domingo, 20 de mayo de 2018

Ninguém me ama, ninguém me quer

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Sábado frio e chuvoso, as mulheres trabalhando na boate, se fresqueando e indo pro quarto com os bacanos. Detesto isso, mas é a fonte de renda que sai limpa, o leão não mete a pata.

Euzinho, o empregado, que elas usam de cozinheiro, pra limpar a casa, lavar roupas na máquina, tirar o lixo, matar quem as persegue, aqui sozinho mexendo no Par Perfeito.

Verdade que quando querem se distrair, variar - os caras do cabaré não são de nada, peladas em pé me chamam pro meio da sala, Carlos vem cá, ajoelha escravo sem vergonha, chupa. Eu obedeço, sou empregado. 

Elas se excitam, acaba virando orgia com as doze mulheres. Ando cheio dessas cabeças de vento. Duas eu levaria para morar junto.

Bom, nestas alturas nem tão frio este sábado, depois das vinte taças de vinho que bebi fiquei morninho. Então, eis que surge o inesperado. A vida inteira esperando... é mesmo algo inesperado.

Se as pessoas soubessem... desde que nasci ninguém me quis assim de cara, tive que batalhar muito para conseguir algumas doidas na vida, por ser bem dotado de feiúra e nada ou pouco no bolso. Vivo dizendo, sou do tipo que de tão azarado se cair de costas quebro o pau.

Agora subitamente esquentei! Recebi um recado do PP nos seguintes e educados termos:

- Eu preciso te comer! Eu quero te comer! Vou começar te mordendo a orelha! Não fale mais em cometer uma besteira!

Alguém a quem não presto serviços, disse isso por gosto, por amor? Fiquei emocionado, sem jeito, cheio de pudor, e peguei leve:

- Eu topo! Gostosa, tarada, vem sua maluca, tou sozinho, chupo, pulo de cima do guarda-roupa, te dou uns tapas, te enrabo, faço qualquer negócio!

- Me dá o endereço que tou indo já te comer, eu te amo - Ela disse.

- Me viciaram, tu está a fim de morar comigo e mais duas mulheres?!

- Sim!

Enquanto espero torço para que o comer tenha sentido figurado, sabe como é, rei do azar: vai que ela seja uma canibal. Se for, fazer o que numa hora dessas? Dizer:

- Vem, minha antropófaga amada, me morda, me devore, cansei, desacreditei de tudo.

Azar, pelo menos alguém me quis nesta vida.
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sábado, 5 de mayo de 2018

Marido

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Se deixar as mulheres compram qualquer porcaria que lhes surge à frente, parecem crianças, então quem toma conta da grana sou eu. Elas andam com no máximo cenzinho na bolsa, para um táxi e alguma miudeza, nada de cartão de débito ou crédito, conta bancária só eu tenho, a poupança está no meu nome. Levo-as em rédea curta e confiro no que gastam.

Então fazem compras na padaria e dizem "Depois o meu marido vem aqui e paga, a gente mora ali adiante". O mesmo na mercearia, no açougue, na farmácia, na loja de roupas femininas da esquina. O pessoal da Cidade Baixa já me viu com algumas delas, às vezes vou junto. Em janeiro passado andamos de bando pelos bares da Rua da Olaria, da Rua da República, nas festas de verão.

Meu marido pra cá, meu marido pra lá, mandei pararem com essa frescura, ora. Não adiantou, agora entro na mercearia e o dono exclama feliz: "Oba, chegou o Marido!". No açougue o cara diz: "Chegaram umas costelas lindas, Marido". O mesmo em todos os lugares, até na sinuca, a malandragem não perde nada: "E aí, Marido, vai entrar nesta matadinha?".

Na tabacaria: "Então, Marido, vai uns cigarros paraguaios?". Na semana passada cruzei com o cartunista Santiago lá na Rua João Alfredo e ele me me gritou do outro lado da rua, enquanto acenava: "Tá sumido, Marido, há um ano não te via". Devolvi o aceno de amizade "Abraço, meu irmão", e segui pensando putz, até o Santiago! No outro dia o Aristeu, chefão do jogo do bicho, me viu no boteco e veio pro abraço: "Boa, Marido, pegou no quinto prêmio outro dia, hein?".

Os guardadores de carro, os moradores de rua, até na loja de roupas a moça me disse outro dia: "Oi, Marido, veio pagar? Beleza". É assim na agência bancária: "Veio depositar a féria, Marido?". É com os ambulantes da Redenção. Chegou aos ouvidos do médico e do dentista que cuidam da saúde das onças, passei a ser Marido.

Acho que vamos ter que mudar de bairro, estou pensando em Petrópolis e Ipanema, o "Marido" chegou até no Mercado Público lá no Centro, no Menino Deus, daqui a pouco toda a Porto Alegre vai me chamar de Marido. Chato pacas, tenho nome, ora.
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jueves, 26 de abril de 2018

O liso do Manga

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Amigos, estou arrasado. Desconfio que sou alcoólatra, hoje mesmo irei me inscrever ali no AAA no anexo da Igreja Sagrada Família, na Rua José do Patrô. Se é que ainda existe. Explico.

Há mais de trinta dias, talvez uns quarenta, não bebo um gole de nada. Só água, suco de uva com água, suco de laranja, essas porcarias que fazem mal à saúde. Pois nesta madrugada, além do pesadelo onde os boches tinham vindo me dar uma coercitiva por crime de opinião - ofendeu o juiz Tio Sam que não sabe falar inglês e muito menos português, quando acabei numa cela de dois por dois cheia de ratos, também tive um sonho, este baseado em fatos.

Eu tinha 22 anos incompletos, 21 e meio, e morava de favor num quartinho que um amigo me cedeu num apê da Rua Francisco Ferrer, ali perto do Hospital de Clínicas. O Luís Fernando Carvalho morava sozinho com a sua mãe, não lhe custou me dar abrigo por alguns dias, eu evitando ao máximo incomodar, jamais fiz refeição com eles - não por falta de convite, comia na rua, procurava ser invisível, grato pelo catre que me disponibilizaram no quartinho que seria o da empregada se a tivessem.

Procurando emprego, disposto a não voltar para a putaria, nas horas vagas ficava zanzando pelo bairro, comecinho de Petrópolis, arrastando a asa para as domésticas - as moças finórias mal me olhavam, a roupa era gasta, feia, creio que também me achavam muito magro, sentiam o bolso vazio, sei lá, não gostavam de mim.

Não demorou, o destino se atravessou e fiz amizade com o dono da mercearia quase na esquina com a Av. Protásio Alves, ia passando quando fedeu lá dentro, senti o drama, o assaltante saiu correndo e o peguei na saída, meti o braço no cara. Sem querer ganhei o velho. Grana e mercadorias recuperadas, a PM levou o ladrão. A convite do seu J passei a frequentar o lugar. Tomava um liso de pinga às bicadinhas e deu.

De jeito nenhum ele aceitava pagamento, na hora de ir embora ia até a porta com o braço por cima de mim. É aquele negócio, o diabo sabe mais por velho do que por diabo, ele bateu os olhos em mim e sentiu que eu era um guri bom (naquela época ainda era) e andava numa eme danada, oferecia comida, que nunca aceitei para não abusar, ali eu já sabia que a gente sobrevive legal comendo um ovo por dia.

Foi lá que conheci o seu Manga, então goleiro do Internacional, ele morava ali por perto. Eu colorado até morrer. Já contei esta história da amizade com o Manga. Um sujeito de não muitas palavras, divertido, com muito mundo, para se ter uma ideia é o atleta brasileiro com mais participações na Libertadores de América em todos os tempos. Para falar com ele eu tinha que olhar para cima, e olha que eu tinha um metro e oitenta. Não ficava até tarde, sabia que tinha treino no dia seguinte, jamais o vi bêbado, nem “tocado”, o índio era forte. Aparecia somente quando por alguns dias não haveria jogos.

Aqui importa dizer que ele ficava com um lisão de pinga atrás da balança, o liso regularmente abastecido pelo seu J, que era amigo e admirador do grande goleiro. Conversa vai, conversa vem, em pé na frente do balcão, subitamente ele metia a mão, e que mão, sem exagero dava cinco da minha, lá atrás da balança, pegava o lisão e taiaiau, ia tudo numa sentada. Eu ficava arrepiado de ver, se eu fizesse aquilo morreria, ou no mínimo me afogaria.

Pois o sonho desta madrugada foi esse, eu "via" o Manga dando o tirambaço no liso alto, pá, fundo branco. Acordei com um ardume na garganta.

Às 10h, há pouco, não resisti, servi um lisinho e imitei o seu Manga. Entrou tudo, estremeci, logo me deu uma tonturinha e um calorão, cheguei até a me enganar pensando que sou feliz.

(Hoje, 26 de abril, Manga completa 81 anos. Última notícia que tenho é que mora em Salinas, no Equador. Saúde e paz ao Manguita, glória do desporto nacional, ó Internacional que eu vivo a exaltar. Ele é mesmo internacional. Feliz Aniversário!)
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martes, 24 de abril de 2018

Consolidação das Leis da Putaria Federal


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Hoje as trinta mulheres se atrasaram da batalha, deu rolo no cabaré, chegaram somente às seis da manhã. Disseram que não me ligaram para não me incomodar, eram só uns bêbados do pmdb, psdb, dem, pp, essa gente, foram comemorar alguma coisa e armaram confusão, não valiam uma punhalada, elas mesmas deram umas pauladas nos otários.

Fizeram bem, se eu vou lá com os meus bugres agora eles estariam pendurados nos postes da cidade. Deixemos isso de lado, estava esperando as senhoras, tenho novidades, vamos alterar o nosso contrato de trabalho, eu disse.

Como assim? - perguntou a Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, se alçando a porta-voz das outras.

Pelo nosso contrato cada uma de vocês ganha dez por cento limpo do faturamento diário, o resto é para as despesas aqui do convento, para a minha comissão e para a conta que abri em meu nome, a poupança do nosso futuro. Isso vai mudar. Fiquem quietas! Deixem eu explicar com calma. Seguinte:

Não vão levar mais os dez por cento. Houve uma mudança na legislação federal, culpa daqueles golpistas filhos da puta, eu nada tenho a ver com isso. Já falei para calarem a boca, escutem:

Se vocês entram no puteiro às 19:30h e ficam se virando até às 4:30h, trabalham nove horas, o que lhes dava direito aos dez por cento. Doravante passaremos ao regime de trabalho intermitente. Quieta aí, Jandira.

As horas que ficarem esperando a clientela sentadas nos sofás do cabaré ou dançando seminuas de chamarisco não contam, só contam as atividades no quarto. Assim, se ficarem remuneradas no quarto três das nove horas, levarão um terço dos dez por cento.

Sacaram, né? Se antes vocês apressavam as coisas para tomar logo a grana dos babacas e voltar pro salão, agora sugiro que enrolem, demorem... É complicado, demoram e deixam de pegar outro, o faturamento cai, vai depender se tem garufa esperando na fila lá fora, mas vocês conseguirão chegar a um meio termo.

Deem graças a Deus que não aboli a Gratificação de Natal, proporcional à intermitência, esta por minha conta, se não fosse eu tavam fodidas. Agora me deixem quieto, preciso ver uns trecos no facebook, a Marcela e a Cláudia Zoiúda lá de Brasília querem vir pra cá, essas são abonadas e mal comidas, podem contribuir com a poupança.

Foram pra sala grande, conversaram, bateram boca, fizeram contas, até que caiu a ficha. Se amontoaram na porta da salinha do computador aos berros, me chamando de tudo o que não presta. Eu me mantive sereno, sem arredar pé, é pegar ou largar, se continuarem teimando vendo todas para os gigolôs da Farrapos e da Carmen, e a poupança fica só pra mim.

Quando começaram a chorar, reclamar que precisavam mandar dinheiro para as famílias, pra mãe, pras irmãs que cuidavam dos seus filhos, dependiam da batalha delas, que destruí as suas vidas, achei que era hora de acabar com a brincadeira, fui longe demais.

Estão doidas, não sou criminoso, ora se iria cometer uma maldade dessas com vocês, eu tava brincando! Malucas, andem aqui me dar um abraço.

Ufa, aos poucos as tadinhas foram se recuperando, sorrisos brotaram entre lágrimas. Mariana de Rosário seguiu de cara fechada, até que disse: Mas tu não vale nada mesmo!
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lunes, 23 de abril de 2018

UMA SEMANA COM OS BOÊMIOS (1)


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Em plena segunda-feira a malandragem não sossega no Botequim do Terguino Ferro. Todo mundo desempregado, se salva o Bruno que tem uma pequena gráfica onde imprime elogios à quadrilha do vampiro e aos bostas do RS, como ele diz, além do Aristarco que é aposentado, embora a grana da aposentadoria só lhe permita tomar pinga e jamais ir à praia, ele ama praia, salva-se porque tem um barraco próprio na Rua do Arvoredo.

A turma em altos papos hoje pela manhã, em meio a caipirinhas e lisos, o Bruno já entornando dyabla-verde, o absinto caseiro, cachaça em conserva de losna para quem não sabe. Eu quietinho numa caipirinha de vodka com uma folha de hortelã dentro.

Depois de cansarem de xingar o técnico do Inter - nesta ajudei, de questionarem quem ainda não transou com a mulher daquele gerente de banco (entrou até mulher de juiz no meio, uma temeridade), passaram para a política.

João da Noite propôs que a gente profira umas palestras para certos juízes e procuradores, que agora são políticos, ele é amigo de uma juíza e acredita que ela nos apresente para as associações das facções dos caras, deve haver associação informal, pois trabalham afinados, aí a gente vai lá a convite.

O evento se chamaria "Uma semana com os boêmios", e teria ampla divulgação da imprensa falada e escrita, com transmissão direta da TVT e da Mídia Ninja pelo youtube e pelo facebook. Uma palestra por noite.

Proposta aceita por unanimidade das mesas e dos caras em pé encostados no balcão. Mãos à obra para selecionar os palestrantes e os temas a serem apresentados à juíza que seria intermediária na organização do acontecimento: uns camaradas espertos e temas úteis, que cobrissem fragilidades das gangues de nobres profissionais do Direito.

Considerando idade (não necessariamente), corrida pelo chão do mundo, olhos vermelhos, brabeza e tal, a turma escolheu, pela ordem, Aristarco de Serraria, João da Noite, Luciano Peregrino, Wilson Schu... aqui o Bruno Contralouco esperneou: "Ué, não vão me escolher? Sou o Rei da Cidade Baixa, pombas!". A turma riu e o Portuga falou que só estavam judiando dele. Foi o próximo.

Acrescentaram o Nicolau Gaiola, o ator da turma, e ficou faltando um. Mr. Hyde, Gustavo Moscão, Cícero do Pinho e outros pediram pelo amor de Deus, me incluam fora dessa. Jezebel do Cpers se retirou para outra mesa reclamando de machismo, sentiu que não seria escolhida, bem feito, quem mandou votar na quadrilha do Gringón. 

Pensaram, pensaram... Doutor Alex e Adolfo Dias Savchenko impossibilitados, estão morando em Buenos Aires. Os nossos uruguaios Carlito Dulcemano Yanés e Juanito Díaz Matabanquero nem pensar, o primeiro assaltou outro banco na Av. Paulista e está escondido no Rio de Janeiro, o segundo por razões impossíveis de declinar, pois logo haverá o estouro da boiada. 

Aconteceu o que eu temia: sobrou pra mim. Aceitei meio sem jeito, para não deixar mal os amigos.

Passo seguinte a escolha dos sete assuntos, que seriam sorteados entre os sete palestrantes. Como ali, segundo a turma, quem corre menos voa, o nego encara o tema que vier.

Cogitaram duas dezenas de assuntos, espremeram e saíram os sete, pela ordem:

- A mentira
- A putaria
- A vingança
- O orgulho
- A traição
- A vergonha na cara
- A covardia

Ao sorteio. Sete papeizinhos embolados no chapéu do Negrote, o velho morador de rua que é os olhos do Gustavo Moscão lá fora, para a eventualidade de passar algum pastor da Universal, nesse caso o Negrote corre avisar e o Gustavo, ex-boxeador, vai lá e quebra a cara do sujeito. Cada papelzinho com o assunto escrito, claro.

Aristarco tirou “A traição”, João da Noite “A vergonha na cara”, Luciano Peregrino “A mentira”, Wilson Schu “O orgulho”, Bruno Contralouco “A vingança” (vibrou em urros, era só o que ele queria), Nicolau Gaiola “A covardia”, e eu não precisei tirar, a turma abriu por abrir, por exclusão peguei “A putaria”.

Vou-me dar bem ensinando aos palhaços algumas noções de putaria além das que conhecem no seu trabalho. Oba!

Depois de mais uns tragos saí do bar e vim pra casa. Ao chegar já tinha em mente o gran finale da minha palestra: salão de atos com as luzes sendo reduzidas, eu emocionado proferindo o ápice da minha fala, que resumia tudo o dito antes, e inundando o ambiente a música de Toquinho e Vinícius: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais mas sabe menos do que eu...", os facínoras com as bundas coladas nas cadeiras, não acreditando no que ouviam, uns distraídos começando a aplaudir, esses tem conserto, se se arrependerem. Urrú!

(segue)
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O que eu nunca soube fazer (3/4)

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Pela madrugada falei para uma dama paraense ou cuiabana, ou seria paulista?, que ela tem as pernas mais lindas do mundo, quase digo que vá ser boa assim aqui em casa, e já todo musical acrescentei que sou desse tipo de gente que diz o que sente, que olha o que vê, e que azar se esse é o jeito que tenho de não ter ninguém, abracei o Sérgio Bittencourt que me dizia calma, moço, não adianta reclamar da vida.

Segui falando, agora com uma ucraniana loura e uma mineira semi-loura que eu queria para morarem junto comigo. Em troca de elas me ensinarem boas maneiras eu lhes ensinaria sacanagem, apesar da suspeita de que de sacanagem elas sabiam tudo. Estavam prontas a me dizer Sim, palavra linda, mas demoraram, pensaram muito, no nome a zelar e em outras bobagens de que vão se arrepender um dia. Droga de filhos, droga de ex-maridos, droga de vida.

Repisados delírios, mas desta vez acho que foi acordado. Agora sim dormi, bêbado de tristeza.

Dei um tiro na cara de um nazista que desfilava pela Avenida Paulista, outro no empresário que vinha atrás o empurrando. Um estouro na rua, tiro ou pneu furado, e de um salto sentei na cama.

Olho para os lados e nada de ucraniana, nem de paraense, cuiabana, carioca, mineira, paulista, catarina, nada, nem gaúcha. Todas com estranhos neurônios, nunca vem, nunca, e eu morto de tesão. Vão com os outros, as abobadas.

Passou, não foi nada. Vamos em frente, quem sabe amanhã o sonho chegue a um bom final.

Um dia elas me pagam, nuas de conchinha.
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lunes, 16 de abril de 2018

Não te mixa, lagartixa meu amor (rascunhos, excertos)

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Adoro lagartixa. Tive uma lagartixa amiga do peito, inicialmente arredia ficava pela parede em raras aparições públicas pela madrugada, enquanto eu batia máquina no covil IV da Av. Oscar Pereira, a gente lá cercados de cemitérios. 

Os vizinhos com dez abaixo-assinados pra me expulsar a pretexto do ruído da máquina de escrever tarde da noite. Na verdade não confiavam nas suas senhoras. Filhos da puta, comi umas vinte mulheres deles naquele pombal, sem jamais ter dado em cima de nenhuma, nem olhava, elas que vinham. 

Teve a mulher de um alemão que me pegou num feriado, o alemão tava trabalhando, e disse sem pudor: quero foder contigo. Vai ser grossa e despudorada assim na casa do caralho, pensei, mas passei o pau na dama, o marido era um maldoso chiclé. Quando falei, assim, mete, vagabunda, imagine que o teu marido corno está olhando, ela por cima, a boboca se acabou toda.

Com o tempo a Branca, nome que dei à lagartixa que tomou o meu apartamento como sua moradia, deu de aparecer mais, em dias de chuva, até que se soltou em confiança. Toda fresca me botava a língua, gozando da minha cara, mandando eu sair, pra que ficar tão triste, rapaz? Arrume outra mulher, uma cantora ou atriz, as crianças estão bem, pare de escrever tristezas, vá viver a vida...

Em três anos e três livros, e alguns vinhos, ela falava comigo, de maneiras que tirem o chapéu pra mim, indiada amiga, pois além de esperanto, chinês (de chinas, nem todas) e gatês, também falo lagartixês.

Só não falo inglês. Arranho no português. 

Quando ela sumiu, e pensei o pior, vendi o apartamento por um terço do que valia, me mudei daquele ambiente hostil onde só ela me amou.


domingo, 15 de abril de 2018

Amor à primeira vista

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Foi um choque no meu íntimo quando a mulher que eu nunca tinha visto na vida, nesta madrugada num bar da Rua João Alfredo, acendeu o cigarro e me olhou com aquele olhar número oito da Lauren Bacall. Senti o drama, quase me derramei, a filha da mãe me pegou.

Disse pra ela aquilo que vivo dizendo de brincadeira, agora de verdade: escolha a religião se quiser religião, o cartório se quiser cartório, marque horário e data, eu compareço e caso contigo, meu amor, só me diz com que roupa que eu vou.

Se depender de mim vou de terno de linho branco, chapéu da Lapa. A festa deixa comigo, irão todos os meus afetos, levo músicos amigos e muito mais, incendeio a cidade, mato meio mundo se for preciso.

Ela esquentou ainda mais os olhos e respondeu: vou marcar, tu agora é meu e de mais ninguém, só preciso de um tempinho para me livrar do meu marido, dono deste bar. Nada a ver com ele há anos, se tu quiser saio daqui contigo agora.

Vou ali e já volto, moça, me dá uma hora, falei cheio de pé atrás, eu hein, pelo espelho tava vendo os leões de chácara me olhando de lá. 

Saí fazendo cara de inocente, não sou bobo. Peguei um táxi e fui em casa me armar, é hoje que eles morrem se tentarem dificultar o nosso casamento.

(segue)
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Lula Libre. Que o Pai do Céu castigue os maus

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Buena madrugada, indiada amiga.

Tou voltando das barrocas, ontem à noite tomei uns tragos, tava numa raiva desgracida dos fascistas punheteiros e das fascistonas gélidas que permitem a invasão, que droga, esta terra tem dono, tão pensando o quê?

Saí fazer locuras pra desopilar com umas casteianas, fui desarmado porque a intenção era outro tipo de rinha.

Pelo sim, pelo não, levei só a minha daga misionera, do tempo de pelear lado a lado com Sepé Tiaraju. Ué, a vida é curta e a morte é certa, também sou filho de Deus, ou pensam que é só vocês que caem na esbórnia arriscando a pele?

Três. Uma trintona, uma quarentona e outra cinquentona argentinas, ui, que conheci pelo Par Perfeito, moram juntas no Balança Mas Não Cai da Rua Zé do Patrô, toparam um embate de vale tudo, no amor, né, na dureza que ando só no amor mesmo. Gostei das três, mas a cinquentona sabe tudo.

Quase me trituraram, as frescas secaram umas às outras, dei uma mãozinha, né... bem, não foi bem a mão, deixa pra lá. As bandidas me secaram o corpo de líquido, sugaram tudo numas brincadeiras, ora jogar basquete dentro de casa, uma cesta atrás da outra, mas sobrevivi, acabo de chupar uma latona de cerveja, de gut-gut para repor, comi uma banana, epa, a fruta, elas que... deixa pra lá. 

Hummm, essa cerveja tava gelada mas sei lá, de onde saíram esses pelos loiros que tirei da boca? Azar. Bem, comi pra recuperar as forças, e meio tonto tou aqui já pensando em repetir a dose.

Convidei-as pra morar aqui no covil, economizam uns pesos, tá caro o aluguel daquele apê tá caro, condomínio os olhos da cara, aqui é pelo sistema rachid, sai barato. 

Fiquei de ligar amanhã dizendo Vengan, depois de consultar as mulheres que estão trabalhando na boate. Consulta delicada: Comunico a vós, minhas putas, que a partir de hoje teremos mais três loucas para dividir as despesas, desde já as senhoras estão encarregadas de arranjar um bico pra elas lá na boate daquele al capone, ele topa, não é doido de se meter comigo.

Vamo nóis, e não tem nada e nem que tenha, cavaco também é lenha.

Lula Libre, que o domingo nos sorria e o Pai do Céu castigue os maus.
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sábado, 14 de abril de 2018

Cidade Baixaria

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Quatro da matina, estourou o cabaré, a lenga vai até às seis ou seis e meia, como sempre, de domingo a domingo, de janeiro a janeiro. Nunca vou entender isso, sou do tempo em que se é pra brigar, brigamos já; se é pra dar um tiro de matar é sem frescura, toma fiadaputa, bum, acaba logo a engresilha.

Fechou o tempo na Cidade Baixa, dezenas de senhores e senhoras brigando a socos no meio da avenida Venâncio Aires, que acaba repercutindo aqui na Octávio Corrêa, os vermes se espalham naquela de bate e assopra, tapinha e corre, pedindo me segure se não eu mato... acabam aqui na esquina. Mais gritos do que socos, em vez de se matarem logo ficam de gritacéu. A negada não sabe beber, ou o tal bar vende algo mais do que bebida.

"Na buceta da tua vó", gritou agora uma elegante senhorita, o nenê da Maria Joana, a Mexicana, começou a chorar lá no quarto. A oponente lá fora, também elegantemente, revidou com "No cu do teu pai, vadia". Agora foi o nenê da Sybille do Haiti que começou a berrar. Meus filhos, se elas não me mentiram.

O velho do andar de cima, que está desenganado, nas últimas, saiu do hospital para morrer em casa, se sentiu mal, a Judite de Canoas e a Jacira de Uruguaiana, mais umas que não vi, subiram lá dar uma mão pra família, gritei me chamem se precisar. Eu aqui na salinha do covil ouvindo, anoto os impropérios, palavrões, alguns eu nem conheço.

Um educado jovem bota música sertanoja goiana no carro, portas abertas, em volume setecentos, as paredes dos prédios estremecem, os moradores dão um pulo de susto. A canção de notas malfeitas tem sangue e chifres na letra. Um bom gosto à toda prova.

Amanhã ao sair andando pela calçada muito cuidado para não pisar em latas, garrafas, dentes quebrados, calcinhas sujas, poças de sangue. Cenas dignas de um quadro, uma beleza. "Guernica tupiniquélis", como sugeriu o amigo Petracco e emendo aqui.

Dia destes para me divertir jogo um molotov no cabaré que se diz bar de onde saem. Talvez dê cinco tiros no dono do muquifo que os embebeda sem advertir pra irem embora ao fechar. Ou o grudo na parede com a doze do Rubem Fonseca. Pessoas maldosas dizem que o elemento distribui propina para policiais militares e para a fiscalização da prefa. Explodindo o seu paraíso talvez compreendam o direito de bebês, crianças, velhos, enfermos, trabalhadores, dormirem um pouco.

Parabéns ao Mr. Boate Kiss, nobre Secretário de Segurança Pública. Parabéns ao prefeiteco pleibói. Com saudades os habitantes lembram que o último PM que foi visto nas cercanias remonta há uns dez anos, Alguém diz que viu uns num carro verde há quatro anos, quando vieram escoltar o dono do muquifo até chegar em casa com a féria do dia, denunciou à corregedoria e não deu nada, mas pararam de escoltar o sujeito em carro oficial pago com o nosso, agora vão de carro roubado.

Que eu saiba a função dos servidores públicos da segurança é proteger banqueiros e espancar professores e outros bichos em manifestações pacíficas. Alguns prendem e espancam pobres vendedores ambulantes, apreendem a mercadoria, para proteger o comércio graúdo. Parabéns a todos os envolvidos, muito justos.

A dor que sinto é quando penso que essas pessoas, divergentes e canalhas exploradores, votam, daí que temos o que temos na condução dos nossos destinos. Vou propor aos ilustres edis a alteração do nome do bairro, para Cidade Baixaria.

Pensei em Porto Triste para a capital, óbvio demais, deixo em aberto, aceito sugestões.

Será que fecharemos, todos da esquerda e centro-esquerda, mesmo de centro, em torno de um nome que nos represente para botar ordem no cabaré? 

Quem sabe tu encara novamente, nobre companheiro Olívio? A cidade e o estado estão, literalmente, caindo aos pedaços em roubo, buraqueira, destruição total, moral e econômica.

(Bonito é assim, como na imagem, como éramos antes, até o horário permitido, sem fascistas à solta)
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