viernes, 8 de noviembre de 2013

Quando vocês partirem

.
Um amigo certa vez sugeriu transformarmos - nós, o povo na rua, armados de pedaços de pau, somos muitos, se fôssemos para valer os seus órgãos de repressão com bombas e metralhadoras não dariam nem para a saída - o Congresso Nacional em Presídio, dividido, como os demais, em alas.

Sem mordomias. Sei do que falo, na primeira vez em que entrei no Presídio Central, lá por 1985, depois em muitos outros, andei por um bom tempo com vontade de castrar com faca cega certos políticos, na verdade partidos inteiros. Ora, partidos: máfias do crime organizado, urubus que arrancam as carnes de gente viva, seres que, tal o medo do futuro, só pensam em amealhar o maldito dinheiro, beber uísque de mil contos à beira de piscinas, enquanto os miseráveis pelo destino que lhes deram à força vasculham o lixo por um resto de comida.

Na época achei um exagero o sonho daquele amigo, ora, a Casa do Povo não. Se tem algo que aquilo não é, vi depois, é Casa do Povo. É casa de bichos sanguinários que compram votos daqueles coitados que vasculham lixo. Outra que jamais conseguiríamos, eles possuem as armas e as comunicações da lavagem cerebral. Mesmo que conseguíssemos, não daria certo, acabaríamos nos matando uns aos outros, o que começa mal, termina mal, é de lei. Basta lembrar os revolucionários russos fuzilando, a sangue frio, o czar e sua família, crianças... Aquilo não poderia terminar bem. Como não vai terminar bem o destempero do império norte-americano, são muitos os assassínios, a cobrança virá, e o povo inocente pagará junto o preço da loucura dos petroleiros e armamentistas. Aí a insânia: orgulham-se de amealhar bilhões, que não poderão levar para a terra e aos vermes que os comerão, sabendo que no Chifre da África morrem quinhentas crianças por dia, de inanição, para não falar das vilas de  miséria do Brasil, onde a violência cresce como o planejado. Os lindos já viram uma criança morrer de inanição? Primeiro perde a fala... Os olhinhos começam a gritar. Grita muda! Não, vocês não querem saber.

O único jeito é a Educação para o povo. E esta, sabemos, velha aspiração dos humanistas, está muito longe, os predadores não permitirão assim tão fácil, a ignorância é o seu bem maior, é de onde tiram suas risíveis riquezas. Os predadores em geral não fazem de coisa pensada, animal não pensa, mas é o reflexo do seu proceder sedento, de covardes diante da vida. Os que "pensam" têm endereço comercial em Washington e na Av. Paulista, andam de jatinhos e helicópteros para ficarem longe da repugnante massa de leprosos que exploram, vivem dela.

De há muito não acho exagero - o sonho também serve para mitigar sofrimentos, preenche nossas almas com esperança; pelo que andei vendo por este Brasil. Sonhar é bom. 

Teríamos a ala dos Petistas, a dos Tucanos, a dos Demônios, a do Eu ti Amo, a dos Agropecuaralhos da monsanto e por aí vai, facções rivais, claro, algumas não poderiam tomar sol juntas no pátio, por motivos diversos, o pior deles seria a hipótese de firmarem acordos, ou "coalizão", é impensável permitir que Maluf e Lula se encontrem no centro do pátio, são capazes de tudo. Volta e meia algumas gangues se uniriam, para perpetrar algum grande assalto, pois de lá de dentro dos gabinetes orientariam a turma lá fora, que eles colocaram em altos postos da nação, mas aqui fora estaríamos caçando a pau esses bichos dos altos cargos. Logo a peste negra desses ratos seria exterminada, iríamos mijar em suas piscinas. O correto seria logo passar fogo, paredão para essas bactérias nojentas? Não, isso seria prêmio. Não sou criminoso como eles, meus companheiros também não seriam. O certo seria deixá-los lá, amargando o que fizeram aos outros.

Ando me sentindo como aquele menino palestino de doze anos que foi encher o tarro de água no córrego lá longe, deixando pai, mãe e três irmãzinhas na cabana, e que ao voltar caiu para trás com a explosão do míssil que deixou sua casinha em pó. Ao lado do buracão um pedaço de pano da que tinha dois anos. Por engano, disseram. Depois o chamaram de terrorista louco quando se cobriu de bombas para levar alguns dos assassinos, contumazes em explosões de drones na casa alheia, juntos para o inferno, já que por esta terra tinha perdido o gosto.

Confesso que ao imaginar as alas, a lavagem para porcos como alimentação, a Aids, a sífilis, o frio, as lágrimas, a solidão de Natais e Dias da Criança, os Horrendos, por ter roubado muito mais que uma galinha, esta penosa como ocorre com a maioria dos meninos trancafiados em condições que nenhum animal merece, estes não, estes por muito mais que roubar uma galinha ou um remédio, forçado pelas circunstâncias, estes por lesa-pátria, lesa-comida, lesa-crianças, lesa-vidas, fiquei sonhando acordado, meu coração encheu-se de alegria, será que estou ficando vingativo, a realidade é forte demais para o meu coração?

Enquanto sonho sinto que cedo ou tarde virão para me matar. Estou nem aí, certo de que o dia deles chegará, e quando chegar... Não creio, delírio de almas simples, em céu e inferno, Deus e Diabo. Mas daria a vida, esta modesta vida, para que existisse algo, pois eu, mesmo não merecendo ir para o fogo, imploraria de joelhos diante de Deus, insistiria que me mandasse para o inferno, para lá pegá-los, enfim, no mano a mano.

Caminho pelo subterrâneo da palafita. Ao longe avisto as minhas garrafas de champanhe, guardadas uma a uma com fervor no passar dos anos. Comecei tarde. Os nomes têm diferentes motivações. Tenho exatamente cento e quatro, já bebi quarenta e seis das cento e cinquenta iniciais. Nunca esquecerei o dia em que, sozinho, no escuro, como costumo fazer, bebi a Médici, esta in memorian, coloquei e abri: tive um ataque de choro, custei a comemorar a sua morte. Tintim. A Toninho Malvadeza, de outra vez, também in memorian, estava azeda, mas ainda assim tomei tudo. Naquele dia tomei umas seis, e um fogo in memorian. Na Roberto Marinho ri muito. Chego perto e vejo alguns nomes que se sobressaem pelo ângulo da luz fraca: Diniz, Delfim, Passarinho, Gandra, ando um pouco e vejo Palocci... tantos, queridos meus, a ordem em que estão dispostas eu sei muito bem. Hoje coloco mais uma, agora cento e cinco, José Dirceu.

Se eu não bebê-las, alguém as beberá por mim. Ah, que sonho bom, que bebida doce.


.

No hay comentarios.:

Publicar un comentario