domingo, 9 de enero de 2011

A milonga dos vencidos

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Falta alguém no palco

Nervosismo no palco da Reitoria da URGS em Porto Alegre. Estamos em 1969, é o momento da apresentação da música tropicalista Ontem, Hoje, Sempre, de Raul Ellwanger. Ali estão Telminho, Nana, Paulinho, Maria Teresa, está Homerinho, estão quase todos do grupo Os Redondos, mas falta alguém. Falta o próprio compositor. O que terá acontecido?

Semeando um novo momento musical

Desde o começo da década de 1960, vinha crescendo o movimento musical em Porto Alegre. A febre da bossa-nova, com alguns festivais interessantes, a fissura do roquenrol espalhando-se pelos clubes de bairro, a divulgação feita por jornalistas e radialistas especializados (Osmar Meletti, Osvil Lopes, Paulo Deniz, Glênio Reis, Vanderlei Cunha, Marcos Faerman), a excelência musical dos conjuntos melódicos que animavam bailes, tudo parecia preparar a eclosão de um novo momento e um novo patamar para a música feita em nossa cidade. Pouco faltava.

Esse pouco que faltava apareceu com o sucesso dos festivais de música competitivos e programas especializados em música da TV Record, por um lado. Por outro, a crescente ação política dos estudantes também encontrava uma válvula de expressão para seu descontentamento na música, nas rodas de som, nos encontros dos Diretórios Acadêmicos e, por fim, nos grandes festivais de 67/68/69. E os dois grupos de comunicação locais (Caldas Junior e TV Gaúcha) fizeram sua parte, ao levar ao grande público aquele movimento que já não cabia em seus estreitos limites.

Sentimento “estórico”

Vou relatando aqui alguns aspectos de minha experiência pessoal no movimento musical de Porto Alegre, na segunda metade da década de 1960. São impressões parciais, polidas pela seleção da memória e pelo esmeril do afeto. Nada objetivas, relatam fatos verdadeiros filtrados pela interpretação que o tempo gerou. São uma espécie de sentimento “estórico” que me ficou. Seus equívocos fazem parte do meu ângulo de olhar e avaliar fatos reais através do filtro da cabeça e do coração. Sei que os fatos foram únicos, o sentimento foi único e não há como renová-lo, sei que cada um dos que ali esteve faria agora um relato diferente, mas a coisa funciona assim mesmo, cada um é escravo de sua própria cabeça e coração. Talvez por isso eu escreva agora este relato, como uma “estória” escrita por seus atores, ditada pelo sentir de um dos atores, e não pela versão dos vencedores como é habitual.

Época agitada

Nosso país viveu anos de muita movimentação cultural e política após o golpe de 1964. No âmbito da classe média, os estudantes secundaristas e universitários estavam em permanente agitação. Ligar a ação política com eventos musicais de massa era uma tendência natural, e assim ocorreu em nossa cidade.

Desde os pequenos eventos secundaristas, até recitais grandiosos em ginásios (como no Grêmio Náutico União, com 5.000 pessoas e xou de Elis Regina), esse momento de efervescência cultural e social mobilizou milhares de jovens da classe média urbana. Numa época em que nos quatro cantos do planeta a juventude ampliava sua participação social e suas reivindicações políticas, também aqui seu ânimo transformador e transgressor estava sintonizado e atualizado com as tendências principais da época, e isso incluía a criação musical.

Falta alguém na TV Record

Entre os recortes de jornais, folhetos de festivais e fotos que minha mãe “salvou” naqueles anos turbulentos também para ela, está um telegrama da Western Telegraph Company Limited, datado de 11 de setembro de 1968, escrito nos termos seguintes: “Raul Moura Ellwanger, Rua Mostardeiro 1023, Porto Alegre = Favor mandar urgente fita gravada et partitura Ontem Hoje et Sempre Abraços Solano pt”.

É difícil explicar a maravilha que era para um compositor principiante, sem um disco gravado, vindo de uma província distante, numa época em que gravar um disco era quase impossível, ser classificado finalista no Festival da TV Record de São Paulo. Ali, naquela telinha, nos últimos três anos haviam sido catapultadas as carreiras dos maiores compositores modernos que eram e seguem sendo nossos ídolos: Edu Lobo, Chico, Dory, Caetano, Vandré, Gil, Sergio Ricardo. Ali era o degrau para fazer conhecer seu trabalho em todo o país, para ser contratado por uma gravadora, para realizar os sonhos de todos os compositores e intérpretes, ali era o “paraíso”, o sucesso, a realização, o reconhecimento. Mas a partitura e a fita gravada nunca chegaram ao Solano, a música e o compositor nunca subiram ao palco da TV Record. O que aconteceu?

Grandes eventos

Os grandes momentos para a música de nossa cidade foram os festivais da Faculdade de Arquitetura (1968, 1969) e da TV Gaúcha (1967. 1968, 1969) e os recitais coletivos da Frente Gaúcha da Música Popular (Grêmio Náutico União, Clube de Cultura), precedidos das rodas-de-violão nas faculdades (Arquitetura em especial, DCE-UFRGS, DCE-Puc, Clube de Cultura, Direito-PUC, o itinerante Arqui-Volante), e pequenas mostras em escolas de segundo grau (Bom Conselho, Israelita, Aplicação, São João, Júlio de Castilhos). Em paralelo, crescia o público e os grupos que aderiam ao roquenrol; no começo, grupos de bailes pelos bairros que tocavam os sucessos do momento, logo evoluindo para apresentações autorais com perfil próprio. Vale lembrar que não havia nesse momento discos gravados dessas novas gerações, sendo sua divulgação feita de forma pessoal e como notícia jornalística, sem o conteúdo sonoro que atinge milhares de pessoas. Enfim, um movimento musical mais social e mediático, sem aquela base normal dada pela execução pública repetida.

Lá no comecinho da faculdade

No Auditório PUC da Praça São Sebastião, participei de meu primeiro evento sobre um palco organizado. Com Walmor, Rosa Maria, Inara, Griselda, Walney, fizemos uma mostra coletiva de canções de Vinicius e Caymmi, que eram nossos ídolos. Apresentei algumas composições próprias, entre românticas e de protesto: estamos em 1966 e tenho 18 anos. A gente achou um sucesso, o pessoal parece que gostou. Claro que a maioria era de amigos... Depois andei cantando pelos clubes (Cotillon, Leopoldina, Cultura), alguns Diretórios Acadêmicos, bares bacanas como o Brahms, do alemão Metzger, o Baco’s, do Flavio Pinto Ribeiro, a SAT, em Tramandaí, naquela alegre imitação do Vinicius que fazia muito sucesso com as meninas, incluindo uísque, gelo, cinzeiro, letras manuscritas, isqueiro, com a indefectível mesinha para tanta “aparelhagem cênica”. Nestas empreitas, além de Homerinho, estavam Márcio, Bides, Maurício.

Uma música “nova”?

Como compositor me interessava muito pela nova tendência que a gente ia armando um pouco às cegas mas com o instinto certeiro. Procurávamos criar uma estética que fosse moderna, universal, participativa (o que era “normal”), mas com a novidade de ter um conteúdo ligado a nossa própria realidade, a vida de nossa cidade, de nossa geração, de nossa tradição regional transportada para o tempo atual. Podemos imaginar a variedade, a ambiguidade, a confusão que resultava disso, até pela escassez de antecedentes. Podíamos nos inspirar nas canções Alto da Bronze, Rua da Praia, Piazito Carreteiro, Os Homens de Preto e poucas mais. A chamada música “de protesto” de algum modo empalmava com o mito do gaúcho “libertário” e abria algumas possibilidades. A bossa-nova e o tropicalismo agregavam o lado “moderno e atual”.

Em 1967, assisti Gilberto Gil no Cinema Cacique, e ....páft... !!!! Foi a revelação. Seu disco Água de Meninos virou minha bíblia, com Homerinho “tirei” todas as canções. Não procurei copiar o “som” de Gil, mas tentei entender seu modo de “olhar” o material sonoro, sua maneira de “sentir” seu mundo baiano e assim captar seu modo de criar canções. Oito anos depois iria encontrar na Argentina a expressão “proyección folclórica” para significar essa estética.

Chegou um postal do Nepal

Acabo de receber um postal, muito bonito e intrigante: trata-se de uma espécie de forno de barro grande, colocado no centro de uma pracinha. Sobre ele cresceu e vive um tipo de figueira já bem crescida, com suas raízes enlaçando a boca do forno e nele penetrando. Estamos no final de 1970, estou estudando Sociologia na Universidad de Concepción, 500 quilômetros ao sul de Santiago do Chile. Moro na Cabana Ho Chi Min com Jun, Benê e mais uns 20 chilenos de todas as províncias do país. Andei treinando futebol no Deportivo Concepción, mas decidi cuidar dos estudos e participar do processo político da Unidad Popular. O misterioso cartão chega de Katmandu, no Nepal, mandado pelo Homerinho Lopes, integrante até pouco tempo do nosso grupo musical em Porto Alegre. João Alberto anda pelo Peru, Paulinho do Pinho e Mutinho, pela Argentina; alguns “dão um tempo” em São Paulo. Diz-se que um dos nossos está na China!!! O que eles foram fazer lá na Ásia, na América Latina?

A turma da Frente

Há uma foto emotiva e simbólica do coletivo da Frente Gaúcha da Música Popular Brasileira, publicada pela revista Manchete, em 1968. Sobre o fundo da platéia vazia do Auditório Araújo Viana, estão quarenta cantores, instrumentistas e compositores muito sorridentes, com um ar de otimismo e confiança. Seriam talvez a metade de todos aqueles que participavam da Frente, um coletivo informal que ajudou a promover eventos e aglutinar esforços esparsos.

Vou lembrando alguns nomes de compositores ligados à Frente (e também de alguns “desligados”) que foram finalistas em festivais: Paulinho do Pinho, João Alberto Soares, Homerinho Lopes, Laís Aquino, Wanderley Falkenberg, Ivaldo Roque, Mutinho, João Palmeiro, César Dorfman, Paulo Dorfman, Ivan Fetter, Zequinha Guimarães, Luis Marcirio, Geraldo Flack, Luis Mauro, Sergio Napp, Cláudio Levitan, Ney Crist, Marcos Rovinsky, Walter Sobreiro Jr., Mauro Kwitko, Celso Marques, Dirceu Bisol.

Como intérpretes, além dos próprios compositores, predominavam músicos dos conjuntos melódicos de extraordinária qualidade (Norberto Baldauf, Flamingo, Flamboyant) que animavam os bailes e festas do Estado, como Edgar Pozzer, Erica Norimar, Sabino Loguércio, Marlene Ruperti, também músicos jazzísticos de boates como Bambu e Queens’ (Sidinho, Mamão, Sadi, Fernando Collares, Paulo Coelho) além dos novatos Telmo Kotlhar, Ivan Fetter, Paulo Dorfman, Sergio Axelrud, Sandra e Suzana, Liane Levitan, Jorge Schoenfeld, Maria de Lurdes, Vitinho Graef, Nana Chaves, Maria Helena Truda. Nada mau para um movimento semi-amadorístico que começava a se espraiar pelos palcos da cidade.

Roda-de-viola

Ao lado do Cinema Marrocos, na Av. Getulio Vargas, o Roxy Bar tem uma sala vazia ao fundo. Ali se juntam Mutinho, Ivaldo, João Palmeiro, Laís, Paulinho do Pinho, Celso Marques, em rodas-de-viola onde o mote é “mostrar” músicas novas de uns para os outros, numa espécie de crítica recíproca, comentários e geração de idéias e parcerias. Algumas cadeiras, a mesa singela, cervejas, cigarros e muitos violões madrugada afora. Na verdade, uma usina de criatividade contínua, renovada, aberta. Eu sou ali o mais despreparado, mais do que mostrar uma canção nova, são meus ouvidos que estão ligadíssimos nas letras e melodias, são meus olhos que estão grudados na mão esquerda daqueles craques, para memorizar visualmente as “posições” harmônicas para mim desconhecidas e que levavam consigo beleza, originalidade, emoção.

Festivais populares

Como seu nome diz, o Festival Universitário era para acadêmicos, afora alguma parceria oculta. Nele estreou Beth Carvalho, estrela de um grupo que trazia Paulinho Tapajós, Artur Verocai, Danilo Caymmi, Iracema Werneck, Paulinho Machado, Arnoldo Medeiros, Zé Rodrix, Eduardo Conde, Junaldo (canta no disco oficial minha Sim ou Não), que formavam uma nova geração que vinha chegando na MPB e logo teria seu espaço e reconhecimento no cenário nacional. Uma feliz parceria oculta foi a da música vencedora em 1968 (Jogo de Viola), de João Alberto Soares e do “não-universitário” Paulinho do Pinho. Naquela canção que eu “não cantei” em 1969, aparece algumas vezes como co-autor Telminho Kotlhar, como garantia para o caso de eu “sumir”.

Já no Festival Sul-Brasileiro a turma era mais encorpada: Túlio Piva, Alcides Gonçalves, Lupicínio Rodrigues, Hamilton Chaves, Paulo Fagundes, Paulo Ruschel, Luis Mauro, Ivaldo Roque, Sergio Napp, com intérpretes experimentados que já eram enturmados naturalmente. A edição de 1968 classificou para a semifinal nacional “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior, as canções de Túlio Piva (1º lugar), Beto Morgado, Cezar Dorfman, Mutinho e minha (2º lugar), sendo a de Sérgio Napp semifinalista do Festival Internacional da Canção, também no Rio de Janeiro. Após as semifinais no Teatro Excelsior da Visconde do Pirajá, fomos Cezar Dorfman, eu e Túlio Piva para a finalíssima no Maracanazinho. Túlio com grande regional e coro, eu com Os Redondos e Orquestra Excelsior, com arranjo de Paulinho Machado e solo de Nicolino “Copinha” Copia. Essas duas canções têm gravações nos discos coletivos do Festival. Nas finais, estavam Ataulfo Alves, Carlos Imperial, Sérgio Bitencourt, Chico Anísio, Ruy Guerra, Toninho Horta, Capiba, os irmãos Valle, com intérpretes já consagrados como Jacó do Bandolim, Dino, Momento-4, Cynara e Cibele, Taiguara, Roberto Luna, Eduardo Conde e outros.

(Im)possíveis Clubes da Esquina?

Termino de ler um livro maravilhoso: Os sonhos não envelhecem, de Marcio Borges, uma espécie de relato confessional do Clube da Esquina de Minas Gerais em seus primeiros e vitais 15 anos. É 2009 e estou no Bairro Petrópolis de Porto Alegre, o mesmo bairro onde Marcio “deu um tempo” com sua esposa no final da década de 1960. Nesse livro, emotivo e sincero, a gente percebe o processo de gestação de um movimento musical maravilhoso na sua criação poética e sonora, nos seus intérpretes, na sua postura cidadã, na síntese do universal com o regional, do moderno com o tradicional. Como um pequeno grupo de amigos de bairro, na verdade moradores de quase um só prédio, imersos na mesma atmosfera inquieta e contestadora em que gravitava a juventude brasileira em cada uma de suas regiões, pode gerar todo um universo criativo, popular, desafiador, belo, sutil e singelo para presentear nossos corações sedentos. A pergunta salta aos meus lábios: poderíamos ter tido e sido um clube da esquina, um clube da lomba, da várzea, mas enfim algum “clube”? Poderíamos ter tido essa chance, poderíamos ter sabido ser aquele clube? Nossa música, nosso sentimento regional e cívico, nossa geração, tinha asas para voar essa viagem encantadora que viajaram Marcio, Wagner, Milton e demais associados do Clube?

Na linha do pênalti

Em diferentes momentos e com distintos graus de possibilidade, alguns nomes da nossa moçada, na segunda metade dos anos 60, estiveram perto de colocar sua música no “grande palco” da MPB. Sucesso em toda a cidade, recebeu o Grupo Canta-Povo, com suas canções autorais, a visita da direção da Philips carioca, decidida a contratá-lo. Clandestino em São Paulo, cruzo com Carlinhos Hartlieb, Laís Marques e Hermes Aquino que acabam de vencer um festival paulistano, junto ao grupo Liverpool. Piscamos os olhos em silêncio ao cruzarmos na Av. São Luis; é mais prudente que não se fale comigo. Túlio Piva e eu estivemos em pleno Maracanazinho, ao lado de consagrados compositores. Minha canção está classificada para o Festival da Record. Elis grava canções de Mutinho, Napp, João Palmeiro. Erica Norimar é contratada por um selo nacional. Nossas canções se destacam em todos os festivais. Mas alguma coisa não funciona, fica-se sempre no “quase”. Qual será o problema?

A cereja podre

Na Folha da Tarde, de 27 de abril de 1968, há um longo artigo de “Apresentação” da Frente Gaúcha da MPB, assinado por mim: diz ali que “[...] universitários, profissionais liberais, profissionais da música, trabalhadores e poetas se unem para em definitivo lançar as bases de um novo centro da música brasileira, em condições de equiparação com os demais pólos musicais do país”. Em dezenas de recortes, vou descobrindo o potencial dessa turma alegre e atrevida. No quinhão que me toca, leio expressões como “música vigorosa”, “segurança total”, “em sua música nada é gratuito”, “Raul surgiu como um furacão”, às quais tem que ser dado o desconto do momento, mas, de qualquer modo, indicam a boa aceitação do meu trabalho.

Tendo ficado de fora do movimento musical por uns dez anos (entre clandestinidade, condenação pela Lei de Segurança Nacional e exílio), sempre pensava em qual teria sido o destino dessa nossa grande turma. No retorno a Porto Alegre, gravei meu primeiro LP e comecei de novo do ponto onde tinha parado, 10 anos antes. Descobri o pior: tudo tinha parado por dez anos. Medo, exílio, perseguição... alternativas místicas, muito baseado e LSD, cooptação, “pra-frente-brasil”, família, trabalho, desinteresse e temores da mídia, foram fatores que ceifaram o movimento. A cereja podre e perversa desse bolo é o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. Como em quase tudo no Brasil, o AI-5 cortou pela raiz aquele movimento musical, aquele ímpeto criativo, aquele ânimo participativo.

Viajando no som...

Como o sonho é livre, e já vi um pouco desse filme em outras paragens, deixo correr a fantasia. Vejo o Canta-Povo gravar seus três primeiros discos, arrasando em todo o país, motorizado por uma multinacional de disco. Seus compositores afinam a criação, melhoram arranjos, testam junto ao público. Muitos intérpretes estão gravando canções desse “Clube da Lomba” ficcional, com outros sotaques e abordagens, Laís e Wanderley fazem sucesso na voz de Agostinho dos Santos e Gal Costa. Paulinho do Pinho grava discos com sua levada inigualável ao violão, com um sexteto de craques da Rua Caldas Junior, esquina Riachuelo. Homerinho incrementa sua parceria com Zé Rodrix. Arranjos de Paulinho, Paulo Dorfman, Paulo Coelho, Telminho vão colorindo os discos.

Alguns estudam com Armando Albuquerque, Ester Scliar, Zé Gomes, Alda Gomes, Bruno Kiefer, no Seminário Livre de Música. Erica Norimar estoura na televisão nacional, Sabino Loguércio grava discos lindos com nossas canções. Elis Regina é nossa embaixadora, coloca nossas canções no disco e televisão. Odeon e Philips contratam nossos artistas, investem pesado na promoção. Carlinhos Hartlieb, Bicho-da-Seda, Liverpool e Hermes estão na cena tropicalista-roqueira. Convidados para o programa de Roberto Carlos, sábado à tarde na TV Record, gravam um disco coletivo que será histórico. Faço bonito no Festival da Record. Gravo meu primeiro disco, algo “esquerdoso”. Devo até curtir um exílio suave na Europa, que aproveito para criar parcerias com Gilberto Gil. Mutinho deslancha na parceria com Toquinho e Vinicius. Sua “Valsa dos Compositores” é sucesso na voz de Dorival Caymmi.

Guilherme Araújo apaixona-se pela música do sul e passa a empresariar artistas daqui. Novos programas de TV, novos xous e projetos por todo o país, alguns convites para a América Latina, músicas gravadas na Espanha e Portugal. Entrevistas na Revista do Rádio, fofocas, briguinhas, namoros e casamento mediáticos, críticos bacanas e críticos babacas. Ciúmes, plágios, novas parcerias e melhores canções. Tranquilidade profissional, boas turnês, direitos de autor em dia.

Bom, estou fantasiando livremente, mas essa é uma fantasia bem pobre e tola, pois este delírio que aqui esbocei, com sabor algo paródico e um jeito algo absurdo, seria o “normal” que deveria acontecer, mas que virou “anormal” e terminou por não acontecer mesmo. Na real. Sinto muito.

Milonga dos vencidos

Aquele cidadão que faltou no palco da UFRGS e que não apareceu no festival da TV Record, já deu para perceber que sou eu mesmo. Muitas outras coisas aconteceram das quais eu nada sei, pois fui o mais ausente na continuação. Quis contar a minha parte. Ao se comemorar 30 e 40 anos dos festivais e da Frente Gaúcha da nossa grande música que poderia ter acontecido, o que se ouviu na cidade foi um vasto e gritante silêncio. Chama a atenção a omissão dos músicos que participaram da época, eu incluído. Chama a atenção o mutismo dos grandes apoiadores, os Grupos Caldas Jr. e RBS, bem como de jornalistas e pesquisadores. Chama a atenção o silêncio da UFRGS (onde aconteceram os maiores eventos) e seus vários departamentos (Música, História, Letras, Extensão), que têm por objeto esta documentação e resgate.

O AI-5 correu um telão de silêncio sobre nossas canções. A omissão atual é como uma continuação daquela repressão, a mesma espada que cortou a vida musical corta agora a memória daquela vida musical. Não interessa saber-se de um grande movimento popular e cultural que houve aqui, na nossa aldeia, no botequim da esquina. A versão que fica é a dos vencedores, a versão da ditadura, a versão da mentira, a versão do silêncio: “Aqui não houve nada”. Espero ter contado aqui um pouco da milonga dos vencidos: afastem de mim esse “cale-se”.

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1 comentario:

  1. Que inspiração sublime teve o autor ao postar temas que nos assaltam e vasculham a alma.

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