viernes, 6 de marzo de 2020

Desamores e ameaças de morte

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Eu estava preocupado. Elas estavam muito ressequidas, vai que neguem fogo. Passei lanolina - sebo de carneiro, e as coloquei para dormir no sereno da noite. Depois as limpei bem com toalhas de papel. Logo as pintei com tinta preta, não sou bailarino para andar de amarelinho, azulzinho ou vermelho, e botei secar de novo. Depois passei graxa preta. Dei um tempo e as esfreguei com um pano seco para dar brilho.

Não vejo a hora de calçar as chuteiras para dormir, logo que as hipócritas saírem da minha vida. Saudades só tenho da Ramira do Bonfa, que pena. As chuteiras também servirão para me sentir renovado ao subir para a área dos inimigos, outros. Durante o sono elas se mudam, uma para a mão esquerda e outra para debaixo do travesseiro. Bem calçado sou outro cara.


Na subida para aparar o escanteio levarei o meu bando, ora, chega de apanhar. Combinei com eles nos treinos, falei pro neguinho meia-esquerda do presídio e para todos: eu faço o estrago lá na área deles, entrando a mil, recebendo e dando empurrões e cotoveladas, e um de vocês faz o gol, estarão desmarcados, a bola não virá pra mim. Se no aperto ou rebote ela vier pra mim, eu faço.
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sábado, 28 de diciembre de 2019

PASSEANDO NO MENINO DEUS

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Resultado de imagem para furgão branco pequenoLi que segundo o IBGE o trabalho informal bateu novo recorde no Brasil. Trabalho informal todo mundo sabe o que é: é desemprego, é bico, é qualquer coisa que a pessoa possa fazer pra levar comida pra casa. De certo modo é o que os palacetes chamam de “empreendedorismo”, essa insultuosa ironia. Lembrei das minhas andanças há uma semana, naquele dia das sete da manhã às cinco da tarde pelas ruas do Menino Deus e bairros adjacentes. Em outras oportunidades andava com outra roupa em outro horário. Ia devagar sob um sol de rachar. Tênis, bermuda e camiseta regata, e o chapéu de malandro do bem, tudo novinho, parecia magnata. Morro de saudades dos tempos em que morei na Barão, na Marcílio, Caldwel, André Belo... na Dezessete, lá adiante na Botafogo, Barbedo... tantas, morei em quase todas as ruas do bairro. Quando algo corria mal me mudava novamente, voltava a morar na Praça Garibaldi, pelo lado de cá a divisória da Cidade Baixa. Passei a José de Alencar e fui até lá em cima da Oscar Bittencourt, morei lá na pinha. Desci pela Silveiro e entrei novamente no lado que dá para a Praia de Belas, pela Baronesa do Gravataí. À direita caí na Rua Costa, que não tem saída direta para a Getúlio, para lá e para cá. Parei na esquina da Grão Pará, andei e resolvi entrar na Itororó. Na metade da Itororó vi a moça, linda, loirinha sorridente que conheci há alguns anos quando casadinha no Morro Santana, um amor de guria. Ia passando na maior calma e a vi de branco, calça e jaquetinha tipo roupa de médica à minha frente, mexendo na traseira de uma pequenina camionete também branca estacionada ao lado da calçada. Abriu: dentro frascos de plástico coloridos, de diferentes desenhos, bonitos, de litro ou litros, marcas famosas de produtos de limpeza, sabões, amaciantes, etc. Estendeu uma rampa de plástico com uma cadeira na outra ponta e começou a colocar os produtos em exposição, estava vendendo. Virou-se quando passei e disse: “Olá”, com um lindo sorriso. Eu já a tinha reconhecido, ela me reconheceu só quando me viu, depois do Olá dirigido a um possível cliente morador das adjacências. Abracitos, palavras de praxe, me disse que tinha se separado e estava se virando com trabalho informal. O seu atual companheiro estava fazendo a mesma coisa em outro bairro. A caminhonetinha era alugada, sem origem. Não pergunto, dependo disto, disse ela. Os frascos eram reaproveitados do lixo seco, bem lavados e tal. Os líquidos eles faziam num galpão atrás da sua moradia. Mas o nosso produto é melhor do que o original, e a gente vende pela metade do preço, disse muito séria. Acreditei e acredito, ela é uma boa moça. Felizmente naquele dia não apareceu fiscalização da prefeitura para barrar a atividade de sobrevivência do que nem cócegas faz nas múltis. E tu, agora mora por aqui? Não, só estou passeando, olhando as casas bonitas, aqui no bairro ainda tem casas finas, não apenas espigões frios. Pretende comprar uma? Ah, se eu pudesse, menina... mas não, meu anjo: olho para assaltar. Rimos ambos. Despedidas de promessas de vamos nos ver novamente, apareça, a gente gosta muito de ti e tal. Segui feliz a minha procura, o passeio em que ela acreditou. Certa vez perseguimos um brutamontes nazista lá do Parcão que matou um morador de rua das nossas relações afetivas por pura maldade, o bandido sumiu por estas imediações, rondamos a noite inteira e simplesmente tinha evaporado, sair não saiu. Mora por aqui ou tem alguém, então se não mora um dia vai voltar. E eu, que vi o seu rosto, e que entre nós sou o único que conhece cada pedra do Menino Deus, vou pegá-lo. Agora no rastreamento. Uma vez identificado, endereço, amigos, depois de pegar domínio do terreno, é que vou mandá-lo para o inferno, no dia e hora em que eu quiser. Está demorando, o pessoal da Praça nem me pergunta mais para não me desconcentrar. Sinto que será neste verão.

(Fragmento do conto, in "Os perturbados de Porto Alegre")
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domingo, 15 de diciembre de 2019

A PRAÇA

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(...)

Mas a praça não era apenas violência, penúria e tristeza. Hoje, passadas quatro décadas, olhando para trás só me afloram à mente os bons momentos. Poucos, porém inesquecíveis. Os ruins o cérebro evita, preciso me concentrar para lembrá-los. Rio dos barbeiros. Os companheiros de desventura cortavam os cabelos uns dos outros com uma minúscula tesourinha, para ao menos reduzir a cabeleira. O meu eu mesmo cortava à faca pelo tato, mantinha o rudimentar punhal afiadíssimo, o mesmo punhal com que fazia a barba, esta era macia, rala; fácil. Os cabelos no começo era complicado, pois só com o tato, sem espelho, não era tão simples evitar desproporção, uma parte mais volumosa que outras. Depois conferia o resultado me olhando em alguma vitrine de loja, não ficava legal. Um dia um dos moradores afanou uma tesoura boa em algum lugar, aí foi um abraço. Tocava nas regiões da cabeça, media, com os dedos indicador e médio estendia, prendia a parte excedente e lá ia a tesoura, trocando de mãos a depender se do lado direito ou esquerdo da cabeça. Era destro, mas isso ajudou nos esforços para me tornar ambidestro no uso do punhal para outros fins: o inimigo o via numa das mãos, armava a defesa ou o ataque baseado nisso, e no último momento, já voando para cima dele, trocava de mão o jogando para a outra. Um dia consegui um pente, mas o usava somente para pentear os cabelos, para o corte estava habituado com os dedos. Nunca entrei numa barbearia, pois desde menino até ficar mocinho a mãe cortava em casa. Muitos anos depois, certa vez em que fui falar com um intrujão da Travessa Acylino de Carvalho, já bem vestido, morando num apartamento da Marechal e dono de um cabaré na João Pessoa, na saída do acerto com o receptador entrei numa das barbearias para ver se havia outros instrumentos que eles usavam, e os tipos de pente e tesoura. Assisti o que eles faziam e me retirei sem que ninguém perguntasse nada, nessas alturas todos na Travessa sabiam quem eu era, não tinha apenas o punhal por dentro do paletó de passeio.

(...)

(Fragmento do conto A Praça, do livro “Os Perturbados de Porto Alegre”)
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martes, 15 de octubre de 2019

DIA DO PROFESSOR

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Porto Alegre, 15 de outubro de 2019.

Querida profinha

Neste dia lembro novamente do muito que a senhora me ensinou e da paciência que teve comigo, única a me defender, afirmando que de louco eu não tinha nada, pois viviam querendo me expulsar por fazer bagunça e brigar na hora do recreio. Uns malvados diziam que eu não batia bem só porque arranquei uns pedaços dos maus elementos e botei fogo na casa de outro. Os filhinhos de papai e outros bichos é que sempre começavam, se prevaleciam com os menores, eu só encarava porque os parentes diziam que é feio homem fugir. Fugia quando me esperavam de bando na hora da saída, aqui ó que iriam bater na carinha que a mamãe beijou, mas depois pegava um por um, ah, a vingança é doce.
A senhora ia pisando firme, levando o meu boletim, para me defender lá na sala da Direção. Professor macho só tive um bom, já no noturno do ginasial, que depois da aula ia jogar sinuca e tomar trago com a gente. A senhora, que agora sei era uma mocinha recém iniciando a carreira, foi o meu primeiro grande amor, platônico naqueles meus 11 anos, perdi a conta das vezes que lhe homenageei no banheiro, por isso mais tarde me embolei com umas cinco mil professoras, casei com umas vinte, me amasiei com umas cem, boa parte delas muito parecidas com a senhora, de pele alva, olhos azuis e outros detalhes maravilhosos que aqui não posso dizer, ui.


Grande abraço e parabéns pelo seu dia, serei eternamente grato e sempre a amarei.

Do seu, Bruno.

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lunes, 30 de septiembre de 2019

CARTA AOS EX-AMIGOS

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Vi por aí, com o título de "Carta aos Bolsonaristas", atribuída a autor desconhecido. Cometi pequenas alterações e subscrevo o que disse o desconhecido.
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Ele disse que praticou zoofilia... e você votou nele. Ele disse que a ditadura deveria ter matado uns 30 mil... e você votou nele. Ele disse que sonegava mesmo, tudo o que pudesse... e você votou nele. Ele disse que não estupraria uma mulher por não considerá-la atraente e que, por isso, ela não merecia o estupro... e você votou nele.

Ele disse que trabalhador tem que optar por emprego sem direitos ou por direitos sem emprego... e você votou nele. Ele enalteceu a figura de um dos piores torturadores do Brasil, Carlos Alberto Brilhante Ustra. E fez isso em rede nacional... e você votou nele.

Ele confessou que usava a verba do auxílio moradia para "comer gente"... e você votou nele. Ele defendeu e homenageou as milícias... e você votou nele. Ele fugiu de todos os debates, por saber que não tinha condições mínimas para debater com os demais candidatos... e você votou nele.

Ele disse que preferia ver morto um filho seu que se tornasse gay... e você votou nele. Ele demonstrou ódio e desprezo por negros, por pobres e por nordestinos... e você votou nele. Ele esteve sempre rodeado dos piores seres humanos... e você votou nele.

Ele posou com maçons, com católicos, com evangélicos, para enganar você... e você votou nele. Ele convidou você a metralhar petistas... e você votou nele.

Ele nunca proferiu uma palavra de paz para a sociedade... e você votou nele. Ele fingiu que levou uma facada, com objetivo de fugir dos debates... e você votou nele.

Ele é misógino, homofóbico, preconceituoso, miliciano, covarde, mentiroso, corrupto, odioso, incompetente, entreguista, traidor da pátria, lambe-botas do Trump, mafioso... está doando o nosso País, e é o Presidente do Brasil porque VOCÊ VOTOU NELE.

Ex-amigos: eu gastei a voz avisando, e desprezaram o respeito, a amizade, insultaram a minha inteligência, a minha trajetória e a minha honra. Por favor, nunca mais me olhem no rosto.

Eles e vocês tem a mesma culpa. Ele não enganou vocês. Estava tudo às claras; mas vocês, por se identificarem com ele, o elegeram para o cargo público mais importante do país. Vocês cometeram o pior dos crimes que um eleitor pode cometer: trair as futuras gerações.

(Ilustração do belga Luc Descheemaeker)
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miércoles, 25 de septiembre de 2019

BRUXO

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Trim.

- Alô, pois não?
- Gostaria de falar com o Antônio.
- Quem deseja falar com ele?
- Aqui é a Patrícia, da Net.
- Sobre o que tu quer falar com ele, Patrícia?
- O senhor é o Antônio?
- Não, sou o Ricardo, primo e secretário dele, me chamam de Bruxo, fala pra mim.
- É uma proposta para mudar de Plano...
- Mudar? Entendo, ele vai ganhar dinheiro com isso, né?
(Silêncio por alguns segundos)
- Bem... é uma proposta diferente, mais opções de canais e...
- Sei... Direi a ele que a Patrícia, branca, cabelos castanhos claríssimos, olhos cinza-azulados, 1,67m, 61 Kg, ligou para ajudá-lo a ser feliz sem gastar mais do que já gasta, pois ele anda puto com o preço dessa droga, 170 contos por mês só pela internet, pois ele não tem tevê.
- Como tu sabe que sou assim!? Acertou...
- Assim como?
- Branca, cabelos, altura, tudo...
- Ah, falei isso? Se falei foi por instinto, branca de pé pequeninho, gostei da manchinha que tens na bunda, é que já morri na guerra.
- Ai, Ricardo, está me assustando...
- Assustei, é? Pega esta então: tu tem 26 para 27 anos, fará aniversário no dia 4 de dezembro e anda corneando o marido.
(Um grito)
Clic.
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viernes, 20 de septiembre de 2019

BRUNO PARA O TRIBUNAL

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- Trim.

- Alô, Supremo, Gabinete da...

- Tu é bozálio? Se for não quero papo.

- Do que o senhor está falando?

- Ora, bozálio é adjetivo e substantivo masculino. Refere ao natural ou habitante da Bozália, território de bestas-feras. Acento agudo na penúltima sílaba por ser paroxítona terminada em ditongo crescente ou coisa parecida.

- O senhor é doido?

- Mais ou menos. Chega de enrolação, quero falar com o ministro Totó!

- Aqui no gabinete não tem ninguém com esse nome, senhor, quem fala?

- Ué, aí não é do Ínfimo Trivenal Federal? Aqui é o Rei da Cidade Baixa.

- O senhor ligou para passar trote? A ligação será rastreada e o senhor responsabilizado.

- Ahahah, tou louco de medo. Nada disso, meu amigo, tava brincando. Me falta o nome do Totó agora, andei bebendo, deu branco, mas é aquele que anda lambendo os ovos e dando a bunda pros milicos, e...

- Clic.

- Putz, me deixaram falando sozinho, um desrespeito ao contribuinte que sustenta essa corvada.
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(Imagem meramente ilustrativa ao telefonema do Bruno, nem sei se o Totó está ali, obra do Renato Aroeira)


viernes, 6 de septiembre de 2019

DE PESCOÇO DURO


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Depois de dez cervejas e de ao amanhecer botar as freiras em seus ninhos, dormi de mau jeito no sofá, com a cabeça torta na beirada. Acordei cedo, três da tarde - elas acordam às quatro, e no ato percebi que não conseguia mexer o pescoço, doía na alma, um lado ficou duro. Ao despertarem contei alto: estou de pescoço duro! Elas correram para me acudir. A sóror Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, disse: não se mexa, vou te esfregar rabo de foguete. Pensei outra coisa, mas é como ela chama arnica do campo. Esfregou a pomada e não adiantou. A noviça Raquel Welch quis mostrar serviço e me esfregou outra porcaria que a avó dela ensinou, nada. Queriam me levar para o hospital, hummm... com enfermeiras sempre me dei bem, mas só de imaginar um médico bozo – detesto esses filhos da puta, hei de matá-los um dia – tocando em mim, enojei: só vou se me levarem inconsciente ou morto. Isso ali pelas seis da tarde, já noite, antes delas saírem para o trabalho às sete. De tanta dor chegou um momento em que enchi o saco: saiam daqui, piranhas, vão trabalhar, eu me viro. Disse eu me viro e virei o pescoço, quase morri de dor. Tudo nesta vida tem remédio, para quem sabe. Depois de beijos cuidadosos e recomendações elas se foram para a batalha, fiquei sozinho. Sozinho não, com a Raquel Welch, que ainda está em fase de treinamento. Então abri uma garrafa de vinho e servi uma dose de veneno. Estou na terceira de vinho, quinto veneno, dançando feliz, que pescoço nada, a Raquel então... a escandinava nasceu sabendo, eu que estava sem paciência, o seu remédio funciona. Não é só rabo de foguete: é boca de foguete, frontal de foguete, uma maravilha.
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viernes, 12 de julio de 2019

ANOITECE NO PESADELO

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Onze de julho. Anoitece em Porto Alegre, um baixo astral daqueles. Dizer o quê? Tudo já foi dito, é uma sequência de crimes como nunca se viu. Quem não quiser ser escravo ou morrer que se mude para não sei onde, pois é uma avalanche arrastando terra, neve, gelo, árvores, bichos mortos, agrotóxicos, cadáveres humanos, que soterrará meio mundo. Os monstros não deixaram alternativa de meio termo: é ir para o ataque disposto a morrer ou bater em retirada.

Resultado de imagem para casinha no meio do mato

Cheguei há pouco da Zona Sul, hoje visitei o Boca Santa na sua casinha lá nuns matos depois do Lami, para ver como ele está de saúde. O Boca foi meu vizinho e companheiro de sofrimento nos tempos de morador de rua na Praça Garibaldi, quando adquiriu o poder que tem. Ele tem consciência do perigo, cuida o que fala. Voltei de lá pensando em pedir-lhe um favor: rogar pragas pela morte de algumas pessoas. Jamais imaginei que poderia fazer uma coisa dessas, mas talvez volte lá amanhã, ele não faz isso por ninguém, mas por mim fará, salvei-lhe a vida certa vez. Imagino o seu espanto quando eu disser que são mais de mil bandidos. Estou pensando.

Por enquanto recomendo que todos nos agarremos aos santos de cada dia, hoje é São Bento, pelo seu exemplo podemos nos enfurnar para sempre em alguma gruta no meio do mato, fugindo de tudo. Estou pensando.