martes, 11 de enero de 2011

A praia do Hans

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Sr. Hans

Eu havia me prometido ignorar os seus comentários. Mas como estou em férias...

Para detestar praia (foto: a tranquila praia de Torres, RS), caro missivista, só quem sofra de alguma moléstia que a areia, o sal, o iodo ou a cara dos turistas de ocasião agrave.

Imagine: sem tranqueira de trânsito na ida, lá dentro e na volta, sem bares e restaurantes ladrões e sem o azar de tropeçar em algum maldito político se borboleteando por lá (vá para Cancún queimar o nosso, seu vadio). Sem milhões de pessoas berrando, bebendo e comendo coliformes fecais. Sem alaúza, filas, aglomeração, sertanojos, seringas, cloridrato de cocaína em pó, sujeira por todo lado, buzinas, tiroteios... quem não gosta? 

Em praia mesmo, ah, o início da manhã e o fim de tarde são incomparáveis, aquele imenso azul, nadar, furar onda, caminhar na areia molhada de mãos dadas com Dolores... Bebidinhas supergeladas, comidinhas limpinhas, preço justo... As noites frescas, música boa no ar "Tender is the night/ So tender is the night / There's no one in the world/ Except the two of us",  a caipirinha, o churrasco, aquele passeio sob o céu estrelado... A rede para dormir. Buenas noches, compañeros.

Isto é que é vida. Anos atrás se achava cantinhos assim por aqui, raridades. Agora não sei. Alguém sabe de algum?

Isto posto, seu Hans, vamos ao seu recado. Como diz João da Noite, parodiando um humorista da antiga (Walter D'Ávila?): "A inguinorança é que astravanca o progréssio".

Tem coisas, seu Hans, que se sabe intuitivamente. Vamos tentar explicar sem complicar mais o neurônio que o senhor possui, há que se pegar leve com essa preciosidade.

Para questões simples de lógica não são necessários estudos específicos. Ah, a Lógica trata da validade ou invalidade da argumentação, caso lhe interesse estudar. Tem um livrinho, de um tal de Aristóteles, chamado Organom, que começa a falar dessas idéias, mas evitemos essas velharias.

Se eu digo que "os chatos e barulhentos de Porto Alegre estão todos na praia neste verão", é óbvio que, nas circunstâncias, envolvendo a maior parte da população, é falso. No caso, entre outras barreiras, noções de estatística jogariam por terra a afirmação. O senhor pode ter perdido o ônibus naquele dia.

Sem aprofundar o raciocínio, pense apenas que estão na praia todos os chatos e/ou barulhentos que puderam ir, isto é, a esmagadora maioria. E não pense que esses tais são os pobres de paris das nossas vilas, negativo, estes são educados. O diabo é a classe mérdia e os hijitos de papi (nem todos, seu, nem todos...).

Talvez os colunistas da Zero Hora tenham sido solidários com o senhor, perdendo a condução. E agora, este "os" significa todos ou somente um universo de minha escolha?

Em outro aspecto, faça um esforcinho para livrar a cara dos praianos: a oração não quis dizer que todos os que vão à praia são chatos e barulhentos. Carlito Yanés, por exemplo, adora praia e vai sempre que pode. Nas pegadas de Ju Betsabé, é verdade. E eles não são chatos ou barulhentos. Note a subjetividade: trata-se do meu olhar sobre Carlito Yanés e Juliana Betsabé.

Pensei em ilustrar esta nossa conversa com o cretense Epiménides, que há 2.600 anos era considerado o pai da mentira pelos invejosos de sua época. Ele vingou-se aplicando-lhes um probleminha que pode ser apresentado assim:

Era uma vez um acusado que disse:

“Enquanto a minha mentira não for desvendada, continuarei mentindo.”

Em seguida o juiz disse: “Se o acusado mentir, seu advogado também mentirá.”

Por fim o advogado disse: “Quem for capaz de desvendar a minha mentira dirá a verdade.”

Qual deles está mentindo?

Passaram anos e anos pensando, fazendo cálculos (há quem diga que da repetitiva e inócua discussão começou a surgir uma pontinha do método dos mínimos quadrados, que veio a mostrar-se mesmo 2.400 anos depois).

Como sabe a filósofa Betsabé, isso leva a um labirinto de nenhures, mas ele conseguiu o que queria: rachou a cabeça dos seus detratores.

Melhor deixar Epiménides para lá.

Outro exemplinho de tudo errado:

Os babacas bebem.
Hans não bebe.
Logo, Hans não é babaca.

Tudo falso, não?

O que tanto lhe incomodou na frase é o "os", com idéia de totalidade, reafirmado pelo "todos". Foi somente provocação, seu Hans, brincadeira, homem de Deus. Como já falei alguns não vão à praia, preferem ficar torrando a minha paciência, ou vão para a serra. Ou para a tonga da mironga. O Juremil (compre meus livros, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, uau, uau, uau...) não creio que vá para a praia, e tem neste mundo bicho mais chiclé?

À praia foram os chatos e barulhentos que conheço, nem todos, além daqueles imbecis que passam com o som do carro no limite do estouro dos tímpanos, tocando pagode ou sertanojos.
O senhor tem som no carro, Sr. Hans? Esquece.

Está bem. Fiquemos assim: nos fins-de-semana, 99,99% dos chatos e barulhentos de Porto Alegre estão em Tramandaí, Capão da Canoa e Torres.

Melhorou?

Abraços.

Salito

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6 comentarios:

  1. Depois dessa, fiquei mais feliz por estar em poa.

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  2. Arena del Sur caliente
    que pide camelias blancas.
    Llora flecha sin blanco,
    la tarde sin mañana,
    y el primer pájaro muerto
    sobre la rama.

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  3. Saquei mais ou menos, quer me ofender lulú. Fala seja home, isso que tu quer????. Se for 95 porcento os caras?

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  4. Bingo!, Hans. O papel aceita tudo. Há que se questionar, não existem "verdades" impostas goela abaixo. A estudo de Lógica pode auxiliar, afinal nem todos somos dotados de cérebros como o do Aristóteles. Você sabe da máxima que para o povão "deu na Grobo" é verdade, né?. E é tudo mentira. Isto, 95%! O restante se mandou para Atlântida. Abraço!

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  5. Sem dúvida o texto está muito bom ! Gostei...

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  6. tou esperando a relação que tu prometeo lá no palmeiro 1. se esqueceu eu sei, rico nao tem tempo.

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