "O que me espanta é que não têm pudor, como podem fazer isso diante de seres pensantes, não têm vergonha de se mostrarem assim, como profissionais do engodo, eles sabem que nós sabemos e estão nem aí, como sabem que depois das verdades que se dizem em público, depois de semearem discórdia e violência, de estuprarem a laicidade do estado e tudo que encontram pela frente, acabarão em elogios mútuos, abraçados falando em pacificação. Sério é o Siririca, o povo é sábio. Essa hipocrisia causa dano, não funciona no dia a dia do povo magoado".


Minha vez de ironizar: "Bravo, João, ganhou meu voto!, mas o nome do cara é Tiririca".
Pero faz sentido. Como o papo engrossou eu sugiro: "João, vamos mudar de assunto, essa palhaçada acaba em uma semana, faz de conta que acabou ontem".

Por ter ouvido o João, ou por magoado, o dono do buteco achou o controle remoto e de cara feia clicou com raiva, passando para um noticiário, rosnando: "Mas vão os dois pra tonga da mironga!".
O magricela saiu apressado, deixando a água mineral pela metade.
Fez bem o dono da baiúca, mais cinco minutos e ele iria ter como companhia somente o magro e os anjinhos dorminhocos.

"A Tonga da Mironga do Kabuletê" é um samba do Toco e do Poetinha, caiu no gosto popular há décadas, pelo final "... vou lhe rogar uma praga, eu vou mandar é você, pra tonga da mironga do kabuletê". Algo como mandar alguém longe,  mas Vinícius de Moraes dizia que em nagô isso tem um significado um pouco mais preciso.

Com essa, João da Noite se dobrou sobre a mesa e sussurrou: "Ei, gente, esse negócio de tevê em buteco é pra inglês ver, é melhor a gente terminar a noite com samba da Casa do Barão".

Esse é o João, uma hora dando discursos terríveis, em seguida um doce e amoroso guri.

Juanito topou imediatamente, afinal está de visita na cidade, quer espairar.

Eu assenti, sob a condição de que ele pelo resto da madrugada não viesse com papo furado como o de agora. Concordou sorrindo: "Feito, Salito, vamos ouvir a Banda da Lapa e olhar as mulheres, só".

E fomos. Rever Cláudio Barulho e a Banda em noite de primavera.

A Lapa é aqui.


domingo, 24 de octubre de 2010

Refresco matinal

Amanheceu em Porto Alegre (sim, Febraban, agora estou na Portinho, mas isto já está me aborrecendo, sai de mim).


Passei andando pela rua do Brique, a JB, antes de vir para casa. Com cara de sono, os artesãos, antiquários, artistas plásticos e a variada turma do rango recém iniciavam a colocar as mercadorias em exposição.

 O frescor matinal, o cantar dos passarinhos, ah, a primavera é linda quando se volta para casa contente.

Levei um lero com os conhecidos. O camarada Marrom, também conhecido como Wilson Borges, da banca das carteiras e objetos de couro, me abraçou apertado e disse que nunca envelheço, bonito sempre. Nada como ter amigos.
Respondi que me mantenho em relativa forma porque ando chupando muito suco de  lima. Acho que foi lima o que falei.

Fiquei dois minutos parado fixando a morenaça daquela banca que não digo, depois segui meu caminho. Ela lá, curiosa com o interesse daquele coroa de óculos de breu, terno azul, camisa azul e gravata azul àquela hora da manhã. Botei um grilo na morocha. Ela nem sonha com o que a espera.
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Depois descolei uma latinha num buteco das proximidades e fui o primeiro a comer os deliciosos pastéis na tenda da Vera.

Vindo de noite abolerada, não me saía da cabeça um samba do Moacyr Luz, o Poeta da Guanabara. Dos nossos. Está vivíssimo, pelas ruas do Rio, pelos bares do Rio. Sempre bebendo bem.


Saudades do Rio de Janeiro e seus bares, é tempo de novamente mudar de ares.
Saúde, Moacyr!





Pra que Pedir perdão? (Moacyr Luz - Aldir Blanc)

Se é pra recordar dessa maneira,
sempre causando desprazer,
jogando fora a vida em mais uma bebedeira,
ó, sinceramente, é preferível me esquecer

Eu te prometi mundos e fundos
mas não queria te magoar
Eu não resisto aos botequins mais vagabundos
mas não pretendia te envergonhar
(marquei bobeira...)

Vi muitas vezes o destino
ir na direção errada
e a bondade virar completo desatino
a carícia se transformando em bofetada

Ah, eu sou rolimã numa ladeira
não tenho o vício da ilusão:
hoje, eu vejo as coisas como são
e estrela é só um incêndio na solidão

Se eu feri teu sonho em pleno vôo
pra que pedir perdão se eu não me perdôo?

jueves, 21 de octubre de 2010

Sua Excelência

Carlito Dulcemano telefona de Montevideo. Pede encarecidamente que postemos ainda hoje o conto "Sua Excelência", do grande Lima Barreto. Aliás, Afonso Henriques de Lima Barreto recentemente visitou este blog, em Lima Barreto, com algumas verdades sobre a imprensa, da sua época, bem entendido, lá pelo início do século passado.

É uma beleza possuir amigos sensíveis: Carlito, meio cubano, meio uruguayo, conhece a obra de Lima Barreto como poucos.

Pois agora ele diz que com este conto, na verdade, o amaldiçoado escritor carioca mandava um recado para um arcebispo. Da sua época, bem entendido. Um recado com muitos despistes, os onanistas eram muito poderosos, sempre apoiados pelos olhares vulpinos dos políticos, faiscando de inconfessáveis interesses, todo cuidado era pouco.


Afirma Carlito que o sacerdote, escudado na CNBB daquele tempo, mas representando somente uma facção da empresa em que trabalhava, se é que se pode chamar aquilo de trabalho, tratava-se de um reacionário daqueles, um Belzebu de vermelho (foto), do tempo em que o Papa era o chefão do Santo Ofício da Bela Fogueira, o mesmo que a todo instante mandava o Leonardo calar a boca, e Lima Barreto, muito porreta, sabia das suas malvadezas em relação aos pobres de Paris brasileiros. Negras pobres e brancas pobres, então, visadas à beça, o tal arcebispo preferia ve-las mortas a admitir discussão sobre o aborto, prática por alguma razão muito comum nas classes baixas do Rio antigo. Nas altas também, mas as moçoilas destas não morriam ensanguentadas em fétidos açougues da periferia, podiam recorrer à asséptica clínica do eminente médico Dr. Gregorius Hypocritus (hummm... Gregório?), ali pertinho da Rua do Ouvidor.

Bem, custamos a crer, empedernidos incréus que somos, mas há que se reconhecer que é uma versão plausível, que com mais uns rabiscos poderia até ser plenamente convincente, outros tantos e se tornaria uma verdade absoluta, pelo mesmo modus operandi dos urubus ensaiados. Tempos terríveis aqueles. Vai que a imprensa ainda ajudasse o patife bispão das sufragâneas. Carlito domina o assunto: acrescenta que na época alguns padres espanhóis, que eram feras na arte de agasalhar, costumavam se apaixonar perdidamente pelos sacristãos bem armados. Houve tempo em que um desses sacristãos, o negrão Manguaço da Mariana, um caçador de cervos - daí a arma, era quem realmente mandava no baixo-clero lá da rua Santos Dumont. Entrava bufando de arma na mão: cadê as minhas sacerdotisas! Mas isto já achamos que é coisa inventada, e não pelo sofrido e genial Lima Barreto.

Charlando um tempão com Carlito, depois que atualizamos a velha história de Mr. F. Febraban, que presentemente anda à cata de novos mercenários, aproveitamos a deixa do negão Manguaço da Mariana, que caçava cervos, e lhe contamos sobre os muitos viados que comemos quando do exílio na Sibéria. Como todos os recantos do mundo, este também tem suas peculiaridades na culinária: lá se fazem umas celestiais tortas de carne de veado; acompanhadas de vinho tinto..., dos deuses! Naquela paisagem lunar, frio que congela os ossos dos boêmios que cometem a besteira de ficar pela rua até altas horas, o que dizer, então, de sangue de viado com vodka! Do capeta! Para além do sabor único, uma fonte inigualável de vitaminas, estas imprescindíveis naquele ambiente hostil. Ahn... que mania, já íamos mudando de assunto. Outro dia traremos a receita de como se entorta um cervo. Para beber, que é a preocupação mais latente, adiantamos que o sangue do viadinho deve estar quente, extraído logo após a punhalada na jugular, como alguns, pastores ou não, fazem para sugar ovelhas.

Taí, todo engravatado, pessoa do plural e tudo, e esqueço de perguntar a razão de postar hoje, necessariamente, o conto.
Bem, aí vai, a pedido de Carlito Dulcemano Yanés, para os entendidos. Em ministérios.
 
 
SUA EXCELÊNCIA
O Ministro saiu do baile da Embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no cupê depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.

Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo das suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção geral de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o pais chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham…

E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer. Lembrou-se do seu discurso de ainda agora.

“Na vida das sociedades, como na dos indivíduos…”

Que maravilha Tinha algo de filosófico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:

“Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes…”

0 olhar, muito brilhante, cheio de admiração – o olhar do líder da oposição – foi o mais seguro penhor do efeito da frase…

E quando terminou! Oh!

“Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”

A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.

O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.

O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.

Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa.

- Cocheiro, onde vamos?

Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.

Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro:

- Onde vamos? Miserável, onde me levas?

Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. O leão da Birmânia, o dragão da China, o língam da Índia estavam ali, entre todas as outras intactas.

- Cocheiro, onde me levas?

Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel.

- Canalha, pára, pára, senão caro me pagarás!

O carro voava e o ministro continuava a vociferar:

- Miserável! Traidor! Pára! Pára!

Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.

O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças.

Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.

Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos.

Nas proximidades um cupê estacionava.

Quis verificar bem as coisas circundantes; mas não houve tempo.

Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes.

Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou:

- V. Exa. quer o carro?

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martes, 19 de octubre de 2010

Shakespeare: dos nossos!

Na coluna Vinho & Coisa e Tal, do JB de 17/10/2010, o sempre elegante Reinaldo Paes Barreto trouxe um tema interessante que pode ter passado despercebido aos candidatos à presidência e seus séquitos de puxadores. Jamais para João da Noite e companheiros aqui do AE. Para a turma da boemia a história não é nenhuma surpresa, posto que desde muitos séculos é repetida noite adentro pelos bares, tradição oral entremeada por muitos brindes, principalmente nas comemorações de 23 de abril.


Vale a pena reproduzir. Preste atenção, caro arcebispo ecuatoriano aí no bairro da Glória, nada de tempestade em São Sebastião: isso servirá para que o nobre onanista abstêmio pense melhor antes de promover achaques contra Salito. Lendo o que o seminário proibia, talvez um dia ainda se desfaça das vestes coloridas, compre um chapéu de homem e se transforme num festivo cidadão de palavra molhada.

"Como tantos gênios, Shakespeare era alegremente pinguço! Beer or not to beer?

Que Shakespeare foi o maior poeta e dramaturgo da Inglaterra e um desses homens-oceano que surgem de mil em mil anos para botar no papel e no palco “a dor de viver”, todo mundo sabe. Mas que era chegado a uma cervejota, nem todos sabem.

Mas era.

William Shakespeare faz 14 menções à palavra "Ale" e cita cinco vezes a palavra "beer" ao longo de sua obra (cerca de 40 peças). Isso nos leva a duas conclusões: uma é que no tempo de Shakespeare - ele viveu de 1564 a 1616 - a cerveja já era uma bebida muito popular; e, a outra, é que além de gênio, o bardo de Avon gostava de uma “loura”, ainda que vagamente morna.

E isso porque a adição do lúpulo à fórmula da cerveja -- produzida até então apenas pela mistura da água, malte e aromatizantes, como a camomila, o gengibre, o zimbro e o açafrão – introduzida pelos monges, nos anos 700, serviu não apenas para “puxar” o sabor para o amargo mas, e sobretudo, para evitar que ela se deteriorasse rapidamente.

Graças a essa longevidade, a bebida se disseminou pela Europa nos séculos seguintes, sobretudo pela Inglaterra, pela Irlanda, pela Alemanha, pela Holanda e pela Bélgica – até hoje matrizes de algumas cervejas de excelente qualidade.

Mas é a Inglaterra que nos importa neste texto.

Como se divertir em Stratford-Upon-Avon, no século 16, além do teatro e das peças ao ar livre? O vilarejo era um burgo remoto no noroeste da Inglaterra (170 km de Londres), imerso em cerração, chuva e frio, que desde o seculo 11 foi transformado oficialmente em cidade-mercado. Tanto que ainda hoje as ruas se chamam “Rua das ovelhas”, “Rua da madeira”, “Rua da Lã”, “Rua dos vegetais”, por aí.

Bebendo cerveja. De preferência “ales”.

Parênteses: o pai do poeta – John Shakespeare – que fabricava tintas, bolsas e luvas de couro, e as vendia num balcãozinho colado à parte da frente de sua casa, ganhou bom dinheiro e acabou elegendo-se vereador. Depois, em 1556, assumiu uma posição importante no município: tornou-se o provador de cerveja da cidade!

Sua função era assegurar que os pesos, medidas e preços fossem cumpridos corretamente. Ou seja: o DNA cervejeiro transitou de pai pra filho!

Mas mesmo bom de copo, foi graças a ele, John, que William Shakespeare se tornou um extraordinário poeta e o maior dramaturgo inglês, provávelmente do ocidente. Isso porque foi ele que “obrigou” o menino a frequentar a escola e ter aulas de gramática, – coisa rara para crianças não-nobres, naquele tempo.

Corre o tempo. Aos 18 anos, o jovem William se casou com Anne Hathaway, filha de um rico comerciante amigo de seu pai. Quando se casaram, ele tinha 18 anos e ela...25. Estava grávida de três mêses: c’est la vie!

Logo depois do casamento, Shakespeare partiu pra luta. Aprendeu latim e foi para Londres, onde em pouco tempo tornou-se razoavelmente conhecido. Lá, segundo registros de propriedades, compras de terras e investimentos, tornou-se um homem rico. Tanto que tornou-se sócio do Globe Theatre, um empreendimento teatral que reunia grandes autores e atores e tinha por sede um edifício de forma octogonal, com abertura no centro. Detalhe: todos os papéis eram representados pelos homens, sendo os mais jovens os encarregados de fazerem os “roles” femininos.

Próspero, fazia a “ponte aérea” Londres-Stratford e em 1597, comprou a segunda maior casa de Stratford, a New Place, atrás da primeira, onde nasceu. E lá, de 1601 a 1608, se dedicou a escrever Hamlet, Otelo e Macbeth, sua trilogia de ouro.

Mas em 1613 o Globe Theatre foi destruído pelo fogo e Shakespeare teria sofrido um baque e resolvido se desligar do Globe para voltar definitivamente a Stratford, onde a família o esperava.

Morreu três anos depois, aos 52, no mesmo dia em que nasceu – 23 de abril.

Causa-mortis: porre! Morreu de tanto beber.

Mas nenhum outro homem de teatro – antes ou depois – desceu tão fundo pelos corredores da alma humana, para depois perguntar: ser ou não ser?".



Taí. Dizem alguns que bebia em excesso por ser profundamente corno, mas isso é uma calúnia espalhada pelos políticos e arcebispos da época, por motivos que todos sabemos. Em relação aos pastores, some-se o fato de que julgavam o grande escriba um católico recusante. Façamos-lhe justiça, era ateu, mas naquele tempo isso era muito perigoso, imperava raivosa ignorância, até se falar em aborto e saúde pública era tabu, não como agora, 500 anos depois, onde não existe mais fanatismo religioso a serviço de aproveitadores, daí que o velho Shakes se fechava em copas nesses assuntinhos.

Obviamente que aqui não estamos fazendo apologia do suicídio etílico, esse lero de morte nos causa, digamos, algum enfado. Desagradável. Possivelmente deve ter ocorrido  de o ilustre dramaturgo,  num descuido de beber um dia sim e outro também,  ter exagerado um tantinho na quantidade, e é sabido que os apreciadores de cerveja logo aprendem a amar o vinho. Ah, o vinho, os paroquiais onanistas ao menos tem isso a seu favor, pena que para eles tornou-se uma faca de dois gumes quando Gregorio VII, o Gregorião das orgias, tomou aquele bruto fogo na cidade de Trento... mas não mudemos de assunto.
Exageros à parte, convenhamos que uma quota diária de meia-dúzia de chopinhos tirados no capricho, geladérrimos e com colarinho de dois dedos, aliada ao mesmo número de bolinhos de bacalhau feitos na hora, não leva ninguém para a comunidade celestial antes do tempo. Sim, um copito de tequila ou de trigo-velho gelado pode acompanhar, para garantir aquele calorzinho ardido na garganta. Estamos de acordo com a Divina Elizeth, que cantava os belos versos de Luís Antonio: "Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo".


É verdade, quando se mandou para Londres ficou longe da mulher por 20 anos, porém isso é algo muito natural, para nós que pela tevê conhecemos madames de igual estirpe. Sobre as dezenas de mulheres que o amavam em madrugadas inesquecíveis os seus detratores se calam. Na realidade, a difamação tem a perfídia como substrato. A muitos era intolerável vê-lo pelos botequins, solitário na mesa 8 mirando o copo como se nada em volta existisse, entornando com firmeza preciosos líquidos, não raro sofrendo violentos repentes e acorrendo transfigurado ao seu bloco de anotações. Depois, exultante, olhos brilhando, gritar: "Mais uma na 8, portuga!". Os políticos e os padres, aflitos, mal dissimulando a malévola angústia, se perguntavam: o que será que lhe vai pela cabeça? Sim, noturnos irmãos, a inveja é coisa antiga.


Ao saber da calúnia dos senhores de boca seca e de vestido carmim, Shakes foi definitivo: "A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial".


Saúde, William!

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lunes, 18 de octubre de 2010

Na cama de outro - Parte 2


Por Síndia Santos

Não pude chorar, não se tratava de culpa. Meu marido saiu. A casa permaneceu num silêncio de angústia. Estagnei fixa a olhar pela sacada. Buscava algum desespero e só encontrava sinalizações duras. Estava feito. A casa nova, os móveis, as brigas, nada me segurara, todos me compeliram.

Quis amar e amei. Não importava muito em quais braços, desde que fossem os braços certos. Minha fé precisava de liturgia para se manter viva, criei um santo para venerar. Um santo que não fazia milagres porque estes eram de minha responsabilidade. E meu milagre seria separar-me. O divórcio; uma instituição tão antiga quanto o próprio matrimônio, a dissolução de laços social, cultural e jurídico. Babilônios, celtas, astecas, gregos, romanos, todos puderam recorrer à separação. Mas quem podia sedar os seus efeitos.

A flor de narciso quem sabe? Aquele do mito, que ao ver sua imagem refletida num lago, se lança numa busca desesperada pelo outro, e ao emergir descobre que não era o outro, mas sim, ele mesmo o objeto de seus sentimentos. Narciso mergulha e morre.

Parei no alto do penhasco marrom e cor de abóbora do meu sonho e me lancei ao mar, olhei para o significado daqueles nove anos. Não foi fácil conceber que estar junto doía porque em algum instante deixei de só ser. Em que momento essa massa sem formas, de regras e negligências me abocanhou?, não sei. Meu amante era um reencontro, o mergulho no outro para emergir em mim, uma forma de não aceitar o fim.

Nove anos e o fim.

Éramos tão crianças… Todos os romeus e julietas estão fadados a morrer por não saberem assistir ao próprio crescimento, fazendo pactos para se manterem estreitos. Tanto amor num só olhar e agora o fim. Onde foi parar aquele tempo onde o mundo eram dois corpos a serem descobertos? Tanto amor e fim. Uma intenção simples de querer bem e fim. Onde está o amor agora, minha angústia? Atolado na avareza de nosso amadurecimento?

Era o fim e eu tentava velar meus mortos. O telefonema revelou-me o óbito. Velar os mortos. Sentei-me e espremi algumas lágrimas; não dos olhos, porque esses não eram a sua morada. As lágrimas vinham do estômago que se contraia num nó só.

Há uma fronteira que nenhuma mulher pode cruzar. A transpus para deixar de ser menina, do contrário ainda seria uma porção de carne, músculos e ossos, vazios, restritos. Fui além, decidi que merecia viver.

Pela primeira vez, vi-me por dentro num espelho. Confessei a mim desejos que condenava; condenei-me. Daquele instante em diante, seria eu mesma.

Em busca de mim rejeitei todos os valores que me foram apresentados. Dignidade, decência, moral, orgulho, todos se apequenavam diante da fome voraz por vida.

Distraída feito voyeur escondendo-se do mundo, percebi-me. Havia me acostumado a fingir não ver, percebi-me de surpresa, feito uma figura num quadro que retribui o olhar. Assustei-me, caí, mas mantive o comportamento daqueles que vêem o mundo como um faz de conta. Fiz de conta que era imaginação e aceitei a brincadeira. Não havia como me machucar; enganava-me.

A porta bateu. Meu marido estava de volta. Malas; havia malas em suas mãos. O guarda-roupa foi aberto e peça por peça foi encerrada dentro daqueles caixões. Depois, milhares de fantasmas em forma de blusas penduradas em cabides se espremeram no banco traseiro do carro; no porta-malas, livros, papel pintado travestido de uma sabedoria que não explicava aquele momento.

Algo se rompia dentro do peito, uma hemorragia ganhava formas invisíveis.

- A partir de agora, quero esquecer que você existe. Não me cumprimenta, não me pergunta, não fala comigo. Você consegue entender isso? Você deixou de existir.

Era o contrário, minha existência estava ali, latejando. “Só aquele que se mantém integralmente pode, a longo prazo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, de ser percebido como uma força vital”, cantava em meus ouvidos Lou Andréas-Salomé.

- Dez meses, ficamos dez meses juntos. Apaixonei-me.

Meu marido sorriu, riso cético, assustador. Arrepios transpassaram meu corpo.

- Eu sei, a esposa dele me ligava com freqüência. Não acreditei. Você com um amante?! Não…

Ele riu de novo, eu chorei. Era o meu julgamento e a sentença me definia: eu era uma farsa, uma peça burlesca que não mostrou a que veio em nove anos. Custava-me crer que ele tinha razão.

Nove anos que me levaram a cama de outro, várias camas, camas estranhas, quartos estranhos, tempo estranho, homem estranho. Tempo vertical que não pedia mais de um segundo para transformar a proximidade em imersão. Homem estranho, eternamente próximo, um amante, reflexo de mim. Eu tinha um amante e gemi de prazer em seus braços e suei e amei e gozei inúmeras vezes, gozo do desconhecido, gozo de possibilidades.


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