jueves, 13 de marzo de 2014

Na meia-luz do tempo

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Para Lenzi e Donato, onde estiverem. Para Regina Clara, que não esqueço.

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Rodou e despencou de súbito. Mal compreendeu o giro e o mergulho, a mudança instantânea, e estava no quarto azul. O insólito do acontecimento não o perturbou, nada mais sentiu que um leve sobressalto. O passe foi tranquilo, imediatamente a sensação de perda que desde a infância inquietava o seu interior desapareceu. 

Conhecia muito bem o quarto azul, remontava à época dos primeiros sonhos incompreensíveis, vagos. Os sonhos continuaram, enigma cada vez maior, mas o local e os objetos adquiriram assustadora nitidez. Conhecia a sua intimidade, todos os seus segredos, desvelados um a um nas noites em que se quedava aprisionado pelas lembranças do impossível, do inocorrido, do que não pode ser. Agora estava ali. Permaneceu alguns momentos imóvel e logo desistiu de compreender, precisava esperar. Descontraiu os músculos do rosto, as mãos crispadas relaxaram. Mirou cauteloso as pequenas lâmpadas acesas no alto de cada canto da peça, sabia que eram pintadas de azul. Escorreu o olhar sobre a ampla penteadeira, reconhecendo esmaltes, escovas, cosméticos, perfumes e adereços, intocados, novos. Desceu o olhar para o tapete e parou, intuitivamente teve a certeza de que a seguir veria a cama circular.

Entre relutante e ansioso subiu os olhos, e lá estava, no meio do espaço azulado da penumbra do ambiente, envolta pela suave floresta de edredom. O contraste do verde-água, da penumbra e do anil mostraram os reflexos luminosos do leito. Um estremecimento. Andou alguns passos atraído pela visão cerebral da cama desarrumada, ao chegar perto deu-se conta de que estava alinhadíssima, correta em cada nuance. Olhou para o lado e o grande espelho do roupeiro declarou outra forma que esperava sem saber: um homem com o seu rosto vestido com terno claro, camisa branca, gravata xadrez de azul e marrom, bigode bem aparado e cabelos lustrosos penteados para trás. Então a primeira descoberta, o nome que irrompeu em seus pensamentos como um tiro: Malena! Junto ao nome, vieram-lhe a memória um aflito par de olhos castanhos e a cicatriz no seio. 

Um vontade irrestível arrastou-o para a pequena sala, saiu do quarto disposto a ligar a vitrola. Afastou as almofadas e na semi-obscuridade acionou o antigo instrumento, rodando o disco que jazia à espera. Em baixo volume ouviu o tango antigo romper o silêncio. Sentou-no divã e acendeu um cigarro negro, ficando a fumar e esperar. Na estante, o conjunto em porcelana: o jarro em forma de lua, a menina com a cesta de flores e o gato de expressão misteriosa. Acendeu a luz do abajur, desejou admirar o ar de cumplicidade e sentir o fascínio irradiado pelo gato de porcelana. Na parece, a máscara de carnaval, com o esgar de ironia desenhado nos lábios. Um porta-retratos vazio na mesinha. Sem aviso veio a pergunta: "Por que Malena está demorando?".

Imerso em divagações ouviu o telefone tocar. Não se mexeu. Chamou três vezes e parou. Aspirou com volúpia a tragada do cigarro, o telefone voltou a chamar mais três vezes e calou-se. Colocou o cigarro no cinzeiro. Tocou novamente, e na terceira chamada a senha completou-se, hora de atender. A amada voz: "Alô, meu amor, que bom que você está aí, eu sabia, não se vá, não demoro, não se vá, beba alguma coisa, não se vá, não se vá...". Nervoso abriu uma garrafa de vinho e outra de soda, misturou no copo e retornou ao quarto, deixando na vitrola o lamento de outro tango longínquo. Excitado estendeu-se na cama. As imagens começaram a surgir, logo a atropelar-se, um álbum de fotografias folheado em alta velocidade, todo o seu corpo sacudiu-se em frêmitos: o corpo de Malena dentro de um vestido negro, com os olhos vermelhos e o rosto lavado em lágrimas. 

Depois rindo e convidando com os braços, jogada na cama com os cabelos espalhados no travesseiro. No bar de uma rua incógnita, os amantes impossíveis levantando um mudo e fervoroso brinde ao incerto amanhã. Na segunda-feira, o discreto olhar à distância, protegida pela sombrinha, promessa e pedido de calma. Em outra segunda de tristeza inutilmente tentando divisar o vulto querido na avenida mais larga do planeta, povoada de gentes que vão e vêm. Cada um dos secretos e arriscados encontros.  A nudez, o amor febril na cama, nas almofadas, no tapete, no divã, amor repetido à exaustão. O abraço louco à porta, a dor de Malena em ir-se embora, a dor por deixá-la ir-se. O grito de "falso amigo!" e o calor do projétil perfurando-lhe as costas. Malena levando flores. Malena recusando-se a viver. Malena cortando os pulsos ajoelhada sobre um túmulo. A inconformidade, o fato negativo não aceito, o protesto pelos recantos do universo.

Ao ouvir o ruído do elevador parando no segundo piso saltou da cama, correu e sem raciocinar abriu violentamente a porta, no momento em que Malena jogou-se como se pretendesse atravessá-la, caindo em seus braços com o grito de "Tanguero, também voltaste!". Agarrados, bebendo um do outro o sal das lágrimas, internaram-se no apartamento. No caminho de confidências, da retomada de predestinação, ela sussurrou com voz entrecortada: "De que lugar e tempo vieste, Tanguerito?". "De Lisboa, 1988, meu amor, e tu?". "Desfaleci em Calcutá, em 1987". 

Dias depois, vestiram-se cuidadosamente para passear no entardecer portenho. Buenos Aires é linda quando as luzes começam a acender-se. É sábado, já não temem vingança, não se importam com o julgamento alheio. Ao saírem do prédio 348 da avenida Corrientes o fizeram de mãos dadas, abertos em sorrisos. E caminharam em direção à noite, como se ninguém os visse.


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