sábado, 10 de enero de 2015

Enfermeira

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Tem um local em Porto Alegre, uma ruela, chamado Beco das Enfermeiras, no bairro Partenon, já na Cascata. Um dia hei de morar lá, abaixo de batida de abacate para poder dar conta.


Eu era doador de sangue. Regular, quando a coisa ficava ruim no Hospital me ligavam no meio da noite, era precisão, e lá ia eu, que tinha doado no mês anterior. A recomendação deles era pra doar de três em três meses, tiravam um litro da gente. E doava a outros hospitais, a pedido, exagerando, dando mais do que deveria.

Cansei de chegar de viagem e ir direto pro hospital, sem passar em casa, sem ver as crianças, para doar. Tirava o paletó, a gravata, desculpe, dona, vou ficar sem camisa também, cuidem minha pasta, tem documentos, e deitava: tirem.

Na sala de espera, antes da chupação de sangue, só via milicos em roda. Claro, os malandros iam doar porque ganhariam três dias de férias, e comentavam faceiros, e outros da mesma laia, todos para levar vantagem. Eu quieto, puxavam assunto, eu não dava. Eu era o único que ia no amor.

Um dia o tal nosocômio (eta nomezinho) importou uma máquina da Alemanha, coisa inédita por aqui, que separava as plaquetas sanguíneas, cruciais para salvar a vida de muitos, separando dos glóbulos, tão necessárias, que por falta delas tantas mortes ocorriam.

Com tanto filho da puta que ia doar por interesse, buscar algo em troca, adivinhem quem recebeu ofício do Hospital: "O senhor foi escolhido, pelos seus méritos, para ter a honra de inaugurar a máquina nova, será inscrito como herói, como há muito vem sendo, sua foto sairá nos jornais este e aquele, o este o da judéia, entrevistas, solenidades... etc. E seguiu-se o lero, me adoçando.

De cara senti o drama, ora, não põe no meu. Quanto mais tu dá, mais querem, parecem mulher. (Estas duas últimas palavras hão de me custar muito caro, em tempos em que a Constituição é lida pela metade, o todos são iguais perante a lei só vale pra mulher, mas boto a cara pra apanhar)

Pra tirar as tais plaquetas ou o caralho que o valha o processo era o seguinte: tu deita e eles te tiram todo o sangue, sai por um lado, passa pela máquina, e entra de volta por outro braço. Se faltar luz no meio da transfusão já viu, adeus Salito. Imaginei-me eu lá deitado com os dois canos espetados pelas enormes agulhas. Na passagem pela máquina ela capturaria as plaquetas. Tudo bem, sou solidário, vou mesmo, não quero nem saber.

Mas sou o Sala, tinha crianças pra criar. Fui lá cinco dias antes, sem responder o ofício do senhor diretor que mandou a carta e que nunca doou, se doou foi outra coisa num cabaré de viado da rua Jerônimo de Ornellas, e levei um papo com as velhas enfermeiras, elas amigas que enjoaram de me tirar sangue, já me amavam. Elas que me indicaram para a honraria de me fuder com a máquina, sem saber direito o que seria aquilo.

Quando entrei elas se acenderam, apreensivas, que bom que tu veio, a gente ia te procurar em casa, moço. Não faça isso, não venha, ontem eles lavaram a máquina, mal, deve ter detergente dentro.

Não fui, sequer respondi ao senhor diretor do hospital. Não saiu no jornal nadinha mais sobre a inauguração da máquina. Se alguém morreu - milico não era - não fui eu.

Essa foi a segunda vez que mulheres simples, vestidas de branco, as mais finórias de azul, ganhando mal, salvaram a minha vida. Salvariam novamente anos depois, nesta foi filme de terror, conto outro dia (tinha uma enferrmeira tarada sexual, ui, amei, até o dia em que queria me enfiar uns trecos de borracha, aí saltei pra resteva). Amadas, que tanto me ajudaram.

Por isso que digo que amo enfermeiras. Só eu sei.
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