martes, 19 de noviembre de 2013

Chegando na Nega Lú

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Depois de algumas horas muito agradáveis no Chalé da Praça XV, entro no prédio onde mora uma das minhas mulheres. No corredor encontro o vizinho que pratica tiro, com cada espingardão, meninos... mas ele é doce, calmão, gente fina. Ele e sua senhora. Buenas noches, compañero, señora, digo baixando a cabeça e tocando de leve com as pontas dos dedos no chapéu. Buenas, tchê amigo, bom te ver feliz, ele responde. Já dentro de casa vejo bilhete para o caso de chegares antes de mim. A Luciana saiu, foi no seu Juraci, seu pai, mas não demora, deixou um número que já tenho.

Guardo no frizer os dois quilos de anjo que trouxe do Mercado Público, amanhã tapo de pimenta e pimentão e tomate e cebola e coentro e alecrim e salsa, humm... vinho branco, seco da silva, no baratil da esquina tem de garrafão, marca diabo mas trilegal. Como é muito, para mim e minha tianga, talvez leve metade para aquele vizinho e a sua mulher, de parar na porta sem entrar, eu trouxe uma panelinha pra ti e tua família, compañero, carreguei na pimenta mas está muito tri, é só fazer um arroz branco e fecha todas, se não tiver vinho te trago em seguida. Gente fina, o vizinho.

Meu Deus, a cada vez que entro no Mercado Público uma música me assombra, parece que os vejo, Alcides e Lupicínio, e o placo-placo dos tamancos da morena que passa. Será que a minha avó sabia da profundidade da frase Pergunte aos meus tamancos? Sabia sim, pena não tê-la conhecido. Mas andei por lá, bebi, brinquei com a turma da peixaria, já entrei dizendo que todo gremista é puto, só tem gremista ali, com duas exceções. Uma festa, depois abraços em todos, eu amo aquela turma, e eles piram já ao me ver de longe, ficam preparando algo. Os velhos da peixaria, antigos como só, me gostam porque morei alguns anos com as netas deles, cinco, uma de cada vez, bem, mais ou menos. Quando me abraçam dizem que ela até hoje chora, pobrezinha, ora se meter logo contigo, maninho guri, palavras que saiem doídas, logo me esmagam em abraço, quase choram. O maninho guri sou eu, com 1,85m e 86 Kg. Soube que o Juraci, o velhinho da banca do canto, não anda bem, faltou de novo. Amanhã o visitarei em casa, no Arquipélago, soube que pretende se mudar mas creio que ainda está na Ilha da Pintada.


Chego em casa alegrão pelos chopes e de veia boa por ter convivido com tantos amigos queridos no Mercado Público, mais tarde no Chalé, alguns vieram de muito longe para bebermos juntos, aos meus 45 anos iniciados ao bater da meia-noite anterior, e cometo a besteira. Como dizia o eterno poeta dos gaúchos, seu Jaime Caetano Braun: "Fui chegando, de curioso, Que o vício é que nem sarnoso, nunca pára, nem se ajeita."

Não tinha nada que mexer no que estava quieto. E baile de gente direita eu sabia que não era, guardando o de pronto para depois.

Após dez anos desde a última vez, ligo a televisão, para tirar a temperatura. Ouvi plim-plim e de pronto me surgiu um elemento repugnante, o noticiarista ou sei lá como chamam a esses caras atuamente, pau-mandado, com uma cara de... mal comida e mal lavada, dessa fruta eu gosto, ui, e Lú é limpinha. Parece turco, mas é nazi, na segunda frase que pronunciou deu para perceber que Herr Goebbels fez história. Fui ao banheiro.

Eu que não brinco nem facilito, de lá ouvi fragmentos de propagandas risíveis, riria não fosse o amargor que invadiu meu coração, dignas de um Olivetto, espero que o valentão não queira me dar um kung-fu, aqui é mais embaixo, mucho más, ui-ui amado. Bundão. Essa gente não entende. Não acreditei nos ouvidos quando anunciaram José Soares para logo mais, com aquele programinha copiado dos americanos, para a classe média de R$ 191 por mês, aqui cresceu um bicho dentro de mim. Achei que tinha morrido o infeliz, mas não, novamente vai-se vangloriar diante dos bugres por ter nascido em berço de ouro, falar muitas línguas, dar palestras para corruptos, exibir-se deslealmente por falta de honestidade intelectual, embora não tenha aprendido a bater as suas banhas no bongô. E fazer propaganda obrigatória dos empregados do seu patrão. O bicho queria sair pela minha garganta, já era maior do que eu. Não fica nem vermelho, esse gordo pau murcho, e por associação simples de idéias o pensamento virou para o cantor perneta e otários não biografados da vida, aos terroristas da Folha, aos... a perna não é nada, acontece a qualquer um, o diabo são os neurônios de ganãncia, ora vão à..., não, não vou me irritar.

Retorno e assisto o esgoto que se derrama da tela colorida. Não vou perder a calma, eu, hein? Sou calmo, malandro, e sei me controlar, perdi a conta de matagais de mulheres onde entrei, festejei, beijei, mamei e me acabei dançando em tempestuosos mares de todas as cores. Fecho os olhos, vem o rio vermelho da memória, desce sangue na cor, é quente, recordo dos punhais que tive de pegar temeroso, os bichos humanos iriam me matar, e os enterrei em carótidas e corações para me salvar.

Fiz-me famoso por isso, o controle emocional é muito importante. Importante porra nenhuma, bicho sem nervos acaba aporrinhando botecos, maltratando fumantes e não fumantes, corrigindo a linguagem, ahn..., o senhor não passa, Mr. Ronaldão, de um velho putão, pá, prisão na hora, atentado à dignidade humana. Se falar em travecão, pior ainda. Nada, tem que dizer amantes de bi terceira ordem, com amor de dedicação, apesar daquele bundão branco com os pelões pretos arrepiados de emoção na hora de levar por trás, fedido lá pelado levando vara e uns tapas para arder, apanha, cadela, para ir à escola, para desaprender de roubar, depois vai beber o leite.

Besteira, ora controle emocional. Só acerto quando faço “bobagem”, foram as bobajadas que me engrandeceram. Só não sou “O Cara”, ah, não, nem mandei fazer filminhos vulgares sobre a minha vida..., sobre a minha vida, epa, um filminho seria muito pouco e faltariam baldes para as lágrimas, lágrimas diferentes das provocadas em coitados pelo mau gosto do “cineasta” comprado com o nosso. Não mesmo, meninos. Na guerra que se trava, surda, é preciso ter vergonha, e peito, pois eles vêm com PhDs comprados, rio ao pensar nisso. São uns bostas mesmo, guris. Mas estupram as tuas filhas, ó operário, terminam o serviço começado pelo galinheiro da globo, Ó damas do oráculo, comi umas cem daquelas, tudo fútil, larga e aguada, como dizia o castelhano Orguim para expressar que, se dependesse da vontade das senhoritas, melhor seria cultuar Onan, aí desisti e amarrei uma morena do Caminho do Meio, aqui, outra no Rio Comprido, e ainda outra no bairro Argélia, este que um dia derrubará aquele prédio da Av. Paulista, quando todos os avisos forem olvidados e o ferro e o sangue entrarem quentes. E uma catarina, é verdade, ali no Centro quem desce do teatro Álvaro de Carvalho, para quem voltarei um dia, para ela, não ao teatro, neste iremos juntos sempre, a dez pilas, promoção amada de pessoas de amor de Floripa, das atrizes, atores e diretores e cenógrafos e todo mundo, depois muitos chopes na descida, ah, que vida boa.

Embolei-me, muitas moças, demais para a minha bolinha, puro trauma por não ter tido namorada na infância, elas não amavam pobres de dinheiros, e meus ferinos olhos não me ajudaram, não viram.

Ai, meu Deus, estou me passando, cadê a minha paciência, falando assim afasto os crentes deles... Calmo agora. Olhar de águia, sério, ram, sem mover um músculo do rosto. Assovio, fiu.

Que diabos que Luciana não chega, é meia-noite e trinta e o lixo segue falando.

A voz chata lá do fundo cresce, à medida que decido ouvi-la. É o cara de turco.

Na terceira distorção dos fatos o bicho me dribla, foge e esfrega-se nos meus olhos, na cabeça, rabo ainda no meu estômago, corpo agitando-se na goela, fico cego de raiva. Saio do apartamento e toco a campainha daquele vizinho. Boa noite, e sem tirar meus olhos verdes dos seus azuis explico a grave situação, a urgência. Ele não hesita e me empresta aquela grandona de cano duplo. Gente fina, esse meu vizinho. Da Luciana, mas meu também.

Voltamos, eu e o bicho que agora se remexe com mais violência dentro de mim, aperta meus olhos, dói, arde, lacrimejo, vejo por umas frestinhas, e miro bem no meio, bem no meio não, dou um desconto pelo soco da arma, evito o golpe de freio que dá na boca de bobos que pensam que sabem tudo, é mais embaixo, para acertar no peito miro nos bagos, aperto os dois gatilhos e ela se desfaz em pedaços de mentiras, a cadela velha com seus cadelinhos, deve ter sobrado para aquele gordo lá no camarim, uma tormenta de raiva despenca sobre os estúdios da vênus platinada. Minh’alma se eleva, caio de joelhos na sala.

Ufa, agora nunca mais, madame, deu para ti. Torno a respirar fundo. O bicho sossega. Pego o champanhe que guardei para quando morresse Mr. Vinte por Cento da ditadura. Amanhã compro outro em reposição, pois meu nobre gesto não pode passar em branco, requer comemoração. Berro no apartamento, um urro: Te matei, bandida! Ouço vozes no corredor, o vizinho acalma as pessoas, não, não foi na Luciana, esse homem jamais faria isso, deixa quieto, vão para dentro.

Plou e a rolha bate no teto. Ah, molho a palavra, delícia. Agradeço ao bicho que me habita, já que antes o alimentei agora dou-lhe bebida, bebe, bicho raivoso! Tintim.

A Luciana entra linda, sacudindo uma sombrinha vermelha, choveu de leve em Porto Alegre, eu já em pé na sala. Lembro de tirar o chapéu. Pula feliz no meu pescoço, me enrodilha, me volta à memória a voz do poeta quando estremeço diante "Daquele corpo moreno, Sentia o mundo pequeno, Bombeando cheio de enlevo, Dois olhos, flores de trevo, Com respingos de sereno", me beija, acarinha meus cabelos de mãos enfiadas. 

Depois olha o estrago, ainda pregada em mim, apertou mais. Sobrou muito pouco daquilo que um dia foi um televisor. O que houve, meu amor? Nada, nega, essa porcaria explodiu. Ela bate os olhos na espingarda em pé ao lado do sofá e diz: bem que fez, meu Luciano querido, venho há anos esperando por isso, deixa eu te beijar de novo.

Não largo dessa chinoca por nada, acho que vou trazer todos os cacos, que são livros e discos, como ela pede há cinco anos sem dizer uma palavra, mas com o brilho dos seus olhos pretos de índia e negra e branca em luzes, pois achei a "estrela chirua, dessas, que se banha nua, no espelho das aguadas".

Boto rodar a sinfonia concertante, a 364, viola e violino.

Logo darei uma espiada no feicebuc, hoje fiz amizades em Belo Horizonte, pessoas lidas, valentes. A ver. Aproveitarei para perguntar pelo meu verde América.

Andava com vontade de matar uns filhos da puta, mas passou. Ah, Luciana, só tu mesmo, estava bom o banho? Vem deitar, vem, tira essa toalha.


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Amâncio

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Antônio Amâncio de Oliveira Filho (Macau, RN, 11/set/1973 - Guamaré/Macau, RN, 18/nov/2013), morreu ontem, depois de trágico acidente na estrada. Com 40 aninhos.

O blog se enluta, não somente por o explorarmos, divulgando suas obras sem pagar direitos autorais. É que aprendemos a amá-lo, pelos seus traços em busca de um Brasil melhor, de um Mundo melhor. Alma doce, elevada, claro que não nos processou, como nenhum artista do traço e do pensamento do seu quilate o fez.

Com esta sua obra, sintomático sinal, vestígio, senda, caminho, do tamanho do seu coração, o blog Ainda Espantado, por mim, Salito, envia sentimentos de amor e solidariedade aos familiares, desde o Rio Grande do Sul ao outro extremo do Brasil, outro Rio Grande amado, do Norte, aos amigos e colegas do Amâncio do país inteiro. Repetindo ao Nani: paz e serenidade aos que ficam. Coragem, que mais não me ocorre nesta hora tão difícil, onde somos pó.






domingo, 17 de noviembre de 2013

Alô, Palmeira das Missões, n'A Charge do Dias

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Ontem a tigrada foi longe no Botequim do Terguino. 

Alô, Palmeira das Missões: não me culpem pelo nome de algumas figuras, não fui eu que botei. Ou é nome mesmo, ou apelido. No caso do Terguino é nome, direitinho lá na certidão de nascimento e na carteira de identidade. Terguino Ferro é o nome completo, aí já viram, né, ele conta que muito foi caçoado na infância, hoje chamam  de bullyng, ou bulingue, um anglicismo que se deve à incompetência dos nossos letrados, que diante de uma língua tão formidavelmente rica, a nossa, não encontram uma expressão para indicar o caçôo maldoso, quando não criminoso, que todos de uma ou outra forma sofremos. Mais tarde, ele diz, veio a compensação, pois lhe serviu de propaganda para esportes de alcova, e mais não podemos dizer sobre tão calientes exercícios físicos, vez que este blog é lido por menores de idade.

Bem, dizia que foram longe, com cantoria até alta madrugada, só pararam quando Bruno Contralouco resolveu incendiar os trapos de um fiscal da prefeitura e de alguns milicos, no total seis elementos, que foram lá reclamar do barulho às três da matina. Como não quiseram ver as otoridades quebradas a pau - em seis o Contra bate com uma mão só - suspenderam os trabalhos. O pessoal é cumpridor das leis, imagine depois acabar preso, uma vergonha inominável, pois o Estado, que somos nós, cobra, se vinga, justamente, hoje apareceriam uns trezentos meganhas armados.

Odoacro (de novo: não tenho culpa), primo do Aristarco de Serraria, de visita ao bar, não se conteve e no início da noite pronunciou breve oração. Levantou-se e de copo na mão arengou:

- Hoje comemoramos, ó irmãos de botequim e de vida, o sucesso do Brasil. Assombramos o mundo pelos nossos dirigentes, homens de esquálidas virtudes, míseras e apenas para os seus, ignóbeis no campo da honra, rasgados em intrepidez com a pecúnia furtada que lhes enche de coragem, bestializados pela ganância sem fim, corações de cortiças encontradas no lodo...

- Diz logo, Odoacro, não vai ficar falando a noite inteira para ao fim chamar os caras de filhos da puta, chama logo, disse a mestra Jezebel do Cpers, impaciente, queria logo entrar na música.

Odoacro hesitou, tinha muito a dizer, parece o Fidel Castro, pelo tempo dos discursos e pela barba, mas consentiu e arrematou:

- Bem... se é assim, doutora, ahn... esses truculentos parasitas de vícios e opróbrios, buracos-negros de egoísmo em nosso continente-universo chamado Brasil, originário do pau que poderia dar cor, abrasando, se houvesse ainda, o pau arabutã, aos seus cadavéricos rostos, simulação de pudor, arapucas de pegar os simples, enojantes por falsas, de centenas de milhares prendemos uma meia-dúzia. Filhos da puta!

Aplausos.

Gustavo Moscão também aplaude, depois diz para Tigran Gdanski, ao seu lado:

- Só entendi o filhos da puta. E uns caras, brrr...

- Então entendeu tudo, Mosca, respondeu Tigran.

Outro dia Aristarco já havia esclarecido que o primão leva o nome de Odoacro em homenagem ao sujeito que destruiu o Império Romano. Os velhos eram cultos. E aqui notem, ó palmeirenses, que interessante: só se fala, com quilômetros de filmes e milhões de páginas, do Império Romano, seus imperadores, seus heróis e seus loucos, mas nada se diz sobre quem venceu aos valentões; pior, insinuam que eles perderam para si mesmos. Por que será que esquecem os exércitos, que chamam de hordas, de Odoacro, será que se previnem, comendo o cérebro, de nosotros?

Bem, mania de mudar de assunto.

Seguiu a festa. Combinaram para hoje, domingo, um grande churrasco em homenagem a Joaquim Barbosa. De salgar com avião agrícola. Como sempre, fecharão o trânsito no Beco do Oitavo com sinalizadores grenal (pintados de vermelho e azul para diferenciá-los dos da prefeitura, que são cor-de-laranja azeda), veemente aviso de que se elementos hostis, a começar pelos fiscais da prefeitura e milicos, passarem dali sofrerão as consequências. Esperam uns cem visitantes, além dos moradores do Beco do Oitavo e do Beco da Fonte (este as escadarias da 24 de Maio). Virá gente da Serraria, da Tristeza, da Cefer, do Menino Deus e de outros tantos bairros. Chupim da Tristeza disse que só da sua parentalha virão uns trinta: - Pelo Joaquim a negada vai andando até a África, se for preciso, disse.

Cícero do Pinho promete a estréia do seu breve grande sucesso, composto em parceria com o ator e teatrólogo Nicolau Gaiola, que fez a letra, o "Samba do Mensalão".

Por telefone agora soube que o Negrote, o sem-teto que mora embaixo do Viaduto dos Açorianos, convidado de honra dos boêmios para todas as festas e jantares, está desde às sete da manhã ajudando ao Clóvis Baixo, Wilson Schu e Marquito Açafrão com os preparativos, é muita tábua, cavalete e cadeira para carregar. Pela mesma ligação soube que Bruno Contralouco e Luciano Peregrino foram vistos ao amanhecer na Rua João Alfredo, de noite atravessada, cantando num boteco. Também me mandaram abrir o correio eletrônico. 

Abri e entendi a razão de ficarem até tão tarde. Não foi só a cantoria: adiantaram-se e já escolheram as obras que ilustrarão esta coluna d'A Charge do Dias.

Ficaram com os seguintes artistas do traço e do pensamento:

Amarildo. Aqui Silvana Maresia explicou ao Gustavo que curso superior era esse.


Dálcio.


Sponholz.


E Sid.



Miss Leilinha Ferro, a coordenadora, ficou com o Jarbas.




Avisaram-me que me concedem o direito a uma a solas, por alguns escritos que cometi nos últimos anos. Não merecia tanto, irmãos. Mas aproveito, buscando uma antiga do mestre e camarada Nani, com a qual homenageio o presidente do PT, pedindo-lhe, humildemente, que fique quieto, por favor, respeite as caras.


Isto posto, coloco a minha camiseta vermelha e branca, de um clube do interior de São Paulo, maravilhosa, menos amada em número de pessoas mas muito mais bonita que a do Internacional, até pelos detalhes em azul e preto nos ombros e nas costas, bermudas e chinelos de dedo, e do subsolo da palafita telefono para cima, aos meus seguranças de arremetida. Bem, de arremetida todos são, o único que joga na defesa sou eu. Digo que hoje não precisamos de nada pesado, podem ir apenas com uma Magnum cada um, bem disfarçada, por via das dúvidas, de Mr. F. Febrabran nunca se sabe. Só três, Kafil M'Oba, Miquirina Segundo e Aristide Neptune. Com a Nigéria, Angola e Haiti estarei seguro. Iremos às festividades do Beco do Oitavo. Digo às minhas mulheres que volto no final da tarde.


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A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

Por vezes trata de realidade nua e crua. Por vezes apenas ficção. Eventualmente contempla ficção e realidade. Os leitores saberão distinguir uma de outra. Ou não.
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jueves, 14 de noviembre de 2013

O dia da caça, a ilusão

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- Enfim, os patifes irão para a cadeia, disse Luciano Peregrino diante do notibuc, interrompendo os comentários paralelos do Botequim do Terguino.

Logo Luciano lia a notícia sobre a publicação legal que autoriza a prisão imediata dos mensaleiros, sob expectativa geral:

"... O Tribunal, por unanimidade, decidiu pela executoriedade..."

Aqui mestra Jezebel do Cpers, doutora em letras, se engasgou com o seu martini, tossiu forte, o "executoriedade" feriu a sensibilidade do pessoal, a sua mais ainda. Luciano prosseguiu:

"... imediata dos capítulos autônomos do acórdão condenatório que não foram objeto de embargos infringentes."

Tigran Gdanski, chegado quando Luciano iniciava a leitura, exclamou:

- Mas que diabos quer dizer isso?

- Que José Dirceu e sua gangue podem ir para o xilindró a qualquer momento, basta a expedição do mandado de prisão, ou seja, quiseram dizer que o tribunal decidiu, por unanimidade, pela execução das sentenças que não tem penduricalhos postergantes, enojantes, moedantes, covardantes, punhetantes, mortantes, até matar mataram, e acachapantes apresentados pela corja de rábulas bem pagos que se acha inteligente neste sistema de merda, um dia mato um "colega", respondeu Carlinhos Adeva, o diretor jurídico do Partido dos Boêmios (em constituição), abatido, pelo que logo foi consolado pela Jezebel e pela Silvana.

Foi a senha: gritos e abraços, o bar se transformou numa festa.

Salta um rabo-de-galo, disse o Contralouco, uma gelada aqui, disse Chupim da Tristeza, no que foi seguido por duas dezenas de boêmios e boêmias. Muitos telefonaram para companheiros e companheiras ainda ausentes: "Vem pra cá, hoje tem festa". Lorildo de Guajuviras, que estava em Canoas visitando uma prima, saiu em disparada em direção ao metrô, logo que avisado por Jussara do Moscão.

Ain Cruz Alta, numa das mesas da janela, com os olhos postos no entardecer de Porto Alegre, suspirou e disse:

- Eu nunca duvidei da Justiça...

- Eu duvidei, e muito, ainda duvido..., disse Carlinhos Adeva, enigmático.

O admirado filósofo de botequim Aristarco de Serraria, orgulho dos amigos pelo bom-senso e pela cultura, afastou o copo de cerveja e pediu uma fada verde. Conserva de pinga com losna, o absinto dos boêmios, normalmente é chamado de dyabla verde, mas hoje Aristarco apelou para a outra denominação. Fada verde é para dias muito especiais, felizes. Foi breve:

- Esperemos, minhas irmãs e meus irmãos, que isto seja apenas o começo e não pare, pois falta muito para que recuperemos as verbas públicas roubadas das escolas e dos hospitais, hoje empregadas em mansões e helicópteros de criminosos.

Vieram gritos de todos os lados, abafando a fala do insigne pensador: Falta a turma da privataria tucana, falta a gangue da Delta, falta o Maluf, falta o Cabral Guardanapo, falta o Kassab, falta os de Santa Catarina, falta o Sarney, falta o Jarbas, falta o Collor, falta os Cachoeiras da vida e os juízes e políticos que comprou, falta a FIESP e todas essas FIE de gatos. Alguém quebrou um copo, houve uma pausa e Clóvis Baixo aproveitou, encerrando a sessão "falta":

- Falta tudo. Falta metade do Congresso Nacional, metade dos que se dizem grandes empresários e metade dos funcionários públicos. E metade da polícia. E a mídia inteira. Tudo ladrão e corrupto!

- Perto de alguns que falaste que roubaram e roubam, Clóvis, o que os mensaleiros levaram é troco, falou novamente Carlinhos Adeva. E que bom seria que faltasse só a metade...

Rapidamente decidiram que hoje haverá música no bar, com bebidas comuns e músicas que todos vão cantar. Alguém telefona para a Gracinha, a melhor cantante da Cidade Baixa, amiga do peito, para puxar o repertório, depois o pessoal vai se lembrando das outras. Cícero do Pinho e Chupim da Tristeza saem buscar os instrumentos.

Muitas surpresas os aguardavam ainda nesta noite. Os boêmios foram iludidos por gente sem cara, construíram o PT, hoje estão espalhados por partidos menores de esquerda, quem ficou lá, disse Walter Schiru, é quem mama, na grana e no pau dos paulistas ladrões. 

João da Noite, o presidente do Partido dos Boêmios, figura exponencial dessa luta, nesse momento acordava em Viamão na casa de uma mulher, com a nítida impressão de que lá fora dançavam boas novas, uma luzinha de esperança. Precisava tomar um banho, fazer a barba e sair.

Bruno Contralouco fica sério, com aquele ar ingênuo e doce que o caracteriza quando não está bravo, e diz para Aristarco:

- Sabe, Ari, não pense que eu sou ruim, sei lá, talvez seja, mas eu gostaria que toda essa gente que vocês falaram morresse. Os condenados são uma gota no oceano...

O bar ficou silente, cada um olhando para o fundo do seu copo, pensando longe. Alguns pensamentos bons lhes passavam pela cabeça, outros ruins, pois os rostos ora transmitiam expressões de dor e desencanto, ora de felicidade e confiança.

Aristarco passou-lhe a mão nos cabelos:

- Que nada, Contra, Deus é grande, um dia os caçaremos e os levaremos aos tribunais em jaulas de ferro, por loucos e desalmados que são. Os piores são os inimigos da nossa carne de escravos, nossa carne que hoje cortamos por justiça e sinal de recomeço. Cortar a carne dos nossos dói mais, palavras não dizem o que sentimos no coração, mas matamos uma tropa de Cains, nem todos, é verdade. O inimigo desde sempre, os bichos que corromperam os nossos, pela loucura ou vingança, ah, logo chegaremos nas carnes deles. Todos somos homens apavorados, desesperados, ante o horror que assistimos. Mas sejamos fortes, mantenhamos a calma, não nos tornemos iguais a quem combatemos, como fizeram alguns fracos e doentes do nosso lado. Vamos festejar. 

E levantou-se, erguendo o copo.

Contralouco murmura:

- Tá, mas deixa eu enforcar só os donos das empreiteiras, Aristarco, só eles, não vai ficar de mal comigo, vai?...

Aristarco se faz que não ouve e ergue o copo mais alto.

Arrastar de cadeiras, o botequim inteiro em pé. Ouviu-se na Zona Norte o brinde que propôs na Cidade Baixa.

- Ao povo brasileiro.

- Ao povo brasileiro!, rugiram.

Tintim!

Muitos copos se quebraram tal o ímpeto, mas não importou, eram só copos de vidro. A sementinha de esperança nascida valia muito mais, até o sangue e a vida.

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A ilustração é obra do Nani, desta data.

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martes, 12 de noviembre de 2013

Os últimos párias da terra

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Por Mauro Santayana, no JB


Há alguns dias, o mundo acompanha, com atenção, o drama de duas meninas. Uma chama-se Leonarda. A outra, Maria. Leonarda, de 15 anos, foi tirada à força de dentro de um ônibus, em uma excursão escolar, e expulsa da França, junto com sua família. Maria, de 4, foi encontrada, há alguns dias, em uma cidade no interior da Grécia, e retirada do casal com que estava por suspeita de rapto.

Leonarda é morena. Maria é loira.

A primeira nasceu na Itália, e foi criada na França. Mas está em Kosovo, país em que nunca viveu, porque seu pai é originário dali, da antiga Iugoslávia. Seu irmão, Daniel, nasceu em Nápoles, mas mora na Ucrânia. Sua irmã, Erina, mora na França, mas nasceu também na Itália, assim como Maria, que tem 17, Rocky, de 12, Ronaldo, de 8, e Hassan, de 5 anos. Só a caçula, Medina, nasceu na França.

Maria, encontrada com uma família em Farsala, na Grécia, pode ser filha — descobriu-se agora — de um casal de búlgaros que vive em um gueto da cidade de Nikolaevo.  O nome deles, curiosamente, é Rusev, quase como o da presidente Dilma. 

O casal Dibrani, pais de Leonarda, têm oito filhos. Os Rusev, pais de Maria, têm dez, e a mãe alega que teria cedido a filha a um casal na Grécia, quando morou no país, porque não tinha como dar-lhe de comer.

Mas, como é isso, em que tempo estamos? De que continente falamos? Da Europa do século 21, que manda sondas ao espaço, e se orgulha de sua alta renda per capita e do seu desenvolvimento humano? Ou da Europa do passado, com suas enormes famílias, com seus guetos, sua fome, e os milhões de miseráveis  dos séculos 18 e 19?

Falamos, infelizmente, do agora. Na Europa de hoje, Leonarda e Maria não são duas meninas  normais. Não têm passaporte, nem pátria, nem futuro. São ciganas. E em seu sangue carregam o destino dos últimos párias da terra.

É certo que há outros deserdados, perseguidos por questões políticas ou religiosas, ou por serem minorias em seu próprio território. Mas todos têm sua terra. A lembrança do país onde nasceram, a esperança de um dia terem um documento, de  voltarem a ser alguém.

Em uma Europa racista, cada vez mais xenófoba, e que não reconhece o direito de jus soli mas, na maioria dos países, apenas o de jus sanguinis (quando não basta nascer em um determinado país para adquirir a nacionalidade), os ciganos vagam, como fizeram nos últimos mil anos, sem eira nem beira, ao sabor do estado de espírito de quem manda no país em que estejam, e não podem criar raízes, nem quando deixam de agir como nômades.

Até o final da Segunda Guerra Mundial, os ciganos compartilhavam seu destino com os judeus. Com eles, eram expulsos, de um país para o outro. Com eles, foram espancados e roubados, desde que deixaram a Índia, rumo ao Ocidente, há cerca de mil anos.

Em 1925, os roms passaram a sofrer, como os judeus, as restrições das Leis de Nurenberg para a Proteção Proteção do Sangue,  que proibia o casamento entre alemães e "não arianos".

Em 1937, a Lei de Cidadania Nacional relegou os ciganos e os judeus à condição de cidadãos de segunda classe. E Himmler emitiu decreto que chamou de "A luta contra a praga cigana", que solicitava toda informação sobre ciganos fosse mandada para o Escritório Central do Reich. Se os judeus tiveram a Kristallnacht, com a quebra de centenas de negócios e a queima de sinagogas, os roms tiveram a “semana de limpeza cigana”, de 12 de junho e 18 de junho de 1938.

O primeiro teste do gás Zyklon B, usado pelos alemães nas câmaras de gás, foi feito com 250 crianças ciganas, em janeiro de 1940, no campo de concentração de Buchenwald.

Ao contrário dos hebreus, os ciganos, no entanto, nunca tiveram um Deus que lhes desse terra prometida.

Os judeus fundaram Israel.

Os roms continuam, sem pátria e sem destino, a ser discriminados, perseguidos e mortos — por doença e inanição.

O leitor preste atenção. As crianças ciganas são as únicas, na Europa, que vivem em guetos exclusivamente étnicos. Os dez irmãos de Maria — se os Rusev forem mesmo sua  família — dormem todos em um único cômodo em Nikolaev.

Nos subúrbios de Bucareste, de Sófia, de Budapeste, ou nas fotos e vídeos da internet, é fácil reconhecê-las. São as únicas que têm a barriga inchada, devido aos vermes, e sempre na mão — por causa da fome — um pedaço de pão.


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A ilustração não consta no original: na foto, crianças ciganas vítimas das experiências do psicopata Mengele e seus mentores.

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viernes, 8 de noviembre de 2013

Quando vocês partirem

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Um amigo certa vez sugeriu transformarmos - nós, o povo na rua, armados de pedaços de pau, somos muitos, se fôssemos para valer os seus órgãos de repressão com bombas e metralhadoras não dariam nem para a saída - o Congresso Nacional em Presídio, dividido, como os demais, em alas.

Sem mordomias. Sei do que falo, na primeira vez em que entrei no Presídio Central, lá por 1985, depois em muitos outros, andei por um bom tempo com vontade de castrar com faca cega certos políticos, na verdade partidos inteiros. Ora, partidos: máfias do crime organizado, urubus que arrancam as carnes de gente viva, seres que, tal o medo do futuro, só pensam em amealhar o maldito dinheiro, beber uísque de mil contos à beira de piscinas, enquanto os miseráveis pelo destino que lhes deram à força vasculham o lixo por um resto de comida.

Na época achei um exagero o sonho daquele amigo, ora, a Casa do Povo não. Se tem algo que aquilo não é, vi depois, é Casa do Povo. É casa de bichos sanguinários que compram votos daqueles coitados que vasculham lixo. Outra que jamais conseguiríamos, eles possuem as armas e as comunicações da lavagem cerebral. Mesmo que conseguíssemos, não daria certo, acabaríamos nos matando uns aos outros, o que começa mal, termina mal, é de lei. Basta lembrar os revolucionários russos fuzilando, a sangue frio, o czar e sua família, crianças... Aquilo não poderia terminar bem. Como não vai terminar bem o destempero do império norte-americano, são muitos os assassínios, a cobrança virá, e o povo inocente pagará junto o preço da loucura dos petroleiros e armamentistas. Aí a insânia: orgulham-se de amealhar bilhões, que não poderão levar para a terra e aos vermes que os comerão, sabendo que no Chifre da África morrem quinhentas crianças por dia, de inanição, para não falar das vilas de  miséria do Brasil, onde a violência cresce como o planejado. Os lindos já viram uma criança morrer de inanição? Primeiro perde a fala... Os olhinhos começam a gritar. Grita muda! Não, vocês não querem saber.

O único jeito é a Educação para o povo. E esta, sabemos, velha aspiração dos humanistas, está muito longe, os predadores não permitirão assim tão fácil, a ignorância é o seu bem maior, é de onde tiram suas risíveis riquezas. Os predadores em geral não fazem de coisa pensada, animal não pensa, mas é o reflexo do seu proceder sedento, de covardes diante da vida. Os que "pensam" têm endereço comercial em Washington e na Av. Paulista, andam de jatinhos e helicópteros para ficarem longe da repugnante massa de leprosos que exploram, vivem dela.

De há muito não acho exagero - o sonho também serve para mitigar sofrimentos, preenche nossas almas com esperança; pelo que andei vendo por este Brasil. Sonhar é bom. 

Teríamos a ala dos Petistas, a dos Tucanos, a dos Demônios, a do Eu ti Amo, a dos Agropecuaralhos da monsanto e por aí vai, facções rivais, claro, algumas não poderiam tomar sol juntas no pátio, por motivos diversos, o pior deles seria a hipótese de firmarem acordos, ou "coalizão", é impensável permitir que Maluf e Lula se encontrem no centro do pátio, são capazes de tudo. Volta e meia algumas gangues se uniriam, para perpetrar algum grande assalto, pois de lá de dentro dos gabinetes orientariam a turma lá fora, que eles colocaram em altos postos da nação, mas aqui fora estaríamos caçando a pau esses bichos dos altos cargos. Logo a peste negra desses ratos seria exterminada, iríamos mijar em suas piscinas. O correto seria logo passar fogo, paredão para essas bactérias nojentas? Não, isso seria prêmio. Não sou criminoso como eles, meus companheiros também não seriam. O certo seria deixá-los lá, amargando o que fizeram aos outros.

Ando me sentindo como aquele menino palestino de doze anos que foi encher o tarro de água no córrego lá longe, deixando pai, mãe e três irmãzinhas na cabana, e que ao voltar caiu para trás com a explosão do míssil que deixou sua casinha em pó. Ao lado do buracão um pedaço de pano da que tinha dois anos. Por engano, disseram. Depois o chamaram de terrorista louco quando se cobriu de bombas para levar alguns dos assassinos, contumazes em explosões de drones na casa alheia, juntos para o inferno, já que por esta terra tinha perdido o gosto.

Confesso que ao imaginar as alas, a lavagem para porcos como alimentação, a Aids, a sífilis, o frio, as lágrimas, a solidão de Natais e Dias da Criança, os Horrendos, por ter roubado muito mais que uma galinha, esta penosa como ocorre com a maioria dos meninos trancafiados em condições que nenhum animal merece, estes não, estes por muito mais que roubar uma galinha ou um remédio, forçado pelas circunstâncias, estes por lesa-pátria, lesa-comida, lesa-crianças, lesa-vidas, fiquei sonhando acordado, meu coração encheu-se de alegria, será que estou ficando vingativo, a realidade é forte demais para o meu coração?

Enquanto sonho sinto que cedo ou tarde virão para me matar. Estou nem aí, certo de que o dia deles chegará, e quando chegar... Não creio, delírio de almas simples, em céu e inferno, Deus e Diabo. Mas daria a vida, esta modesta vida, para que existisse algo, pois eu, mesmo não merecendo ir para o fogo, imploraria de joelhos diante de Deus, insistiria que me mandasse para o inferno, para lá pegá-los, enfim, no mano a mano.

Caminho pelo subterrâneo da palafita. Ao longe avisto as minhas garrafas de champanhe, guardadas uma a uma com fervor no passar dos anos. Comecei tarde. Os nomes têm diferentes motivações. Tenho exatamente cento e quatro, já bebi quarenta e seis das cento e cinquenta iniciais. Nunca esquecerei o dia em que, sozinho, no escuro, como costumo fazer, bebi a Médici, esta in memorian, coloquei e abri: tive um ataque de choro, custei a comemorar a sua morte. Tintim. A Toninho Malvadeza, de outra vez, também in memorian, estava azeda, mas ainda assim tomei tudo. Naquele dia tomei umas seis, e um fogo in memorian. Na Roberto Marinho ri muito. Chego perto e vejo alguns nomes que se sobressaem pelo ângulo da luz fraca: Diniz, Delfim, Passarinho, Gandra, ando um pouco e vejo Palocci... tantos, queridos meus, a ordem em que estão dispostas eu sei muito bem. Hoje coloco mais uma, agora cento e cinco, José Dirceu.

Se eu não bebê-las, alguém as beberá por mim. Ah, que sonho bom, que bebida doce.


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Um bolero na penumbra

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Depois de chamar de covardes, que são, a um jornal e a 99% dos seus articulistas, como a todos os "grandes" jornais, vai ver como começaram... Achei pouco.

O monstro Maluf que sempre apoiaram sendo procurado por todo o planeta pela Interpol há anos, a PM assassina e corrupta, a polícia civil ainda um antro, o roubo explícito, um congresso de ratos, e eles, os jornais, como as tevês, para desviar a atenção, atacam os... meninos black bloc, sem cogitar das suas aspirações, que são as de todos nós, provocando os meninos a pegar em armas, para matá-los, a sociedade cabeça feita, Marcha pela Liberdade, aplaudindo, oh, nos livramos de marginais, sobre isto ainda teremos uma conversa, senhora Dilminha, pelo que seus marqueteiros disseram em seu nome no twitter, e a conversa será outra, não com esses canalhas sujos que a cercam, burros, babacas, mas para iludir o povinho, tu sabe, são ótimos, mas isso até pastor, mas é indecente, dona, é maldosa covardia. Sempre odiei esses caras, tu sabe, são só casca, que homens nunca serão. Governo de coalizão? Mas união com bandidos da ditadura, civis, os piores, mas militares também, com ladrões de todo tipo, batedores de carteira de velhos em saída de banco, mamadores parentes do seu fulano, animais como o Sarney, Renan, fizeram com todos!, com supostos mocinhos não é coalizão, tem outro nome. Imagine eu chegar em casa e resolver fazer uma sociedade com um criminoso ali da esquina. Ele estará entrando na minha, ou eu na dele? Multiplique por 100 o total do mensalão divulgado e chegará perto do quanto os companheiros possuem em paraísos fiscais.

Terá um preço. Mate um menino ou menina, mate, para ver. Logo quem... Sente vontade de voar numa moto de dois milhões, não pensou em sentar no pau do Kid Bengala? Sei, dona, tu não é otária, é coisa de marqueteiro, mas não fui eu que contratei e autorizei a esse vadio, pagando milhões. Mesmo sabendo-a uma pessoa séria, honesta, hoje a senhora me causa asco. Quase tanto quanto os que a antecederam, ninhos de víboras, muito piores, se soubesses o que vi na privataria, menina... Sei que deve ser duro aí, principalmente a luta contra o deslumbramento, a gente fica se achando. Mas os amigos estão ganhando bem? Sírio Libanês e grana eterna? O Arno segue enganando, primeiro na foto? Que bom, os seus antecessores eram piores, mas diz que eu o mandei tomar bem dentro daquele lugar. Parabéns a todos. Como diria Eike, e seu ídolo Antonio Palocci, bela obra. Comecei a falar em gatos, ouvi um miau sonoro vindo da rua.

Larguei, não adianta, criminosos de ativos mal havidos, deixo assim, tomara que morram logo, para aprenderem que em caixão "ativos" não cabem. Ufa.

Bem, sirvo uma dupla de uísque (ganhei na loteria, madame, burlando os seus desejos, da senhora, sua turma e dos seus inimigos, estes que consigo desprezar mais ainda, de que eu morra seco e arreganhado? Pode ser, e foi muito, dá para comer, pois se fosse depender de agradar a senhora ou aos canalhas a quem se associou eu já teria morrido em mesa de hospital de indigentes - fato sobejamente divulgado, ou teria partido de arma na mão para assalto aos assaltantes, os agiotas amigos do Lula, e seus, que vocês ainda têm o desplante de chamar de instituições financeiras, mas não na agência, lá não os encontraria, iria buscá-los em casa, até para que saibam que cem seguranças de empresas de ex-milicos servem para nada se o cara quiser mesmo lhe pegar, embora eles se prestem para assassinatos por encomenda, na cara da Polícia Federal), só um pedaço de gelo, grande, para relaxar. Um só gelão custa a derreter, não deixa o seu uísque aguado como algumas senhoras que a cercam, escolhas suas, doutora. 

Bom chegar assim, de viagem, cabeça longe. Bom e ruim. Passa, todos hão de morrer, a vida continuará pelas mãos da moçada. Talvez um dia eu vá, pela diversão. Uma explosão, rirei ao imaginá-la refém do bando que explodi, bando de seus amigos mas que um dia a senhora desejou matar em defesa do Brasil. Quem mudou, eles ou a senhora? Eles garanto-lhe que, se mudaram, foi para pior.

Lembrei de um bolero, hoje ainda muito tocado no México e nas Américas Central e do Sul, esta onde o Brasil segue o estranho do continente, por forças que sabemos, basta ligar o rádio ou tentar assistir a um filme. Eslovacos, alemães, turcos, italianos, argentinos, croatas, etc, não serão. Nem brasileiros. Pavlov misturado com jabaculê. Ainda hoje aplicam: tocam a mesma música dez vezes por hora, vai entrando nas cabecinhas... um sertanojo.

O disco de vinil achei jogado no lixo. Nos lares entrava rock a mil, o Brasil feliz, sem entender porra nenhuma do que estavam falando. Eu colecionava discos de vinil, quanto mais velho, ui, emoção. Inclusive americanos, ah, Frankie Laine de 1923. Achei um de danças húngaras, as czardas, certa vez.

"Vou apagar a luz para pensar em ti", ouvi na velha vitrola. Espanhol é fácil para sudamericanos. Era o que eu fazia todos os dias, meus amigos. Adivinhem para pensar em quem? Nela. Claro que não na Dilma, que nessa época armada lutava contra bandidos, os mesmos com quem hoje dorme. Não, sai de mim, era para pensar na namorada de longe, aquela loira de saia plissada da escola Normal, a franqueza, o sorriso, as pernas, meu Deus, que pernas. Amor platônico. Não vou falar em bater nada, porque aí dirão que não era tão platônico assim, isso de sonhar em... era raro, o instinto que logo repugnava, sentia mesmo era amor, como o concebia naqueles belos dias, que de belos não tinham nada, o tempo é que nos dá essa sensação, mas era doce, sincero.

O clássico é de Armando Manzanero, de 1967. Nessas alturas eu tinha 20, e uma mala de 78 rotações, este era LP.

Lembrou-me fatos recentes, há uns 20 anos, eu não era mais criança, quando cantarolei para o violeiro Beto do Bonfa (onde andará?), ele nunca tinha ouvido mas tocou seu coração, e logo pegou, tinha uma puxada de "requinto". Incendiamos o bar.

Há cantantes jovens em toda a América que seguem gravando, no youtube não. Para mim não faz diferença, pois a versão que eu queria é aquela que ainda guardo, do disco achado na rua e que se tornou parte dos meus sonhos juvenis.

De notar-se, no conjunto, a famosa guitarra "puntera" de Alfredo Gil, de leve. Requinto que ele inventou em cordas e maestria.

Vou apagar a luz.

jueves, 7 de noviembre de 2013

Brucutus de caneta, n'A Charge do Dias

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E os boêmios voltaram da peregrinação pelo Uruguai e pela Argentina. Na maior parte do tempo caminharam pelos bares, botecos, tabernas e cantinas, locais que pouco se diferenciam, se houver diferença, mais alguns teatros, casas de tango, o velho estádio do Peñarol, do Boca, etc, pois, honestos e bons de alma, detestam formalidades, coisas sérias demais, a vida é curta, acreditam que para rezar, os que crêem, não é necessário andar feito doido batendo perna até Santiago de Compostela, pelo que aqui, considerados atenuantes e agravantes que nos assaltam, somente podemos dizer que cada um, cada um.

Luciano Peregrino, e aqui é bom esclarecer que o nome do camarada nada tem a ver com o que a palavra sugere ao falarmos de Compostela, e sim pela sua fama de ter peregrinado pelas camas de todas as mulheres dos políticos e suas asponas, amantes e irmãs, mais as jornalistas de política e cultura do País inteiro, ao que ele ri e diz que isso é um exagero, todas não, encaro só até passável, bucho nem morto, talvez a metade somente, bem, como íamos dizendo, Luciano Peregrino, na hora da chegada, pelo meio da tarde, pediu que a van o deixasse em frente ao botequim, com mala e tudo, enquanto os demais boêmios, e algumas boêmias, preferiram dar uma passada em casa antes.

Largou a mala lá dentro, abraçou ao Portuga, pediu uma cerveja e um frango à passarinho tapado de alho e instalou-se em mesa na calçada, notibuc aberto em sua frente, pretendendo saber das novidades do Brasil, vez que durante a viagem ninguém, nem ele, quis saber de más notícias.

Pelas sete da noite, com a turma já presente, à exceção do Contralouco, em mesas juntas ou próximas, exclamou:

- Atenção, pessoal, recomeço com a nossa velha atividade diária, as Notícias do Notibuc:

- Ai, ai, ai..., murmurou Nicolau Gaiola, que detesta essa parte da programação.

De nada adiantou, se veio: 

- A Justiça do RS mandou que o tadinho do nosso Prefeito de Porto Alegre demita a sua mulher do cargo de Secretária Municipal dos Direitos dos Animais. O impoluto político entendeu que nomear a patroa não é nepotismo, é contribuição, pois administrar a cidade se torna mais fácil, fica tudo em casa, parabéns a ele, tudo pelo bem da população.

Marquito Açafrão adiantou-se: - Tá certo, para reforçar o orçamento familiar não deve ter sido, pois recordo que ele foi o cara que doou a si mesmo, digo, que investiu, cem mil reais na própria campanha. 

Explodem risos no bar.

Luciano segue: 

- Desta ninguém vai rir. A besteira do ano: O senador Pedro Simon comparou a ação dos black blocs no Rio de Janeiro e em São Paulo a atos terroristas como os ataques suicidas, coordenados pela rede Al Qaeda as cidades norte-americanas em setembro de 2001. Depois votou contra o voto facultativo nas eleições.

A turma foi pega de surpresa, alguns duvidaram.

Luciano confirmou: É sério, se quiserem olhem aqui.

- Esse nunca me enganou, no púlpito diz uma coisa, na calada faz outra, disse a professora Jussara do Moscão.

- Mas a que se deve isso, assim, na carinha? À idade? Pois pode até ser que ele tenha razão, mas tem muita gente dizendo que terroristas, além de larápios filhos da puta, são os seus colegas de Congresso, disse raivosamente Chupim da Tristeza.

Aristarco de Serraria, o boêmio-filósofo que não participou da peregrinação, sorriu e disse: 

- Gente, já vou adiantando que o Rato mor, eleito pela rataiada Presidente do Congresso dos Ratos, hoje defendeu a nomeação de cargos comissionados, isto é, dos patifes dos seus cabos eleitorais e outros bichos ainda mais horrendos. Também que estourou o roubo dos inimigos da Dilma, o mensalão é troco perto daquilo. De modo que proponho que deixemos as notícias para amanhã, hoje estamos felizes com o retorno de vocês, seus fugitivos, não vamos estragar o fígado. Depois, com a chegada do Contralouco, vamos querer é saber das aventuras dos amigos junto aos hermanos. Sugiro que primeiro escolhamos as obras do dia, vez que estamos com grande atraso.

De fato, temos recebido aqui no blog bilhões de reclamações diárias pela falta da coluna A Charge do Dias. Bem, bilhões não, milhões. 

E assim se fez. Pela tradicional eleição, escolheram as seguintes obras dos artistas do traço e do pensamento.

Nani.


Rico.


Newton Silva.



Vasqs

Nesta Aristarco precisou dar uma esclarecida na turma da viagem, então falou dos jornais da elite que manipula o povo, especificamente de uma folha paulista, onde os colunistas tentam se passar por gente fina, com as exceções de praxe, mas batem todos os dias nos meninos black bloc, como fez aquele velho caduco, e silenciam sobre as aspirações dos manifestantes. Agora trazem nazistas para ajudar, disse ele. O mestre Ari foi apoiado por todos os 35 presentes.

Decidiram que a obra irá, depois de emoldurada, para a parede do bar, juntar-se às centenas de primas que a ornamentam. E mandam um abraço ao Vasqs. Está dado.

(Uma observação do Administrador: este blog só admite que se fale desses animais, donos de jornais, como foram antes donos de escravos ou ladrões, porque o espaço é democrático, papo de bar. Coisa que eles não fazem, por mais que disfarcem, os covardes se sentem felizes por enganar seres que não podem se defender, papel aceita tudo, e injeção na cabeça dos absolutamente esfaimados, inclusive de mínima cultura, é que vem os salvando da cadeia ou pior)



Miss Leilinha Ferro escolheu a solas, como sempre, pelo seu cargo de coordenadora. 

Ficou com o Fausto.





A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

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