viernes, 17 de abril de 2020

O TESTAMENTO

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Por hábito escrevo durante os afazeres domésticos. Escrevo na cuca, né. As tarefas como varrer e passar um pano na casa, cozinhar, lavar roupa no tanque, etc., faço no piloto automático, sem nenhuma concentração, de tantos anos que fui escravo consentido de mulheres não preciso pensar, apenas vou tocando, quando vejo está tudo limpinho no lugar certo. Hoje não sei o que me deu, talvez por pressionado pela situação lá fora e pelos dementes que nos governam: ali pelas quatro da madrugada, em meio à lavança de panelas sem querer comecei a “redigir” o meu Testamento. Depois de muitas palavras carinhosas e algumas repreensões indiretas a cada uma das descendentes, dei-me conta de que não tenho o que deixar, nenhum bem com valor de mercado, aí botei que fiz o melhor que pude, dei-lhes ensinamentos e boa escola, acrescentei alguns conselhos, controlando o tom para não fazê-las chorar no dia da leitura. Parei a lavação, quem estava chorando era eu. Lavei o rosto na torneira e acendi um cigarro, elas não estavam presentes para fazer cara feia pelo cigarro. Decidi que as testemunhas diante do tabelião seriam o Bruno e a Jezebel, tudo perfeito. Foi então que um mau pensamento me assaltou: será que existe herança negativa, os descendentes herdando as dívidas? Aqueles canalhas vivem mudando as leis para enriquecer ainda mais os banqueiros, vai que... Era só o que me faltava, se houver vou matar os credores antes de partir para outra. Suspendi os trabalhos e fui remexer no Código Civil, chamado de Novo embora seja de 2002, o meu é um grosso volume, comentado, de duas mil quatrocentas e tantas páginas. Remexi em tudo e não achei o livro, deixei para amanhã – que já é hoje, alguém deve ter pego. Voltei para terminar o serviço, a cozinha ainda era um campo de guerra. Com a cabeça quente dessa história de herança negativa esqueci uma das regras básicas de convivência, logo eu que morei em mil lugares: não se lava nem seca certas coisas de madrugada, muito menos meio levantado do chão, com cinco duplas de uísque na cabeça. Com os pratos correu tudo bem. Depois lavei e sequei direitinho muitos pirex, jarras e potes de vidro, empilhei de baixo para cima do maior para o menor, abracei tudo, uma pilha que vinha da cintura até o nariz, e estava levando para o móvel na sala ao lado onde são guardados, quando sem querer encostei no braço o cigarro que tinha pendurado na boca, queimou; instintivamente afastei rapidamente o braço e lá se foi tudo. A barulheira de vidros se espatifando deve ter sido ouvida em Marte. Logo vieram as vaias do prédio, acordei todo mundo. Alguns gritaram “corno”, “fiadaputa”, “viado”. Pensei em revidar mandando-os à puta que os pariu, talvez dar um tiro num, mas não, fiquei frio, devem andar nervosos também. Amanhã varro os cacos, pelo estouro deve ter caco até no banheiro. Hoje em dia é assim: não restam cacos de vidro grandes, e sim milhões de grãos, maldita tecnologia, e isso que discutem se vidro é líquido ou sólido, pisem numa bolinha daquelas pra ver. Servi mais uma dupla de uísque e fui para a sala grande. Botei um disco, sentei no sofá, cruzei as pernas e fiquei ouvindo o Johnny Alf, pensando que dia destes o inesperado haveria de me fazer uma surpresa. Foi quando tocou a campainha, olhei pelo buraquinho e vi a mulher do nono andar com uma garrafa de champanhe na mão.
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miércoles, 15 de abril de 2020

UM POR TODAS E TODAS POR UM

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Por esa puta costumbre

de andar haciéndome el vivo,
el que se las sabe todas
y todas las ha vivido.
El que tuvo mil amores
llorando sobre su almohada.
¡Por esa puta costumbre
al final no tengo nada!

(Cacho Castaña)

Querida (...)

Esta carta vai em particular para ti, é idêntica a outras 35 enviadas para damas livres e desimpedidas, escolhidas a dedo. Uma delas é médica de probleminhas femininos, outra é farmacêutica, sabe de poções e unguentos, outra expert na dança do ventre, uma jovem atriz pornô, uma estudiosa de sexo tântrico, ... (Kama Sutra é ultrapassado), todas tem uma especialidade, em comum um fogaréu no corpo. Se tudo correr bem em breve se conhecerão e reconhecerão umas nas outras, belas que amam a vida. Ao ponto: não bastasse o que estamos vendo, as notícias são alarmantes. Agora timidamente anunciam que ficaremos em isolamento pelo menos até 2022, porém tenho fontes fidedignas que dizem que será rigoroso até 2050, tanto que os europeus estão fugindo do Brasil, seus governos sabem coisas que não sabemos. Meu bondoso coração não suporta a ideia de sabê-la desacompanhada, mofando triste, sensível poeta socada num frio apartamento, uma mulher assim caliente enlouquecendo de solidão, ah, não. Aqui tem espaço para no mínimo 40 mulheres, com folga, e só estamos eu, 4 ex-freiras estrangeiras e a Jacqueline Traveca, todas almas de luz, cabeças abertas, entendidas em linguística, teatro, dança e muitas outras artes. Mude-se para cá enquanto é tempo, estou convidando. Logo estaremos todos sós, a nação temerosa sem confiança para aproximação física, uma vida sem sentido, o medo aterrorizando as ruas, os loucos e os aproveitadores à solta, nesses momentos os humanos mostram a sua pior face, se transformam em zumbis, mortos-vivos como o Demente que logo será sacrificado.

Nas áreas comuns confraternizaremos, se bem que nada impedirá que nos visitemos nos quartos ou façamos teatro libidinoso, lascivo, no salão principal, vez que outra até ascético, para alimentar o espírito. Tem sauna e academia com equipamentos para exercícios. Onde come um...; onde comem duas, comem quatro, oito, dezesseis... ã... é geral mas agora me refiro à economia interna. Temos um bom estoque, mas enquanto houver produtos faremos compras por telefone e pela internet. Se não sabe cozinhar não tem problema, eu ensino, ensinaremos coisas uns aos outros. Plantaremos legumes e verduras no terraço. Na adega já tem estoque para até 2060. O Casarão é inexpugnável, portas de aço, mas juntos decidiremos o futuro, caso surjam desejos de mudança. Ficaremos naquela de segue o baile, quem está fora não entra e quem está dentro não sai; se sair não volta. 

Venha, amada, traga uma muda de sua flor predileta, algumas roupinhas, objetos pessoais, livros e discos de estimação, gato e cachorro se tiver, atestado médico, todo o dinheiro (se não tiver dinheiro, azar, vem com o corpo) e nada mais. Em anexo vai o Regulamento do Casarão, suscetível de ajustes. Beijos.

Luciano Peregrino, mágico
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domingo, 5 de abril de 2020

FUGINDO DO COVIL-69 NA MÁQUINA DO TEMPO

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Bar fechado. O Terguino se mandou pro mato em férias sem data para voltar, mas a gente sabe que foi para escapar do bicho que chamamos de Covil-69, que era o nome de um apartamento em que morei com quatro alegres mulheres. Baseado nisso é que a turma resolveu convencer o Portuga de que cinco é bom, não dá problemas com as autoridades sanitárias, imploramos que abrisse o botequim. O Portuga andava aborrecido por ficar trancado em casa e encarou o batente. Mas com o bar de porta e janela fechadas, para todos os efeitos não tem ninguém lá dentro, é residência particular, e não deixa entrar mais de cinco. Então por sorteio formamos quatro grupos de cinco boêmios e boêmias. A gente se reveza: num dia vai o grupo 1, no outro o grupo 2 e assim por diante até o grupo 4, somos em 20. Depois mudamos a composição dos grupos, para ninguém se perder de vista por muito tempo. O Portuga lá atrás do balcão, ouvindo os papos e dando opinião. Serve as mesas quando a gente pede algo e volta pra lá.
Chega a ser engraçado: um sentado em cada mesa, estas dispostas a três metros umas das outras, de um modo mais ou menos circular, uma das mesas no meio, esta com a cadeira de rodinhas. Obviamente que quando está presente quem ocupa a do meio é o Rei da Cidade Baixa, Bruno Contralouco. E ficamos lá, bebericando e jogando conversa fora.
Na sinuca lá nos fundos tem três mesas oficiais. Afastamos duas para um canto e ficamos com todo o salão para a mesa que julgamos melhor, com espaço para a gente se movimentar sem passar uns pelos outros a menos de dois metros. Temos regras: se alguém espirrar, tossir seco ou molhado, tá fora, pode ir embora e não volte mais. O Bruno vive se queixando de febre ao chegar, mas rindo. Um vai vai dar a tacada e os outros ficam cada um no seu canto, bebericando enquanto espera a sua vez.
Somos todos apegados, mas parece que em tempos ruins a gente se aproxima mais, sai cada papo... Outro dia, entre um trago e outro lá nas mesas da frente, falou-se de humanismo e de nazismo. Eu, num atraso daqueles, pensava em mulher.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo, entraria nela e iria para Brasília, em 1º de janeiro de 2003, dar uns conselhos pro Lula, começaria dizendo pra ele liquidar com a Vênus Platinada, que a cobra iria picá-lo um dia, ela já tinha feito isso com Getúlio, com Jango e com ele próprio. - Disse o decano Aristarco.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo mandaria o Bozo para Berlim em abril de 1945. - Respondeu Bruno.
- Em 1946 eu o mandaria para Nuremberg para ser julgado. – Disse Luciano, que estava de pouca conversa.
- Se eu tivesse uma máquina do tempo em 1964 iria para Paris, conhecer o Alain Delon, quem sabe ter um caso. – Disse Jussara.
Aí tomei conta do campinho: - Eu iria para a Alexandria, em 30 a.C., no início de agosto, direto para os aposentos da Cleópatra, já chegaria esmagando a cabeça de uma naja chamada Globo, aquela tinha um veneno mortal, depois me empernaria com a rainha, logo mataria todos os romanos e viraria faraó.
A turma ria muito da ideia de cada um. A conversa tomou outro rumo, mas fiquei matutando sobre as mulheres da História. Meu Deus, a máquina iria rodar mundo, eu salvando as damas só para depois vê-las peladas. Em 48 d.C. comigo por perto ninguém tocaria num fio de cabelo da Messalina. Em 1793 eu os faria engolir a guilhotina e fugiria com a Maria Antonieta. Tantas... De repente voltaria a 45 d.C para levar um lero com a Salomé... pensando bem, melhor não. Não apenas para admirar a nudez das mulheres, antes de tudo por um abraço e um beijo de amor. Absorto custei a perceber que me chamavam lá para a sinuca, ia sair uma matadinha a dez pilas. Puf, meus sonhos de amor viraram fumaça.
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viernes, 3 de abril de 2020

Senhoras: fiquem em casa, ou venham pra minha

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Há décadas a cada ano que passa eu, Bruno Contralouco, sinto mais saudades da Gonorreia e da Clamídia. Senhoras bactérias de linhagem, aristocratas com nomes de princesas: Neisseria Gonorrhoeae e Chlamydia Trachomatis, com pequenos problemas de criação, como os tem todas as filhinhas de mami. E a gente ganhava uma joia dessas fazendo uma coisa boa, sofria um pouquinho depois, mas nada que a Dra. Benzil Benzatina – que nome lindo, Benzetacil para os íntimos, filha da Dra. Penicilina, não curasse. Outra coisa é o patife do vírus HIV, aquilo não vale o que come. Rufião de cabaré de vigésima categoria, que ataca pelas costas, o vagabundo não respeita idade, sexo, classe social nem nada. Estão aperfeiçoando um destemido para liquidar com o monstro, pelo menos até que venha a poção extraída da árvore Célula Tronco: o herói Contravírus; esse é dos nossos, do contra. Tem mais: todos já ouviram falar que lagartixa nunca chegará a jacaré, né? Pois nesse passo também tem a Sífilis Pallidum - se isso é nome que se apresente, subespécie que nunca chegará a bactéria. Também ataca homens e mulheres. A Dra. Penicilina ou alguma de suas colegas, como o grupo de trabalho da Dra. Tetraciclina, acaba com ela.

Até aqui só vejo um probleminha, que não creio que seja divino, os humanos é que aplicam, de acordo com as suas conveniências, crenças e superstições, histórias mal contadas em pergaminhos e depois livros que eles mesmos escreveram, em metáforas que ao longo dos séculos e até milênios vão reescrevendo e dando novas interpretações, sempre tendo a dominação como pano de fundo. Bom, em grande parte do mundo dizem que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso porque transaram, a alegoria foi uma maçã. Quer dizer, botaram o casal no Paraíso cheio de rios e árvores, com tesão – uma cobra provocadora, e era proibido transar. Faz sentido? Para piorar a situação, os expulsaram para outro Paraíso, este terreno: que vão transar lá longe, sem imortalidade. Foi o que eles fizeram. Desse novo Paraíso dou como exemplo a Amazônia, que seres malignos – filhos de Adão e Eva? Duvido. – querem destruir. Não contentes, os deuses deram de mandar pragas mortais para o Novo Paraíso. Puxa vida, já tinham tirado a imortalidade... Muitas dessas pragas adivinhem para quê? Para impedir que transem. Pombas, expulsar tendo a morte como destino não foi o suficiente? Esse assunto me dá vontade de rir, melhor seguir em frente nesta estória, depois retomo o fio desta meada. (segue)


o-o-o

Ilustração: Ronaldo (Vacaria-RS)
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viernes, 6 de marzo de 2020

Desamores e ameaças de morte

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Eu estava preocupado. Elas estavam muito ressequidas, vai que neguem fogo. Passei lanolina - sebo de carneiro, e as coloquei para dormir no sereno da noite. Depois as limpei bem com toalhas de papel. Logo as pintei com tinta preta, não sou bailarino para andar de amarelinho, azulzinho ou vermelho, e botei secar de novo. Depois passei graxa preta. Dei um tempo e as esfreguei com um pano seco para dar brilho.

Não vejo a hora de calçar as chuteiras para dormir, logo que as hipócritas saírem da minha vida. Saudades só tenho da Ramira do Bonfa, que pena. As chuteiras também servirão para me sentir renovado ao subir para a área dos inimigos, outros. Durante o sono elas se mudam, uma para a mão esquerda e outra para debaixo do travesseiro. Bem calçado sou outro cara.


Na subida para aparar o escanteio levarei o meu bando, ora, chega de apanhar. Combinei com eles nos treinos, falei pro neguinho meia-esquerda do presídio e para todos: eu faço o estrago lá na área deles, entrando a mil, recebendo e dando empurrões e cotoveladas, e um de vocês faz o gol, estarão desmarcados, a bola não virá pra mim. Se no aperto ou rebote ela vier pra mim, eu faço.
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sábado, 28 de diciembre de 2019

PASSEANDO NO MENINO DEUS

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Resultado de imagem para furgão branco pequenoLi que segundo o IBGE o trabalho informal bateu novo recorde no Brasil. Trabalho informal todo mundo sabe o que é: é desemprego, é bico, é qualquer coisa que a pessoa possa fazer pra levar comida pra casa. De certo modo é o que os palacetes chamam de “empreendedorismo”, essa insultuosa ironia. Lembrei das minhas andanças há uma semana, naquele dia das sete da manhã às cinco da tarde pelas ruas do Menino Deus e bairros adjacentes. Em outras oportunidades andava com outra roupa em outro horário. Ia devagar sob um sol de rachar. Tênis, bermuda e camiseta regata, e o chapéu de malandro do bem, tudo novinho, parecia magnata. Morro de saudades dos tempos em que morei na Barão, na Marcílio, Caldwel, André Belo... na Dezessete, lá adiante na Botafogo, Barbedo... tantas, morei em quase todas as ruas do bairro. Quando algo corria mal me mudava novamente, voltava a morar na Praça Garibaldi, pelo lado de cá a divisória da Cidade Baixa. Passei a José de Alencar e fui até lá em cima da Oscar Bittencourt, morei lá na pinha. Desci pela Silveiro e entrei novamente no lado que dá para a Praia de Belas, pela Baronesa do Gravataí. À direita caí na Rua Costa, que não tem saída direta para a Getúlio, para lá e para cá. Parei na esquina da Grão Pará, andei e resolvi entrar na Itororó. Na metade da Itororó vi a moça, linda, loirinha sorridente que conheci há alguns anos quando casadinha no Morro Santana, um amor de guria. Ia passando na maior calma e a vi de branco, calça e jaquetinha tipo roupa de médica à minha frente, mexendo na traseira de uma pequenina camionete também branca estacionada ao lado da calçada. Abriu: dentro frascos de plástico coloridos, de diferentes desenhos, bonitos, de litro ou litros, marcas famosas de produtos de limpeza, sabões, amaciantes, etc. Estendeu uma rampa de plástico com uma cadeira na outra ponta e começou a colocar os produtos em exposição, estava vendendo. Virou-se quando passei e disse: “Olá”, com um lindo sorriso. Eu já a tinha reconhecido, ela me reconheceu só quando me viu, depois do Olá dirigido a um possível cliente morador das adjacências. Abracitos, palavras de praxe, me disse que tinha se separado e estava se virando com trabalho informal. O seu atual companheiro estava fazendo a mesma coisa em outro bairro. A caminhonetinha era alugada, sem origem. Não pergunto, dependo disto, disse ela. Os frascos eram reaproveitados do lixo seco, bem lavados e tal. Os líquidos eles faziam num galpão atrás da sua moradia. Mas o nosso produto é melhor do que o original, e a gente vende pela metade do preço, disse muito séria. Acreditei e acredito, ela é uma boa moça. Felizmente naquele dia não apareceu fiscalização da prefeitura para barrar a atividade de sobrevivência do que nem cócegas faz nas múltis. E tu, agora mora por aqui? Não, só estou passeando, olhando as casas bonitas, aqui no bairro ainda tem casas finas, não apenas espigões frios. Pretende comprar uma? Ah, se eu pudesse, menina... mas não, meu anjo: olho para assaltar. Rimos ambos. Despedidas de promessas de vamos nos ver novamente, apareça, a gente gosta muito de ti e tal. Segui feliz a minha procura, o passeio em que ela acreditou. Certa vez perseguimos um brutamontes nazista lá do Parcão que matou um morador de rua das nossas relações afetivas por pura maldade, o bandido sumiu por estas imediações, rondamos a noite inteira e simplesmente tinha evaporado, sair não saiu. Mora por aqui ou tem alguém, então se não mora um dia vai voltar. E eu, que vi o seu rosto, e que entre nós sou o único que conhece cada pedra do Menino Deus, vou pegá-lo. Agora no rastreamento. Uma vez identificado, endereço, amigos, depois de pegar domínio do terreno, é que vou mandá-lo para o inferno, no dia e hora em que eu quiser. Está demorando, o pessoal da Praça nem me pergunta mais para não me desconcentrar. Sinto que será neste verão.

(Fragmento do conto, in "Os perturbados de Porto Alegre")
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domingo, 15 de diciembre de 2019

A PRAÇA

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(...)

Mas a praça não era apenas violência, penúria e tristeza. Hoje, passadas quatro décadas, olhando para trás só me afloram à mente os bons momentos. Poucos, porém inesquecíveis. Os ruins o cérebro evita, preciso me concentrar para lembrá-los. Rio dos barbeiros. Os companheiros de desventura cortavam os cabelos uns dos outros com uma minúscula tesourinha, para ao menos reduzir a cabeleira. O meu eu mesmo cortava à faca pelo tato, mantinha o rudimentar punhal afiadíssimo, o mesmo punhal com que fazia a barba, esta era macia, rala; fácil. Os cabelos no começo era complicado, pois só com o tato, sem espelho, não era tão simples evitar desproporção, uma parte mais volumosa que outras. Depois conferia o resultado me olhando em alguma vitrine de loja, não ficava legal. Um dia um dos moradores afanou uma tesoura boa em algum lugar, aí foi um abraço. Tocava nas regiões da cabeça, media, com os dedos indicador e médio estendia, prendia a parte excedente e lá ia a tesoura, trocando de mãos a depender se do lado direito ou esquerdo da cabeça. Era destro, mas isso ajudou nos esforços para me tornar ambidestro no uso do punhal para outros fins: o inimigo o via numa das mãos, armava a defesa ou o ataque baseado nisso, e no último momento, já voando para cima dele, trocava de mão o jogando para a outra. Um dia consegui um pente, mas o usava somente para pentear os cabelos, para o corte estava habituado com os dedos. Nunca entrei numa barbearia, pois desde menino até ficar mocinho a mãe cortava em casa. Muitos anos depois, certa vez em que fui falar com um intrujão da Travessa Acylino de Carvalho, já bem vestido, morando num apartamento da Marechal e dono de um cabaré na João Pessoa, na saída do acerto com o receptador entrei numa das barbearias para ver se havia outros instrumentos que eles usavam, e os tipos de pente e tesoura. Assisti o que eles faziam e me retirei sem que ninguém perguntasse nada, nessas alturas todos na Travessa sabiam quem eu era, não tinha apenas o punhal por dentro do paletó de passeio.

(...)

(Fragmento do conto A Praça, do livro “Os Perturbados de Porto Alegre”)
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martes, 15 de octubre de 2019

DIA DO PROFESSOR

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Porto Alegre, 15 de outubro de 2019.

Querida profinha

Neste dia lembro novamente do muito que a senhora me ensinou e da paciência que teve comigo, única a me defender, afirmando que de louco eu não tinha nada, pois viviam querendo me expulsar por fazer bagunça e brigar na hora do recreio. Uns malvados diziam que eu não batia bem só porque arranquei uns pedaços dos maus elementos e botei fogo na casa de outro. Os filhinhos de papai e outros bichos é que sempre começavam, se prevaleciam com os menores, eu só encarava porque os parentes diziam que é feio homem fugir. Fugia quando me esperavam de bando na hora da saída, aqui ó que iriam bater na carinha que a mamãe beijou, mas depois pegava um por um, ah, a vingança é doce.
A senhora ia pisando firme, levando o meu boletim, para me defender lá na sala da Direção. Professor macho só tive um bom, já no noturno do ginasial, que depois da aula ia jogar sinuca e tomar trago com a gente. A senhora, que agora sei era uma mocinha recém iniciando a carreira, foi o meu primeiro grande amor, platônico naqueles meus 11 anos, perdi a conta das vezes que lhe homenageei no banheiro, por isso mais tarde me embolei com umas cinco mil professoras, casei com umas vinte, me amasiei com umas cem, boa parte delas muito parecidas com a senhora, de pele alva, olhos azuis e outros detalhes maravilhosos que aqui não posso dizer, ui.


Grande abraço e parabéns pelo seu dia, serei eternamente grato e sempre a amarei.

Do seu, Bruno.

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lunes, 30 de septiembre de 2019

CARTA AOS EX-AMIGOS

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Vi por aí, com o título de "Carta aos Bolsonaristas", atribuída a autor desconhecido. Cometi pequenas alterações e subscrevo o que disse o desconhecido.
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Ele disse que praticou zoofilia... e você votou nele. Ele disse que a ditadura deveria ter matado uns 30 mil... e você votou nele. Ele disse que sonegava mesmo, tudo o que pudesse... e você votou nele. Ele disse que não estupraria uma mulher por não considerá-la atraente e que, por isso, ela não merecia o estupro... e você votou nele.

Ele disse que trabalhador tem que optar por emprego sem direitos ou por direitos sem emprego... e você votou nele. Ele enalteceu a figura de um dos piores torturadores do Brasil, Carlos Alberto Brilhante Ustra. E fez isso em rede nacional... e você votou nele.

Ele confessou que usava a verba do auxílio moradia para "comer gente"... e você votou nele. Ele defendeu e homenageou as milícias... e você votou nele. Ele fugiu de todos os debates, por saber que não tinha condições mínimas para debater com os demais candidatos... e você votou nele.

Ele disse que preferia ver morto um filho seu que se tornasse gay... e você votou nele. Ele demonstrou ódio e desprezo por negros, por pobres e por nordestinos... e você votou nele. Ele esteve sempre rodeado dos piores seres humanos... e você votou nele.

Ele posou com maçons, com católicos, com evangélicos, para enganar você... e você votou nele. Ele convidou você a metralhar petistas... e você votou nele.

Ele nunca proferiu uma palavra de paz para a sociedade... e você votou nele. Ele fingiu que levou uma facada, com objetivo de fugir dos debates... e você votou nele.

Ele é misógino, homofóbico, preconceituoso, miliciano, covarde, mentiroso, corrupto, odioso, incompetente, entreguista, traidor da pátria, lambe-botas do Trump, mafioso... está doando o nosso País, e é o Presidente do Brasil porque VOCÊ VOTOU NELE.

Ex-amigos: eu gastei a voz avisando, e desprezaram o respeito, a amizade, insultaram a minha inteligência, a minha trajetória e a minha honra. Por favor, nunca mais me olhem no rosto.

Eles e vocês tem a mesma culpa. Ele não enganou vocês. Estava tudo às claras; mas vocês, por se identificarem com ele, o elegeram para o cargo público mais importante do país. Vocês cometeram o pior dos crimes que um eleitor pode cometer: trair as futuras gerações.

(Ilustração do belga Luc Descheemaeker)
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