sábado, 27 de noviembre de 2010

Refresco com cantora norte-americana

.
Em especial ao amigo Hans, que reclama por não apresentarmos artistas estadunidenses no blog, supostamente por sermos uns comunistas empedernidos.

Na interpretação da premiada cantora popular, dançarina e atriz norte-americana CHRISTINA AGUILERA (Christina María Aguilera, Nova York, 18/12/1980), um bolero com harmonia fortemente influenciada pelo jazz.

CONTIGO EN LA DISTANCIA é um clássico do cubano César Portillo de la Luz (Havana, 31/10/1922), idealizador do bolero filin, que foi estrondoso sucesso na voz do chileno Lucho Gatica, el Rei del Bolero.

Aqui um tantinho fiasquento na interpretação da bela cantante de Staten Island.

Para os desterrados, apátridas e fugitivos, com amor no ninho lá longe.

martes, 23 de noviembre de 2010

Versos tortos em Porto Alegre

.


Por Alex Moraes *


Mormaço. É sete da noite em Porto Alegre.
No túnel, um barulho ensurdecedor de carros
que passam freneticamente.

Na universidade, vozes monocordes carregam o ar com conhecimentos seculares e mofados

Numa esquina qualquer, um pedinte imundo estende suas mãos à gente que passa: "uma moeda..."
No Hotel Plaza, servem coquetel suntuoso e falam em alemão, inglês e francês.

O boliviano, na praça da Alfândega, entoa cantos folclóricos em espanhol.
Cada pessoa tem seu cheiro.
Os odores mesclados produzem o fedor
da grande cidade.

Velhas e escatológicas galerias subterrâneas
são as veias que transportam
os fluidos da metrópole.

Fluidos expelidos no imenso
lago turvo sobre o qual a cidade
dorme debruçada.

Esticada ao lado da sua fossa de urina e fezes, a urbe cai em sono perturbado.

Porto Alegre sonha com meninas violentadas em praças sombrias,
com presos seviciados nas celas do Presídio Central,

Com crianças entorpecidas pelo solvente,
com homens que, no interior dos seus
palacetes, sorriem sorrisos limosos
e brindam à barbárie da qual dependem.




*Alex Martins Moraes (foto à Carlito Gardel), 15/06/1988, poeta, gaúcho de Porto Alegre, é estudante de Ciências Sociais, com ênfase em antropologia. O Rei da cidade.

Versos tortos em Porto Alegre

.


Por Alex Moraes *


Mormaço. É sete da noite em Porto Alegre.

No túnel, um barulho ensurdecedor de carros

que passam freneticamente.

Na universidade, vozes monocordes carregam o ar com conhecimentos seculares e mofados.

Numa esquina qualquer, um pedinte imundo estende suas mãos à gente que passa: "uma moeda..."

No Hotel Plaza, servem coquetel suntuoso e falam em alemão, inglês e francês.

O boliviano, na praça da Alfândega, entoa cantos folclóricos em espanhol.

Cada pessoa tem seu cheiro.

Os odores mesclados produzem o fedor

da grande cidade.

Velhas e escatológicas galerias subterrâneas

são as veias que transportam

os fluidos da metrópole.

Fluidos expelidos no imenso

lago turvo sobre o qual a cidade

dorme debruçada.

Esticada ao lado da sua fossa de urina e fezes, a urbe cai em sono perturbado.

Porto Alegre sonha com meninas violentadas em praças sombrias,


com presos seviciados nas celas do Presídio Central,

Com crianças entorpecidas pelo solvente,

com homens que, no interior dos seus

palacetes, sorriem sorrisos limosos

e brindam à barbárie da qual dependem.




*Alex Martins Moraes (foto à Carlito Gardel), 15/06/1988, poeta, gaúcho de Porto Alegre, é estudante de Ciências Sociais, com ênfase em antropologia. O Rei da cidade.

domingo, 21 de noviembre de 2010

Uma ponchada de amigos - Mauro Moraes

.
O simpatizante desconhecido do blog, Sr. Hans Hoff, envia um comentário pouco amistoso (mais um, Hans, puxa vida) em Lágrimas Negras (2).

Questiona a não apresentação de músicas norte-americanas no blog. Tem razão.

Este tipo de discussão não cabe aqui, Hans, daria um livro, mas diremos algumas palavras em atenção a ti, que mesmo rosnando não deixa de prestigiar o blog.

Meu caro, há grandes compositores e cantores nos Estados Unidos, mas o que você fala que toca nas rádios, em sua imensa maioria, é lixo puro. Como os maiores terroristas do planeta conseguem esse feito de controlar e doutrinar os nossos ouvidos 24 horas por dia? Simples, meu amigo: são donos das distribuidoras y de otras cositas más, incluindo muitas almas no Congresso Nacional, é o poder da grana, eles têm "bala na agulha" de muitas maneiras. Investiram muito nisso desde o pós-guerra, essa a razão de sermos uma colônia de descerebrados, ouvindo e vendo o que nos empurram goela abaixo. Rudimentar técnica de dominação dos povos. Até na roupa que vestimos e nos calçados que calçamos.

Em tempos recentes invadiram aquilo que chamávamos de música sertaneja, bela expressão do nosso homem do mato em alguns estados. Enfiaram no meio uma coisa que chamam de country, e aí temos os sertanojos uivando músicas de cabaré de vigésima categoria. A dominação pela grana, pela corrupção, e muito jabaculê, o conhecido "jabá", deram conta do serviço.

O amigo ligue a tevê aberta e procure um filme para assistir. Encontrou algum filme alemão, pátria que o seu nome sugere? Ou talvez tenha achado algum filme eslovaco, romeno, argentino, suiço, polonês, francês, indiano, paquistanês, italiano... arrole aí todos os países do mundo, à exceção "deles". Gostou de algum? Ou em todos topou com o sotaque de quem engoliu... deixa pra lá, e a bandeira "deles" tremulando desde o início da fita?

Mas atenderemos ao pedido, implícito na reclamação, colocando um vídeo com música de uma "nação" brasileira que sempre tentou e tenta reagir à invasão.

Com o homem de Uruguaiana, espetacular Mauro Moraes, para um domingo de churrasco entre amigos, Campo Rimado (Mauro Moraes). Y que vengan!

sábado, 20 de noviembre de 2010

Lágrimas Negras (2)

,
Bem, emocionados recebemos postagem de Jacqueline Viúva Negra, amiga do blog (valeu, Jacque), e telefonema da homenageada, Dolores. Precisamos repetir a música.

Agora com o famoso cantor (de frente: sin bailadores) de flamenco Diego Ramón Jiménez Salazar (Madrid, 27/12/1968), ou simplesmente Diego, El Cigala, acompanhado do espetacular cubano Bebo Valdéz (Havana, 09/10/1918), viejo pianista que Marisa Monte e Carlinhos Brow já curtiram, aqui fundindo o ritmo cubano com o flamenco.

Entramos de corpo e alma no flamenco e na Espanha de Dolores.



E já que chegamos a Diego, El Cigala, torna-se obrigatório vermos a sua exuberante passagem por Buenos Aires. En esta tarde gris. (Mariano Mores - Buenos Ayres, 18/02/1918, y José María Contursi, 31/12/1911 - 11/05/1972. Ah, Marianito Mores, ah Contursi.



Lágrimas Negras



Lágrimas Negras é um bolero-son de 80 anos composto pelo cubano Miguel Matamoros (08/05/1894 - 15/04/1971), componente do famoso Trio Matamoros.

É uma das músicas mais tocadas de todos os tempos. Cantada por grandes artistas, numa passada revemos Los Guaracheros de Oriente, Sarita Montiel, Barbarito Diez (La voz de Cuba), Celia Cruz, Vania Borges Ochoa (um show!), Bebo Valdéz com a voz rasgada de Diego El Cigala, Buena Vista Social Club, Ibrain Ferrer a solas, uma infinidade de talentos.

No vídeo com Javier García (Nació en Madrid, 1974).

A história deste bolero se conta assim:

En el año 1930 Matamoros viajó a Santo Domingo. Allí se hospedaba en la casa de Huéspedes de Luz Sardaña.
Un día en que oyó los quejidos de una mujer desde unos de los cuartos de la casa preguntó a Luz por qué lloraba aquella mujer de forma desconsolada.
Ella le respondió que su compañero la había abandonado por otra. Allí mismo Miguel inspiró este bolero-son.

LAGRIMAS NEGRAS

Aunque tu,
Me has echado en el abandono
Aunque ya,
Han muerto todas mis ilusiones
En vez de maldecirte con justo encono
En mis sueños te colmo
En mis sueños te colmo de bendiciones
Sufro la inmensa pena de tu extravío
Siento el dolor profundo de tu partida
Y lloro
Sin que sepas que el llanto mío
Tiene lagrimas negras
Tiene lagrimas negras como mi vida.

Lagrimas Negras es la obra que marca el afianzamiento de esa tercera variante de la trova cubana, la cual se caracteriza por expresar el constante elemento temático procedente del tango bonaerense, que posteriormente a la Primera Guerra Mundial se extendió con amplitud por Europa y nuestra América en cierta competencia con el Jazz y sus sucedáneos y la música cubana.

Salito toma a liberdade de dedicar a señora Dolores, que passou ao pôr do sol. 

viernes, 19 de noviembre de 2010

Refresco

.
"Quantas lágrimas" ("Manacéa" - Manacé José de Andrade, Rio de Janeiro, 26/08/1921 - 10/11/1995), com o autor acompanhado de Paulinho e da Velha Guarda.


miércoles, 17 de noviembre de 2010

Fuego en el tablero!

.
Na companhia de Sultan Khan, Miquirina Segundo, Raúl Capanegra, Kafil M'Oba e Carlito Dulcemano, que nos honram com suas presenças em Porto Alegre, ontem assistimos Direto de Moscou o desenrolar do Mundial de Xadrez Rápido. À exceção de alguns, notadamente Anand, Topalov e Ivanchuk, lá estão os melhores cérebros do planeta.

O prodígio norueguês, o "Mozart do Chess" Magnus Carlsen (30/11/1990) lidera, juntamente com o armênio Levon Aronian (06/10/1982), com 10 pontos, após as 14 rondas de ontem.

Para postar no Youtube imediatamente, alguém filmou com celular, cremos, o confronto entre Nakamura e Carlsen, na primeira ronda.

Loucura! No vídeo dá para sentir a tensão reinante, e o cacoete de Nakamura no "pega-larga" um infante abatido.

No dizer do site Chessdom:

Magnus Carlsen got off a fantastic start with victory against his arch rival in blitz - Hikaru Nakamura, followed by wins against the ex World Champions Ponomariov and Kramnik, and Sergei Movsesian. Just when everyone thought Carlsen is on a roll to an easy first place in day 1, the junior champion Vachier-Lagrave and the World Cup winner Boris Gelfand stole two consecutive points away from the chess prodigy. Carlsen recovered again with wins against Caruana, Karjakin, Mamedov, Svidler, and a draw against Aronian, and just then surprisingly he lost against Grachev to bring up yet another lock at the top of the table.

Aronian had a random start - draw, lose, win, draw, win, win, draw, draw to leave him with only 5,0/8, a full point behind the temporary leader Svidler. Then Aronian completed one of the longest winning streaks of the day defeating Mamedov, Grachev, Andreikin, Savchenko, and Nepomniachtchi. Everyone thought the Armenian will for sure have the lead, but Nakamura stole a full point in the last round, leaving Aronian with the same points as Carlsen.

Sultan admite que teria alguma dificuldade para vencer os mais jovens, se fosse na sua época.

A luta prossegue hoje, a partir das 10 da manhã (horário brasileiro de verão), sem quartel!


.


martes, 16 de noviembre de 2010

O ex-mágico

Murilo (Eugênio) Rubião (Carmo de Minas, 01/06/1916 - Belo Horizonte, 16/09/1991) é considerado o maior autor de realismo fantástico no Brasil.

Sua obra não é extensa, apenas 50 contos, pois era daqueles que escrevia, rasgava, escrevia, reescrevia, rasgava..., calma e obsessivamente, tinha de achar o "ponto" e as palavras "certas".

"O Convidado" levou 26 anos para ser concluído. Iniciou em 1945 e terminou em 1971. Sobre esse conto, Paulo Mendes Campos escreveu uma crônica maravilhosa (como todas as suas crônicas), chamada "Um conto de 26 anos". Aqui O Convidado não vai porque não está em domínio público.

O "Ex-mágico" é de 1947, bem antes de alguns latinos mergulharem no mundo fantástico, e nos dá uma ótima idéia da genialidade do mineiro.

Aqui na palafita tornamos a discutir o ex-mágico e novamente nos convencemos de que o entendemos muito bem. Infelizmente.
 
O ex-mágico da Taberna Minhota
 
Murilo Rubião
Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)


Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.

Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.

O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.

Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.

Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.

Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

Situação cruciante.

Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.

Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.

Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.

Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.

— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.

Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:

— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.

Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.

Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.

O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.

Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.

Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.

Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.

Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.

Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.

Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.

1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou -me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.

.

domingo, 14 de noviembre de 2010

Na Roda

Na semana que vem (21/11) estaremos em Sampa. Uma passada no Bar Chora Menino será obrigatória, para dar um abraço na turma. Alguns bares da Vila Mariana estão no roteiro.

Já no dia 04 de dezembro a visita será para a Roda de Samba do Ouvidor, no Rio, agora acompanhados de Dolores. Aliás, a agenda no Rio será apertada, só em Vila Isabel...

Como todos sabem, no primeiro e terceiro sábado de cada mês aquilo lá pega fogo, com Thiago Prata (violão de sete cordas), Anderson Balbueno (pandeiro), Gabriel Cavalcante (cavaquinho e voz) e Fábio Cazes (surdo e voz). Além de bambas, o pessoal também pesquisa muito, pelo resgate de pérolas em maxixes, lundus, choros e samba, que sem gente como eles estariam fadadas ao esquecimento. A partir das 15 h (oremos para que não chova!) é só felicidade na esquina da Rua do Mercado com Rua do Ouvidor.

O ingresso desta vez será meio litro de "merengue" não perecível.

Por falar em Gabriel Cavalcante, o Gabriel da Muda (aparece no vídeo, barriguinha de muito chopinho, abraçado ao cavaco e cantando), esse talentoso jovem amigo e meio que "protegido" do Poeta da Guanabara Moacyr, no dia 09/12 teremos o lançamento, no Teatro Rival, do seu primeiro CD, "O que vai ficar pelo salão". Imperdível. Sobre o CD e esse grande cara o blog  Samba do Ouvidor traz uma excelente matéria.

Quanto à Roda do Ouvidor, pelo vídeo dá para se ter uma tênue idéia de como fica a esquina no sábado à tarde. Moacyr Luz, depois do almoço e muitos chopes, estava lá nesse dia.