martes, 25 de febrero de 2014

Falando com Deus

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Caí de joelhos ao lado da cama, gritando:

- Eu queria tanto que existisse Deus! Onde está, onde está você que permite tanta maldade!?

Levei um susto ao ouvir uma voz, não era de homem nem de mulher, uma coisa estranha, metálica, mas que também lembrava notas tiradas de um saxofone, humana. Em bom português:

- Estou aqui, quer falar comigo?

Olhei para os lados, sacanagem a esta hora da manhã, eu, hein? Varri o quarto com os olhos, ansioso, ninguém. A voz veio de dentro da minha cabeça, ou do espaço, sei lá. Tímido, ainda pensei mais um pouco: vai que exista esse cara, vai que more em Plutão e sem querer acertei as palavras para invocá-lo, e raivoso atirei tudo para cima:

- Querer mesmo não queria, mas já que está aqui, quero sim, seu putão, quero muito falar com o senhor!

- O planetinha é Plutão, meu amigo.

- Putão ou Plutão, foda-se igual, seu irresponsável. Que inferno é este que inventaste? Que matança é esta, a fome grassando na África, dizimando milhares de crianças por dia, outros se matando por todo lado, aqui uns idiotas se rasgando pelo time do Corínthians para chupar o pau de falsos gladiadores, uns bichos tatuados levando homens supostamente sérios a cometerem tanta sandice, lá adiante meia-dúzia confabulando para ganhar mais um trilhão? Que merda é essa que tu fez?!

- Acalme-se, quanta revolta, expressões chulas, quanta falta de educação, para que isso? Passo aqui muito raramente, quando quero rir, na medição de vocês de mil em mil anos, como iria saber? Tenho muitos mundos para rodar, meu caro, isto é muito menos que grão de areia, é pó, porque o que vocês chamam de Via Láctea, onde esta bolinha não é um grão, pois essa Via Láctea dá meio grão num deserto imenso, e olha lá se der meio grão. Eu não tenho nada a ver com isso, vocês é que me inventaram para ter em quem derramar suas imperfeições. Aguente. Ou não agüente, mate-se, estou me lixando.

- Expressões chulas diz porque ainda não ligou o rádio para ouvir a Putazuda do Cu Piscando, senhor Deus, com todo o respeito, afinal a obra é sua. Mas então é assim, tá nem aí, na carinha?

- É, se não gostou, coma menos. Meu tempo está terminando, tenho que assistir a uns macumbeiros do futebol antes de pegar o buraco negro das onze, se der tempo rirei também na sessão das dez e meia da Universal, os larápios gritando meu nome, uma diversão. Fiquei de almoçar com o diabo lá... tu não entenderia, outro mundo. Olho de longe as mandingas e me divirto muito, rolo de rir, por mim que se fodam também. Que todo o mundo se foda, entendeu? Tiau.

- Peraí, não vá..., se tu pode andar de um lado pro outro assim na maior facilidade, se me deu a graça de levar um lero, não dava pra me fazer um favorzinho, só um?

- Depende. Qual?

- Bem... é pequeno, eu... eu quero que morram todos os que não acreditam em Deus. Tá, tá, sei que sou ateu, mas adoraria que tu existisse, é diferente, ou tu gosta dos caras que dizem acreditar e fazem tudo ao contrário do que ensinou Jesus? Pombas, um favorzinho de nada... sei que não vai fazer isso, os incréus são os que acreditam, dariam tudo para acreditar... Senhor, francamente, deixa outro, por favor...

- Diz logo, estou me atrasando.

Opa, parou pra me ouvir, deu certo chamar de senhor. Fui por aí.

- Queria que o senhor, por gentileza, só para começar, serviço fácil, pensou e deu, matasse os donos e altos funcionários e âncoras de televisão. Pera, tem a turma de apoio... melhor assim: mate todos lá. Se desse, o senhor também poderia afogar os ruraralhos em produtos químicos, empalar os banqueiros, desaparecer as armas atômicas, fuzilar os...

- Eheheh, estava pensando... não sei de qual Jesus tu falou, já mandei tantos, mas gostei de ti, pra burro não serve. Não precisa listar a todos, li teus pensamentos, logo diria os corruptos, os grandes empresários que cresceram mamando, sei, lista comprida, tu não pede pouco, hein, meio atrevido... 

- O senhor me fez assim...

- É, tinha esquecido. Vou pensar no assunto, tem grandes chances de sucesso, também já ando cheio dessa gentalha, acho que exagerei na dose. Mas não conte que eu acabe com o Congresso Nacional de vocês, pois isto significaria matar esse povinho, o que não vou fazer.

Oba. Animei-me:

- Ahn, amado senhor Deus, pera só mais um instantinho... - eu disse num encabulado murmúrio, não queria arriscar perder o que já poderia ter ganho.

- O que é agora?

Falei miudinho:

- Não terminei o pedido, seu Deus... Agora é favorzinho de nada: poderia desintegrar todos os estádios do mundo, ou transformá-los em centros esportivos de colégios? E matar a todos os que tem mais de um milhão? Veja, olhe, o senhor pode, é tudo roubado, mas ainda estou deixando um milhão de lambuja, quem roubou só isso será poupado, é muito mais que razoável...

- Hummm... já está abusando, um pedido se transformou num monte, mas vou pensar... no fundo também ando com vontade, principalmente da segunda parte. Tiau, até a próxima.

Entreguei-me, arrastei os joelhos no assoalho chorando, e bradei:

- Não vá, não vá... só mais uma coisinha, pelo amor de... do senhor.

- Tu já está me dando nos nervos, haja paciência, vai, diz logo, o que foi desta vez?

- Pensei melhor, meu Deus, esqueça tudo o que falei antes. O senhor poderia apenas explodir o mundo, acabando com este horror?

- Ah, ah, ah... Como és bobinho. Não se tocou ainda? Essa tarefa deleguei a vocês, que, aliás, estão se saindo muito bem!


Acordei urrando sozinho no quarto, ensopado de suor.
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5 comentarios:

  1. Formidável, amigo Sala, gostaria de ter escrito isso, mas como talento não dá em poste ....
    Abração.
    P.S.: E o teu projeto de livro, como está? Espero que estejas "tocando", pois não tens o direito de não aproveitar este dom e esta inteligência que Deus te deu (sem trocadilho com o teu texto acima).
    Lucas

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  2. Oi, Lucas, grato pela bondade. O livro está pronto, mas ainda não procurei editora. Abração.

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  3. Muito bom ler esse texto...Quem sabe para o próximo livro. Primeiro será o Amor em Poa...ezsse farei questão de ler e divulgar. Abraços

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  4. Obrigado, Maria. Há dias... tu sabe. Bj,

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