miércoles, 10 de noviembre de 2010

Se Eu Morresse Amanhã De Manhã


Na noite passada, vendo a chuva acabar pela noite de Porto Alegre, o nosso amigão Walter Schumacher, violonista, apreciador de música, vinhos e mulheres, pela ordem que surgirem, nos lembrava um velho samba-choro, sucesso na década de 50, chamado "Ninguém me ama" (Antônio Maria/Fernando Lobo), que dispensa apresentação dado que só quem não ouviu ao menos uma vez na vida são os nenéns da creche Garoto Sapeca, da Rua da República. Ou talvez tenham ouvido...

O samba-choro suscitou lembranças e comentários sobre um dos seus autores.

Antônio Maria (de Araújo Morais, Recife, 17/03/1921 - Rio de Janeiro, 15/10/1964), entre outras coisas foi comentarista esportivo, cronista, poeta e compositor. Mais um esplêndido patrício, nascido em Pernambuco mas carioquíssimo, autor de muitas obras-primas como, mero exemplo, "Manhã de Carnaval", em parceria com Luiz Bonfá (outra glória nacional).

De Antônio, inolvidável o seu amor pelas mulheres, o gosto pela boemia, a inteligência, o bom humor e o charme, naquele Rio de Janeiro libertino dos anos 50.

A propósito de "Ninguém me ama", certa vez o nosso herói ficou falando sozinho. Em parceria com Ary Barroso, tinha um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você", na TV Rio, em 1957.  Maria provocava os entrevistados: perguntou a Sandra Cavalcanti, então candidata a deputada, se era mal-amada. A candidata respondeu à altura: "Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música 'Ninguém me ama'". Dizem que Antônio Maria ficou bebendo e rindo até alta madrugada por conta da presença de espírito da candidata.

Do seu diário de 40 dias apenas, em 1957, dá para pinçar coisas "inacreditáveis".

Sobre Di Cavalcanti e Oscar Niemeyer:

"Veio depois o Di. Estava bêbedo. Voltava de uma 'suruba' oferecida por Oscar Niemeyer aos arquitetos que vieram, da Europa, julgar o plano urbanístico de Brasília. Dez mulheres nuas. Di desenhou duas delas."

Sobre uma carta que Vinícius de Moraes lhe escreveu, depois de brigarem por causa de uma mulher:

"Vinícius me escreveu, de Paris. (...): 'Que diabo, meu Maria! Pegue um papel e me escreva uma carta bem terna, dizendo que não há nada, e esqueça os imponderáveis da vida. (...) Você me disse que a única coisa que poderia quebrar nossa amizade seria uma mulher. Eu estou certo de que nem isso'.
Acho que esta carta me desmagoou inteiramente. Escrevi-lhe, suponho que ternamente. Mas continuo achando que mulher nos separa; que mulher separa, querendo ou sem querer, quaisquer amigos."

Obviamente bebia muito bem e era mulherengo ao exagero, afinal era boêmio dos bons. Morreu do coração com apenas 43 anos (proclamava-se "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente, era gordo e não se cuidava nadinha).

Dedicamos o samba-canção que segue a Carlito Dulcemano Yanés, que anda mui aburrido por causa de mulher, enquantos os demais andamos pensando na Roda de Samba da esquina da Rua do Mercado com a Rua do Ouvidor (o ingresso é um litro de cangibrina não perecível).

De Antônio Maria, nas vozes de Clara Nunes e Nana Caymmi, "Se eu morresse amanhã de manhã" (entremeada com "Solidão", da Dolores Duran):
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De que serve viver tantos anos sem amor

Se viver é juntar desenganos de amor

Se eu morresse amanhã de manhã

Não faria falta a ninguém

Eu seria um enterro qualquer

Sem saudade, sem luto também

Ninguém telefona, ninguém

Ninguém me procura, ninguém

Eu grito e um eco responde: "ninguém!"

Se eu morresse amanhã de manhã

Minha falta ninguém sentiria

Do que eu fui, do que eu fiz

Ninguém se lembraria

2 comentarios:

  1. Sem sombra de dúvida que do sofrimento sempre nascem grandes músicas.
    Mas todos sabemos que sempre deixamos parte de nós nas vidas em que participamos nem que seja por pouco tempo.

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  2. É verdade, Sil. Vamos nos deixando pela vida, pouco a pouco, antes que tudo se apague. Grato pela comentário, sempre é de grande incentivo.
    Abraço.
    Sal.

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