jueves, 4 de diciembre de 2014

A dama de Copas que o Chitão me deu

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Seis da manhã e eu finalmente saí pifado no ligeirinho. Noite de terror, só perdi, o nego Chitão me olhava desconsolado do outro lado da mesa, saiu mal, e oito caras berrando e subindo a parada, sete deles de cumpa, imaginando que a gente não soubesse. Joguei tudo o que tinha, e olhei sério pro nego Chita, como quem diz azar, calça de veludo ou bunda de fora. Ele também foi com tudo, sabendo que estava perdido, mas para me ajudar.

Eu também de certa forma mancomunado com o Chitão, visto que eles mal disfarçavam o seu ajuste, levando a gente para bobo, mas só olhares para saber quem saiu bem ou mal, se descartamos por cima ou por baixo. Se ele ergue os olhos descarto um rei e ele bate. Mas nessa ele tinha saído com oito cartas loucas.

Ligeirinho é o pôquer brasileiro, para quem não sabe: oito cartas, vence com dois jogos feitos e um projeto. Os jogos podem ser trinca ou sequência, mas as duas restantes precisam ser sequência, ainda que com furo. Tipo um oito e um dez de espadas. Sem furo vale igual, um três e um quatro de paus mata.

Levantei as cartas e vi trinca de ases e sequência de copas da sete ao nove.

As duas fatais eram um par de valetes, copas e paus. Qualquer uma que caísse perto destas, do mesmo naipe, eu levaria aquele caminhão de dinheiro.

O quê, nega Zilda?
Me chamam de lá, depois continuo, vou trabalhar.
Pronto, levei meia hora mas acalmei a onça.

Continuando. Guri vivido, sabia que se eu saí pifado eles também, embaralharam mal contando com estatística, eu saindo bem contra oito (o Chita era meu, chegamos juntos) eles teriam mais chances de abrir antes. Levantei os olhos para o Chitão, mas não muito, torcendo para que ele entendesse que eu queria um nove (um de copas já queimado na minha mão), dez, dama ou rei de copas ou paus, ele deveria vir por cima ao descartar, mas nunca espadas e ouro. O seis de copas também serviria, pois me livraria o nove. Ele foi o único que saiu mal, e o provável é que viesse das mãos dele a morte ou a sorte, todos sabiam, pois soltou um palavrão ao abrir suas cartas.

Passei a mão no meu coração. Esperava paus, Chita me conhecia bem, coração é copas e pau-ferro.

Chitão pensou, pensou, uma eternidade, isso recém na segunda volta de compra e descarte... e atirou na mesa uma dama de copas, que casou com meu intrépido valete. O cara à minha direita gritou saí, ganhei!, quando então joguei minhas cartas na mesa: Saí eu, pela ordem, seu, pela direita. E levei aquele montão de cédulas.

Dividimos a grana lá fora, já longe. Iríamos festejar, ainda que sete da matina, mas antes cada um foi para a sua casa deixar o dinheiro, voltamos com pouco, e subimos para o cabaré da dona Bastiana. Eu de bobo, não comia ninguém, muito piá tímido, mas ouviria música olhando para as mulheres da vida, lindas, felizes com a gente pagando cerveja, elas com roupinhas leves que batiam milímetros acima dos bicos dos peitos.


-o-

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