jueves, 12 de junio de 2014

Tempos de bola

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Certa vez fomos jogar pelo time da Guarita, uma localidade famosa por ser área de proteção indígena, 23 mil hectares, da tribo Kaingang, no noroeste do Rio Grande do Sul. Aristides Fortes, Osni Vargas e eu, de Palmeira das Missões. De enxertos, para reforçar o time dos guaritenses. Osni deslocado lá pela ponta-esquerda e eu e Tide fazendo dupla no miolo da zaga. O Tide e o Osni fora de posição, mas numa boa, em conciliação, a moçada da terra até então titular não gostou muito de virar reserva de uns carinhas vindos de outro lugar. 

Fomos para conhecer um lindo recanto deste mundo, de um verde estonteante, maravilhoso, com seus riachos límpidos, e para ganhar.

Na primeira partida, de ida, o "nosso" time havia perdido em casa por 7 a 0. A guerra entre eles era fogo, a diretoria guaritense não se conformou, então fomos convidados e levados de Palmeira, tratados como reis pelo povo da Guarita, para o jogo de volta, lá não sei onde. Sacanagem dos caras da Guarita, buscar "boleiros" de fora, naquela de "agora eles nos pagam!".

Mas a sorte já andava bailando, o inimigo havia se adiantado na crueldade, a vingança antecipada, sem saberem o que o lado de cá estava tramando, sabiam que boa coisa não era. Estavam acertados com o juiz (que era deles, parente de dirigente ou algo assim, soubemos depois): era cair na área e pá, daria penalti. 


Entramos em campo com todos os olhos grudados em nós, os três rapazotes que não conheciam. Os atletas e dirigentes adversários ficaram furiosos, dava para ver de longe, mas frios, sabiam que o juiz era deles. E logo viram a que viemos. Ao final do primeiro tempo a gente ganhava de 4 x 0. 

O Osni, rápido e raçudo, arrumou muita confusão na área adversária. Mesmo Tide e eu demos de subir em escanteios, eu para saltar e ele para pegar o rebote, era um massacre, os outros sete, mais o goleiro, do time da Guarita, se empolgaram com a nossa presença, Tide e eu aqui atrás matando no peito, sérios, distribuindo. Na primeira bola desmoralizei o centroavante, dando-lhe um balãozinho de costas, quem mandou entrar corrido.

O Tide se adonou da meia-cancha, sua posição original, nem parecia quarto-zagueiro, orientando os companheiros para se deslocarem antes de passar, a turma foi aprendendo. 

O Osni botava fogo lá na frente, iam cinco em cima, pauleando, ele caía sem largar o porco, levantava, batiam de novo, para matar, levantava, fingia sair por aqui e ia pelo outro lado, se desvencilhava e conseguia: dava de bandeja para a turma fazer, no coração da área vazia. Tudo ia dando certo, todos jogando bem, iríamos meter de dez para cima neles, mas jogo muito peleado, os bichos não se entregavam fácil, e batiam até na sombra.

O jogo estava tão bom que resolvi testar algo que tinha vontade e nunca tinha feito: aparar de bicicleta um tiro de meta do adversário, devolvendo. A bola veio zunindo por cima e subi muito alto, a peguei de raspão, e caí de ponta cabeça lá de cima. Tide se assustou ao ver a queda, arregalou os olhos, correu e me disse, já aliviado, ao ver que não tinha quebrado o pescoço: "Qual é, Salazar, quer se matar?!". Não queria, não.

E nada de os caras conseguirem cair na nossa área em embate corporal, a gente chegava antes, tirava de letra. No início do segundo tempo o Tide prensou uma bola com o avante deles, dois metros fora da área, o cara vindo de sola e o Tide meio que tirando o pé (na catega, que tinha demais, mas firme, não era bobo), não precisava esforço para afastar, o outro perdeu o equilíbrio, caiu, e o juiz não teve dúvida, pá, penalti!

Um escândalo: Tide sofreu a falta, levou vantagem, fora da área, e o canalha deu penalti, na cara de todo mundo. Enquanto o Tide, braços abertos para o alto, fazia uma cara de o juiz enlouqueceu, eu corri em direção ao árbitro, reclamando da arbitrariedade, nem vi que um dos caras do nosso time, mais velho, bugre forte, atarracado, kaingang que era milico na Guarita, foi até a cerca, arrancou uma tábua e veio a mil para cima do senhor juiz, só vi quando ele desceu a lenha.


Acabou o jogo ali, fechou o tempo. Invasão de campo pelas torcidas, pau comendo. Eu queria entrar na festa, mas o Osni e um velho da Guarita me pegaram, me tirando da parte boa. O Tide alguém já tinha tirado.

Se fosse lá pelos lados dos vizinhos da Guarita, o juiz de Brasil x Croácia teria muita dificuldade em voltar vivo ao seu país.

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