martes, 31 de agosto de 2021

TEM UM GATINHO ALI

 Cansei de sair passear pelas ruas do Caiçara, do Savassi, tomar chope no Mercado Central, ver os perigosos onde não conto, ver amigas no Cafezal, com ele ali. Quando ia brincar com os mineirinhos na sinuca, ensinar coisas para a moçada do Alto Caiçara, deixava o blusão na cadeira da mesa do bar, ele de lá olhando. Ao andarmos pelas ruas o companheiro quando queria assistir o trânsito, a paisagem, me dava uma arranhadinha de leve, aí eu abria para ele ver tudo. Não levava o gatinho para tomar chope no Mercado Central de Belo Horizonte, claro, ele tomava água e comia na mão pedacinhos de peixe fresco, bem feliz.

No Mercado Central é (ou era) proibido entrar com animais, embora entre cada figura... O Gatolino Piu podia, ou os amigos mineiros e eu teríamos um sério problema. Nunca tivemos rusga nenhuma. Claro, sempre tem um boi corneta louco pra morrer, mas isso é assim em todo lugar.
Escrevi num conto que falava de crianças: o sinal, mortal, das que estão que estáo morrendo de fome é que perde a voz. Grita com os olhos. Esse eu salvei.
Como também morro de saudades de algumas mulheres da pensão onde morei. 



SÓ QUEM PASSOU SABE A DOR

Incompatibilidade de gênios ou... um sem número de possíveis razões. Cada um faz a sua leitura da obra do cartunista cubano Ángel Boligán Corbo.





III

i

viernes, 27 de agosto de 2021

DUERME NEGRITO

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"Duerme, duerme, negrito / Que tu mamá está en el campo, negrito..."

Na madrugada que passou eu cantarolando baixinho a canção de ninar para adormecer a Lucha Gatica e o seu hermanito Gardelito Le Pera. Seria o fim de um boêmio? Que nada, apenas me cuidando dos genocidas, espero o horror passar enquanto agrado os amados bichanos. Na segunda imagem uma obra de 2012 do querido Nani de Esmeraldas.

("Duerme negrito", canção de domínio público de séculos da América Latina , talvez no início da escravidão, onde também escravizavam os inocentes "indígenas" donos da América, recolhida em ermos povoados por Atahualpa Yupanqui).



martes, 24 de agosto de 2021

ALGUNS NA DITADURA

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A obra no desenho é genial, lamento de por não saber não dar o nome do autor.


Lembro de quando eu era criança. Na ditadura alguns professores podiam tudo. Volta e meia anunciavam que as provas seriam diferentes para os infantes. Parecia óbvio, eu era criança mas não era burro: para evitar que a meninada espiasse as provas dos colegas, pois com certeza eram todas iguais. Não, um dia descobri. Nesses casos só a minha era diferente, eu ia bem demais nas notas. Os canalhas além de passar a mão com carinho nos filhos dos chefões da cidade - tirou zero leva sete - tinham que me cortar as asinhas. Depois a turma dizia como eram as provas deles, iguais, só a minha com coisas não ensinadas em aula, eu ficava calado, algo me dizia que eles queriam que eu explodisse. Não mais lamento por ter demorado a fugir daquele inferno. Importa é que, cedo ou tarde, consegui fugir.
Dei-me mal, logo mais ou menos bem em terras estranhas. Ganhei amigos de rua, logo aprendi a tomar cuidado, estavam trucidando pessoas inocentes em porões de tortura. Adquiri grande amor por uma árvore da Praça Garibaldi, carinhosa que por um tempo me acolheu naquele verão de 1973.



viernes, 20 de agosto de 2021

ALI ONDE EU CHOREI QUALQUER UM CHORAVA. Vai ter volta.

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Ontem foi um dia corrido desde as 5h, acordei espiritado mexendo na cozinha para não pensar - não adianta - e às 8h fui a POA. Depois de tomografias e não sei mais o que andei horas pelas ruas de Porto Alegre, desde o bairro Medianeira até a amada Cidade Baixa. Meu Deus, tudo mudado em apenas... desde a efetivação do Golpe... uns 4 ou 5 anos, no último par de anos então nem se fala. Onde havia bares e belas lojinhas agora tem as placas "Vendo ou alugo", em muitas Briques e Brechós instalados, só em uma quadra vi uns dez trastes de roupas, móveis velhos e de tudo. Já na ida pra Av. Carlos Barbosa quase chorei ao passar pela Av. da Azenha e ver o Estádio Olímpico do Grêmio: o "Velho Casarão" de 1954 até onde a vista alcançava se corroendo atirado às traças, e isto que sou colorado, só imagino o que os irmãos tricolores sentem quando passam por lá, palco de tantas emoções no coração da capital. Ainda bem que não fui até o nosso Eucaliptus, esse vem de longe a venda, outros tempos, mas vá saber o que fizeram. Na Av. João Pessoa a Panambra parece que desapareceu. Andando em direção à Rua Sebastão Leão tudo fechado com Vendo ou Alugo, o único negócio que se mantém bem, asseado, pela aparência tudo certinho, ataúdes de boa qualidade à mostra além da porta de vidro, é a Funerária Santa Rita quase na esquina com a Sebastião, que sempre foi boa, aliás. Em quem estoura primeiro? Segui pensando na massa de desempregados e suas famílias. E assim fui até a Rua Luiz Afonso, onde entrei em direção ao meio da Cidade Baixa. Novamente precisei me controlar para não chorar na Rua da Olaria. Caminhei por tudo, fui parar na Rua da República, voltei pela Rua João Alfredo. Fui até a Praça Garibaldi visitar a "minha" árvore, tirei fotos dela e com ela. 


Ali pelas 16h voltei de Uber para o Convento das Freiras Libertinas. Libertárias. Tranquei-me na sala do som e chorei feito criança, sem ninguém ver, não iria deixar as religiosas verem, como todos já andam nervosas, poderia abalar os seus alicerces.

Depois dei de pensar no fascismo que o genocida deseja ao lembrar os 85 anos do assassinato de Federico García Lorca, em 18 de agosto de 1936. Até onde sei o seu corpo segue desaparecido. Alguns dizem que a foto é falsa. Pode ser, me contem como foi, pior?


"Lorca declamando o seu último poema em frente a um pelotão de fuzilamento fascista em agosto de 1936. Para que nunca esqueçamos o fascismo e as suas tesouras compridas. Para que nunca esqueçamos o que nos ceifou e continua a ceifar. Para que compreendamos o que faz à cultura e, como consequência, à mente e ao coração dos homens livres. Porque quando se janta com o diabo deve-se levar uma colher comprida...".

Chorei de novo. E mais que aqui não convém, do medo disfarçado estampado no rosto das pessoas, dos pedintes cobertos de lona suja em farrapos. Velhas, mulheres, homens, crianças, a cada passo que dava, submissos pela ignorância, com a mão estendida "Uma moedinha, por favor". Não estou com medo, nunca tive mesmo em momentos de horror, e agora aos 68 anos é que não iria envilecer.

É outra coisa que se remexe em fogo por dentro, eu sei.

domingo, 1 de agosto de 2021

O MUNDO É UM MOINHO

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Domingo, ô beleza. O Convento silencioso e eu, ic, no décimo, digo, no segundo copo de vinho marca-diabo. Passei o dia encucado, pois preciso e não tenho um par de horas disponível para procurar os nomes dos deputedos e senadecos que defendem o voto impresso proposto pelo Hitlerzinho desvairado. Não consegui, pois passei o dia em outras urgentes atividades, primeiro na cozinha para encaminhar as refeições das religiosas, depois porque fui a Nova Pádua, o maior antro de nazifascismo do RS, um pouco pelo que disse Brecht sobre o analfabetismo político, tudo gente fina do Vêneto, para acertar umas continhas com o chefe de uma das tribos bárbaras de lá. Não encontrei o bozaico, mas na volta soube pelo rádio do carro que o infeliz havia partido para outra uma hora antes de eu sair da cidadezinha. Entrei em Porto Alegre e fui direto para o bairro Bela Vista hablar com um novo-rico sonegador que por tabela manda dinheiro para milicianos, que azar: outro que alguém momentos antes tinha mandado para outro mundo. Voltei pro Convento, aquecer o rango já encaminhado e dar os retoques finais para o jantar das onças. Tudo eu: cozinheiro, faxineiro, cuidador de gatos, guarda-costas, vingador - que alguém toque nelas pra ver, e só agora sobrou um tempinho. Ic, hummm... ainda vou me incomodar por esta mania de ir mudando de assunto: queria apenas perguntar se algum amigo ou amiga tem a relação dos deputecos e senaducas que apoiam o roubo impresso de antigamente, quem tiver mande.

Meno male, dei sorte e achei pronta a relação dos 407 dos municípios gaúchos, dos 497, que são nazifascistas de carterinha. Lembrando que sempre pela maioria, pois as minorias são compostas de humanistas, homens e mulheres de grande valor. No município antes citado o genocida, com todo o seu retropecto, fez 93% dos votos e hoje reclama de fraude, jurou mil vezes que iria provar o que disse, 407 cidades aguardam ansiosamente as palavras de profeta assassino.

Ufa, enfim consegui sentar. Vou botar uma música, o Ney está fazendo oitentinha, pois o dia inteiro, sem razão aparente, no fundo da cuca pensava em algumas filhas biológicas. Fiquem bem aí, tomem um vinhozinho, ora, ninguém é de ferro, e muito cuidado com os vírus lá fora. Abraços.

O mundo é um moinho (Cartola)



sábado, 31 de julio de 2021

GATOS À VENDA!

Lucha Gatica e Gardelito Le Pera, irmãos da mesma ninhada nascidos em Itapuã (Viamão, RS) em 19 de fevereiro de 2021, agora com 5 meses e alguns dias (162 dias). OFERTA ÚNICA, com 40% de desconto: de 500 por apenas 300 MIL reais cada um. Parcelo em três vezes de 100 mil, melhor levar os dois, que enquanto brincam entre si não incomodam arranhando o dono ou dona.

Quem tiver recursos para levar não terá os meus problemas, pois nesta dureza que ando agora às vezes deixo de comer para poder alimentá-los, andei pensando até em fazer uma visita não muito amistosa para algum banco miau multinacional, firme na máxima “Quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão”. O que comem sai da frente: ração que custa os olhos da cara e os complementos compostos que faço em casa e que realmente os deixam fortes. A rotina dos felinos, seis vezes por dia, é mais ou menos assim: derrubar os vasos de flores, comer, ir ao banheiro de “areia” de preço exorbitante, dar banho de língua um no outro, brincar de lutinha, comer, banheiro, se enfiar nos roupeiros ou onde der e rasgar qualquer pano que encontrem para afiar as unhas, como uma caríssima camisa verde-clara de seda que eu tinha, ir ao banheiro, comer e dormir um pouco.

Cartões de vacinas em dia, para tanto a mordida que levei das clínicas de cães e gatos dói até agora, urge que se crie um SUS para o gataréu, mas isto depois que os genocidas sejam afastados para uma residência de alta segurança tipo Bangu 1 ou Charqueadas, vez que por eles até as crianças omanas morreriam sem atendimento.

Contato pelas internas. Para senhoras, bem conversadinho, parcelo em mais de 3 vezes sem juros.

(Nas imagens o que mais gostam de fazer: dormir de pança cheia.)



 

sábado, 24 de julio de 2021

EU, HEIN?

 


Papai Google, posso dar cenoura pro gato?

"Especialistas explicam que, de maneira geral, não há problemas em oferecer esse legume para seu peludo. Não há nenhum elemento na cenoura associado à intoxicação em gatos. Pode dar cenoura para o gato, entretanto, esse não é um petisco indicado."

Não entendi, que "especialistas"? Achava que essa de especialistas inominados era só a Globo que aplicava nos pobres de Paris, e como não é um petisco indicado? Indicado por quem? Fui ver e quem diz é uma tal de Petize, que vende os seus "petiscos" em pequenas embalagens coloridas, a figura de um gatinho lindo bem feliz, pelos olhos da cara da gente. Bóia que tem "sustância" é uma coisa, bobagem é outra. Ora, amigos petizos, calma aí, ando Durango Kid, malandragem, querem me tirar o da pinga? Sei não, peguei uma lupa gigante e fui ver o que contém os seus petiscos, pelo menos é o que dizem: o de carne diz que tem compostos de milho, farinha de trigo, sebo (?) bovino, farinha de vísceras de aves, farinha de carne e osso bovino, etc, vem: cloreto de sódio, selenito de sódio, sulfato de cobre, cloreto de potássio e mais um monte de trecos que não conheço, sem especificar as quantidades de cada um, acho que é sebo enfeitado com cheiro artificial de algo que os gatinhos gostam. Tirando os trecos químicos tenho tudo "in natura" aqui, só vou evitar o sebo. Fervo e esmago tudo e tá feito o composto alternativo. Alternativo porque sabemos que eles gostam mesmo é de carne, como por regra geral são os felinos.

É fogo, daqui a pouco levo o Gardelito para a 2ª dose de vacina, lá vai barão, mas aí não tem como escapar. Outro dia coloquei os bichanos à venda, 500 mil cada um, mas vou baixar o preço em 20%, ninguém apareceu para comprar.

sábado, 12 de junio de 2021

QUANTA INJUSTIÇA NESTE MUNDO!

 NA RODOVIÁRIA lá dos matos uma imensa fila no guichê nº 2 para comprar passagem para Tramandaí, véspera de feriadão, três da madruga, já no feriado. Vi uma placa como essas de trânsito: "Reclamações: guichê nº 8". Saí da fila, vou reclamar, os caras da frente saíram no braço e não apareceu nenhum fiscal ou polícia. Lá no final da fila um bate-boca, o vendedor de passagens estava caindo de bêbado, e eu desarmado. Andei, estranho naquele lugar, era mais adiante, os guichês não eram em linha reta, procurei, até que achei, tinha que descer uma escada, vi mais gente procurando. Surpresa: só tinha até o guichê nº 7. Depois alguém pichou em letras miúdas nuns garranchos embaixo da placa lá atrás: "Vá reclamar para o finado Pompeu", sem dar o endereço do cemitério. Pelo que supus que naquelas alturas os bispos estavam desmoralizados. Eu não entro em igreja nem morto, bando de punheteiros, mas antigamente mandavam reclamar para o bispo.

Outro dia com estranheza na alma postei um quadro de alguém que dizia que lidar com mulher é fácil: basta você entender que metade das vezes ela tem razão, e na outra metade você está errado. Todo mundo como eu se arrepiou da inverdade que maldosamente sugeria que as damas sempre tem razão, tenham ou não. Agora esta. Não sou eu, nada tenho a ver com isso, acho que é tudo mentira só porque as donas tem razão mesmo. A rapaziada da boemia se diverte de provocação, só pode, ingratos. Posso ser horrível em outras coisas, mas nisso não: se algo corre mal chamo para mim a culpa, de algum modo errei, fui eu que, por burro ou distraído, medi mal com quem andava, por andar com quem andava. A outra pessoa é ela, eu sou eu que morri na guerra, água com cachaça não dá certo.



jueves, 3 de junio de 2021

TRIBUNAL DE SENTENÇAS IRRECORRÍVEIS

 

DEPOIS de ter sido ajudante de Sócrates, quase 500 anos antes de Cristo, aquele que um dia decepcionado com o mundo tomou veneno e morreu, sumi. Desapareci e voltei muitas vezes. Fui um rebelde que chamavam de Barrabás, mataram outro mas saí livre. Depois dei uma de cozinheiro do Nero, que mandou me pregar numa cruz, era moda naquele tempo, só porque me avancei nas putas do seu harém; ora, o sujeito não transava com elas, só ficava assassinando uma lira e pensando em fogaréu. Demorou, mas renasci numa casinha em Óstia, nas proximidades da foz do rio Tibre, aprendi a nadar naquela foz, é a mais clara lembrança que tenho. Das outras reaparições é uma névoa, tudo tão difuso, Voltaire que via os seus livros queimando, só coisa ruim, contra a evolução da humanidade, aos poucos irei lembrando. 

Logo que pude, menino ainda em Óstia, fui para Roma tentar a sorte, passei trabalho, sofri. Dedicado, lá por 1.590 aos 21 anos consegui um emprego do meu gosto, virei auxiliar nos escritos do filósofo Giordano Bruno. Eu revisava o seu latim escrito às pressas à luz de velas, às vezes ele até me pedia opinião, pedido que vindo do grande pensador me deixava emocionado. O cara sabia tudo, até de astrologia árabe. Um dia uma rede social da época, a Inquisição, levou o mestre Bruno à força, arrastado, um horror, chorei, onde já se viu, eu tinha me apegado fortemente ao grande homem. No dia seguinte me levaram e me atiraram num calabouço escuro e gelado. Logo o tribunal da Inquisição, composto por pessoas sem nome, o condenou a horrores de suplícios. No caso dele, único, tinha segunda instância, talvez por ser ele já famoso, que era amigo do Papa, já ex-amigo, foi-lhe dado o direito de se defender no TSI – Tribunal de Sentenças Irrecorríveis. Manteve tudo o que afirmava. O Papa mandou que o levassem até o seu palácio. “Se você se retratar, Giordano, sai daqui livre. Você tem razão, mas a política, o dinheiro, tu falou que somos miau... Então: se você se retratar eu faço uma bula te perdoando; a Globo, a Band e a CNN divulgarão o decreto, só cale a boca depois”. Bruno respondeu: “Quer me fazer um favor, camarada Papa? Antes de me matarem mande soltar o rapaz, ele nada fez, nada escreveu”. E seguiu reafirmando tudo o que havia dito, que o universo era infinito, que os planetas tinham suas estrelas, morria de rir da terra plana que eles afirmavam, rolava de rir daquilo de trans, que o pão e o vinho eram o corpo e o sangue de um cara, inclusive de que aquele papo de Maria Virgem era para boi dormir.

Soltaram-me, o Papa atendeu ao seu pedido. Ele foi queimado vivo no Campo de Fiori, “... o condenamos a morrer da forma mais misericordiosamente possível, sem derrame de sangue”. Morreu gritando sobre fogo que queimou seu sangue, sem se desdizer. Desde então não gosto de certos tribunais irrecorríveis de pessoas sem nome declarado, de censura, de diabos. Estou chegando de não sei onde, mas hoje sou outro, vingativo. Onde estou, em 1964? Espero que não, e que não haja um Grande Irmão eletrônico de que falava Orwell. Enquanto houver almas pestilentas assim serei punido sempre.