lunes, 14 de enero de 2013

Olívio Dutra e nós, os loucos

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De ontem para cá, por conta de algo que li num jornal, não me sai da cabeça a campanha de 1988, para a prefeitura de Porto Alegre. Eu era filiado, não praticante, ao pecebão, mas nada tinha a ver com os comunistas daqui, mal os conhecia, pois filiei-me ao PCB em Niterói, no RJ, com foto, bandeira e hino nacional. Tinha enorme simpatia pelo PT (para melhorar, todos os meus amigos eram petesudos fundadores) e, quando a esquerda apresentou Olívio Dutra como candidato a prefeito, fui um dos primeiros, de fora dos quadros partidários, a me jogar de peito aberto na luta, na base do seja o que Deus quiser, vamos ver quem é quem.

Eu não aguentava mais, desde criança, ver a mentira e o roubo prosperarem, os risos dos múmios diante da miséria... Visitava presídios todo mês, em Natais e Dias da Criança era fatal, a moçada lá fica nervosa, dava palestras por conta própria, sem intervenção das otoridades, os apenados do Central se revezavam no convite, deixando um parente de fora, mas depois os carcereiros sacaram e facilitaram as coisas. Solito, entrava lá dentro onde os guardas não entravam. Vim passar este tal de Natal junto com vocês, companheiros, alguém aí tem um gole de marafa? Tinham muitos. Cigarro eu mandava de manhã, iria lá ao anoitecer. Havia um grupo de católicos que também ia, e queriam se aproximar, souberam do "menino", mas eles pelas mãos das otoridades, sujou. Gente fina, os crentes, mas o negócio era oficializado, por isto os mais ladinos - primeiro grau em diante - ficavam de pé atrás. Mania de mudar de assunto, é que ao lembrar dos ladrões de galinha trancafiados e dos gatunos de grandes negociatas de helicóptero, cem seguranças armados até os dentes, aclamados em jornais e televisões... um dia conto. 

Por alguma conjunção de astros, senti que era a hora, eu estava ganhando bem - tinha conseguido comprar um dois-quartos no Cristal, a Natividad aos 4 anos tinha casa própria, a Carolina idem, e eu andava botando fogo no Brasil. Chateado por ser repetitivo, é que aquilo me marcou, digo: para quem dormiu meses na rua em triste inverno e acabou como indigente na Santa Casa, pneumonia dupla e  muito mais (a primeira morte), depois morando de favor em fundos de cabaré, ter moradia era o máximo. Não é reclamação, Deus que não existe foi muito generoso comigo, muito, muito, mas não esqueço, não consigo.

Era a hora, Deus meu. E quando encasqueto com uma coisa...

Eu conhecia o Olívio, até já tínhamos aperitivado juntos, por obra do meu mano e compadre Gilberto "Pato" Saldanha Martins e dos amigos Ivens Biancón de Almeida e Roni Silveira, funcionários do Banco do Brasil e próceres da nossa turma de aperitivantes em bares nos fins de tarde, geralmente nos já extintos Pampulha da João Pessoa e Dona Maria atrás da Praça XV, e no próprio Chalé da Praça XV e no Naval do Mercado. Mas de longe, tu lá e eu cá, não me perguntou nada e eu sequer dei a mão, não me ofereceu também, não ficou me olhando de zóinho à procura de concordância com o pouco que falava. Sou reticente com políticos, detesto-os para ser franco, com aquele olharzinho da rameira que se mata para ser agradável, mirando teu voto e por tabela teu bolso, para perguntar depois te agradei, bem?, eu, hein, mas nesse caso gostei, na verdade me ganhou para o futuro e no futuro não se desmereceu. Era e agia somente como mais um camarada, bom, simples, sincero, nada mais. Naquela época o PT tinha muitos políticos bons, dava muitas mãos de cinco dedos cheias, hoje se der uma é muito... mania de mudar de assunto.

Aquela turma do BB era foda. Verinha Abreu, Xavasco, "Maurri" Meurer, Sidnei Ordakowski, Ivoran, Wilson "Schiru", tantos, tantos... Mais os que como eu não eram do BB, como Idália Martins, Chico Hypólito da Silveira (doçura de homem, botando fogo no Morro Santana e em toda a zona leste, ele e outros loucos deram 75% Olívio na hora do vamos ver), Walter Schumacher, tantos. Isso de citar nomes acaba em injustiça com amigos.

Eu era o "menino" entre os confrades, com injusta fama de ser louco de atar. Aparecia pouco, pois viajava muito por este Brasil, cumprindo tarefas de auditor independente - uma pauleira, era um tal de descer de ônibus e subir em avião, e noutro avião, certa vez fui parar, de barco, na Ilha de Marajó. Por falar nisso, uma vez o dono da empresa onde eu trabalhava me chamou de louco, para não dizer que nunca ninguém de fora, mas foi em outro sentido: eu, 35 anos, era chefe da equipe de auditores (tudo homem de 40 pra cima, quem corria menos voava, ponta dos cascos), em Brasília, decidi ressalvar o parecer do BB, aí ele me chamou: Meu, tu é o nosso gerente de operações especiais e seguirá sendo, mas a partir de hoje não vai mais em empresas de amigos, tu é doido. Pera aí, ganha 40, deixa ver, te passo para 50 salários mínimos, mas baixa a bola, já chega eu ter que explicar aos meus bandidos que um dos meus melhores homens é comunista. Amigos são os dentes, respondi, e por vezes mordem a língua, e me demito. Mas depois entendi perfeitamente o que já sabia. Em certos conglomerados só entram auditores amigos, quando entram, pois preferem as múltis norte-americanas de auditoria, péssimas em tudo, de modo que o Tio Sam sabe coisas antes do nosso presidente. Mania de mudar...

Eu amava aquele velho meu chefe, nunca me mentiu. Morreu no dia em que eu deveria começar a criar juízo, meus 40 anos. Ora, juízo, eu tinha 90, na burra comparação que eu fazia ao ver meus semelhantes donos do Brasil. Para alguns negos véios, em certos aspectos, eu tinha 12, mas eles jamais me diriam isso, o que faziam era apostar no "guri", vai! Meta o pé pela gente também! Doce ilusão.

Bem, verdade que ao voltar a Porto Alegre chegava um tantinho excitado, saudoso das noites e madrugadas da Portinho, o que acabou quase custando meu casamento de amor. Calminha aí, guria, eu só estava olhando o horror que mora lá fora.

Antes que alguém pense que o Olívio era dado à boemia, esclareço: papeava com os companheiros, tomava seu aperitivo, normalmente às sextas-feiras, e antes das 8 da noite tirava o time, pegar o ônibus, a família o esperava em casa, Judite finalizando a bóia. Ia embora cedo como a maioria, não viviam viajando como eu, os espertos, tinham todos os dias que quisessem. Ficávamos eu e alguns poucos, incluindo o Pato, que por vezes aguentava até a meia-noite, este porque sempre tínhamos assuntos em demasia, família, coisa e tal. Coisa mais boa quando acabávamos cantando: "Vende-se um apartamento, bem no centro da cidade, a um preço de ocasião, por motivo de saudade".

Na campanha, a direita, isto é, os larápios que até então mandavam em tudo, andou espalhando que ele era pinguço, no pior sentido, vício em álcool. Só rindo: encharcavam-se de uísque em ambientes finos, longe dos olhos do povo, e vinham com uma bobagem dessas, porque o Olívio tomava o seu traguinho como todo mundo, com toda a população passando e assistindo, como no bar Naval, em pleno Mercado Público, sem jamais perder a sobriedade. Existe maldade neste mundo, e como.

Ali eles erraram feio, com seus publicitários de mesma índole, pois nesses assuntos a massa não é trouxa. A estúpida calúnia fez com que muitos chefes de família, gente humilde, passassem a senti-lo como "dos nossos", uma gota de revolta foi plantada em seus corações. Foi aquilo que chamamos tiro no pé. Sabiam que o Olívio não era pinguço, nem "cheio de pose", nem falso ou mentiroso, muito menos ladrão. E isso foi se espraiando, sabem como é, o nego pai véio chega na vila sexta-feira, vindo do batente de limpar banheiro, antes uma passada no Mercado Público rever os velhos amigos diante de uma pinga, e já em casa fala bem do bigodudo..., a turma conhece o velho pai, isso pega forte na moçada em geral, boêmios e cdf's. 

O povo começou a conhecer o Olívio. Um homem culto, de uma simplicidade de hábitos comovente, educado, que sempre tratou a todos, rico ou pobre, do mesmo modo. Desde que a recíproca fosse verdadeira - não se fala aqui do véio pai aquele, que jamais viria azarar, o povo humilde não é assim -, se não se transformava no tigre da Bossoroca. Enfim, um Homem.

A história da campanha de 1988 merece um livro - ou  coletânea, de uma série de uns vinte de cem páginas, algo parecido -, escrito por muitas mãos, com múltiplos ângulos de visão. Talvez já o tenham escrito, não vi. 

A minha visão sobre aquela epopéia ainda virá, quando eu parar de alegar a mim mesmo falta de tempo. Quiçá esteja chegando esse tempo, os 24 anos passados podem ajudar a curar eventuais picadas em suscetibilidades, e começo a ficar ansiado com os rumos... 

Picadas aqui em Porto Alegre, pois sobre os paulistas da "Execa" na época eu já dizia que lá havia uma tropa de jaguaras. Alguns aqui se doíam. Era o máximo que poderia dizer, sem contar de onde tirei aquilo, ninguém sabia exatamente no que eu trabalhava. A isto se deve, em parte, a fama de "louco", que pobres almas, nunca os meus amigos, me imputavam. Não deu outra, quando eles começaram a se enfiar em Porto Alegre...

Mania de mudar de assunto. Voltando...


O Olívio amargava um quarto lugar nas pesquisas. E a Ku-Klux-Klan já achava isso surpreendente. Por falar nisso... a Dilma, um ano ou dois atrás, andou convidando um dos chefes da KKK para ser ministrão. Pensei em me matar, ou cortar o pau, ou estripar o Lula, mas congelei, tudo passa.

Mania de mudar de assunto.

Certa noite, pelas nove, eu chegado de viagem à tardinha, ainda de terno e gravata, chapéu bogart, vinha pela rua, entregando santinhos e entrei solito numa pizzaria da Venâncio Aires, para panfletar e sortear uma camiseta do PT, que eu e os guerreiros antes nominados comprávamos em dúzias para ajudar os cofres do partido na eleição. As camisetas eram simples, com desenhos feitos de graça por artistas militantes, algumas com caricaturas bem-humoradas, mas acima de tudo tinham algo que as dos adversários jamais tiveram: a emoção da idéia de tentar mudar o mundo, e tínhamos de começar por algum lugar. Que lugar seria esse, senão a nossa cidade? 

Na pizzaria havia muitas mesas da mesma turma, comemoravam algo, os rapazes todos embecados. Dois deles com adesivos do PT abaixo da lapela, no lado do bobo. Convidaram-me e sentei, estava morto de sede. Quando me serviram cerveja, dizendo que todas as que eu bebesse seriam por conta deles (a inocência dos pobrezinhos, nunca tinham me visto beber, levei na esportiva e depois, quando se tocaram, rimos muito), não sorteei camisa nenhuma, dei as 15 que me restavam na sacola, se virem aí, camaradas, são todas do mesmo tamanho.


Quase meia-noite, e quando dei por mim liderava a turma de formandos em Direito, com namoradas, namorados e seus amigos, familiares, em desfile pelo meio da Rua José do Patrocínio, então principal reduto da boemia, em direção ao Centro. Na frente, ao meu lado, os dois rapazes inesquecíveis, garrafa de cerveja na mão, com palavras de ordem em cantoria. Por onde passávamos, vinham aplausos e gritos de apoio, muitos se juntando ao cortejo. Vez em quando eu parava, empurrava o chapéu para trás, e lá ia o discurso em frente aos bares: 

"Dizem que somos loucos, pessoal, porque queremos mudar Porto Alegre! Dizem que somos loucos porque queremos mudar o Rio Grande do Sul! Nos chamam de loucos por querermos mudar o Brasil! Pois estão muito enganados, não somos loucos, não; eles nos subestimam, os malvados: somos é muito loucos!, pois queremos mudar o mundo!".

Uma festa, até supostos adversários não continham um sorriso. Fomos até o final da rua. Na volta, pelo mesmo caminho, éramos uns trezentos na canção:

"Vai dar Olívio, vai dar Olívio, olê, olê, olá...".

Éramos Olívio, mas antes éramos nós. O Olívio mostrou-se digno de nos representar. Nós sustentávamos a opção, nós pegávamos em bandeiras, de graça, nós lhe aumentamos a coragem. Não como os coitados, eleitores dos outros, fodidos e mal pagos, acenando aquela bandeira chocha, que nada significava a não ser o tacão, por dez contos e lanche. A gente pagava para acenar a bandeira. Este parágrafo todo mundo hoje sabe.

No outro dia não tive dúvida, contei ao Pato o ocorrido na José do Patrô e arrematei: "As pesquisas mentem, meu irmão, o Olívio deve estar embolado em primeiro. Podemos até perder, mas não así no más". Aí tirei uma semana de férias e fui para o ataque, fazer fuzarca na área deles.

Ao tempo em que eu e a rapaziada incendiávamos a Cidade Baixa, movimentos semelhantes - soube depois - explodiam no Partenon, nas Cefers, na Tinga, na Zona Norte, no Sarandi, em todo lugar, uns mais acentuados, outros menos, os menos sabemos onde. Na Leste o Hypólito já não dormia mais, a ferro. Aquilo era novo, alma nova, que foi crescendo... o íntimo das pessoas, as tripas, indo para a rua. Ninguém ousaria ridicularizar-nos. Que tentassem. No dia seguinte, meio Menino Deus já tomado, um passante da Cidade Baixa contou aos da Glória, duas moças da Tinga contaram aos moços da Serraria, os emudecidos de Teresópolis sorriram e foram saindo para a rua, e foi aumentando... Aquela tirada do muito louco correu como rastilho de pólvora entre a moçada, acabou o Roberto Freire, então aliado, me imitando num comício. Faltou o meu chapéu, otário.

Almas em corpos vivos.

Vai o texto. 

Ah, antes: todos sabem o final da história, mas aos que chegaram agora não custa repetir. 

Os institutos de pesquisa mexeram em suas previsões, com evidente relutância - a pele deles em jogo -, para terceiro colocado. Aguentaram até a véspera da eleição, quando foi para segundo. No dia 15 de novembro não teve jeito, na boca de urna os canalhas entregaram os pontos, era isso ou a desmoralização total. Desmoralização é um exagero de minha parte, pois sempre foram e sempre serão uns desmoralizados.


O textinho que me fez voltar no tempo: da lavra de um grande jornalista e escritor brasileiro, de inegáveis méritos.

Diz pouco, para mim e muitos outros "loucos" e encasquetados que fomos com a cara e a coragem, que muito dançamos com a lutadora Judite em galinhadas de arroz - tipo um pedaço de penosa dá um grito e o outro não ouve - em arrecadação de fundos. Mas as palavras do jornalista são um bálsamo: o que fizemos não passou batido, e, ao apostarmos todas as fichas, não erramos de homem.



Don Corleone orienta o comissariado



Por Elio Gaspari, em 13/jan/2013


Num momento luminoso para o PT, o companheiro Olívio Dutra, fundador do partido, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, disse ao deputado José Genoino: "Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tens dentro do partido. Eu acho que tu deverias renunciar. Mas é a minha opinião pessoal, a decisão é tua. Não tenho porque furungar nisso".

Dias depois, o comissário André Vargas, secretário de Comunicação do partido, disse que Olívio fora "pouco compreensivo". E mostrou a faca: "Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. (...) Ele já passou por muitos problemas, né?"

Engano. Durante o governo de Olívio Dutra, o PT gaúcho foi apanhado numa maracutaia, mas ele nunca foi acusado de envolvimento direto no caso. Processo judicial, nem pensar. Genoino e seus colegas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Olívio Dutra é de um tempo em que petistas rachavam apartamento em Brasília (seu parceiro era Lula). Quando deixou a prefeitura, voltou a ser um bancário. Com seus bigodes e uma bolsa tétrica, anda de ônibus. Passou por problemas, mas nunca passou pelas soluções dos comissários de hoje.

A resposta de André Vargas indica que, no PT 2.0, uma pessoa com a biografia de Olívio é um estorvo, tornando-se necessário colocá-lo ao alcance de qualquer suspeita.


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NE: Para que ninguém imagine "interésses": pessoalmente nunca mais vi o Olívio, desde 1989. Falei por telefone em 1992, quando morreu meu amado mano de infância Pato Martins, desabei. 

Em 1998 voltei às ruas, novamente a solas, na guerra que se travou pelo governo do Estado. Fui o primeiro a ser preso, às 7 da manhã do dia da eleição, de terno, chapéu atirado pra trás, gravata arregaçada, barba por fazer, dando discurso numa parada de ônibus no fundão da Av. Oscar Pereira, a la payador Jayme Caetano Braun: "Meus irmãos de território..., aqui sou eu, que venho de um lar humilde, talvez mais humilde que o pior de vocês, sou um milagre, por estar aqui, e nas minhas andanças vejo coisas, e tenho coisas a lhes contar...". E contava mesmo. Os de verde me soltaram em seguida, quando um, que tinha sido guarda do presídio, me reconheceu, É o "Dr. Sala", dos nossos, e me deixaram na frente de casa. Peguei mais material e voltei, recomeçando daquela parada, e de parada em parada fui até às 5 da tarde. Da noite da vitória, pernas moídas, guardo um dos momentos mais emocionantes da minha vida, quando, todos reunidos num bar da Rua da Olaria, afogados em chope gelado, de repente não sei o que me deu e comecei, chorando, a fazer a chamada dos companheiros que haviam partido, e a cada nome o pessoal respondia em uníssono: presente! 

Em 1999 e 2000 trabalhei para o governo, sem filiação partidária, a pedido de uma senhora que nunca tinha visto, a Sra. Dilma. Entre tarefas mais complicadas (rastros que me levaram ao paraíso do Chipre), a seu pedido representei o Estado do Rio Grande do Sul, como Conselheiro Fiscal, na CRT já privatizada, os  advogados da múlti vacilaram - rapidamente alertei a Dilma e ela pegou no ar e foi por mim, é ligeira - e emplacamos o posto com base no artigo tal da Lei e tal do Estatuto. 

O mal já estava feito pelo governo Britto, mas votei contra a incorporação pela Brasil Telecom com pilhas de documentos, custosos de obter mesmo com o poder de um conselheiro, a maior parte negados, mas sob protocolo. Naqueles tempos, por coincidência, andei recebendo algumas ameaças. Contrariando as ordens insinuadas, são escorregadios, de parte da cúpula do PT, ela foi na Assembléia e seguiu meu voto, me respeitando. O chefe do Sindicato dos empregados calou-se, jamais vou entender as suas razões, não as declinou. Logo viria a enxurrada de demissões. Na saída nos abraçamos, ela emocionada, disse algo como "No fundo fiz bem, o Brizola não merecia a gente consentir". Em termos, pois se fizesse diferente, no outro dia eu jogaria na imprensa todos os documentos, com protocolo, a pilha toda, mas valeu, ela não é mal-agradecida, ainda reconhecia a valentia de Brizola quando estatizou a companhia, arrancando-a a pau dos estrangeiros. Nos demos tiau, estamos aí, ela subiu a Borges de Medeiros, voltaria para a sede, telefonar, falar com seus colegas, eu botei o chapéu e desci dar uma relaxada, tomar um chope no Chalé, sozinho, precisava pensar se alguém iria mesmo tentar me matar.

No segundo chope concluí que não iriam, mas não por falta de vontade, é que eu, assustado, havia tomado algumas providências para o caso de ser atropelado por "acidente". Aprende-se muita coisa nas visitas de benevolência ao presídio central e aos campos de Charqueadas. 

Passados dois ou três anos a PF prendeu certo diretor-presidente da múlti. Para mim todas as portas foram se fechando, isso faz parte, pensei, como ela iria saber. Um dia peguei um câncer desgraçado. Como nunca guardei dinheiro, uma alma boa me ajudou (AQUI). Ninguém deles, nem ela, sequer me telefonou, como iriam saber, supus. Mas estes últimos parágrafos são tema para outro livro.

Mania de mudar de assunto.

Ah, obviamente que o Olívio, empossado Prefeito em 01/01/1989, seguiu comparecendo ao Naval no final do expediente, à tardinha, sempre que possível, depois da tormenta do primeiro ano de governo, para bater um papo com a tigrada e tomar seu aperitivo, antes de pegar o ônibus para casa. Que carro oficial, seguranças, nada... Ficou até mais fácil ir ao bar: da Prefeitura ao Naval é só atravessar a rua. Alguns colas-finas estranhavam: nunca tinham visto um prefeito, em mangas de camisa, tomando um liso com a massa, em bar popular, sem alarde, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Deveria ser, ensinou Olívio.

No Baile da Cidade, no meio do Parque da Redenção, instituído pelo governo Olívio, nada de mesa da "diretoria", o Olívio ficava lá, com a Judite, numa mesinha de plástico igual às dos demais. E segue o baile.

Mudando para mala, vou escrever o tal livro sobre 1988, com um mínimo de passagens tristes, mas em exaltação à esperança, naquele momento único na trajetória do Porto dos Casais. 



4 comentarios:

  1. AINDA ESPANTADO, esta ´´e uma bela historia vivida, o tema merece,vou aguardar o livro.. Maria

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  2. Oi, Salitito, saudosa. De novo eu na Portinho, Paris está gelada, cinco abaixo de zero, brrr.
    Estamos rindo muito da "injustiça" em te chamarem de loco. Meu primão Pierre me contou que uma vez um lindo muito parecido contigo, pilotando um trator às 4 da madrugada, atou uma corrente em um bar à beira rio, em Ipanema, os donos seriam uns traficantes que tinham o tratado mal. E levou abaixo bar e tudo. Desceu do trator e foi ter uma conversa com os donos que naufragaram com o barzinho, com uma coisa de 38 kilos em cada mão. Foi isso, concluiu o Pierre, o confundiram com outro. E deve ser por isso que aboliram os bares naquele local.
    Huahuahua.
    Besitos

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  3. Oba, sumida.
    Certamente foi o sósia. Sério mesmo.
    Besitos, apareça aqui na palafita. Te ligo.
    Gracias.
    Sala

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  4. Grato também a ti, Maria, única que sempre deixa um recadinho aqui.
    Sala

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