viernes, 20 de septiembre de 2013

Maragato

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Despeço-me do 20 de setembro, que nada me diz em consciência pura, mas diz no sangue que ferve, lembrando o lugar onde eu ia com meu pai, à noitinha, para reverenciar os pobres como nós mortos. 

Mal me lembro. Sei que era longe e íamos de a pé, dando voltas, e voltas, e voltas.

As cruzes ficavam depois de um túnel de árvores e matagal, num lançante perto de onde morou depois Pedro Fagundes. Passado o mato fechado, a gente de repente passava raspando por uma brecha de árvores e chegava no lugar, amplo, apesar da vegetação que invadia o espaço: estávamos no bojo do túnel, de teto verde cerrado. Uma visão, a fósforos, de deslumbrar, na primeira vez quase caí de emoção mesclada de medo, era muito pequeno. Nas outras vezes quase caí de novo, já sem medo. Hoje eu cairia, tonteio ao lembrar as velas, as cruzes, ela ao fundo, em cima. Caí ao lembrar.

Fomos anos seguidos, desde que me lembro, na última eu tinha nove anos, mas íamos desde os três ou quatro, ele me levando pela mão, com ar sisudo de ritual de homens. Na última não foi pela mão, com nove já era galinho, fomos lado a lado, em silêncio, dando as voltas de despiste.

Custei a entender a visita às escondidas, mas obedecia ao pai, nunca contei para ninguém que íamos velar os maragatinhos, ele me proibiu. No início eu nem sonhava o que era isso de maragatinhos.  A mãe um dia me contou de rapazes pobres que foram assassinados numa guerra, mortos covardemente por forças superiores, mas eu não podia contar para o pai que ela me disse. Aos oito anos ele me contou.

Muito depois é que soube que vivíamos numa ditadura cruel, por isso o pai me levava à noite ao santuário perdido.


Ao chegarmos, era breu, noite fechada. Ele acendia um fósforo. Pelo brilhozinho vermelho eu via as velas derramadas naquele recanto do fim do mundo. Tantas eram, de todas as cores, que percebi que muita gente vinha ali. Havia flores novas sob as pequenas cruzes, em cima do montinho já baixo. Lá adiante ao fundo brilhavam os olhinhos, grandões para o seu corpo, luz de calma, da única companheira presente em todas as vezes que fui. 

Às vezes sonho com ela, com seus olhos azuis espantados e esperançosos, aí é sonho bom, muito diferente dos pesadelos. Minha primeira namorada foi ela, a quem eu mirava para voar um pouco, eu não sabia mas sentia que era pesado o fardo do meu pai. Não sei se o pai a via, era de poucas palavras, nunca falou, mas secretamente dei-lhe nome: Carmen.


Ele acendia uma vela branca, ajoelhava, parece que falava, hoje imagino que com o pai dele, o avô que não conheci. Plantava outra, esta tu acende, Toninho, diz "Pro meu vô querido", e me dava a caixa de fósforos, acenda com calma meu fiinho, eu acendia e dizia pro meu vô querido. Nós dois sozinhos de joelhos dentro daquela solidão de plantas e cruzes sem nomes, lá fora a escuridão assustadora, e o pai só levantava quando as velas estavam derretidas, as pontas ameaçando morrer.

Um dia ele me disse que aprendera com o meu vô, que tinha aprendido com o pai dele, que a gente deve homenagear o sangue derramado, não entendi direito, mas era o nosso sangue. Perdemos vinte da família numa guerra. Fiquei boiando, minha família era ele e a mãe, não conheci avôs nem avós. Nem retratos tínhamos desses outros de antes.


Hoje sei, pai.

Sou maragato, lenço vermelho, mas tento ser diferente daqueles nossos pobres irmãos, paus-mandados pela ignorância, tento recuperar o sangue que se esvaiu, que ensopou a terra, para poucos traidores enriquecerem com ele.

Temo apenas, meu velho, que meu sangue vá se somar aos daqueles moços. Mas não tem nada, calça encarnada, que vengan.

Sabe, meu pai, as coisas comigo não deram muito certo. Sou maragato outro, ninguém me manda. Ando mal porque depus as armas: a adaga, o 38 e o 45. Sei que não adianta matar meia-dúzia de bandidos, são muitos os ladrões de gabinetes, pior do que antes, os despojos das suas vítimas estão por toda parte. 

Hoje me contento em não permitir que me toquem nem levantem a voz, ninguém, impunemente não. Sonho com as cruzes dos maragatinhos. Não consigo mais dormir, pai. Não fui eu que errei.

Depois de 45 anos hoje fiz uma visita às cruzes abandonadas, mentalmente viajei centenas de quilômetros e entrei em noite fechada naquele ermo do nosso passado. Acendi um fósforo, para logo sob a luz trêmula e fraquinha das velas cair de joelhos e rezar, pedindo ajuda, força e sabedoria, pois não aguento mais.

O senhor me desculpe, mas não tive a quem levar pela mão, alguém que me salvaria a vida pela simples presença do nosso sangue ainda em flor.

A ave noturna não estava lá. O que será que aconteceu com a minha Carmen, que por longos anos me velou e me deu forças? Passei a vida sonhando que ela se transformaria em menina, depois em mulher. Morro de saudades dela, linda de capa marrom vista à noite, camisa branca, séria, com aqueles olhos grandes, azuis, sinceros, olhos que o mundo, ao fim e ao cabo, me negou.

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3 comentarios:

  1. Maragatos Sompa Todos Agora, Mesmo Q Tenhamos Envergado O Branco Enganados.

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  2. Emocionante meu irmão...vc é das " Letras" .
    Não sabia essa aventura e coragem do nosso pai e de você. Apesar de eu ser a mais velha, menina naquela época ficava em casa...

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    1. Grato aos amigos Anônimo e Maria.
      Talvez tenham ouvido falar desse lugar, os Maragatinhos, o povo simples ia à noite, a maioria de madrugada.
      Eu ouvi falar. Talvez já não exista.
      Abraço.
      Salito

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