sábado, 28 de diciembre de 2013

Perfídia

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Ao chegar me pegaste esperançoso, otimista. O País iria finalmente tirar o pé do barro. Claro, começamos com leis novas, ou "arrastão fiscal", como sempre. Acabamos prendendo alguns meliantes, que andaram copiando o que outros fazem há muitas décadas, estes que continuam soltos. Muito pouco. Seguem "imexíveis", como falou um imbecil há muito tempo.

Pelo menos agora todo mundo sabe que não se chega a ministro se não for bandoleiro, representando alguma gang, seja de evangélicos ou de larápios apenas. Ficou no ar a promessa de que não demora alguns facínoras de São Paulo pegarão cadeia, estes por desvios de grana forte mesmo, perto da qual o mensalão é trocado. Falo isto desde o tempo da privataria, pois examinei os cálculos de preço mínimo realizados por empresas "especializadas" norte-americanas, trazendo a valor presente os lucros futuros das nossas boas estatais: só não morri de rir porque a vontade de chorar era maior. Claro que o FHC não sabia disso, pois presidentes sabem pouco, precisam delegar, o que o sociólogo iria entender de cálculos econômicos, complicados? Eu entendo. A porca imprensa da classe dominante, essa que tenta manter tudo como está, a miséria grassando, também nada entende de porra nenhuma, mas tem lá seus interesses muito bem localizados.

Segue tudo igual: o desconto na fonte assaltando a classe média, o médico sem recibo, os impostos indiretos comendo o consumo do pobre e por aí vai. Nem o "vou invadir a sua praia", nem o "vou arrancar o tênis do seu filho" comovem a malta distraída no ambiente luxuoso. A ingênua vontade de erradicar a miséria e a ignorância não voou de Miami ou Washington nas asas destas nossas companhias de aviação asquerosas, algumas donas de monopólios de transportes terrestres à custa de sonegação de impostos.

Quanta tolice: cortar gastos públicos, tirar a indústria da ociosidade, prender os sonegadores "extorquidos" no brutal lucro, negociar com quem sonega para pagar a folha. Besteira. Nada a não ser o imediatismo, planos sangrentos em cima da perna, grandes obras para enriquecer os mesmos. A bela Copa do Mundo do superfaturamento, enquanto crianças morrem pelas ruas. Desce do morro uma enxurrada de cola de sapateiro empurrando pedras de crack, levando casas pelas escarpas pela falta de trabalho de prefeitos sujos. Sim, senhor, que decepção.

Dos protestos que tiveram seu ápice em junho, o que restou, após as globos e vejas da vida nos chamarem de bandidos? Nada. Sonhei iniciar a mudança, e mandaste em troca, não esqueci, o desgosto, a vergonha pela covardia daquela mesma classe média burra, já que com os desvalidos que elegem os bandidos não se pode contar. Creia, o trauma que você causou, nem as pernas da Miss Brasil compensam.

E o idiota do Lula, que deu a bunda para carniceiros como o Maluf, que não fecha aquela matraca. E a pobre Dilma, que não consegue livrar-se dele e das centenas de criminosos que ele lhe legou.

E o pior, seu irresponsável: olho para os lados e não vejo para onde correr. Golpearam a Marina no fígado, poderia ser uma alternativa ao menos para reduzir o poder dos nazistas.

Agora, pleno dezembro, esmeram-se no golpe final. Declaram que metade da receita está comprometida por dinheiro dos antipatriotas lá fora, como desde sempre. O País pode parar, caos, pânico nas ruas. Arma-se a lona, ilumina-se o picadeiro, palhaços de prontidão, casa lotada e o apresentador exclama: "Distiiinto público, uma emergência: ou soltamos o leão ou o circo pega fogo".

Atônito, sem tempo para pensar, o distinto público concorda: solte-se o leão.

Os Mesmos sorriem cúmplices, são os donos do circo e sabem que o leão gosta de pobres e remediados, é ortodoxo. E lá vem Copa do roubo, imposto até sobre o namoro. Tributos e falsas ameaças de penalidades que prometem matar o dono mas miram no burro que o sustenta, só para aleijar, matar não dá que este evacua ouro.

Falam em fiscalização, as licitações das grandes obras e da Copa da putaria foram e serão honestas. Diz um gaiato: "Mas, seu moço, para fiscalizar somente as mesmas grandes empresas só de cinquenta em cinquenta anos", outro revida: "Mas não precisa, basta pegar as quinhentas maiores, para começar". Este último recebe um fuzil diante dos olhos: "Sai, seu estraga-prazeres!". 

Outro corajoso: "Se mexerem outra vez na Poupança, para pagar menos ainda que 0,5% ao mês, enquanto banco cobra 10% para emprestar a grana daqueles dos 0,5%, eu compro uma arma". Arma não pode, já desarmamos o povo para termos o campo livre, olha a prisão preventiva, seu baderneiro, para você tem!

É, a dor vai ensinando a gente a amar e um dia querer bem. Ao simples aceno da chegada do seu sucessor feito um bobo eu vibro de emoção, será melhor, fé. A Dilma já deve ter aprendido, haverá exceção à regra do Aparício Torelli, a "De onde não se espera é dali que não sai nada mesmo", o povo a ajudará, este sim, de quem nada se pode esperar pela lavagem cerebral dos donos de tudo das tevês e rádios. De repente sai.

Pensei em enviar esta cartinha ao Congresso Nacional, Mudei de idéia, naquele antro choro de empreiteira vale mais. Com os olhos postos no horizonte, eu, o povo consciente brasileiro, mando para você, seu velho mentiroso, em ti derramo a minha secular revolta. Perdoa, pelo bem que te quis, a dor que só a ti magoa quando digo que nenhuma saudade sentirei. O seu pôr-do-sol está pintado de sangue.

Até nunca mais, 2013.
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Encanteria

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Alguém sabe onde anda esse pessoal?




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jueves, 26 de diciembre de 2013

Saudade - Mário Palmério abolerado

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Encontrei num portal que refere a Mário Palmério (AQUI) o seguinte:

No dia 10 de outubro de 1962, a convite do presidente Jango, Mário Palmério assumiu a embaixada do Brasil no Paraguai.

E já no ano seguinte, entre notícias de articulações de encontros de deputados com o governo paraguaio para tratar de políticas de intercâmbio comercial, eis que uma notinha na coluna de Carlos Swann, no jornal O Globo, registra o sucesso no Paraguai de um "long-play" de música popular cantada em espanhol, de inusitada autoria do embaixador brasileiro naquele país: Mário Palmério.

Era "Saudade”, uma guarânia terna, suave e sedutora, cuja composição é serpenteada de lendas que o embaixador fazia questão de ora confirmar, ora desmentir…

Na versão mais singela, contada em entrevistas na TV, Palmério dizia que alguém, um dia, lhe perguntara o que era saudade... e então, num suspiro triste de inspiração, compôs a guarânia, maneira única de traduzir para o castelhano o lirismo dessa palavra aconchegante que nos faz sofrer em doces devaneios...

As versões mais calientes falam de um boêmio Mário Palmério acompanhado por duas ou três muchachas desnudas enquanto dedilhava… entre um beijo e outro… si insistes en saber… ay… lo que és saudade… uma música para cada mulher… no digas no… antes que tú me digas primero… déjame hablarte… y confesar cuánto te quiero…

O fato é que Don Mário, como o chamou o amigo Mauro Santayana (clique no nome, pensador brasileiro ainda em plena atividade), foi também uma surpresa na música. Pianista de ouvido, deixou para a posteridade talvez as mais deliciosas guarânias que um brasileiro teve a audácia de compor.

Si insistes en saber lo que es saudade,
Tendrás que antes de todo conocer,
Sentir lo que es querer, lo que es ternura,
Tener por bien un puro amor, vivir!

Después comprenderás lo que es saudade
Después que hayas perdido aquel amor
Saudade es soledad, melancolia,
Es lejanía, es recordar, sufrir!

No Brasil, Antonio Marcos também a registrou.



Sei que foi gravada em ritmos cubanos, em Espanha como flamenco, em todo o mundo... Mas gosto mesmo é abolerada.



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miércoles, 25 de diciembre de 2013

Honrei meus pais e amei meus irmãos

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A história distorcida dos romanos, sobre aquele palestino abrasado de sol, transformou seu pai, José, num quase covardão. Só fugiu com Maria para salvar Jesus, seu nenê. De quebra, o chamaram de corno. Aquela de Maria dar para o anjo foi de arrasar, o Saramago e toda a civilização que mereça esse nome riem até hoje.

Não foi bem assim. O homem era bravo, amigo de todos, e muito sério, companheiro para sair de punhal também na defesa dos seus ideais de justiça. Muito bravo. Um homem.

Aliás, os mesmos romanos sujos, pela sua Igreja que hoje o argentino está tentando colocar nos trilhos, deram olhos azuis ao menino palestino, e uma pele de leite. Só rindo, naquele solão e com o sangue que carregava...

Transformaram-no num italianinho de Veneza, de Roma. Milano, talvez. Engole quem quer, além da massa de infelizes que engole qualquer coisa que os bandidos da Globo passam.

Eu vou pela D. Iracema, mãe do meu mano Pato e avó do Nenguirú, que dizia que "A fruita não cai longe do pé", pelo que vos afirmo, ó trilhões de leitores, que o pai dele era foda.

Quanto a cor, tinha todas dentro do coração, a cara e a carne pouco importa, Jesus era um homem superior, que nos legou a coragem de espalhar amor e de nos batermos contra toda e qualquer injustiça.

Um que seguiu seu exemplo é este formidável negro que vai abaixo, com Testamento de partideiro. É uma vergonha, neste país de nazistas, um homem como Candeia não ter tido assento nas cadeiras na Academia Brasileira de Letras, antro de uns que as compraram.






lunes, 23 de diciembre de 2013

Nossa história foi longo desejo

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Vejam como são as coisas, meus amigos. Eu aqui bem belo, tratando a todos com carinho e respeito, me preparando para um Natal de paz, e eis que venho de saber, pelos meus ouvidos na bela cidade litorânea de Itaguaí (RJ), colada à capital Rio de Janeiro, ao lado do bairro de Santa Cruz, que uns maus elementos andam espalhando por lá que sou meio-louco e bebo um pouco, entre outras calúnias que aqui não convém declinar.

A origem dos boatos já foi detectada: trata-se dos irmãos de uma senhora com quem tive, digamos, uma relação furiosamente sexualística ali por perto, em Mangaratiba, já na Costa Azul. Tenho culpa se os filhos adolescentes incomodavam à viúva, se a moça não era livre pelas suas memórias, as deles? Ora vão se catar, vai piorar, e estarei longe.

Miseráveis, não me fazem justiça. Ora “meio” e “um pouco”. Digam a verdade, sejam honestos: sou louco de atar e bebo muito! Agora, atirar em moleque, jamais.

Escapam-se por algum tempo, pois estou numa dureza dos infernos, sem grana para abastecer o jatinho (vai sonhando, Salazar), e a corvada em roda, senão hoje mesmo daria um pulinho até lá. Mas não perdem por esperar, podem ir tratando de se armar, hijos de mala madre. Precisarei em breve dar uma passada por lá mesmo, pois não demora talvez seja obrigado a assaltar a Casa da Moeda, em Santa Cruz, pois aqui a geladeira a cada dia esvazia mais, e de uísques tenho apenas 800 garrafas, não dá para nada.

Esclareço ao povo gaúcho, antes que queira tomar Itaguaí de assalto em minha defesa, que aquela é uma cidade maravilhosa, de um povo acolhedor, então essa meia-dúzia de vagabundos é nada perto dos seus mais de 130 mil habitantes. Deixem-os comigo.

Por fim, peço ao povo de Itaguaí: não liguem para o que dizem esses bandidos, logo terão o que merecem. Quanto àquela dama, sei que morre de saudades de umas artes que fizemos, mas ela que trate de me esquecer, pois na verdade é como dizia o poeta gaúcho Luiz Menezes: “Nossa história foi longo desejo, foi febre, foi beijo, mas não foi amor”.

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NE: Na ilustração, vista parcial de Mangaratiba. Dessa sim, sinto saudades, como de Itaguaí e sua selva fechada.
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viernes, 20 de diciembre de 2013

Banda Retrô Tatiana - ВИА Татьяна

O clássico standard jazz de Duke Ellington: It Don't Mean a Thing (If it Ain't Got that Swing), pelas sensacionais moças da Banda Retrô Tatiana, da Rússia, com a maravilhosa (por mim emendava um milhão de adoráveis adjetivos, mas sou muito suspeito, como fã da guria) Miriam Sekhon à frente.


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jueves, 19 de diciembre de 2013

Me abrazaría a tu ilusión, para llorar tu amor...

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Ao dar título à postagem fiquei entre a cruz e a espada. Uma parte do meu coração queria denominar Si yo pudiera como ayer, querer sin presentir, a outra parte foi mais veloz e lá está, mas o lado perdedor ficou aqui reclamando, eu junto, peito palpitando. Enfim, acho que agora, ao contar, contentei a ambos, meu coração encontrou-se consigo mesmo, torna-se novamente eu, tu, ele. Alguém, um, único, uno.


Volta e meia reúnem-se alguns "especialistas" e elaboram relações das cinquenta ou cem melhores músicas da década ou do século, idem para filmes, etc.

Bobagem, isso não existe, possivelmente estarão valorizando seus interesses diretos ou indiretos.

Falando de música, pode haver lista das mais tocadas em determinado período, ainda assim a depender do "gosto" de tais especialistas, do grupelho no poder, e se vai, muitas outras variáveis. 

Já vi empurrarem cada coisa (considerando o meu gosto) no distinto público, que passa a "gostar", abaixo de jabaculê, cem mil por mês para cada emissora de rádio tocar o dia inteiro de meia em meia hora. Cem mil para as médias, com as emissoras grandonas o preço muda. E a aparição na tevê, como é o processo, por que uns são convidados e outros não? Quem é o dono da gravadora, o mesmo que é o dono da tevê?

Que tal as dez sinfonias mais lindas? Aqui não tem jabá, mas é loucura, não é? Será que a Concertante 297 do Mozart e a Quinta do Mahler entrariam no rol dos "especialistas"?

Música é música, mesmo as julgadas de má qualidade por alguns tem lá seu público, que será tanto mais numeroso quanto a escola pública for uma droga, o sujeito nunca viu um violoncelo; oboé, então, é nome de cabrito. Trompa é aquilo de chamar boi no campo.

Bem, voltando ao tango. Qualquer relação que se faça nela estará presente o tango "Uno" (música de Mariano Mores e letra de Enrique Santos Discepolo), de 1943.

Hoje com Susana Rinaldi.




A obra que ilustra o texto é da artista plástica Patricia Vidour (Rosário, Santa Fe, ARG).
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Lupicínio, Roa Bastos e Alberto Marino: Venganza

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Vingança, o célebre samba-canção do grande porto-alegrense Lupicínio Rodrigues, aqui arreglado en tiempo de tango, vai com a letra em versão do famoso escritor paraguaio Augusto Roa Bastos, que, perseguido pela ditadura do seu país, exilou-se na Argentina em 1947. 

O cantor é Alberto Marino (Vicente Marinaro, Verona, Itália, 26/4/1920 ou 1923 - Buenos Aires, 21/6/1989), argentino desde a tenra idade, la voz de oro del tango, que celebrizou-se junto à orquesta del gordo Pichuco Troillo. 

A gravação de Venganza ocorreu logo após Alberto Marino desligar-se da orquestra de Aníbal Troillo, em 1947. No mesmo ano saiu a gravação, com orquestra típica. Como Linda Batista somente veio a gravar o samba em 1951, segundo Cravo Albin, parece que Alberto Marino obteve sucesso com a música do Lupicínio muito antes que os brasileiros, à exceção do Rio Grande do Sul, possivelmente, a conhecessem.


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lunes, 16 de diciembre de 2013

Grupo da morte, n'A Charge do Dias

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Os boêmios do Botequim do Terguino, como sabem os trilhões de leitores da coluna A Charge do Dias, são todos colorados. Bem, todos não, em 50 há uns 5 gremistas. Assim, não é de espantar a primeira obra escolhida na habitual votação. Ficaram com o Sinovaldo, do Jornal NH (RS).



Todos já dentro do copo, ficaram com a também hilária obra do Mário Alberto, do Lancenet.

  

Entretanto, Miss Leilinha Ferro, a coordenadora da coluna, na sua escolha a solas não quis nem saber de futebol. Com o Benett, da Gazeta do Povo (PR).



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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A França e o Brasil, na esquina do futuro

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Por Mauro Santayana

A visita do primeiro-ministro francês ao Brasil, esta semana, é expressivo instantâneo das condições atuais da política internacional.

Por um lado, monsieur Hollande age como o representante de uma nação saudosa de um poder colonial nostálgico. A caminho do Brasil, esteve na capital da República Centro-Africana, onde foi visitar a força de intervenção francesa que está estacionada naquele país. Daqui, embarcou para a Guiana Francesa, uma das duas últimas possessões europeias em nosso continente.

Por outro lado, ele foi um dos numerosos chefes  de Estado europeus que — sem direito à palavra — teve que assistir à presidente Dilma Rousseff, três dias antes, discursar da tribuna de honra, ao lado de Obama, Ban Ki Moon, de Raúl Castro e do vice-presidente chinês, e do representante indiano, na cerimônia em homenagem ao presidente Nelson Mandela, no Soccer City Stadium, em Johannesburgo.

A França de De Gaulle e Mitterrand, que já lutou, no passado, por encontrar um caminho próprio para sua política externa, vê, hoje, junto com o resto da Europa, à emergência de  outro mundo, no qual o poder se desloca do antigo G-8 para o G-20, e para nações como as do Brics, que reúne o Brasil, a Índia, a China, a Rússia e a África do Sul.

Esse novo panorama geopolítico, de concorrência e desafio, leva os franceses a tentarem estabelecer alternativas de caráter econômico e diplomático, em um contexto que, no entanto, a médio e longo prazo, os obriga a aprofundar, inevitavelmente, seu comprometimento com a União Europeia e com a Aliança Atlântica, que liga a Europa aos Estados Unidos.

Ao visitar o Brasil, um ano depois da ida de Dilma Rousseff à França, Hollande veio, principalmente, fazer negócios. Em sua comitiva estavam vários executivos de empresas francesas instaladas no Brasil, além do CEO da Dassault, que tenta vender ao Brasil os aviões Raffale, no âmbito do Programa F-X.

Nos últimos anos os franceses têm feito excelentes negócios com o Brasil. Cobraram bilhões pela tecnologia de submarinos Scórpene já obsoletos, e pelo casco de nosso submarino atômico, sem transferir nenhum conhecimento sensível, do ponto de vista ofensivo ou nuclear, já que até mesmo o reator dessa nave terá que ser desenvolvido de forma independente pela Marinha. Suas empresas têm participado de vultosos contratos na área de energia e telecomunicações, que incluem turbinas hidrelétricas, o reator de Angra 3, o novo satélite que substituirá os antigos Brasilsats, privatizados e entregues, no final da década de 1990, a capitais estrangeiros.

Nada disso chega a representar, por mais boa vontade os franceses queiram mostrar — elogiando nosso baixo endividamento na Fiesp, ou declarando apoio à entrada do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU — uma efetiva “parceria estratégica”.

Para a Europa ou os Estados Unidos, será sempre mais “estratégico” o vizinho do outro lado do Atlântico que qualquer país do Hemisfério Sul, a não ser que, um dia, o Brasil venha a se integrar à aliança ocidental, na mesma posição subalterna a que se habituaram a nos ver e manter no passado. Falar em “parceria estratégica”, a longo prazo, entre Brasil e França, portanto, é tão irreal como falar de “parceria estratégica” entre o Brasil e os EUA, ou o Brasil e a própria União Europeia.  Não podemos nos permitir agir com ingenuidade, em um mundo guiado mais pelas conveniências do que pela solidariedade.

Isso não quer dizer que o Brasil deva fechar as portas para ninguém. Se for interessante fazer um acordo comercial com a União Europeia, que o façamos. O mesmo vale para os Estados Unidos, ou acordos pontuais com a França e a Alemanha, como ocorre na ONU, agora, com a iniciativa sobre a internet.

Os russos, chineses, indianos, sul-africanos, que representam, a partir do Brics, nossa melhor alternativa de cooperação, neste novo século, nunca nos colonizaram. Suas empresas nunca monopolizaram nosso mercado. Eles nunca intervieram em nossa política interna ou nos consideraram uma espécie de quintal, como os EUA têm feito, historicamente.

Na nova ordem multilateral que se avizinha — com vários polos de poder ao invés de um — temos que agir orientados, sempre, pelos nossos interesses como nação, sabendo separar as alianças circunstanciais, de interesse mútuo, daquelas que podem efetivamente, mudar a história, e o futuro do povo brasileiro.
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sábado, 14 de diciembre de 2013

Em Copacabana

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Três da madrugada em Copacabana. Outono, eu de terno simples, camisa, gravata e paletó, no Rio são as roupas mais pesadas que uso, mesmo no inverno, onde sempre tomei banho de mar. O La Maison, antigo bar e restaurante da esquina da Santa Clara com Avenida Atlântica praticamente vazio. 

Lá dentro ninguém além dos funcionários. Na calçada apenas duas mesas ocupadas, uma com quatro caras, e eu sozinho em outra tomando um chope. Eles discutiam suas vidas, e eu fazia hora para pegar uma mineira às cinco num bar da Sá Ferreira, não fui pra lá porque não gostava do dono nem dos leões de chácara.

Copacabana é linda vazia, o frescor da madrugada pegando a gente, o som do mar, nada de ônibus passando, carro um que outro. Tirei o chapéu, botei na mesa de plástico e pedi outro chope, acendi um cigarro e fiquei também eu remoendo a minha vida, sozinho com meu coração. Estava nem feliz nem infeliz, mas com um bicho dentro reclamando de algo que eu não sabia o quê.

Na mesa dos caras as vozes se avolumaram. Prestei atenção. Três deles reclamavam do seu amigo homossexual por ligar tarde da noite, acordando as pessoas.

Aí o homem, da opção sexual diferente da dos seus amigos de infância, disse o seguinte:

- Se numa hora de horrível desespero, às cinco da manhã, eu não tiver para quem ligar, e se ligar me atenderão de má vontade, então nunca tive amigos!

Matou, por dentro fechei inteiro com o cara. Fez-se um silêncio na mesa, depois o mais velho disse me desculpa, tu tem razão. Os três encabularam pela covardia, mas reconheceram. Mudaram de assunto e seguiu o papo feliz. Amigos felizes.


Eu fiquei lá, mirando luzes amarelas do prédio lá adiante, absorto, bebendo e fumando, até a hora de encontrar a mulher, sem saber que bicho era o que me mordia.
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miércoles, 11 de diciembre de 2013

1984, eu e ela, sobrevivientes

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1984. As nossas instituições ainda precárias, com o fétido cheiro da ditadura ainda impregnado. A Arena. A puta que os pariu.

Entro no Cartório, espero na fila, minha vez: quero registrar uma menina. Pois não, cadê o papel, tá aqui, mas... esse nome não pode, é estrangeiro. Como não pode, seu, é um nome do mundo, no caso espanhol, e remete ao nascimento de Jesus. Dá não, a lei proíbe. Vai dar sim, moleque, e subi nos sapatos.

O sujeito avermelhou e se veio, e quando pensou em vir eu estava em cima dele: se não der, tu morre, bobalhão.

Eles podiam batizar os filhotes da ditadura de tudo que é nome, eu não, eu hein? A lei proibia estrangeirismos, para os pobres, os viados dos filhos deles tudo americano.

Veio o dono do Cartório, quis maneirar as coisas me sugerindo botar a letra "e" no final. Emputeci de novo, mas assim vai me descaracterizar o nome da menina!

Até ali em discussão que não dá nada, mas me toquei que ia enveredar para conversa de homem. Ali serenizei, é comigo. Eu chapéu na mão, botei na cabeça em desafio, e calmo medi as palavras ao dono: olha seu, o futuro que se avizinha, pelo nome da menina, não será bom para ninguém, vim desarmado, coisa que amanhã não farei, por isso lhe peço por favor, registre!

O homem finalmente me entendeu. Por bem a gente consegue tudo com esses patifes, basta ter calma e bom senso.

O nome não era apenas pelo meu sangue, parte dele, espanhol, nada a ver, sangue é igual em todos. É que ela me deu um susto ao nascer, temi que fosse perdê-la. Malei gritava alucinada perdi a menina, perdi a menina, fica quieta guria, não perdeu nada, não tenha medo, estou aqui, já quieta!, eu sem carro, noite alta, cidade vazia, mas a pau a levei para o hospital, atacando os carros que nunca paravam, os poucos que passavam, e surgiu um táxi milagroso, eu e Malei banhados em sangue, e viveu. Nascida Viva, o significado real.

Voltei pra casa com o papel na mão. A mulher havia sugerido Jurema ou Margarida, algo assim, não recordo. Jurema é lindo, Margarida também. Mas fui por mim, a guria é minha e eu boto o nome, pensei naqueles tempos sofridos.

Achei que a Malei iria cair para trás, reclamando, quando lhe mostrei o papel do registro, mas ela amou. Lá estava, bem grande:

NATIVIDAD

Hoje Doutora Natividad (defendeu ontem, com brilhantismo, a sua tese).

Salve, pequena, meu doce encanto, amor da minha vida.
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Susana Natividad Rinaldi

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Hoje me perguntei porque nunca casei, ou tentei casar, com Susana Natividad Rinaldi (Buenos Ayres, 25/12/1935).

Acho que pelas mesmas razões pelas quais não tentei casar com Libertad Lamarque. Ririam de mim, tu é muito piazinho. Bobinhas, um dia eu cresceria, me tornaria homem, e as amaria mais.

Passou.

Pero enlevo-me e danço com ela agora, Susana Natividad, maravilhosa assim como está. E desce um rio pelo meu rosto ao rodar na vals. 

O clássico tem o título original como "Que nadie sepa mi sufrir", música de Angel Cabral e letra de Enrique Dizeo, ambos argentinos, e é de 1936. Somente em 1957 foi gravado por Edith Piaf, após vinte anos encantando o sul do mundo.




jueves, 5 de diciembre de 2013

João da Noite, a Vaidade e o Papa Francisco no Facebook

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Pretendia publicar e comentar uma boa charge de um gaúcho, mas deixo pra lá. Famoso demais, pro meu gosto, quer que eu o “Siga”, que o "Curta” no seu facebook. Mas que vá à..., deixa assim.

Esqueçamos o cara, nada a ver, de repente é pobre alma, só pode, caindo de otário sem querer e pagando um pato maior que o substrato filosófico da "coisa", essa coisa que se mexe dentro de mim, a revolta que nunca pôde sair, ao ver, na cara..., só rindo. Estou ficando parecido com o João.

Esse e os outros estão ficando como seus ídolos, ai o Caetano, o Tom Zé (que é um velho que se acha, arrogante, é, mas injustiça o colocar junto aos demais? Não sei) , ui, Gilberto Gil, ai não sei quem (segue-se longa lista de arrogantes artistas, distantes do seu povo, embora arranquem o sustento desse mesmo povo, vampiros da ignorância), sempre foram velhos, uns ativistas de nada ou de bundas, mas todos ativistas de dinheiro, que submeteram-se às regras do sistema. Tanto artista bom o Brasil tem há cinquenta anos, e só esses pintam todo dia na parada, com o invasor junto, pela maldição plim-plim... Os demais vão para os ratinhos da vida, que nojo. Passemos a ignorá-los. A eles e à criminosa lei Rouanet, enquanto preparamos os explosivos. Para iluminar Copacabana, o céu tingido, Feliz Ano Novo, com o meu dinheiro. Para a Copa ainda os estamos montando, serão lindos.


Falemos do Papa. Digo, do João da Noite, que nos colocou essas idéias na cabeça.


Outro dia João da Noite, vá lá que de fogo, bota fogo nisso (que não creio interferiu, o João é muito pior sóbrio, psiu, nem se mete, deixa ele), escreveu no facebook do Papa Francisco (o querido Jorge Mario Bergoglio, nosso ex-vizinho). 

Meninos, meninas, através do setor de "mensagem" do Mark Putenberg, João começou mandando-o, ao Papa, para aquele lugar bem longe, a ponte que o partiu, ai que tristeza, que vergonha, mas nem eu nem a turma ousaríamos interromper ao presidente do Partido dos Boêmios (em constituição), pelo respeito que lhe dedicamos e confiança que depositamos, mostrou que as merece em muitas paradas duras, e ele seguiu com horrores, só por não haver encontrado no seu facebook, no do Papa, espaço para a amizade, mano a mano. Virou-se para nós e disse, vou ter um conversinha com esse "casteiano" de merda, tá pensando o quê? E vou falar fora de linguajar acadêmico, disso ele deve estar cheio. A turma conteve o riso, tá brincando. Mas começou, sério, a dedografar os seus amorosos recados (mensagens). Aiaiai, senti, daqui a pouco pula a interpol na gente, mas fiquei frio, confio no taco do parceiro. Que vengan.

- Buenas noches, seu Papa Francisco. Então, hein... Retiro a ponte e a partida, estava só fazendo aquecimento. É o seguinte: então é assim, é? Qual é a tua com essa de se quiser me "Seguir", me diga, é assim na carinha, que frescura é essa, tenho cara de analfa ou seminarista?, perguntou de chofre.

Silêncio do outro lado. Silêncio aqui também entre nós.

- Ora, seu Papa, ponderou João retornando à calma, eu queria era ser seu amigo, amigaço de todas as horas, gostei do seu papo de Papa, o senhor é um homem sério que está botando ordem nesse galinheiro, o mundo mudou, há cinqüenta anos o senhor já estaria envenenado pelas máfias, do Vaticano e as que o Vaticano trouxe para dentro, esses tarados sujos, ladrões, até assassinos, supus que o senhor precisava de amigos. E, note bem, camarada, se digo o que penso tenho aqui minhas razões: se alguém vive de doações, entre tu e eu, eu não sou. E me vem com essa de "Seguir"? Pra cima de mim!?

E se foi:

- "Seguir” nem mulher eu sigo, Chicão, bem, por algum tempo me faço e sigo aquela morena, ou alemoa, nega, ruiva, japa, polaca, todas, azar, mas elas transam comigo, passeiam na praça, me beijam, coisa que o senhor não faz, epa, nem quero, por favor, esquece. No calor a gente diz besteira, amigo Chicão... Snif.

Recuperou-se e emendou: - Ora, Chiquinho! Se eu começar a “Seguir” este ou aquele, pelo aparato de riqueza, que bem havida não foi, eu perco a única herança que meu pai me deixou. Sabe, única!, da qual muito me orgulho.

Aqui tontearam os nossos butiás. Só o João mesmo, chamar o Papa de Chicão! Depois de Chiquinho. Eu teria chamado de Paco, é castelhano, e bom de coração, entende tudo. Mas pretender que conheça Lupicínio Rodrigues e a vergonha que meu pai me deixou? Ah, não, João pirou.

Congelou o ambiente quando começou a surgir uma respostinha do outro lado: 

- Mientras yo tenga voz en el pecho no quiero más nada, que clamar a los santos venganza, oh, venganza, clamar...

João encheu o pé daqui, terminando a estrofe, enquanto vinha de lá em espanhol, cantando juntos: - Você há de rolar como as pedras, que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar.


Agora desabaram, caíram todos os butiás do João e os nossos. João da Noite começou a chorar e disse com a voz embargada, virando-se para nós: Eu disse que o Chicão era dos nossos!, me duvidaram!

Clóvis Baixo apressa-se em dizer: - Pergunte se ele já transou com alguma freira bonita, devem guardar para eles, pois tou com 60 anos e nunca vi uma novinha e gostosa.

João faz cara séria e responde que a vida pessoal não está em jogo. 

Clóvis insiste: - Da vida íntima dele não quero saber, não sou doido, quero saber é das gostosas, onde as escondem!, exalta-se.

Ufa, Jezebel puxa o Clóvis, o diálogo com a santa entidade é mais importante.

Bruno Contralouco entra a milhão, pela janela ouviu algo, e exclama: - Além de contar onde estão as taradinhas, que ele conte como fazem para passar o tesão, elas, à moda afeganistã? Cortam o clitóris com faca de mesa? E o pau de vocês?! Pergunte a ele, João.

Mas bah, animal desnaturado, Contralouco foi expulso, vai tomar ar lá fora de novo, marginal, e cervejas com Miquirina, este hoje de folga. O Contralouco, achando que era mentira o papo, ou melhor, a canção, com o Papa, saiu rindo feliz. João reclamou que o maluco só diz besteira, logo numa hora destas, o que faz a bebida.


E seguiu João da Noite, falando meio que sozinho, o Papito falou quase nada, João não sabia se ele ainda estava conectado. Mas João é fogo, vai sozinho: 

- Papa, quem diria, logo o senhor dando o mau exemplo... onde já se viu, agora muita gente entrou nessa de se achar. Ai, "Siga-me", se quiser, se aproveitando da criançada da favela, ai, o Bial lambe cachorra da mulher do Roberto Marinho, francamente, e isso está se espalhando, a divisão em castas! Tá me entendendo? Os coitados dos pobres da Vila Cão sem defesa seguindo merdas ambulantes ricos! Só rindo, ora vão tomar, ahn, vão pra tonga da mironga do kabuletê.

- Como, Chicão? Não conhecia essa palavra em espanhol, demorei. Ah, sí, en el culo! Isso mesmo, agora entendi, que vão tomar no rabo, esses metidos com a grana do populacho.

Não contente, prosseguiu João: 

- Chico, eu admiro e tiro o chapéu aos artistas mulheres e homens, sejam músicos, cantores, escritores, pintores, pensadores, e aos outros artistas, os da vida, pessoas de boa índole, trabalhadores, pedreiros, os ilusionistas de cabaré, todos, em último caso até padres aguento, o que vier, tenho o corpo fechado de saravás, mas gentes que tenham mensagens boas a dizer, de camaradagem saudável, gentes que se aproximam do seu povo, que não o renega jamais. 

(chora)

- Gentes que não são predadores covardes, os mentores, como esses que vemos na televisão bem felizes. Queremos seres humanos que se envergonhem de ver alguém com fome na rua, crianças. Não queremos esmolas de Mr. Microsoft e outros da mesma laia, sujos, frios, anti-gente. Nada também dessas seitas de ladrões que vieram porque a sua igreja apoiou nazismos e ditaduras, a sua Igreja que faltou a Frei Tito, aliás, vocês lá dentro sofreram ditaduras da Lei do Capeta. Como dizia Paulo Pontes (conhece? Aquele doido como o Antonio Maria): eu vou por onde as minhas pernas me levam, não sigo ninguém! E agora, a falta de coragem está virando moda, a pretexto de vaidade besta... O mal se expande... a cobiça, os jornais deles, os amigos que nos traíram, nos roubaram a ilusão, Chico!

De lá veio suave, em portunhol agora, como quem lembra Copacabana: 

- Yo acá sentado en esta piedra de playa, soy un vegetal... Si yo morisse mañana por la mañana, mi falta nadie sentiria". 

- Mas é isso que estou te dizendo, homem, me ajude, não vê! Vamos todos morrer, mas ninguém tá nem aí, pombas, olhe, Papa, precisamos de amor, coragem, humildade, esta, a humildade, está em falta, então se abra, meu, se o sujeito escrever um insulto, uma bobagem, exclua do seu facebook, pronto, sem um pio, que é a melhor resposta. Entendeu-me, né? Abra-se com as pessoas, deixe de ir pelos aspones. A vaidade, na sua posição... e vaidade de quê, de dobrar pobres almas? Não, não foi tu, são teus aspones, burros demais, eu sei. Quer saber, te recomendo um cara que eu conheço para te assessorar, o Bruno Contralouco, vai fazer chover aí, é sincero é pega no ar maldades e tudo, se com um punhal contra armas terríveis, é um jaguar.


- Si. Me gustó, Contraloco? "Medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel...". Lo quiero conmigo. Mañana por la mañana hablamos. Ahora me llaman... Hasta luego, querido Juán.

- Tiau, tchê Chicão, se manda, mas fica na tua, toma cuidado aí. Eu vou seguir aquela nega que passou me olhando com cara de eu te amo, ai que linda, parou lá fora, na ponta da calçada do bar, aquela nega tem um aperto, meu irmão, me domina, vou segui-la. Tiau. Amei levar um lero contigo, hoje aqui na palafita tá o Salito e mais uns trinta, contando as mulheres, todos te amam e torcem por ti.

- Abrazos a todos, Juanito de La Noche, ciau.

- Tiau, Paquito.

Jussara do Moscão, sentindo o fim da conversa, antes não quis interromper, voa precipitada: - Pergunta a ele se pode nos ajudar a matar os políticos e gorar a Copa da roubalheira, pergunta pra ele...

João responde: - Outro dia, agora já era, Jussara, ele saiu do face, compromissos inadiáveis, me desculpe, o homem é chefe de estado de boa parte da Terra. Mas deixe uma mensagem! 


Esse o João. Leu alto até aqui, recebeu a aprovação geral, e toda a palafita ri gostosamente da sua competência, atrevimento sincero, sem querer vantagem. E ficou com sombras na face. Lembramos-o das comidas, antes ele pediu mais um trago, mas, rosto ainda apertado, sem um sorriso, alega que precisa mesmo sair, combinou com a nega, ela deve estar passando lá no bar já pela décima vez.


Uma hora depois, João já longe, a tigrada espalhada, aqui tudo em paz, sozinho olho para o meu facebook Salito Ainda Espantado. Olho as minhas amizades. Confirmo: tenho muitas pessoas conhecidas e amadas do Brasil e do exterior, umas mais conhecidas da população, outras menos, mas todas lindas e amadas sem falsificações, especiais, copos de vida desde o mais cheio até o mais humilde que a água está vindo, e me sinto orgulhoso de cada um, porque não se afastam do seu povo, dos seus fãs, dos seus amigos, dos seus iguais. São pessoas de amor.


No fundo, acho que o presidente João da Noite saiu-se com um monte de verdades que eu, aqui..., nem pensar em incomodação, deixa assim, mas também saltei para a resteva. Eu, hein? Nunca mais.

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martes, 3 de diciembre de 2013

O direito de não o ter

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Por Janio de Freitas


O maior avanço do Brasil no pós-ditadura é nos direitos humanos. Os neoneoliberais dirão que é nas privatizações, até porque direitos humanos só lhes ocorrem para falar de China e Cuba. Tão logo terminada a era das transgressões desumanas, os direitos humanos se puseram em marcha ininterrupta, acelerada pela Constituição. Mas tudo o que se caminhou nessa direção é ainda muito, muito pouco.

O reconhecimento do racismo, a maior repressão à violência contra as mulheres, a ajuda financeira contra a miséria alimentar, os programas habitacionais e de melhoria material estão sob ataque constante, mas são fatos. Visíveis em suas formas humanas. Nem por serem assim e projetarem benefícios também sobre as classes abastadas, sem as prejudicar em nada, foram capazes de disseminar nelas uma mentalidade menos apegada às raízes das desigualdades brasileiras.

A prisão dos três petistas na Papuda revelou aos não brasilienses o padecimento extra dos familiares de presos comuns. Mesmo que chova e faça frio, são obrigados a dormir na rua como puderem, para conseguir as senhas distribuídas ao número limitado de visitantes às quartas e quintas-feiras. Nenhuma autoridade, local ou federal, deu atenção a isso, nem antes nem depois desse tratamento tornar-se notícia, reiterada para acusar privilégios dos petistas. Aos brasilienses que veem as famílias noturnas, é como se não vissem.

São direitos humanos violentados, no entanto. Repito o que foi dito aqui: são pessoas não condenadas mas submetidas a um sofrimento adicional ao de terem um filho, o marido, o pai no presídio. A explicação: "há visitantes demais". É mentira. São dias de menos para visitas e horários de menos para fazê-las. Se há condições para visita na quarta, pode haver nos demais dias. É só um probleminha de direitos humanos, no entanto, sentido por uns poucos milhares de pessoas.

Entre alguns milhares e vários milhões, porém, não há diferença. As perdas causadas aos detentores de cadernetas de poupança por quatro planos econômicos vêm desde o governo Sarney, e o processo sobre sua devolução se arrasta ao ritmo próprio do que chamamos de nossa Justiça. Coisa de 150 economistas e ex-ministros, diz o noticiário, assinaram um manifesto ao Supremo Tribunal Federal advertindo para os terríveis efeitos que o sistema financeiro, leia-se os bancos, sofreriam com uma sentença favorável à restituição do usurpado aos poupadores --R$ 150 bilhões.

Se tal é o valor que não deve ser restituído, os próprios defensores do calote reconhecem que foram tomados da chamada poupança popular, as velhas e suadas "economias", R$ 150 bilhões que ficaram com os bancos.

O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, que tem cumprido sua utilidade com muita competência, informa que das 1.030 ações de restituição só 15 sobrevivem a uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, há dois anos, sobre prazos para as reclamações. Com isso, uma sentença favorável à restituição só totalizaria R$ 8,650 bilhões.

Entre os autores, colaboradores e apoiadores daqueles planos desastrados e, de outra parte, o Idec, este me parece preferível por três razões: está sempre muito mais certo no que faz do que estão aqueles economistas no que se presumem capazes de fazer; há concordâncias importantes com o Idec na OAB; e o Idec não tem ações de bancos, logo, não está defendendo o seu cofre sob argumento aparentemente desinteressado.

A informação do Idec leva à conclusão de que os participantes do manifesto, ou cometem a leviandade de tomar uma posição pública sem saber o que de fato está em questão, ou têm as informações necessárias e valem-se de uma quantia impressionante para evitar que os bancos restituam à poupança popular um valor insignificante para o sistema bancário mais lucrativo do mundo.

Não se trata, porém, de uma questão meramente financeira. É de direitos sociais, de direitos econômicos pelo desrespeito à lei e ao contrato das cadernetas com os depositantes, e, portanto, de direitos humanos pelos males infligidos à vida de milhões de pessoas.

Na quarta-feira, o Supremo adiou o julgamento para 2014. Com pressa, como não se cansaram de reiterar os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, devia ser concluído só o processo do mensalão.

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NE: A charge do Rico não consta no original.

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domingo, 1 de diciembre de 2013

Ingratidão

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Na minha família era assim: minha mãe, irmãs, depois esposa e filhas, assistiam filmes americanos, de guerra ou sentimentais. Comédias, de tão rasteiros. O personagem principal, em guerra ou apaixonado, bebia garrafas de uísque e saía, gritava de tristeza e solidão, errante, entrava em inferninhos, brigava a socos, matava até - algum mexicano malvado o provocava, o roteiro sempre igual, “sem querer”, porque estava triste, ele tinha um retrato da namorada no bolso. 

Negros, nos filmes deles, quando aparecia, eu já sabia: ia morrer. O personagem, de mil caras, era um herói, havia matado famílias coreanas, no derrubar a porta de tramela e lá vai granada, o máximo. Isso antes de correrem feito galinhas, Saigon em fogo, este último filme elas não viram, vieram outros esmigalhar suas cabecinhas. Mesmo sendo humanos, nos filmes que elas amavam só tinha galo. Nunca viram um galo, barbelas e penacho, mas achavam que sim.

Elas choravam de compaixão pelo sofrimento do herói, compreensivas, lindo o ator. Outras pessoas lindas se drogavam pesado, um fiasco atrás do outro, segundo as suas concepções, delas, suicídio à vista, e se suicidavam em cocaína, em esperma doente, sangue contaminado, isso a mim também doía, mas tudo era compreensível e desculpável, os sentimentos da pessoa a levaram àquilo, que pena, e corriam a comprar seus discos, quando cantores, artista morto é lindo. Fotos na parede, quando atrizes e atores. No meu aniversário, nem um abraço.

Maravilhoso era o agenciador de meninas para modelos. Querido era o dentista. Os estupradores donos de creches. Os médicos. Em todos meti uma arma engatilhada no rosto, se não elas estariam perdidas. Uns lixos humanos. O estuprador faleceu sem tocá-las.

Amavam Clinton, Xuxa, Maicon Jékson, Roberto Carlos, Menudos e Caetano Veloso. Médici, Collor e Marília Pera. Amavam todos, uma lista sem fim. A novela da Globo, os atores, as atrizes. O contrarregra, a bunda do Roberto Marinho da ditadura. Nem sonham que mijei no túmulo de alguns, madrugada alta, enquanto os guardas tomavam uísque.

E eu, retrato de alma, desarmado por opção, só lendo uns livrinhos, sem alarde, quase escondido. Eu que buscava lenha no inverno congelado, subindo aquele morro íngreme sem fim açoitado por ventania cortante, resvalando sob chuva, dois passos para a frente e um para trás, costas lanhadas em sangue pelos paus verdes no saco às costas. Eu que depois iria me limpar sozinho, enquanto elas se aqueciam ao fogo, esquecidas de mim, eu que mais tarde ouviria as reclamações da mãe, sobre meu pobre pai.

Eu que saí correndo do trabalho, só Deus sabe como consegui chegar a tempo, da Mauá ao Menino Deus, e levei minha menina ensopando minha roupa e minha alma e o táxi em sangue, dela mas meu, era meu, meu, meu, eu que na corrida de volta peguei uma gravata para mentir, e menti no Pronto Socorro que era fazendeiro rico, para que a operassem não importa o preço, eu ira matá-los se não, ah, iria sim, a equipe de filhos da puta era particular, só pagando na frente, emiti o cheque sem fundos. Eu que fui tão sincero depois ao falar com os canalhas: se ela morrer, vocês morrem todos, família junto, seus ladrões. 

Eu que era ainda um menino. Eu que paguei com vinte férias e vinte 13ºs adiantados aquele preço. Eu que matei um deles, para me defender, o anestesista, desbocado, sujo, que só pensava em dinheiro, violento, mil processos nas costas, eu que o Presídio Central tirou da cena de morte, ele lá, arma de fogo ainda na mão e com a jugular arrebentada pelo meu punhal, porque eu era amigo das horas ruins, de visitar presídios e asilos e tudo de ruim. As noites que fiquei acordado pensando naquilo depois, sofrendo em silêncio, enquanto elas me miravam daquele jeito...

Alguém tocou numa delas? Lá ia eu, sem aviso, noite fechada, conversar com o valente a quem no mês anterior juravam príncipe querido. No Rio Grande do Sul nunca foi difícil. Quando São Paulo ou Rio de Janeiro, tinha de ser de avião. A arma ia de caminhão, um dia antes. Era tocar a campainha, engatilhar e perguntar, com calma, seguro: me conta, seu, que conversa é essa de ameaçar minha irmã, ou minha filha? Os caras ficavam pior que o Maicon Jékson pálido em caixão de ouro de tolo. Salvo duas vezes em trinta nunca precisei atirar, os valentes se modificavam, desculpe, seu, pelo amor de Deus. Aos dois eu até respeitaria, não fossem drogados que reagiram, mandei-os para o inferno. Aos outros, sobreviventes, me dá nojo de lembrá-los ajoelhados, sem coragem de sequer erguer a cabeça e ver meu chapéu a meio-nariz, e mirar meus olhos de nojo de covardes como eles.

Eu errei em algumas, como ao sair de um apartamento desses e no susto, alguém parecia voar em mim, atirar. Era só um maluco que queria me cumprimentar por justiçar os aliciadores de modelos. Errei mas consertei: me atrasei para a fuga, o furgão lá embaixo já acelerado, e o levei para um hospital. Salvamo-nos todos.

Mas não sou santo, e declaro, ante o juízo Maior, que senti prazer num pecado. Pequei, mijando. É quase como um orgasmo, e o quase tem vantagem porque é perene na alma: fazer uma coisa boa sozinho. Nunca intimidar ou machucar as pessoas, o que é isso, Deus nos livre. Mas fazer uma coisa boa sozinho, e nunca contar para ninguém. O contentamento é maior se a gente nunca conta, é único, arde o peito de paixão. Nunca contar. A solas. 


Eu lá, pulando o muro do cemitério, quatro da matina, e enquanto os guardas eram entretidos com uma garrafa, paguei uma alemoa putianga, ela nunca soube o porquê, para se fazer de viúva chorosa que passava de madrugada, roupa preta mostrando tudo, para dar a garrafa de J&B para os guris milicos da guarda, e enquanto bebiam, ela mentiu que voltaria, eu com a maior calma mijei no túmulo do general torturador, bota mijada nisso, antes me preparei, tomei seis cervejas de 600, saí de lá pensando a cerveja deve ter molhado a caveira do bandido.

Essa foi a única maldade - será que foi maldade? - que fiz, e nunca contei a elas nem a ninguém. 

Eu, o filho, irmão e pai, que tudo dava, a todos socorria, que nem maconha experimentei, que para matar um semelhante só se em defesa delas, eu... ao menor desejo, se fosse ao bar da esquina beber com simples meio-amigos, conversar, ou namorar, aquela moreninha me olha..., acender as luzes de casa, aquele escuro era assustador, tentar viver... ah, não, eu era um criminoso, onde já se viu, seus olhares de desprezo me imobilizavam. Eu que não tive infância, recebia olhares severos se tentasse dançar sozinho em casa, a rumba comendo no apartamento de baixo. Se eu errasse, cometesse mesmo um errinho de nada, esquecer de tirar o lixo, de lutar pela comida, o que fariam comigo?

Soube depois. Queriam que eu morresse. Por quê?  O que fiz de tão ruim, se dei a vida por elas? Algo de ruim devo ter feito.

Por eu ler livrinhos de gregos enquanto elas amavam os datenas da época, ou desfiles de moda? Nunca impedi nem critiquei, eu só queria sair para não ver o escuro e suas predileções. E saí. 

Será que o ódio foi por isso, por eu ter-me distanciado, em sonhos de querer ser um rapaz culto, um pouco, ao menos? Não pode, isso não. Mas recordo que riram muito, zombeteiramente, quanto falei de Kant, eu tentando decifrar. 

Pior foi a mãe, quando dei um tempo nos antigos, saí da Filosofia, da Antropologia, da Geografia, Matemática, História, para mim é tudo a mesma coisa, conexão natural, e entrei no Direito... para mim foi como se estivesse lendo os anteriores, mesma coisa, terminei de ler um livrinho pequerrucho e fui tomado de emoção, corri para a sala e declarei o final: 

"Ocorrendo, destarte, empate na decisão, foi a sentença condenatória do Tribunal de primeira instância confirmada. E determinou-se que a execução da sentença tivesse lugar às 6 horas da manhã da sexta-feira, dia 2 de abril do ano 4.300, ocasião em que o verdugo público procederia com toda a diligência até que os acusados morressem na forca". ¹

Eu chorando, fosse hoje, quando passamos do carbono 14, o autor teria colocado 6 de abril, dia em que mataram o comunitário Jesus Cristo. O ar de desprezo, enquanto pegavam bolsas para sair, me imobilizou, fiquei lá na sala, livro na mão, tremendo por dentro, murmurando “os exploradores de cavernas”.

Aí buscaram moleques fora. Aguentei berros pela suspeita infundada de extraviar um gato, berros ao pai, eu, atrás o olhar mortiço do cúmplice, que odiava a si mesmo desviando ao seu semelhante, esse não importa, mais um, ela sim, dentro de minha casa, um elemento com quem nunca conversei, quereria me espancar? 

Era crime levantar a voz ao pai, mas aquilo foi pior, traição vil aos berros, com terceiros sem mundo assistindo. A vida cobra caro. O sujeito pegou gosto, gritou, todo macho, gritou comigo, devo ter feito equivalente a ter matado alguém, mas não recordo, nada fiz, para receber algo assim tão grave nem para receber nada de ruim, o que fiz foi viver para elas, ao preço de desperdiçar a minha vida.

Onze da noite e a sábia, só rindo, cantante sob chuva implacável, vento gemendo, numa noite de breu de uma segunda-feira, inverno, solita, cigarro na boca, erguendo a gola do casaco e apertando o passo, uma luzinha cá e outra lá adiante, ela soçobrando à ventania, dançando com um par desconhecido ao se deslocar decidida do Mercado Público para o Chalé da Praça XV, lá fica aberto até mais tarde, tem bebida, se alguém pedir eu canto, depois pedirei desculpas por ter chorado.

Os caras fazem boleros com nome de Insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado, fez chorar de dor, o seu amor, um amor tão delicado..., cantado em espanhol é mais bonito, e o homem lá do fundo, 38 anos, 45 ou 60, solito no escuro do bar, coração em pedaços, pensa e morre em ingratidão e não sabe lidar com isso, uma surpresa horrível, a ingratidão, quando não espancamento moral e físico, o Super Homem se transformou no Pinguim, o Sargento Garcia prende o Tarzan, na sua cabecinha da tevê alienígena. Onde errei?

Filha é complicado. Calma, meu irmão, tudo passa, deixa chover, chuva lava esperma, rostos, tapas, silêncios, berços, fotos, velas de aniversário, sorrisos, sacrifícios, gestos, gritos, gatos, mentiras, fraquezas, lava febre em noite alta, lava a boneca que compraste deixando de pagar o condomínio em segredo só teu, lava tua arma com que a defendeste indo ao ataque, lava sangue, ossos, chuva tira o horror da flor da terra. Chuva lava lágrimas doídas, derramadas sentado na cama no escuro, sufoca os teus gritos de pranto, lava o sal que ardeu na alma, lava noites sem dormir. No fim a enxurrada de lágrimas leva tudo para o fundo, adubo.

Enquanto estamos aqui, sorríamos, de nada adianta fazer diferente. Olhe o céu, vai chover amanhã. Depois da chuva que tudo leva, um dia ela aparecerá, numa manhã radiosa: "Oi, pai, desculpe, vim porque tava com saudade do senhor. O senhor tinha razão, me perdoe”. Até lá já morri! Haja chuva, nunca virá! Eu errei, em viver só para ela, esqueci da minha vida! E agora isto... me forçando a pegar em armas.

Assim me torturei por doze anos.

Elas eu deixei, o outro não. Vou sumir, um dia volto para cobrar o pobre homem, sozinho em rua escura. Estou velho, com sequelas no fígado, câncer recidivo, talvez este agora me vença, sem dinheiro para um exame de sangue, dias contados, uso óculos, mas aí é que ela me horripila, a burrice, a maldade inconsequente, bruta, a falta de livros, a infeliz por quem capei os melhores dias da minha vida. 

Repugna-me o sangue, o meu, que empurrei para dentro daquele corpo. E ao fim e ao cabo, de quem será a culpa? Quem assumirá? 

Eu. Ninguém mais.

Nas ruins eu vou na frente. É de lei.

Foi num desses dias que desapareci. Dormiram e me esgueirei, ganhei a rua e saí correndo espavorido. Já longe, muito longe, no caminho escuro dos trilhos que circundam a mata, parei, abri a carteira, febril, alucinado caí de joelhos na linha, pensei em ficar ali, ajoelhado, esperando o trem passar por cima de mim, mas o que fiz foi rasgar aos gritos doloridos de solidão expulsa as fotos delas, com ódio da horrível ingratidão. Foi a mais velha, foi a pequena, duas de cada, a da mãe. Depois rasguei os documentos, a carteira vazia joguei longe, dinheiro não tinha, eu estava doente e sem dinheiro. 

Como clandestino peguei um trem que passou, depois outro, e outro, e morri para elas. Porém a roda do mundo não roda como a gente quer, tranca quando queremos que ande, destranca quando já estamos quase conformados à paralisia. Milagres acontecem, e aconteceu o terceiro milagre da minha vida: sobrevivi. 

Tornei-me Marion José, mudando pouco a grafia do meu nome, ainda sem saber do Quincas Berro D'Água, nenhuma surpresa tive quando conheci os parentes do personagem, só chorei muito num quarto de pensão. 

Limpei-as, dei comida, beijei-as na dor, acalmei-as em seus desesperos, curei seus males, e elas seguem lá, querendo me matar, matar ao único ser honesto que conheceram. O filho, o irmão e o pai. 

Não vou voltar, morreram todas, exceto as parricidas. Para voltar seria só por um motivo: matar a um moço que levantou a voz comigo. Mas para quê? Para tornar-me, enfim, um criminoso? Sufoco a revolta, tomara que chova, a noite está linda, preciso de água do céu, minhas plantinhas gostam, eu também. Vou rejuvenescer. Nada tenho a cobrar, se me devem. Nada me devem, quito a conta. 

Pensam que estou morto, talvez lancem imprecações aos céus, na falta de uma lápide onde cuspir, me acusando de... não sei. Lamento não poder ajudá-las amanhã ou depois, já estarei em outra.

É noite e a chuva desce forte aqui em Rocha, sem vento, chuva reta, potes, cântaros, derramada, uma delícia, a canção da natureza que mais amo, os pingos me pegam nas pernas no avarandado, deve estar batendo água também em Montevideo. Penso em Ariana Comesaña, que nunca vi. 

Tiro a camisa, medo que acabe logo o concerto de pingos dessa orquestra de amor, e deito no gramado da frente da minha casinha, ao deitar já ensopado, ah, água do céu. O rádio diz que na Argentina é demais a inundação. Alguns pobres morrerão em La Plata.

O apresentador uruguaio se preocupou com a Argentina. Soledad Pastorutti começa a cantar, com Horacio Guarany, Nada tengo de ti. A chuva aumenta.

Que Deus me perdoe pela ausência. Que Deus me perdoe pelo que não sei.

Olhando o céu, a chuva quase me cegando, olhos bem abertos vejo o corisco. Temo por elas, tremo de medo. Que o raio caia em mim, agora, mire em mim, meu Deus! Cobre de mim o que me fizeram, liberte-as.

Temo que elas um dia se matem, ao colher.



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