domingo, 11 de abril de 2021

SOCORRO EM RÉ MENOR

 O Lucho Gatico está de correria com as freiras lá na sala. Lembrei do Gatolino quando era novinho. Foi assim:


Socorro em ré menor

Resolvi testar os reflexos do Gatolino e o atirei aqui da sacada, sétimo andar. Caiu como bailarino, se agarrando no galho mais alto da arvore lá debaixo, ela se dobrou, envergou fundo, e voltou, ele junto. Cinco minutos pra se recuperar do susto e soltou um miau comprido. Como falo gatês, não perfeitamente, mas melhor do que falo esperanto, entendi, ele dizia: Agora tou por ti, desce pelo elevador e vem aqui me buscar, aí desço da árvore pro chão e tu me leva pra casa, não vou ficar aqui pendurado feito passarinho. Melhor não, teimei depois de dois copões de pinga mineira. Resolvi testar os meus reflexos, gritei tou indo aí meu neguinho e me atirei de lá de cima. Passei a mil por ele, quebrando tudo, me ferindo, mas os enroscos amorteceram a queda, não morri.

Quando vi tava no HPS, sem conseguir mover a cabeça. Soltei um miau engasgado, em gatês pedindo socorro pro Gatolino, e a enfermeira disse pro médico esse cara é louco. Lá de longe ouviu-se o Gatolino, todos ouviram, enfermeira, médico, o Pronto Socorro inteiro, com miau em ré-menor, som que entrou pela noite, dizendo já estou indo, Sala, aguente firme.

sábado, 10 de abril de 2021

O MENINO AOS 8 ANOS



O menino atracado num chocolate vem a ser o meu mais jovem priminho. Boniteza é mal de família, tirando eu. Gente fina o guri, como nosotros retribui amor e carinho em dobro, como devolve agravos em triplo. Os bárbaros da Bozália que se cuidem, por enquanto comigo e os 198 bugres que por amizade e gratidão me cuidam as costas, mas não tarda será com ele mesmo.

Ganha um doce quem chutar certo qual foi o primeiro presentinho que lhe dei logo que nasceu. Eu cheio de dedos, naquela de é só uma lembrancinha... vai que o seu papai fosse gremista.

jueves, 8 de abril de 2021

Aos mestres, com carinho

Do primário só lembro das brigas no pátio, não de todas as escaramuças, sim das graves que resultaram em ferimentos; alguns filhinhos de papai e outros brutamontes eram maus e eu bobinho tomava as dores dos mais fracos, mas era intolerável mesmo, para quem vinha de mãe boa. Do ginasial quase nada, salvo que eu era apaixonado por uma professora alemoa gostosinha de 18 anos, ela que era ou virou fascista; ah, e pela morena profa de música, gentil, amada. O seu marido também um gentleman. Tinha um advogado professor de português que não sabia o que ia fazer lá, de repente em péssimo momento na vida, o doutor; não me prejudicou, nunca estudei português de orações assindéticas e outras normas dos palhaços da ABL, se me expresso mais ou menos é por instinto, los libros viejos, noções de latim.

Depois tive uns três ou quatro professores que me ajudaram a abrir a cuca, doendo. Um numa pós em matemática, matéria elevada de rachar a compreensão do perdido na vida. Outro na Filosofia, lógica e outros bichos, começando lá por baixo, que duas asserções negativas nunca resultam em conclusão positiva e tal. Outro no Direito, circunspecto, rigoroso ao falar, se expunha, não tinha travas na língua do seu pensamento, este profe faleceu do coração nas sociais do Grêmio durante um jogo, lamentei muito, muito.

Em qualquer circunstância, TODOS, mesmo os que não gostei, valiam mil vezes mais que esses filhos da puta que o povo da Globo elege.

(O quadrinho peguei no Facebook, postagem dos “Professores Sonhadores” de 20 de março de 2019.)


lunes, 5 de abril de 2021

 A FILA ANDA

(...)

Momentos tensos, fumamos e tomamos um café num bar da Rua da Praia. Logo um tanto constrangida ela se foi. Mentiu-me problemas familiares, no outro dia viajaria para tentar a felicidade em Paris. Não me levantei, desejei-lhe boa sorte com um gesto.

Minutos depois arrasado andei, desci a Av. Borges de Medeiros e entrei no Chalé da Praça XV, precisava beber algo mais forte e pensar no que fazer da vida.

Sozinho numa mesa lá fora vi quanto entrou uma morena muito linda vinda do Mercado Público, uma pessoa comum como eu, aos meus olhos uma deusa, e ela me olhou com franca simpatia, sorrindo e com ares de quem sabe que de perto ninguém é normal.

(...)

El último café (Héctor Stamponi - Cátulo Castillo)



domingo, 28 de marzo de 2021

LUCHO GATICO

 (Fragmento de rascunhos do livro O CONVENTO)


É uma luta, mas a gente luta, eu lutei e luto. Vida que segue: fecha-se uma porta, abre-se outra. 
Enquanto as freiras dormem, vejam quem me acompanha nesta madrugada, quase seis da manhã, eu tomando um pote de trago, escrevendo um textinho para o NY Times a respeito do inominável alcaide de Porto Alegre e ouvindo um bolero com o Lucho Gatica?
O próprio, o novo morador do Convento, que emocionado ouve La Puerta na voz de Lucho, um dos reis dos boleros de antigamente. Pelo jeito ele também é abolerado, então vou sugerir que a freiras, na Assembleia Geral onde escolherão o nome do nenê, coloquem em votação o nome que indico: Lucho Gatico. Luchito, para os de casa. Sete da manhã e a noviça Ju Gemidinha me aparece à porta da sala do som, seminua. Pensei "Lá vem incomodação", com ela é sempre assim. O verão foi um inferno de desfiles das donas para lá e para cá com no máximo soutien e calcinha, em geral só de calcinha, a Ju e outras calorentas abusadas sempre peladas. Antes que dissesse algo eu lhe falei:

- Anda botar uma roupa, mulher, vai pegar uma gripe!

- Acordei pra fazer xixi e no banheiro vi a tua postagem dizendo que quer que o gatinho se chame Luchito. Eu quero "Abusado".

E se mandou dormir de novo., a abusada Deu-me o que pensar: se a maioria escolher outro nome vão sifu comigo. Ora, sou o "pai", eu que passei um trabalhão para trazer o neném. Se decidirem algo diferente saio às escondidas, vou lá no Cartório de Registro de Nascimentos de Gatos e boto o nome que eu quiser!

Mudando de saco para mala, conto outra. Eu era bem novinho, mui malito de vida. Mas esta foi boa, hoje todos riem da estória em que certa vez fui registrar uma filha, a sua mamãe queria o nome de Sofia, pois tinha visto um filme da história de Sofia, mas não me impôs, sugestão de moça como eu meio virgem no assunto. Sofia? Lindo nome. A nascitura tinha me dado um trabalhão, meninos e meninas, quase morri mas a salvei, nasceu viva e saudável. Fui lá, entrei na fila, peguei testemunhas ao acaso, negada que como eu com a boca nas orelhas ia registrar os seus, também assinei de testemunha de alguns que nunca tinha visto na vida, e voltei. Na certidão do cartório a minha filha se chamava Natividad, que em uma das acepções significa nascida viva.



martes, 9 de marzo de 2021

CAPRICHO CIGANO

 

Do projeto de livro com título provisório de "Meninos e meninas, eu vi.” Fragmentos de rascunhos em tempos de horror.

Ficciones, cualquier similitud con la realidad es pura casualidad.

 

CAPRICHO CIGANO

Já fiz tudo pra te dar / Vida mais feliz, até já quis te dar um lar / Teus carinhos não são meus / És volúvel, anda, parte, adeus.

 (...)

Um dia na cidade o seu Evódio tocou “Só para Você” para uns velhos boêmios excomungados pela sanguinária ditadura. Um menino enfiado entre os velhos se animou e cantou uma parte do dobrado, ao final o rapazinho com lágrimas nos olhos: "E eu fiz esta canção / Quando digo ninguém crê / Não importa, meu amor / Ela é só para você". "Dobrado" é o que diziam de canções assim, uma mistura de bolero, rancheiritas, caboclos sertanejos, paraguaios e não sei mais não o que. Que tempos aqueles. Lembro de muitas coisas. Na terrinha de onde fugi alguns rapazes mais velhos, hoje encanecidos fascistas, diziam que em tempos idos frequentavam a zona do meretrício, situada num morro afastado, uma subida que começava lá embaixo perto da matança de bois, no tempo em que o gado era enfiado no brete, levado a vara ou levando choques em fila indiana e morto a marretadas na cabeça do matador num patamar acima ao final do corredor. Antigamente, hoje é igual ou pior. Isso antes de a zona se mudar, pois depois soube-se que desceu, misturando-se à cidade que sempre foi sua, pois era na Vila Brasília que despejavam os seus verdadeiros eus. Grave erro dos habitantes da zona, que mal ou bem lá viviam, era um bairro imenso, mortes só para eliminar gente podre, intoleráveis na comunidade. Desceram e o bairro mudou de nome, devem ter sido forçados por alguma prefeitura, pois a Cidade lá embaixo, ela sim era zona de perigoso meretrício, traições muito piores que punhaladas ou garrafadas de ciúmes, garrafa cheia é quase como uma martelada vinda de cima para matar boi.

Bom, eles, os mais velhos, dizem que frequentavam a velha zona mas não lembram do boteco do Zé Careca, do bar do Titio, dos cabarés das senhoras D. Stanislava – a Polaca e de D. Bastiana, entre muitos famosos. Dos cabarezinhos menores nem sonham. Muito menos sonham de aos 14 anos dançarem com uma dama de vermelho, ela com vestido com corte de um lado, na penumbra da pista sem mais ninguém, madrugada alta, o cabaré quase vazio, os quartos nos fundos só com dois, um deles era o gigolô de uma das mulheres, dormiria lá. Os de boa família ladra, rica, fazendeiros e muitos outros, mentem, metem, pagam e vão embora. Perversão, dependendo dobra, triplica, até quintuplica o preço, se alguma topar, algumas eles pagando bem ensinaram, começando aos poucos, uma coisa de cada vez até que ficavam pervertidas, gostavam de agressão, de sentir dor, mais dor, gemiam pedindo mais com velas pingando nos seios já cheios de queimaduras, de cigarros apagados nas costas, nas nádegas e coisa pior. Logo tinham aquelas calcinhas de couro com um enorme pênis de borracha e plástico, e metiam neles dizendo o que eles queriam ouvir: “Abre bem a bundinha, cadelinha, vou meter tudo, diz que quer, diz putinha, meu viadinho...”. Os donos de tudo das famílias de bem da ditadura lá na cidade berravam “Quero, mete tudo!”. Como dizia um político asqueroso deles: “Mulher tem que pagar para não deixar rabo, se não pagar a infeliz vai querer amorzinho; pagando é uma troca, comércio”.

A moça de vermelho que antes olhava para o menino, este meio escondido numa mesinha escura do canto, ao voltar lá dos fundos olhou de novo e o rapazinho num ímpeto levantou-se e com um gesto a convidou para dançar. Ela foi para a mesinha com ar de dó, como quem diz tu nem deveria estar aqui, o que ainda está fazendo aqui? Sentou-se à frente, educada, pagando a cerveja, estava com grana, cobrou em dobro de um fascista pregador de moral que tinha idade para ser seu avô. Diálogos, silêncios, lágrimas, um brinde.

Logo a mulher de 27 e o jovem de 14 anos dançariam, quando as luzes multicolores da pista foram apagadas, o cabaré logo fecharia, restou uma luzinha azul por alguma consideração, era o aviso da dona lá dentro. O seu Evódio da Gaita, último dos músicos no pequenino palco, que ultimava o trabalho de se mandar, homem que já conhecia de vista o menino, abriu o acordeão: Capricho Cigano. A mulher levou o moço para a pista, ele muito sério. Ela bailou sorridente, gentil e amorosa, no fundo também uma pobre menina. Nada aconteceria, mas quem sabe um dia. Um dia que não tardaria tanto.

(...)

https://www.youtube.com/watch?v=4egGgVGUn34

https://youtu.be/WnBjAID7EFs

sábado, 6 de febrero de 2021

A CERVEJA

 


1. A CERVEJA MATA?

Depende. Em geral não, mas às vezes sim. Sobretudo se a pessoa for atingida por uma caixa de cerveja com garrafas cheias, se pegar mal, na fronte, o cara cai e bate com a nuca no meio fio, adeus. Anos atrás um rapaz, gente fina, ao passar pela rua foi atingido por uma caixa de cerveja que caiu de um caminhão, levando-o à morte instantânea. Também há casos de infarto do miocárdio em idosos, associados às propagandas de cervejas com mulheres boazudas.


2. O USO CONTÍNUO PODE LEVAR AO USO DE DROGAS MAIS PESADAS?

Não. O álcool é a mais pesada das drogas: uma garrafa de cerveja pesa cerca de 900 gramas.


3. CERVEJA CAUSA DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA?

Não. 89,7% dos psicólogos e psicanalistas entrevistados preferem uísque.


4. A BEBIDA ENVELHECE?

Sim. A bebida envelhece muito rápido. Para se ter uma ideia, se você deixar uma garrafa ou lata de cerveja aberta ela perderá o seu sabor em, aproximadamente, 15 minutos.


5. A CERVEJA ATRAPALHA NO RENDIMENTO ESCOLAR?

Não, pelo contrário. Alguns donos de faculdades estão aumentando suas rendas com a venda de cerveja nas cantinas da instituição, ou lá da esquina.


6. O QUE FAZ COM QUE A BEBIDA CHEGUE AOS ADOLESCENTES?

Inúmeras pesquisas foram feitas por laboratórios de renome e todas indicaram, em primeiríssimo lugar, o garçom.


7. CERVEJA ENGORDA?


Não. Qu
em engorda é você.


8. A CERVEJA CAUSA DIMINUIÇÃO DA MEMÓRIA?

Que eu me lembre, não.


sábado, 23 de enero de 2021

RONY


"yo aprendí filosofía... dados... timba...

y la poesía cruel

de no pensar más en mí."

 

NAQUELE TEMPO eu estava preso numa pequena cidade, sem ter como nem para onde correr, mas ouvia falar sobre os conterrâneos mais velhos que tinham se mandado. Eu queria me juntar a alguma célula de combate à ditadura, bobagem de menino mal saído da infância, não tinha idade nem para viajar sem autorização dos velhos, que eram pobres - classe média baixa - mas não tão burros para deixar o menino sair ao Deus dará. Só aos 18 adquiriria a maioridade legal e com esta a sonhada autodeterminação. Aos 18 estávamos no final de 1970, a ditadura ainda torturando e matando desenfreadamente, com a cúmplice Globo estuprando o cérebro do povo: "90 milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração...". Sem dinheiro eu seguia sem ter como nem para onde ir. Aos 20 não aguentei mais: fugi na raça para Porto Alegre, dormir em praça se preciso, cedo ou tarde tudo se ajeitaria, conseguiria um empreguinho que naquela cidade não me davam, era mal visto, pelos donos da cidade, jamais pelo povo, e o velho pai tinha razão: futebol não dá camisa para ninguém, lá não dava mesmo.

Não deu outra, até o primeiro emprego aparecer: de dia a Biblioteca Pública, de noite a praça. Não demorou muito achei uns caras e as coisas melhoraram um pouco, acabei me acomodando numa república com maioria de conterrâneos, vieram empreguinhos, hotel-pensão, até que um dia me vi de terno e gravata morando sozinho num apartamento JK. Foi por essa época que conheci um intelectual de quem ouvia falar na adolescência, irmão de um antigo colega de aula. Filósofo e outros bichos, uns 14 anos mais velho do que eu, cada bate-boca que tínhamos... Antes veio o Gilberto (Pato) Martins, meu querido amigo de infância que andava perdido por Curitiba, vieram amigos deles, a maioria da ala humanista dos funcionários do Banco do Brasil, de repente estávamos todos em mesas juntas no Pampulha e em outros bares, noites e noites de conversas sobre o Brasil, a maldita ditadura e o que veio depois. Ele no uísque e a maioria de nós no chope.

Ontem me fechei em copas, hoje despertei lembrando de cada conversa, de cada passagem que tivemos, de cada rosto dos demais amigos, das passeatas, dos protestos. Lembro que certa vez falei de alguns livros do Nietzsche e o Rony me presenteou com um livro do Immanuel Kant, o Crítica da Razão Pura ou Crítica da Razão Prática, um dos dois, depois comprei o outro. Acho que foi o Pura, pra mim "crescer" quase me rachou a cabeça. Com dedicatória: "Ao Salazar, com amor". Teria muito a dizer, mais uns dez ou vinte parágrafos, o tema dá um livro, mas entendo que aqui o espaço não é apropriado para textos muito longos, mormente quando o assunto neste momento interessa a poucos. Outro dia vai para livro.

Só soube ontem à noite pelo Ivoran Piazzetta que disse ter ouvido notícia de que RONY SILVEIRA teria falecido. Corri atrás. De fato, morreu anteontem, 20, de morte natural. Seu corpo foi cremado no início da tarde de ontem. Pelos desencontros desta vida não o via há muitos anos, a última vez que falamos foi ali por 2018 ou 19, por telefone, uma alegria imensa, me chamava de louco (quando queria detinha o poder de uma ironia cortante, finíssima, aí que o bobo aqui se irritava mais) por uma pequena decepção que lhe causei quando estava em marcha a luta pela construção do PT no RS (eu recém tinha me filiado ao antigo PCB lá em Niterói, RJ, não poderia me filiar para ajudar a atingir o número mínimo exigido pela lei). Estou meio longe e ainda bem que não tem uísque aqui, de outro modo teria brindado ao velho companheiro com uma garrafa inteira do seu trago então predileto.

É como me disse de lá da região das Missões outro seu grande amigo, o ex-governador Olívio de Oliveira Dutra: “São os sogaços que a vida nos dá: a morte - mesmo que previsível - de um amigo”.

Forte abraço a todos os familiares e amigos do Rony, fica o seu exemplo de dedicação e amor.

In memoriam vai um dos tangos que ele gostava (Marianito Mores - Enrique Santos Discépolo). 



jueves, 14 de enero de 2021

A EGIPCÍACA E EU - SOBREVIVENTES DA GUERRA

 .(...)

Disse-me uma mulher, muito tempo atrás, ela uma desconhecida, ninguém sabia de onde veio, mas como nós era sobrevivente num cabaré de quinta classe da Av. João Pessoa: "A tua tristeza decorre da tua falta de iniciativa, homem. Na verdade tu cansou de ser Abel, deveria ser Caim e não se assume, mesmo vendo os horrores que eles cometem! Nesse caso seja Caim, que um dia serás um Abel de verdade. Eu cansei de ser Madalena, que não era puta como dizem. Vem de alma, eu queria ser a Egipcíaca". 

A mulher estava me chamando de covarde, segundo entendi. Foi quando começamos a incendiar aquele quarto, logo botando fogo na cidade, eu assaltando bancos e matando Cains, ela com navalha castrando os canalhas ricaços que iam ao cabaré em busca de sexo, anormais que queriam coisas que em casa não tinham, depois do talho na jugular. A Egipcíaca fez a cabeça das outras, cada uma com graves problemas na vida, sofridas, aconselhava. Então as outras cortavam, serravam e enterravam os corpos nos fundos, bem felizes. Eu me cuidando dela e ela se cuidando de mim.

(...)


miércoles, 6 de enero de 2021

ISOLADO



MADRUGADA ALTA em Porto Alegre, 4 da matina. Sem a Dolores Sierra de Barcelona, sem a Bugra de Paquetá, sem a Ana de São Borja, sem a Catarina de Lisboa, sem a Michelle de Taquari, sem a Cristina Carioca, sem a Patrícia de Boca de Uva, sem a Mariana do Rio... a Teresona de Gravataí dormiu há pouco, daqui ouço o seu ressonar. Conversar com quem? A Ju Gemidinha dá umas roncadinhas lá no quarto 11 das noviças, onde dorme com suas amiguinhas de pouco mais de 35. Ouço murmúrios vindos do locutório, são as fanáticas ajoelhadas, deixo assim.
Sozinho e sem sono, que droga, no isolamento sem querer a gente troca a noite pelo dia. E sem dinheiro, fodido e mal pago. Mesmo que tivesse dinheiro, ir aonde com os bichos 17 e 19 soltos lá fora? Com ou sem dinheiro, sem os vírus eu saberia para onde ir, mas agora...
Vou fazer o quê? Eureka! Abri uma cerveja, até tirei uma foto no salão principal do Convento.