martes, 29 de mayo de 2018

O Amor na Cidade Baixa (Rei é Rei)

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O que faz a bebida. Bruno Contralouco, Clóvis Baixo e Carlinhos Adeva sentados em mesa na calçada do botequim no Beco do Oitavo às cinco e meia da manhã. De noite atravessada, meio que levantados do chão, os dois primeiros resolveram apostar cem reais para ver quem tinha mais sorte com mulher.

O Rei Bruno disse que aceitou o desafio porque o súdito boboca Clóvis é seu amigo do peito, não perderia tempo com outros palhaços. Como marcador de mulheres o Dr. Carlinhos Adeva, o Diretor Jurídico do Partido dos Boêmios (em constituição), num fogo danado mas circunspecto como se estivesse num tribunal, causa importante.

Saíram lá da sinuca quando estourou, e o Portuga acenou que queria fechar o bar, vou-me a dormir um pouco, ó gajos. Vai dormir, Portugalino, disse o Bruno, mas deixa uma mesa lá fora e um monte de cervejas com gelo no isopor. Dito e feito, o Portuga fez e se mandou. Por via das dúvidas, para o caso de faltar combustível, deixou uma cópia da chave do bar com o Bruno.

A aposta lá fora consistia no seguinte: as mulheres que vierem de lá do lado da Rua da Olaria são minhas, as que vierem de cá da Avenida são tuas, disse o Contra. Minhas e tuas em pensamento, né. Coisa de bêbados.

O Clóvis Baixo encrencou, não mesmo, as que vierem de lá são minhas, as de cá são tuas. O Contra topou sem reclamar. Serviram-se de cerveja, acenderam cigarros e ficaram esperando.

Logo apareceu uma senhora de uns 75 anos, cem quilos, passeando com uma cachorrinha, vinda do lado de lá, o do Clóvis. O Clóvis Baixo argumentou: tá meio passada mas é linda, deve ter muita experiência em cama. O Contra se apertou, mão na boca, ventando pelo nariz, para não rir alto.

O juiz Carlinhos anotou. Mais um tempinho e veio uma boneca de cá, com sangue na roupa branca, do lado do Contra, atirando beijinhos para todos. O Bruno disse é linda, e sabe mais que muita mulher. Foi a vez do Baixo se dobrar quieto.

E começou a aumentar o trânsito, de lá, de cá, dezenas de mulheres indo para o batente, Carlinhos numa água federal mal dando conta de tomar nota. Até às seis e meia da manhã vindas pelo lado a favor do Contra umas trinta, pelo lado do Baixo umas setenta - em direção à avenida João Pessoa o fluxo é maior ao amanhecer, ao anoitecer inverte.

Como estamos aí na pontuação? – Perguntou o Baixo ao Carlinhos.

- Empatados.

Resolveram só mais uma para cada lado, primeiras que aparecessem, para resolver a parada.

Mal encheram os copos e surgiu lá adiante, pelo lado esquerdo, da avenida para cá, pelo lado do Contra, aquele monumento vivo. A baiana que ainda não pintou no bar mas todos já sabem que ela existe. Ela não caminha, esvoaçoa, ginga sorridente com aqueles panos coloridos, como se ondas do mar a embalassem, o bairro inteiro está apaixonado, quando pintar no botequim será a rainha.

- Não vale, tá desfeito o trato! Como a do meu lado ainda não veio posso desfazer! – gritou o Baixo aborrecido.

O Bruno não respondeu, pelo rosto os amigos sentiram que acabou a brincadeira, ficou sereno. Levantou-se tranquilo, sério – e todos ficaram sérios - e esperou a passagem da mulher.

Quando ela estava em cima ele tirou o chapéu, inclinou a cabeça enquanto gingando estendia a mão direita com o chapéu, como a dizer a calçada é tua... o bairro é teu, é teu o meu coração.

Ela sorriu e sorriu e sorriu, olhos brilhando.

O Clóvis gritou quando ela ia lá adiante:

- Quero ser padrinho!

Ela se voltou e sorriu de novo. O Bruno falou aos amigos:

- Vou dar uma abridinha no bar, preciso de um uísque, esta cerveja está choca.

- Por que não foi atrás, acompanhar a guria, Bruno? - Perguntou Carlinhos.

- Porque eu nunca fico bêbado, vejo o outro lado da rua.

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(A imagem, meramente ilustrativa em exaltação a sua beleza, é da cantora baiana Mariella Santiago, querida amiga)
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O sonho ruim de Mariella

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Sabem aqueles pesadelos que têm várias camadas, onde você pensa que já acordou mas ainda tá preso no terror? É assim que eu me sinto quando vejo:

1. General dando entrevista para tranquilizar a população.

2. Político profissional da oligarquia nordestina fechar entrevista citando Che Guevara.

3. Ele, privado de liberdade, liderando as intenções de voto.

Eu, pela greta da porta, vejo um monstro jogar ele vivo na cova e socar terra. Grito mas a voz não sai. E o monstro lá, socando terra, e o cara vivo. Vivo!

(Mariella Santiago, cantora e poeta baiana)
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lunes, 28 de mayo de 2018

EU ACUSO

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O que não entra na cabeça desses irresponsáveis que promoveram o Golpe é que não há solução pacífica possível desde que rasgaram a Constituição. Bastaria esperar o fim do mandato da presidente Dilma e iríamos todos às urnas novamente, quem vencer leva. Básico, é o que diz o nosso sistema legal.

Golpe sim, o programa de governo derrotado nas urnas foi colocado em prática, e muito mais radical do que o proposto pelo partido do pilantra que perdeu a eleição. Aliás, o partido do perdedor mostrou a que ponto de loucura um grupo numeroso pode chegar, como pano de fundo como sempre o substrato material.

Desavergonhados, tomaram à força o que não conseguiram nas urnas. Refiro-me à classe dirigente do partido, pois obviamente na base há pessoas sérias que nem sonham o quão venais são na cúpula. O Lula perdeu eleições, golpeado, roubado pela propaganda da Globo e aguentou, respeitou.

Deputados, senadores... gente que deveria ter sobriedade no trato da vida nacional, cometeram molecagem, basta lembrar o circo na votação do impeachment sem crime. A Rede Globo - com suas repetidoras nos estados - cometeu crime de lesa-pátria, no que é useira e vezeira, lembremos 54 e 64.

O Judiciário perdeu toda a credibilidade que tinha ao entrar "Com Supremo, com tudo" nessa traição à Carta Maior. Não haverá paz social enquanto não houver novas eleições limpas.

Havia problemas no governo da presidente Dilma? Em qual não há? Nos governos tucanos torraram o Brasil, levando toneladas de propina e ninguém sequer foi acusado. No governo Dilma alguns foram acusados, pois não, processa e prende, se for o caso. Não, aquilo de mensalão era pretexto para o Golpe. Instalou-se no centro do poder, agora sim, uma quadrilha. Todos são eméritos ladrões, não se trata mais de casos isolados.

Para piorar prenderam sem provas, num processo ridículo, o candidato preferido pelas multidões, é um preso político por perseguição de encomenda de um juiz, um espectro de homem, de primeira instância. Pensam o que esses levianos, inconsequentes, em vender o Brasil em último caso escorados na "manu militari"? Acham que os militares vão querer entregar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a CEF, os Correios, Eletrobrás, até a Casa da Moeda, como estão querendo? Acham que teremos paz social?

Com ditadura com certeza, como no governo legítimo que foi golpeado, jamais entregaríamos de mão beijada as riquezas nacionais, mas em ditadura não há controle dos maus, então teríamos de novo silêncio pela intimidação, povo ameaçado pelas armas que pagou para a própria defesa em caso de agressão externa, teríamos cemitérios clandestinos, teríamos roubo sem ninguém investigar, teríamos tortura e assassinatos, nunca paz social.

Todos os golpistas entraram para a História do Brasil, seus nomes serão lembrados com desprezo e nojo no futuro.

Eu responsabilizo, acima de todos, o Judiciário. Se não houver um desatino maior, teremos novas eleições. E teremos que tolerar esse Supremo Tribunal Federal, sem moral alguma, em novos tempos de esperança.
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sábado, 26 de mayo de 2018

COMO FUNCIONA A MANIPULAÇÃO EM REDE SOCIAL

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O autor do texto, Henrique Mann (músico, escritor e outros bichos), sabe o que diz. Subscrevo. Assim que no imaginário popular eu viro assassino, se atravessar o caminho dessa gente. Lula vira dono de frigoríficos, do Citibank, a Dilma se transforma em ladra e puta, o que eles quiserem com qualquer um. Daqui em diante só fala o Henrique, dando apenas um exemplo:

O compositor Chico Buarque de Hollanda nunca fez nenhum projeto pela Lei Rouanet. Desde os anos 1960 até o final dos 1990, ele, que já era de uma família de boa situação financeira, ganhou muito dinheiro por ser um dos maiores arrecadadores de Direitos Autorais do Brasil, tendo suas músicas gravadas por artistas do mundo inteiro.

Vendeu milhões de discos e seu shows sempre tiveram lotações esgotadas, ficou muito bem de vida. Há músicos atuais que compram jatinhos, fazendas... ele comprou um apartamento em Paris e montou um time amador de futebol.

Bem, os detratores de Chico começaram a espalhar na internet que ele "Ficou rico com a Lei Rouanet". Também pegaram um trecho de seu próprio DVD no qual ele faz uma piada dizendo que comprava suas músicas de outros compositores e editaram separando só aquele trecho.

Aqui entra o algoritmo que detecta quem são as pessoas reais que detestam Chico Buarque e estão predispostas a espalhar estas mentiras. Fazem isto com inocentes aplicativos nos quais sondam do que as pessoas gostam ou não.

Então 25 ou 30 perfis fakes lançam posts falsos dizendo que Chico compra músicas de terceiros e que ficou rico com a Lei Rouanet. Robots replicam isto aos milhares dando uma aparência de veracidade. Alguns destes perfis falsos fazem anúncios patrocinados com a mentira e o algoritmo direciona para as LTs das pessoas que estão predispostas a replicar aquilo como se fosse verdade.

Algumas replicam por burrice mesmo, mas eu conheço empresários que já trabalharam com Chico e sabem que é mentira, mas espalham a mentira do mesmo jeito, sendo que eles próprios sim são beneficiários de muitos milhões pela Lei Rouanet. Há músicos que replicam a mentira também, inclusive em grupos de WathsApp. É uma coisa impressionante!

Isto mostra, de forma simplificada, como funciona o processo que faz com que a nossa sociedade entre neste turbilhão de enlouquecimento coletivo.

De repente, aquela sua tia velha e pacata começa a defender a tortura e o extermínio em massa; aquele seu amigo músico, que sempre foi boa gente, começa a espalhar mentiras e espumar pelos cantos da boca... foi assim que a sociedade dos EUA elegeu Trump, defensor da Ku Klux Klan e de neonazistas, foi assim que a Inglaterra embarcou no Brexit... e é assim que nossa sociedade está sendo conduzida ao caos e à dissensão social.

Por isto Zuckerberg está pedindo desculpas aos EUA e à Europa. São lágrimas de crocodilo.

Não caia nessa.

PS: A Lei Rouanet é só procurar na rede, trata-se de incentivo à cultura, dinheiro público.

domingo, 20 de mayo de 2018

Ninguém me ama, ninguém me quer

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Sábado frio e chuvoso, as mulheres trabalhando na boate, se fresqueando e indo pro quarto com os bacanos. Detesto isso, mas é a fonte de renda que sai limpa, o leão não mete a pata.

Euzinho, o empregado, que elas usam de cozinheiro, pra limpar a casa, lavar roupas na máquina, tirar o lixo, matar quem as persegue, aqui sozinho mexendo no Par Perfeito.

Verdade que quando querem se distrair, variar - os caras do cabaré não são de nada, peladas em pé me chamam pro meio da sala, Carlos vem cá, ajoelha escravo sem vergonha, chupa. Eu obedeço, sou empregado. 

Elas se excitam, acaba virando orgia com as doze mulheres. Ando cheio dessas cabeças de vento. Duas eu levaria para morar junto.

Bom, nestas alturas nem tão frio este sábado, depois das vinte taças de vinho que bebi fiquei morninho. Então, eis que surge o inesperado. A vida inteira esperando... é mesmo algo inesperado.

Se as pessoas soubessem... desde que nasci ninguém me quis assim de cara, tive que batalhar muito para conseguir algumas doidas na vida, por ser bem dotado de feiúra e nada ou pouco no bolso. Vivo dizendo, sou do tipo que de tão azarado se cair de costas quebro o pau.

Agora subitamente esquentei! Recebi um recado do PP nos seguintes e educados termos:

- Eu preciso te comer! Eu quero te comer! Vou começar te mordendo a orelha! Não fale mais em cometer uma besteira!

Alguém a quem não presto serviços, disse isso por gosto, por amor? Fiquei emocionado, sem jeito, cheio de pudor, e peguei leve:

- Eu topo! Gostosa, tarada, vem sua maluca, tou sozinho, chupo, pulo de cima do guarda-roupa, te dou uns tapas, te enrabo, faço qualquer negócio!

- Me dá o endereço que tou indo já te comer, eu te amo - Ela disse.

- Me viciaram, tu está a fim de morar comigo e mais duas mulheres?!

- Sim!

Enquanto espero torço para que o comer tenha sentido figurado, sabe como é, rei do azar: vai que ela seja uma canibal. Se for, fazer o que numa hora dessas? Dizer:

- Vem, minha antropófaga amada, me morda, me devore, cansei, desacreditei de tudo.

Azar, pelo menos alguém me quis nesta vida.
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sábado, 5 de mayo de 2018

Marido

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Se deixar as mulheres compram qualquer porcaria que lhes surge à frente, parecem crianças, então quem toma conta da grana sou eu. Elas andam com no máximo cenzinho na bolsa, para um táxi e alguma miudeza, nada de cartão de débito ou crédito, conta bancária só eu tenho, a poupança está no meu nome. Levo-as em rédea curta e confiro no que gastam.

Então fazem compras na padaria e dizem "Depois o meu marido vem aqui e paga, a gente mora ali adiante". O mesmo na mercearia, no açougue, na farmácia, na loja de roupas femininas da esquina. O pessoal da Cidade Baixa já me viu com algumas delas, às vezes vou junto. Em janeiro passado andamos de bando pelos bares da Rua da Olaria, da Rua da República, nas festas de verão.

Meu marido pra cá, meu marido pra lá, mandei pararem com essa frescura, ora. Não adiantou, agora entro na mercearia e o dono exclama feliz: "Oba, chegou o Marido!". No açougue o cara diz: "Chegaram umas costelas lindas, Marido". O mesmo em todos os lugares, até na sinuca, a malandragem não perde nada: "E aí, Marido, vai entrar nesta matadinha?".

Na tabacaria: "Então, Marido, vai uns cigarros paraguaios?". Na semana passada cruzei com o cartunista Santiago lá na Rua João Alfredo e ele me me gritou do outro lado da rua, enquanto acenava: "Tá sumido, Marido, há um ano não te via". Devolvi o aceno de amizade "Abraço, meu irmão", e segui pensando putz, até o Santiago! No outro dia o Aristeu, chefão do jogo do bicho, me viu no boteco e veio pro abraço: "Boa, Marido, pegou no quinto prêmio outro dia, hein?".

Os guardadores de carro, os moradores de rua, até na loja de roupas a moça me disse outro dia: "Oi, Marido, veio pagar? Beleza". É assim na agência bancária: "Veio depositar a féria, Marido?". É com os ambulantes da Redenção. Chegou aos ouvidos do médico e do dentista que cuidam da saúde das onças, passei a ser Marido.

Acho que vamos ter que mudar de bairro, estou pensando em Petrópolis e Ipanema, o "Marido" chegou até no Mercado Público lá no Centro, no Menino Deus, daqui a pouco toda a Porto Alegre vai me chamar de Marido. Chato pacas, tenho nome, ora.
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jueves, 26 de abril de 2018

O liso do Manga

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Amigos, estou arrasado. Desconfio que sou alcoólatra, hoje mesmo irei me inscrever ali no AAA no anexo da Igreja Sagrada Família, na Rua José do Patrô. Se é que ainda existe. Explico.

Há mais de trinta dias, talvez uns quarenta, não bebo um gole de nada. Só água, suco de uva com água, suco de laranja, essas porcarias que fazem mal à saúde. Pois nesta madrugada, além do pesadelo onde os boches tinham vindo me dar uma coercitiva por crime de opinião - ofendeu o juiz Tio Sam que não sabe falar inglês e muito menos português, quando acabei numa cela de dois por dois cheia de ratos, também tive um sonho, este baseado em fatos.

Eu tinha 22 anos incompletos, 21 e meio, e morava de favor num quartinho que um amigo me cedeu num apê da Rua Francisco Ferrer, ali perto do Hospital de Clínicas. O Luís Fernando Carvalho morava sozinho com a sua mãe, não lhe custou me dar abrigo por alguns dias, eu evitando ao máximo incomodar, jamais fiz refeição com eles - não por falta de convite, comia na rua, procurava ser invisível, grato pelo catre que me disponibilizaram no quartinho que seria o da empregada se a tivessem.

Procurando emprego, disposto a não voltar para a putaria, nas horas vagas ficava zanzando pelo bairro, comecinho de Petrópolis, arrastando a asa para as domésticas - as moças finórias mal me olhavam, a roupa era gasta, feia, creio que também me achavam muito magro, sentiam o bolso vazio, sei lá, não gostavam de mim.

Não demorou, o destino se atravessou e fiz amizade com o dono da mercearia quase na esquina com a Av. Protásio Alves, ia passando quando fedeu lá dentro, senti o drama, o assaltante saiu correndo e o peguei na saída, meti o braço no cara. Sem querer ganhei o velho. Grana e mercadorias recuperadas, a PM levou o ladrão. A convite do seu J passei a frequentar o lugar. Tomava um liso de pinga às bicadinhas e deu.

De jeito nenhum ele aceitava pagamento, na hora de ir embora ia até a porta com o braço por cima de mim. É aquele negócio, o diabo sabe mais por velho do que por diabo, ele bateu os olhos em mim e sentiu que eu era um guri bom (naquela época ainda era) e andava numa eme danada, oferecia comida, que nunca aceitei para não abusar, ali eu já sabia que a gente sobrevive legal comendo um ovo por dia.

Foi lá que conheci o seu Manga, então goleiro do Internacional, ele morava ali por perto. Eu colorado até morrer. Já contei esta história da amizade com o Manga. Um sujeito de não muitas palavras, divertido, com muito mundo, para se ter uma ideia é o atleta brasileiro com mais participações na Libertadores de América em todos os tempos. Para falar com ele eu tinha que olhar para cima, e olha que eu tinha um metro e oitenta. Não ficava até tarde, sabia que tinha treino no dia seguinte, jamais o vi bêbado, nem “tocado”, o índio era forte. Aparecia somente quando por alguns dias não haveria jogos.

Aqui importa dizer que ele ficava com um lisão de pinga atrás da balança, o liso regularmente abastecido pelo seu J, que era amigo e admirador do grande goleiro. Conversa vai, conversa vem, em pé na frente do balcão, subitamente ele metia a mão, e que mão, sem exagero dava cinco da minha, lá atrás da balança, pegava o lisão e taiaiau, ia tudo numa sentada. Eu ficava arrepiado de ver, se eu fizesse aquilo morreria, ou no mínimo me afogaria.

Pois o sonho desta madrugada foi esse, eu "via" o Manga dando o tirambaço no liso alto, pá, fundo branco. Acordei com um ardume na garganta.

Às 10h, há pouco, não resisti, servi um lisinho e imitei o seu Manga. Entrou tudo, estremeci, logo me deu uma tonturinha e um calorão, cheguei até a me enganar pensando que sou feliz.

(Hoje, 26 de abril, Manga completa 81 anos. Última notícia que tenho é que mora em Salinas, no Equador. Saúde e paz ao Manguita, glória do desporto nacional, ó Internacional que eu vivo a exaltar. Ele é mesmo internacional. Feliz Aniversário!)
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martes, 24 de abril de 2018

Consolidação das Leis da Putaria Federal


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Hoje as trinta mulheres se atrasaram da batalha, deu rolo no cabaré, chegaram somente às seis da manhã. Disseram que não me ligaram para não me incomodar, eram só uns bêbados do pmdb, psdb, dem, pp, essa gente, foram comemorar alguma coisa e armaram confusão, não valiam uma punhalada, elas mesmas deram umas pauladas nos otários.

Fizeram bem, se eu vou lá com os meus bugres agora eles estariam pendurados nos postes da cidade. Deixemos isso de lado, estava esperando as senhoras, tenho novidades, vamos alterar o nosso contrato de trabalho, eu disse.

Como assim? - perguntou a Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, se alçando a porta-voz das outras.

Pelo nosso contrato cada uma de vocês ganha dez por cento limpo do faturamento diário, o resto é para as despesas aqui do convento, para a minha comissão e para a conta que abri em meu nome, a poupança do nosso futuro. Isso vai mudar. Fiquem quietas! Deixem eu explicar com calma. Seguinte:

Não vão levar mais os dez por cento. Houve uma mudança na legislação federal, culpa daqueles golpistas filhos da puta, eu nada tenho a ver com isso. Já falei para calarem a boca, escutem:

Se vocês entram no puteiro às 19:30h e ficam se virando até às 4:30h, trabalham nove horas, o que lhes dava direito aos dez por cento. Doravante passaremos ao regime de trabalho intermitente. Quieta aí, Jandira.

As horas que ficarem esperando a clientela sentadas nos sofás do cabaré ou dançando seminuas de chamarisco não contam, só contam as atividades no quarto. Assim, se ficarem remuneradas no quarto três das nove horas, levarão um terço dos dez por cento.

Sacaram, né? Se antes vocês apressavam as coisas para tomar logo a grana dos babacas e voltar pro salão, agora sugiro que enrolem, demorem... É complicado, demoram e deixam de pegar outro, o faturamento cai, vai depender se tem garufa esperando na fila lá fora, mas vocês conseguirão chegar a um meio termo.

Deem graças a Deus que não aboli a Gratificação de Natal, proporcional à intermitência, esta por minha conta, se não fosse eu tavam fodidas. Agora me deixem quieto, preciso ver uns trecos no facebook, a Marcela e a Cláudia Zoiúda lá de Brasília querem vir pra cá, essas são abonadas e mal comidas, podem contribuir com a poupança.

Foram pra sala grande, conversaram, bateram boca, fizeram contas, até que caiu a ficha. Se amontoaram na porta da salinha do computador aos berros, me chamando de tudo o que não presta. Eu me mantive sereno, sem arredar pé, é pegar ou largar, se continuarem teimando vendo todas para os gigolôs da Farrapos e da Carmen, e a poupança fica só pra mim.

Quando começaram a chorar, reclamar que precisavam mandar dinheiro para as famílias, pra mãe, pras irmãs que cuidavam dos seus filhos, dependiam da batalha delas, que destruí as suas vidas, achei que era hora de acabar com a brincadeira, fui longe demais.

Estão doidas, não sou criminoso, ora se iria cometer uma maldade dessas com vocês, eu tava brincando! Malucas, andem aqui me dar um abraço.

Ufa, aos poucos as tadinhas foram se recuperando, sorrisos brotaram entre lágrimas. Mariana de Rosário seguiu de cara fechada, até que disse: Mas tu não vale nada mesmo!
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lunes, 23 de abril de 2018

UMA SEMANA COM OS BOÊMIOS (1)


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Em plena segunda-feira a malandragem não sossega no Botequim do Terguino Ferro. Todo mundo desempregado, se salva o Bruno que tem uma pequena gráfica onde imprime elogios à quadrilha do vampiro e aos bostas do RS, como ele diz, além do Aristarco que é aposentado, embora a grana da aposentadoria só lhe permita tomar pinga e jamais ir à praia, ele ama praia, salva-se porque tem um barraco próprio na Rua do Arvoredo.

A turma em altos papos hoje pela manhã, em meio a caipirinhas e lisos, o Bruno já entornando dyabla-verde, o absinto caseiro, cachaça em conserva de losna para quem não sabe. Eu quietinho numa caipirinha de vodka com uma folha de hortelã dentro.

Depois de cansarem de xingar o técnico do Inter - nesta ajudei, de questionarem quem ainda não transou com a mulher daquele gerente de banco (entrou até mulher de juiz no meio, uma temeridade), passaram para a política.

João da Noite propôs que a gente profira umas palestras para certos juízes e procuradores, que agora são políticos, ele é amigo de uma juíza e acredita que ela nos apresente para as associações das facções dos caras, deve haver associação informal, pois trabalham afinados, aí a gente vai lá a convite.

O evento se chamaria "Uma semana com os boêmios", e teria ampla divulgação da imprensa falada e escrita, com transmissão direta da TVT e da Mídia Ninja pelo youtube e pelo facebook. Uma palestra por noite.

Proposta aceita por unanimidade das mesas e dos caras em pé encostados no balcão. Mãos à obra para selecionar os palestrantes e os temas a serem apresentados à juíza que seria intermediária na organização do acontecimento: uns camaradas espertos e temas úteis, que cobrissem fragilidades das gangues de nobres profissionais do Direito.

Considerando idade (não necessariamente), corrida pelo chão do mundo, olhos vermelhos, brabeza e tal, a turma escolheu, pela ordem, Aristarco de Serraria, João da Noite, Luciano Peregrino, Wilson Schu... aqui o Bruno Contralouco esperneou: "Ué, não vão me escolher? Sou o Rei da Cidade Baixa, pombas!". A turma riu e o Portuga falou que só estavam judiando dele. Foi o próximo.

Acrescentaram o Nicolau Gaiola, o ator da turma, e ficou faltando um. Mr. Hyde, Gustavo Moscão, Cícero do Pinho e outros pediram pelo amor de Deus, me incluam fora dessa. Jezebel do Cpers se retirou para outra mesa reclamando de machismo, sentiu que não seria escolhida, bem feito, quem mandou votar na quadrilha do Gringón. 

Pensaram, pensaram... Doutor Alex e Adolfo Dias Savchenko impossibilitados, estão morando em Buenos Aires. Os nossos uruguaios Carlito Dulcemano Yanés e Juanito Díaz Matabanquero nem pensar, o primeiro assaltou outro banco na Av. Paulista e está escondido no Rio de Janeiro, o segundo por razões impossíveis de declinar, pois logo haverá o estouro da boiada. 

Aconteceu o que eu temia: sobrou pra mim. Aceitei meio sem jeito, para não deixar mal os amigos.

Passo seguinte a escolha dos sete assuntos, que seriam sorteados entre os sete palestrantes. Como ali, segundo a turma, quem corre menos voa, o nego encara o tema que vier.

Cogitaram duas dezenas de assuntos, espremeram e saíram os sete, pela ordem:

- A mentira
- A putaria
- A vingança
- O orgulho
- A traição
- A vergonha na cara
- A covardia

Ao sorteio. Sete papeizinhos embolados no chapéu do Negrote, o velho morador de rua que é os olhos do Gustavo Moscão lá fora, para a eventualidade de passar algum pastor da Universal, nesse caso o Negrote corre avisar e o Gustavo, ex-boxeador, vai lá e quebra a cara do sujeito. Cada papelzinho com o assunto escrito, claro.

Aristarco tirou “A traição”, João da Noite “A vergonha na cara”, Luciano Peregrino “A mentira”, Wilson Schu “O orgulho”, Bruno Contralouco “A vingança” (vibrou em urros, era só o que ele queria), Nicolau Gaiola “A covardia”, e eu não precisei tirar, a turma abriu por abrir, por exclusão peguei “A putaria”.

Vou-me dar bem ensinando aos palhaços algumas noções de putaria além das que conhecem no seu trabalho. Oba!

Depois de mais uns tragos saí do bar e vim pra casa. Ao chegar já tinha em mente o gran finale da minha palestra: salão de atos com as luzes sendo reduzidas, eu emocionado proferindo o ápice da minha fala, que resumia tudo o dito antes, e inundando o ambiente a música de Toquinho e Vinícius: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais mas sabe menos do que eu...", os facínoras com as bundas coladas nas cadeiras, não acreditando no que ouviam, uns distraídos começando a aplaudir, esses tem conserto, se se arrependerem. Urrú!

(segue)
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O que eu nunca soube fazer (3/4)

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Pela madrugada falei para uma dama paraense ou cuiabana, ou seria paulista?, que ela tem as pernas mais lindas do mundo, quase digo que vá ser boa assim aqui em casa, e já todo musical acrescentei que sou desse tipo de gente que diz o que sente, que olha o que vê, e que azar se esse é o jeito que tenho de não ter ninguém, abracei o Sérgio Bittencourt que me dizia calma, moço, não adianta reclamar da vida.

Segui falando, agora com uma ucraniana loura e uma mineira semi-loura que eu queria para morarem junto comigo. Em troca de elas me ensinarem boas maneiras eu lhes ensinaria sacanagem, apesar da suspeita de que de sacanagem elas sabiam tudo. Estavam prontas a me dizer Sim, palavra linda, mas demoraram, pensaram muito, no nome a zelar e em outras bobagens de que vão se arrepender um dia. Droga de filhos, droga de ex-maridos, droga de vida.

Repisados delírios, mas desta vez acho que foi acordado. Agora sim dormi, bêbado de tristeza.

Dei um tiro na cara de um nazista que desfilava pela Avenida Paulista, outro no empresário que vinha atrás o empurrando. Um estouro na rua, tiro ou pneu furado, e de um salto sentei na cama.

Olho para os lados e nada de ucraniana, nem de paraense, cuiabana, carioca, mineira, paulista, catarina, nada, nem gaúcha. Todas com estranhos neurônios, nunca vem, nunca, e eu morto de tesão. Vão com os outros, as abobadas.

Passou, não foi nada. Vamos em frente, quem sabe amanhã o sonho chegue a um bom final.

Um dia elas me pagam, nuas de conchinha.
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